Corona II
37 Estrelas Cadentes
Notas iniciais
Poppy tinha várias qualificações. Como medibruxa não era surpresa seu exímio conhecimento em poções e Herbologia, além de feitiços reparadores e de exames. Ela também era extremamente dedicada a seus pacientes: ninguém saia da ala hospitalar sem um exame completo, mesmo que a reclamação inicial não passasse de uma simples dor de cabeça. Não pela primeira vez me perguntava o que uma profissional de tão alta qualidade estava enfiada em uma simples enfermaria escolar – mesmo que Hogwarts tivesse seus desafios vez ou outra, Pomfrey poderia ser muito melhor aproveitada em grandes centros de saúde como o St. Mungus.
Mas não seria eu que reclamaria, pois outra grande qualidade da mulher era a discrição. Papoula nunca fazia perguntas, não além do que seria estritamente necessário para o processo de cura do seu paciente. Então, quando eu tirei a capa de Hermione na porta da ala hospitalar e a garota disparou para dentro em toda a gloria de seus novos pelos negros, tudo que recebemos foi uma sobrancelha muito levantada.
Granger foi acomodada em uma cama mais afastada da porta, já livre de suas roupas e encolhida entre os lençóis. Pomfrey não demorou a lhe dar uma poção do sono e já estava fazendo efeito, arrastando minha assustada e ansiosa amiga para a inconsciência. Antes de dormir, ela lançou seus novos olhos amarelos em minha direção em uma exigência que sequer precisava ser uma legilimênte para entender: me mantenha informada. Tive que sorrir para sua ordem, pois ela era Hermione Granger tendo bigodes ou não. O sorriso, porém, ficou menos leve à medida que Papoula se aproximava de mim com os lábios tão apertados quanto os olhos.
— Lewis — ela me chamou quando parou a minha frente, Hermione já ressonando em seu leito. Ergui meus olhos para encarar os escuros da mulher, me concentrando para não tencionar os ombros. — Algo a dizer sobre a situação da srta. Granger?
— Além que eu estou muito certa em confiar ela à suas mãos mais que capacitadas? — Arisquei torcendo o canto dos lábios na tentativa de um sorriso. Não houve qualquer sinal de suavidade nas feições da medibruxa – Pomfrey não brincava em serviço. Soltei o ar pelos dentes e corri meus olhos de volta para minha amiga. — Eu duvido que você não saiba o que é, Poppy, e se quer saber o como, temo que não é um segredo só meu para contar.
A mulher ficou em silêncio. Tinha as mãos juntas na frente do corpo e os olhos carregados em cima de mim. Tive vontade, mas recuei e mantive distancia de sua consciência. Eu respeitava demais a mulher que já havia salvado minha vida e de meus amigos para invadi-la dessa forma. Ficou bastante tempo me analisando, me julgando de uma forma muito parecida com a de McGonagall. Ao contrário da professora, porém, Papoula soltou o ar através do nariz com bastante calma.
— Me diga o que conseguir.
O voto de confiança me fez sorrir. Ela não tinha essa obrigação. Muito pelo contrário, tinha certeza que seu dever como parte do corpo docente da escola e responsável pela ala hospitalar seria exigir respostas. Mas Poppy não iria me encurralar, não era assim que ela agia – mesmo que tivesse o direito
O fato de não ter quebrado seu próprio protocolo comigo, em um momento em que a maioria do corpo docente perdia longos minutos me analisando como alguma serpente adormecida, também me fez particularmente feliz.
— Foi a meia hora, mais ou menos — comecei. — Um cálice cheio. A poção estava perfeita, posso garantir. Falhou com ela pelo claro erro na parte da essência. Granger colocou, sem saber, pelo de gato — os olhos de Pomfrey se estreitaram ainda mais e soltei o ar para eles, rolando os meus em direção a Hermione outra vez. — Sei que não poderia estar em mãos melhores, Poppy.
Não havia graça ou elogio na minha voz. Era apenas a verdade e o alivio. As consequências de uma poção Polissuco com defeitos podiam ser horríveis. Granger ter acabado com bigodes e um focinho era um alivio – as ilustrações em Poções Muy Potentes não poupavam detalhes das deformações causadas por qualquer erro. Peles parcialmente derretidas, espaço ocular vazio e membros torcidos eram só algumas das possibilidades, em alguns casos de forma permanente.
— Ela vai dormir por bastante tempo, agora — foi sua resposta após um silencio longo, e sua voz saiu suave, mesmo que seus ombros ainda estivessem retos e sua testa vincada. — E não será rápido. Mas sim, não vejo razões da srta. Granger não se recuperar de forma plena. No entanto, espero que o evento sirva de lição para as duas... e para os demais envolvidos.
Um sorriso torto se desenhou nos meus lábios, pois tentei o prender o máximo que pude. Papoula não era burra. Nenhum medibruxo poderia ser menos do que atento e dedicado, pois se medicina trouxa era complexa e levava quase uma década até alguém ser de fato apto a exercê-la, só podia imaginar quanto estudo e intelecto eram necessários para ser um mestre da medicina bruxa.
Deixei Granger e seu rabo e Pomfrey e seus olhos firmes para trás, voltando em direção ao banheiro do segundo andar. Ele ainda estava vazio quando cheguei, com Murta lamentando tão longe que seus gemidos não conseguiam viajar todo o caminho pelo encanamento e deixando o lugar menos desolado.
Sem relógio, me encostei na parede e esperei. Não gostava de ficar sozinha naquele lugar, quanto mais ociosa, pois restava apenas a sensação da minha pele esquentando vagarosamente pelo caminho da marca até chegar ao ponto de queimar. Os ratos que Minerva havia me emprestado ainda estavam no armário mofado em uma caixa enfeitiçada para não fazerem barulho, com comida e água constantes. Eu os havia deixado em paz desde que admiti que precisaria de muito mais estudo teórico até tentar a magia em si.
A frustração não era um sentimento a qual eu estava acostumada, não mais, não nisso. Sempre fui capaz de realizar tudo que decidi que iria. Aprendi a ler e escrever sozinha, além de me educar por conta própria com os poucos livros que tive a disposição na biblioteca do Santa Maria. Mesmo antes de Burbage e de ter livros de magia na minha mão, ela não era uma surpresa para mim. Ao longo dos anos havia sido mais que capaz de realizar tudo que eu pudesse desejar: destrancar portas, transformar uma escadaria em uma rampa, repelir ou atrair objetos, arrancar algo da mão de alguém. Quando enfim tive uma varinha e alguma instrução, a magia me acolheu como uma velha amiga e nunca, em qualquer matéria, em qualquer feitiço, poção, calculo ou pronuncia, eu havia falhado.
Até agora.
Não era agradável estar em um beco sem saída, ainda mais sem qualquer ideia de como me livrar dele. Simplesmente não havia mais o que tirar das minhas transcrições e estudos próprios. Eu precisava de mais informações, eu precisava de algo novo para me guiar, e duvidava que Snape fosse me dar outra autorização para a Sessão Reservada para que eu vasculhasse alguma informação nova.
A porta foi escancarada por duas figuras deploráveis. Potter e Weasley entraram derrapando no piso molhado, usando apenas as meias e tropeçando nas vestes enormes para eles, mesmo que estivessem a segurando como saias. Era claro que haviam saído em desesperado quando perceberam que o efeito da poção se esgotara, e suas respirações altas e ruidosas só serviam para me fazer sentir pena.
— Para uma poção que não é das mais rápidas e agradáveis para ter efeito, ela parece se desfazer sem cerimonia — comentei com uma sobrancelha arqueada, esperando os garotos recuperarem o folego. Harry foi o primeiro, sendo bem mais leve que Ronald, e endireitou a postura enquanto olhava em volta para os boxes vazios.
— Onde está a Mione?
— Ala hospitalar — retruquei. — Ela está bem, Pomfrey está cuidando dela. Estava dormindo quando saí. Então, algo a dizer?
— Draco Malfoy é um verme desprezível — foram as primeiras palavras de Ronald. Agora que estava seguro dentro do banheiro e não tinha mais que se preocupar em estar se transformando em plena vista, não restava mais desespero em seus olhos e sim a raiva. Ela fazia suas írises azuis brilharem enquanto seu rosto se torcia. — Aquele filho da...
— Não é ele — Harry interrompeu a profusão de xingamentos que iriam sair da boca do amigo. — Draco não é o herdeiro. Ele sequer sabe quem é. Foi uma perda de tempo.
— Não totalmente — Weasley se endireitou, a vingança tornando as linhas de seu rosto suaves de forma não natural. — Não descobrimos quem é o atacante, mas vou escrever a papai amanhã e dizer para ele revistar embaixo da sala de visitas dos Malfoy.
Para minha sobrancelha arqueada, Potter concedeu uma explicação depois que colocou os óculos. Ele já era totalmente Harry, o que o tornava ridículo nas roupas extragrandes de Goyle. Quem dirá Weasley, que era alto e magro. Aproveitei que estavam no boxe e, enquanto ouvia a narração (desta vez Potter não pôde fazer muito para impedir as injurias de Rony) deixar toda a satisfação por eles terem dado com os burros na água. Como sempre, porém, a alegria provinda de ter razão era manchada pela existência de Malfoy.
— Esse tal de Lucius não tem mais o que fazer da vida, claramente — desdenhei com a voz áspera. — Para ter tempo de fazer recortes de jornal e enviar para o filho.
— Todos eles são assim, Mal, esses Malfoy — Weasley respondeu saindo de seu boxe, sua voz grave. — Tão ricos que ficam coçando a bunda o dia inteiro.
— Ele vai ter algo para fazer depois que seu pai bater na porta dele — Harry acrescentou, também deixando o cubículo vestindo as próprias roupas outra vez. — Quero ver ele dar entrevistas e discursar na frente dos jornalistas depois disso.
Os meninos me entregaram as vestes de Vincent e Gregory, as quais dobrei sobre o braço antes de guia-los para a enfermaria. Como eu havia dito, Granger estava afundada em um sono mágico quando chegamos e Pomfrey quis nos barrar. Com uma insistência cochichada, concedeu dois minutos para que eles a vissem em silêncio. Fiquei feliz que Hermione não estivesse de olhos abertos para registrar os olhos arregalados e as bocas abertas de seus amigos, teria sido demais para sua confiança.
Ainda passei na cozinha no caminho de volta para a masmorra, depois que me despedi dos dois leões na porta da ala hospitalar. No meio do caminho, meio pensamento foi o bastante para destrancar a porta de onde batidas abafadas ecoavam de Crabbe e Goyle. Entreguei suas vestes de para Jeps e ainda consegui uma fatia gorda de pudim antes de saltitar em direção a sala comunal da Sonserina. Passei por um Malfoy sentando em sua poltrona favorita, em frente a seus capangas confusos e travei meus olhos no seus.
Draco me acompanhou durante todo o tempo em que cruzava a sala em direção ao dormitório, mas não parei. As palavras venenosas que ele havia dito sobre Arthur Weasley, Hermione e nascidos-trouxas em geral ainda queimavam na minha mente, forte o bastante para que o brilho fantasioso de seus olhos de prata não me alcançasse.
Com o cair da noite, Lagrum me esperava..., mas não só ele.
Travei meus passos no patamar do segundo ano, meus olhos fincados na caixa em frente a porta do meu dormitório. Tinha consciência da presença de Lagrum do outro lado da porta tanto quanto ele tinha da minha e avancei com cuidado. Era uma bela caixa. Comprida e prateada, estava decorada com um belo laço negro de veludo. Havia algo de magico nela, eu podia sentir tocando minha pele, mas absolutamente nada de perigoso. Ergui o embrulho com as mãos sem dificuldade e entrei no dormitório.
Faz tempo que está lá fora.
Lagrum estava muito desperto do lado de dentro e me rodeou assim que fechei a porta, impaciente. Não fazia sentido. Os presentes eram destinados aos elfos do castelo que, durante a noite, empilhavam com zelo e silencio aos pés das camas dos alunos. A outra opção era a entrega pessoal, mas não havia outra garota em toda Sonserina no momento, e os garotos não podiam...
Abra isso logo, Malorie.
Torci os lábios ao ouvir o nome completo, mas não perdi tempo retrucando meu velho e estupido amigo. Levei a caixa até a frente da lareira onde pude me sentar e puxar seu laço com cuidado, que se desfez como se fosse seda, e ignorar a dormência em meus dedos e as batidas fortes do meu coração. Não fazia sentido. Apenas não fazia. E com o silvo irritado e impaciente de Lagrum cortando minhas fantasias e devaneios sobre o possível quem e como, abrir a caixa.
O embrulho me pareceu o presente em si por breves segundos. Era tão bonito. De um preto que reluzia como as escamas de meu amigo logo após a troca de pele, salpicada de prata como um céu estrelado. Então, percebi que de fato era: os pontos prateados se mexiam, aumentando e diminuindo de intensidade como corpos celestes. Era macio ao toque e ainda mais leve do que o laço de seda. Talvez fosse algum tecido magico, talvez fosse apenas um que minha realidade de órfã nunca me permitiu entrar em contato. Seja como fosse, eu o guardaria. Era agora uma das minhas coisas mais bonitas.
Depois de tal apresentação, me inclinei sobre a caixa para tirar afastar o tecido e revelar o presente. Preto sobre o preto, mas o material era diferente. Muito diferente da maciez e leveza do tecido que o envolvia, o presente era de couro. O puxei da caixa com sutileza de menos e Lagrum poderia nunca me perdoar pelo salto que me pôs de pé, mas não que eu me importasse com sua opinião. Não naquele momento.
Era, sem sombra de dúvida, a peça cara que eu já havia segurado na minha vida. A jaqueta era de couro de dragão, mas com um trabalho muito diferente das luvas pedidas no material escolar. Havia sido amaciado até se tornar fino e reluzia como escamas negras. O modelo me parecia muito com o que vi na capa de uma revista trouxa sobre mulheres motoqueiras e, mesmo assim, eu podia sentir a magia nela. Aquilo não era havia sido comprado de nenhuma loja de departamento trouxa. O mundo bruxo a havia feito e eu podia sentir na sensação do couro em meus dedos.
— Me parece um bonito pedaço de pele — Lagrum se aproximou de mim, rodeando meu corpo como seu costume. — Algum sinal de quem enviou?
Apertei os lábios para conter o sorriso e fiquei feliz por ele não poder enxergar o brilho em meus olhos. Mantive meus olhos longe do espelho de mão que Blás havia me dado no Natal passado, sempre descansando na minha mesa de cabeceira, pois nem mesmo eu me atrevia. De todas as coisas, não a isso. Com cuidado, retirei o suéter Weasley e coloquei em cima da cama, apenas para deslizar a jaqueta pelos meus ombros. O tecido correu pela minha pele com facilidade e se encaixou com perfeição no meu corpo, permitindo que fechasse o zíper sem nenhuma dificuldade.
Respirei fundo e soltei o ar, acolhendo a sensação macia em contato à minha pele e a magia dela. Não apenas da peça, mas do momento. Meus olhos abaixaram para o tecido de embrulho, o céu estrelado que cobriu meu presente. Me inclinei para pega-lo outra vez e corri meus dados pelo meu próprio firmamento, as constelações dançando ao meu redor. O sorriso que me ganhou foi tão quente como o fogo da lareira principal do castelo e minha voz sutil como o cair de um único floco de neve.
— Foi um presente, Lagrum, das estrelas.
Ainda preguiçoso do sono recém interrompido, ele me abençoou com seu silencio e deslizou pelo chão em direção a lareira. Seu próprio milagre de Natal foi uma tranquilidade que raramente me era concedida, deixando que eu fosse para suas dobras assim que tive meu tempo perdido em vergonhosos sorrisos. Tirei meus coturnos e jaqueta, voltando para o suéter vermelho, pegando o livro de feitiços.
Fiz meu melhor para me distrair, executando um encantamento atrás do outro, apontando a varinha e mergulhando na sensação de plenitude que a magia que proporcionava. Estava ali, tão forte e presente que era um absurdo que eu tivesse sobrevivido de truques simples até a carta de Hogwarts. Depois daquele dia, depois de ler as palavras “Escolha de Magia e Bruxaria”, depois de Burbage me chamar de bruxa... era como se uma tranca finalmente houvesse se aberto. Eu tinha acesso a ela. Era cada dia mais consciente dessa força dentro de mim, correndo pelo meu sangue, construindo meus ossos, entranhada em meus órgãos. Escapava de mim, as vezes grandes demais para ser contida pelo meu próprio corpo e formigava na ponta de meus dedos, enchia meus pulmões de ar – tão maciça e real que nem sempre pedia uma varinha.
O objeto mágico não era nada menos que um facilitador, um funil para a magia. A varinha de um bruxo servia como condutor de sua magia, para que tivesse controle dela. Magia sem varinha era visto como algo de criança, primário e quase selvagem. E talvez fosse. Mas não poderia deixar de, algumas vezes, tentar ir cada vez mais longe apenas com poder bruto e imaginação.
E mesmo toda a felicidade e paz que minha magia me proporcionava não era o bastante para ignorar o peso dentro de mim. Não era um ruim, mas com certeza se provou um além da distração. Fazia meus dedos dos pés se contorcerem e meus olhos correrem em direção à porta e ao único relógio na parede. Já era tarde quando Lagrum me chutou para fora do dormitório, cansado da minha ansiedade.
— E não me apareça tão inquieta outra vez.
Quis protestar e xingar, defender minha dignidade de alguma forma, mas ele estava certo. Meus pensamentos estavam rápidos e meu corpo, agitado. Fiquei bastante tempo tentando me convencer a prestar atenção na pratica de feitiços, de modo que eu nem sabia mais se ele ainda estaria ali. Era apenas uma chance, talvez um último milagre de Natal. Subi os degraus e parei na entrada dos dormitórios, meus olhos encontrando o topo de sua cabeça no mesmo instante. Malfoy estava lá.
Sentado em sua poltrona favorita, ele havia trocado de roupa. Estava com pijamas de seda, ou qual for o tecido caro, e um roupão prateado amarrado de forma quase displicente, com um emblema no peito que reconheci do Diretório Puro Sangue: era o brasão de sua família, um escudo verde e preto, lateado por dois dragões negros e com um grande “M” prateado no meio, com o legado da família logo abaixo, em uma faixa igualmente prata, “Sanctimonia Vincet Semper”.
— Santidade sempre ganha — traduzi em voz alta, chamando sua atenção e seus olhos para mim. Ainda brilhavam como os vi fazer hoje pela manhã. Eram tão diferentes do aço cortante que Potter tinha em sua lembrança, aquela cor fechada de tempestade combinada com o sorriso destruído pela satisfação em ser cruel. Iluminados pelo fogo esverdeado da lareira, eles pareciam estrelas outra vez. Não menos frios que aço, mas muito mais brilhantes. — Não sabia que sua família era religiosa, Draco.
Ele sorriu, pois sabia que eu tinha entendido bem a que santidade o brasão se referia. Era sempre uma surpresa agradável me lembrar em como ele ficava dessa forma, relaxado a luz da lareira, sem mais ninguém a sua volta, sem uma plateia para agraciar com todas suas piores falhas. Seu sorriso vinha fácil, um riso de menino, pois Malfoy tinha apenas doze anos, e chegava aos seus olhos, fazendo-os parecer estrelas cadentes presas na Terra. Mas o mais impressionante era o rosto: a forma como, só nesses momentos, era de fato notável como a arrogância e o desdém destruíam sua beleza.
— E não sabia que você lia latim assim, tão bem — uma sobrancelha clara sua se ergueu, bem-feita e bonita como tudo nele. — Mais um pedaço obscuro do seu passado?
— Existem coisas muito piores para chamar isso de obscuro — sorri de volta, avançando em sua direção até me sentar ao seu lado, no braço de sua poltrona. Eu sentia o calor da lareira em minhas pernas, mas sentia muito mais o calor do corpo dele ao meu lado. Tentei me lembrar se a ultima vez que estivemos nessa posição (no ano anterior, quando ele enfiou o nariz perfeito onde não foi chamado, descobrindo sobre Norberto, e eu pedi para que não abrisse o bico) estava tão consciente disso. Enquanto desviava o olhar para as chamas, vi que a resposta era não. — É só um detalhe que ninguém se deu ao trabalho de querer saber.
— Eu quero — sua resposta rápida me fez buscar seus olhos outra vez e descobri que ele já esperava pelos meus. Malfoy havia encostado a cabeça no respaldo da poltrona e a virado em minha direção, erguendo-a o bastante para fazer uma linha de visão perfeita. Isso me dava outro ângulo dele, um que a ocasião anterior não havia proporcionado, uma vez que ele não se dignou a me encarar. Visto de cima, os traços simétricos de seu rosto quase me faziam engasgar, mas consegui apenas abrir um pouco mais o sorriso.
— Não é nada demais, realmente — encolhi os ombros. — Orfanato católico, eles celebravam a missa da forma antiga, ou seja, em latim. Eu tive que aprender. Até entrar em uma escola de magia, era bastante inútil ser fluente em uma língua morta.
— Você continua falando isso — sua testa formou um vinco bem entre as sobrancelhas que contive meus dedos para não desfazer. — Católico. O que significa? Eu sei que é uma religião, alguns bruxos são adeptos, mas nunca entendi o jeito que parece grande coisa.
— O que...? — Pisquei meus olhos, boquiaberta. — Santo Merlin, vocês realmente vivem em uma bolha..., Draco, estamos comemorando o Natal...
— Na verdade, não — e pela primeira vez a satisfação superior que se espalhou pelo seu rosto não me deu vontade de jogá-lo na lareira. — Estamos comemorando o Yule, a primeira roda sazonal do ano, marcada pelo Solstício de Inverno. É uma festa celebrada muito antes desse tal Cristo. Hogwarts só adotou o nome Natal para facilitar os estudantes sangue... — Malfoy travou por um momento, aparentando morder a própria língua, mas logo se recompôs sob minha atenção. — Nascidos trouxas em sua adaptação. Muitas famílias discordaram, claro, e sim, Mal, uma delas foi a minha.
— Não estou criticando — rebati de bom humor. — Continue, por favor.
Ele não o fez de imediato. Parou com os lábios apertados e os olhos faiscando, estreitando, mergulhando nos meus olhos sem qualquer temor sobre o que iria encontrar no fundo. Pelo contrário, buscando. Tive um vislumbre de meu próprio rosto em sua mente, com o cabelo escuro caindo sobre o rosto inclinado e as sombras da lareira dançando sobre minha pele, meus olhos pareciam mais abismais do que o costume. Esperei que ele recuasse – como todos os outros. Quando seus lábios se curvaram para cima e suas estrelas se acenderam com mais força, soube que ele havia se lançado.
Tão típico de pequenos lordes, acharem que estão acima de toda e qualquer consequência.
— Há certa familiaridade entre as duas celebrações — ele continuou devagar, como se testasse a própria voz. — Mas dizer que são iguais é ridículo. Yule é o Solstício de Inverno, é a mais longa do ano e o dia o mais curto. É o período de agradecimento e alegria — e suas palavras tremeram, como se fosse uma piada. — Em que a deusa vira mãe do seu futuro marido, o novo deus sol. É o retorno da luz, já que o mundo ficou escuro com a morte do deus, em Samhain.
— Se as aulas de religião no orfanato fossem tão interessantes assim — cantei para ele, recebendo um sorriso largo em troca. Malfoy estava empolgado e era raro ver isso acontecer sem que o motivo fosse torpe.
— Já as tradições do Yule, os trouxas roubaram várias, você vai notar a semelhança — em uma noite de primeiras vezes, seu desdém e torção dos lábios não me incomodou. Não desta vez, não sobre isso. — As árvores cobertas de neve são decoradas com velas, comida e presentes para os espíritos da natureza, não para a família. E com bolas de madeira pintadas a mão, representando a fertilidade do deus — seus olhos brilharam outra vez, como se recordando uma lembrança. — Normalmente, se deixa as crianças fazerem isso... O que pode não resultar nos melhores desenhos para homenagear a virilidade do deus.
— Agora sei o motivo dos Malfoy só terem um filho por geração — cutuquei com um sorriso, sendo brindada pela cor em suas bochechas. Mas, muito digno e seguro de sua posição, Draco escolheu me ignorar.
— O topo da árvore é coroado como símbolo pagão mais comum: o pentagrama — sua voz, um oitavo mais alta, me fez colocar a mão em frente a boca para esconder o sorriso que chegava a mostrar todos os dentes. — Elas eram comumente levadas para dentro de casa, para proteger os espíritos da natureza do inverno rigoroso, e estes protegeriam a família em troca... ao menos, em tese. O costume é contar histórias ao redor delas, na noite de Yule, o geralmente acontece na hora da ceia. Visco é usado na decoração simbolizando o deus e azevinho para representar a deusa. A Tora de Yule, era uma tora de carvalho, decorada com fitas e velas verdes e vermelhas. Verdes para o deus, e vermelhas para a deusa. Ela simbolizava o renascimento do deus e a bênção da deusa, era confeccionada e mantida num lugar de destaque na casa, o ano todo, até o próximo Yule, onde era queimada na lareira, e outra tora seria confeccionada.
— Isso é um absurdo — apertei os lábios, sentindo uma ponta do meu sangue ferver. — Você tem razão. A semelhança é clara, mas... é como uma copia malfeita. Está tudo aí. A árvore, os presentes, a estrela, os enfeites, a reunião, até mesmo o significado de alegria, agradecimento e paz. Mas ao mesmo tempo é algo tão distante... eles não ensinam sobre isso, sabe? Sobre como roubaram as celebrações de outras religiões.
A Igreja Católica, desesperada para se assegurar no mundo pagão, absorveu e alterou a maioria dos costumes pagãos, como forma de atrair e apaziguar o povo – uma vez que viram que eles continuariam celebrando seus rituais sagrados. Isso, conjunto ao fato de que eles usaram a imagem do deus cornífero para pintar a imagem do demônio deles, resultou num povo inevitavelmente convertido.
No caso de Yule, o renascimento do deus que traria luz e alegria para o mundo escuro, se tornou o nascimento de Jesus. Me remexi incomodada e inquieta. Era errado. Era apenas errado.
— O que foi, Mal? — Malfoy me chamou de volta para a realidade e percebi que havia ficado o tempo inteiro encarando seu rosto.
— É por isso que ficou tão chateado por ficar em Hogwarts, não é? — Inclinei a cabeça para o lado, mudando o pouco o ângulo com que o observava, me lembrando do seu péssimo humor quando recebeu a carta que o condenou a não pegar o trem de volta para casa. — Eu pensei que fosse apenas saudade de sua mãe, mas... essa não é sua celebração, não é?
— Não — ele concordou, se ajeitando na cadeira por um instante, talvez só para ganhar tempo. Então, quando sua voz saiu, foi mais baixo do que algum dia a ouvi e seus olhos não estavam mais em mim. — Foi a primeira vez que não fiz uma nova Tora de Yule com a minha mãe.
Fiquei em silêncio em respeito aos seus sentimentos, pois eles conseguiram me tocar. Ou melhor, foram capazes de escapar dele. Draco estava magoado. Essa não era a festa dele. Ele queria estar em casa, seguindo dos rituais do que acreditava, e não se dobrando para apreciar a versão cristã e apagada de um feriado tão bonito e importante. Ele queria passar tempo com os pais, em um dos únicos momentos em que podia sentir que eram mesmo uma família dentro daquela casa enorme e fria – pois até Lucius Malfoy se sentava por perto, observando-os confeccionar a Tora ou as bolas de madeira da árvore.
— Vamos — me levantei em um pulo, jogando as pernas em direção ao chão enquanto os olhos corriam para o relógio.
— O que? Para onde?
— Ainda é Natal — rebati em um sorriso atravessado. — E mais importante, ainda é Yule — ofereci minha mão para ele, mordendo o canto dos lábios, energia correndo pelo meu corpo. — Você vem ou não?
Teria sido decente dizer que ele hesitou, mas não honesto. Draco Malfoy pegou minha mão sem pensar duas vezes, me fazendo sentir sua pele suave contra minha arruinada. Mas, por uma noite, eu não pensaria sobre isso. Suas estrelas me perseguiam quando corri para fora da Sala Comunal. E eu as devia um presente.
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