Corona II

17 Mentiras Cruas


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Felizmente não tem muita coisa para se dizer aqui, tirando que espero que gostem ♥ E, claro, meus sinceros agradecimentos a LUA HELENA, por me honrar com sua recomendação. Obrigada, e eu poderia digitar isso mil vezes que não seria o suficiente. Espero não te decepcionar e, a cada capitulo, merecer cada letra que você escreveu sobre minha história ♥ Comentários do cap 16 estão para ser respondidos essa semana ♥ Obrigado Lua Helena, Ella Branco (Bella ♥), nightshade45, Milly e MaduBlackfyre pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Senti sua presença antes que terminasse de atravessar a passagem. Anthony estava com ele, ansioso e esbaforido pela busca ao diretor da Sonserina. Senti seu alarde com o escândalo de Pansy, e na verdade nem tinha feito muita coisa. Menina rica e mimada, que nunca sentiu qualquer dor na vida – um dedo quebrado era nada ao que eu poderia ter feito. Ao que parte de mim, a mais escura, queria fazer. Mas me concentrei na plateia notável à minha volta, na ameaça de expulsão. O sangue dela não valia as portas da minha casa se fecharem para mim.

— Lewis — a voz gelada de Severo Snape chegou até mim ao mesmo tempo que sua mente afiada. Ele estava pronto para me derrubar, para me explodir de dentro para fora se preciso. — Se afaste dela. Agora.

Como um cordeiro, obedeci. Dei um longo passo para trás, meus olhos ainda observando a garota no chão, chorando e gemendo enquanto agarrava seu dedo indicador. Eu conhecia a dor que ela estava sentindo. Greta sempre se focou na carne, mas Lagrum não se importava de ir até os ossos. Eu conhecia a dor que irradiava por todo seu corpo, mordendo os nervos e indo até o cérebro, nublando qualquer pensamento coerente. Implacável, mais mentor do que amigo, Lagrum me obrigou a lidar com isso. A conduzir o fogo nas veias para o rebate, não para a rendição, a estar pronta para me sobressair como o mais adepto, a sobreviver. Desumano, como deveria ser. Fui criada por uma cobra.

— Meu... meu dedo — a voz de Parkinson saia aos soluços, rouca, seus lábios tremendo no rosto molhado. Parecia uma criança pequena, mais assustada pela dor do que pela sensação em si. — Ela... o meu dedo...

— Levante-se — Snape ordenou com a voz ríspida para ela também, os olhos de tuneis sem qualquer misericórdia para a cena. — Farley, leve-a para a enfermaria. Malfoy e Lewis, me acompanhem.

Pela primeira vez o rosto de Draco saiu do choque entorpecente de minha voz. Pareceu ter registrado só agora Pansy no chão e Severo na sala, mas rapidamente se recompôs. Seus olhos ainda acompanharam a garota chorona que era levada pela monitora através do portal, um relance de sincera preocupação neles, antes de esfriarem outra vez. O garoto se desgarrou de seus guardas e deixamos uma pesada sala comunal para trás. No corredor das masmorras, consegui ouvir a movimentação do jantar no Grande Salão. Alguém estaria com apetite depois disso?

Uma parte de mim conjurou a imagem do grupo de leões em sua mesa. Alegres, desinibidos, o rosto de Mione ainda brilhando pelo fim agradável de seu dia. Teria gostado de me juntar a eles, rir e brincar durante o jantar ao invés de me entocar no ninho de cobras da minha casa. Também sabia que nunca me sentia confortável por mais do que algum tempo em situações tão agradáveis.

Snape nos levou para seu escritório particular. Atravessamos sua sala de aula e fomos direto para onde o homem passava a maior parte de seu tempo, não que o ambiente mudasse muita coisa da própria classe de poções. As paredes continuam escuras, o ar frio e cada espaço vertical coberto com prateleiras de frascos com todo tipo de coisa, desde órgãos a ervas, insetos e pós. A grande diferença era a lareira, no momento com um fogo baixo, e a escrivaninha de uma melhor qualidade do que aquela em que dava suas aulas.

— Eu quero uma explicação — a voz dele estalou sobre nossas cabeças. Uma vez, Draco havia dito que o diretor conhecia seu pai. Eram amigos. Eu debochei na hora e, vendo o momento, o faria de novo: não havia favoritismo algum ali. Nem sobre mim, nem sobre o garoto.

— Lewis atacou a Pansy, professor — ah, aí estava. Eu esperava isso desde o ano anterior, quando ambos paramos na sala do diretor devido a um duelo proibido, saindo de lá para a enfermaria. Eu esperava esse dedo apontado para mim, a voz de Malfoy se transformando em algo arrastado e quase doce. O desprezo que subiu pela minha garganta não era surpreendente.

— Ataquei, Draco? — Minha própria voz saiu estranha, distante, raspou na minha língua como lixa em pedra. — Não me lembro de ter encostado nela.

Malfoy se virou para mim, raiva terrível quebrando o gelo de seus olhos, fazendo-o estilhaçar. Mantive seu olhar, um sorriso preguiçoso no rosto, sem ao menos chegar perto da mente dele para ler a compreensão. Filho de uma família de bruxos, séculos e séculos de linhagem mágica ininterrupta correndo no sangue... ele com certeza tinha mais suporte do universo da magia do que um garoto criado no mundo dos trouxas – do que eu.

— Saia, Draco — e este foi o único vestígio de intimidade, de que provavelmente conhecia o garoto toda a vida, que o professor deixou aparecer, mesmo que sua voz ainda estivesse afiada. — Saia, agora.

Não foi surpresa ele sair, não foi nenhum espetáculo ele não olhar em minha direção uma segunda vez. Eu podia sentir sua satisfação, podia cheirar, mas também sua raiva. Ele sabia que Snape não podia me condenar por nada, e havia uma monitora para testemunhar: eu não havia encostado em Pansy Parkinson. Não havia aberto a boca ou chegado perto de minha varinha. Até onde se sabia, seu dedo se partiu por vontade própria.

Encarei, então, os olhos de Severo. Estava preparada para qualquer punição, justa ou não, que ele achasse que eu merecia. Ele poderia me por com Filch para limpar cada pedra de Hogwarts com as próprias mãos, eu não me importava. Ou melhor, havia sido ensinada a engolir. Não se atreva a fugir, Lagrum me ensinou, encare suas malditas consequências. E eu tinha, cada dia da minha vida – nem todas as deformidades de minha pele eram frutos de uma mente doentia que não precisava de razão para aliviar seu sadismo. Não iria começar agora.

— Você está, deliberadamente, tentando ser expulsa, Malorie?

— É só um maldito dedo — chiei através de meus dentes para seu timbre gelado e olhos de Inferno. — Ela vai sobreviver.

— As coisas podem ser muito mais fáceis se concordarmos em não mentir um para o outro, garota arrogante — Snape latiu de volta, sem qualquer paciência para minhas voltas. Ele me conhecia demais, minha mente e minhas emoções, para cair naquilo. Conhecimento pratico e metódico, fruto de horas intermináveis mergulhado na minha consciência, beirando minha alma – assim como eu na dele. Raso, mesmo assim, tão raso tínhamos chegado e ainda era o bastante. Severo era um legilimênte, afinal. Alguém com afinidade para os pensamentos e as emoções de todos a sua volta. E mesmo que precisasse de uma varinha para desempenhar o que eu fazia com a facilidade com que respirava, fiapos ainda podiam chegar até ele. E chegavam.

Ele sabia, afinal. E eu também.

Não era o que eu tinha feito, mas como. Uma porcaria de dedo – nada comparado ao que eu poderia, ao que eu queria tão facilmente ter feito. Dentro e fora, poderia reduzir Parkinson a nada mais que uma existência miserável de dentro para fora. Mas foi seu dedo, quebrado em cima e em baixo, torcido em um ziguezague grotesco, que escolhi. Nada mais que uma exibição, me pavoneando como vi todos ali fazerem.

É o que posso fazer, aqueles ossos destruídos diziam, isso e muito mais. Só preciso de um motivo, quem é o próximo a me dar algum?

Sem precisar encostar, falar ou mexer um músculo em direção à minha varinha – ou qualquer outro em qualquer direção. Na velocidade de uma batida de coração, sem gastar nem meio pensamento com isso. Aprendi bem. Com Greta, com Lagrum, com as cicatrizes e suas dores fantasmas, com a marca que manchava minha pele, com a escuridão nas minhas entranhas e toda dor, toda a culpa e todo ódio que a alimentava.

Destruir.

— Eles o queimaram — falei devagar. Não para invocar sua pena, não para apelar para qualquer sentimentalismo que pudesse existir dentro de sua mente gelada e de sua alma escura. Havia algum, eu sabia, depois que a escuridão de seus olhos se tornou apenas um pouco menos densa após o sábado, quando disse a razão de ter quebrado uma vassoura cara e nova na cabeça cheia de merda de Draco Malfoy. Mas não tentei alcança-la. — O suéter de lã que Molly Weasley me deu de Natal, no ano passado. Eles queimaram. Jogaram na lareira principal da sala comunal, imaginando que as cinzas iriam me receber quando eu chegasse. Mas Sue Hopkins estava me esperando na entrada das masmorras quando cheguei no saguão de entregada, então pulei o jantar. E pulando o jantar, cheguei antes do esperado. Então eu vi. No fogo. Eles o queimaram.

Minha voz, minha sete vezes maldita voz, eu a ouvi quebrar. Não como vidro estilhaçado, não de tristeza. Não havia nó na minha garganta para isso, não havia ardência em meus olhos. Era ódio. Alimentado pela dor e pela magoa, o que tipo que tornava as coisas pessoais. Um ataque não apenas a mim, mas a qualquer coisa que eu ainda tivesse dentro de mim. O que restava da coisa pesada no meu peito, dos retalhos sangrentos da minha alma.

Sorte ou não, aquele suéter havia sido o primeiro em tanto, tanto tempo... com certeza depois de Greta, depois do orfanato, depois da raiva e da loucura envenenarem a realidade de uma criança. Eu sequer sabia se contava os que havia ganhado dos Lewis, todos perdidos a muito tempo – nenhum havia me acompanhado ao Santa Maria. E mesmo se tivesse, aquele pequeno aglomerado de lã prata era tão, tão diferente dos brinquedos de pais assustados e hesitantes...

Molly Weasley não tinha medo de mim.

A mulher havia me aceitado em sua casa, entre seus filhos, muito antes de eu pisar na Toca, já no fim do verão. Uma gentileza genuína para a garota órfã que seu filho mais moço mencionou, a menina sem família que não receberia nenhum presente no Natal. Nenhuma criança deveria passar por isso, e eu usei aquele suéter com orgulho. Queria ser merecedora, mais ainda depois de conhecer a matriarca dos Weasley. Queria merecer cada ponto e nó, cada linha, cada minuto do dia gasto para o presente de uma estranha. Alguém que não conhecia, que não precisava, mas queria.

Mas agora...

— Mesmo que a srta. Parkinson escolha dar parte de você — Severo voltou a falar, bem devagar desta vez, a boca fazendo força para ser mais do que uma linha rígida. — Ela não tem qualquer prova. Nem o sr. Malfoy. Na verdade, tudo que existe é uma sala cheia de testemunhas que eles queimaram um objeto pessoal que não lhes pertencia e então foram flagrados, o que também não ajuda qualquer denúncia da parte deles. A única pergunta é se você tem algo a dizer sobre isso.

— Já disse tudo que precisava — deixei que meus ombros abaixassem, mesmo que só um pouco. — Posso ir?

Era sábado, não tínhamos aula particular no fim de semana. Um pequeno descanso para a intensa abordagem durante os dias uteis, na minha opinião. Sendo assim, e sem despedidas, Snape fez a porta se abrir em um movimento de varinha. Arrastei a cadeira e dei as costas, mas parei quando cheguei à porta.

— Eu terei de informar o diretor sobre isso.

Olhei por cima do ombro, para o homem sentado em sua escrivaninha particular. Uma parte de mim quis sorrir, mas não o fiz. Encarei seus olhos, ao invés disso, e deixei que um fio da monstruosidade dentro de mim chegasse até ele. Só uma parte de como eu ainda sentia meu coração bater, de como eu ainda tinha consciência de onde Pansy e Draco estavam. Consciência demais.

— Concordamos em não mentir, Gancho — murmurei. — Não finja que ele já não sabe, ou que o faria, precisando ou não.

Ele não fez ou falou qualquer outra coisa, então fui embora. Senti e ouvi a porta de sua sala bater atrás de mim e parei no meio do corredor. Leve, mas ainda presente, meu monstro ainda se contorcia, reivindicando muito mais do que um breve grito e um dedo que Pomfrey deixaria novo no mesmo instante. Talvez Parkinson já tivesse até mesmo voltado para a sala comunal, claro, se tivesse controlado a histeria, ou a curandeira a faria passar a noite apenas para garantir que a garota se acalmasse em um ambiente controlado.

Com passos lentos de pernas pesadas, me afastei das masmorras. Ser expulsa não era um objetivo e não sabia o que poderia fazer se ouvisse mais meia palavra ácida de Malfoy. Ou de Pansy. Ou de qualquer um. Não tinha certeza se poderia estar no mesmo lugar que eles, não com as chamas da lareira ainda ardendo atrás das minhas pálpebras. Então me afastei deles. Da masmorra. Do castelo. Meus pés levaram minha mente nublada para o único lugar onde eu poderia ir, o único em que eu queria estar.

Lagrum sabia. Lagrum sempre sabe. Deve ter visto a coisa toda, acordado antes de seu horário pelas minhas emoções, sua mente ligada à minha, recebendo cada detalhe. Ele já me esperava na orla da floresta e não disse nada enquanto eu o seguia cada vez mais fundo na mata. Foi só quando as árvores já haviam escondido qualquer pequeno pedaço do enorme castelo e seu terreno às minhas costas que ouvi alguma coisa além de seu suave rastejar na folhagem.

Você sabe a razão que as cobras trocam de pele, filhote?

— Sei — a resposta seca foi recebida por um silêncio severo, então apertei os lábios antes de soltar o ar pelo nariz. — Pois a pele se desgasta pelo contato continuo no chão, e é preciso renovar, o que acontece todo ano.

Exatamente...

— Aliás, é sempre divertido ficar puxando. Ainda não chegou sua vez?

Quando eu te usar de graveto para coceira, vai saber, a menos que queira servir para limpar meus dentes antes.

— Mais uma ameaça para ter que cumprir, meu amigo — um sorriso desenhou meus lábios, mesmo que devagar, enquanto eu sentia sua graça e exasperação. — Mil perdões, continue.

Não é um processo fácil. Muito incômodo, e se eu não tivesse você, teria que ficar me esfregando em pedras ou em qualquer outra superfície para conseguir puxar. Não é agradável, de forma alguma, mas quando termina... é libertador. A troca em si pode ser um inconveniente, mas seu resultado não. É refrescante e renovador. Um ato da natureza de restauração. Quando uma pele vai embora, Malorie, uma outra sempre a substitui.

— Sei disso, Lagrum — as palavras saíram em um sussurro, quase carregadas pela brisa fria que anunciava o outono. Permaneci inalterada em meus jeans e blusa, grata a minha falta de receptores térmicos à medida que a noite avançava e o conforto do castelo ficava para trás. — Sei disso.

Não era como se eu não participasse da ação, todo ano. Mais ou menos em julho, as vezes quase em agosto, meu amigo passava por semanas difíceis. Não era imediato a construção de uma nova pele, e demorava um bocado de tempo até ela estivesse pronta embaixo da pele antiga e morta. Não ficava bonita, tão seca e fosca que suas escamas negras de nanquim pareciam fuligem, mas depois... era sempre um espetáculo. Aquela coisa quebradiça saindo como uma embalagem acabada, continuamente, revelando centímetro por centímetro do lustroso couro negro abaixo.

Era digno a comparação. A troca de pele, mais do que um fenômeno biológico e necessário após a pele antiga ressecar e desgastar, era um símbolo antigo de renascimento. Não por menos as cobras foram ligadas a imortalidade, a juventude, a renovação. Se despir do que não lhe serve mais, começar outra vez. Com uma nova roupa, um novo corpo, um novo objetivo. A suéter que havia ganhado dos Weasley significavam coisas demais para mim, e sempre significaria. Talvez ganhasse outro, mas aquele primeiro... ele seria lembrado.

Não suas cinzas. Não a prata queimando no fogo esverdeado. Não os olhos venenosos de Pansy ou o rosto congelado de Draco. Mas como ele era macio e quente, de maneiras além das físicas, e em como eu tinha que o deixar ir. Uma pele antiga, a pele de uma garota órfã de quase um ano atrás que havia esquecido o que significava a gentileza, a consideração, o mero carinho. Eu não precisava mais de suéter para me lembrar disso. Não mais.

Não tive pressa de voltar ao castelo naquela noite. Lagrum me fez companhia, ele e as sombras da floresta. Andamos por bastante tempo entre a folhagem, passando por sua árvore e cheguei a sorrir quando vi que lugar iriamos. Não que eu conhecesse, mas eu imaginava que devia ser bonito. E era. O lago no interior da Floresta Proibida, um irmão muito menor do grandioso Lago Negro que banhava os terrenos do castelo, era tão escuro quanto o outro. Mas não negro e sim prata. Um prateado pesado, quase chumbo. Suas águas, no entanto, eram calmas e não vi perigo em me aproximar de sua margem de cascalhos.

Não é habitado. Sequer um sereiano ou algum filhote da lula gigante. É raso demais para isso. Mas há um caminho para o lago maior, e nele é possível entrar no castelo.

— Pelo encanamento, sim — um sorriso que me resultou em um silvo de alerta apareceu em mim. — No esgoto da escola.

Lagrum deslizou para meu lado, se enrolando no cascalho enquanto solenemente ignorava minha provocação. Deixei que ignorasse e voltei a olhar para o Lago Prateado. Era uma pena que o verão de fato já tivesse ido embora. Estava frio o bastante para uma leve neblina e eu não tinha expectativas altas quanto a temperatura da água. Meu amigo poderia ter seu couro de cobra, mas eu tinha apenas uma pele humana sensível e roupas de tecido que se encharcariam depois. Quando fosse mais quente e eu aprendesse algum feitiço de secagem, aí sim, eu seria empurrada para o fundo das águas.

Todas as cobras sabem nadar – eu sabia que não escaparia disso.

Mas isso não foi um empecilho para ficar ali, sentada no cascalho, com meus olhos pousados na superfície do lago. Eu gostava da água, sempre gostei, o que era estranho. Não me lembrava nunca de ter tido qualquer contato com ela em grandes proporções. Os Lewis nunca me levaram a praia e o orfanato, com certeza, não fazia excursões. Mas mesmo um banho, principalmente na enorme banheira de Hogwarts, era o suficiente para relaxar meus músculos e clarear minha cabeça. Eu gostaria de aprender a nadar, só não tinha esperanças de que seria algo didático e agradável. Lagrum nunca era.

Só voltei ao castelo na hora do almoço do dia seguinte, depois de dormir perto do amanhecer com uma cobra gigante enrolada em mim nas margens da mata e cascalho, onde ficaríamos protegidos e eu ainda poderia olhar para o lago. Voltamos para lá depois que ele caçou seu jantar e se considerou satisfeito o suficiente para dormir. Então, quando o sol já estava no meio do céu, me desembrulhei de suas dobras e fomos em direção ao castelo. Lagrum me deixou na orla, recuando agora para sua árvore, enquanto eu caminhava em linha reta em direção a escola.

Desta vez não houve nenhuma recepção. Nada de professores ou do próprio diretor começando a coordenar grupos de busca para a aluna desaparecida. Ninguém havia me denunciado desta vez, sabendo muito bem onde eu provavelmente estaria. Desci para as masmorras e então para meu dormitório, ignorando o cheiro que vinha do Grande Salão. Não sentia qualquer fome, não tinha tempo para sentir. Sempre que voltava à Hogwarts depois de ficar na floresta, o peso que saia de mim por algumas horas voltava de uma vez. Era quando eu percebia o quanto carregava.

Eu tinha que fazer muitas coisas.

Coisas demais.

Eu ainda me lembrava que Gina Weasley estava cada dia um pouco pior, e que sua mente havia sido bloqueada por algo ou por alguém. Havia os ratos no banheiro do segundo andar, em que fiz muito pouco progresso nessas duas semanas. Havia a voz na parede e sua presença esmagadora, ambas coisas que apenas desapareceram como se nunca houvessem acontecido – e eu não tinha certeza se era algo a se celebrar.

Mas eu tinha que começar de algum lugar, e sem qualquer possibilidade de me dedicar a algo que não estava mais lá, me concentrei no que estava ao meu alcance. Naquele dia, foram as tarefas. Costumava usar o sábado, mas o dia anterior já era quase uma memoria distante, ainda mais por sua ruptura quando anoiteceu. Foi só já quase no fim do dia, quando já tinha finalizado meus deveres e os lia pela última vez, que tive companhia.

Hopkins e Greengrass olhavam para minhas roupas limpas do banho e em direção ao meu banheiro, provavelmente imaginando o monte de roupa lamacenta que eu havia deixado lá para o elfo levar. Então se sentaram comigo e, após deixarem claro a própria indignação com o ocorrido, contaram o que eu tinha perdido. Pelo visto, Parkinson havia mesmo dormido na enfermaria, mas já tinha aparecido para o almoço com o dedo reto e móvel sem qualquer dificuldade. Malfoy, por outro lado, não estava mais compartilhando da acidez da nova companheira: deixava ela falar sozinha sobre como eu deveria ser punida e que, se Hogwarts ainda tivesse um pingo de decência, meu sumiço significaria que estava fora.

Os ânimos não ficaram bons por isso. Ninguém havia batido palmas para a vingança mesquinha dos dois. Eu tinha que os agradecer, na verdade: de pária que humilhou a Casa, passei para vítima. Pobre Lewis, traída por uma das amigas. Era apenas um absurdo que agora não poderíamos mais confiar uns nos outros até para isso. O que, agora? Colocar feitiços de tranca nos malões e dormir com um olho aberto? Farley e Rivers, de fato, não gostaram nada da exibição dos dois, a prepotência de queimar o bem de outro aluno em plena sala comunal, e ela mesma deu parte neles. A detenção havia chegado na hora do almoço para ambos: Filch, os dois.

Fui capaz de sorrir com isso. Gancho, pelo visto, também havia desaprovado a atitude. Depois dos olhares de desdém e as bocas torcidas que receberam, além das horas com o zelador propenso ao sadismo, a dupla havia abaixado a cabeça. Bom, Parkinson tinha. Parou de exclamar a quem quisesse ouvir sobre mim, pois ninguém mais queria. Eu era a melhor aluna da Casa, eles se lembraram, a que os levava cada vez mais perto da Taça das Casas todo dia. Minha divida havia sido paga e agora não era mais minha pessoa que estava no vermelho.

Mas isso era quanto a Pansy, Draco era uma história diferente.

O garoto se manteve afastado de mim o tanto quanto possível, evitando virar o rosto em minha direção. Devia ter algo a ver com seu novo conhecimento sobre mim, mas não tinha qualquer pressa de dizer que seus pensamentos podiam ficar com ele. Malfoy não contribuiu para a pequena e falida campanha de sua nova amiga depois que ela voltou da enfermaria e agiu como o resto da Casa: como se minha divida estivesse paga. Mas nem mesmo quando Snape voltou a nos colocar lado a lado na aula de poções ("para aprenderem a serem civilizados outra vez") ele havia se dirigido a mim.

Considerei isso como um grande passo para a civilização entre nós, levando em conta que eu não sabia qual seria a primeira coisa que iria sair dele e muito menos a minha reação para ela. Então era melhor desse jeito, se o pequeno lorde precisava de seu tempo e espaço, eu o daria. Draco Malfoy sabia onde me encontrar, se quisesse.

E um dia, quis.

Quando outubro chegou (e com ele o outono, agora sem reservas) uma friagem úmida se espalhava nos terrenos do castelo, entrando nas pedras da escola e fazendo muita gente andar já andar agasalhada com cachecóis e luvas, além de Pomfrey ter de receitar poções reanimadoras umas vinte vezes por dia tanto em alunos quanto em professores e até funcionários. Se nunca viram um homem gigante com nariz vermelhos e tosse, eu posso dizer que não perderam nada. Hagrid parecia um querubim bêbado enorme e, depois que suas orelhas começaram a fumegar (um efeito comum) sua cabeça inteira parecia grande carvão fumegante.

O outono trouxe a chuva além do frio, muita chuva. Gotas do tamanho de dedões de um adulto insistiam em descobrir até onde as janelas do castelo suportavam, as águas do lago subiram quase cinco metros nos terrenos e o terreno (e principalmente a floresta) não era muita coisa além de um lamaçal. A única vitória havia sido as abobaras de Hagrid, que seguindo para o Dia das Bruxas, agora estavam do tamanho de uma casa.

Foi em um desses dias em que choveu forte desde o momento em que abri os olhos que encontrei Potter voltando de um treino de Quadribol, encharcado até os ossos e sujo de lama, bem no saguão de entrada. Provavelmente estava indo em direção a sua sala comunal, a um banho e uma lareira quente – o último sendo o programa mais requisitado nos últimos dias. Balancei a cabeça e arqueei uma sobrancelha, sentindo seu desanimo enquanto ajeitava os livros da biblioteca nos braços.

— Toda essa derrota não pode ser só a chuva — chamei sua atenção, fazendo com os olhos muito verdes se virassem para mim e para meus braços cobertos apenas pela blusa de mangas cumpridas velha. Uma vez que meu suéter havia sido queimado, com ele havia ido minha única proteção ao frio decente. Quando contei sobre o ocorrido aos leões, entre eles os gêmeos, nunca vi tantos xingamentos no mesmo lugar. Até mesmo Hermione, geralmente muito esperta para descer a esse nível, não poupou a língua e tive que segurar os três Weasley para não arrancaram os dentes de Draco. Severo já tinha se vingado por mim, afinal.

— Está frio, Mal, vai acabar doente — foi seu cumprimento de testa franzida e lábios apertados, mas bem que mereci. Encolhi os ombros, um sorriso pequeno no rosto enquanto descia meus olhos até seu cabelo pingando.

— Sinceramente, Potter, quem tem que se preocupar com isso é você, não eu — observei ele encolher os ombros e meus lábios se abriram mais. — Agora, diga, eu estou com vontade de me encolher na cama e isso não veio de mim.

— Wood continua exigindo tudo de nós — ele suspirou, passando a mão no cabelo molhado e no rosto pingando. — Não que seja um problema. Nem a chuva ou a lama é. Nossa moral que está baixa. Fred e Jorge espionaram um pouco o time da Sonserina e disseram que eles são sete borrões cortando o céu na velocidade de misseis. Ninguém estava muito animado hoje.

— Velocidade não ganha de trabalho em equipe e estratégia, Harry — franzi as sobrancelhas, sendo sincera nas palavras. — Eles podem vencer na velocidade, mas disparar pelo ar como um jato não quer dizer nada se não conseguem se segurar na vassoura.

— É nisso que estamos apostando — o garoto suspirou, ainda não convencido, mas pelo menos um pouco menos derrotado. Se despediu de mim rápido, mas não me importei. Carregava três volumes debaixo do braço para estudar melhor a porcaria do feitiço que ainda não havia funcionado e ele havia começado a tremer. Desci para as masmorras, os livros nos braços e minhas duvidas do feitiço na cabeça, quando percebi. Nem todos consideravam minha divida com a Casa paga. Nem todos estavam satisfeitos ou envergonhados depois do ato de Parkinson e Malfoy. A maioria, sim, mas não todos.

Marcus Flint não havia desistido.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 16 ♥ Malfeito, feito! ♥