Corona II

34 Vermelho para Guerra


Notas iniciais
Hey guys ♥ Então, eu sumi. E não vou entrar em detalhes porque meio que não quero, mas foi um mês muito difícil pra mim. Fiquei semanas sem escrever uma linha, e por isso esse capitulo demorou tanto. FELIZMENTE escrever é a minha essência, e cedo ou tarde eu retorno para ela. Voltamos a programação original ♥ Obrigada a Ella Branco (Bella ♥) pelo comentário, o capitulo é pra você. Principalmente você, que me ajudou a sair do buraco que eu estava ♥ Seu comentário será respondido durante a semana ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Eu a chamava de Lady Daphy, pois uma senhora era tudo que ela era.

Desde o momento em que a conheci, sentada bem na minha frente na mesa da Sonserina no dia de nossa cerimonia de Seleção, ela era diferente. Suave de um modo que Parkinson nunca seria e comedida de uma forma que meu péssimo temperamento nunca iria permitir. Ela tinha ombros retos e uma postura perfeita e não fazia nada em excesso – nem falar, nem sorrir, nem se mexer. Nunca aumentava a voz ou perdia a compostura, se erguendo sobre todas nós como um pilar de calma, sensatez e etiqueta.

Eu a chamava de Daphy, pois ela ainda era só uma criança.

Com recém-completados doze anos, Greengrass agia muito mais com uma velha senhora do que como alguém de sua idade. E aceitei, durante todo este tempo, que isso era apenas parte de si. Criada desde o berço, desde as primeiras palavras, desde que se firmou nas pernas pela primeira vez para que honrasse e orgulhasse seu nome antigo e mágico. Não a partir de certa idade, mas sempre. Era parte dela aqueles olhos que diziam mais do que a voz moderada, do que o sorriso cortês, do que os passos elegantes.

Seus olhos não eram nem verdes, nem azuis. Eram os dois e brilhavam. Não apenas por serem claros como as águas do Lago Negro no auge do verão, mas por dentro. Vivos por uma essência pétrea e cálida, Daphne nunca teve medo mergulhar aquelas joias brilhantes na escuridão caótica dos meus. Ela a cortava como uma rocha contra as ondas e tantas, tantas vezes me estendeu a mão quando eu nem mesmo tinha consciência de que era isso que precisava.

Não.

Não — chiei entre os dentes, meu coração batendo contra o peito. — Isso é arcaico, é um absurdo, medieval...

Você estuda em um castelo de pedra, sem energia elétrica, iluminado por archotes e velas, fazendo deveres em pergaminho e escrevendo com penas-tinteiro. A voz de Lagrum ecoou no fundo de minha mente, ríspida e fria. Não finja surpresa.

— Não torne pior do que é — Daphne se aproveitou do meu silêncio. — Não é nada imediato e ainda vou ter o direto de escolher entre os selecionados, o que muitas não tem. Meus pais devem ter espalhado a noticia de que minha mão estava aberta a negociações em outubro. Tudo que mamãe fez foi dizer que eles já têm uma primeira lista para que eu analise e opine. Vai haver muito tempo de escolha, é um futuro que me aguarda apenas depois da escola.

— É um futuro que não devia existir de maneira nenhuma — teimei para seu rosto calmo, resignado, e seus olhos nublados. — Não me venha com essa conversa de que "não é grande coisa", ou você não estaria acordada tentando digerir essa carta as cinco da manhã. É por isso que estava tão quieta ontem, não é?

— O problema não é o casamento arranjado, Mal, nunca foi, eu sempre soube que me casaria com algum bruxo muito rico e puro sangue por aí, não me é novidade nenhuma. Assim como não é para Pansy ou até mesmo Emily. O problema é que nos últimos anos eu... — ela parou, os lábios apertados de palavras que arranhavam e rasgavam para sair. Mas ela era ainda Lady Daphy e as engoliu de volta, uma por uma. Me afundei em seus olhos, mas nem mesmo minha raiva me fez ir além do que seu rosto bem construído mostrava. Nunca poderia, não com ela, que respeitou meus silêncios mesmo quando não merecia.

Dormi pouco e mal nas horas que me restaram até o resto do dormitório se levantar. De malas prontas, observei minhas colegas tomarem o caminho da estação do Expresso de Hogwarts em Hogsmeade nas mesmas carruagens que as levaram para o castelo no inicio do ano. Fui com elas e me despedi de cada uma, até mesmo de Parkinson, e deixei que Blásio me abraçasse. Todos me desejaram felizes festas e eu fui capaz de sorrir para a animação genuína de todos eles, a expectativa de rever as famílias, a saudade do lar. Meus olhos, porém, se demoraram na Greengrass mais velha e em como seu sorriso para a irmã exultante quase não chegava aos olhos.

Herdeira. Título dado a pessoa a que a lei atribui a capacidade de suceder a pessoa que falece, comumente denominado de cujus, nos seus direitos e obrigações. Daphne tinha direito a muito coisa. Ao dinheiro, ao respeito, ao nome, a posição social, a vida uma vida de não apenas conforto, mas luxo. Mas antes disso, lhe foi ensinada desde muito nova que também haviam deveres, diretrizes especificas que deveria seguir para merecer. Isso estava em cada pedaço de sua personalidade construída envolta do cargo que um dia irá ocupar. Haviam obrigações, mas ela as conhecia fazia muito tempo. Meu humor se tornou sombrio, a pouca luz que reuni com os ânimos de meus colegas sendo apagada. Me chamaram de Herdeira de Slytherin – que legado isso me trazia?

O castelo de Hogwarts estava silencioso como uma construção abandonada, agora que quase sua totalidade de alunos havia o deixado. Muitos poderiam achar as paredes de pedra parcialmente iluminadas pela luz tímida do inverno agourentas, mas me fez apressar o passo. O dormitório já estaria vazio, Lagrum já teria chegado? Minha expectativa, porém, foi interrompida ao chegar no salão comunal e quase passar por cima e de um certo garoto muito loiro.

Merlin — Malfoy chiou ao desviar de mim no mesmo momento em que desviada dele. — Não vê mais por onde anda?

— Você está exigindo demais dos meus olhos diferenciar você da luz — rebati firmando meus pés no chão. Havíamos acabado os dois em pé, mais ou menos dois passos de distancia pelo recuo. Draco usava roupas de bruxo feitas sob medida para seu corpo e para a estação na cor prateada, o que realçava seus olhos, com detalhes em negro nas mangas. — Bons reflexos, aliás. Andou treinando?

— Quadribol ajudou muito — suas sobrancelhas claras se juntaram. — Estudar com uma louca também.

— Você devia agradecê-la, pois costumava ser patético de fácil acertar essa cara pálida — debochei em um sorriso, sem me preocupar em fingir que não sabia de quem ou o que ele falava. Ainda me impressionava com a exatidão que Pomfrey havia conseguido restaurar seu sorriso impecável. Mas, quase um minuto inteiro depois, Malfoy ainda estava na minha frente, os olhos mais parecidos do que nunca com duas estrelas – brilhantes e claros, e tão, tão distantes. Fiquei em silêncio, esperando que o garoto voltasse para terra, e quase começava a me afastar quando sua boca voltar a abrir.

— Sua roupa — ele apontou, as palavras saindo com lentidão, pesadas e incertas. — Você não tem nada mais quente do que isso?

Olhei para baixo, para os pedaços de pano que encontrei para me cobrir durante o inverno escocês. Não eram nada impressionantes como os de Draco, muito pelo contrário, o jeans e a blusa de lã azul-escura eram tão velhas que o primeiro estaria na metade das minhas canelas se meu coturno não os engolisse, e o segundo desfiava em vários pontos. Encolhi os ombros, subindo devagar pela roupa cara, aquecida e bem-feita que o cobria.

— Tive um suéter bem novo e menos furado — devolvi com os olhos estreitos. — Mas roubaram do meu baú e então queimaram em uma fogueira digna da Caça às Bruxas.

Pensei ter visto, por alguns segundos, a cor vermelha subir pelo seu rosto, mas sumiu tão rápido que também poderia ter sido reflexo do fogo na lareira mais próxima. Malfoy estava com pressa e acenou quando saiu depois disso, murmurando alguma coisa sobre encontrar Vincent, pois hoje seria seu aniversário. Não que eu fosse saber ou me importasse, ou ao menos tivesse tempo para ser curiosa – podia sentir a presença fria e familiar de Lagrum.

Um ataque esperado ainda era um ataque a ser considerado, ainda mais quando vinha de uma cobra daquele tamanho. Meu amigo havia definitivamente crescido desde o ano anterior, talvez quase dois metros. Eu não tinha uma fita métrica daquele tamanho, mas podia apostar que Lagrum agora se alongava em pelo menos seis metros de couro negro e brilhante. Ele se disfarçava bem entre as árvores antigas e grossas da Floresta, mas no meio do meu dormitório verde e prata teria sido difícil não notar sua presença. Fiquei feliz, de qualquer jeito, por ter abaixado da ponta forte de seu rabo – teria me partido metade das costelas com a mesma facilidade com que rachou a pesada porta de madeira.

— Existem mais maneiras de se dizer "oi", sabia? — Provoquei com um sorriso, mesmo que eu soubesse que não podia ver, Lagrum conseguia sentir meu deboche com perfeição e sibilou para ele.

E há muitas maneiras de se proteger enquanto mantém a boca fechada, devia experimentar.

Seu mal humor me fez rir, mas era verdade que eu não tinha muito tempo para achar graça enquanto tentava não sofrer algum traumatismo craniano. Aquele réptil insuportável não havia apenas alongado, ganhara mais corpo também. Estava tão grosso que eu podia me deitar nele enquanto esticado e não apenas enrolado, como antes. Com isso, sem nenhuma surpresa, sua força passou de apenas me deixar roxa e dolorida para mortal, se me acertasse – e Lagrum sempre tentava.

Ciente que nem mesmo a minha força era mais o bastante para bater de frente com a dele, meu mentor se satisfazia em me fazer pular em várias direções, correr e escalar, testando ao limite meus reflexos e meus sentidos. No final de uma hora, eu estava bem. Suada e com o rosto vermelho pelo sangue correndo, mas ilesa. Não poderia dizer o mesmo do pobre dormitório. Balancei a cabeça enquanto me equilibrava em cima de uma camada de tecido rasgado e lascas de madeira, olhando de canto de olho Lagrum enrolado e tranquilo em frente a lareira.

— Réptil gordo e sedentário — que nem mesmo se dignou a reconhecer minha ofensa. Era vazia, de qualquer modo, pois o que uma cobra poderia me ajudar nisso? O feitiço reparador, Reparo, passou pela minha mente e pulsou pelo meu corpo junto as batidas do meu coração e fiquei parada vendo cada pequeno pedaço destruído retornar ao seu lugar. Era fantástico que eu tivesse ficado tão boa neste feitiço no ano anterior, nessa mesma ocasião, permitindo que minha varinha continuasse firme e presa em meu coturno.

Você vem progredindo em magia, Mal.

— Olha só, Lagrum, se não te conhecesse, acharia que é um elogio — devolvi com um sorriso quase arrogante, sendo retribuída com um silvo impaciente, mas não foi isso que transformou meu sorriso em uma linha. — Se você continuar crescendo dessa forma, não caberá mais no quarto no ano que vem... veio pelo mesmo caminho?

Sim... talvez também queira fazer esse feitiço dentro do seu banheiro, aliás.

Depois de reparar meu vaso sanitário partido e enxugar meu banheiro inundado, éramos apenas eu e ele e o fogo crepitante da lareira. Tive cuidado de não mencionar outra vez seu tamanho ou seu surto de crescimento, pois não faria bem a ninguém. Que Lagrum era uma cobra especial, eu sempre soube. Eu o achava mágico, quando criança, por ser capaz de se comunicar comigo antes de saber que a maior parte da comunicação partia de mim. Mas ele ainda tinha magia em seu couro escuro, eu sabia que tinha e apenas "cobra mágica" estava se tornando mais vago a cada ano.

A presença de Malfoy não fez grande diferença nos dias que se antecederam ao Natal. Depois de nossa pequena conversa nunca mais ficamos sozinhos outra vez e eu não tentei que ficássemos, muito menos ele. Eu o via bastante na sala comunal com Vincent e Gregory, e em raros momentos sozinho na biblioteca, o nariz perfeito enfiado entre as páginas de livros de poções e até mesmo transfiguração, as únicas matérias que Draco realmente tinha apreço. O deixei em paz em todas as ocasiões que o flagrei isolado de seus capangas, os olhos baixos e concentrados nas palavras na sua frente, o rosto bonito outra vez – ele era sempre melhor quando ninguém estava olhando.

Fiquei bastante ocupada também, aliás. Os Weasley haviam ficado no castelo em peso, o que significava que os gêmeos tinham uma sala comunal inteira apenas para eles. Passei muitas tardes jogando snap explosivo, rodeada do vermelho e dourado da Torre da Grifinória. Honrando a fama de seu criador, os grifinórios ainda estavam inspirados pelo clube e vários duelos proibidos foram promovidos também e até mesmo Granger ignorou as regras desta vez. Duelei contra cada um deles e alguns até mesmo chegaram a me dar trabalho, mas sempre terminei de pé. Se juntasse isso as tardes de guerra de neve ou partidas de xadrez com Ronald, meus dias começavam muito cedo e eu nem estava contando com nossa atividade extracurricular: Hermione e eu nos encontrávamos todo dia de manhã, antes do café, no banheiro feminino do segundo andar, para vigiar e continuar o preparado da poção Polissuco.

Já minhas noites eram de Lagrum. Em alguns dias, ele me recebia com um silvo preguiçoso de quem acorda devagar e eu poderia ir na mesma hora para o meio de suas dobras, me embalar em seu corpo frio e forte em frente a lareira. Em outros, eu agradecia de todo meu coração o inventor do Feitiço Reparador ou nem mesmo o teto do lugar ainda estaria intacto. Mas não importava como ele me recebia, e sim como terminava. Depois do banho, depois da luta, depois do concerto, sua melodia me embalava. Sem letra, mas eu a conhecia bem o bastante para cantar as palavras ao contrário.

Silva, Silva, serpinha,

A manhã de Natal chegou gelada. Mesmo com o fogo ardendo na lareira eu ainda podia sentir minha pele fria, mas talvez o fato de ter passado a noite inteira grudada em Lagrum não tenha ajudado. Foi ele, aliás, quem me acordou, se movendo e destruindo meu apoio no processo, fazendo que eu caísse no chão. Não foi uma queda grande, nem dolorida, mas chutei ele mesmo assim. Não que tivesse feito alguma diferença, minha força era como um cutucão em seu corpo poderoso, no máximo.

Quanto espirito natalino, Mal.

— Tente se engolir e juro que tento melhorar o meu humor — resmunguei de volta, mas não tive tempo de irritar e ficar mal-humorada, pois minha atenção foi para a pilha de presente aos pés da minha cama, para onde Lagrum deslizava. Haviam ainda mais ano passado e fiquei muito feliz ao silenciar de vez a voz maldosa dentre de mim que dizia que a novidade da menina órfã havia passado e mais ninguém estava sentindo pena o bastante para me presentear. Eu sabia que era mentira, mas ver era muito melhor.

Tropecei em direção a eles e me sentei em Lagrum, seu corpo meio esticado em direção a cama e ainda meio enrolado perto da lareira. Sua cabeça estava na altura da minha e contei com rapidez: haviam nove. Mais do que o ano anterior, e me perguntei quem havia resolvido me prestigiar neste ano e se havia mais do que eu tinha entregado. Vi os nomes de Hermione, Hagrid, Fred, Blásio, Daphne, Astoria, Sue e até mesmo Pansy (tão de última hora como o meu, imagino) – eu havia feito coisas para eles também, assim como para quem eu sabia que não poderia me presentear de volta, como Harry, McGonagall, Dumbledore e Severo. Sentindo meu coração quente, o primeiro que peguei foi o embrulho da sra. Weasley.

Ela havia me feito outro suéter, tricotado com tanto esmero quanto o primeiro, mas, desta vez, em vários tons de vermelho. O deboche e o desafio me fizeram rir: ao menos o outro era prata, uma cor da minha Casa, mas este era uma bandeira de rebelião. Imaginei quem teria lhe contado o motivo de o anterior não estar mais no meu baú e o vesti sorrindo com a ideia da gorducha matriarca cuspindo na cara de todos eles. Havia uma grande barra de chocolate caseiro, também, o qual eu deixei em meu colo para tirar pedaços, o sabor adocicado explodindo em minha boca logo pela manhã.

De Mione, ganhei um livro. Na verdade, livros. Lembrada do ano anterior, quando revelei que não havia lido todos os outros "livros-guia" que Burbage recomendava na carta de admissão de Hogwarts, agora eu os tinha em uma pilha bonita e nova, o cheiro de couro e pergaminho quase me fazendo ronronar: História da Magia Moderna, Ascensão e Queda das Artes das Trevas e Grandes Acontecimentos Mágicos do Século XX. Eu já sabia que em ao menos um desses livros, se não todos, estariam com os nomes de Harry e de Lorde Voldemort, mas isso não tirava a excitação em saber o que mais aconteceu além da Primeira Guerra Bruxa. Esperava que minha amiga apreciasse o marcador encantando que a dei, ilustrado com o Big Bang e o brasão da Grifinória – tive que pedir para Daphne desenhar para mim.

Rúbeo havia me feito uma cesta de bolinhos decorados com glacê verde. O grandalhão gostava de cozinhar, mesmo que suas receitas não terminassem sendo consumíveis. Imaginei se ele teria gostado do meu presente: um pequeno livro, quase um livreto, com todas as receitas que eu tinha na cabeça. Todas eram trouxas, claro, vindas do meu tempo na cozinha do orfanato, e eu esperava que ele se divertisse tentando fazer panquecas ou pão caseiro.

O presente de Parkinson não era grande coisa, mas não esperava que fosse. Sem nos falarmos até um mês antes da data, não era como se houvesse tido muito tempo para se decidir se iria me dar algo, para inicio de conversa, ainda mais o que seria. Eu não a culpava, pois também passei muito perto de não lhe dar nem mesmo o conjunto de primeiros socorros que Pomfrey me concedeu. Era uma piada justa e compartilhada, uma vez que seu presente era um kit de costura.

Zabini, que no ano anterior havia me dado um belo e caríssimo espelho de mão, preferiu deixar o flerte de lado e decidiu completar seu presente: dois grandes álbuns de fotos, todos em branco, para que elas não ficassem mais empilhadas em meu malão ou presas na parede. Eram decorados e me perguntei se ele mesmo tinha se dado o trabalho, pois o primeiro era verde brilhante e prateado para as cobras e o segundo vermelho forte e dourado para os leões. Folheando as páginas em branco, já haviam até mesmo fotos nele na parte sonserina, de Blás e sua mãe e sorri para elas. Deviam ser de seu acervo pessoal e torci para que gostasse da foto que havia lhe dado: era de nós dois no aniversário de Daphy, minha cabeça em seu ombro e seu sorriso bonito fazendo os olhos escuros quase desaparecerem, e eu estava sorrindo também, rindo como poucas vezes já fiz de alguma bobagem sussurrada no momento.

Por falar em Greengrass, apesar de ter dito que a delicada cobra negra do ano anterior havia valido por vários Natais, lá estava o presente da mais velha. Sem cobras desta vez, ela me reservou uma linda pena de luxo, longa e bonita e negra, que fazia conjunto com um tinteiro de pedra negra, pesada e reluzente. Eu sequer sabia de qual animal era aquela pena e nem que pedra fazia o tinteiro, mas não tinha a menor dúvida que aquele presente poderia comprar uma casa. O deixei de lado com cuidado, imaginando que gostaria de ter algum lugar bonito para o colocar, ou papeis mais importantes do que os trabalhos de escola para o usar. Já a Senhorinha escolheu uma piada mórbida: era um abaixo assinado com nome de todo o primeiro ano da Sonserina para que a próxima vítima da Herdeira fosse o velho Binns.

Para Daphne, a garota que tinha tudo menos decisão sobre sua própria vida, também dei fotos. Especiais e raras, a maioria que ela não tinha visto que tirar, de seu aniversário. Era tão raro vê-la com ombros relaxados e o sorriso largo, a cabeça balançando na gargalhada eternizada. Separei três e emoldurei cada uma: Daphy com a irmã, com todos nós e sozinha, bem ao centro, o rosto iluminado pelas velas do bolo, o brilho dos olhos muito mais do que reflexo do fogo – era importante que se lembrasse de coisas assim. A pequena senhorinha ganhou um presente tão sardônico quanto o seu: a mesma folha de pergaminho com as assinaturas, mas com uma pequena nota no final na minha melhor caligrafia: as coisas ficam mais fáceis ao saber todos os nomes, obrigada.

Os últimos dois presentes eram de ruivos: Sue Hopkins e Fred Weasley. Fiquei genuinamente aliviada e surpresa com a primeira, pois não me dirigia a palavra de forma direta desde minha "coroação". E mesmo assim, lá estava uma pequena lembrança, quase uma afronta, era uma foto. Uma foto trouxa. Nela havia uma idosa de cabelos cinzas demais para distinguir de que cor haviam sido, mas olhos azuis como o céu acima dela. Estava apoiada em uma cerca com um campo ao fundo, era um cenário rural, sem sombra de dúvidas. Mas foi a menina sentada na cerca ao seu lado que me fez passar a ponta dos dedos no papel grosso.

Não era uma foto antiga, pois Sue estava bastante reconhecível, mesmo que só a tivesse visto em vestes de bruxa ou de uniforme. Tinha o cabelo vermelho refletindo o sol e preso em um rabo de cavalo frouxo e alto, e usava calças jeans claras e tênis All Star amarelo com meias listradas coloridas e uma blusa azul de mangas curtas. Estava sorrindo para a câmera, inclinada em direção a avó, pronta para pular dali e correr em direção aos campos assim que o click terminasse. Não duvidava que o tivesse feito. Atrás, havia uma pequena descrição com a letra inclinada de Hopkins: Vovó Odette e eu na fazenda que ela herdou de seus pais trouxas em Kent. Ela será de papai e depois ainda será minha, a bisneta de Elaine e Jack Turner. Feliz Festas.

— Essa Hopkins — minha voz se arrastou através de seu sorriso enquanto virava a cabeça em direção a Lagrum, que preguiçoso me fazia companhia. — Ela mal chega na altura do meu peito, mas ainda sim é enorme.

Os menores animais são os mais rápidos e os mais difíceis de se pegar, você sabe.

— O que é minha constante vantagem sobre você — trocei em uma risada, ganhando uma merecida cabeçada em retribuição. Ele não tinha mais tamanho para fazer isso sem eu correr risco de um hematoma, mas não seria eu que iria choramingar. Deixei a foto de Odette e sua pequena grande neta de lado, me lembrando do cuidado que tive ao costurar uma pequena flâmula com nossas cores e nosso símbolo, com uma pitada de licença poética: a elegante serpente verde de Sonserina foi substituída por uma de cor vermelha e não tão impressionante em tamanho.

Mas não era sobre o tamanho, nunca foi com Sue Hopkins, a menor aluna do segundo ano de Hogwarts, a neta de Odette, uma nascida trouxa, e bisneta de dois fazendeiros trouxas de Kent, Inglaterra.. Era sobre pertencimento. Sue era uma bruxa, era uma sonserina, era uma de nós. E nada, nem ninguém, poderia tirar isso dela a menos que permitisse isso. Eu torcia para que nunca se esquecesse quem era assim como nunca mais cogitasse esconder de onde veio.

O último presente era de Fred Weasley e já sabia o que era antes mesmo de abrir: um completo e reforçado, e ainda exclusivo por estar fora do mercado, Kit Mata-Aulas. Havia uma pequena nota que dizia que, como nem todos haviam passados nos testes e ainda eram um pouco imprevisíveis, funcionavam muito mais como pegadinhas do que como algo para usar em si mesmo. O kit era composto por produtos com nomes que só poderiam ter saído dos gêmeos Weasley, tais como Vomitilhas e Febricolate. De minha parte, dei algo muito menos potencialmente perigoso para o destinatário: um pequeno mapa de Hogsmeade que pedi para Diggory me desenhar, indicando os lugares que gostaria de visitar primeiro no ano seguinte.

Se me aparecer com uma barriga cheia, juro que a abro e faço de lanche.

— Não está na hora de repteis prepotentes e engraçadinhos irem dormir, Lagrum? — Sibilei com uma voz chiada, ganhando uma língua fina e gelada no meu rosto, o que me mostrou que meu amigo estava de bom humor natalino. Balancei a cabeça para me afastar, a risada saindo fácil de meus lábios já abertos em um sorriso. Era Natal. Eu tinha presentes. Até Lagrum estava de bom humor. Eu não estava disposta a deixar mais nenhum momento daquele dia ir embora.

Depois de um banho e de organizar meus novos presentes: deixei o Kit-Mata aula na gaveta do meu criado-mudo, e gastei um tempo organizando minhas fotografias: desde as que já tinha até as mais recentes, separadas cada qual no álbum que pertenciam. Fiz um bom trabalho organizando e separando por meio de anos, e no final eu já tinha algumas paginas de meus amigos e professores sorrindo e olhando para mim. Eu levaria aqueles álbuns para onde quer que eu fosse quando esse ano acabasse, não importava onde. Guardei o abaixo-assinado de Astoria junto com meus livros, e deixei o conjunto de pena e tinteiro de luxo de Daphy ao lado do presente de Fred – eu o usaria nos meus trabalhos finais, o que era infelizmente a coisas mais importantes que eu teria de escrever.

Apesar de ir comendo as barras de chocolate da sra. Weasley quase em bocadas, deixei de lado os bolos de glacê de Hagrid. Estavam bonitos, mas eu também sabia que tinham grandes chances de tirar um pedaço dos meus dentes, então os embrulhei de volta e me preparei para leva-los para o Salão Principal, onde os amoleceria no fogo e poderia dividir. O kit de costura de Parkinson foi imediatamente usado, pois era de fato um presente útil e que eu agradeceria, ao fechar buracos em minhas meias, e depois disso foi guardado em meu baú. Por último, o livro de Hermione foi colocado na pilha ao lado de minha cama.

Já saia do dormitório, vestida e com uma caixa de bolinhos debaixo do braço, quando o senti rindo. Parei, virei meu corpo e foquei na grande cobra negra tremendo e silvando, soltando barulhos cortados e quase asmáticos – o que era bem sua versão de gargalhada. Tombei a cabeça devagar, refreando o impulso de o imitar e sentindo meu próprio corpo vibrar.

Na natureza, cores fortes são um sinal de perigo, Mal.

— Tem razão, Lagrum, tem toda razão. Especialmente o vermelho, se não me falha a memória — balancei a cabeça, desistindo de impedir o sorriso lento de tomar meu rosto. Veio devagar, se arrastando pelos meus lábios como uma cobra e tocando, só a pontinha, os meus olhos. — Feliz Natal.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo o comentários do cap 33 ♥ Malfeito, feito! ♥