Corona II

38 A Deusa e o Deus


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Como não tenho nada de novo a dizer sobre minha demora, não direi. Mas NÃO VOU perder a chance de lembrar a cada um de vocês que NUNCA irei desistir, nunca irei deixar Corona, deixar a Mal, ou deixar vocês. Posso demorar, mais irei voltar. Aliás, o objetivo é sempre não demorar, tá, gente? Obrigada a Ella Branco (Bella ♥), Airel Morgenstern e Duda pelos comentários maravilhosos que me alegraram todo esse tempo, o capítulo é para vocês ♥ Inclusive, eles serão respondidos ao longo da semana (ou do tempo, mas espero que da semana). Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Malfoy me seguiu sem reclamar ou perguntar, arrastando seus chinelos felpudos atrás de mim em um admirável silencio. De forma irônica, quem teve de se concentrar para não chamar atenção fui eu ao reparar em seu calçado caro e ridículo. Era parecido com uma pantufa, mas não tão cheio e nem com a forma de algum animal. A tira fechada cobria a ponta de seus dedos, mas eu podia ver meias subindo até sumirem dentro das calças. Eram pretos e, eu podia apostar minha varinha, teria o emblema de sua família em algum lugar.

O que, de todas as coisas, não era a mais surpreendente: Daphne, Pansy e Bulstrode também tinham brasões em todo canto – roupas, roupões, baús, malões, diários e até escovas de cabelo.

Imaginei que, dentre todos os lugares, os elfos saberiam onde encontrar o que eu precisava. E a maior concentração de elfos eram nas cozinhas, então foi para lá que o guiei. Em retrospecto, teria sido mais prudente imaginar o impacto da cena antes de torna-la real. Mas dessa forma, provavelmente não seria tão engraçado quanto foi.

Draco, tão ágil até o momento, quase tropeçou quando se viu na cozinha do castelo, rodeado de elfos domésticos. Seus olhos correram pelo ambiente, guardando tudo com rapidez, até caírem em mim outra vez, uma sobrancelha erguida.

— O que estamos fazendo aqui?

— Estou sentindo muito por não ter trazido a minha câmera — torci os lábios em diversão debochada. — Nunca esteve em uma cozinha antes, pequeno lorde?

— É claro que já — o jeito que resmungou, quase chiando entre os dentes, me fez alargar o sorriso. — Temos cozinha em casa, sabia?

— Imagino que sim — ronronei de volta, minha mente vagando para uma cena rápida e desconfortável do pequeno Malfoy entrando de fininho na própria cozinha no meio da noite, e errando o caminho três vezes antes. O garoto pareceu sentir minha falta de fé e vi seu rosto inflar, pronto para defender sua honra, mas se calou ao ver Hoops vindo em nossa direção.

— Senhora Mal, a senhora deseja alguma coisa? — A criatura de grandes olhos cor-de-rosa sorriu para mim, educada e gentil. Já passava muito da hora de comer e, de qualquer forma, alunos não eram permitidos nas cozinhas – a não ser em caso de detenção (Fred e Jorge já me contaram que o banquete perde um pouco a graça quando se limpa as panelas depois). Mesmo assim, ela estava disposta a me fazer um agrado e, por isso, lhe sorri.

— Na verdade, Hoops, eu tenho dois pedidos — mordi os lábios para não rir de Malfoy e sua boca aberta, seu choque chegando até mim e fazendo cosquinhas no meu autocontrole. Quão absurdo era para ele esta cena? Blás não ficou tão estarrecido, mas Zabini tinha seus próprios motivos. Imagino o que o fato de eu saber o nome de um dos elfos e ele falar comigo com naturalidade significava para o lorde loiro. — O primeiro é que se lembre que não sou senhora nenhuma.

— Sim, senhora — ela retrucou em sua voz fina, me fazendo suspirar, mas ainda sorrindo. Elfos domésticos... eu pedia toda vez que parassem com tanta formalidade. Os lembrava que eu era apenas uma aluna encrenqueira que não devia sequer estar ali, para inicio de conversa. Mas eles insistiam em me rodear sempre que entrava, me colocando posições e já havia sido difícil o bastante fazê-los parar com as reverências.

— O segundo — prossegui, reconhecendo a batalha perdida em um movimento de ombros. — É uma dúvida. Você sabe onde são guardadas a lenha do castelo?

— É claro que Hoops sabe — me respondeu. — O senhor Hagrid trás para nós, é ele que corta, entende? E guarda lá atrás, na despensa.

— E poderia me levar até lá? — Arrisquei sua boa vontade, ao que a elfa negou com a cabeça.

— Hoops sente muito, senhora Mal, sente muito mesmo, mas é muito, muito proibido... — a criatura gemeu, quase torturada por não ser capaz de me fazer uma vontade.

— Não tem problema — interrompi seu lamento. Era uma chance que eu tinha de correr, mas não a única. — Se não posso ir, você poderia buscar o que eu preciso, o que acha?

— E o que a senhora precisa? — Hoops parou de se contorcer, me olhando com seus grandes olhos roséos e ansiosos. Alarguei meu sorriso.

— De uma tora — virei o rosto para Draco, que havia passado toda conversa em silêncio e quieto, concentrado em não ter todo o mundo despedaçado pela cena que presenciava. — É você quem sabe, milorde. Como tem que ser?

Malfoy ainda precisou de uns segundos antes de abrir a boca, e então seus olhos de estrelas desceram para a criatura. Olhou-a em confusão, como se nunca tivesse passado tanto tempo na presença de uma de forma consciente. E não duvidava que fosse o caso. Assim como Hogwarts era limpa e mantida em pé de forma silenciosa e precisa, imaginava que era o mesmo com sua casa. Podia apostar toda a barra de chocolate natalina da sra. Weasley que Draco Malfoy nunca olhou por mais de cinco segundos um elfo doméstico, apesar de ter convivido com eles a vida inteira. Quem dirá ter uma conversa.

— Do seu tamanho — ele finalmente falou, e consegui interpretar sua incredulidade em estar se dirigindo a espécie de Hoops de forma civilizada, como se conversasse com um igual. — Mais ou menos da sua largura. Têm de ter sido cortada recentemente.

Hoops ouviu muito concentrada e desapareceu, literalmente. Pelo que havia lido, era impossível aparatar em Hogwarts, mas pelo visto elfos domésticos tinham as próprias regras. Foi quando me virei para Malfoy, ainda registrando sua engraçada expressão de choque, a confusão escrita em vincos em sua testa e sobrancelhas juntas. Ele me olhava, também, e levantei minha própria sobrancelha para ele.

— É melhor soltar logo antes que exploda — provoquei, recebendo o brilho afiado de seus olhos. Eles correram mais uma vez pelas cozinhas e pelas criaturas que nos observavam sem parar suas tarefas, e então voltou para mim.

— Você parece estar bem confortável — ele apontou, certeiro como costumava ser. — Aqui e com eles. Imagino que a Floresta Proibida não é o único local nas dependências da escola, proibido aos alunos, que você frequenta.

— O que posso fazer, Draco? — Torci meu sorriso, ainda de bom humor. — Uma garota deve comer.

— E os fartos banquetes que Hogwarts oferece três vezes ao dia não lhe bastam? — Uma sobrancelha clara sua se levantou em sarcasmo, seu rosto relaxado pela brincadeira. Encolhi os ombros, alargando meu próprio sorriso, fazendo a ponta chegar aos olhos.

— Tive uma grande deficiência de nutrientes durante uma boa parte da vida, pequeno lorde — pisquei meus olhos para ele, a voz em uma cadência ronronada. — Tenho sempre que tentar suprir isso.

Quando Malfoy passou os olhos por mim, desde meu rosto até meus pés descalços, quase me preparei para chutar seu joelho purista. Mas havia algo diferente em seu olhar – não era nada igual ao de Marcus Flint. Não havia sombras ali e suas emoções eram tão claras quanto suas írises estreladas. Ele balançou a cabeça como se tivesse chegado a alguma conclusão e torceu os lábios em um deboche divertido.

— Nem se comesse toda a cozinha do castelo iria conseguir.

Uma parte de mim se perguntou se deveria me ofender, mas a outra já estava rindo. Não me lembrava da última vez que havia rido na companhia de Draco Malfoy. Ao menos, não estando apenas os dois. Minha resposta fez com que seus ombros se relaxassem ainda mais, os lábios também, enquanto me acompanhava. Não me lembrava da última vez que havia visto Draco Malfoy rir desta forma. Era puro. Era um dos significados da magia. Não havia motivo torpe ou sombrio por trás de sua diversão, nem crueldade em seus lábios finos e retos – apenas a alegria da criança que ele se esquecia de ser.

— Senhoria Mal, Hoops encontrou — a elfa retornou, carregando uma tora de madeira com as exigências exatas do garoto ao meu lado. Pela primeira vez na vida, Draco dirigiu um sorriso a um elfo doméstico.

— Está perfeita, Hoops, obrigado — e então piscou, como se não acreditasse nas próprias palavras. Eu mesma não acreditava. Vi a confusão e a luta passarem atrás de seus olhos claros, ameaçando engolir seu brilho, e então segurei em seu pulso com a ponta dos dedos, atraindo sua atenção mais uma vez. Pela segunda vez, os olhos de Malfoy mergulharam nos meus sem temor algum, buscando alguma coisa que nem ele sabia o que era. Deixei que o fizesse, pois adoraria saber o que era assim que encontrasse.

— Tem meus agradecimentos, Hoops, e acho que é hora de lhe deixar voltar ao trabalho — dispensei a elfa ainda sem quebrar a ponta que Draco havia feito entre nós. Minha voz pareceu lhe despertar de alguma coisa, pois ele o fez ao abaixar o olhar e se deparar com meus dedos ainda em seu pulso. Em uma batida de coração, ele afastou da minha mão. Na seguinte, a segurou outra vez. E na terceira, senti seus dedos se encaixando entre os meus – sua pele perfeita e lisa, tão imaculada, cobrindo a minha destruída. Busquei minha voz, usando a luz de prata das estrelas para afastar minhas próprias sombras. — A menos que haja algo mais...?

— Velas — o garoto respondeu, arrastando os olhos para a elfa. — Precisamos de velas. Duas verdes e uma vermelha, se não for incômodo, Hoops.

Não era incômodo algum. Tirada da própria decoração do castelo, a elfa nos entregou três velas gordas e novas, sorrindo de orelha a orelha para Malfoy quando ele as recebeu em mãos. Gravei aquele momento com ferro na memória, refinando até virar aço. Eu tinha a clara noção de algo aquela noite, aquelas poucas horas restantes, eram um presente. Meu e dele, talvez para nós mesmos. O pensamento não me trazia angustia ou tristeza, apenas fazia meu coração bater e meus sentidos ficarem alerta – era tudo precioso demais, único demais, para deixar passar.

Silenciosos e rápidos como fomos, voltamos. Ainda me surpreendia em como, dentre todas as pessoas, justo Draco poderia ser tão furtivo assim. O garoto nunca me pareceu do tipo que já sentiu necessidade de esconder a sua presença – pelo contrário, Malfoy era um pavão em qualquer ocasião que lhe desse brecha. Não que eu estivesse reclamando, longe disso, era uma surpresa mais que agradável esse novo detalhe sobre o aprendiz de lorde. Me perguntei quantos mais ainda iria conhecer até o fim da noite.

A sala comunal estava silenciosa e vazia, do jeito que deixamos. O fogo verde ainda ardia pelas lareiras e fomos atraídos em direção a qual deixamos, a mesma em que muitas vezes nos reuníamos em grupo..., mas não estávamos acompanhados agora. Empurrei esse pensamento para o fundo enquanto colocava a tora no grande tapete milenar, caro e bem cuidado (um dos muitos espalhados para proteger os pés dos alunos da pedra fria do castelo) e me sentava, sentindo o calor da lareira lamber a lateral da minha pele. Draco parou por um momento, segurando as grandes velas nos braços, e seus olhos também foram tocados pelas chamas. A prata fria e distante foi iluminada como o céu cortado por fogos de artificio.

— Vai se juntar a mim — chamei sua atenção, minha voz saindo suave e baixa, meus próprios olhos presos nos dele. Brilhavam. Brilhavam demais. Eu quase não podia evitar. Eu não queria. — Ou pequenos lordes são bons demais para se sentarem no chão?

— Na verdade, são sim — sua boca torcida fez a ponta dos meus dedos formigarem enquanto Malfoy se aproximava e se sentava bem na minha frente. Capturei mais esse momento, do grande herdeiro dignando a repousar sua bunda rica e bem-nascida em um simples chão. Se não fosse o bastante, as chamas verdes faziam sombras dançarem em seus olhos, fazendo-os enevoar e me lembrando de nuvens cortando o céu noturno. — Mas já foram abertas tantas exceções no decore na última meia hora que mais um não faz diferença.

— Cuidado, Draco — torci meus lábios para ele em algo longe de um sorriso, mas ainda bem-humorado. Ao menos, ainda sentia meus olhos faiscarem. — Uma exceção depois da outra, quem sabe onde isso vai parar?

— Está com medo de descobrir? — Uma sobrancelha se ergueu outra vez, agitando algo em mim que nem sabia o que era. E nem mesmo Lagrum, que com certeza estava próximo o bastante para sentir, poderia me ajudar (ou talvez ele apenas não quisesse por considerar humano e, por consequência, inútil demais).

— Eu não sou conhecida por ter limites — rebati, inclinando a cabeça para o lado. Saboreei o silencio que se seguiu em pequenas bocadas. Mais uma vez, aquele olhar. O que ele procurava tanto nos meus olhos? Talvez o mesmo que eu nos dele e, assim como eu, sequer tinha uma resposta satisfatória. — Você, por outro lado...

— Estou aqui — ele devolveu, os lábios se mexendo de forma lânguida. — E vai ter que fazer melhor que isso se quiser me por para correr, Mal.

— Justo — eu tinha consciência do meu sorriso, largo o bastante para grande parte dos meus dentes aparecerem. Não eram perfeitos como os dele, mas ao menos eu tinha todos e eram retos o bastante... de menos os caninos, um pouco finos demais nas pontas. — Agora me ensine sua tradição.

Não era nada difícil. Usei o feitiço de corte, diffindo, para fazer três buracos redondos ao longo da tora, grandes o bastante para que coubessem as velas, e encaixamos as duas verdes na extremidade e a vermelha no centro (depois, é claro, que ensinei o feitiço para Malfoy). A única parte mais complicada foram as fitas que também deviam ser usadas na decoração, mas que arrancamos de uma guirlanda pendurada. Então rodeamos a tora com as fitas, decorando de forma trançada, e por fim, acendemos as velas.

Trabalhos o tempo todo em silêncio, provando que Snape estava certo: éramos uma bela dupla manual. Eficientes e rápidos, não houve esbarrões ou atrasos. A Tora de Yule era uma decoração simples e rápida, e imaginei quanto tempo Draco passava na companhia de sua mãe, por quem tinha apenas os mais quentes sentimentos, para dar tanto valor a algo assim. Quando terminamos, olhei para nosso trabalho bem feito e sorri, orgulhosa e satisfeita. O próprio garoto tinha os olhos brilhando em seu rosto relaxado, o que considerei um objetivo alcançado.

— Bom, — Comecei ao ver a chama tímida das velas ao lado da lareira majestosa e esverdeada. — Temos que colocar em um lugar de destaque, certo?

— Onde vai ficar até o próximo ano, sim — Malfoy já estava olhando ao redor. Havia inúmeros lugares de destaque, o problema era achar algum que já não estivesse ocupado. Por fim, ele voltou os olhos direto para lareira. E então subiu. — E se...

Malfoy era mais alto que eu. O que não era uma coisa fácil: eu era mais alta do que a maioria dos garotos do meu ano, entre todas as casas. Mas o pequeno lorde me ganhava, por pouca coisa, não mais que três centímetros, mas ganhava. Ele pegou nossa tora e, com cuidado, depositou bem em cima da lareira principal, fazendo as velas arderem contra o vidro das janelas da sala comunal, três pontos de luz contra a escuridão do Lago Negro.

— Agora você pode fazer uma oração à Deusa, se desejar — Draco disse ao meu lado, as mãos nos bolsos do roupão. — Pedindo proteção, essas coisas.

— Nunca fui boa em rezar, pequeno lorde — sussurrei, ainda olhando para o reflexo das chamas, tão pequenas, tão protegidas e ainda brilhantes em frente a escuridão que ameaçava a engolir. Sim, era um ótimo lugar. — Ninguém nunca me ouviu.

Sim, eu sabia para onde seus olhos haviam descido. Minhas mãos não estavam escondidas – as luvas haviam ficado dentro do quarto. Elas eram horríveis, eu sabia. E podia apenas imaginar o que Malfoy diria, o que ele sentiria ao saber das outras. Pois haviam mais, tantas mais... isso partiria seu mundo perfeito. Seu mundo certo e rigoroso, de mãos suaves e bem cuidadas de quem nunca teve de se agarrar a nada. Nem a esperança, nem a sanidade, nem ao vazio, pois só ele poderia engolir a dor. Dor fantasma, dor que nunca ia embora mesmo tanto tempo depois. Eu as sentia repuxar e arder, com picadas dolorosas, me lembrando de quem eu era.

Destruída. Escura. Corrompida.

A Heroína do Santa Maria.

Sobrevivente.

— Me dê suas mãos — sua voz me arrancou das profundezas, me fazendo piscar e virar o rosto em sua direção. Seus olhos já me esperavam. Estrelas-guia, brilhantes e frias, faróis para me manter firme ali, com ele. Franzi as sobrancelhas, ciente do vinco em minha testa, mas Malfoy permanecia ali. Os olhos presos nos meus, construindo aquela ponte outra vez como se temesse que eu me afogasse de novo. Ao menos, dessa vez, reconheci o motivo. Era o mesmo que o meu.

— Isso faz parte da tradição?

Ele não me respondeu, continuou esperando. Devagar, sem me atrever a quebrar nossos olhos, ergui minhas mãos para ele, apenas o bastante para ficarem estendidas no meio de nós. Ele já havia sentido, mas nunca havia visto, não tão de perto. Quando ele tirou as mãos dos próprios bolsos, me surpreendi com as fitas que havia entre seus dedos, mas fiquei em silêncio, esperando, vendo o que o pequeno lorde faria. Era Yule. Se não nele, eu podia confiar na data.

— Mas confia — a voz de Lagrum veio em um sussurro e senti meu coração falhar. Maldito réptil inconveniente. Mas não errado. Meu amigo quase nunca errava, não nisso. Não quando, na natureza, confiar significa morrer. Quando mães cobras comem seus filhotes no ninho, com fome depois de os chocarem. Confiança era algo tão humano e ao mesmo tempo tão irracional... e, mesmo assim, eu sabia que era verdade. Eu confiava em Draco Malfoy. Em um nível que não podia entender ou explicar, e tenho certeza que ele também não, mas real e palpável. O bastante para deixar que me tocasse.

Seus dedos trabalharam rápido, mas não com pressa. Ele tomou seu tempo, passando as fitas vermelhas em cada mão, trançando-as como a tora. Seus olhos estavam baixos, concentrados no que fazia, e quase pedi que olhasse para mim outra vez, para que suas estrelas mandassem embora o fantasma da dor que aquilo trazia. Permaneci calada, ao invés disso, tentando captar com minha escassa sensibilidade seus toques naquela região.

Ele passou a fita pelos pulsos, dando várias voltas, e então pela palma, sendo ousado o bastante para seguir o desenho de algumas cicatrizes mais antigas. Foi quando percebi que não era ousadia ou detalhe, ele estava cobrindo o máximo que podia. Traçando um desenho, seguindo uma linha depois da outra, não em uma forma de esconder... não, aquilo as ressaltava ainda mais. Quando Draco terminou, minhas duas mãos estavam enfeitadas com fitas vermelhas além das linhas brancas deformadas habituais. Mas ele não as soltou.

— Você ouviu — ele disse, finalmente trazendo seus olhos para os meus outra vez. Havia algo ali. Algo que não esteve a noite toda, ou sim, mas que só agora havia finalmente feito seu caminho até a superfície. Malfoy deu um passo para frente, ombros retos e rosto suave. Meu coração falhou outra vez quando nossas mãos juntas encostaram em seu peito próximo. — E você se salvou.

— Não tinha mais muita coisa para salvar, pequeno lorde — o sussurro da minha voz era mais baixo do que o sibilar de uma cobra recém-nascida, mas ele estava perto o bastante para ouvir. Perto demais... ou perto o suficiente.

— Você parece inteira para mim, Mal.

Foi eu? Foi ele? Tanto tempo depois e ainda não consigo dizer – nem ele. Só me lembro dos lábios de Draco Malfoy, ao contrário de suas frias estrelas, serem mornos como a grama da floresta no entardecer do verão. Eles se encaixaram aos meus sem pressa enquanto suas mãos ainda seguravam as minhas e o pequeno lorde tinha hálito de hortelã. Se o meu estava tão bom quanto o dele ou não, não demonstrou qualquer desagrado – continuou ali, me beijando pelo que pareceu uma eternidade. Mas eu também não estava contando tempo nenhum.

Draco era tão quente. Sempre fui tão fria e tão raramente entrei em contato físico com seres humanos (a maioria em brigas) que ter um corpo tão próximo e tão quente era algo inovador. Era bom. Me fez aproximar dele, como uma cobra buscando uma pedra ensolarada para esquentar o sangue gelado e, como uma, desvencilhei minhas mãos das suas apenas para desliza-las pelo seu pescoço, enrolando e afundando meus dedos enfitados de formas quase preguiçosa, bagunçando-o ainda mais e tirando qualquer vestígio que ainda pudesse restar do ridículo penteado lambido que insistia em usar. Não que ele pareceu ter se importado, ou sequer notado, aliás.

Com as mãos livres também, elas foram direto para um local muito especifico: o meu cabelo. Senti seus dedos se enrolando nos fios, deslizando pela bagunça de embaraço selvagem. Mais uma vez, ele não parecia se importar. Eu também não. Gostei de seus dedos finos trilhando caminhos, se enrolando aos fios, quase me faziam suspirar – o que não fiz – e puxá-lo mais para mim – o que eu fiz. Mas Draco tinha menos folego do que eu, e tirou os lábios dos meus para poder me olhar – e respirar direito.

Seus olhos foram quase demais para mim. Eu nunca tinha os visto brilhar tanto. Eu estava acostumada com seu frio bonito e distante, como estrelas. Mas agora estavam tão pertos e quentes que mais pareciam a explosão de uma. Perdi o resto de fôlego que ainda tinha olhando aqueles olhos, deixando-os tirar tudo de mim. Malfoy não era legilmênte e eu tinha que agradecer aos deuses por isso, ou ele teria arrancado de mim naquele momento meu pior segredo, minha maior vergonha, minha mais obscura confissão. Qualquer coisa, ele teria. Assim como estava tendo o brilho dos meus olhos, a cor em meu rosto, o sorriso em meus lábios.

Mas não é como se apenas eu estivesse dando privilégios. Seus olhos eram apenas o começo da imagem final daquela noite. A imagem que eu levaria para sempre, de um jeito ou de outro. A imagem dele, daquela forma... o sorriso sincero e caloroso chegava aos olhos, tão quentes e suaves quanto. O rosto meio vermelho, os lábios cheios e abertos, as mãos ainda passando pelo meu cabelo como em transe. E por dentro... eu queria me agarrar aquelas emoções. Tão quente, tão puro, tão suave e certo. Aquilo emanava dele. Eu as sentia na ponta de seus dedos, em seus olhos, em seu sorriso.

Eu as sentia em mim.

— No Yule — comecei rindo do timbre suave na minha voz, feliz. — Se deseja, propriamente, um "feliz Yule"?

— Não há nada que impeça — Draco me respondeu devagar, sua voz um espelho na minha. Salazar abençoado, o que era aquilo?

Mordi os lábios outra vez – e ele não perdeu o movimento nem por um segundo, com seus olhos de prata ainda tão afiados quanto aço, mas nem de longe tão doloridos quanto. Então me inclinei para ele, aproximando meus lábios outra vez e puxando seu corpo para mim. Eu confio neles, dizia para meu monstro, confio nas estrelas. Elas estavam ali, mais uma vez, naquela ponte que criamos naquela noite. Elas iriam me guiar. Eu não me afogaria enquanto elas brilhassem, eu teria um caminho. Por ele. De volta para mim.

As chamas das três velas continuariam a arder pelo resto do sabbat.

E a noite continuaria estrelada por quanto tempo se permitisse.

— Então feliz Yule, pequeno lorde.

Notas finais
Então, gostaram? Digam nos comentários, amo falar com vocês ♥ LEMBRANDO, os comentários do capitulo anterior serão respondidos durante as semana ♥ Malfeito, feito! Nox! ♥