Corona II

39 Aquilo Que Cativas


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Como não tenho nada de novo a dizer sobre minha demora, não direi. Mas NÃO VOU perder a chance de lembrar a cada um de vocês que NUNCA irei desistir, nunca irei deixar Corona, deixar a Mal, ou deixar vocês. Posso demorar, mais irei voltar. Aliás, o objetivo é sempre não demorar, tá, gente? Obrigada a Angella Gerra, Leth Flor Haruno, Ella Branco (Bella ♥) e Julli pelos comentários maravilhosos que me alegraram todo esse tempo, o capítulo é para vocês ♥ Inclusive, eles serão respondidos ao longo da semana (ou do tempo, mas espero que da semana). Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥ (copiei e colei as notas passadas, sim)

Uma coisa que podemos ter certeza sobre a noite é que ela acaba, rasgada pelo amanhecer muito antes do dia ser coberto pela escuridão. E quando as águas ao redor do da Sala Comunal se clarearam, indo de negras para verdes e azuis, era hora de dizer adeus ao nosso tardio Yule. Não foi fácil, contudo, me desvencilhar do corpo quente de Draco Malfoy naquela manhã – mesmo que, nos primeiros segundos, eu quase tenha o feito por puro instinto.

Tínhamos adormecido no sofá de couro negro em frente a lareira, sentados de frente para nossa Tora Yule, sendo vencidos pelo sono à medida que as chamas derretiam as ceras. Eu sentia seu corpo na lateral do meu e sua respiração suave no meu rosto. De alguma forma, o pequeno lorde (que imagino nunca deve ter tido um torcicolo na vida) conseguiu se render ainda meio sentado, com as pernas esticadas por cima da mesa de centro.

Sentamos ali, lado a lado, depois de um tempo, apenas para ficar em silencio e observar a luz – das nossas velas, da lareira. Ambas continuavam acesas até agora, o que me dizia que os elfos domésticos há haviam passado por aqui e reacendido o fogo. Menos no caso das velas, elas ainda ardiam desde quando foram acesas, mas não por muito tempo. Estavam no final.

Virei meu rosto devagar para encontrar o de Malfoy sem o acordar, mas ele já me esperava. Seus olhos refletiam a luz da manhã: clara e límpida, preguiçosa. Era cedo, ainda. Tão cedo que alguns considerariam tarde. Ele piscou, dando um pouco mais de brilho, e sorriu, o que lhe trouxe mais vida. Não era exatamente como o sorriso da noite anterior, mas se parecia. Com um toque de pequeno lorde.

— Não consegue relaxar, não é?

— Como? — Senti uma sobrancelha se erguer, lenta pelos primeiros movimentos da manhã ao mesmo tempo que sentia meu sangue correr rápido pelo meu corpo, me fazendo esticar.

— Não devem ter sido vinte segundos desde que acordei e pus olhos em você — o garoto explicou, as próprias pernas se alongando em direção a mesa de centro. — E então você acordou.

— Nunca tive ninguém ao meu lado enquanto dormia — rebati em minha defesa, o resto da resposta contida na ponta da língua: ao menos, se você contar uma cobra gigante e faminta. Draco se moveu outra vez, ajeitando os ombros e mexendo o corpo, o que me fez criar vincos na testa. — E por qual razão você está acordado? Não me parece ser do tipo que levanta com o sol.

— Minhas costas — Malfoy resmungou, tentando e falhando mais uma vez em achar uma posição que seu corpo mal-acostumado com seda e plumas considerasse confortável, agora que não tinha mais a exaustão da madrugada como auxiliadora. Por fim, soltou um suspiro ao afundar novamente no sofá. — Pode não acreditar, mas não estou acostumado a pegar no sono sentado em sofás. E mesmo se tivesse, os de couro não são os mais confortáveis para isso.

Nunca havia rido tão cedo pela manhã. Xingar, lutar pela minha vida, correr..., mas não rir. Talvez fosse o rosto de Draco, mal-humorado e amassado. Talvez fossem seus olhos, me prendendo outra vez como fizeram horas antes. Talvez fosse apenas a magia da noite anterior que ainda não havia me abandonado por completo. Seja como for, minha risada encontrou seu caminho para fora, arranhando os músculos ainda rígidos de minha garganta.

— Então vá para cama, pequeno lorde — ronronei para seus olhos mornos. Ele sorriu para mim, de novo, achando algum motivo para tal na minha graça.

— Eu não quero — as palavras chegaram para mim em um sussurro, me fazendo tropeçar na minha força de vontade. Eu não conhecia aquele garoto. Suave e doce, de olhos tão claros e tranquilos. Não havia a mínima frieza ou distância, me obrigando a permanecer em sua orbita.

— Ainda é feriado... — as palavras saíram devagar e ao mesmo tempo rápidas demais para que meu cérebro as parasse. — Depois que você descansasse suas costas por algumas horas em um colchão digno o bastante, poderíamos tomar café e depois... já fez os deveres que os professores passaram antes das férias?

Malfoy torceu o rosto como uma criança encarando os vegetais no prato.

— É essa sua ideia de relaxar?

— Desamarre essa cara — empurrei seu ombro com o meu, os lábios torcidos em humor. — Você ficou bem feliz ontem, aprendendo o diffindo.

— Tudo bem — ele se rendeu, finalmente se levantando. Como prova de sua má postura, consegui ouvir seu corpo rangendo e protestando. Mimado. — Depois do café, então?

— Depois do café — confirmei, também fazendo minhas pernas aguentarem meu peso ao me erguer do sofá. Parada ao lado dele, meus olhos correram uma última vez para nossa Tora antes de voltar mais uma vez para as estrelas, ainda límpidas e preguiçosas. Ele não demoraria a dormir outra vez. Com a ponta dos lábios torcida por essa certeza, inclinei meu rosto para o dele, colando os lábios em seu rosto uma última vez. — Durma bem, pequeno lorde.

Ainda pude sentir os olhos de Malfoy me acompanhando a medida que descia os degraus em direção ao meu dormitório. O conhecimento me fez com que o fantasma de um sorriso dançasse nos meus lábios, mas ele durou apenas tempo o suficiente para abrir a porta. Pois Lagrum estava me esperando muitíssimo acordado, a língua bifurcando entrando e saindo de sua grande boca com rapidez, acompanhada de silvos longos e baixos. Não era uma boa combinação.

— Você não devia estar dormindo? — Mantive minha voz suave enquanto avançava pelo quarto, passando por cima de seu grande corpo espalhado. Ao menos ele não estava enrolado e pronto para o bote. Mesmo assim, seu silvo não foi amigável.

Passou uma noite agradável, Malorie?

— Vá direto ao ponto, Lagrum, quero aproveitar a cama enquanto posso — rebati com tranquilidade ao me enfiar debaixo de minhas cobertas, meu corpo agradecendo a maciez e o conforto. Não que fosse mimada e mal acostumada como Draco, afinal, conseguia dormir com tranquilidade em cima do corpo rígido, frio e escamoso de Lagrum, além de galhos na floresta e na própria terra. Mas negar a superioridade e a qualidade de uma boa cama era demais. — E, como sabe, eu tenho compromisso no café da manhã.

Meu amigo silvou outra vez, mais alto e curto, impaciente e irritado pela minha língua atrevida. Já de olhos fechados, ouvi seu pesado corpo deslizar para perto da cama. Para perto de mim. Tinha instintos o bastante para saber que sua cabeça estava acima da minha, como se me olhasse do alto. E olhava. Mesmo sendo cego e, na verdade, justamente por causa disso. Lagrum não tinha tempo para perder com as aparências. Ele ia direto no que importava: dentro. Minhas emoções e meus pensamentos.

Depois de tudo que te ensinei, espero que esteja consciente do que faz. Sua voz finalmente chegou até mim, seu sibilar frio e familiar. Espero que não se arrependa, Malorie.

— Você me ensinou a não me atrever a me arrepender — foi minha resposta corajosa, a resposta que eu me agarraria para seguir em frente quando o dia de fato chegasse. No fundo, porém, bem dentro do meu coração ainda aquecido por estrelas em explosão, sussurrei algo diferente. Esperança. Eu também espero que não.

Gostaria de dizer que tive uma excelente noite de sono e acordei com as águas claras do Lago Negro, ainda com o coração leve e ansiosa pelo dia que viria. No entanto, apenas a primeira parte estava certa. Dormi, sim, bem e profundamente por mais algumas horas. Mas não tive o mais suave dos despertares.

Sinto cheiro de sangue.

A frase me arrancou do sono, tonta e alerta, me fazendo trabalhar para controlar minha respiração até perceber que o silvo não vinha das paredes e sim do meu lado. Era Lagrum, bem desperto pela manhã, me farejando com sua língua. Franzi as sobrancelhas.

— O que...?

É você. Está sangrando, filhote.

Afastei as cobertas antes que meu cérebro terminasse de processar a informação, e não havia muito para se entender depois de ver a mancha vermelha entre minhas pernas. Xinguei baixo enquanto me afastava, jogando as pernas por cima da cama e saltando dela, evitando que se sujasse ainda mais. Não que isso ajudasse meu único pijama.

As fêmeas mamíferas sangram ao entrar no cio. Isso quer dizer que você já está pronta para acasalar?

— Não! — Respondi depressa, mas então mordi os lábios. Tecnicamente... — Digo, eu não sei. Não muita coisa. O máximo que ensinaram no orfanato era que isso acontecia a partir de certa idade e que se deve usar absorventes para que acidentes desse tipo não aconteçam... o que duvido que tenha por aqui.

Humanos complicam tudo Cobras apenas liberam um feromônio, não fazem essa bagunça.

— Bom, já que nisso aparentemente sou bem humana, achoo melhor me aconselhar com alguém da mesma espécie — devolvi com a voz afiada. — Madame Pomfrey vai saber o que fazer.

Depois de me limpar e vestir roupas limpas, que incluíam minha nova jaqueta, andei o mais depressa que consegui em direção a ala hospitalar. Abri as portas em silêncio, meus olhos correndo no mesmo instante para cama de Hermione – ela ainda estava lá, protegida dos olhares curiosos pela cortina instalada por Pomfrey e dormindo pela sua respiração tranquila. Me deixei acalmar por um instante por sua imagem: já havia acontecido com ela, até mesmo com Daphne e Pansy. Não era tão ruim.

Papoula abriu a porta antes que eu terminasse a primeira batida em sua sala. Já era hora do café, o que significava que a mulher já estava vestida para o dia de plantão, além de se dedicar a única paciente. Seus olhos caíram sobre mim, as sobrancelhas se franzindo ao passo que colocava as mãos nos quadris.

— Ela ainda está dormindo, volte mais tarde.

— Dia para você, Poppy — devolvi com graça, meus lábios se abrindo para mostrar meus dentes em algo que não era bem um sorriso. — É ótimo ver que minha amiga não colapsou durante a noite e ainda continua mantendo o sono pesado dos enfermos, realmente tranquilizante, mas não foi por isso que eu vim — a mulher ergueu uma sobrancelha, seu olhar critico e treinando já passando por cada ponta exposta que ter, mas acho que não estava esperando essa. — Eu acabei de ter minha primeira menstruação e além de não ter nenhum modo de evitar que minhas roupas vão para o lixo, não sei muito sobre o assunto. Será que você poderia me esclarecer sobre?

Fui abençoada com a visão breve, porém memorável, que foi o rosto de Papoula congelado, quase perplexo. Ela não devia estar acostumada em ouvir pedidos desse tipo, pois piscou três vezes e abriu a boca duas antes de se recompor. Me deu passagem para seu escritório e abriu mais a porta, fechando-a logo depois que passei. Não havia mais como voltar depois disso e me preparei para o que quer que fosse ter que ouvir.

No final, não foi nada tão difícil ou vergonhoso, como Granger fez parecer quando contou a conversa que teve com os pais quando a vez dela aconteceu, alguns meses antes, em setembro. A primeira atitude de Pomfrey, e agradeci muito por isso, foi certificar que eu não estragasse mais roupas por hoje, então me mandou para o banheiro com um feitiço novo e instruções diretas.

— Tire as roupas de baixo, toda ela, aponte a varinha para a área desejada e diga, enquanto trace um “x” com sua varinha, impervius — explicou com a dicção perfeita. — Depois, teste na pia molhando a área onde lançou o feitiço. Me chame se precisar de ajuda.

Não precisei. Não havia mistério em suas instruções e, uma vez que coloquei minhas roupas de baixo da água e elas voltaram secas, tive a confirmação da vitória. Aquilo iria impedir que o sangue escorresse como naquela manhã. Depois disso, a curandeira pode se sentar comigo e explicar com detalhes e sem espaço para má interpretação o que estava acontecendo.

Acontece que, pelo visto, a natureza julgou o auge dos meus doze anos e meio uma hora prudente para decidir que eu já estava pronta para a vida reprodutiva. O que, como Papoula reforçou bastante, era um tremendo erro de cálculo: eu ainda era apenas uma criança e não estava física ou psicologicamente pronta para contribuir para a multiplicação da espécie humana, ou mesmo para o ato que levava a tal. Era apenas a biologia do corpo e, ainda bem, a época em que meninas da minha idade já estavam casadas e esperando o primeiro filho havia ficado para trás.

E eu passaria por isso todo mês, como já era do meu conhecimento, e poderia ou não ser acompanhado dos mais variados e desagradáveis sintomas antes, durante e até mesmo um pouco depois do período. Como eu não estava sentindo nada, ela me disse que poderia não ser o meu caso, mas me passou um pequeno estoque de poções que poderiam aliviar alguns dos sintomas mais gerais (e que não viessem apenas em forma de incômodos, pois algumas meninas tinham de ficar na ala hospitalar por eles) e eu as peguei com cuidado, me lembrando do humor horrível de Parkinson e suas espinhas, e da forma como Greengrass derramava metade da garrafa de melado em suas panquecas café da manhã.

Poppy ainda me fez a gentileza de recomendar o uso de roupas intimas mais firmes e grossas nesse período, para que o risco de ela sair do lugar durante o dia fosse menor e, logo, o risco de acidentes também. No fim, terminou dizendo que alguns ciclos duravam mais e outros menos, com menor ou maior intensidade de fluxo sanguíneo, mas que todos eram considerados normais – a única razão para se preocupar eram em ocasiões muito especificas, onde me passou uma tabela.

— E você pode marcar no calendário para ter uma ideia sobre sua próxima vez — ela finalizou enquanto já me encaminhava para fora de seu escritório, tão prático e limpo como a enfermaria ao lado, mas cheio de certificados e diplomas, comprovando sua excelência no que fazia. — Não é certo que vá cair sempre exatamente no mesmo dia, pois há ciclos desregulados, mas talvez você encontre um padrão. E se tiver qualquer outra dúvida, minha porta está aberta.

— Obrigada, Papoula

— Oh — a mulher pareceu se lembrar, sorrindo e fazendo seus olhos se iluminarem com graça pela primeira vez desde que começou seu discurso eficiente e didático. — Por morar a maior parte do ano com outras garotas, vai ver que uma hora ou outra vocês irão entrar em sincronia com relação aos períodos. Não há nada demais nisso, é apenas natural... e um pouco divertido.

Eu não achava que cinco garotas sofrendo com mesmo só alguns da lista de sintomas que ela havia me passado ao mesmo tempo se enquadraria em algo engraçado, mas preferi não discutir. Pela época de férias o café da manhã era servido as nove horas (ao contrário do seu costume, que seriam às sete e meia da manhã). Pomfrey, porém, não se preocupou com o tempo e já estava quase meia hora atrasada.

— Obrigada, mais uma vez, Poppy — pedi enquanto saia de seu escritório, meus olhos imediatamente indo para onde Hermione estava, bem acordada agora pelo que percebia. — Mas parece que sua paciente acordou.

— Mal! — Era no mínimo interessante a forma como meu nome se confundia facilmente com um miado e eu nunca havia percebido isso. Minha amiga sorriu de sua cama, expondo os dentes finos de felino. — Que bom te ver!

Eu cheguei a abrir a boca para devolver seu tocante entusiasmo com minha pessoa quando as portas foram abertas outra vez e Potter e Weasley entraram. Ronald não estava com seu suéter, mas Harry sim, além dos jeans folgados que só estavam em seu corpo por causa do cinto velho. Os dois garotos sorriram e olhos verdes vieram na minha direção. Não tive a menor duvida do que ele estava percebendo.

— Cinco minutos, Poppy — interceptei a expulsão da curandeira, sorrindo da forma mais inocente que podia para ela. Não garanto que tenha dado muito certo. — Só queremos dar bom dia para nossa amiga.

Cinco minutos — ela chiou, contrariada em atrasar seus exames matinais, mas recuou de volta para sua sala onde ficaria encarando o grande relógio de quatro ponteiros pendurado na parede atrás de sua mesa. Não deixaria passar um milésimo a mais, mas não era necessário. Potter e Weasley não tinham planos de demorar muito, principalmente este último que, por mais que estivesse preocupado com a amiga, ainda estava com fome. Então, quando Pomfrey retornou para nos enxotar, já encontrou Ronald fazendo suas despedidas.

— Voltamos mais tarde, tudo bem, Mione? — Harry prometeu enquanto saia, recebendo apenas um aceno ocupado da garota, que tinha Pomfrey debruçada em cima dela e com varinha na mão. Pude olhar uma última vez por cima do ombro e sorrir. Granger estava bem. Mesmo com todos os bigodes e o rabo felpudo, eu sabia que Papoula iria recuperá-la sem qualquer sequela. Eu confiava em poucas coisas na vida, mas uma delas era na capacidade da curandeira de Hogwarts.

Com as portas fechadas, não ficamos muito tempo parados no corredor, pois Rony continuou andando em direção as escadas, fazendo com que Harry o seguisse e eu também. Eu tinha que descer, de qualquer modo, pois minha consciência me fazia lembrar de um certo lorde mirim me esperando. Decidi que confirmaria se ele já estava ou não no Salão Principal ao passar por ele e lhe daria alguma satisfação – afinal, eu ainda tinha que ir no meu dormitório e deixar as poções que Papoula havia me dado.

— Ei, Mal, bela roupa — Rony comentou enquanto atravessávamos as escadas para o segundo andar. — É nova?

— É sim, Weasley — e não pense que não vi o que está tentando fazer aqui. Eu sentia suas emoções e elas variam desde admiração genuína por algo bonito, até inveja por algo caro e despeito pelo presente de sua mãe. Por Molly, continuei falando. — O suéter está guardado, sabe? Me chame de sentimental, mas ainda não quero expor ele ao dia-a-dia.

— E de quem foi? — Foi a vez de Potter perguntar, e havia apenas curiosidade genuína no verde de seus olhos, o que me fez relaxar muito mais do que os sentimentos apazuigados de Ronald. Mordi os lábios, pensando na resposta. Eu sabia quem havia me dado a jaqueta, sabia de quem aquele pedido de desculpas era..., mas Potter devia saber? Não acho que as emoções dele continuaram tão genuínas se fosse o caso.

— Não tinha nenhum bilhete — respondi com ombros encolhidos, o que não era mentira. — Mas não é como se eu estivesse em condições de negar roupa nova.

Aquilo fez Harry rir, pois entendia bem a desgraça – o garoto só tinha as roupas velhas do primo, Duda, que estava escalando de forma rápida para se tornar do tamanho de Crabbe e Goyle lado a lado. Ele mesmo adoraria algo que fosse dele, para variar, e não fez outras perguntas. Quando chegamos no térreo, entrei com os dois no Salão Principal, meus olhos buscaram o rosto que eu queria ver.

Mas foi um diferente que encontrou.

Olhos frios encontraram os meus através do salão. Afiados e gelados como espadas de aço, os olhos que me faziam mostrar os dentes e minhas cicatrizes repuxarem. Energia correu pelo meu corpo, fazendo minha postura mudar e meu coração afundar. As palavras de Lagrum na noite passada ecoaram enquanto eu ia até aquele rosto tão congelado quanto os olhos, preso e transfigurado em arrogância, até mesmo desdém, desde que me viu passar pelas portas.

Não queria ir. A cada passo eu sentia como se tentasse entrar no Lago Negro em pleno inverno. Sentia meu corpo congelar, de fora para dentro. Desde o gelo na ponta dos dedos até os ossos, chegando ao meu coração. A mudança despertou o monstro dentro de mim, alerta e irritado – tanto calor havia o feito cochilar, mas agora... não havia nada quente ou brilhante nos olhos que, ainda hoje de manhã, foram como duas estrelas.

— Algum problema comigo, Malfoy? — Ele detestou meu tom de voz. Percebi isso na forma em que seu rosto se torceu ainda mais, os lábios se apertando como se estivesse na frente de algo quase repulsivo. Não me importei. O frio me manteve longe de qualquer recém-descoberta consideração que eu tivesse pelo garoto a minha frente, pois não era ele. Era outra pessoa com olhos e rosto diferentes, deformados. Eu odiava essa pessoa.

— Seria necessário que você tivesse alguma relevância para virar um problema, Lewis — ele me devolveu, finalmente dando o golpe que a lâmina que seus olhos prometiam. Mas sorri para ele, sorri para sua voz arrastada e entediada, tão fabricada quanto todo o resto que eu estava vendo. Deixei que meus dentes aparecessem em algo tão corrompido quanto o que eu estava vendo.

— Seria bom, Draco, que ao menos uma vez na vida você aproveitasse a chance de perder a oportunidade de ser o babaca miserável que nasceu para ser — ronronei para ele, meus olhos gravando a inexpressão de seu rosto, o brilho cruel e arrogante de seus olhos. — Mas acho que não podemos ser mais do que somos. Ao menos não por muito tempo.

— É de fato fascinante — Malfoy concordou, os lábios se mexendo tão devagar quanto suas palavras. — Em como as origens sempre falam mais alto.

O veneno em suas palavras, a frieza em seus olhos, eu sabia exatamente do que ele estava falando, como soube na Floreios & Borrões. A ofensa me atingiu e me odiei por isso. Por senti-la. Por algo dentro de mim, há muito pouco tempo aquecido, ter se encolhido, esfriado e quebrado com tanta rapidez. Sarjeta. Mesmo com uma nova pele brilhante e cara, eu ainda estava na sarjeta – e era lá onde pertencia, o lugar de todos os pobres, de todos os órfãos, de todas crianças que ninguém queria se preocupar. Apertei os lábios um no outro, deixando meu monstro engolir meu coração e apagar o brilho das velas do Yule dos meus olhos.

— Tenha um bom final de ano, Draco — ouvi minha voz sair, mascarada e distante, e desta vez a imagem de seu rosto se quebrando não me trouxe nada. Dei as costas para a rachadura em sua máscara bem construída, tão fria e dura quanto pedra, e ignorei o movimento súbito de seu corpo na minha direção. Por um momento, talvez ele tivesse pensado em me segurar. Mas hesitou por um segundo, e em um segundo eu já não estava mais lá.

Segui em silêncio em direção ao meu dormitório, onde Lagrum me esperava acordado. Permaneceu em silêncio, e eu também, enquanto guardava as poções dentro do meu baú. Mas estava lá. Eu podia sentir. Sua presença atrás de mim, seu corpo apoiando o meu no mesmo instante que hesitei em me levantar.

— Não vou chorar, Lagrum — apesar do fio da minha voz, não iria mesmo. Fazia tempo demais para apenas quebrar agora. Por isso. Por ele. — Não me lembro como, de qualquer forma.

Posso devorá-lo, se quiser... não que tenha algo naquela criatura magrela e branca demais para comer, mas ao menos seria crocante.

A ideia me fez rir, pois sabia que era uma proposta séria. Meu fiel amigo réptil tinha sua própria forma de demonstrar que se importava, mesmo que o motivo fosse algo tão humano e, por consequência, tão repulsivo. Balancei a cabeça e deixei que meu corpo fosse para trás, sendo acolhida em suas dobras negras. O corpo de Lagrum era frio. Frio como o meu. Suas escamas eram uma realidade muito diferente do calor da noite passada – seja ele vindo de chamas na lareira, na ponta de velas, ou em estrelas-mortas.

— Não vale o esforço — respondi devagar, tomando tempo para respirar e deixar que o calor fosse embora. — Só preciso seguir em frente.

E seguiria. Nem que precisasse ficar um pouco, só um pouquinho, coberta por Lagrum antes. Era familiar. Era confortável. Era seguro. Não havia calor ali, nenhum. Só o frio das suas escamas e a escuridão que elas traziam. O que não era problema algum. Era, no final, a única coisa com que eu podia contar.

Notas finais
Então, gostaram? Digam nos comentários, amo falar com vocês ♥ LEMBRANDO, os comentários do capitulo anterior serão respondidos durante as semanas ♥ Malfeito, feito! Nox! ♥