Corona II

40 Diário de Riddle


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Essa demora foi mais longa do que ""habitual"" (detesto usar essa palavra), por isso vou dar algum parecer, tudo bem? Bom, em primeiro lugar eu comecei a faculdade em fevereiro (para quem acompanhou meu drama com ENEM em CORONA I, YEAH, DEU CERTO!), então eu estava ma adaptando a essa nova rotina... até vir a quarentena. Mas antes mesmo da quarentena, meu teclado do notebook estragou. Eu fiquei duas semanas até conseguir um novo. E então, eu ainda tinha o problema do tempo, mesmo com um novo teclado. Muitas coisas para ler, para resumir, para copiar. É, faculdade. Todo meu tempo, minha prioridade, era a faculdade. E, quando não estava fazendo ela, eu dormia ou comia. E com isso foi um mês comigo sem escrever praticamente nada. Felizmente, eu estou escrevendo de forma compulsiva a dois dias e aqui estamos. Eu não aguento, gente. Sou escritora. É isso que eu faço. É isso que eu preciso fazer. RESPIREM, se alguém estiver preocupado com minhas obrigações acadêmicas, elas estão bem. Minhas notas estão ótimas (e sim, estou tendo aulas online nessa quarentena). Então só me resta ressaltar:eu NUNCA irei desistir, nunca irei deixar Corona, deixar a Mal, ou deixar vocês. Posso demorar, mais irei voltar. No mais, espero que estejam todos saudáveis e de quarentena, ou tomando todas as medidas de segurança necessárias caso infelizmente não terem condições. Lembrem-se: se tiverem condições de ficarem em casa, fiquem. Saiam o minimo possível. O mundo cientifico está tentando achar uma forma disso acabar logo, a nossa parte é não piorar as coisas. E obrigada a Layane Oliveira, Ella Branco (Bella ♥), Airel Morgenstern, Lua Helena, Juliet e Duda pelos comentários maravilhosos que me alegraram todo esse tempo, o capítulo é para vocês ♥ Inclusive, eles serão respondidos ao longo da semana (ou do tempo, mas espero que da semana). Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Minha cara amiga, Hermione Granger, virou noticia quando os alunos retornaram após as férias de Natal, no segundo dia de janeiro. O fato de que ela estava na enfermaria, de alguma forma, se espalhou rápido. Até mesmo meus compatriotas da masmorra vieram me perguntar, com vozes muito calculadas, se era verdade que ela havia sido atacada, pois claro que eles não se rebaixariam a tentarem espiar pelas portas da ala hospitalar como o resto do castelo. Eu tentei, juro que tentei, não rir de seus olhos curiosos perfurando os rostos construídos em tédio, mas a tentativa resultou em garfadas sorridentes no bonito bolo de aniversário que Blás havia trago de casa.

— Mamãe me fez uma festa ao estilo grego na villa do novo marido — ele contava, esparrado no sofá de couro preto, a cabeça no colo de Pansy. Os dois pareciam terem se aproximado. — Convidei todos, apesar de nossa lady Greengrass se recusar a me dar de presente sua visão de roupa de banho.

— Meu presente foi não ter contado para sua mãe quem esvaziou o estoque de ouzo do sr. Demiris, Blásio — Daphy devolveu com a ponta de um sorriso nos lábios, o que tirava o peso de seus olhos condenatórios. Zabini alargou seu sorriso natural para essa questão, e então teve seus olhos corridos em minha direção outra vez.

— Ouzo é uma bebida grega, Mal...

— Alcoólica — Theodoro interrompeu, sentado ao lado de Sue em outro sofá. Registrei o revirar de olhos da pequena cobra e sorri para ela quando percebeu que foi pega. O alivio que senti em meu coração quando um tímido, porém verdadeiro, sorriso apareceu em seus lábios, iluminando para mim seus olhos escuros, foi surpreendente e bem-vindo.

— É destilada e fica branco se colocar água, parecido com o Arak — Parkinson teve sua vez. — Mamãe só bebe isso, sabem, quando ela quer beber. Diz que as bebidas daqui são para fracos.

— Então já sabemos de quem você puxou, Pam — Hopkins arqueou uma sobrancelha em provocação. — Só você deve ter bebido duas garrafas.

— É uma pena que vocês dois não estivessem lá — Blásio tomou a palavra outra vez, e vi sinceridade ali. Sorri para ela. — Perderam uma noite e tanto.

Nos também tivemos uma.

O pensamento cortou minha consciência, não vindo nem de mim, nem de Lagrum. Meus olhos rolaram devagar em direção ao garoto que passou a me ignorar na mesma intensidade em que eu o ignorei nos últimos dias. Eu não era forçada a me lembrar da existência de Draco Malfoy desde a manhã seguinte ao Yule e estava muito confortável com isso. Com a dedicação que ele também fingiu não saber da minha existência, eu diria que o sentimento era mutuo.

Malfoy havia feito, até agora, um trabalho muito bom em sua máscara. Eu não sentia qualquer emoção, ou escutava qualquer sussurro vindo de sua direção. Apenas o frio e o silêncio. Com o passar os dias, passei a bloquear tudo que vinha dele mesmo nas ocasiões mais rápidas – encontros na Sala Comunal e biblioteca, detestando-o como achava que era impossível. Então é cabível dizer que me surpreendi ao escutá-lo dentro de mim de propósito. Draco me olhava de volta, sustentando meu olhar pela primeira vez em dias. Esperar uma desculpa era demais, mas havia uma trégua, uma proposta – de um poder para outro. Voltaríamos a agir com classe pelo bem da corte ou a racharíamos outra vez?

Torci meus lábios e olhei em volta. Para Zabini no colo de Pansy, e para Sue e Nott sentados lados a lado, os corpos apoiados (ela também, ao que parecia, havia deixado de afastá-lo), e até para Daphne, sentada ao meu lado enquanto corria os dedos pelo meu cabelo, transformando-os em uma trança elaborada caindo por cima do ombro – todos eles, sorrindo um para o outro, confiando e trocando histórias. Poderíamos acabar com isso, Draco e eu, poderíamos obriga-los a escolher. Fechei os olhos e puxei o ar com cuidado para dentro de meus pulmões, soltando-os logo depois.

Eu não me atrevo se você não se atrever.

— Bela jaqueta, Mal — ouvi a voz de Greengrass fazer carinho atrás da minha orelha, baixa o bastante para que ficasse entre nós e alto o suficiente para que não fossemos acusadas de segredinhos. — É nova?

— Em honra a sua inteligência não vou sequer cogitar que você não sabe a resposta, Daphy — respondi devagar, sentindo seu desagrado pela minha resposta mal criada a sua sutileza. Seus dedos, porém, continuavam suaves em meu cabelo.

— Muito bem — a resposta completa seria "muito bem, eu pedi por isso", mas pequenas senhoras não dão o braço a torcer sobre seus erros. — Ficou ótimo em você.

— Obrigada — não consegui impedir meus olhos de correrem outra vez em direção ao garoto sozinho em sua poltrona. Ele estava distraído o bastante olhando para a caixa onde Zabini trouxera o bolo, mas se virou para mim assim no mesmo instante que o fiz para ele. Por um segundo me deliciei com sua sobrancelha arqueada e torci meus lábios para ela antes de virar o rosto. — Foi sorte.

Minha cara Daphy se absteve de comentários, ou talvez tenha sido obrigada a isso, porque a atração se tornou outra vez a temporada na villa do padrasto de Blásio. Aparentemente, a Grécia tinha um inverno muito mais ensolarado do que a Escócia e suas descrições das praias de areias brancas e águas límpidas me fizeram sonhar. Um rumo perigoso, onde o fantasma de uma lembrança primaria me assombrava. Maresia. O som das ondas batendo na costa. Os Lewis nunca haviam me levado a praia, não era deles ou com eles. Era mais antigo. Mais fundamental.

Algo que eu não precisava agora.

Felizmente, não precisei. Fui arrancada do quarto bem decorado, do berço embalado pelo som do mar por risadas explosivas. Pisquei para entender a cena de Draco com um pedaço de bolo no colo, o rosto em solene desprezo a graça do grupo – pois ele era a fonte. Arqueei uma sobrancelha para ele que, entre uma garfada e outra, arqueou para mim também. Malfoy não queria bolo. Desprezou o agrado de Blás assim que saiu da caixa, pois alguém como ele nunca iria comer "sobras", mesmo que o bolo em questão estivesse muito inteiro. Vi com clareza a cena que me mostrou, ou ao menos não escondeu, de quando enfim se rendeu a tentação de ver todos comerem e pegou um pedaço.

Não antes de tentar ser discreto e falhar de forma miserável, já que Zabini genuinamente não entendeu as palavras espremidas entre seus dentes nas três primeiras vezes, obrigando-o a sair da compostura e tomar um prato servido com mais ignorância do que uma sobremesa deveria ser tratada. Ri com a cena, mesmo que baixo, parte de mim ainda se esforçando para sair das profundezas do mar que minhas memorias me lançaram. O prata pesado dos olhos de Draco foi tudo que eu precisava para saber que ele percebeu algo errado. E também era tudo que eu não precisava lidar.

Ter meus companheiros de volta era um alivio que não sabia que precisava. Por mais inconveniente e frustrante que fosse me separar outra vez de Lagrum, eu não tentaria diria que voltar a ter o dormitório domado pela solenidade de Greengrass, a língua venenosa de Pam, os olhos faiscantes de Hopkins ou os comentários pertinentes de Bulstrode era algo ruim. Muito pelo contrário, ter nossa pequena corte reunida me fazia relaxar e aproveitar a sensação de quase segurança e conforto no fim da noite, com todos nos reunidos e iluminados pelo fogo verde da sala comunal.

A percepção de que havia sentido mais falta deles do que achava que tinha me atingiu logo na primeira noite, quando nos empanturramos de bolo e negligenciamos a hora de dormir pelo simples prazer da conversa. Ninguém queria que acabasse. Todos sabíamos quem éramos, todos conhecíamos nossa natureza. Não era de nosso roteiro contar histórias ao redor do fogo em tal clima de camaradagem. Sabíamos que, alguma hora, voltaríamos a ser veneno e presas. Mas naquele momento, e até onde fosse inevitável, estávamos confortáveis em ignorar isso.

Mas se havia algo que ameaçava nossos bons dias, era eu. Ou melhor, meu desprezível habito de péssimas companhias. Toda tarde eu ia me encontrar com Potter e Weasley na entrada da ala hospitalar para visitar nossa felina amiga. Quando as aulas retornaram, no quarto dia de janeiro, ela suspirou de pura tristeza.

— Você tinha que ser da Sonserina, Mal? — Chorou em seu leito, a voz doída. — Eu vou ter que depender desses dois para me trazer os deveres!

— Não se preocupe, Mione — respondi em um sorriso, ignorando a pura indignação nos rostos dos garotos. — Farei eles te deixarem orgulhosa.

E deixei, as custas de Ronald me detestar ainda mais e Potter ficar com a mão doendo. A despeito de planos mirabolantes e investigações amadoras, Hogwarts nunca deixava que nos esquecêssemos que era uma escola e continuava a todo vapor. Sempre poderíamos contar com McGonagall, por exemplo. Depois de gastarmos dois meses estudando sobre Fatos Históricos da Transfiguração (o que foi uma matéria que particularmente gostei muito por explorar Circe, e a história lembrava menos do que devia de grandes bruxas), estávamos explorando A Artes da Transfiguração. Era uma matéria bem curta, mas que não duvidava que Minerva fosse cobrar em sua prova. Era bem o focinho dela.

— Em breve começaremos as famosas "Leis de Gamp" — contei animada na quarta feira da primeira semana de retorno. — É claro que já estudei sobre elas antes, mas não posso esperar por ouvir a explicação de McGonagall!

Não! Eu queria muito chegar nessa matéria! Tenho um monte de anotações de quando li sobre elas...

— Me dê elas e garanto voltar com respostas — aliviei seu rosto angustiado, ignorando a tosse mal disfarçada de Weasley para encobrir o "nerds malucas".

Granger não poderia me dar suas anotações e duvidas originais, então anotou tudo em um pergaminho dado por Pomfrey, que cedeu com a garantia de que ela se acalmasse depois disso. Em uma letra pequena e bem-feita, ela cobriu todo o generoso pedaço de pergaminho, frente e verso e me fez prometer que a contaria toda a aula palavra por palavra – o que não era problema nenhum e, usualmente, só éramos interrompidas quando dois leões muito entediados ameaçavam ir embora.

Na segunda feira, uma semana depois do início das aulas, atravessei os gramados do castelo depois de uma aula de Herbologia. Havíamos gastado metade da aula ouvindo Pomfrey explicar a tipologia das ervas (antissépticas, purgativas, tônicas) e a outra metade aprendendo sobre a identificar a classificação herbológica de uma lista de plantas, coisa que Sprout não ficou nada feliz ao olhar as respostas: ela esperava que todos já soubessem com clareza, afinal, era uma matéria já dada por encerrado desde antes do Natal.

— Ora, ao menos não foi um fiasco total — Pomona balançou a cabeça para mim quando viu que fui a primeira a terminar a lista, o sorriso aberto e o cheiro de terra que exalava me invadindo. — Cinco pontos para a Sonserina.

Agora, enquanto minha corte ia em direção as masmorras para limpar a terra do rosto e das mãos (algo inevitável na aula de Herbologia mesmo que a aula não fosse mexer com plantas), limpei minhas mãos nas vestes e fui direito para o quarto andar, onde os garotos já me esperavam na porta da ala hospitalar de Hogwarts. Fizemos um acordo de nunca entrarmos sozinhos, para ninguém ter mais ou menos do que o outro nos míseros quinze minutos que Papoula nos concedia.

Mione continuava melhorando. Um pelo a menos por dia, mas continuava. Seus olhos lentamente voltavam para o castanho, e estavam neste momento em uma cor muito bonita de mel, dourado-escuro. Seu rosto também estava completamente livre de pelos e seu focinho havia voltado a ser um nariz, sem qualquer bigode. Graças a isso, seu humor havia melhorado de forma considerável, mesmo que ainda tivesse um rabo e orelhas triangulares. Ela sempre ficava muito feliz de nos ver e eu gostaria que Pomfrey fosse mais flexível com seu horário de visitas quando via o quanto.

— Se tivessem crescido bigodes de gato em mim, eu teria tirado umas férias dos deveres — Ronald soltou à guisa de cumprimento, despejando uma pilha de pergaminhos e livros na mesa-de-cabeceira ao lado do leito de Hermione: as anotações do dia.

— Pare de ser bobo, Rony, tenho que me manter em dia — Granger respondeu sem qualquer dor na voz, os olhos e mãos ansiosos já correndo pela pilha. Sorriu. — Como você tem feito eles anotarem tudo isso, Mal?

— Motivação certa, minha cara — sorri para a cara amarrada de Weasley e a careta de Harry. A verdade é que tive que fazer muita pouca coisa. Os dois já estavam dispostos a tomar notas e ajudar, era Mione, afinal. Minha única contribuição foi reforçar a qualidade da ajuda, e talvez eu os tenha lembrado do meu extenso histórico de instabilidade e agressividade nessa parte. — Como você está?

— Melhor — ela prendeu o riso na ponta da língua, os olhos ainda em fenda brilhando pela expressão dos amigos. Seu sorriso, porém, se transformou em uma testa vincada muito rápido. — Suponho que não encontraram nenhuma pista nova?

— Nada — a careta de Potter virou desanimo puro, mas Rony tinha uma reação mais agressiva ao assunto. Bufou e fechou as mãos em punhos.

— Eu tinha tanta certeza de que era Draco — reclamou pelo que me parecia ser a centésima vez, e talvez de fato fosse.

— Você queria tanto que fosse ele — corrigi, recebendo seus olhos azuis beirando o desprezo. Como se eu me importasse. Mas o esquentadinho, já de orelhas se avermelhando, iria começar uma briga: pois seu direito de odiar e desprezar e culpar Draco Malfoy nunca deveria ser questionado. Ainda mais por mim, a intrusa. Felizmente para seu grande nariz (ou não, já estávamos na enfermaria, Weasley teria tratamento quase instantâneo) Harry se intrometeu.

— Que é isso? — Ele chamou atenção para uma ponta dourada que saia debaixo do travesseiro de Hermione. Torci os lábios em um sorriso afiado. Eu sabia o que era e ignorei o olhar suplicante de minha amiga ao pedir ajuda. Isso eu queria ver.

— É só um cartão desejando que eu fique boa logo — respondeu rápido, rápido demais, enquanto tentava terminar de esconder o precioso papel. Porém agilidade não era o forte dela e Rony conseguiu puxar o cartão, se prestando a ler em voz alta.

— À senhorita Granger desejo uma rápida convalescença, seu professor preocupado Gilderoy Lockhart, Ordem de Merlin, Terceira Classe, Membro Honorário da Liga de Defesa contra as Forças das Trevas, cinco vezes vencedor do Prêmio do Sorriso Mais Simpático do Mundo do Semanário dos Bruxos.

— É ainda pior da segunda vez — murmurei, minha voz tão enojada como o rosto de Ronald.

— Você dorme com isso debaixo do travesseiro? — Weasley disparou, sua voz chegando a subir uma oitava. Granger, vermelha como a cor principal de sua casa, foi poupada de resposta por Pomfrey, que vinha nos dizer que o horário de visitas havia acabado e que estava na hora da medicação noturna de nossa amiga, então a deixamos para trás com sua vergonha. Já do lado de fora, porém, continuou. — O Lockhart é o cara mais populista que vocês já conheceram ou o que?

— Eu não entendo como ela pode cair na lábia desse cara — suspirei. — Nem mesmo chateada por não estar aprendendo nada sobre Defesa Contra as Artes das Trevas ela fica!

— Eu sinceramente esperava mais dela — Ronald concordou comigo, o que foi meu primeiro sinal de que talvez eu estivesse errada em me frustrar tanto com a paixonite de minha amiga. Gilderoy era bonito. Com seu cabelo dourado e ondulado e os olhos azuis, até mesmo eu poderia ter alguma consideração por sua beleza. Se ele fosse modelo ou algo do tipo, ao invés de ser meu professor. — Aliás, droga, esqueci de perguntar quantos rabos de rato tenho que usar na Poção de Arrepiar Cabelos...

— Doze — mas minha resposta foi abafada por uma gritaria repentina vinda do andar de cima.

— É o Filch — Potter foi o primeiro a reconhecer, já dando meia volta e tornando a subir as escadas para o segundo andar, fazendo que o seguíssemos.

— Acham que alguém foi atacado? — Havia tensão na voz de Ronald e em volta dele, me obrigando a me proteger. Balancei a cabeça. Eu sentiria se tivesse.

— Não — ele não questionou minha resposta categórica, pois Harry soltou um chiado mandando-o ficar quieto. Ele estava com a cabeça inclinada em direção ao barulho, em silencio, para conseguir entender o que Argus tanto gritava

— ... sempre mais trabalho para mim! — O zelador de Hogwarts beirava a histeria. — Enxugando o chão a noite inteira, como se já não tivesse o suficiente para fazer! Não, isto é a última gota, vou procurar Dumbledore...

Os passos dele se afastaram e, se eu tivesse que adivinhar, iam direto para o terceiro andar – com sorte, pegando uma escadaria diferente. Quando ouvimos uma porta bater com estrondo, mas longe, espiamos o pescoço para fora da proteção da curva da parede. Filch, sem surpresa nenhuma, deixou seu posto de vigia habitual: o local de ataque a Madame Nor-r-ra. E não era difícil de identificar o que o enfureceu. Ao menos dois ou três dedos de água cobriam metade do corredor, se espalhando até quase as escadas. Logo chegaria lá e seria uma bagunça, pois não parava de vir mais por debaixo da porta do banheiro de Murta. Falando nela, sem a gritaria do zelador, seu choro quase fazia as janelas tremerem.

Agora o que será que ela tem? — Ronald perguntou por cima do lamento.

— Vamos até lá ver — e Potter já estava indo enquanto falava, levantando a calça das vestes até acima do tornozelo para passar pelo aguaceiro até a porta mofada e velha, com um grande INTERDITADO na frente e entrou, sendo seguido logo atrás por Weasley. Ainda fiquei um momento para trás, apenas o bastante para sacar minha varinha e apontar para toda aquela água.

Quenteralopus — disse em voz alta, pois era a primeira vez que fazia o feitiço. Devia ter começado com algo pequeno, como uma manga molhada, mas a satisfação de ver toda aquela enchente evaporando foi muito mais satisfatória do que qualquer roupão molhado úmido poderia me dar. Atravessei com pressa o piso seco, indo direto para dentro do banheiro, onde a situação era muito pior.

Warren chorava com mais vontade e altura do que nunca, e um banheiro com eco não era o melhor lugar para ouvir isso. Parecia estar escondida em seu boxe habitual, e todas as luzes estavam apagadas pela umidade triplicada do lugar. O chão e as paredes também ganhariam novas manchas de mofo. Atravessei com cuidado a água, agradecendo pelos meus velhos coturnos servirem como ótima proteção impermeável.

— Que foi, Murta? — Harry perguntou, se aproximando perigosamente da fonte do aguaceiro, encharcando seus sapatos.

— Quem é? — a voz da fantasma subiu pelo cano como um gargarejo sinistro. — Vêm jogar mais alguma coisa em mim?

— Por que eu iria jogar alguma coisa em você?

— É a mim que você pergunta! — Murta gritou, surgindo do vaso sanitário rachado e fazendo mais uma onda de água vir com ela, obrigando Potter a usar seus reflexos de quadribol para não tomar banho de uma fonte duvidosa. Ele sequer se desequilibrou ao pular para trás. — Estou aqui cuidando da minha vida e alguém acha que é engraçado jogar um livro em mim...

Ela parou de falar quando focou seus olhos em mim. Na última vez que havíamos nós visto, ela estava rindo e tirando sarro de Granger. Eu me lembrava da minha amiga chorando, encolhida no boxe depois de uma dolorosa transformação malsucedida, assustada com todas as imagens e efeitos irreversíveis horríveis que havia lido sobre a poção. E Warren ria. Ria com gosto, quase dando piruetas no ar. Havia sido educada com ela até aquele momento, compassiva com alguém que morreu tão jovem em um lugar onde a última coisa que se espera é a morte.

Depois de nosso último encontro, percebi a única coisa que salvou Murta Warren de mim foi o fato de já estar morta. Ainda havia esperança, contudo. Nick Quase Sem Cabeça estava em péssimo estado e era um fantasma, também. Não sorri para ela, sentindo meu monstro se mexer devagar, satisfeito com tremor de seus lábios e o medo frio em seus olhos. Tenho certeza que se ainda tivesse terminações nervosas, ela estaria sentindo calafrios agora. A ideia me fez sorrir – ou que quer que aquilo fosse.

— Mas não deve machucar se alguém joga um livro em você — a voz veio de trás, de Ronald. Em sua defesa, ele parecia genuinamente pensativo. — Quero dizer, ele atravessa você, não é mesmo?

Grande erro. Sua frase irritou a fantasma o suficiente para que se esquecesse de mim, ficando os olhos no garoto, gritando a plenos pulmões, mesmo que já não existissem, em uma voz tão aguda que senti meus tímpanos reclamarem.

— Vamos todos jogar livros na Murta, porque ela não é capaz de sentir! Dez pontos se você fizer o livro atravessar a barriga dela! Muito bem, ha, há, há! Que ótimo jogo, eu não acho!

— Mas afinal quem jogou o livro em você? — Harry perguntou com uma mão massageando a orelha direita. Warren se virou para ele, o rosto indo de furioso para choroso outra vez em questão de segundos.

Eu não sei... — soluçou. — Eu estava sentada na curva do corredor, pensando na morte, e o livro atravessou minha cabeça — e então apontou para um canto, abaixo das pias. — Está lá, foi levado pela água...

Rony estava mais perto e foi o primeiro a se abaixar, mas assim que espiei por cima de seu ombro senti o coração falhar uma batida inteira. Eu conhecia aquele livro. Aquele caderninho de capa de couro preta e gasta, as páginas amarelas agora ensopadas. Apesar da água, ele era inconfundível. O que ele causava era inconfundível. Senti minha pele formigar, meus ossos esquentarem, a sensação irritante de alguém sob minha pele, cutucando cada um dos meus nervos, obrigando meu coração a bater e meu corpo a reagir. Meu monstro mostrou os dentes, tenso e alerta, a satisfação preguiçosa de alguns momentos esquecida.

Apenas voltei para o mundo real quando percebi Potter esticando o braço para pegar o caderno, mas Ronald foi mais rápido do que eu e segurou em seu braço no mesmo instante.

— Que foi?

— Você está maluco?! — Weasley devolveu. — Pode ser perigoso!

Perigoso? — Harry teve a audácia de rir. Senti o choque pela minha pele mais uma vez, o abismo dentro de mim sendo escalado por algo que eu não queria que saísse. Mas ele sim. Ele estava atrás desse caderno. Sendo chamado por ele. — Deixe disso, de que pode ser perigoso?

— Você ficaria surpreso — Weasley respondeu, os olhos azuis tensos em direção ao livro. — Os livros que o Ministério da Magia tem confiscado, papai me contou, tinha um que queimava os olhos das pessoas. E todo mundo que leu Sonetos de um bruxo passou a falar em rima para o resto da vida. E uma velha bruxa em Bath tinha um livro que a pessoa não conseguia parar de ler! Passava a andar com a cara no livro, tentando fazer tudo com uma mão só. E...

— Está bem, já entendi — Potter o interrompeu, claramente contrariado. A não ser por Murta que voltara a chorar, o banheiro estava em silencio com nos três encarando o livro ensopado no chão. Soube o que ele ia fazer um segundo antes que ele decidisse. — Bem, não vamos descobrir se não dermos uma olhada.

Fui mais rápida. Harry tinha excelentes reflexos e uma ótima agilidade, quase tão bons quanto os meus. Mas ele não tinha essa falta de ar dentro dele, a sensação de estar sendo virada ao avesso. Me abaixei e pesquei o livro do chão enquanto ele ainda estava na metade do movimento, sentindo meus dedos gelados em contato com o couro da capa, o que não fazia sentindo com a velocidade que meu coração bombeava o sangue. Uma pequena parte de mim registrou os garotos amontoados ao meu redor, curiosos para ver mais de perto.

Era um diário, como eu já sabia. Não necessariamente um livro ou um caderno, um diário. O ano desbotado na capa marcava 1943, exatos cinquenta anos atrás. Quando o abri, não precisei de mais do que bater o olho pare reconhecer a assinatura no canto da primeira página. Estava quase invisível, muito claro, mas eu vi. De repente acelerado, o monstro finalmente conseguiu sair do abismo, rastejando todo o caminho em direção ao seu destino: meu coração. Senti-o parar, gelado, ao ser engolido de uma só vez.

T. M. Riddle.

— ... recebeu um prêmio por serviços especiais prestados à escola há cinquenta anos — a voz de Weasley chegou até mim, distante, porém bem-vinda. Me agarrei nela, lutando para fazer meu coração voltar a bater, para trazer o ar de volta para meus pulmões. Riddle. Riddle. Salazar, quem...? Como...?

— Mal — era Harry agora, e desta vez senti sua mão quente perto de mim, apoiada na curva do meu braço. — Mal — chamou outra vez, com mais insistência. Sim, eu conhecia essa voz. Eu poderia me guiar por ela. Me concentrar nela. Estava frio. Muito frio. E escuro. — Mal, você está gelada... Mal! Está me ouvindo?

— Como é que você sabe? — Em uma catapulta construída as pressas e desesperada, me atirei de volta para o mundo. Pisquei. Era claro aqui. Havia calor. Até mesmo Rony estava inclinado para mim, preocupação genuína em seus olhos azuis. Percebi que meus lábios tremiam e como estava frio. Com uma mão, puxei minhas vestes mais próximas da minha pele e forcei um sorriso. — Eu estou bem, desculpem. Foi só... nada, não foi nada.

— Tem certeza? Eu disse que a gente não sabia com o que estava lidando — Ronald insistiu, olhando ansioso para o diário. — Solta isso, Mal, vamos para a enfermaria...

— Rony — chamei, fazendo-o parar. Não queria nem pensar em como estive, em como ainda estava, para fazer com que este Weasley em especifico se preocupasse comigo. — Obrigada, mas não precisa. Não foi o livro. Eu estou bem — a maioria das coisas era verdade. Meu olhar foi para Harry, que ainda me segurava e tinha os olhos verdes assustados e arrependidos. Fiz o melhor que pude para suavizar meu rosto. — Relaxe, Potter, estou inteira — e voltei a olhar o ruivo alto. — De novo, como você sabe disso?

— Porque Filch me fez polir o escudo desse homem umas cinquenta vezes durante minha detenção — ele voltou a falar. E mesmo que agora houvesse raiva em sua voz e nele pela lembrança, seus olhos ainda estavam atentos em mim. — Daquela vez que arrotei lesmas para todo o lado. Se vocês tivessem tirado lesmas de um nome durante uma hora, também se lembrariam.

— Imagino que tenha sido marcante — provoquei, fazendo-o sorrir. Vi sua satisfação, seu alivio. Eu estava bem, já estava até debochando outra vez. Abaixei os olhos para o diário outra vez, folheando as páginas. Em branco. Completamente. Não havia uma gota de tinta ali a não ser o nome borrado na primeira página. Franzi as sobrancelhas. Tinha certeza que havia visto Gina escrever nele...

E viu, Lagrum me lembrou, não duvide de si mesma, menina. Os olhos são o sentido mais mentiroso, mas não quer dizer que deva ser descartado.

Soltei o ar, aos poucos sentindo meu corpo voltar ao normal. Ou, ao menos, se acostumar com as constantes ondas de energia mágica que o diário enviava direto para minhas veias.

— Não entendo por que alguém quis se descartar dele — Harry comentou com curiosidade na voz. Virei o diário para a contracapa, confirmando minhas suspeitas. — O dono deve ter nascido trouxa — continuou de forma pensativa, com a testa vincada, assim que leu o endereço impresso ali. — Para ter comprado um diário na rua de Vauxhall...

— Bom, está bem inútil para qualquer um agora — Weasley deu de ombros. Então se aproximou de mim, baixando a voz para um tom cúmplice. — Cinquenta pontos se você conseguir fazer ele atravessar o nariz da Murta.

Sorri devagar para a ideia, perdendo alguns momentos para me entusiasmar com a cena. A única coisa que fiz, porém, foi guardar o diário no bolso das minhas vestes, no bolso oposto ao que se tornou lugar da minha pista de nascimento.

— Guarde essa boa ideia para depois — devolvi. — Filch já vai voltar.

Notas finais
Então, gostaram? Digam nos comentários, amo falar com vocês ♥ LEMBRANDO, os comentários do capitulo anterior serão respondidos durante as semanas ♥ Malfeito, feito! Nox! ♥