Corona II
18 Legilimênte
Notas iniciais
Quando ainda tinha seis anos, apenas alguns poucos meses depois de nos conhecermos, Lagrum me levou em minha primeira caçada. Ele já havia crescido o bastante na época (e se tornada exigente o suficiente) para não aceitar os pedaços duros de carne que eu tirava de meu prato nas esparsas refeições no Santa Maria. Ao pular minha janela pela primeira vez, ele já era um pouco maior do que meu braço e com a força necessária para caçar animais pequenos, como esquilos ou coelhos.
Isso tínhamos de sobra no pequeno bosque aos fundos o orfanato, afinal foi a base de sua dieta durante todos esses anos. Mas, para se alimentar, era necessário pegá-los primeiro. Animaizinhos rápidos e atentos, desenvolvidos em sua evolução para sobreviver e fugir de caçadores. Não foi em uma noite ou duas ou mesmo cinquenta que desenvolvi habilidades boas o suficiente para Lagrum parar de me xingar e me mandar ficar quieta, longe e sem atrapalhar.
Talvez você aprenda alguma coisa.
Eu sempre lhe respondia algo malcriado como "sim, até semana que vem vou conseguir abrir a boca duas vezes o tamanho da cabeça!", mas a verdade era que aprendi, sim. Me recolhi em meu lugar de observadora e não prestei muita atenção no momento do banquete, mas anotei cada detalhe – e o detalhe do detalhe – do bote de Lagrum dentro de mim. Em como deslizava de forma silenciosa e cautelosa pela grama, contra o vento e escondido pelas sombras. Em como parava, observava e o fazia por mais um tempo, imóvel, para a presa (se teve a impressão de ouvir algo), deixar para lá.
Então o ataque. Rápido e certeiro, ele conseguia arrancar o pescoço de pequenos animais de uma só vez e, à medida que crescia, pode o fazer com coisas muito maiores do que coelhos. Menos os dias em que se sentia preguiçoso: se fosse o caso, mordia e deixava a criatura fugir para morrer. Lagrum, porém, não usava muito de seu veneno para caçar – guardava para mim e para minhas necessidades.
Mas a questão é que aprendi. E aprendi bem até demais. A paciência, as etapas e a estratégia. Eu nunca os havia usado fora da floresta, longe da companhia de Lagrum, mas Flint exigia uma exceção. Para ele e seus pensamentos perversos, repugnantes direcionados para uma menina de doze anos. Para seus planos de me assustar, de me fazer arrepender ter pisado neste castelo. Por ele, eu abriria uma exceção. E Dumbledore que me perdoasse, mas sequer tentaria segurar o monstro dentro de mim.
Com cuidado, coloquei os livros no chão da escadaria enquanto fechava os olhos. Eu podia vê-lo sem eles. Podia enxergar sua presença por sua mente, por seu cheiro, pelo coração batendo. Já estávamos muito abaixo para o barulho da chuva atrapalhar de alguma coisa. Com um sorriso rasgado coroado de olhos em vermelho, soprei o ar. Meio pensamento fez com que as tochas e archotes se apagassem, mergulhando a masmorra em escuridão absoluta.
Marcus não recuou, para seu crédito, mesmo que eu sentisse a confusão dele. Não havia vento, só a umidade fria das pedras irradiando o frio do lado de fora. Engoli sua hesitação devagar, as duvidas no fundo de sua mente. Eu não poderia saber que ele estava lá, poderia? Flint havia ficado sabendo do ocorrido com Parkinson, mas eu não poderia fazer nada se ele fosse rápido o bastante, certo? Meus pés quase flutuaram em direção a câmera no meio do caminho até a sala comunal – silenciosos e precisos – onde o garoto espreitava atrás da porta aberta, e ainda parei para olhá-lo.
Negra, escura. Foi o nome que os Lewis me deram. Com certeza não foram influenciados pela minha pele, pálida e branca. Era pior, era mais fundo. Eles sabiam e morreram com essa certeza: havia algo em mim muito escuro, muito ruim. Algo em meus olhos, algo na minha alma, algo que veio comigo para esse mundo – ou era minha própria essência. Deixei que isso saísse de mim, que chegasse até Flint e entrasse em seus ossos. Seu coração batendo e o corte na respiração me disseram que consegui: sua adrenalina estava ativada, seu corpo pronto para correr e fugir.
Entrei na câmera e fechei a porta atrás de mim. Meus olhos trabalhavam, se ajustando a escuridão total, mas enxerguei melhor com minha mente. Ela viu o garoto de costas tensas, a varinha em punho erguida a esmo. Me apoiei na porta, esperando as batidas de seu coração cantarem meu nome.
— O feitiço que eu usaria agora, Marcus, é lumus — a ponta de sua varinha se acendeu no mesmo instante, não completamente por ordem dele. A fala era uma parte tão superficial, um caminho aberto logo na entrada junto aos outros sentidos. O pensamento veio de mim, veio dele? De onde a racionalização surgiu, o comando que sua varinha obedeceu? Já tinha visto várias vezes essa expressão, a confusão, as feições torcidas ao tentarem se lembrar de onde aquilo tinha vindo. Na maior parte do tempo, a sensação vinha com o medo, dependendo de que tipo de pensamento havia surgido. Mas Flint era muitas coisas, mas não era medroso. Não. Era burro demais para ter medo.
— Sempre bancando a esperta, Lewis — a luz iluminava de forma grotesca, criando sombras em suas feições já naturalmente torcidas. — Eu estou te devendo alguns maus momentos, se não me engano.
— E imagino que tenha planos sobre como irá me pagar, correto?
— Cinco pontos para a aberração — um rasgo que poderia ser um sorriso abriu em sua boca enquanto se aproximava, a ponta da varinha indo direto para meu pescoço. Eu não duvidava que Marcus Flint tinha capacidade de usar um feitiço que não era aceito pelos livros da escola. — Eu andei observando. Não você, claro, mas nem precisei. Aqueles dois, Malfoy e Parkinson, não abaixavam a voz quando o assunto era sua pessoa. Primeiro pensei em te encurralar na volta de suas excursões noturnas, mas então aqueles idiotas fizeram toda a cena na sala comunal. Você não ficaria sem olhar por cima do ombro tão cedo, então esperei...
— Até hoje — meus olhos baixaram para sua varinha, analisando seu cumprimento e então pescando os olhos de seu dono. — Marcus, você é realmente muito burro.
Um animal grande e irracional que lidava com situações de conflito ou ameaças com violência. Eu entendia disso, fui criada na lei da natureza. Sendo assim, eu esperava sua explosão, sua ira ao ser ofendido por uma garotinha. Senti a ponta de sua varinha fazer pressão na minha pele, o feitiço que me aprisionaria em meu próprio corpo para que pudesse dar cabo a seus desejos repulsivos.
Como eu já havia notado no espelho, eu já não era mais uma criança.
— Petri...
Lagrum me ensinou a esperar, me ensinou a caçar. A prestar atenção no que o ambiente nos proporcionava, ao que a caça acrescentava a ele. Marcus Flint devia ter ido embora no momento em que sua emboscada se tornou sua prisão, quando as luzes foram apagadas e a porta trancada atrás de mim. Prepotente, ignorante e burro. Ele confiava tanto em seu tamanho, em suas intenções cruéis e na capacidade de fazê-las que não ouviu a calma na minha voz, não notou meu coração constante nem a subversão da situação. Erros como esses custam a vida lá fora, no mundo real.
Eu não via motivo de a regra terminar ali.
Marcus Flint parou de falar quando conseguiu ouvir, quando sentiu. Seus olhos foram para baixo, devagar, o coração acelerando enquanto sua mente fazia as possibilidades e então falhou uma batida quando enxergou o que lhe enroscava os tornozelos. A cobra escura sibilava baixinho, a voz uma cantoria para mim, mas duvidava que o rapaz tinha a mesma impressão.
— Mas que caralho?! — A voz dele, alta e solta atrás dos dentes, era só mais um indicio de seu estado. Flint se jogou para trás, pulando para fora do alcance do corpo da serpente e cambaleando até quase o meio da câmera. — Que porra é essa?!
— Eu não faria movimentos bruscos se fosse você, Marcus — franzi as sobrancelhas, dando pequenos passos para frente. Uma segunda cobra, vinda das sombras como se esperasse, veio em minha direção. Registrei o olhar afiado do sextanista, a boca ficando pálida à medida que meus dedos acariciavam o couro da cabeça. — Elas me seguem a vida toda. Olhando por mim, garantindo minha sobrevivência..., mas não acho que se aplique a você.
— Chega dessa merda — Flint rosnou, os olhos escuros injetados pela perda da situação, pelo medo. Apontou a varinha para a cobra mais próxima dele, o feitiço que a faria virar apenas cinzas na ponta da língua. Sua boca chegou a se abrir, mas não foi qualquer palavra compreensível que saiu de lá. O grito sem fôlego e curto, a surpresa e a dor não dando muito espaço para a voz ser projetada quando o bote aconteceu e a mandíbula forte do réptil se fechou em seu pulso.
Consegui ouvir o barulho do osso sendo esmagado, senti o cheiro de sangue da carne cortada. A varinha rolou no chão e os joelhos falharam com o medo da situação, com a dor da mordida. A serpente que estava ao meu lado deslizou até ele, repetindo o mesmo movimento que a outra ao vê-lo levar a outra mão em direção a cabeça que o prendia, em uma atitude desesperada para se soltar.
— Você sabia que a mordida de uma cobra é uma das mais fortes do reino animal? — Minha pergunta foi mais alta do que seu segundo escândalo, enquanto observava o garoto no chão. Burro. Burro e prepotente. — É praticamente impossível que a presa se solte depois de agarrada. Sabia também que é a mais flexível? A mandíbula de uma cobra pode se deslocar de tal forma a ingerir animais três vezes maiores do que elas, como um cavalo. Ou um adolescente humano.
Branco. Marcus estava branco como uma folha de pergaminho ao ter os dois braços imobilizados e de joelhos no meio da câmera escura, uma vez que sua varinha se apagou quando caiu. Mas eu ainda podia vê-lo. Não o mais confiável, mas o sentido da visão podia ser um auxiliador bastante produtivo. Não algo a que se confiar, mas o bastante para tomar notas. Por exemplo, eu podia ver o suor correr pelo seu rosto, ensopando sua camisa – de dor ou de esforço de não se contorcer, não conseguia decidir. Mas consegui, muito claramente, enxergar quando sua respiração foi trancada dentro da própria garganta pelo medo quando sentiu uma terceira serpente subindo pela pele de suas costas.
— Lewis... — sua voz veio em um sussurro de garganta rasgada, os lábios trêmulos. — Lewis, escute, eu não... era só um susto! Eu não ia te machucar, eu juro, nada grave, só...
— Eu sei exatamente até onde iria o seu susto, Flint — torci a boca bem fechada em um impulso de conter meu estômago. Asqueroso. — Você é patético e um covarde. Eu não tenho razão para ter pena de você.
— Lewis... — Marcus gaguejou, o corpo da serpente bem enrolado em seu pescoço, a cabeça, enquanto ainda mais chegavam pelas sombras. Elas corriam por suas pernas, rodeavam suas coxas, subiam por seus braços. O terror absoluto nos olhos escuros do quase veterano de Hogwarts era como a rachadura de um vaso, revelando o interior. Era isso que ele era. Um fraco, um covarde, um desgraçado. — Lewis, por favor!
— Eu disse, Flint, eu disse mesmo — virei meu corpo, enojada com qualquer tempo que pudesse perder com ele. Ele não merecia. Não merecia o mesmo ar que eu respirava. — Disse para vir com seu melhor, pois você não iria ter outra chance.
— Lewis! — O desespero era, na maioria das vezes, a real causa da morte em situações de risco. — Mal, por favor!
— É Malorie para você — dei as costas, deslizando meus pés para fora da câmera. — E devia poupar seu fôlego. Elas podem demorar dias.
A porta se abriu e se fechou e então eu estava outra vez no familiar corredor que levava a minha sala comunal. Os gritos de desespero e de dor de Marcus Flint, o capitão do time de quadribol da Sonserina, ainda ecoavam por toda masmorra, mas quem iria ouvir? Não com a chuva castigando o castelo, não com todos acolhidos em volta das lareiras. Ninguém teria me ouvido, também. Ninguém me ouviria naquela câmera, no escuro, com ele em cima de mim. Eu estaria sozinha e com medo e com dor, e ninguém saberia.
Os archotes haviam voltado a arder, afastando as sombras, mas ainda não os gritos. Era questão de tempo, mesmo que eu apostava no mais tarde invés do mais cedo, que alguém o encontrasse. Busquei, então, meus livros na escada e andei em direção a sala de aula de poções e então para o escritório do diretor da Sonserina além dela. Ele estava lendo perto da lareira e não levantou os olhos quando a porta se abriu.
— Nós não temos aula hoje — me dispensou com a voz seca. — Não suportarei sua presença desgastante quando não for necessário, então saia.
— Marcus Flint — foi a minha voz que o fez me olhar. Minha maldita voz. Distante demais, baixa demais. Muito fácil respirar e controlar uma situação de risco, havia treinado a vida inteira para não quebrar sob pressão. Mas depois... Salazar, ele ia... — Marcus Flint tentou... — me atropelei, coçando a garganta para achar minha verdadeira voz. — Ele está...
Em menos de um minuto Snape estava na minha frente, quase ajoelhado. Tirou os livros de meus braços e passos os dedos por eles, percebendo-os gelados. Ele não estava com a varinha, mas fiz um último esforço da minha mente cansada. Fui até ele, mostrei os minutos na câmera da masmorra. Leve-os, eu queria dizer. Leve cada segundo. Não quero comigo, não quero a lembrança disso, do que já acontecia, de novo e de novo, na mente de Flint.
Severo não podia ver por si mesmo, apenas o que eu lhe mostrava, mas podia sim sentir o que aquilo me fazia. Podia perceber minhas emoções, podia digeri-las. Isso era ótimo pois no momento nem eu mesma conseguia essa proeza, então me concentrei nas dele. Na sombra que engoliu seu coração, na raiva gelada que abafou seus sentidos, no desejo assassino de sangue e vingança, mesmo que fosse contra um de seus alunos. O professor se levantou e me guiou para onde estava sentado.
— Espere aqui — foi tudo que disse antes de me deixar sozinha. Observei sua capa negra esvoaçando enquanto ele saia do escritório, e então olhei para o fogo. Era esverdeado, assim como o da sala comunal. Bonito, mas uma pena que seu calor não chegasse aos meus ossos. Mal chegava na minha pele. Devagar, deixei que minhas costas afundassem na poltrona macia.
Eu estou bem, finalmente dei ouvidos a presença irada e preocupada de Lagrum. Fique onde está. Eu estou bem. Ele não chegou a encostar em mim, você me treinou bem.
Malorie...
Estou bem, repeti, as chamas desfocadas na minha frente e o frio crescendo dentro de mim. Eu estou bem.
Lagrum teve que se contentar com isso, pelo menos por enquanto. Eu também, de certa forma. Fiquei encostada na poltrona, sem contar o tempo, desejando que as chamas na lareira estivessem dentro de mim, que fossem fortes o bastante para transformar em cinzas tudo que absorvi de Marcus Flint. Seus desejos, seus pensamentos, sua essência repugnante. Eu não era nada além de uma maldita esponja, ou uma antena, ou uma mistura grotesca dos dois.
O fato era que não me senti desse jeito, tão enojada e doente, nem mesmo quando o Lorde Voldemort fatiou minha consciência em pedacinhos para saboreá-la. Naquela vez, senti raiva. E dor, claro, mas a raiva... o ódio de alguém fazer aquilo comigo, de brincar com minhas cabeça, de saltar entre minhas memorias como capítulos de um livro... eu devolvi a ele o favor. Mas com Flint encostar em algo tão ruim, tão errado – era como ter mergulhado em piche, em lixo, em lama. Todos ao mesmo tempo.
Para alguém imune a veneno, eu tinha bastante familiaridade com aquela sensação, ainda mais depois dos últimos meses. O sentimento de algo errado, de ser corroída de dentro para fora, de ter seu próprio corpo te mandando embora. Uma estranha na própria pele. Lagrum tinha razão, eu tinha que trocá-la, mas para o que? Não tinha certeza de que queria saber a resposta, mas decorei alguns fatos ao longo dos anos: seja o que vier, viria nova e brilhante, grossa e resistente, pronta para suportar e suportar... ao menos até a próxima vez.
Quando a porta se abriu, apenas meus olhos registraram as três pessoas que entraram no cômodo. Da minha mente, apenas o silêncio. Trancafiei ela dentro de mim, ainda suja, mal suportando sua própria presença. Meus olhos passaram pelos rostos da professora McGonagall, de Severo e do diretor Dumbledore, focando nesse último. Aquele rosto sério, o comum sorriso gentil tinha ido embora. Os olhos faiscavam atrás dos óculos, muito azuis e muito endurecidos pela situação.
— Lewis — a voz de Minerva me chamou, foi a primeira a se aproximar de mim. Fazia sentido, imaginava. Mulheres tendiam a se sentirem mais confortáveis com mulheres, principalmente após situações desagradáveis com o sexo oposto. — Srta. Lewis, olhe para mim.
Olhei. Lhe dei minha atenção, meus olhos, se era isso que tanto queria. Deixei-os rolar das chamas crepitantes da lareira em direção aos olhos da vice-diretora. Era verdes, também, e apertei minha boca ao sentir as emoções da mulher rastejaram em minha direção. Podia senti-las se aproximando e recuei meu corpo como se isso pudesse as parar. Não queria. Não queria nada disso. Nem um minuto a mais.
— Ela precisa ir para a enfermaria — Severo sugeriu em um imperativo, os olhos fincados em mim. Sua varinha estava em punho, reparei, diferente de quando havia saído. Ele havia a usado? Quase desejava que sim. — Poderia leva-la, Minerva?
— Ele não está lá, Mal — Dumbledore fez a voz suave, mesmo que os olhos estivessem congelados ainda quando não me mexi para ir, e afundei mais na cadeira para me afastar das mãos de McGonagall. — Foi levado para o St. Mungus e se algum dia chegar a pisar fora do hospital, não estará vindo para cá.
O Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos, o maior nome em toda Grã-Bretanha. Nunca tinha ido lá e só o conhecia pois estava na lista de lugares para se ler sobre, para aprender sobre minha própria comunidade. Sabia que ele ficava em Londres, sabia que já havia quase ido para ele no ano anterior, se tivesse ficado inconsciente por mais um dia. Tratar Flint era um desperdício de trabalho. Ele não merecia o esforço dos curandeiros que o receberiam.
— Devo prestar uma queixa formal — comecei, a língua pesada me irritando. Puxei o ar entre os dentes, afastando aquela letargia o tanto quanto consegui. — Ou o testemunho de Snape já basta?
— Os Flint são uma família antiga — foi Gancho quem falou, e gostei que tivesse. Apreciei seus olhos gelados e seu rosto duro, sem a pena e preocupação estampadas ali. Poderiam estar em algum lugar, mas não procurei. — Fazem parte das Sagradas Vinte e Oito. Os pais vão querer saber o que, exatamente, aconteceu com o filho deles.
— Então diga a eles que o filho é um cretino doente — aí estava. A queimação. A raiva rachando o frio dentro de mim, fervendo o que encostasse. — Diga que ele tinha planos de atacar e abusar de uma menina de doze anos, e que a estava esperando em uma emboscada no escuro a caminho da sala comunal. Tudo por vingança, por orgulho ferido, por achar que era seu dever e direito de lhe ensinar uma lição. Essa lição. Diga que aquele pedaço de merda teve o que mereceu.
Houve silêncio depois disso, inclusive de Lagrum. Sua presença constante e irritada desapareceu por um momento ou dois e, quando puxei o ar novamente, senti-o chegar aos pulmões pela primeira vez desde que havia deixado Potter subir as escadas rumo a sua torre, quase uma vida atrás. Disse cada palavra olhando nos olhos de Snape, pelo menos até chegar no final. Foi quando encarei Alvo Dumbledore e o desafiei a dizer alguma coisa. A fazer qualquer discurso de "controlar impulsos" e "cuidar para não ultrapassar a linha". Mas ele não fez. Suportou meu olhar e não havia qualquer censura, em qualquer nível, em seu rosto, em seus olhos atrás dos óculos de meia lua.
— A enfermaria, Minerva, por favor — foi tudo que ele disse. E dessa vez, deixei que as mãos da professora tocassem meus ombros e me tirassem da cadeira. Ainda parei no meio do caminho, engajando meus livros debaixo do braço, e então me deixei ser guiada e, posteriormente, internada.
Não que houvesse qualquer coisa para tratar. Marcus Flint não havia chegado sequer perto de encostar em mim, além de sua varinha em meu pescoço. Mas não neguei o leito tranquilo da ala hospitalar, nem a caneca de chocolate quente ou a checagem extensa de Pomfrey. Trocada e acomodada, tomei devagar o liquido doce enquanto olhava para as várias janelas do lugar. Em dias claras, serviam como uma iluminação natural, deixando toda a enfermaria brilhante e arejada. Mas agora, em meio as chuvas do outono, eram apenas passagens para a água torrencial que caia do lado de fora. Estavam todas fechadas, mas os grossos pingos faziam bravas tentativas de atravessar os vidros.
Lagrum estava lá fora. Debaixo dessa chuva, chafurdando em lama, buscando o melhor abrigo que podia encontrar. Cobras eram criaturas resistentes, adaptáveis, e eu sabia que não era a chuva que derrubaria meu amigo. Ele poderia sobreviver em terra ou água, em deserto ou mata, com pouca ou muita água, tendo o sol ou o frio em sua volta. Lagrum então estaria lá fora, com seu forte couro o protegendo e seu sangue gelado o impedindo de sentir as gotas geladas de água que caiam nele. Sobrevivendo. Resistindo. Se adaptando para seguir em frente, para continuar, para ver outro dia.
Era isso que eu devia fazer. Era isso que parte de mim já estava fazendo. Eu só precisava de tempo para tirar a podridão de Flint de dentro de mim. Greta também havia me envenenado, no início. Eu sempre sabia o que ela iria fazer mesmo antes de que escolhesse o flagelo da vez. Eu sabia por quanto tempo iria durar, eu podia sentir seu gosto por sangue, sua necessidade de me ver sucumbir à dor. Ela queria que eu chorasse. Desde a primeira vez, ela queria que eu implorasse compaixão. Nunca lhe dei esse prazer e não daria a Marcus.
Greta não havia me quebrado.
Não seria ele que faria isso.
Li grande parte de um dos livros que havia pego na biblioteca até Papoula me chamar atenção para a hora e me mandar descansar, afinal, era a razão de eu estar ali. Descanso. Então não pestanejei para deixar o objeto de lado e me acomodar nas cobertas, as chuvas e o frio me recebendo no mundo dos sonhos. O cheiro de terra molhada, a natureza em silêncio para ouvir a água que castigava a terra. E Lagrum. Molhado, mesmo nessa representação, mas não liguei. As mãos de McGonagall e de Pomfrey eram firmes e quentes, mãos humanas quentes e não necessariamente desagradáveis. Mas eu estava acostumada ao couro frio e meio pegajoso, a textura reticulada de escamas, a carne dura por baixo.
Como seu instrutor, eu digo que você não tem tempo para essas bobagens.
— Sei disso — respondi no meio de suas dobras, apoiando a cabeça para olhar para seus olhos muito escuros. Eu não podia ver a fenda da sua pupila, mas sabia que estava lá. — Não tenho tempo para lágrimas, Lagrum. Eu nunca tive. Mas, por curiosidade, tem algo a dizer além disso?
Estou orgulhoso de você.
Por não quebrar. Por me sobressair à Marcus Flint. Por lutar e vencer. Por continuar lutando, mesmo depois de já ter deixando aquela câmera. Ele sabia que eu ainda lutava, o maldito tinha essa consciência mais do que eu. Que eu o fazia todos os dias, sem descanso, a tanto tempo que eu não me lembrava como era não fazer isso. Não fincar os olhos na frente, respirar fundo e seguir em frente. Sempre em frente. Para sobreviver, para continuar, para fazer valer a pena em alguns dados momentos. Espertas o bastante para adaptar, uma esperta rápida e dirigida para a autopreservação – astúcia. E com ela trocar de pele, se adaptar, ver outro dia.
Eram isso que cobras faziam. Era dessa forma que fui criada.
Eles não iriam me quebrar.
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