Corona II
41 Lápide Ocular
Notas iniciais
Consertei o vaso rachado e sequei o chão alagado do banheiro quando saímos, repetindo o processo com o corredor, satisfeita de já não precisar dizer o feitiço na terceira vez. Aos olhos questionadores dos meninos, apenas encolhi os ombros. Havia uma parte de mim que conseguia se compadecer com o zelador por seu estresse e angustia por Madame Nor-r-ra e ainda outra, que foi decisiva em ajudar, que se lembrava de passar noites e dias inteiros limpando até não sentir mais os braços ou as pernas – seja pelo ato em si, seja pelos cilícios me devorando a carne e manchando o chão com meu sangue na mesma rapidez que eu o esfregava.
Me despedi dos leões na escadaria em frente ao Salão Principal. Enquanto eles buscavam o jantar ainda de mochila nas costas, desci em direção ao meu dormitório para me livrar da minha e do diário que pesava e queimava através de minhas vestes. Sem surpresa encontrei o lugar vazio – minha visita a enfermaria havia dado tempo o bastante para que minhas companheiras se considerassem arrumadas o bastante outra vez para se sentar à mesa. Isso me deu tempo e privacidade o suficiente para me sentar na cama, deixando a mochila aos meus pés, e segurar o diário outra vez.
Mordi o interior da bochecha em resposta a onda que correu por mim, partindo da ponta dos meus dedos e indo até meu coração pesado e se acelerando. Respirei fundo, os dedos firmes e gelados em contato com o couro gasto, obrigando meu corpo a se acostumar com a magia dele, a engolir ela ao invés de se engasgar. Me concentrei na própria sensação dos meus ossos formigando e minha pele sendo esticada para fugir do lugar escuro, usando o desconforto como ancora para o mundo real. Não era do meu interesse voltar para lá, tinha coisas mais importantes para fazer do que lidar com meu monstro desperto outra vez, inquieto e acuado. Respirei fundo e chutei sua fuça, o mandando para o fundo do abismo, onde era seu lugar.
Batida por batida, senti meu coração se estabilizar. Ainda havia tensão em meus ombros, meu corpo pronto para lutar ou fugir, mas considerava um avanço minha respiração clara e meus sentidos em ordem. Folheei outra vez o diário, página por página, conferindo que não havia qualquer pingo de tinta ali. Franzindo as sobrancelhas, cheguei e puxar minha varinha e bater três vezes nas páginas amareladas.
— Aparecium — ordenei o feitiço que revelava tinta invisível, mas nada aconteceu. Revellio também se provou inútil. Prendendo a frustração na garganta, guardei a coisa dentro da gaveta do móvel de minha cabeceira e fui jantar. Tinha um objetivo no Salão Principal naquela noite e mantive meus olhos nele durante toda a refeição. Era impressionante o que algumas horas haviam feito.
Gina Weasley parecia ter voltado três meses em três horas. Ela estava sentada à mesa da Grifinória, voltada para uma provável colega de dormitório, e seus lábios se mexiam com pressa. Fazia muito tempo desde a última vez que havia visto a garota falar tanto, ou sequer levantar os olhos de seu prato. Havia cor em suas bochechas e leveza em seus ombros, como se houvesse se livrado de um fardo inconcebível. Tive a gentiliza de esperar que ela se levantasse antes de andar em sua direção, a interceptando na saída do Salão.
— Oi, Mal — ela me cumprimentou com muita mais bom humor do que a última vez. Olhando mais de perto eu podia respirar sua melhora, literalmente. O ar a sua volta parecia puro, como abrir as janelas em um cômodo esfumaçado e sentir a diferença entre um ambiente intoxicado e outro não. Seus olhos ainda tinham olheiras e sua pele permanecia pálida, mas nada que uma noite de sono não fariam sumir. — Como está? Não te vejo desde o Natal.
— O mais apropriado seria o contrário, não acha? — Arqueei uma sobrancelha, recebendo um sorriso acanhado de resposta. A menção de sua reclusão social mal foi uma sombra no castanho de seus olhos, queimada de uma vez só antes mesmo que tivesse uma chance. — Você parece estar bem, algum motivo particular?
— É um novo ano — Ginevra encolheu os ombros, jogando seu longo cabelo vermelho para trás. Salazar, quanto tempo eu não via o rosto dela de forma clara? — Gosto de pensar que deixamos tudo de ruim para trás.
Tombei a cabeça, fazendo meu rosto assumir uma expressão mais agradável. A pequena Weasley estava envolta de uma massiva bolha de tranquilidade. Seus ombros relaxados, o rosto erguido, os olhos fazendo contato direto. Seja o que for que estivesse reprimindo e sugando-lhe a energia, não restava duvidas que havia superado... ou, melhor, se livrado dele em um banheiro abandonado.
— Não é uma forma ruim de ver as coisas — concordei para seu rosto despreocupado. — Está com pressa? Faz tempo que não nos falamos.
— Na verdade, estou — e pela primeira vez desde que as aulas começaram, a garota não parecia estar me dispensando. Pelo contrário, seu desagrado chegou até mim tanto por meios mágicos como visuais: sua testa se franziu e suas mãos foram para cintura. — Eu quero estudar algumas matérias, organizar trabalhos. Eu fui... um pouco alheia aos meus estudos antes das férias — a sombra foi maior desta vez, mas ainda não grande o bastante para sobrepujar o calor recém-descoberto de seus olhos. — Então quero me endireitar, sabe? Correr atrás.
— Faz muito bem — minha cabeça acenou, satisfeita com o comprometimento. Eu me lembrava da garota ansiosa em vir para Hogwarts e seria ótimo que finalmente começasse a cumprir o intuito da escola. — E, na verdade, eu estava pensando... lembra que te ofereci ajuda?
— Ah, lembro! — Seus olhos se abriram, o entusiasmo fazendo minha pele arrepiar. Sorri para sua alegria genuína. — Você faria isso, Mal? Não vai te atrapalhar?
— Não — eu havia esquecido como a caçula dos Weasley era energética e vibrante. Com o sorriso largo, os olhos-faróis e a energia pulsante, eu podia apostar que ela estava próxima a quicar no lugar de ansiedade. — Mas não vou pegar leve e quero você na biblioteca às oito em ponto.
— Mas o café começa as sete e meia... — Ginevra interrompeu a própria queixa ao ver minha sobrancelha arqueada, transformando seu bico em um sorriso muito parecido com o de seus irmãos desordeiros. — Mas com certeza eu posso chegar na hora e comer algo rápido. Estarei lá.
— Ótimo — respirei sua bolha pura mais uma vez, me deixando ser enrolada por ela. — Agora vá ter uma boa noite de sono.
— Sim, professora! — Weasley se despediu com uma risada, seus passos rápidos em direção a Torre da Grifinória. Ainda mantive meus olhos nela à medida que se afastava, rodando os limites de sua mente. Estava livre. Não pude deixar de notar durante a conversa: Gina estava livre de seja o que lhe havia trancado a mente. A liberdade de dentro dava combustível para a liberdade de fora, lhe fazendo quase brilhar.
Durante todo a semana, Gina me encontrava pontualmente (ou quase) na biblioteca depois de tomar café da manhã. No dia seguinte, terça-feira, ela veio sozinha. Só ela uma mochila consideravelmente cheia, o que me fez balançar a cabeça ao confirmar que ela havia trago todos seus livros e alguns rolos de pergaminho.
— Gina, não precisava ser tudo, nem vamos ter tempo de ver tudo isso — comentei, mas a menina sorriu, já preparando um pedaço de pergaminho e separando uma pena.
— Eu sei, mas pensei que seria útil dar uma olhada no que eu já tenho — e não podia negar isso. Foi realmente produtivo ver onde a garota havia parado e o quanto havia anotado/aprendido em cada matéria até aqui. Ela era boa em Feitiços, História da Magia e Astronomia, mas não tinha tanta facilidade em Poções e Transfiguração. E, claro, sem surpresa alguma, sua aula favorita era a de Voo.
Sua grade de horários era muito similar a minha do ano anterior, então separamos as matérias do dia e começamos com elas. Sendo a primeira delas Transfiguração, o que me deu uma ideia satisfatória sobre a garota: ela não perdia o folego ou o ritmo, mesmo para as matérias de que gostava menos. Isso era ótimo, pois não me fazia ensinar para quem não queria aprender. Weasley tinha força de vontade e pressa para recuperar o tempo perdido, não reclamou nenhuma vez sobre minhas ordens de resumo e se pendurava em cada palavra que eu dizia.
Por outro lado, eu também estava pendurada nas dela. A pequena Weasley tinha uma vida para contar. Ao que parece, sua vida social era um grande barril de óleo que estava esperando a menor fagulha para se incendiar. Ao se livrar do diário e recuperar sua vida, Gina havia feito (e mais) tudo que precisava para acender. Garota bonita, com o cabelo vermelho e olhos chocolate, com sardas pontilhadas abaixo dos olhos e sorriso fácil. De personalidade forte e divertida, sempre com uma piada na ponta dos lábios torcidos. Ela precisou de apenas um dia para escalar da novata reclusa para a mais popular de seu ano, já entrando em grupos para o jantar no Salão Principal.
— E tem essa garota nas minhas aulas de Feitiços e Herbologia — ela me contou na manhã do nosso segundo dia, quarta-feira. — Ela é da Sonserina, mas não acho que seja tão ruim, pois você também é. Além do mais, ela me parece bem descente. Acho que vinha tentando ser minha amiga, mas eu estava tão aérea... de qualquer forma, se chama Astoria Greengrass, você a conhece? Ela disse que sim, mas você é tão popular... se surpreenderia pela quantidade de gente que diz isso e aquilo sobre você.
— Não tenho duvidas que sim, e é por isso que prefiro não saber — apesar de ter rido por dentro, deixei apenas um sorriso bem-humorado brincar nos meus lábios. — E sim, eu a conheço. Ela é a irmã mais nova de Daphne Greengrass, uma amiga e colega de dormitório. Asty não é nem de longe o pior dos tipos que temos na masmorra, as Greengrass são bem decentes — frisei a palavra que usou, ganhando orelhas vermelhas em resposta.
Suas orelhas, inclusive, não foram a única coisa que tive de lidar. Na nossa segunda semana, ela me apareceu de braços dados com Luna Lovegood, cuja a presença explicou justificou como “ela tem seu próprio ritmo e jeito, mas uma ajuda não vai fazer mal”. A garota era a mesma platinada que eu havia visto conversar no aglomerado de primeiranistas na Seleção, cujo nome já havia surgido em uma conversa passada. Tive uma rápida introdução ao jeito da garota, pois enquanto Weasley despejava sobre mim as coisas que eu poderia reforçar hoje com ela, Luna não tirava os plácidos olhos azuis de mim.
Mas eu também não tirava os meus dela.
Estar ao redor da corvina era como sentir a brisa fria da manhã. Uma sensação de paz gelada, não de um jeito ruim. A garota tinha sua própria orbita e eu me sentia lançada para o espaço, tão suspensa quanto ela, flutuando acima do mundo terrestre. O efeito foi tão forte (e admito que não ofereci resistência quase alguma) que não demorei a notar a tranquilidade na minha própria mente, refletida pela profundidade de minha respiração. Era como meditar.
— Que olhos mais escuros — ela deixou deslizar em um momento de silêncio, enquanto Ginevra tomava fôlego. Arqueei uma sobrancelha, curiosa, esperando que continuasse. Quando Lovegood tornou a falar, como se voltasse a perceber que tinha iniciado uma frase, suas palavras pareciam voar como sussurros ao vento, perdidas e espalhadas para todas as direções. Mal parecia que falava comigo, mesmo que continuasse me olhando nos olhos. Oh, Garota Pluma, o que conseguiu ver? — Você parece minha Nêmesis.
Nêmesis era a deusa grega da vingança, que castigava o comportamento degenerado dos seres humanos. Defensora do equilíbrio, justiça e vingança divina, que castigava os homens que quebravam as leis estabelecidas, além de ser uma opositora da arrogância e orgulho. Ela também defendia as pessoas que tinham sido punidas por crimes que não tinham cometido.
Com o tempo, seu nome virou um adjetivo, uma expressão em várias culturas do mundo. Na britânica, significava um inimigo. O pior inimigo de alguém. E isso parece muito ruim, até lembrar do mais simples significado: um oposto. E isso eu não podia negar: Luna tinha cabelos quase mais claros que os de Draco e olhos azuis enevoados por toda a distancia que observava o mundo ao seu redor. Mas sorri para eles, pois por mais distante que estivessem, eu sabia que ainda estavam focados – e vendo de tão longe, eu não duvidava que tivesse uma das mais claras.
— Relaxe, Weasley — respondi para o rosto mortificado da garota, meus olhos ainda focados no azul imutável da corvina à minha frente. — É bom conhecer alguém que enxerga.
A confusão em nos olhos castanhos de Gina mostravam que tentava se lembrar de alguém cego em Hogwarts, mas o sorriso suave e pequeno que surgiu nos lábios pálidos de Lovegood se tornou cumplice. Ela sabia. A visão material e prática era a mais mentirosa e distorcida que se podia ter. E tantas pessoas se perdiam nela, afundadas até sumir em águas que, na realidade, só iam até seus tornozelos. Luna chapinhava nessas águas rasas, deslizando nelas em alguma brincadeira particular que me divertiu a ponto que de querer me juntar a ela.
Ela poderia ser uma mestra em legilimência, se algum dia se dispusesse a aprender a arte.
E não acho que teria grandes dificuldades pois, pelo que observei no nosso tempo de estudos, a garota não era nada burra. Só precisava de alguma ajuda para objetivar as respostas que ela já sabia. Ela também ficava bastante em silêncio e, quando falava, fazias as comparações mais inusitadas para minhas explicações, traduzindo-as para seu mundo. Isso sempre me fazia rir, pois ela não errava. Só falava de forma diferente. E era fascinante aprender como sua cabeça funcionava.
Desta forma, não reclamei quando ela se tornou uma presença constante, quase diária. Era um acréscimo não programado, mas nem por isso desagradável. Pelo contrário, na presença da melhor amiga (se ainda não haviam chegado nesse entendimento, a quantidade de risadas intimidas mostrava que não iria demorar), dando relatórios inteiros sobre seu dia e aulas, além das fofocas mais quentes do castelo.
— É impressionante como ninguém repara nos primeiranistas, Mal — Ginevra segredou para mim um dia, algo de geminioso nos olhos castanhos, torcendo o canto dos lábios. — Acho que é porque ninguém espera que a gente esteja fazendo mais do que se perder.
Não vou negar, gostava da menina. As semanas que passei ao seu lado pude vê-la crescer e brilhar como fogueira sendo alimentada. Não havia mais olheiras ou tensão em seus ombros, apenas o brilho quente de seus olhos e a confiança de uma leoa. Então pode-se dizer que entre ela e a Lovegood, e meus próprios estudos, eu estava com uma mão bastante cheia todas as manhãs. Mas a vida em Hogwarts é uma caixinha de surpresas. Mesmo as que, na verdade, são assim tão inesperadas. Eu já estava mesmo me perguntando quando Fred Weasley iria aparecer.
Era sempre bem-vinda sua visão de seus olhos que prometiam o caos e seu sorriso equilibrado na traquinagem infantil. Tentar evitar a resposta de meus próprios lábios era inútil e logo os senti abrir para sua cabeça flutuante na esquina da estante, que logo se juntou ao corpo magro e alto que compartilhava com seu gêmeo. Não cansava de perceber como as diferenças entre eles estavam tão bem escondidas em um canto de boca retorcido e em um brilho mais escuro nos olhos.
— Cobrinha, cobrinha — ele chamou, o sorriso se abrindo para as palavras saírem. — Tem passado muito tempo lá embaixo, não sente falta do Sol?
— Tenho que admitir, Weasley, às vezes, sim — devolvi apertando meus lábios para fazê-los se endireitarem, sem sucesso. — É por isso que venho esquentar meu sangue toda manhã.
— Na biblioteca? — Ele se apoiou ao lado da estante, a cabeça um pouco inclinada para falar comigo. Sendo dois anos mais velho, Fred era, naturalmente, mais alto do que eu. Era uma dinâmica que eu não estava acostumada. — Não me parece o melhor lugar, ao contrário do campo de quadribol, por exemplo. Lá é um ótimo lugar para esquentar o sangue.
— Ao seu lado, suponho? — Arqueei uma sobrancelha para o descaramento sem vergonha estampado em seu rosto. Mordi os lábios, sentindo o sangue ferver por qualquer que seja o motivo. Travei meus olhos nos seus e deixei que meu sorriso se transformasse em uma linha curva. — Tentador, Weasley, mas como pode ver, terei de me virar entre os livros por enquanto.
— Ah, sim, Gina me contou do seu grupo de estudos — a forma provocativa que disse isso me fez ajeitar os livros que já tinha empilhado nos braços apenas para ter algo a me concentrar. — Fiquei particularmente ofendido, Cobrinha, por não ter sido chamado.
— Em primeiro lugar, não era para ser um grupo de estudos — apertei minhas sobrancelhas antes de olhá-lo em sua pose acima de mim, com um sorrisinho e olhos que me faziam querer checar se não havia nada nas minhas costas. — E em segundo, em você precisaria de ajuda?
— Você me lisonjeia desse jeito, Mal — e seu tom não é de quem achou ruim, Fred. — Eu precisaria de alguma ajuda para praticar alguns feitiços, se quer saber.
— A mesa é pública — devolvi para ele, mesmo não comprando sua desculpa mal feita. — Sinta-se livre.
E ele se sentiu. Me seguiu até a mesa onde Gina e Luna haviam aproveitado minha breve ausência para se esquecerem dos estudos e se inclinarem uma sobre a outra, cochichando e soltando risinhos. Os olhos castanhos de Ginevra grudaram em mim assim que apareci em seu campo de visão com seu irmão a tiracolo e o sorriso lento que se espalhou pelos seus lábios me fez ter um impulso de me afastar do garoto, como se estivesse sendo pega no flagra por alguma coisa. Controlei essa vontade patética com calma, mantendo meus ombros erguidos e o calor longe do meu rosto.
— Espero que tenha terminado e entendido todo o capitulo que eu passei para estar sorrindo desse jeito — fiz as palavras saírem enquanto me sentava. Isso fez a Weasley voltar a atenção para seus livros, mas ainda sorria e agora em direção ao irmão. Felizmente, o outro Weasley não causou qualquer turbulência em nosso grupo, ficando bastante quieto e até mesmo puxando um grande livro de Feitiços para perto de si. E ele estava lendo... quando seus olhos não estavam em mim.
Não era a primeira vez que eu tinha consciência da atenção particular que o quinto (ou quarto) Weasley me prestava. Eu me lembrava muito claramente de sua sacola de chocolates no ano anterior e sua sutil promessa de ser o primeiro a me levar na loja que os vendia no vilarejo. O jeito como sorriu durante o verão, em uma conversa baixa em frente ao seu quarto, me dizendo como estava feliz de eu estar ali. Até o momento mais recente, quando tentou me puxar para a celebração da vitória do time da Grifinória, na primeira e desastrosa partida da Sonserina com suas vassouras novas. Em todos esses momentos minha reação era a mesma da que eu tinha com Blás: graça. Não chegaria a lugar nenhum e, aliás, havia algum lugar para se chegar?
Depois do Yule, eu sabia a resposta para essa última. O que eu não sabia, e nem estava com pressa para descobrir, era como isso se encaixava em Fred Weasley. Então me fiz o favor de guardar seus olhos e sua presença em uma caixa na minha consciência, ao lado do objeto escondido em meu bolso, do diário misterioso e seu dono de cinquenta anos atrás, e fechar. Não era algo que eu iria dedicar meu tempo. Não agora. Não hoje. Não com a volta as aulas e a empolgação dos professores em relembrarem aos estudantes que Hogwarts era uma escola.
Para mim é como se eles tentassem compensar a própria imagem depois do banquete de Natal.
A pontuação de Lagrum me fez morder os lábios para sufocar uma risada. Eu me lembrava bem do rosto vermelho e as risadas altas de McGonagall, da cantoria alta de Hagrid e Flitwick, seguidos pelo próprio Dumbledore. Eram imagens preciosas que ganhavam mais valor a cada vez que eu as ligava ao rosto serenos e duros dos meus professores, o que fazia meu amigo réptil ter um ponto muito bom.
Quando de costume, o grupo se desfez dez minutos antes da primeira aula, as 8h50 de uma terça-feira. Mas ao contrário das últimas duas semanas, não desci em direção as masmorras desacompanhada. Assim que acenei e dei as costas, senti um leve puxão em minha capa, não mais que um toque breve, que me fez girar e voltar a encarar olhos castanhos perversos.
— Posso falar com você um instante, Cobrinha?
— Tenho que ir para a aula de Poções — ergui uma sobrancelha para minha própria pressa em responder, fazendo meu melhor para ignorar os olhares atentos de Gina e Lovegood, que haviam parado de se afastar.
— Eu te acompanho, se não for incomodar — a forma como o canto de sua boca se torceu ainda mais nas últimas palavras me fizeram morder o interior da boca, mas forcei um sorriso para fora dos meus lábios tensos enquanto acenava com a cabeça, aceitando sua companhia. Os olhos do garoto se acenderam, o que fez com que se tornassem ainda mais escuros, e consegui ouvir os barulhos molhados que Ginevra fazia com os próprios lábios à medida que nos afastávamos. Quando eu já não podia mais ouvir, ao menos fisicamente, já que eles sempre estariam na memória, ouvi sua voz outra vez. — Eu queria te agradecer por ajudar minha irmã, Mal. Você não precisava.
— Não — concordei enquanto descíamos as escadas para o térreo. O rosto sardento de Fred se virou para mim com uma sobrancelha vermelha levantada, mas eu estava o esperando com um sorriso suave. — Mas eu quis. Gina é talentosa e esperta. Ela só precisava de uma ajudinha para se organizar.
— O jeito que ela estava nos primeiros meses aqui, depois da confusão com o Rony... — sua voz abaixou vários níveis ao mesmo tempo que sua tensão escapava do corpo. Era o mesmo sentimento sufocante de impotência e culpa que havia sentido tempos atrás, quando nos cruzamos na cozinha e vi a travessura em seus olhos ser apagada pela preocupação com a irmã mais nova. — Cheguei a escrever para mamãe e papai, eles disseram que iam falar com ela, mas não sei...
— Ajudou — interrompi sua voz sombria, respirando seus sentimentos ainda contaminados. Busquei seus olhos ao chegarmos no térreo, parando por um momento no pé das escadas. Fred parou na minha frente com as mãos nos bolsos das calças, o castanho de seus olhos muito focados em mim, mas eu também estava focada neles. No irmão doce e atencioso que a torção de seus lábios escondia. — Fez bem contatando seus pais. E veja, Gina voltou a ser o que era! Eu duvido que saber que ela é amada e querida, e que há pessoas sempre prontas para ajuda-la e acolhe-la não teve nada a ver com fato. Você é um bom irmão, Fred, não duvide disso.
Seus olhos foram rápidos em se acenderam outra vez. Não resisti meus lábios de responderem aquela chama, abrindo um sorriso lento e largo à medida que minhas pernas voltavam a se encaminhar para o próximo lance de escadas, em direção as masmorras. Eu sabia que Weasley ainda me seguia, mas o garoto permaneceu em silencio até a metade da escadaria, quando ouvi sua voz bem atrás de mim.
— Você não é tão ruim quanto dizem, sabe, Cobrinha — deixei a risada sair pelo nariz depois dessa afirmação, mas ele continuou. — Falo sério, aposto que é tão altruísta que nem recusaria ajudar mais uma pobre alma.
— Se essa pobre alma for a sua, Weasley, não é bem para o altruísmo que vai ter que apelar — devolvi por cima do ombro, pegando seus olhos escuros por um segundo antes de virar o rosto outra vez, meus pés encontrando o piso áspero e frio da masmorra através das solas de meu coturno. — Não me diga que precisa de ajuda nos estudos, você tem dois anos a mais que eu de estudos.
— Mas você é um gênio — ele já estava ao meu lado, não se abalando enquanto nos aproximávamos da porta fechada da classe de Poções, onde meus companheiros de casa já estavam agrupados. — Pode ver algo que tenha nos escapado.
— Nós? — Ergui uma sobrancelha, olhando para seu rosto de maxilar marcado. — Jorge também estará?
— Sim — ele esclareceu, ou ao menos pensou que tivesse. — É um projeto, entende? É segredo, mas se concordar em ajudar...
— Desembucha, Weasley — chiei para sua enrolação e soube que perdi para minha curiosidade quando seu sorriso se alargou ainda mais.
— No jantar — e piscou um dos olhos para mim, fazendo calor correr na forma de adrenalina sobre meu corpo. Tive um impulso de checar meus bolsos ou meu coturno, só para ter certeza de que não havia pisado em nada. — Até mais, Cobrinha.
Ele deu as costas e se afastou no meio do corredor, voltando para encontrar sua primeira aula enquanto continuei andando em direção a todos os olhares que me esperavam. Em direção a um em especifico. Me foquei nele ao me aproximar, ignorando a sobrancelha arqueada de Greengrass e a pergunta afiada e curiosa de Parkinson na forma de provocação. Eram apenas informações secundarias ao meu redor, inferiores ao aço que estava encarando. Aço prateado e afiado, esfriado nas profundezas de onde deveria estar seu coração que achei ter descoberto.
Esperei que falasse algo. Que se atrevesse. Que quebrasse nosso acordo e criasse uma desculpa para achatar sua cara outra vez. Mas não veio. Nada veio. Assim como as semanas que se seguiram imediatamente após o Yule, apenas o vazio frio. Sem pensamentos ao meu alcance, nem mesmo emoções. Tudo que tinha de Malfoy era o que eu estava vendo: seu rosto congelado em desinteresse arrogante e os olhos com uma vida de distancia das estrelas que assisti caírem certa noite. Elas estavam mortas agora, e continuei olhando seu cemitério até o garoto virar o rosto.
Achei que estava salva e firme outra vez. Achei que todo o tempo que precisava era o que eu tive naquela manhã, logo após deixar seus olhos-mortos na mesa do café da manhã. Me surpreendi quando me senti levantar, o vazio gelado que era o corpo de Draco ao meu lado ferindo minha pele. Fugi dele e dessa sensação odiosa que me rasgava de dentro para fora sempre que ousava tomar um pouco de consciência. Era demais ficar ali, respirando o mesmo ar que ele, então não fiquei.
Uma parte muito pequena de mim tomou nota sobre a voz de Snape me chamando, mas a ignorei. Meus pés sabiam onde ir, minha existência também, e Lagrum já me esperava acordado. Em movimentos automáticos larguei a mochila aos pés da árvore e meus coturnos, subindo em direção ao seu corpo negro e forte entrelaçado aos galhos e me escorei nele.
Não criei você para ter pena de si mesma, garota.
— Eu sei — respondi, feliz pela minha voz ter saído tão clara, mesmo que fúnebre. — Não estou. Não me arrependo, Lagrum, juro que não. Mas isso não ajuda.
Meu amigo ficou tanto tempo em silencio que achei que tivesse voltado a dormir, tanto tempo que meus próprios olhos se fecharam. E no estágio nublado entre o sono total e a consciência, ouvi sua voz ao meu lado, em um sibilar baixo e quase compadecido, ao me embalar e aproximar de suas dobras.
Uma memória boa é muito mais difícil de se enterrar do que uma amarga, filhote. Mas lembro que te criei para não fugir da dor.
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