Corona II
35 Enquanto a Neve Cai
Notas iniciais
Minha figura era um farol vermelho no meio da paleta escura das masmorras. Não que eu tivesse qualquer coisa para reclamar do meu salão comunal. Eu adorava seus tons escuros, suas sombras, seus sofás de couro preto e suas almofadas verdes. Neste momento, adorava ainda mais, pois não havia qualquer ponto tão vermelho quanto eu naquele lugar, o que fez a atenção dos três ocupantes da sala ir diretamente em minha direção.
— Não é possível — Draco Malfoy poderia ter uma moldura para eternizar esta exata expressão: boca aberta e as sobrancelhas franzidas, a incredulidade real em seus olhos prateados e brilhantes. Estrelados na manhã de Natal. — É como eles. Se multiplica.
— Bom dia e feliz Natal para você também, Pequeno Lorde — cantei para seu rosto contraído. — E, se quer saber, o que você queimou era cinza. Este é vermelho. Logo, é um novo. Gostou?
— Parece um barrete vermelho que cresceu demais — e estava lá, talvez, algo que fazia tanto tempo que quase perdi. Os olhos brilhantes, a ponta dos lábios torcidos, a cabeça inclinada em minha direção. Sorri para ele, para seu deboche e cinismo, e balancei a cabeça em negação enquanto ouvia Crabbe e Goyle rirem da brincadeira venenosa.
— Estão achando graça? Nada de bolinhos para vocês — a risada parou pela metade na boca dos dois, que permaneceram abertas. Os dois tinham olhos castanhos e famintos, e mais uma vez me perguntei se não eram parentes próximos. — E muito menos para você, Malfoy.
— Eu não quero — rebateu depressa, ao mesmo tempo que seus olhos estudavam a caixa embaixo do meu braço de forma quase intensa demais. Ri mais uma vez de sua curiosidade e de sua total falta de consideração com os outros: Vincent e Gregory estavam quase babando.
— Eles querem — apontei para os dois garotos enormes que se esticavam em direção a caixa. Então meu sorriso mudou, se tornou mais soturno e afiado enquanto relaxava meus ombros e estendia a caixa para eles. — Não digam que o espirito natalino não me visitou. Feliz Natal, rapazes.
Antes que os dedos grossos e fortes de Goyle arrancassem a caixa de minhas mãos, peguei ao menos um dos bolinhos de Hagrid para que comesse depois. A visão do glacê e do chocolate fez os olhos da dupla brilharem e não tiveram pudor ao destruir a caixa bonita em busca da sobremesa. Recuei, pois aprendi a não interferir na hora da refeição de animais e afastei em direção a passagem, ainda com o sorriso no rosto e mãos nos bolsos.
— Ai! Lewis! — Era a voz de Malfoy, dolorida e quase aguda. Parei em frente a parede de pedra e virei o pescoço devagar, focando na imagem do garoto de bochechas coradas, com um bolinho em uma mão e outra na boca suja de glacê. — Que droga é esta?!
— Carvão, Draco, para os meninos que se comportaram mal — cantei em uma risada, vendo sua boca se abrir ainda mais, o queixo quase despencando ao mesmo tempo que seus olhos afiados atiravam facas em minha direção. Terminei de atravessar a passagem com cena de Draco quase quebrando um dente por mérito próprio sendo um presente pessoal.
Foi difícil ignorar o convite da entrada do Salão Principal e subir direto para o banheiro feminino do segundo andar. As portas escancaradas não deixavam duvidas sobre a beleza da celebração, mas não registrei muito além da neve que caia do lado de dentro, em cima das mesas e das pessoas e até da comida. A ansiedade para entrar naquele paraíso me impulsionou pelos lances de escada, me levando direto para o banheiro interditado.
— Mal? — A voz de Granger me chamou assim que a porta se fechou atrás de mim, e fui em direção a porta do boxe que usávamos de bancada, vendo-a se abrir na mesma hora. Hermione usava cachecol, gorro e luvas – todo equipamento necessário para o clima gelado do fim do ano da Escócia. Seus olhos, porém, estavam brilhantes e calorosos. Iguais ao sorriso que me ofereceu. — Feliz Natal, Mal! Que suéter lindo!
— Feliz Natal, Mione — terminei nossa distância e entrei no boxo, fechando-o atrás de mim. Eu também estava sorrindo, mesmo naquele banheiro decrepito e deprimente, sentindo a sola dos meus coturnos quase chapinharem na água, eu estava sorrindo. — Gostou? Foi presente da sra. Weasley. Me pergunto quem foi que contou para ela o motivo de não ter mais o outro...
— Rony, com certeza — ela interrompeu, já com os olhos baixos para a poção. Tinha um saquinho de hemeróbios em uma das mãos e eu sabia que ela vinha adicionando-os fazia tempo. — Gostou do meu presente?
— O que há para não gostar? — Devolvi, também estudando a poção. A abertura dos meus presentes havia me atrasado pois não faltaria muito mais para sua finalização. — E o meu, que achou?
— Está marcando o Poções Mui Potentes neste momento — havia um sorrisinho em seus lábios enquanto seus olhos fugiam do caldeirão para me encontrar apenas por um momento. — Acho que é isso. Acho que conseguimos, Mal. Terminamos. Se me falassem que duas crianças de doze e treze anos conseguiriam fazer uma poção deste nível em um banheiro abandonado e com ingredientes surrupiados...
— Somos as melhores bruxas do nosso ano, Granger — cortei sua divagação. Minha querida amiga brilhante tinha os olhos cheios de água e um sorriso grande demais para o próprio rosto. — Provavelmente de Hogwarts inteira. Talvez do século. É claro que conseguimos.
Hermione riu e guardou o saquinho no bolso da calça jeans. Eu sentia sua plenitude, sua satisfação. O teste de capacidade, o desafio dela mesma. Ela havia conseguido. Fez uma das poções mais complicadas do mundo bruxo aos treze anos, em um banheiro alagado e escondida dos professores. Mione era brilhante, era esforçada, era mais do que capaz. E eu deixei que absorvesse isso, que a criancinha trouxa e deslocada pudesse se sentir orgulho e felicidade por quem estava se tornando.
— Vem — depois de um longo momento e de piscar várias vezes, a voz de minha amiga ainda saiu embargada, mas estava sorrindo. — Vamos acordar os meninos. Ainda precisamos da outra parte do plano.
A outra parte do plano se constituía em ter pedaços da pessoa que quer se transformar. E era ali que eu, finalmente, tinha um envolvimento maior – além de ajudar a preparar a poção em si, ficaria ao meu encargo conseguir as roupas de Crabbe, Goyle e Bulstrode.
— Você tem certeza que tem tudo que precisa? — Tornei a perguntar enquanto disparávamos para cima, pulando degraus para ir mais rápido desde que contei que estava nevando dentro do Salão Principal. Nenhuma de nós queria perder mais do que o necessário da festa e arrastaríamos os dois preguiçosos se fosse necessário.
— Tenho sim, eu puxei enquanto ela tentava matar o Justino com aquela chave de cabeça — arfando muito mais do que eu, Hermione não tinha nenhum grande atributo físico, e tinha que me lembrar que ela não estava acostumada a disparar em uma floresta para fugir de um predador rápido e enorme. — Ela nem notou.
Para poupar o escasso folego de minha amiga, permaneci em silencio até chegar no sétimo andar e ficar de frente com a guardiã do quadro, como vinha ficando durante todo o tempo desde que havia apenas aliados do lado de dentro. Isso, porém, não impediu que a Mulher Gorda levantasse uma sobrancelha para mim. Outra vez.
— McGonagall ainda não faz ideia?
— Só se você contou para ela — ronronei com a voz suave. — Não contou, não é? — Seu silêncio de lábios torcidos em um sorriso contido fez um espelho no meu. — Coração de Fogo.
O quadro se afastou da parede revelando a passagem e eu ainda podia ouvir a risada da Mulher Gorda atrás de mim quando me vi, mais uma vez, entre o vermelho e dourado da Torre da Grifinória. Era tão diferente da Masmorra da Sonserina: nas cores, na claridade, no ambiente. De cenário naufragado para uma taberna acolhedora, as poltronas de veludo vermelho ao redor da lareira exalavam noites de histórias compartilhadas e risadas pelo ar. Não que risadas não fossem ouvidas lá embaixo, mas ninguém esperava isso. Era escuro demais, luxuoso demais, com paredes e pessoas frias demais. Não era como aqui, cujo o próprio ar convidava a me atirar em uma poltrona e me esticar perto do fogo, com os pés em cima da mesa de centro.
Como já havia percebido, as masmorras eram um habitat hostil para qualquer espécime que não lhe pertencesse. O fato de encarar o lugar como minha casa era apenas um lembrete que, mesmo acolhida entre suas cores, o Chapéu Seletor não havia cometido erro nenhum. Eu estava exatamente onde devia estar. O que não significava que não podia conhecer outros cenários.
Segui Hermione pelas escadas que nos levariam para o dormitório masculino. Subindo, invés de descer, paramos na porta que indicava que era o quarto dos alunos do segundo ano. Como sabíamos, Weasley e Potter eram os únicos que haviam sobrado, então entramos em silêncio. Não ficamos tanto tempo assim, porém. Apenas o tempo de Mione marchar em direção as pesadas cortinas vermelhas na janela e as puxar com força.
— Acordem!
— Mione! — Ronald deu um pulo de sua cama, assustado e levando as mãos ao rosto para se proteger da claridade. Harry também se sentou na mesma hora, os reflexos de um condenado, enquanto levava a mão até seu criado-mudo, tateando o vazio e me fazendo soltar uma risada através dos lábios fechados. — Mal! Vocês não podem ficar aqui...
— Feliz Natal para você também, Ronald — gracejei enquanto Granger lançava seu presente nele. Potter, ainda cego e sem seus óculos, levantou a cabeça para tentar enxergar algo na cena. — Não, não fica bom, tome — e avançando até sua cama, me sentei na beira dos lençóis e me inclinei para deixar sua cabeça quieta, deslizando os óculos por seu rosto. Sorri para seus olhos tão verdes enfim em foco. — Bem melhor.
Harry sorriu para mim, seu mundo finalmente em foco outra vez. Terminou de se sentar na cama, muito acordado enquanto Weasley ainda tinha a cara amassada e olhos meio fechados.
— Hermione está de pé há quase uma hora, dando os toques finais à poção. Está pronta.
— Tem certeza? — Foram as primeiras palavras de Harry, os olhos perdendo o brilho preguiçoso para algo muito mais ansioso e focado. O garoto tinha uma missão.
— Positivo — Granger confirmou com um aceno de cabeça. Empurrou o rato velho de Ronald, Perebas, para que conseguisse se sentar na beira de sua cama, ao que o roedor pareceu não se importar muito: voltou a dormir logo depois. — Se vamos usá-la, eu diria que deve ser hoje a noite.
Uma das novidades para mim nos aposentos dos leões eram as janelas. Nada entra pelas nossas nas masmorras, pois se entrasse, estaríamos muito molhados e mortos. Então quando meu reflexo me mandou abaixar para a grande ave branca que passou por cima de mim, eu o fiz. Os três riram da minha surpresa, mas eu também, pois era apenas Edwiges, a coruja da neve de Potter. Ela pousou na cabeceira cama, do outro lado de seu dono, mirando os grandes olhos dourados nele e com um pacotinho amarrado nas pernas.
— Olá — Harry cumprimentou a ave com um sorriso quente. Ele havia me contado que a coruja havia sido um presente de Hagrid para seu aniversário/ingressão em Hogwarts. O garoto nunca havia tido animal nenhum, mas havia tido um resultado muito bom com Edwiges. Ela era digna, inteligente e claramente tinha afeto por seu dono. — Você voltou a falar comigo?
A resposta da coruja foram bicadinhas carinhosas em sua orelha que, se Lagrum tentasse imitar, arrancaria fora metade de minha cabeça. O pensamento o fez rir em seu sono matinal e me fez ainda estar com um sorriso nos lábios enquanto, finalmente, os dois garotos se levantavam e iam até seus presentes no pé da cama. Deitada na cama de Potter, me debrucei para prestar atenção nos dele. O primeiro que abriu era o que Edwiges trazia: uma lembrança dos Dursley. Um pequeno palito e uma nota pedindo que verificasse se não podia, também, ficar na escola durante as férias de verão era tudo que recebeu de sua família. Por isso tomei o palito de sua mão e o parti em vários pedaços, juntando-os depois com magia e o fazendo correr atrás de Edwiges.
Vi, por um momento bem pequeno e bem no fundo de sua consciência, a decepção. Uma criança de doze anos merece ser querida e amada por aqueles que retém a responsabilidade de sua criação. Eu não sabia que tipo de presente eu ganharia dos Lewis se ainda morasse com eles, não sabia se ganharia algum, pois eles também queriam me ver mais pelas costas do que tudo no mundo. Mesmo Agatha, que me chamou de sua filha até o fim, tinha pavor de quem eu era. Imaginei que, provavelmente, também fosse receber um bilhete deste tipo. O agradecimento pela brincadeira e distração veio em um sorriso e em olhos calorosos outra vez.
Eu sabia. E ele sabia que eu sabia. Isso bastava.
Para a satisfação do garoto, e minha também, seus próximos presentes não deixaram a desejar. Pelo visto Rúbeo havia ido para cozinha neste Natal, pois deu para Harry uma lata de bolinhos de chocolate, onde coloquei o meu único e sobrevivente bolinho com glacê. Ronald havia lhe dado um livro sobre quadribol chamado Voando com os canhões, que contava fatos e curiosidades sobre o seu time favorito, o Chuddley Cannons, em uma tentativa de converter o melhor amigo em mais um fã. O presente de Granger para ele era bem parecido com o de Greengrass para mim: uma caneta de luxo de pena de águia (ela disse o que era, quando o viu abrir).
A sra. Weasley também havia lhe feito outro suéter, um roxo-escuro desta vez, e assado um bolo de Natal, além de lhe escrever um breve cartão. O verde tão brilhante dos olhos de Harry se nublou outra vez e senti a onda de remorso que lhe atingiu, irmã mais nova da que lhe consumiu no dia do Berrador. Ele a havia feito passar por maus bocados – ele, Ronald e a brilhante ideia do carro voador. Estar prestes a enfiar o filho dela em outra série de regras quebradas não davam uma aparência muito bonita para o bolo bem feito que cheirava ao lado.
É por uma boa causa, chamei a atenção de seus olhos distantes. As pessoas estão com medos. Dois alunos estão na enfermaria e até mesmo um fantasma foi atingido. Lembre deles.
Se formos pegos...
Então é melhor não sermos.
— Tome — disse em voz alta desta vez, um sorriso sincero e pequeno em meus lábios. — É o meu.
Distraído outra vez de seus sentimentos conturbados, Potter se concentrou no último presente. O meu presente. No ano anterior, pega de surpresa, havia lhe dado uma miniatura de madeira de sua vassoura, a Nimbus 2000. Agora, porém, o embrulho era um pouco maior do que um enfeite. Quando abriu, senti mais alivio do que deveria em seu sorriso largo e olhos arregalados: quadribol era uma das coisas que o garoto mais amava no mundo bruxo, tanto quanto estar em cima de uma vassoura em si. Seus tios não o deixavam ver sinal de magia, nem mesmo seus deveres, durante todo o verão e eu mal podia respirar ao me imaginar da mesma forma.
Apesar de ter passado semanas trancafiada no mundo trouxa, ao menos eu tinha todas minhas coisas ao alcance da mão. Eu tinha minha varinha em meus coturnos, meus livros e pergaminhos, as fotos se movendo em minha parede. Não sem querer me rodeei de lembranças constantes de que o mundo bruxo, de que Hogwarts, era real. Que não havia sido um sonho bom demais do qual fui acordada – pois não me lembro de alguma vez ter sonhado na minha vida.
Potter ficou sozinho. Ele, uma coruja trancafiada e raivosa e o relógio passando muito, muito devagar. Eu esperava que a blusa vermelha que havia surrupiado do uniforme de quadribol da Grifinória e estampada com seu brasão orgulhoso passasse pelo radar de sua família nojenta. Não era enfeitiçada. Não era mágica. Era uma camisa comum. A representação trouxa de algo tão mágico, uma que ele poderia usar enquanto todo o mais estivesse trancado.
— Não é nada caro — me vi falando pelo silêncio que se estendeu, me ajeitando na cama para me sentar. — Eu só pedi um dos elfos para me dar uma de suas camisas vermelhas. Não suas, claro, do time da Grifinória. E então coloquei a estampa. É só uma lembrança, entende?
— Sim — os olhos de Harry, muito verdes e muito brilhantes. Como piscas-piscas, como pinheiros de Natal. Eles mergulharam nos meus e ele sorriu. Ainda não conseguia entender, e duvidava que algum dia pudesse, como o sorriso de uma pessoa tão ferida e tão marcada ainda podia ser tão genuíno e puro. Mas hoje, com a neve caindo e sinos tocando, eu me contentaria com a ignorância. — Eu entendi, Mal.
Uma vez tendo seus presentes abertos, descemos para a sala comunal para que os meninos pudessem se trocar. Fizeram rápido, ainda mais depois que mencionei a neve. Ronald, que já estava salivando pela comida natalina, quase tropeçou em um dos degraus falsos da escadaria. Não chegou a cair, mas foi engraçado o bastante para passarmos o resto do caminho fazendo nossas risadas ecoarem pelo castelo quase vazio.
Chegamos no Salão Principal com os rostos doendo e respirações descompassadas – eles, ao menos. Descer sete escadarias de mármore era quase um aquecimento com Lagrum e tudo que eu sentia era meu sangue correndo rápido pelo meu corpo, inchando meus músculos e me deixando pronta para mais, muito mais. O impulso de lutar pela minha vida foi, porém, suprido com vergonhosa facilidade. Era Natal. Em Hogwarts. E a escola não desleixava com suas decorações.
Havia uma dúzia de pinheiros enormes, que apenas Hagrid ou magia poderiam ter levado para dentro do salão, cobertos de cristais de gelo. Guirlandas maiores do que pneus de caminhões feitas de visco e azevinho cruzavam todo o teto e a neve... a neve mágica que eu havia vislumbrado a caminho da Torre dos Leões era morna e seca e caia em espirais nas árvores, na comida e em nós, polvilhando de branco todo o banquete e seus participantes, o que proporcionava um espetáculo por si só: a barba de Dumbledore estava três vezes mais cheia, havia um montinho na cabeça de Flitwick e se McGonagall continuasse bebendo daquele jeito ela logo pararia de se importar com a neve nos ombros.
— Ei, Cobrinha! — Eu não posso dizer que me surpreendi com o fato de Fred Weasley ter sido o primeiro a nos notar parados na porta, a me notar. Ele se inclinou no banco da mesa da Grifinória, inteiramente ocupada apenas por Weasley’s, e abriu um sorriso quente e largo que não combinou (ou combinou até demais) com a perversidade de seus olhos castanhos quando eles pousaram em mim, no que eu estava vestindo. Não foi ele, no entanto, que alguma coisa.
— Uau! — Jorge atropelou a boca aberta do irmão, também se inclinando na mesa. — Vermelho cai muito bem em você, Mal!
— Agradeça sua mãe por isso — devolvi enquanto me aproximava, rodeada dos leões legítimos. Eu, apenas uma membra honoraria da Casa de Grifinória, me sentei no espaço vago ao lado de Fred. — Mas acho que tenho que agradecer alguém por contar para ela.
— De nada — Ginevra respondeu do outro lado da mesa. Estava sentada entre seus irmãos e, pela primeira vez em muito tempo, realmente presente. Havia cor outra vez em seu rosto e um sorriso torcido em seus lábios. E mesmo seus olhos desnublados não eram suficientes para tirar por completo a sombra de seu rosto.
— Ora, ora, pequena Weasley — e tomei a taça da minha frente, sentindo o cheiro de gemada chegar ao meu estômago através de minhas narinas. — Em sua homenagem, então.
Já tinha percebido que as festas eram ótimos momentos para ver os professores fora de seu estado habitual, pelo menos a maioria deles. Eram em ocasiões como esta que se podia ver Alvo, conhecido por sua serenidade e placidez, puxando coros cada vez mais altos de suas músicas preferidas de Natal, chegando a cantar a plenos pulmões na companhia de Madame Pince, Hagrid e Flitwick – sem falar de nós, fatalmente influenciados pelos gêmeos. Era apenas bom demais quando o diretor cutucava Severo em cada refrão, fazendo o Mestre de Poções contorcer a cara e se encolher para longe cada vez mais.
No meio da cantoria, Jorge havia aproveitado para enfeitiçar o brasão de monitor de Percy (que não havia tirado nem mesmo no Natal) e fazê-lo exibir os dizeres “Cabeça de Alfinete”, apenas pelo prazer da risada da peça... e da cara do irmão enquanto nos perguntava a razão de estarmos rindo. Ficamos tanto tempo naquela mesa, rindo e comendo, que quase me esqueci dos planos. Mas Hermione não. Ela interrompeu os garotos na metade de seu terceiro prato de pudim de Natal e me chamou com olhos grandes e febris. Tive que quase forçar minhas pernas a abandonar a bolha preciosa de felicidade e paz da festa, tirando forças de um último olhar na chama tímida que havia ressurgido em Gina como um milagre de Natal. A escuridão atrás de seus olhos, em sua mente, ainda estava lá.
— Ainda precisamos de uns pedacinhos das pessoas em que queremos nos transformar — Granger disse do lado de fora o Salão Principal, tão relaxada como se estivesse comentando da qualidade da comida. — E, como já dissemos, é melhor que consigamos algo de Crabbe e Goyle, Malfoy contará a eles qualquer coisa. Temos também que garantir que os verdadeiros Goyle e Crabbe não apareçam de repente enquanto interrogamos Draco. Mal, você trouxe?
— Aqui — metendo a mão no bolso da calça, tirei um pequeno frasco azulado. Mione estendeu os dois gordos pedaços de bolo de chocolate que havia trazido consigo da mesa e os estendeu, permitindo que eu derramasse igualmente o liquido nele em cada uma. — É uma Poção do Sono — expliquei para as bocas abertas e sobrancelhas franzidas. — O trabalho de vocês dois é apenas garantir que os dois comam, o que não chega a ser trabalho algum.
— E depois que eles caírem no sono, arranquem uns fios de cabelo deles e escondam os dois num armário de vassouras — a voz firme e o olhar de ferro de minha amiga não era compartilhado pelos outros dois, que se buscaram no canto da visão periférica, mais descrentes do que eu de que Snape fosse, algum dia, usar o chapéu de pirata que havia lhe dado de presente este ano.
— Hermione, acho que isso não...
— Poderia dar tudo errado...
— Ah, vão se ferrar, vocês dois — chiei entre os dentes, tomando os pedaços de bolo das mãos de Granger e forçando-os a pegar. — Passamos meses fazendo essa droga de poção. Não você, Harry. E muito menos você, Weasley. Eu e Hermione. Demos muito duro para ela simplesmente virar uma gororoba inútil escorrendo pelo ralo no final das contas, ouviram bem? E ela é só uma gororoba inútil sem os fios de cabelo de Vincent e Gregory.
— Quem...? — A pergunta mal saiu da boca de Ronald antes que Granger assumisse uma postura muito parecida com a de Minerva enquanto andava pela classe, vistoriando o resultado das transfigurações de seus alunos.
— Vocês querem investigar Malfoy, não é? — Minhas palavras haviam inflado minha amiga, que tinha a coluna reta e os ombros para trás em um claro desafio a fibra dos dois. Deu certo, pois na mesma hora trocaram o peso de uma perna para outra, os rostos contrariados.
— Ah, está bem, está bem — Potter amuou. — Mas, e você? Vai arrancar o cabelo de quem?
— Já tenho o meu! — E com uma expressão de triunfo, Mione tirou um pequeno frasco das vestes. Pude enxergar um único fio nele. — Peguei de Emily Bulstrode enquanto ela dava aquela chave de cabeça em Justino. Mal disse que ela foi passar o Natal em casa, então só tenho que dizer que resolvi voltar.
— Agora escutem, vocês dois — voltei atenção dos rapazes mais uma vez. — Vamos dar uma última olhada na poção enquanto vocês ficam aqui para pegar os fios. Escondam os corpos e vão direto para o banheiro depois disso. Eu e Mione estaremos lá, esperando vocês, junto com as roupas de Crabbe e Goyle que consegui surrupiar da lavanderia. Talvez queiram pegar os sapatos deles, também. Assim que vocês três estiverem transformados, vou retribuir a hospitalidade e também quebrar os mil anos de sigilo de casas — sorri para seus rostos ansiosos, saboreando o nervosismo. — Os levarei para a Masmorra da Sonserina.
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