Corona II
36 Elemento Felino
Notas iniciais
A poção estava tão perfeita quanto quando tínhamos a deixado, algumas horas mais cedo. Mesmo assim, Granger ainda me parecia tensa, como se fosse apenas soltar o ar quando já tivessem a confissão de Malfoy nas mãos. E por mais que fosse engraçado observá-la da grande construção de mármore que eram as pias, toda agitada e ansiosa, a queimação constante que sentia em minha pele, no caminho escuro da marca em meu corpo, começava a me incomodar – como toda vez que ficava tempo demais confinada no banheiro inundado do segundo andar.
— Você parece estar indo fazer os exames finais, Mione — sorri para ela para ela, deslizando para longe das pias e de seu chamado frio. — Se acalme. Fizemos tudo certo. A poção está perfeita.
— Só dá para saber isso depois de tomar — ela devolveu com a boca quase fechada, em um resmungo que beirava a malcriação. Felizmente, minha amiga era inglesa o bastante para perceber por si mesma o deslize e suspirar, travando os pés em uma poça rasa e se virando em minha direção. — Desculpe, Mal. Eu estou um pouco nervosa. Onde estão os meninos?
— Esperando Vincent e Gregory terminarem de comer, aposto — os dois enormes seguidores de Malfoy não perdiam a chance de criar alguma competição de comida em cada banquete, o que nunca acabava rápido e com menos frequência ainda, cheiroso. Não tinha qualquer inveja do dormitório masculino. — Isso pode demorar.
Ela mal pareceu me ouvir, os olhos outra vez na poção borbulhante guardada dentro do boxe. O som das bolhas que estouravam na superfície escura estava pesado e a fumaça que saia pela porta aberta já estaca cobrindo todo o banheiro em uma neblina quente e fedorenta. Não era agradável: nem o calor, nem o cheiro, nem a fumaça, e eu sequer estava debruçada no caldeirão como Granger.
Ouvi o som de passos antes que a porta fosse empurrada e Potter e Weasley tropeçassem para dentro do banheiro, esbaforidos e enervados. Tossiram assim que puxaram o primeiro ar cobriram narinas e bocas com as vestes, perdidos por um momento no ambiente nebuloso e quase tóxico.
— Mione?
— Mal?
— Que sentidos horríveis — soltei para os dois, vendo finalmente seus olhos se focarem e ajustarem a pouca luz e muita fumaça. — Estariam mortos na Floresta Proibida em uma noite com nevoeiro.
— Vocês conseguiram? — Hermione avançou em direção a eles, cortando quaisquer comentários que pudessem ter sobre a Floresta Proibida – aquele rosto brilhando e olhos ansiosos não iriam admitir qualquer assunto que não fosse sua missão. Harry, ao menos, ergueu o braço e mostrou os fios de cabelo que havia arrancado. — Ótimo. E a Mal pegou as vestes na lavanderia...
— Na verdade, só pedi para um amigo — um sorriso torceu a ponta de meus lábios a me lembrar do rosto surpreso e ansioso de Jeps, um dos elfos domésticos do castelo. Ele ajudava na cozinha, mas trabalhava no maior tempo na lavanderia, o que facilitou o extravio de duas mudas de roupas da Sonserina depois, é claro, que prometi que ele as teria de volta. Seus grandes olhos amarelos chegaram a brilhar quando agradeci, depois de ter demorado tempo até demais, pela roupa e sapatos limpos que tinha toda vez que voltava floresta.
— Ainda não entendi a razão da Mal não ter apenas ido no dormitório masculino e pegado — Weasley resmungou. — Ela vai no nosso.
— Então vou dizer, Ronald, mais uma vez, que Salazar não acreditava na pureza e inocência feminina como Godric: há feitiços, encantamentos e até azarações que impedem que garotas vão ao dormitório masculino, assim como o contrário — chiei para sua cara torcida, ganhando seu silêncio contrariado em retorno.
— De qualquer forma — a voz incisiva de Mione cortou a linha de fogo entre nós. A garota tirou o livro Poções Muy Potentes da parte de trás da calça e, como ela havia dito, abriu na pagina que meu presente estava. — Tenho certeza que fizemos tudo certo. E parece que o livro diz que deve...
— Que vocês terão apenas uma hora, nem um minuto a mais ou a menos, a partir do momento que bebem a poção até voltarem a serem vocês mesmos — conclui com meus olhos sendo atraídos para o lodo borbulhando no caldeirão. — Já disse que não tenho inveja de vocês?
— E agora? — A voz de Rony era um sussurro frágil ao acompanhar meu olhar, mas o maxilar de Granger estava firme.
— Separamos a poção nos três cálices — ela apontou para dentro do boxe. — E acrescentamos os cabelos.
Sem tempo para perder e sem dar chance de mais protelação, Hermione se virou e caminhou em direção ao boxe. Serviu generosas conchas da poção em cada cálice e, no dela, jogou os fios de cabelo de Bulstrode com uma mão tremida e meio pálida. A poção soltou um chiado agudo e alto como trem em movimento e espumou tanto que achei que iria transbordar. Os cálices de Hogwarts, porém, eram generosos e foram o bastante para conter (mesmo que no limite) a poção que agora havia se tornado amarelo-pus. Ronald grunhiu.
— Essência de Emily Bulstrode — o nojo estava bem expresso em sua voz, se seu rosto contorcido já não fosse o bastante. — Aposto que tem um gosto horrível.
— Você não está em uma posição melhor, Weasley — o lembrei com uma sobrancelha levantada. O rapaz chegou a estremecer e foi Harry quem pegou os dois cálices restantes, os enchendo até a metade e entregando um para o amigo – que demorou quase cinco segundos até o segurar com uma mão dura e desanimada.
— Ponha os fios na sua, então — Mione provocou. Até mesmo as sardas de Rony empalidecerem, mas despejou, junto a Potter, os fios em seus respectivos cálices. Sem saber qual deles era o fio de qual, tanto Crabbe quanto Goyle tinham cabelo escuro, observei suas bebidas mudarem após também assoviarem e espumarem: uma adquiriu uma cor de poeira de terra e a outra chegou a um marrom-escuro e amarelado.
— Eu acho melhor cada um tomar sua poção em um boxe, invés de no meio do banheiro — comentei, interrompendo o olhar pesaroso que cada um deles dirigia a poção. — Não estou nada interessada em conhecer o corpo de Vincent, Emily ou Gregor.
— Bem pensado — Rony concordou, torcendo a boca como se só agora percebesse que seu corpo se tornaria o de um dos capangas de Malfoy. — Vamos.
Andando devagar e com cuidado para não derramarem uma gota sequer da poção Polissuco, os três se separaram em boxes diferentes. Sem invejar o momento deles, permaneci de fora e encostada na parede oposta.
— Pronto? — Era a voz de Harry.
— Pronto — Granger e Ronald afirmaram, vozes mais agudas do que seria recomendado.
— Um... dois... três...
O silêncio que se seguiu foi quando todos os três, ao mesmo tempo, ingeriram a poção. Mas não durou muito tempo. Grunhidos, pancadas na madeira, respirações ofegantes e gemidos baixos me fizeram agradecer por saber que eles estavam em boxes diferentes. Houve até mesmo o som de tecido rasgando, o que me mostrou que os espertões não haviam tirado a roupa antes de tomar a poção. Por debaixo da porta do boxe eu podia ver joelhos no chão e até mesmo uma grande massa deitada de bruços. Murta Que Geme começara a gargarejar no boxe da ponta em um tom mal-humorado, e a massa deitada se levantou e gastou um momento se arrumando. Era o boxe de Harry, mas não foi a voz dele que saiu de lá.
— Vocês estão bem? — Ele havia escolhido Goyle, então, pois aquela era sua voz baixa e enrolada.
— Estou — Levantando de seus joelhos, ou melhor, dos joelhos de Crabbe, Ronald se ergueu no boxe. Vincent tinha a voz rouca e grave demais, o que fazia se assemelhar a um rosnado continuo de algum animal muito grande e não fazia uma boa acústica no banheiro. Pela falta de resposta, meus olhos e passos foram para o boxe de Hermione, mas então o de Potter se abriu.
Foi Gregory que saiu de lá. Enorme e pesado, sem os óculos e vestindo as vestes da Sonserina, a poção não havia cometido falha alguma. Harry, por outro lado, ainda estava se acostumando com o novo peso e as novas dimensões, andou de forma desajeitada até o espelho rachado em cima das pias e encarou seu reflexo – o reflexo de Goyle. Coçou a orelha de forma lenta, os olhos acompanhando o movimento. Olhos fundos e sem brilho, de um castanho tedioso invés de seu verde Sonserina.
A porta de Weasley também se abriu. Pálido e em choque, não havia qualquer diferença entre ele e Vincent, tampouco. Desde o corte de cabelo em cuia, até a papada do pescoço e os braços enormes e grossos e os sapatos nos pés. Seus olhos, antes azuis e agora pequenos e marrons, também foram em direção ao espelho, assombrados e curiosos.
— Isso é incrível — Ronald disse com a voz de Crabbe, cutucando seu nariz agora largo, invés de comprido e fino. — Incrível.
— Snape não mentiu uma letra no discurso do primeiro dia — concordei, concentrada em seus reflexos no espelho enferrujado. Uma poção capaz de transformar, sem qualquer mínima falha, uma pessoa em outra. Mesmo que por apenas uma hora, era uma magia poderosa e impecável.
— É melhor irmos andando — Potter interrompeu a admiração enquanto afrouxava seu relógio de pulso que, de alguma forma, não havia arrebentado. — Já estamos perdendo tempo.
— Você não sabe como é esquisito ver o Goyle pensando — Weasley murmurou, talvez mais para si do que para nós, ainda abobalhado enquanto batia na porta de Mione. Mas tinha que admitir que concordava com ele. — Vamos, precisamos ir...
— Eu... eu acho que afinal não vou. Vão indo sem mim.
Eu estava na porta de seu boxe no momento seguinte, empurrando o corpo pesado de Vincent para o lado (Ronald, ainda desacostumado com o peso, quase perdeu o equilíbrio). Encostei minhas mãos na madeira arranhada e descascada, as costas tensas. Emily Bulstrode não tinha voz aguda.
— Mione, nós sabemos que a Emily Bulstrode é feia, ninguém vai saber que é você...
— Cale a boca, Weasley — chiei para ele, batendo eu mesma na porta do boxe. — Hermione? O que aconteceu? Abra a porta.
— Não... verdade... acho que não vou. — Aquela voz fina, em algumas silabas desaparecia e se transformava quase em um... miado? Senti meu sangue parar de circular, minha boca ficando seca. Oh, Salazar, não... — Vocês andem depressa, estão perdendo tempo.
— Granger, abra esta porta agora! — Minha voz aumentou, ecoando no banheiro vazio, enquanto minhas mãos forçavam a madeira velha. A porta rangeu sob meu peso, mas havia um bloqueio: Mione fazia força no outro lado, barrando minha entrada forçada. Eu poderia usar de força bruta para quebrar o boxe, mas além de possivelmente machucar minha amiga no processe, sua vergonha chegou até mim em uma onda quente que corou minhas bochechas.
— Mione, você está bem? — Harry perguntou atrás de mim, tornando estranho com a voz de Goyle e neste tom.
— Muito bem... muito bem... vão andando...
— Hermione...
— Mal, pare — sua voz se afinou mais uma vez. Não pelo miado, mas pela vergonha, pelo medo. Eu sabia o que havia acontecido ali, sabia que não seria bonito, e Mione estava não queria plateia. — Por favor. Estão perdendo tempo. Os meninos só tem uma hora, você tem que levar eles para o dormitório da Sonserina.
— Mas... — tentei argumentar, mas seus sentimentos me rodearam e me empurraram para longe. Ela queria ficar sozinha, não queria arruinar o plano e estávamos perdendo tempo. Granger respirou fundo várias vezes para afastar as lágrimas da voz.
— Vai — frisou com a voz mais firme que poderia conseguir naquele estado. — Eu vou ficar bem. Vai.
Potter ergueu o relógio de pulso para mim, a expressão contorcida em ansiedade: dez dos sessenta minutos já haviam corrido. Ignorei, como teria que ignorar várias vezes nos próximos cinquenta e cinco minutos, os rostos de Crabbe e Goyle confusos (o que não era tão perturbador) e preocupados (o que era).
— Na volta encontramos você aqui, está bem? — Ronald perguntou para o boxe fechado, mas não houve resposta. Não tínhamos, porém, tempo para nos preocuparmos com isso. Respirei fundo enquanto deixávamos o banheiro, fazendo mais força do que gostaria de admitir para empurrar Hermione para o fundo da minha mente. Ela ficaria bem. Se fosse o que eu estava pensando, e não havia muitas duvidas sobre isso, não era nada mortal. Bom, talvez apenas para sua dignidade.
— Não balance os braços desse jeito — ouvi Harry murmurar para Weasley.
— Hein?
— Crabbe mantêm os braços meio duros... — e, na mesma hora, Ronald se corrigiu, tencionando os braços como se estivesse pronto para socar alguém.
— Que tal assim?
— Bem melhor — balancei a cabeça, me concentrando no que tínhamos que fazer. Hermione ficaria bem. Soltei o ar, olhando ambos de cima a baixo, então torci a ponta dos lábios para baixo. — Não, não vamos estragar tudo, vocês ainda precisam entrar no personagem... Potter, Vincent anda meio curvado e tem passadas longas. Rony, a dureza de Gregory não é só nos braços: ele mal levanta os pés para andar, também.
Os meninos ficaram mais cinco minutos treinando e continuaram a se corrigir enquanto andavam. Quando chegamos na entrada das masmorras, os considerei suficientemente bons para enganar até mesmo Malfoy – contanto que não falassem nenhum absurdo.
— Não os vejo falando muito, aliás — murmurei depois que uma corvina quintanista passou por nós, saindo das masmorras. Não era a primeira vez que eu a via por ali, inclusive. — Acho que isso tiraria a atenção de Draco. Eles apenas riem, grunhem e comem. Mas nunca prestei atenção na dinâmica dos três sozinhos. Então não façam bobagem.
Senti o desconforto dos dois quando mergulhamos na penumbra do meu habitat natural. Era escuro demais para seus olhos desacostumados e tive medo que acabassem pisando em falso e desabando com os novos pés. Com sorte, porém, eles permaneceram de pé, mesmo que seus passos soassem como um desabamento na floresta. Haviamos dado apenas alguns passos em direção a entrada da Sala Comunal quando o primeiro teste apareceu.
E, sem surpresa alguma, foi Ronald que quase estragou tudo.
— Que é que você está fazendo aqui em baixo? — Ele perguntou com a boca aberta e as sobrancelhas levantadas. Seu irmão mais velho, porém, apenas viu Vincent Crabbe com essa expressão querendo saber de sua vida, o que não foi bem-vindo.
— Isto — Percy Weasley se avermelhava muito fácil, ainda mais quando se sentia ofendido ou encurralado. — Não é da sua conta. É o Crabbe, não é?
— Que...?
— Sinceramente, Vincent, comeu tanto que esqueceu seu nome? — Disparei entre os dentes, ponderando exasperação e tédio. Rolei meus olhos para o Weasley mais velho, encolhendo os ombros à medida que levantava uma sobrancelha. — Fazendo ronda, Percy?
— O que...? Ah, sim, claro, sim, exatamente — de todos eles, o monitor era o que mentia pior. Era seu rosto, suas orelhas cada vez mais vermelhas e seu peito cada vez mais estufado. O último era um truque clássico de machos alfas, para parecerem mais intimidadores, maiores e agressivos que seu adversário. Podia funcionar até mesmo na espécie humana... em machos alfas. Percy Weasley não era um deles. O garoto também deve ter percebido isso, pois tossiu e limpou a garganta, forçando dura. — Muito bem, já para os seus dormitórios. Não é seguro ficar andando por corredores escuros hoje em dia.
— Você está nas masmorras, Weasley — desta vez, não tive que forçar minha sobrancelha a se erguer. — Não sei se reparou, mas não temos as mesmas regalias do resto do castelo. Corredores escuros são nossos lares.
— E como é que você está andando por aqui? — Eu juro que afundaria o cotovelo na banha de Crabbe se Ronald abrisse a boca mais uma vez. A atenção de Percy se voltou para ele, seu corpo magro se esticando e se enchendo de supervalorização de si mesmo.
— Eu sou monitor. Nada vai me atacar.
Eu o senti assim que colocou o pé para fora da passagem. Vinha pela frente, buscando seus amigos que já haviam demorado além do humanamente aceitável no banquete. Quando a cabeleira quase branca de Draco Malfoy despontou no corredor escuro, quase tive vontade de sorrir e não fui a única. Pela primeira vez na vida, os leões estavam quase felizes em ver seu nariz reto e seus olhos gelados.
— Mal? — E por um segundo que posso ter apenas imaginado, consegui ver o momento exato em que aço de seus olhos derreteu, me mostrando as estrelas de Natal que eu havia visto nesta manhã. Mas então eles foram em direção a Percy Weasley e vi, outra vez, elas se apagarem e afiarem outra vez. — E o que você está fazendo aqui em baixo, Weasley?
— Me ouvindo dizer como concordo com ele — ronronei, mesmo que uma parte de mim tenha rosnado a ideia de me juntar a Malfoy para humilhar o garoto. Pegadinhas com os gêmeos era uma coisa, dar o braço para Draco e rir com ele era outra. Infelizmente, Percy estava apenas nos atrapalhando. — Percy parece ter uma ideia muito firme de que o Monstro de Sonserina vai olhar para seu pequeno broche de monitor e sair correndo.
— Oh, ele tem? — E ali estava o que eu odiava nele. O sorriso de lábios pálidos, doce e falso. Os olhos de aço frio e afiado, prontos para cortar qualquer humanidade que pudesse pensar em demonstrar. As feições do rosto torcidas em arrogância e despeito, tornando o belo apenas uma figura grotesca. — Que interessante, Weasley. Me diga, é com essa inteligência que seu pai decidiu ter tantos filhos mesmo ganhando tão pouco?
Repeti para mim mesma que aquilo era pelo plano. Senti meu coração acelerar, meu sangue ferver, mas permaneci parada, a expressão de deboche ainda congelada em meu rosto. Só não pude controlar minha boca.
— Você sempre estraga tudo, não é mesmo, Draco? — Torci minha boca para ele antes de me voltar para o monitor da Grifinória. — Vamos indo, até logo, Percy.
— Vocês precisam mostrar um pouco mais de respeito por um monitor da escola! — Ainda o ouvi dizer atrás de nós, o rosto mais vermelho que nunca. — Não gosto de sua atitude!
Queria lhe dizer que eu também não, mas estava mais preocupada em me por entre Ronald e Draco para que o leão não pulasse em seu pescoço. Sentia sua raiva mal disfarçada lamber minhas costas, assim como tinha consciência do lamento de Potter – ele não estava feliz consigo mesmo em deixar Malfoy pisar em Percy tanto quanto eu. Mas o tempo estava correndo e eles precisavam ficar a sós com o garoto.
— Não me lembro de algum dia ter visto você a sós com esses dois — Draco soltou ao meu lado, a voz arrastada e os olhos na frente.
— Não se acostume com a imagem — devolvi em uma inclinação de cabeça. — Apenas nos encontramos no caminho para cá.
— Eles saindo do banquete, aposto — ele olhou para mim, então, quando paramos em frente a parada que escondia a porta de nossa sala comunal. Potter e Weasley pararam atrás de nós, em silêncio e com rostos confusos como era de praxe de suas personas. Nos olhos muito claros de Malfoy não havia mais arrogância, mas não quer dizer que voltaram a brilhar. Estavam, invés disso, ainda mais afiados. — E você...
— Não estrague o Natal, Malfoy — os lábios dele se puxaram, criando uma linha fina e contorcida enquanto seus olhos se estreitaram, a luz diminuindo à medida que o corte se afiava. Ignorei seu rosto, seu veneno que pingava para escorrer e mirei a pedra outra vez. — Sangue-puro.
Quando a parede deslizou e revelou a entrada para a sala comunal da Sonserina, dei espaço para que Potter e Weasley passassem, mas não me mexi. Meu corpo imóvel fez Draco virar o rosto quando atravessou e não me viu mais ao seu lado, uma sobrancelha clara e bem-feita se levantando. Fiz da minha um espelho e, apesar de não precisar, deixei que as palavras saíssem.
— O dia ainda não acabou — não era mentira, mas ele também sabia que não era tudo. Não me rebateu, porém, e tinha que agradecer a parede por isso: ela já havia fechado antes que o garoto se decidisse sobre falar ou não e o que. Girei meu corpo e me afastei, rumando com velocidade em direção às escadas mais uma vez. Este não era o plano. Eu devia estar lá com eles, alertando-os e controlando-os para qualquer erro que pudessem cometer na frente de Malfoy. Mas o plano teria Hermione e ela também não estava lá.
Os corredores estavam vazios, o castelo estava em silêncio e até mesmo a festa no Salão Principal havia diminuído de intensidade. Mesmo assim, não me atrevi a correr. A pressa era muitas vezes o que arruinava uma boa caça. E apesar de não haver grandes chances de cruzar com alguma alma perdida, eu só precisava de uma para chamar atenção. Isso não me impediu de fazer os músculos de minhas pernas trabalharem sem piedade ao não diminuir o ritmo acelerado nem por um momento enquanto me lançava até o sétimo andar.
— Coração de Fogo — chiei entre os dentes, sentimento meu corpo quente pela velocidade que meu sangue era bombeado por ele. A Mulher Gorda me olhou com uma sobrancelha arqueada.
— Entrar sem a companhia de alguém da casa já é demais, Mal.
— Por favor — tomei o ar que quase não me permiti puxar no caminho para cima. — É uma emergência — ela permaneceu imóvel, os olhos sobre mim e as sobrancelhas franzidas na cara redonda. — Por favor, me dê três minutos.
Foram segundos longos enquanto ela apertava os lábios pequenos um no outro.
— Não deixe que eu me arrependa — e o quadro foi para o lado, revelando a abertura da Torre da Grifinória. Não perdi tempo em me lançar para o lado de dentro, agradecendo por ainda estar vazio. Os Weasley deviam estar em seus quartos, ou nem mesmo na torre. Avancei para a escadaria em caracol que me levaria para o dormitório masculino e abri a porta do segundo ano.
Achei o que procurava na primeira tentativa. A capa da invisibilidade estava no fundo do malão de Harry, e agarrei seu tecido macio e fino entre os dedos antes de a puxar para fora. Era, por si só, quase transparente. Eu já havia a visto por tabela na mente de Potter, mas era a primeira vez que a tinha nas mãos e a magia no tecido me fez arfar. Era magia poderosa e antiga e estava guardada no fundo do baú de uma criança. A situação quase me fez rir, mas não tinha tempo para isso. Dobrei a capa o máximo que pude e coloquei debaixo da blusa, sentindo o tecido frio e macio, tão volúvel como água, se acomodar ao meu corpo.
Deixei a sala comunal da Grifinória com ainda um minuto inteiro do meu prazo e disparei um agradecimento para a Mulher Gorda sem olhar para trás. Fui menos cuidadosa na descida, desta vez, saltando degraus e deslizando pelos patamares até chegar ao segundo andar. O riso frio e agudo do fantasma de Murta Warren encheu meus ouvidos assim que abri a porta, o que fez imediatamente meu monstro sibilar e mostrar os dentes. Já havia sido complacente demais com aquele fantasma na puberdade.
— Olhe! Alguém chegou para ver essa feiura! Vão caçoar de você horrores! — A fantasma ria tanto que roncava entre as frases quando deslizou em minha direção e pude ver melhor seu rosto perolado. Estava radiante. Nunca a tinha visto tão feliz e com um sorriso tão largo. — Espere para ver, está horrível!
Passei por ela sem lhe dar atenção, indo em direção ao boxe ainda fechado de minha amiga.
— Hermione — a chamei, sentindo suas emoções me invadirem outra vez. Ela não havia se acalmado nem um pouco neste meio tempo. Pelo contrário, eu quase a sentia tremer. — Abra logo esta porta.
— Vai embora! — Sua voz esganiçada me expulsou, mas não me mexi. Puxei o ar enquanto ainda ouvia as risadas de Warren e me virei para ela. Devagar, o mundo se tornou vermelho enquanto os olhos dela se abriam e, como devia ser, toda sua graça foi enterrada. Seu rosto se congelou, o sorrindo tão morto quanto ela nos lábios, os olhos se abrindo para algo atrás de mim, perdido em um pavor antigo.
— Você não devia estar aqui, srta. Warren — chiei seu nome entre os dentes, forçando as palavras a saírem através dos lábios. Mal reconheci minha voz, fria e suave, mas ela sim. De algum lugar, ela a ligou ao medo congelado em seus olhos e disparou em um guincho até a um boxe próximo e mergulhou pela privada, desaparecendo pelo encanamento do castelo.
Com o silêncio, o barulho do trinco do boxe foi alto. Me virei para ele, vendo o momento em que Granger abria a porta. Ela soluçava de tanto chorar, mesmo que em silêncio e tive apenas um segundo para registrar sua aparência antes que se atirasse em meus braços, chorando em meu ombro. Se percebeu a cor dos meus olhos, não disse nada e gostei que não dissesse. Passei os braços por seu corpo, deixando que se acalmasse e a sentindo muito mais macia do que deveria.
— Era um pelo de gato! — Ela chorou contra mim, gaguejando para falar. — Emily Bulstrode tem um gato! E a poção não deve ser usada para transformar em animais!
— Moony se sentiria honrado pela homenagem — respondi através de seu cabelo, tomando o cuidado para correr meus dedos em suas costas. A piada a fez ofegar, engolindo um soluço, o que considerei uma vitória. — Agora vamos, você precisa ir na enfermaria.
— De jeito nenhum vou sair desse jeito! — Hermione vomitou em um folego só, se afastando de mim e interrompendo o abraço. Foi quando pude ver melhor os pelos negros que cobriam seu rosto, e a cor de seus olhos que haviam ido de um chocolate puro para amarelos como os de Madame Nor-r-ra. — Eu tenho orelhas, Mal!
— Salazar abençoado, você tem — franzi as sobrancelhas para os triângulos acima de sua cabeça. — É diferente ouvir aí de cima? Está com a audição felina? É muito boa.
— Mal!
— Perdão — balancei a cabeça, ignorando a forma negra que se balançava atrás dela. Tirei a capa debaixo de minha blusa e a mostrei. — Não achou que faria você sair desse jeito até a enfermaria, ou achou? Eu não sabia como estava, mas tinha uma ideia, então entre aqui e vamos.
Hermione obedeceu. Se cobriu com a capa e me deixou ajeitar seu rabo debaixo dela, prendendo-o em sua calça, pois balançava sem ela perceber. Ela chiou quando fiz isso, mostrando os dentes afiados, e logo depois seus olhos se molharam outra vez. Quando saímos do banheiro, olhei uma última vez para o espelho rachado e contive o suspiro.
Meus olhos só começavam agora a voltar ao normal.
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