Corona II
16 Incumbências ao Cerne
Notas iniciais
A boa noticia é que alcancei Gina Weasley antes que ela se refugiasse, em plena tarde de domingo, na Torre da Grifinória – ou, melhor dizendo, em seu dormitório. A outra boa notícia era que a garota estava engolida por um mundo próprio e sequer notou que estava sendo seguida. Péssimo sinal, apesar de ótimo para mim: eu já havia visto Ginevra em cima de uma vassoura. Era boa tanto como apanhadora como artilheira, ambas posições que exigiam reflexos afiados e clara visão periférica. Sem desprezar minhas habilidades de me esgueirar atrás de alguém, mas eu sequer tentei.
A noticia ruim é que talvez já tivesse sido tarde demais. Alcancei-a ainda no segundo andar, precisando segurar em sua roupa para parar seu trajeto. Como no dia anterior, ela olhou para mim confusa e assustada antes que o reconhecimento e um breve alivio passassem pelo seu rosto sardento. Tive, pela segunda vez, quase uma reação física ao seu nervosismo e culpa. Ela fugiria de novo, se eu deixasse.
— Em que mundo está vivendo, Gina? — Arqueei uma sobrancelha para ela, analisando seu rosto. — Eu te chamei duas vezes. Não ouviu?
— Não — me respondeu depressa, um sorriso frágil brincando nos lábios. Não chegou aos seus olhos. Era como se a garota não estivesse ali. — Desculpe, Mal, mas não ouvi. Tenho andado com tanto na cabeça, sabe... Hogwarts não é nada fácil.
— Está com dificuldade nas matérias? — Virei a cabeça, suavizando minha voz, focando em seus olhos. Não que eu acreditasse, mas queria ver até onde ela se contorceria para se livrar de mim. — Eu fui a melhor aluna do primeiro ano, claro, com exceção de Hermione. Pode pedir ajuda para mim ou ela, é verdade que os professores não conhecem a compaixão.
— Não precisa, de verdade, eu dou um jeito — murmurou com o desconforto crescendo. A Weasley costumava ter olhos da cor e da doçura do chocolate, eu não reconhecia mais essas esferas nubladas com picos de energia. — Inclusive, estava indo para o dormitório fazer alguns deveres, então se me der...
— Ora, Ginevra, fugindo de mim? Pensei que tivéssemos ficado amigas durante as férias — cortei suas desculpas, deslizando um passo em sua direção. Seja o que fosse, ainda era uma leoa e não recuou, mas um novo tremor passou por suas mãos. — Já é a segunda vez que me dispensa. Fiz algo de errado?
— É claro que não! — Gina foi rápida em responder e, por um momento, consegui ver a garota vigorosa de onze anos que me lembrava das duas últimas semanas n'A Toca. — Me desculpe por ter dado essa impressão, é que estou mesmo ocupada. Não é nada com você, Mal, eu juro. Não tenho tido tempo para falar nem com o Rony. Só Fred e Jorge tem mais frequência, mas isso porque eles não esquecem de mim da mesma forma que meus outros irmãos fazem.
— Os gêmeos gostam muito de você — minha voz veio com carinho e, mais uma vez, consegui trazê-la de volta: um sorriso terno e pequeno veio em seus lábios. — É uma pena que o irmão com a idade mais próxima a sua não lhe dê o mérito merecido, mas ao menos você tem outros cinco para compensar. Sinceramente, não acho que seja tão difícil preencher o espaço do Rony. Só uma metade dos gêmeos já dá conta do recado.
Weasley explodiu em uma risada repentina e curta, mas verdadeira. O foco e brilho voltaram aos seus olhos, que se estreitaram com quase malicia demais para alguém de onze anos.
— Ou só Fred — ela cantou, os lábios torceram em um sorriso sugestivo. — Sabe quem gosta muito de você? Ele. Ficava de cochichos com o Jorge, muito feliz quando você veio passar as férias lá em casa. Nunca vi ele descer na hora exata para as refeições, mas você fazia e ele também passou a fazer.
— Um pequeno habito do orfanato — murmurei de forma distraída. Eu já sabia que Fred Weasley prestava atenção especial a minha pessoa desde que me deu chocolates no ano anterior, deixando implícito que, em algum momento, me levaria para comer doces exóticos do mundo bruxo com ele pela primeira vez. Ouvir a irmãzinha dele o entregando era motivo de risada, seja ela de nervoso ou não. Se ele me chamasse, aceitaria? Não havíamos nos falado desde o Expresso para Hogwarts e não nos víamos desde a manhã anterior, no campo de treino de quadribol. — Mas não mude de assunto. Então é apenas com seus irmãos com quem fala? Mais ninguém?
— Ah, não, eu conheço mais gente! — Gina deixou que o assunto fosse afastado, satisfeita por jogar o "segredo" do irmão mais velho em meu colo. — Tem uma garota na minha aula de Poções, ela é da Corvinal. Se chama Luna Lovegood. Ela tem um jeito especial, sabe? Mas gosto dela. Converso com Neville de vez em quando também, ele é de seu ano.
— Longbottom? — Meu sorriso foi largo o bastante para sentir meus lábios repuxarem. — Ele é atrapalhado, mas compensa no resto. De qualquer forma, eu não vou te roubar mais tempo. Os deveres podem demorar muito tempo, eu sei. Até mais, Gina.
A mais nova dos Weasley se despediu de mim e fiquei parada, ainda no patamar da escadaria do segundo andar, observando seu cabelo vermelho se afastar. Longe de seus olhos, deixei o sorriso virar apenas um puxar no canto dos lábios e meus olhos se apagarem. Tinha esperado demais. Ginevra Weasley não era oclumênte. Ninguém de sua família de "orelhas-vermelhas" tinha qualquer domínio sobre a mente, seja para invadir ou proteger. E apesar dos fragmentos que consegui resgatar em poucos minutos de conversa, não havia mais nada ali.
A mente de Gina era silêncio – estava bloqueada.
E não por ela.
Insatisfeita, dei meia volta e desci as escadas. Ignorei o andar do banheiro e meus ratos-cobaias me esperando, pois talvez Murta também estivesse. Tirando as histéricas crises de choro, não achei nada de muito ruim na garota, exceto seu estranho comportamento nos últimos momentos de nossa conversa. A forma lívida que me olhou, o choque em seu rosto e a forte negação não eram coisas que eu estava disposta a encarar uma segunda vez ainda com paciência e compostura.
Sem falar do pequeno transe sobre a pia. Ainda esfregava meus dedos quando cheguei às masmorras, o fantasma da sensação de calor quase se espalhando pelo meu braço e chegando ao meu coração. Sentindo a pele formigar, enterrei a sensação em uma tarde longa onde banquei a professora em meu dormitório para Daphne, Emily e Sue. Não havia sinal de Parkinson por ali ou de Malfoy e seus seguidores na sala comunal, então imaginei que estivessem todos juntos em algum outro lugar. Não me importei muito ou por muito tempo e revisei os pergaminhos de Feitiços e História da Magia que minhas colegas tinham de entregar no dia seguinte.
Já estava na metade do jantar quando me dei por satisfeita nos trabalhos refeitos de Hopkins e Daphy e nos complementos que Bulstrode havia feito. Elas gemiam e reclamavam, balançando e massageando os tendões dos dedos, mas pareciam satisfeitas. Ao contrario do ano anterior, que deixavam meu auxilio para a época de provas, não estavam dispostas a fazer com que a matéria e as dúvidas se acumulassem junto com as lacunas de conhecimento.
— Garotos, é um prazer que tenham chegado — Zabini nos cumprimentou quando chegamos na cumprida mesa da Sonserina, já recheada de todos seus alunos em plena refeição. Sua presença destacada me causou a ambígua reação de sorrir e arquear uma sobrancelha – reação mais ou menos copiada pelas minhas companheiras. Blásio estava sentado em suas vestes elegantes e sob medida, o sorriso perfeito nos lábios cheios que destacava suas maçãs de rosto saltadas, a pelo menos dez alunos de Malfoy e todos os outros que o acompanhavam. — Nem os elfos das cozinhas e seus temperos faziam a refeição ter gosto sem a companhia de vocês.
— Eu preciso de comida para engolir toda essa falsidade, Blásio — Sue devolveu para ele, um sorriso puxado fazendo os olhos escuros do garoto brilharem, contrastando com a transformação de seu rosto em ofensa.
— Não acho que seja falso, Hopkins — gracejei enquanto me sentava ao lado de Blás, da mesma forma que o fiz no meu primeiro banquete em Hogwarts, em minha Cerimonia de Seleção. Na época, Pansy estava do meu lado direito, agora ocupado por Greengrass. A constatação me deixou feliz por ser canhota. — Acredito de verdade que ele ame a todas nós.
— E isto devia ser melhor? — Daphne rebateu com uma sobrancelha clara muito levantada. Ela nos fez rir e Zabini abandonar qualquer impressão de se passar por alguém de coração partido. Ele tomou um gole de seu suco já servido, os lábios ainda virados para cima. Quando pousou o copo, estava meio virado para mim.
— Eu não vou negar, meu coração não tem pedaços demais com donas demais. Mas apenas uma delas tem um pedaço um pouquinho maior do que os outros.
— Só um pouquinho? É isso que você tem reservado para sua noiva? — Embarguei minha voz, afinando-a de propósito. Sue quase cuspiu o pedaço de batata que havia colado na boca. — Eu não posso suportar isso, não vou!
— E nem eu permitiria! — Ainda olhando em meus olhos, Blásio tomou minhas mãos. Observei a forma como o fez sem movimentos brutos, sem tirar os olhos de mim. Era um bom amigo, o Zabini. Não queria sua cara ferida, também. Senti suas mãos quentes através das luvas – eram firmes, de dedos mais grossos do que os de Draco e menos calejados dos que o de Potter. — Disse e repito mais uma vez: para a futura sra. Zabini, até as estrelas do céu.
— E é para dar alguma estrela que você está aqui ou...? — Emily fez troça, já servida de seu pastelão. Blás sorriu para ela, nunca perdendo o bom-humor, e se endireitou no banco com uma das mãos ainda em cima da minha.
— Acreditei ser uma troca justa — seu olhar correu pela mesa até onde Pansy estava sentada ao lado de Malfoy até voltar para mim. — Não me senti confortável com a situação. Eu posso rir do mal humor de Draco e de suas reclamações rotineiras sobre você, mas com Pam lá está insuportável. Até mesmo Nott parou de rir.
— Eu sabia que seria o assunto da união.
— E é, com certeza — Blás encolheu os ombros, muito mais derrotado do que indiferente. — Não que haja outro entre eles, aliás. É compreensível que ela se agarre a isso, mas não deixa de ser maçante de assistir.
Ninguém discordou. Imaginei, enquanto aproveitava o delicioso assado do jantar, o quanto o assunto "Malorie" poderia se estendido além da conta. Já fariam dois anos desde que entrei no mundo bruxo, desde que conheci meus semelhantes – pessoas para quem eu não precisava mentir sobre a parte mais básica da minha essência – e mesmo assim seria mais do que desleal dizer que as pessoas a quem tinham mais estima (e por quem eu sabia que era retribuída) estavam livres de mais mentiras e sombras da minha parte.
Elas se acumulavam entre mim e o resto, formando barreiras tão densas quanto eu aprendi a montar para a minha mente com Severo. Mais reforçadas com uns do que com outros, é verdade, mas sempre presentes. Amizade, como eu já havia visto no dicionário, era um sentimento de grande afeição e simpatia. Amigos, como Daphne Greengrass já havia me explicado, existiam em várias classificações, as mais elevadas exigindo grande níveis de confiança entre as duas partes. Eu poderia dizer que confiava em certas pessoas em certos níveis, mas Pansy nunca havia sido uma delas.
Com uma sensação de divertimento beirando a zombaria, percebi que confiava mais em Draco Malfoy do que em Parkinson. O garoto havia visto algumas partes de mim, e eu dele, que o resto do mundo não tomava verdadeiro conhecimento. A lembrança de seus olhos-fantasia reluzindo o fogo verde da sala comunal naquela última noite, depois da vitória dos leões na Taça das Casas, ainda estava comigo. Assim como o toque de sua pele suave, intocada e bem cuidada após a Floresta Proibida, a voz ríspida ao notar a razão de ter tirado minha mão destroçada da dele.
Francamente, Lewis, se acha que me importo com uma porcaria dessas...
Era mais do que poderia dizer de Pansy, muito mais próxima de Daphne do que de mim, apenas uma companhia constante e satírica, uma lembrança de que havia outras garotas ruins por ali. Ela não tinha qualquer munição para lhe dar, pois não a abasteci com nada durante todo este tempo. O próprio Draco sabia mais de mim, dentro e fora, do que sua nova seguidora. Tudo que ela podia fazer (e pelo visto investia com força total) era lhe prestar os ouvidos e incentivar que continuasse falando, despejando raiva e indignação para mim. Não na minha frente, claro, mesmo que por enquanto. Só podia imaginar quando eles se cansariam de dizer injurias um para o outro e a fariam em voz alta.
Malfoy não era nada tímido sobre isso, e não duvidava da capacidade de Parkinson em perder os poucos escrúpulos que tinha.
Os dias seguintes, no entanto, não me trouxeram nada. Quando cheguei a me atrever a ficar decepcionada, quase tive algumas costelas trincadas por Lagrum ao me empurrar do galho de sua árvore. Ignorou meus xingamentos e me fez calar a boca com apenas uma frase, muito dura e muito séria.
Cobras se escondem para atacar, menina tola.
Odiei e lutei por ser chamada de idiota, mas mereci. Mesmo que a vingança de Flint ou Malfoy ainda não tivessem me atingindo, não queria dizer que nunca o fariam. Eu não acreditava na benevolência deles, em suas capacidades de perdoar e esquecer. Não mais do que acreditava nas minhas.
O final de setembro não trouxe apenas as portas abertas do outono, mas também uma data muito especial. Foi no dia 19, em pleno sábado e quase duas semanas depois do inicio das aulas, que subi em passos muitos suaves os degraus da escada que levava ao dormitório feminino do segundo ano da Grifinória. Seguindo a exata logica oposta à minha casa, os leões subiam em sua torre à medida que avançavam nos anos, ao invés de descerem nas profundezas do lago.
No ano anterior eu havia me tornado intima da residência dos leões, passando a maior parte das férias de Natal entre o vermelho e o dourado, o que me facilitou muito ao abrir a porta do dormitório. A pesada peça de madeira não fez qualquer barulho e usei da minha visão para esquadrinhar o lugar, procurando sua cama. Ainda bem, Mione dormiu com as cortinas abertas e reconhecia silhueta de seu volumoso cabelo para me aproximar em silêncio. Seria horrível e teria algumas explicações complicadas para dar se Lavander Brown ou Parvati Patil levantassem, duas grandes leoas fofoqueiras.
Seus grandes olhos castanhos estavam nublados e então decididamente perdidos, a pergunta morrendo em sua garganta com a ponta da minha varinha. Levei um dedo aos meus lábios, o sinal claro e universal de silêncio, e Granger mostrou sua grande confiança em mim ao lentamente se levantar da cama, vestir sue robe e me acompanhar escadas abaixo. Foi só quando a abertura para o salão comunal estava a menos de cinco degraus que desfiz o feitiço, então passei correndo por ela. Hermione me seguiu, as faces vermelhas e o rosto torcido de confusão. Não melhorou muito quando viu o que a aguardava.
Eu havia organizado tudo com Potter e os Weasley no dia anterior. Fred e Jorge haviam conseguido doces da Dedos de Mel e um bolo inteiro. Harry e Ronald haviam feito o excelente serviço de parecerem desmemoriados, o que havia feito com que a garota se enfiasse no dormitório mais cedo na noite anterior. Até mesmo Gina estava ali, o fantasma do que já foi seu brilhante sorriso para a amiga de seu irmão. Observei o rosto meio raivoso de Mione passar por surpresa, então alegria genuína em seus olhos marejados e nas bochechas rosa-claro.
A pequena festa de madrugada não havia sido feita para durar muito: o bolo pequeno foi repartido após os parabéns, as conversas eram baixas e os presentes foram abertos. Harry lhe deu um novo conjunto de balanças, pois Neville havia quebrado as dela, e Rony um livro sobre seu time favorito de Quadribol. Os gêmeos lhe deram mais da metade dos doces que trouxeram e Gina conseguiu lhe abraçar e parecer presente no ato – foi a primeira a subir para dormir outra vez. Foi na minha vez que tirei o embrulho pesado de debaixo de uma poltrona e estiquei para ela, sorrindo ao beijar-lhe a bochecha.
— Feliz aniversário, Granger — pisquei para minha amiga. — Considere uma forma de pagamento.
No Natal anterior, Hermione havia me dado um livro maravilhoso que contava toda a vida conhecida de Salazar Slytherin, um dos quadros fundadores de Hogwarts e fundador direto de minha Casa. Imaginei, então, que mesmo que já soubesse ela gostaria de ter algo semelhante. Precisei acionar Daphne e até mesmo Zabini sobre isso, mas o livro me foi entregue e uma nova divida foi criada, uma que eu pagaria mais tarde, mas tinha mais que valido a pena.
— Mal! — O rosto de Granger se iluminou ao observar o livro grosso, vermelho com detalhes em dourado e com um brasão de leão na capa, orgulhoso em seu rugido. — Mal, isso é incrível! Eu tinha visto quando comprei o seu, mas era cara demais os dois juntos...
— Uma leoa precisa de saber a história de seu fundador — sorri um pouco. — Se divirta.
E, ao menos durante aquele sábado, garanti que o fizesse. É claro que todos voltaram para seus dormitórios após a pequena celebração particular para aproveitar o resto da noite de sono, mas o dia não demorou a começar de fato. Após o café-da-manhã, tivemos um dia inteiro (com um pequeno intervalo para o almoço) no lado de fora do castelo. Duas vezes era demais, e uma esquiva Ginevra não se juntou a nós, mas seus irmãos sim. Até mesmo Percy veio cumprimenta-la, lhe dando um aperto de mão formal e sendo rachado por seus irmãos mais novos por isso.
Foi apenas na hora do jantar, quando me despedi dos leões com grama no cabelo e um sorriso no rosto, que percebi o problema. Lagrum estava certo: eles não haviam deixado para lá. Era Sue que estava me esperando na entrada para as masmorras, os olhos escuros em contraste com o rosto de lábios pálidos. Hopkins me parecia angustiada, quase assustada e isso foi o bastante para me fazer invadir seus pensamentos rápidos.
— Sinto muito, Mal, ficamos fora o dia todo, nós...
Passei por ela, ignorando suas desculpas sem fôlego e tomando consciência de seus passos rápidos atrás de mim. Fazia duas semanas, duas gloriosas semanas, em que eu não o sentia. Mas lá estava, outra vez, reivindicando atenção, empurrando minha consciência para o fundo até tudo enxergava se tingiu de vermelho. Eu senti meu coração batendo firme contra meu peito, rápido, fazendo meu sangue correr, aquecendo meus músculos, me preparando para a luta ao mesmo tempo em que minha pele ardia – a marca maldita pronta para crescer um pouquinho mais.
Encontrei a mesma cena que havia visto dentro da mente de Sue Hopkins quando passei pela entrada de pedra: o aglomerado de alunos, as emoções em conflito. Haviam os que estavam achando graça, haviam os que estavam chocados e haviam ainda os que tinha a tensão contraindo os músculos. Daphne estava ali, o rosto duro e vermelho pela discussão que acabara de ter, olhando com os olhos ainda faiscantes de ódio e magoa para o espetáculo e seus maestros.
Eu tinha muitas coisas preciosas na minha vida. Como órfã, eu não tinha sequer um próprio teto sobre minha cabeça, quem diria bens materiais queridos. Então ouvi algo dentro de mim se partir ao passar os olhos por Pansy Parkinson e Draco Malfoy e ir até a grande lareira de pedra atrás dele, as chamas verdes se alimentando da lã prateada que havia me aquecido por tanto tempo, dentro e fora.
O suéter que Molly Weasley havia me presenteado no Natal passado, meu primeiro presente desde que os Lewis morreram e fui atirada no próprio Inferno, algo bonito e simples, feito com toda boa vontade e consideração por alguém que sequer havia me visto alguma vez, uma boa gentileza pura que me lembrava de permanecer merecedora de tal ato, agora queimava. Já devia estar o fazendo a algum tempo, não restava muita coisa, mas o bastante para que eu o reconhecesse.
Eu estava errada.
Pansy Parkinson tinha algo contra mim: acesso às minhas coisas.
Era de uma infelicidade que isso servisse a ambas.
— Estou curiosa — comecei devagar, meu mundo vermelho e meu monstro desperto. Se mexeu dentro de mim, sedento outra vez, enquanto mirava meus olhos em Parkinson. O sorriso rasgado e queixo alto tremeram para mim, não tão mais confiantes diante do vermelho. — Iriam embrulhar as cinzas e deixar na minha cama? Está claro que não me esperaram — nenhum deles me respondeu, mas também não se mexeram quando meus pés deslizaram para a frente. — Engraçado, vocês falaram tanto um com o outro nas ultimas semanas, não há nada para agora? Para dizer aqui, em voz alta e na minha frente?
— Chame o Snape — era Gemma falando em um canto da sala, Rivers se deslocando com rapidez para fora. Deixei que fosse, deixei que Farley se aproximasse, nossa monitora, com os ombros retos e a varinha na mão. Ela era uma sextanista assim como Marcus Flint, em tese, tinha mais experiencia e mais poder do que eu. Em tese. — Lewis, se acalme. O professor Snape já está vindo, os dois serão punidos devidamente por...
— Quem devia ser punida era ela! — Pansy finalmente encontrou sua voz, mesmo que mais aguda que o normal. Apontou um dedo para mim, o rosto torcido de raiva alimentada. — Foi ela que quase partiu a cabeça do Draco em dois! Foi ela que nos humilhou na frente da Grifinória! Ela é o perigo aqui, é louca, quem devia receber alguma punição é ela!
— Cale essa boca miserável, Parkinson — Greengrass chiou para ela, os dentes a mostra. — Não sei onde você estava no último ano, mas Mal é nossa amiga! Ela nunca fez nada contra você!
Não até agora. Deslizei meus olhos em direção aos de Malfoy. Eles estavam duros, quase tanto quanto Crabbe e Goyle perto dele, prontos para se lançarem em mim se eu desse outro passo. Mas não precisava, não enquanto a mente era algo tão lindo e tão acessível. Mesmo a dele, dotada de uma proteção natural. Sem treino algum, era uma cortina de seda comparada ao que eu estava acostumada – a empurrei para o lado sem nem precisar de fato tentar.
Sem ajuda, Draco nunca conseguiria fazer isso. O dormitório feminino era enfeitiçado, nenhum rapaz conseguiria chegar até ele. A ideia veio de uma conversa venenosa, a lembrança do meu uso continuo do presente dos Weasley. Uma ofensa, um ato de traição, um deboche – eram motivos bons o suficiente para me tirar o suéter. Além disso, a vingança. Malfoy de fato gostada da vassoura nova e cara. Apesar do que aparentava (e se esforçava a confirmar) seu pai não lhe dava tantos presentes exorbitantes assim.
Não devia tê-la envolvido nisso, Pequeno Lorde.
Observei o gelo quebrar em seus olhos, sua mente disparar para entender minha boca fechada e a voz que ouviu. Ao contrário de Potter, ele tinha os meios de chegar na resposta. Minha única duvida era quanto tempo levaria. Mas eu o deixei com seu raciocínio, meus olhos focados em Pansy Parkinson outra vez. Olhei mais uma vez para seu dedo em riste, então suspirei.
— A última pessoa, Pam, que apontou o dedo para mim desta forma... — ronronei, mais para mim do que para ela. Tarde demais, ela percebeu seu erro. Tarde demais, ela abaixo o braço, os olhos, a cabeça. Tarde demais, notou que se atirar contra mim não era a melhor forma de alcançar seus objetivos. Tarde demais, ela se lembrou da verdade em suas próprias palavras. Louca. Louca e perigosa.
Quando o grito da herdeira da casa Parkinson explodiu na sala comunal da Sonserina, não sorri nem um pouco. Era apenas algo que eu tinha que fazer.
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