Corona II

15 Srta. Warren


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Bem vindos ao 15º capitulo de "Corona - Livro 1" ♥ No livro passado, isso significou que tínhamos chegado na metade e agora... CÊS NÃO TEM IDEIA QUE AINDA NEM COMECEI AMORES AUEHAUEHEUAH' Estimo que "Corona - Livro 2" venha ter, mais ou menos, seus 40 capítulos. Talvez um pouco mais, talvez um pouco menos Ao mesmo tempo, espero de verdade que vocês estejam aproveitando ♥ É só agora que as coisas estão começando a se desenrolar, então fiquem comigo agora e nas próximas, sim? ♥ Comentários do cap 14 estão para ser respondidos essa semana ♥ Obrigado Lua Helena, Fluorite, MaduBlackfyre, Milly e Juliet, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Quando acordei no dia seguinte, mal tive tempo de aproveitar o conhecimento de ser domingo. A primeira coisa que senti foi Lagrum, acordado e inquieto, então me embrulhei um pouco mais nas cobertas e deixei que minha mente fosse até a dele. Não era comum meu amigo estar acordado em plena luz do dia, mas eu podia muito bem imaginar o motivo. Me acomodei na representação de sua árvore, respirando fundo e deixando que me inspecionasse. Eu me sentia bem, corpo e mente recuperados, mas apenas quando ele mesmo se deu por satisfeito foi que me deixou em paz.

Precisa da minha autorização para começar a juntar as peças, Malorie?

Não me dignei a responder. A verdade era que não tinha tido tempo, mas agora ele havia me forçado a ter. Uma voz vinda do nada que ninguém mais ouvia não era boa coisa no mundo dos trouxas. Ou você estava maluco ou presenciando o além. Depois de um ano no mundo bruxo, eu sabia bem que fantasmas não eram nada do que Hollywood fazia parecer: forças invisíveis capazes de matar um ser humano, destruir coisas e possuir corpos. Eram apenas figuras peroladas com uma forte ligação com sua vida terrestre que não quiseram passar para o outro lado. Não incomodavam ninguém, a não ser que você os atravessasse – era como entrar em uma banheira de gelo.

Então eu estava perdendo o juízo? Com a vida que tive sempre achei que esse dia poderia chegar, mas duvidava que fosse agora. Loucura era uma das últimas possibilidades e a guardei a mais afastada que consegui. A voz me era familiar, me lembrava a de Lagrum em dado nível. Era a voz de uma cobra, tinha que ser. Eu não sabia de outro ofídio nos terrenos da escola, quem dirá no próprio castelo, mas era a única explicação para ouvir algo que ninguém mais pareceu notar. Aquilo estava ecoando pelas paredes, pelo chão e pelo teto com algo deslizando pela construção e não houve a menor movimentação sobre isso. Nenhum curioso esticando o pescoço, nenhuma fofoca sendo construída. Nada. Ninguém mais percebeu.

Com minhas lembranças recuperadas, agora eu tinha consciência de que minha comunicação com Lagrum não era exclusiva. Durante toda minha vida atrai cobras para perto de mim, interagindo com elas de uma forma peculiar para os seres humanos – bruxos ou não. Também graças ao livro que Hermione havia me dado sobre Salazar Slytherin, eu sabia que a ofidioglogia não era um dom comum na comunidade mágica: eram raríssimos os bruxos que tinham conhecimento sobre tal língua, e mais esparsos ainda bruxos que a sabiam de natureza. Esses, os naturais, diziam serem descendentes diretos de Salazar, o mais notável ofidioglota da história. Verdade ou não, era um dom muito malvisto e tremendamente ligado as Artes das Trevas. Provavelmente o fato do último ofidioglota conhecido ter sido Lorde Voldemort não ajudou muito.

Mas isso explicava o motivo de ninguém mais tomar conhecimento daquela voz. Não podiam ouvir. Seja qual for o time de cobra, eu poderia ter certeza que não era comum. Além da sensação anciã, qualquer um poderia escutar o silvo de uma serpente, mesmo que não entendesse. O fato de ninguém ter ouvido, palavras ou sibilos, mostrava que seja o que for falou apenas na minha cabeça. Ou não, de qualquer jeito, dentro ou fora, não haviam sido palavras perceptíveis para ouvidos (ou mentes) sem o dom da Língua das Cobras.

Seja o que for, fique em alerta. É mortal, antigo e alguma coisa o despertou.

— Sim, para matar — retruquei ao massagear minha testa. — Você ouviu, não é? Está faminto e quer sangue. Toda aquela descrição de vontades não me pareceu brincadeira, as pessoas estão correndo perigo.

Menos você.

— Menos eu — concordei devagar, sentindo um gosto envenenado na boca. Apesar da forma como sua presença me atingiu, não havia nada em mim que me mandasse correr, me esconder ou tentar me defender. Aquela voz era algo familiar e sua presença colossal era reconhecida. Seja quem fosse o alvo – ou os alvos – de sua fome, eu não estava na lista. Nem mesmo nos lugares mais baixos. Mas alguém estava e eu duvidava que houvesse alguma coisa que qualquer um pudesse fazer para se defender disso.

Ao voltar para o mundo físico da minha cama, a enxaqueca prometida do dia anterior veio me visitar. Eu adoraria ser apenas uma estudante comum, que poderia aproveitar um domingo preguiçoso junto a seus amigos antes de uma nova semana de aulas começarem, mas a vida – a minha, principalmente – não era conhecida por ser justa. Eu tinha um feitiço para testar, uma garota para vigiar, uma vingança para permanecer alerta e agora algum monstro reptiliano milenar com sede de sangue. Tive vontade de me dar um abraço por, ao menos, já ter feito todos os deveres no dia anterior. Disso eu estava livre hoje.

— Mal? — Abri os olhos para a voz próxima de Daphne Greengrass e a enxerguei saindo de seu banheiro, os dedos ainda ajeitando o cabelo bem-arrumado. Estávamos sozinhas no dormitório o que fez com que ela chegasse mais perto. Tomou a liberdade de sentar na minha cama, os olhos muito claros preocupados e a as sobrancelhas loiras franzidas. — Não achei que fosse acordar tão cedo, não pela cara que estava ontem a noite. Você está bem?

— Estou — e agradeci pela minha voz não ter qualquer falha além da esperada a quem acorda. Fiz força para ignorar as pulsações em minha cabeça e me sentei. Me lembrava brevemente da noite anterior, de juntar toda a resistência adquirida com Lagrum e minha própria teimosia para sair do corredor e ir para a cama. — Ontem a noite, quando eu cheguei, quem ficou na minha frente?

— Ninguém — Daphne levantou ainda mais as sobrancelhas. — Eu cheguei a te chamar, mas acho que você nem ouviu. O que tinha acontecido? Parecia ter sido estuporada.

— Nada com que se preocupar — foi necessário exigir certo esforço para suavizar minhas feições e torcer meus lábios em um sorriso. — Onde estão todas?

— Sue e Emily foram tomar café da manhã e depois tínhamos planos de ir até perto do lago, aproveitar enquanto o sol ainda é quente e a grama é seca — Daphy não era burra: ao mesmo tempo que não acreditava em nada do que eu dizia, também sabia que eu não diria nada além disso. Era justo, eu também sabia que tentaria outra vez. — Pansy já é outra história.

— O que tem a Parkinson? — Arqueei uma sobrancelha ao resistir a tentação de pegar as respostas antes que saíssem de sua boca. — Não me diga que é outro problema.

— Bom, Mal, isso depende do seu ponto de vista — foi a vez dela de sorrir, os lábios de um pálidos subindo em um dos cantos enquanto os olhos adquiriam um brilho malicioso, quase com despeito. — Se você tivesse ficado tempo o bastante entre nós, teria visto o tamanho da confusão que causou. Não tem ninguém feliz com você por aqui, pelo contrário, e Flint foi o primeiro a colocar lenha na fogueira.

— Não entendo para quê tudo isso — resmunguei com meu humor decaindo. — Não foi a primeira irresponsabilidade da minha parte.

— Mas foi a primeira com essa plateia — devolveu. — Escute, quando você brigou com Malfoy pela primeira vez, e depois quando duelou com ele... pode ter irritado a lealdade que temos por aqui, sim, mas ao menos ficou entre nós. Foi interno. As outras casas não tiveram mais do que boatos de quadros para se divertirem. Agora a coisa toda aconteceu em público, em frente de boa parte da Grifinória! E mesmo que todos os envolvidos continuem de cabeça erguida e fingindo que os leões são loucos que inventaram tudo, nós sabemos o que aconteceu.

— Ninguém vai me obrigar a ser cúmplice de uma merda dessas, Daphne — cortei a conversa, minha raiva fazendo a dor sumir. Então meus compatriotas estavam irritados por eu ter mostrado para toda a escola que não estava com eles? Que seja. — Se eles ficaram com os sentimentos feridos por eu ter feito o que era certo, só sinto muito por não ter feito mais e mais cedo.

— Imaginei que essa fosse ser sua opinião — ela encolheu os ombros sem um pingo de ofensa. — Mas seja como for, Pansy ficou bastante impactada com tudo. Foi ver o Malfoy na enfermaria e depois ficou pendurada nele o resto da noite, como se Pomfrey não tivesse deixado ele em perfeitas condições outra vez.

— Então imagino que Parkinson não queira muito meu bem no momento — falei devagar, as palavras azedas. Pansy era uma presença irritante, porém constante. Tinha um temperamento quase tão ruim quanto o meu, mas sem os poucos princípios que eu ainda possuía. Mais de uma vez ela tentou forçar a ideologia purista e elitista pela minha garganta, me deu até mesmo um livro sobre isso. Eu sabia que, enquanto Daphne e Sue não se importavam com minhas amizades vermelhas (a não ser quando eu as deixava de lado por muito tempo), Parkinson tinha que fazer um enorme esforço para manter a boca fechada, pelo seu próprio bem.

— Você sabe que ela sempre teve uma queda por ele — Greengrass moveu a cabeça em direção a cama onde Pansy dormia como se ela estivesse lá. Seus olhos mostravam a amargura e a breve decepção, mas não a surpresa. Assim como eu, ela não estava em choque pela garota ter escolhido as raízes venenosas de sua criação. — Talvez volte a razão, como fez no ano passado. Não deixo de pensar que talvez ela ache que vá ganhar pontos com o Malfoy com tudo isso.

— E por qual...?

— Não force a burrice, Mal, ela não cai bem em você — Daphne me cortou enquanto se levantava, as mãos suaves e bem-feitas alisando a roupa. — Sabe muito bem que Draco só digna sua atenção para uma pessoa. Pansy pode estar querendo mostrar que também existe e, ao contrário desta, ela o trata muito melhor — me recusei a responder e tive que engolir seu sorriso largo e os olhos faiscantes. — Eu vou para o café, devo assumir que vá ficar conosco hoje?

— Se sim, sei onde encontrar vocês — acenei com a cabeça e observei Daphy sair do dormitório, elegante e segura de sua posição no mundo como a herdeira que era. Sozinha, deixei que a suavidade forçada me abandonasse. Era bom saber que eu estava agora cercada de inimigos, um deles dormindo ao meu lado. Mas me recusava a estender minha inimizade além de Flint e Draco. Parkinson estava tomando o pior caminho para chamar atenção de sua paixãozinha de criança, mas não a culparia por isso. Por enquanto, ao menos, enquanto seu maior crime era ter se juntado a alguém para disparar injurias sobre mim. Esperava, pela nossa amizade, que não me forçasse a tomar medidas sobre ela. Se me considerava uma traidora agora e estava disposta a me tratar como pária era sua escolha, mas se eu retaliasse... então era sua consequência.

Lagrum me ensinou a nunca fazer nada que não aguentássemos o retorno e Greta me marcou para nunca esquecer. Será que alguém ensinou isso para ela? Era uma lição dura demais, mas tomaria como minha responsabilidade se precisasse.

Depois de um banho e de pegar minha varinha para colocar no meu coturno, subi para a sala comunal. Era domingo, nas últimas semanas de verão, e não havia mais do que meia dúzia de alunos enfurnados por ali. Apostava que, quem estava, havia decidido fazer os deveres de uma última hora e passei por eles, bastante satisfeita por não ser o meu caso. Calculava que já eram oito da manhã, então aumentei o passo para chegar até o café da manhã. Não havia jantado na noite anterior, além de ter tido aula com Severo e ter ouvido aquela voz que me fez tombar. Nada disso aliviava a dor que subia pela minha nuca até se espalhar por toda minha cabeça, mas uma boa refeição podia ser uma chance.

Daphne estava sentada na grande mesa da Sonserina em companhia de Hopkins e Bulstrode, como disse que estaria. Mais afastados, ainda consegui ver Malfoy rodeado de seus habituais colegas: Vincent e Gregory, Theodore e Blásio. A novidade era Pansy Parkinson ao lado dele, praticamente cortando suas salsichas e o dando na boca. Não consegui evitar de sorrir para a cena, ah, com certeza ela o tratava muito melhor. Pena que, pelos olhos ainda gelados de Draco, não estava funcionando.

Seja pela fome acentuada ou não, tive vontade de descer às cozinhas para agradecer aos elfos – o que resultaria ainda em mais comida. Ninguém mencionou o fato de Parkinson ter bandeado para o outro lado, mas Sue e Emily estavam bastante curiosas pelo que de fato havia acontecido. Depois que expliquei a razão de ter feito o que fiz, elas deixaram para lá. Não me apoiaram, mas eu não esperava um fã clube. Sinceramente já estava bastante surpresa em ainda ter companhia nas refeições. Ao terminar, vi as garotas seguirem seu plano de irem até o lago, mas fiquei para trás. Tinha a observado durante todo o café da manhã e não perdi tempo. Quando ela se levantou, fui atrás.

Já era hora de resolver as coisas com Minerva.

— Professora McGonagall, com licença, professora McGonagall! — A chamei quando já estava perto de sua sala. Ela se virou para mim, uma sobrancelha arqueada e os olhos verdes rígidos atrás dos óculos de armação quadrada. — Desculpe, mas será que podemos conversar?

— Estou ocupada, srta. Lewis — a mulher me respondeu, inflexível e fria como vinha sendo nos últimos dias. — Sobre o que se trata?

— Gostaria de me retratar com alguém que me é bastante estimado e por quem tenho grande respeito — as palavras, mesmo que sinceras, não saíram com facilidade. Não era de minha natureza voltar atrás nas minhas ações e tinha que me lembrar que não era este o caso. Eu lamentava, de fato, ter perdido a honra de ser uma das poucas alunas a ganhar os raros sorrisos da professora. E tudo pro causa de Lockhart. — Poderia me permitir? Não tomarei muito seu tempo, se não quiser.

Minerva me olhou através de seus óculos por alguns segundos e quase pude ouvir a dispensa nos meus ouvidos. Fiz força para me controlar e não tentar descobrir, por mérito próprio, o que se passava dentro de sua cabeça. Se McGonagall era oclumênte eu não poderia saber, mas sabia que não gostaria de invadi-la desta forma, mesmo se fosse fácil e quase de minha natureza. Por fim, ela fez um sinal com a cabeça para que a seguisse e me deixou entrar em sua sala de aula atrás dela.

Não ficamos na classe, apesar disso. Subimos pela escada em direção ao seu escritório. Nunca tinha estado lá, na verdade, nunca tinha estado no escritório particular de professor nenhum, nem mesmo de Snape. Havia muitos livros e pergaminhos ali, além de até mesmo algumas fotografias, a maioria eram bruxas, pois se mexiam: homens crescidos com mulheres e crianças, suas famílias, imaginava. Mas havia algumas que não: fotografias trouxas e antigas, ainda em preto e branco, de um homem de aparência severa e disciplinada, ao lado de uma mulher sorridente.

— O que deseja, Lewis? — McGonagall interrompeu minha observação, mas não fiquei embaraçada. Apenas me sentei onde havia me indicado e vi quando ela fez o mesmo, à minha frente, com a mesa principal nos separando. Tive que soltar o ar, mas mantive meus olhos firmes nos seus quando comecei.

— Não tentarei pedir desculpas pelo meu comportamento com Gilderoy, professora, pois além de mentiroso, você não é ele — ignorei a linha fina de sua boca e prossegui. — Mas sinto muito, e isso é verdade, que meus atos tenham abalado nossa relação. Sempre lhe considerei uma grande bruxa e um verdadeiro exemplo, o que me fez respeitá-la como o faço com muitas poucas pessoas e, ainda mais raro, ter consideração por sua opinião e sobre sua pessoa. Não me arrependo do que fiz, mas lamento que isso tenha manchado meu nome para a senhora.

— Escute uma coisa, Lewis, nunca concordarei com suas atitudes. Atacar um professor, sequer desrespeitá-lo, é condenável e digno de punição. Mesmo que o professor em questão seja um homem como Lockhart, não é de sua alçada distribuir a sentença que achar mais cabível. E mesmo assim — Minerva me olhou através de seus óculos e, por um momento, achei que me mandaria pastar. Mas então o verde de seus olhos ganhou uma suavidade inesperada e seus lábios se afrouxaram. — Você é uma das mais brilhantes alunas do seu ano, uma bruxa mais do que promissora, e seria uma lástima se desperdiçasse todo seu potencial. Então eu aconselho que use toda essa energia e talento em coisas mais proveitosas no futuro, como seus estudos.

— É meu objetivo, professora — sorri para ela, quase incapaz de reconhecer a leveza que se instalou em meus ombros. Não fazia ideia do quanto a censura de McGonagall me abalava até estar fora dela. — Inclusive, eu gostaria de praticar mais alguns feitiços. Poderia me emprestar o material necessário?

A diretora da Grifinória permitiu que eu saísse com que precisava, mas não sem merecer. Passei toda a manhã em sua companhia, ajeitando sua sala de aula. Tirei o pó de giz dos apagadores, vasculhei carteiras para ver se algo foi deixado para trás e arrumei um antigo armário de livros de transfiguração. No fim, tive minha detenção pela gracinha com Lockhart, mas não me importei. As detenções com McGonagall nunca eram tão ruins e, no final, sai com uma pequena caixa de ratos debaixo do braço.

Eu não poderia leva-los para meu dormitório – agora havia um espião ali. Também não poderia deixar em alguma sala de aula desocupada – Filch poderia entrar a qualquer momento, ou algum outro aluno e fantasma. Fiquei um momento parada, pensando com cuidado aonde ir, quando me lembrei de um pequeno lugar. O banheiro interditado feminino do segundo andar era desviado por todas as garotas pois havia um fantasma que morava ali. Nunca a tinha visto, mas a chamavam de Murta Que Geme e era por causa dela que o lugar vivia inundado. Eu só teria que lidar com esse fantasma, o que considerei um dano mínimo, então segui na direção do banheiro.

Quando cheguei, tive que prender a respiração. Era clara a razão daquele lugar ser interditado: até a porta era estufada e rachada pelos anos de umidade, o cheiro de mofo e limo saindo através da madeira. Entrei no lugar pisando em quase um dedo de água e agradeci por meus coturnos terem solas bem grossas ou estaria chapinhando naquela água parada. Talvez Filch viesse aqui uma vez por mês, mais ou menos, para enxugar o chão e dar um jeito no ambiente, mas era claro que não o fazia com frequência ou com muito empenho. Não o culpava. Se tivesse que secar, de novo, de novo e de novo um lugar que iria alagar logo depois, também o deixaria para lá.

Mas por mais incrível que pareça, havia luz ali. As janelas deixavam a claridade do dia chegar ao banheiro decrepito e haviam archotes prontos para serem acendidos por magia ao escurecer. Por curiosidade, avancei em direção ao grande circulo de pias – será que ainda havia água corrente? Senti meu coração começar a bater mais rápido à medida que minha mão se aproximava da torneira, a ponta dos meus dedos esquentando tanto quanto minha pele marcada. Estava quase encostando quando o rugido de água em erupção obrigou minha atenção a se desviar.

— Você! Quem é você? O que está fazendo aqui? Será que nunca vou poder descansar em paz?! — O fantasma perolado de uma garota emergiu de uma das privadas, o rosto molhado de água perolada e a ponta do nariz embaçado. Se todos os fantasmas mantinham sua aparência da hora da morte, até coisas superficiais como roupas, a garota morreu chorando. Tinha um uniforme de Hogwarts, mesmo que uma versão bem antiga, com o brasão da Corvinal estampado no peito e o cabelo dividido em dois rabos de cavalos baixos. Não parecia ter mais de quatorze anos. — Vamos, responda! O que está fazendo aqui?

— Precisava de um lugar onde ninguém viria — consegui responder, meu coração acelerado fazendo minha boca secar. Desviei meus olhos da menina fantasma, voltando a encarar a pia: eu ainda estava com a mão esticada quase tocando a torneira. Mais do que meu ato congelado, a breve resistência de meu próprio corpo abaixar o braço me assustou. Me afastei da pia com cautela, cuidando para não escorregar na água. — Você assombra tão bem esse lugar que ele não é lá muito popular.

— Humft! Me tentar comprar com elogios não vai adiantar! — A garota flutuou com rapidez até mim, a voz alta e aguda ecoando nas paredes desoladas. Chegou perto o bastante para eu ver seus óculos grandes de aro redondo e as espinhas da puberdade em sua pele fantasmagoria. — Este banheiro é meu, meu! E quero que você saia, está me atrapalhando!

— Qual o seu nome? — Eu não seria expulsa por um fantasma em crise. Olhei com calma seu rosto, arqueando uma sobrancelha. — Te chamam de Murta Que Geme, mas esse não deve ser seu verdadeiro nome, não é?

— É claro que não! — Finalmente, entendi a razão da alcunha. A garota soltou um soluço profundo que logo se transformou em um longo lamento. Seu corpo transparente-perolado vibrava com a força de seu choro e seus gemidos sofríveis penetravam os ossos. Aguardei com paciência que terminasse seu momento e, quando o fez, me olhou com surpresa, seu rosto ainda mais brilhante. — Você ainda está aqui?!

— Estou — respondi devagar. — Quero saber seu nome, qual é?

— É Murta — me respondeu de mal gosto, os lábios quase não se movendo. — Murta Isabel Warren. Eles inventaram esse nome horrível para mim, como se eu não tivesse sentimentos!

— Isabel é um nome bonito — ignorei sua cara torcida de choro ao continuar a conversa, fazendo ela travar a nova enchente. — Era de alguém da família?

— Da minha avó — Murta flutuou para cima, me obrigando a levantar a cabeça para continuar focando em seus olhos marejados. — Você faz perguntas demais! Qual é o seu nome?

— É Mal — respondi com um sorriso. Pronto. Ela já estava mais interessada em mim do que em me mandar embora. — Tem mais, só que não gosto do resto, mas você também não gosta do resto do seu, não é?

— Não me respondeu — retrucou, seu rosto se transformando em uma careta impaciente. — O que veio fazer aqui?

— Preciso praticar um feitiço que não vou poder fazer no meu dormitório — dei uma pequena sacudida na caixa, fazendo os ratos chiarem. — E onde não vou ser atrapalhada. Não quero incomodar, mas será que pode dividir o banheiro comigo?

A fantasma ficou um tempo sem responder, só me olhando, talvez decidindo se jogava a água da privada em mim ou não por ter trazido alguns ratos para seu banheiro. Por fim, inesperadamente, seu rosto mudou – foi de duvida e suspeita para surpresa, quase incredulidade. Se aproximou tanto de mim que a ponta do meu nariz sentiu como se mergulhasse em água gelada, mas não me mexi. Ela consideraria uma ofensa se eu me afastasse.

— Seus olhos... — Murta divagou, muito concentrada. Parecia puxar da memoria algo distante, algo que talvez tivesse sido enterrado junto ao seu corpo, sabe-se quantos anos atrás. — Parecem... me lembram... não, não é possível, não deve...

Com lentidão, ela se afastou de mim, balbuciando coisas como "são iguaizinhos" e "não é possível", me deixando para trás quando desapareceu através de uma das paredes, provavelmente entrando por algum cano. Ainda fiquei parada esperando que ela retornasse, mas como nada aconteceu e já estava na hora do almoço, guardei os ratos dentro de um dos antigos armários de toalhas – estava vazio nesta altura, e transformei a caixa em vidro com serragem, os guardando ali. Traria alguma comida depois. E depois de trancar o armário com magia, pois o seguro morreu de velho, sai do banheiro em direção ao Grande Salão.

Greengrass não estava a mais satisfeita das criaturas por eu ter desprezado sua companhia outra vez, porém sua voz perdeu boa parte da aspereza quando expliquei que estava com McGonagall durante toda a manhã. O almoço foi delicioso como todos os outros, mas menor do que o usual. Enquanto minhas colegas conversavam e discutiam o fazer durante a tarde de domingo (Daphne e Sue fariam seus deveres, Bulstrode estava mais interessada em ver seus colegas de outras casas), meu olhar acompanhou Gina Weasley durante todo o tempo.

Ela chegou tarde, comeu muito pouco apesar de ter ficado bastante tempo à mesa. Tinha o olhar perdido, o rosto pálido e mão no garfo tremia ocasionalmente. Quando se levantou do banco, parecia ter tomado um choque elétrico. Largou o prato só meio comido e todo misturado e sai com a mesma histeria com que havia trombado comigo no dia anterior. Prometi a minhas companheiras de casa que olharia seus deveres mais tarde como uma ajuda e então me levantei.

Era hora de tirar meu atraso nos cuidados da pequena Weasley.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 14 ♥ Malfeito, feito! ♥