Corona II

19 Sabor de Luz


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Sejam bem vindos ♥ Os comentários do cap 18 vão ser respondidos durante a semana. Obrigada a Ella Branco (Bella ♥), MaduBlackfyre e Milly pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

A noticia que circulou nos corredores do castelo na manhã de sábado do dia 31 de outubro, o Dia das Bruxas, era que Marcus Flint havia deixado a escola. Seus colegas de ano, principalmente de dormitório, foram os que notaram sua ausência. Ao procurarem o diretor da sua Casa, Severo Snape, foram rispidamente informados que o garoto estava internado no Hospital St. Mungus devido a uma ocorrência no início da noite do dia anterior. Foi Gancho que havia ido me ver, tão cedo que eu duvidava que ele houvesse dormido, antes mesmo que eu conseguisse liberação de Pomfrey. A curandeira nos deu licença, decidindo terminar sua checagem depois, e encarei aquele rosto que, se tivesse que adivinhar, diria que se amargou um pouco mais durante a madrugada.

— Você não dorme?

— Você dorme? — Devolvi. Algo como alivio passou muito rápido por seus olhos e eu sabia o motivo. Uma parte dele tinha consciência da possibilidade de eu ainda estar presa dentro de mim, de ainda ser o ser mais animal ferido do que garota, que havia sido tirado da sua sala. A volta da minha presença de espirito foi um bom sinal.

— Tive certas pendencias durante a noite — foi tudo que me respondeu ao se aproximar da cama em passos lentos, a capa negra farfalhando ao fazer isso. — Saiba que a situação foi tratada como devia.

Tombei a cabeça, meus olhos analisando os escuros do professor. Ele estava com as mãos juntas na frente do corpo, nada de varinha. Então foi trabalho meu fazer minha mente engatinhar até ele, alcançando o toque gelado que era sua consciência com quase gratidão. Era como colocar água gelada em cima de uma queimadura. Snape não foi até os diretores, não em primeiro lugar. Ele foi até Flint e ficou com ele por um tempinho. O bastante para que, se houvesse alguma chance de recuperação quando eu sai, agora já não havia mais. Nem para sua mente, nem para seu corpo.

— Imagino que a antiga e respeitada família Flint não está nada feliz — disse devagar, uma satisfação macabra puxando só a pontinha dos meus lábios para cima. Obrigado. Era o que queria dizer. Não pelo que fez, mas por fazer. Por mostrar que Greta estava errada.

— Magna Flint, a mãe, estava muito disposto a iniciar uma caça às bruxas em busca do que tinha feito aquilo ao filhinho dela, além de criar um escândalo em cima da escola por não ter garantido a segurança de seu rebento — os lábios deles se apertaram. — Jonas Flint, por outro lado, estava mais disposto a ouvir. Parecia conhecer melhor o caráter do filho do que a mãe. No fim, concordaram que a imprudência adolescente em adentrar a Floresta Proibida era algo que teria consequências para toda a vida.

— Floresta Proibida?

— Não é a primeira vez que um aluno arrogante e confiante demais passa por cima dos alertas da escola e adentra o lugar — os tuneis de seus olhos desceram alguns níveis. — Nem a primeira vez em que deixam algumas partes para trás.

Não havia sido uma negociação fácil. Não chegou a ser uma, na verdade, e ambos os lados não saíram contentes. Eu consegui ver a reunião privada no escritório de Dumbledore que havia ocorrido após os pais serem dispensados do leito do filho para os curandeiros prestarem os primeiros e mais essenciais socorros. Eles não seriam de ajuda ali, então se dirigiram para o próximo lugar: a escola.

Eles estavam lá, no escritório, com Severo e Alvo e Minerva. Nenhum dos três dispostos a prestar sentimentos ou desejos de melhoras, os olhos frios de raiva e as costas retas de tensão. Mesmo Dumbledore não exibia qualquer traço de sua habitual face de velho sábio e bondoso. Não, ele parecia muito alto e muito perigoso em pé ao lado de sua própria mesa, os olhos azuis faiscando de poder.

Aqueles olhos, mais do que o ambiente nada receptivo, fizeram Magna Flint fechar a boca em uma torção odiosa que me lembrou o próprio filho, enquanto seus olhos faiscavam e as narinas dilatavam com a respiração forte e puxada. Ela queria sangue, mas logo descobriu que o único que receberia outra coisa, muito mais amarga. Ameaças de ambos os lados, qual escândalo era maior: escola e diretor incompetentes ou herdeiro de rica e tradicional família bruxa acusado de tentativa de estupro? Se nenhum lado cedesse, a guerra nos tribunais no Ministério da Magia e as manchetes do jornal poderiam ser estendidas por meses, talvez anos, levando ambos os nomes para baixo.

E eu estaria novamente nos jornais. Dessa vez, minha foto estampada ao lado da de Marcus e eu podia imaginar como isso acabaria. Uma órfã sem um tostão no bolso, sem nenhuma raiz ou suporte na comunidade bruxa. Nascida trouxa, até onde podiam saber. Vinda de lugar nenhum, com nada na bagagem. Eu sabia que alguns diriam que inventei, que era só mais uma morta de fome, alguém querendo fama e dinheiro atrás do escândalo. Eu sabia, pois foi isso que Magna Flint havia começado a sugerir. Foi seu marido que a silenciou, muito mais atento a expressão predatória de Snape.

Jonas Flint conhecia o filho melhor, e a constatação disso fez meu estomago vazio antes do desjejum revirar. Já havia acontecido antes, em algum lugar, talvez mais de uma vez e talvez em diferentes níveis. Manchetes chamativas poderiam encorajar, poderiam cutucar assuntos até então silenciados. Havia de se admitir as cartas e as colocar na mesa: o verdadeiro motivo da condição de Marcus não poderia sair daquela sala. Isso fez com que Magna engolisse seu desejo por sangue. Não haveria balburdia. Eles aceitariam em silêncio o estado do filho, sem uma palavra em busca de vingança ou justiça, se outra versão fosse contada. Uma que não envolvesse a emboscada de uma garota de doze anos.

Foi a floresta, então. Era o que os amigos e colegas preocupados de Flint receberiam como resposta dos pais do garoto ao escreverem procurando respostas sobre seu repentino desaparecimento. Era a nota que o Profeta Diário publicaria, pois de uma forma ou de outra a internação do herdeiro seria notícia. Uma fatalidade, um acidente causado por ele mesmo e nenhuma consequência para a escola, que avisava tão frequentemente sobre os perigos da floresta em seus terrenos, e reforçava tantas vezes que o local era proibido e que, quem se aventurasse nela, corria risco de vida. Mais importante, nenhuma repercussão em minha direção.

Meu nome sequer havia sido mencionado. E, quando os pais se levantaram para irem embora, Dumbledore verbalizou, apenas para não restar dúvidas, que se algum dia Marcus Flint se recuperasse, ele não era mais bem-vindo em Hogwarts. O senhor e senhora Flint compreenderam muito bem, principalmente pela figura nociva de Severo ao lhes lembrar sobre a gravidade do estado do rapaz – com uma voz suave como deslizar de uma cobra na grama – que o melhor para seu filho era, de fato, o St. Mungus. Ele não estaria seguro fora de lá. Alguém havia feito aquilo com ele. E alguém ainda poderia querer terminar.

— Eu acho que é o melhor que se pôde tirar da situação — respondi devagar. Não era o ideal. Não havia sido apenas eu, não para Jonas Flint concordar em abafar o caso, em conter os danos. Mesmo se fosse apenas mais uma, já era mais o que suficiente. Seja quem for, estava lá fora. Silenciada pelo nome Flint, por seja qual acordo que haviam feito com ela, se houve algum. Ela merecia justiça. Talvez ficasse sabendo do que aconteceu com Marcus, talvez se satisfizesse, mas ainda não era o bastante. O desgraçado ainda estava vivo, com o nome limpo, incapacitado por uma "inconsequência adolescente". Ele estava limpo, enquanto quem quer que fosse, ou fossem, levaria aquela sujeira para sempre.

Guardei esse sentimento bem no fundo de mim, marquei à ferro em minha memória. Eu traria a lama para ele. Para sua mãe e para seu pai. Eu arrastaria todos eles para a mesma podridão onde haviam soterrado quem quer que fosse, até que toda maldita família sumisse de vista, até que desaparecessem da face da Terra em desgraçada e vergonha. Era uma promessa. Eu os mancharia nem que isso demorasse toda uma vida. Eu ainda iria me lembrar.

— No momento, sim — Severo moveu a cabeça em discreta concordância. Sem varinha, mas ainda capaz de identificar emoções. Eu não estava as prendendo para sequer ser difícil. Não que eu precisasse, mas eu tinha seu aval. — Imagino que não ficará por aqui por muito mais tempo.

— Vou sair assim que Papoula terminar de ver que não tive nenhum derrame durante o sono — um sorriso pequeno se formou em meus lábios enquanto olhava em direção ao escritório da curandeira, onde eu sabia que esperava impaciente a visita terminar. — E então, depois, acho que é um dia festivo. Não planejo perder a decoração deste ano.

Ele inclinou a cabeça outra vez, agora em forma de despedida. Moveu o corpo em direção à porta, a capa negra esvoaçando em seus calcanhares. Observei a porta se fechar atrás do mestre de poções e então corri os olhos para as grandes janelas. A chuva havia dado uma trégua e um sol muito pálido e fraco, pronto para ser engolido pelas nuvens a qualquer momento outra vez, despontava no horizonte. Não era um dia de verão. Não era um dia límpido. Era novo, sim, mas ainda trazia as lembranças da noite anterior: as nuvens carregadas continuavam aqui e ali, prontas para desabar. Considerei um bom pressagio o simples fato de o dia ter nascido com claridade. A escuridão sempre tinha um fim, mesmo que não parecesse, afinal.

Como de costume, fui em direção a minha sala comunal depois que Pomfrey decidiu que eu estava saudável o bastante para ficar longe de cuidados médicos. Ainda era muito cedo para que as pessoas se levantassem, ainda mais em um sábado, mas o castelo já estava acordado. Consegui sentir o cheiro que vinha das cozinhas, o banquete do Dia das Bruxas sendo preparado junto com o café da manhã. A expectativa do grande banquete me fez sonhar. Hogwarts, sendo uma escola bruxa, levava muito a sério essa data e a comemorava com louvor. O que era mais que compreensível, diferente do Natal.

Porém, parte do sorriso satisfeito se apagou quando passei em frente a câmera da noite anterior.

Parei na frente daquela porta, olhando para a escuridão parcial dentro dela. Não havia nenhuma mancha no chão, na verdade, não havia nada em qualquer lugar. Alguém havia limpado qualquer vestígio do que havia acontecido e agradeci por isso. Respirei fundo, absorvendo aquele lugar. Era caminho da Masmorra da Sonserina. Eu passaria em frente aquela câmera milhares de vezes durante meus anos em Hogwarts, já devia ter o feito algumas centenas de vezes, não era uma opção permitir o desconforto, as mordidas de lembranças ruins.

Aquilo era só uma grande sala de pedra. Se me lembrasse de algo, lembraria de Marcus Flint. De seus gritos, do seu pavor, do seu desespero. Dele, não meus. Eu havia saído daquela câmera, eu havia garantido que ele nunca deixasse de a enxergar. Era o palco da minha vitória, se tivesse que nomear – era a lembrança de uma promessa.

Horas depois após o banho mais intenso da minha, onde esfreguei minha pele com tanto vigor que só parei quando achei que minhas cicatrizes sangrariam outra vez, eu estava confortável no café do Dia das Bruxas. A grande festa seria apenas no jantar, claro, mas nem por isso os rostos deixavam de se iluminar em todo canto de expectativa e o assunto "Marcus Flint" rivalizava com os olhares admirados da decoração. Haviam os morcegos vivos do ano passado, além das gigantescas aboboras de Hagrid – tão grandes que, ao serem recortadas para fazerem lanternas, era fácil um homem adulto entrar ali. Talvez até três.

Me sentei direto na mesa dos leões, daquela vez. Fazia tempo que não tomava café da manhã com os grifinórios e eu me sentia no direito de me acomodar em sua atmosfera constante de vigor. Era como ar fresco toda aquela disposição, aquela energia, aquela garra. O sorriso no rosto de Granger quando me sentei foi mais um toque gentil na mais recente cicatriz dentro de mim.

— Bom dia, Mione — retribui seu sorriso ao me sentar ao seu lado. — Onde estão os outros dois?

— Devem estar acordando, ainda — ela pousou a colher em sua tigela de cereal. — Harry chegou do treino ontem ensopado, só imagino o quando Wood tem puxado deles...

— Até o limite e um pouco mais, imagino — respondi com uma torção de boca, a imagem abatida e molhada de Potter bem fresca em minha mente. — Mas eles são atletas, é o mínimo a se fazer.

— Mínimo ou não, não tenho qualquer inveja — Hermione devolveu, o rosto meio torcido de exasperação. — A chuva de ontem não estava para brincadeira. É quase um milagre que todo o time não esteja fazendo fila na ala hospitalar.

— Talvez estejam e nunca saberemos — pisquei um olho para minha amiga que soltou uma risada fácil. Fácil. Como se tem que ser, como uma garota de treze anos deve dar. — Como está sua queda pelo Gilderoy?

Foi sorte a garota ter acabado de colocar o copo de suco nos lábios, pois assim o engasgo não foi tão feio. Observei seu rosto vermelho e seus olhos saltados, e então ri.

— Eu não tenho uma queda por ele, Mal, que bobagem...

— Granger, aquele cara é o pior professor que já pisou neste castelo. Se Dumbledore tinha a opção de contratar ele ou deixar o cargo vago, aprenderíamos mais com uma cadeira vazia. Mas se tem uma coisa que Lockhart sabe fazer é ser bonito, até eu vejo isso. Só é decepcionante que você veja apenas o lado que quer — inclinei a cabeça. — Ao menos está estudando por fora, na biblioteca?

A chegada de Potter e Weasley salvaram Hermione de admitir sua humilhação em voz alta, mas eu consegui ler em seu constrangimento e nervosismo: era claro que estava. Por mais encantada pelos olhos azuis e sorriso branco do professor que estivesse, Mione ainda era a bruxa mais inteligente que eu conhecia. Ela não estava deixando todo seu conhecimento do ano ser sobre as aventuras do homem ao redor do mundo, o que me aliviou bastante.

— Ei, Mal, dia — Ronald cumprimentou ao se sentar, a mão indo rápido em direção aos pães. — Decidiu ficar com a gente hoje?

— Vocês se livraram de mim por tempo o suficiente, Weasley — devolvi em um sorriso. Harry, que havia se sentado ao lado do melhor amigo e de frente para mim abriu um sorriso pequeno, os olhos verdes brilhando como sempre deveriam fazer.

— Ninguém aqui quer se livrar de você, Mal.

— Melhor, seria inútil tentar — pisquei um olho para ele, sorrindo de volta. — Me parece muito melhor do que ontem. Sono revigorante?

— Bastante — e então sua mente brilhou como um farol, me chamando até ela. Sem hesitar, me debrucei ali, vendo sua gratidão sobre minhas palavras na noite anterior. Haviam feito certo efeito, afinal, e um bom. Meu sorriso se alargou.

Não hesite em chamar, Garoto de Ouro.

— Nós vamos ter mesmo que ir hoje a noite? — O lamento me fez arrancar os olhos das pedras verdes de Potter, rolando-os para Rony debruçado em seu prato cheio com panquecas e duas torradas. O garoto deu uma garrafa e olhou em volta, para a decoração do Dia das Bruxas, e seus ombros caíram. — Quero dizer, ouvi falar que Dumbledore contratou uma trupe de esqueletos dançarinos.

As emoções de Harry, relaxadas e tranquilas até agora, se transformaram em um desapontamento quase latente enquanto também prestava atenção no ambiente. Arqueei uma sobrancelha.

— Talvez pudéssemos explicar...

— Promessa é dívida — Mione o cortou, completamente recuperada do embaraço que a coloquei. Tinha as sobrancelhas franzidas e a voz séria, assumindo seu ar de responsabilidade exagerada. — Você disse que iria ao aniversário da morte.

— Aniversário da morte? — Entrei na conversa, meus olhos pousados no garoto pequeno com uma cicatriz na testa. — O que eu perdi?

— Quando nos despedimos ontem a noite, acabei encontrando o Nick no caminho para a Torre, sabe, o fantasma da Grifinória — ele começou a explicar. — Ele parecia muito chateado com alguma coisa, então puxei assunto. Ele quer entrar em algum tipo de grupo de elite de caçadores, a Caça Sem Cabeça. Mas como, bem, ele ainda tem uma cabeça, mesmo que por um fio, recusaram. Parece que não pela primeira vez — Harry encolheu os ombros, como de costume, deixando a cena se desenrolar para mim. Eu estava vendo com clareza o rosto exasperado e amargura no fantasma. Não o criticava. Quarenta e cinco golpes, Salazar seja louvado... eu também me acharia no direito de um convite estupido. — Estávamos conversando sobre isso quando Madame Nor-r-ra apareceu. Você me viu ontem, eu estava imundo pelo treino. E Nick me avisou para sumir dali, e eu bem que tentei, mas Filch chegou primeiro.

— Eu acho que Fred e Jorge andam pegando pesado — Hermione, que claramente já sabia da história, continuou. — Não deve estar sendo fácil mesmo manter o castelo limpo, com toda essa chuva e um monte de gente sujo de lama sujando o chão toda hora. Ainda por cima com gente sujando as coisas de propósito. Filch deve estar muito estressado.

— Concordo que eu também não te daria nenhum beijo por sair marchando daquele jeito no chão se fosse eu que tivesse que limpar, na verdade, eu faria limparia ele de novo com você — encolhi os ombros, ainda olhando para Potter. — Mas Filch deve ter exagerado, também.

— E exagerou! — O garoto se defendeu. — Eu também já limpei muito chão, na casa dos meus tios. E Duda sempre que podia atrapalhava e sujava outra vez, às vezes sem nem esperar eu terminar. Mas Filch pegou um pergaminho inteiro e começou a fazer uma ficha, com meu nome e o tipo de crime, até punição sugerida! Eu iria me encrencar se um barulhão não tivesse acontecido. Filch achou que era o Pirraça e simplesmente disparou porta afora, me deixando para trás. Claro que dei no pé — havia algo mais. Uma coisa no intervalo de tempo entre o barulho e a saída, mas Harry não parou de falar e nem sua mente de avançar. — Foi Nick, que convenceu o Pirraça a derrubar um armário em cima da sala. Me salvou de uma detenção.

— É, aí esse miolo mole aqui — Weasley resmungou, já tendo comido quase todo seu prato. — Ao invés de agradecer e ir embora, deu uma de solicito, dizendo que queria ajudar também. Claro que o Nick aceitou, disse que ele poderia ir na festa de aniversário da morte dele, sabe, em comemoração ao dia em que ele morreu. Para impressionar os outros fantasmas, inclusive o tal que negou a entrada dele no clube. Chamou a gente também, e vamos lá dizer o quanto achamos ele assustador e tudo mais, para melhorar a moral de um fantasma durante a festa do Dia das Bruxas.

— Ele ficou muito feliz! — Potter protestou. Ainda que chateado pela perspectiva de perder o banquete, não deixaria o amigo menosprezar sua atitude. — Ele não tinha que fazer aquilo por mim. Não vai matar dar uma passada na festa, podemos subir correndo depois.

— Bela escolha de palavras, Cicatriz — comentei, fazendo ele soltar uma risada quase constrangida. Virei o pescoço, olhando em volta, e então deixei um sorrisinho afiado ser desenhado pelos meus lábios. — Agora, eu desejo a vocês toda a sorte do mundo em fazer Nick-Quase-Sem-Cabeça parecer assustador.

— Ah, Mal... — Granger começou, as palavras enroladas na sua boca. — Não é bem assim. Ele tem seus méritos.

— Mione, Nick só não perde para o Frei Gorducho — devolvi com uma sobrancelha levantada. — Até a Dama Cinzenta é mais assustadora do que ele, toda silenciosa e distante. Mas o fantasma de vocês? Ele no máximo é grotesco, até surpreendente na primeira vez que mostra a razão do nome. Fora isso, não sobra muita coisa no departamento medo.

Infelizmente, para os três leões, não havia o que discutir. Até cheguei a ser convidada a acompanha-los, mas respondi ao delicado convide de Ronald Weasley com uma negação e uma voz doce.

— Alguém tem que experimentar o pudim e ver a apresentação dos esqueletos por vocês, Rony.

O rosto dele se fechou, mas havia um pequeno sorriso que lutava contra as feições duras no canto de sua boca, um bom-humor que brilhava em seus olhos azuis, herdados do pai.

— Vai nadar em bosta de dragão, Mal.

Hermione o repreendeu, mas eu e Harry gargalhamos alto. Depois de terminar o café e me despedir do trio, passei o dia inteiro dentro do dormitório. Tinha deveres para começar, outras para terminar e mais alguns para revisar. Sem falar das cartas no meu criado-mudo, ambas recebidas no dia anterior, do Velho Tom e de Olivaras. Minha correspondência com eles era ininterrupta e nunca entediante ou vazia. Lia sobre seus clientes rotineiros, sobre como andavam as coisas no Beco, sobre qualquer coisa que quisessem me contar. E, ao que parecia, ambos tinham muita paciência (ou verdadeiro interesse) na minha escolar: Garrick com frequência me aconselhava sobre melhores técnicas de estudo e métodos de redação, enquanto o Velho Tom havia ficado muito feliz em saber que, de fato, eu e Cedrico Diggory havíamos desenvolvido certa afinidade.

De proposito, pulei o almoço e só vi meus companheiros de casa ao sair do dormitório a caminho do jantar. Avistei Sue Hopkins sentada em um dos sofás afastados, os joelhos juntos aos de um Nott debruçado, surrando alguma coisa. Não conseguia ver o rosto de minha amiga, tampado por seu cabelo vermelho, mas ela balançou a cabeça para alguma que ele disse e, ao fazer isso, conseguiu me ver. Pulou tão alto e rápido para longe do garoto como se ele estivesse com alguma doença contagiosa mortal. Theodoro não se moveu enquanto a conversa terminava e Sue vinha na minha direção, mas acompanhei seus olhos na pequena garota. Eram escuros, como os de tantos desta casa, e pareciam nem perceber a horrível desfeita. Pareciam quase estar sonhando.

— Decidiu sair da toca, hem, Mal? — Hopkins forçou uma risada quando me alcançou, as mãos indo em direção ao meu braço e parando sob meu olhar, seu nervosismo a fazendo esquecer de que não devia me agarrar. Nunca. Jamais. Sob nenhuma circunstância. Suas mãos, então, caíram do lado do corpo e o sorriso se tornou mais amarelo. — Desculpe, foi quase, desculpe.

— Para quê tudo isso? — Forcei as palavras saírem por cima do rugido da minha cabeça, do meu sangue correndo pelo pico que a aproximação de suas mãos havia feito. Fiz força para ignorar a dor fantasma que se espalhou pela minha pele. — Ele parece gostar de você. Qual o problema?

A garota ficou em silêncio, a boca mordida pelos dentes. Sue era baixa, e não dizia isso apenas por ser a garota mais alta do meu ano. Hopkins era menor do que Parkinson, que tinha uma altura mediana, o que a fazia quase duas cabeças menor do que eu. O fato não ajudou sua póstuma subitamente vulnerável, as emoções nubladas e tensas vindo para mim. Percebi que ou Sue era uma excelente dominadora de suas próprias emoções ou eu estava muito pouca atenta a garota que dormia ao meu lado.

— É complicado — foi tudo que respondeu com a voz baixa. Franzi as sobrancelhas, minha própria mão indo até seu braço fino, enlaçando-o com o meu. Suavizei o rosto enquanto Hopkins olhava para mim, seus traços finos e os cílios vermelhos por cima dos olhos escuros, e sorri. A pequena Sue Hopkins, eu devia prestar mais atenção as pessoas tão próximas a mim, que dormiam ao meu lado. Talvez, dessa forma, as coisas com Parkinson houvessem sido diferentes. Gostaria que tivessem sido.

— Talvez um dia deixe de ser.

Era uma esperança, se me atrevesse muito, pensar desta forma. E me divertia. Quem poderia dizer que eu chegaria a este ponto? Lagrum com certeza não, e nem mesmo eu. Mas pelo seu silêncio não necessariamente acusatório do outro lado, interpretei que não estava sendo uma decepção, afinal. Tudo na natureza tinha uma lei, um curso, uma balança. As coisas sempre aconteciam da forma como deveriam acontecer. Por enquanto, estava de ótimo tom para mim.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 18 ♥ Malfeito, feito! ♥