Corona II

4 Tempo Perdido


Notas iniciais
Hey nenês ♥ ♥ VOCÊS SÓ ME FAZEM FELIZ ♥ Estamos aqui, com quatro capitulos e Corona II tem uma RECOMENDAÇÃO CARALHO EU TO URRANDO Liyith, eu poderia te beijar, mulher ♥ Muito obrigada pela honra em uma história com tão pouco capitulo ♥ Um obrigada especial a Ella Branco (Bella ♥), Caique Morningstar, MaduBlackfyre, Valerie Malfoy e Liyith o cap é pra vocês ♥ Os comentários do capitulo 3 vão ser respondidos durante a semana ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Fomos servidos pelo velho Tom quando chegamos no Caldeirão Furado para o almoço. Ele achou muita graça a "lista" que me deu e recebeu de volta a bolsinha de dinheiro com uma confusão legitima no olhar. Percebi que o homem não esperava que ela voltasse intacta – não por maldade, e sim por achar que eu merecia algum mimo depois de ser "enganada". Mas ele mesmo o providenciou quando serviu uma refeição completa para meu professor e eu, dizendo ser por conta da casa. O desconforto que senti em receber algo de graça não me impediu de comer (Daisy era mesmo boa), mas decidi que iria paga-lo de alguma forma em algum momento.

— Agradeço imensamente que tenha esperado a comida acabar — comecei depois de empurrar o prato para longe de mim. Snape também já tinha terminado e tomava goles pequenos de sua bebida enquanto me observava. — Mas vamos logo com isso. Davies?

— Três costelas quebradas, um ombro deslocado e uma clavícula trincada — pousou o copo na mesa, os olhos estreitos. — Mas viva. A recuperação, como qualquer trouxa, vai ser longa e dolorosa, mas completa.

— Katherine?

— A freira, apesar dos claros sinais de que era melhor assim, não gostou nada de saber do seu desaparecimento. Estava quase chamando a policia quando cheguei para dar parte em você. Consegui a tranquilizar e entramos em um acordo que você passaria o restante de suas férias sob a responsabilidade da escola, mas voltaria...

Não — minha garganta fechou, meus lábios apertaram. Realmente ótimo que já tivesse comido, duvidava que alguma coisa passasse agora. Na verdade, estava quase fazendo o caminho oposto. — Não pode fazer isso comigo. Não vou voltar para aquele lugar, Severo, nem que tenha que queimar tijolo por tijolo para não ter para onde voltar.

Snape ficou em silêncio, os olhos faiscando e a boca apertada. Ele sabia que eu falava sério. Podia não chegar a queimar todo o Santa Maria até virar fumaça, mas eu faria alguma coisa. Não me enfiariam lá outra vez, não suportaria mais nenhum dia confinada ao mundo trouxa mais do que já tinha sido condenada. Ao mesmo tempo, eu e ele sabíamos que não havia nenhuma outra boa resposta. Você é uma órfã, Greta repetia com frequência para mim, sabe o que significa? Que não existe ninguém no mundo que se importe com você, que lute por você, que queira você. A maldita frase me perseguiu na escuridão da minha inconsciência quando dormi e voltava agora, amarga pela verdade.

Eu sempre tinha Lagrum, mas Lagrum era uma cobra. Me lembrei de Harry Potter – órfão, assim como eu, mas apenas de pais. Ele tinha os tios, por mais miserável que fosse. Eu não tinha ninguém. O orfanato era meu lugar: um depósito de rejeitados, de crianças sem nome e sem rosto. A maioria sequer tinha um passado, todos não tinham qualquer futuro. Com doze anos e nenhum tostão, eu não podia abusar da boa vontade de Tom e Daisy para sempre e nem queria. Me convenci de que pensaria em algo depois. Mas hoje já era o depois de ontem e ainda estava ali.

Bem no fundo, um sentimento de veneno ameaçava me fazer explodir. Fazia minhas cicatrizes doerem, fazia a ponta do mundo ficar rubra. Órfã, será? A trouxinha estava lá em cima, bem guardada no fundo do meu malão, dentro de minha mochila. Lá estava a única coisa que poderia me levar a origem de meu sangue bruxo, e o que teria na outra ponta? Me recusava a aceitar qualquer imagem de uma família reunida em volta de uma mesa em uma grande casa – não, não com a minha sorte. Minha lembrança voltou rápido, rasgando minhas próprias barreiras, exigindo atenção. A pequena Malorie com desenhos em volta dela e o sinistro prédio triangular à sua frente – Azkaban.

— Não é um acordo perfeito — a voz de Severo me trouxe de volta para o momento, tomando a força minha concentração. Agradeci por isso. Preferia sua cara desagradável do que minha própria consciência. — Mas é o único que existe. Devia ficar agradecida por não estar sendo levada agora mesmo de volta para lá, o que seria o certo a se fazer.

— Oh, então você ferrou menos comigo, que gentiliza da sua parte — cuspi as palavras. Minha má vontade se dava ao fato principal de saber que ele estava certo: era pegar ou largar. Seria bom algum sentimento de gratidão por não estar sendo arrastada para Chelmsford nesse exato momento e jogada na porta do orfanato. Pela terceira vez. Infelizmente minhas colegas de casa estavam mais que certas sobre mim: eu tinha um péssimo comportamento. — Que bom que você teve uma vida boa o suficiente para não saber, para não ter a empatia, de imaginar como é a sensação de estar se afogando em um mundo que não é seu, em um lugar que você despreza, completamente sozinha.

Se proteja. Foi o conselho que abadessa Joan deu para mim, o último. Me lembrei dele naquele pequeno momento. Severo Snape tinha estado bastante calmo até agora: o seu mal humor habitual de quem não consegue suportar o fato de outras pessoas levantarem da cama felizes com esse fato. Ele já sabia que lidaria com má criação e negação, mas talvez eu tivesse uma língua afiada demais, talvez eu tivesse acertado, sem nem mirar, em um lugar muito, muito perigoso.

Por fora, foi como uma folha caindo na água: as ondas mal se percebem, difíceis de enxergar até para quem presta atenção. Por dentro, para a grande esponja humana de emoções e pensamentos, foi como dedos de ferro se fechando na minha garganta – ódio e rancor e mágoa e solidão. Todos os três, tão antigos e tão profundamente enraizados que se confundiam com sua própria essência, arriscaria dizer que até mesmo já faziam parte dela. Recuei ao mesmo tempo que ele: não queria tocar naquilo da mesma forma que Severo não queria ter deixado aparecer. Durou apenas um segundo, talvez dois, mas foi o bastante para fazer minhas cicatrizes doerem e minha revolta ser abafada – não era ele o culpado da minha vida ser uma droga.

— Pensei ter ensinado a você a controlar isso — sua voz saiu tão suave que fez velhos instintos me armarem para pular por cima da mesa se fosse necessário. — Pensei que alguma coisa tivesse entrado nessa sua cabecinha vazia.

— Minha cabeça é tão vazia quanto a sua — chiei de volta. — Até onde eu me lembre, é um caminho de mão dupla. Eu não estava buscando nada, você atirou em mim. Controle suas emoções e eu controlo meu poder.

— Tem razão, garota arrogante, dar e receber — as ultimas silabas mal tiveram som. Merda. Se eu tive acesso, ele também teve. O que teria sentido, visto, ouvido? A mente era algo tão complexo que ele poderia ter captado qualquer uma das opções. Seja o que for, havia sido o bastante para fazê-lo controlar sua raiva e retornar à paciência forçada, assim como eu mesma recuei em minha rebeldia. — Vamos voltar com as lições quando as aulas retornarem. É claro que você ainda não domina com plenitude suas habilidades e deve o fazer.

— Para o caso de outro maníaco fazer minha consciência de massa de modelar?

Ele não me respondeu, precisava? Com o tempo descobri que muita coisa se podia tirar do rosto congelado em desprezo do meu professor. Havia muito na torção do canto dos seus lábios, na sua respiração, nos vincos da sua testa e na borda dos olhos. Passei tempo demais olhando para sua cara para não memorizar e notar a diferença em cada pedacinho de sua expressão. A continuidade de nossas aulas se daria precisamente para o caso de outra invasão na minha mente, e ambos sabíamos quem era o mais provável de o fazer.

Não fazia muito tempo que Lorde Voldemort havia rasgado algumas camadas da minha consciência, arrancando com sua mente escura e perversa coisas de dentro de mim que sequer lembrava. Seu trabalho havia sido violento e devastador – me rendeu quase uma semana de inconsciência na enfermaria de Hogwarts e a possibilidade real de ficar insana. Até hoje conseguia sentir as cicatrizes dentro de mim, minha mente lutando para separar memórias descartadas a tanto tempo da realidade. E da dor. Eu me lembrava da dor, sonhava com ela as vezes e a tinha de companhia em alguns dias. Como consegui expulsar o parasita de dentro de mim a tempo de não passar o resto da vida babando em um canto tinha sido mais sorte do que tudo. E raiva.

— Dói, às vezes — comecei de forma baixa, relutante em aceitar isso para mim mesma. Mas era meu professor ali. Era Severo, o mestre em legilimência e oclumência que me ensinou muito mais do que uma criança devia saber. — Minha cabeça. É possível existir cicatrizes mentais?

— Não só existem como são as mais perigosas — me respondeu, os olhos escuros muito concentrados em mim. — Como é a dor?

— Como uma enxaqueca, só que pior — mordi o interior da bochecha, franzindo as sobrancelhas. Não precisava de esforço para me lembrar de como era, precisava de esforço para admitir que estava com problemas. — Muito pior. No inicio meu nariz sangrava um pouco, agora não mais. Ela aparece aleatoriamente, sabe, não preciso... não preciso pensar em nada especifico. Só dói.

— A mente não deve ser tratada como algo diferente do corpo físico. Ao se machucar, é preciso tempo e cuidados para que os ossos, músculos e pele se curem. Mesmo com magia, alguns ferimentos demandam mais atenção. A saúde mental segue a mesma linha, sendo ainda mais delicada, é claro. Não se pode imobilizar, dar pontos ou anestesiar um pensamento. Mas ajuda se achar seu próprio modo de se curar, como praticar algum hobbie. O principal objetivo seria relaxar e deixar sua mente desfocar do que a fere — a torção/sorriso apareceu em seus lábios, uma sobrancelha sua se arqueando. — Considerando os últimos acontecimentos, não acho que esteja fazendo muito pelo seu próprio bem-estar.

— Que isso, Gancho — debochei enquanto apoiava os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. Sorri para ele. — Já jogou alguém escada abaixo? É muito terapêutico.

A torção no canto de sua boca evoluiu para um sorrisinho perverso e eu soube que ele estava gargalhando, por dentro. Nosso pequeno desentendimento foi esquecido de vez e aproveitei para apreciar sua companhia antes que as aulas começassem. Depois disso, ele me obrigaria a fazer da vida dele algo bastante difícil por ser um completo desgraçado. Porém, por enquanto, seu veneno rebatia o meu e era o que bastava. Durante nossa tarde juntos, fomos passear no Beco e Severo me contou como havia chegado até mim: Tom havia enviado uma carta até Hogwarts, e Dumbledore enviou uma carta para ele. Não fiquei com raiva do velho Tom, ele tinha que fazer alguma coisa.

Quando Snape foi embora, eu tinha o resto das férias livres do orfanato. Bom, de forma técnica, era o resto da vida, mas eu me contentaria em saber que não estava no modo "rota de fuga" durante todo o verão. Foi muito mais fácil aproveitar a companhia de Daisy e Tom depois disso e os convenci (e precisei de usar bastante do precioso charme que ainda tinha) a me deixar ajuda-los no serviço. Eu sabia que eles deviam ter entrado em algum acordo com Severo para me alugar o quarto, talvez até tenham mesmo deixado ficar de graça, mas Cedrico estava certo em apontar a minha dificuldade de lidar com caridade e boa índole. Eu precisava retribuir aquilo de alguma forma, e no fim de quase uma hora consegui um pequeno estagio de taberneira.

Havia apenas uma regra: eu devia ficar no balcão ou na cozinha, perto deles. Nada de perambular pelo salão. A ordem restritiva não me incomodou em nada, pelo contrário, me fez sorrir pela preocupação com a minha pessoa. O Caldeirão Furado era muito famoso e muito frequentado por todo tipo de gente: viajantes, bêbados, bruxos em compras ou encontros ocasionais. Nem o velho Tom nem a Boa Daisy achavam de bom tom deixar uma pré-adolescente exposta a toda essa gente que nem sempre tinham as melhores das intenções. Eu poderia me cuidar, sabia disso, mas o gesto foi bonito o bastante para me fazer concordar em silencio.

Quando subi para meu quarto naquela noite, tinha os braços doendo e um sorriso no rosto. Como ainda era proibido que eu usasse magia, ajudei de forma manual no que podia. Mexi panelas, piquei ingredientes, lavei talheres e limpei o balcão. Apenas servindo os outros notei como o Caldeirão era movimentado: não parei um segundo até o jantar, quando comi em uma das mesas próximas na companhia de Daisy, que aproveitava uma pequena folga. O expediente havia acabado para mim, mas o dela ainda continuaria por mais algumas horas, e era bonito a forma como ela era feliz com isso. Gostaria de um dia trabalhar que fizesse com tanto gosto quanto ela.

— E durma bem, Mal! — Tom se despediu quando viu que eu subia as escadas, então sorri e acenei para ele. Ainda observei sua mulher voltar para dentro da cozinha, não sem antes dar um beijo no seu rosto e ele mesmo apertá-la em seus braços. Se amavam e o faziam a muito tempo, o que fez uma parte infantil e feminina de mim suspirar. Lógico que essa parte não teve exatamente muito tempo de destaque – em segundos, entrei no quarto e tinha uma cobra negra de cinco metros para lidar.

Muitas emoções hoje?

Sorri para meu amigo antes de ir para o banho e, quando voltei, ele já estava em cima da cama. Em pouco tempo sua ultima refeição seria completamente digerida e ele precisaria se alimentar de novo. Mas não era agora e sua maior reclamação era o tédio, o que eu podia lidar. Enrolada entre seu corpo enorme, dormi com uma facilidade que não tinha por muito tempo. Não era um sono vindo da exaustão, como o da noite anterior. Seja ela física ou psicológica, não era o caso. Era quase tranquilidade, beirava paz. Eu sentia meu corpo relaxado e minha mente tranquila. E me agarrei nisso com tudo que eu tinha, mesmo que por uma noite.

Algumas vezes eu estava errada. Era raro, admito. Meu orgulho intelectual não permitia que esse fosse um fenômeno recorrente. Mesmo assim, acontecia alguma vez para me lembrar que eu era humana. Nunca me deixava um gosto bom na boca, bom, ao menos não até acordar no dia seguinte. E no próximo, e no próximo, e ainda no próximo. Foram dias e semanas ensolarados – e isso não tinha nada a ver com o fato de ser verão. Apenas estava iluminado demais, dentro e fora, com luz o suficiente para fazer meu monstro recuar até beirar o esquecimento.

Todas as manhãs, eu comia com Tom e Daisy. Claro que eles acordavam muito mais cedo do que eu, mas não tinham qualquer objeção a se sentar por um momento e tomar um pouco café. Daisy descobriu logo meu vicio pela bebida trouxa e sempre deixava minha xícara pronta pela manhã, exalando o cheiro que me fazia beijar seu rosto pela gentileza. Depois do desjejum, eu ajudava na cozinha. O preparo dos pratos do almoço começava cedo, tudo era deixado meio pronto para sair rápido a qualquer pedido. Essa era a hora de deixar minhas luvas de lado e esfregar o balcão, lavar os pratos ou picar algumas coisas. Na primeira vez que as tirei na frente de Tom, para mergulhar as mãos na pia já cheia, seu olhar não tinha surpresa, mas não esperava que tivesse. Sua esposa já tinha lhe contado o que viu e, apesar da clara compaixão em seus olhos, me conhecia o suficiente para não a deixar passar dali.

Eu esperava que ele tivesse entendido minha gratidão pelo seu silêncio, e acho que entendeu quando me passou ainda mais trabalho. Não liguei de forma alguma, gostava de trabalhar. Era impossível não admirar como era mais fácil fazer qualquer coisa sem estar com a pele em carne viva, mas tinha o cuidado de não falar isso com ninguém. De qualquer forma, o serviço sempre acabava na hora do almoço. Eu me sentava para comer no balcão e ficava conversando com Tom, dividindo sua atenção com os outros clientes (era uma hora sempre cheia) e, quando terminava, tinha o resto do dia para mim. Era quando eu saia para o Beco Diagonal (sem precisar mais de ajuda com os tijolos) e saltitava no meio de toda aquela gente.

Com o tempo, cheguei a conhecer cada pedra e cada pessoa dali. Madame Malkin, que na verdade se chamava Adeline, gostava de tomar chá em um dos bistrôs e apreciava companhia. Não era casada e não tinha filhos, só sobrinhos, mas era muito feliz com suas roupas e sua loja. Era uma bruxa surpreendentemente baixa, menor do que eu, mas com um olho treinado e mãos ágeis. Fez um vestidinho delicado com o guardanapo do lugar em menos de dez minutos e depois o fez dançar. Já Florean, dono da Sorveteria Florean Fortescue, adorava contar sobre seus "tempos dourados" onde jogava em um time de quadribol profissional. Um acidente feio no ombro o fez largar a carreira, mas não era como se tivesse perdido muita coisa: se deu muito bem no ramo dos sorvetes.

Mas as lojas (e as companhias) com quem eu mais passava os dias não eram o senhor Eugene Hornas, da Vassouras de Segunda Mão, loja onde se vendia vassouras usadas. Ou Raphael Laset, o novo administrador do Talhejusto & Janota, que assumiu a loja de roupas finas e sofisticadas depois dos pais. A dona do Vassourax, Sarah Barker, era divertidíssima, cheia de energia e sardas no rosto, e queria muito me ver em cima de uma vassoura depois que disse que consegui pilotar bem uma Nimbus 2000, mas não era ela. Os donos do Empório para Corujas e Animais Mágicos eram irmãos, mas Adônis gostava apenas de corujas enquanto a irmã, Noele, se debruçava em todos, mas também não era qualquer um deles, de toda forma, apesar de suas companhias e tantas mais também serem frequentes.

Hugo Kolgrim foi o nome que finalmente se ligou ao homem que conheci no ano anterior. Ele havia aparecido logo depois que acertei a cabeça de Draco Malfoy com mais de mil páginas de história da magia e impediu qualquer retaliação imediata do garoto. Ele parecia sempre cansado e com muita coisa para fazer antes de ter tempo de sentar e apreciar todo o conhecimento que possuía em seu comércio: espanava, organizava, catalogava e registrava a maioria dos títulos – não todos. Haviam livros ali sem quaisquer coisas escritas, dentro ou fora, e perguntei se alguém poderia saber o que eles diziam.

— Talvez a pessoa certa, Mal, e ninguém menos.

Hugo me lembrava Madame Pince, de certo modo, se a bibliotecária de Hogwarts não fosse tão louca. Ele me deixava ficar na sua loja durante toda a tarde, garimpando os livros que precisava contanto que os colocasse no lugar quando terminasse. Chegou a me perguntar se transfiguração era minha matéria favorita ou algo do tipo e se, de fato, eu estava entendendo alguma coisa daqueles livros avançados. Não me ofendi com nenhuma das perguntas – realmente gostava da matéria e, pegando uma informação aqui e outra ali, eu avançava nos livros da Floreios e Borrões e no transcrito que tinha no quarto.

Quando o relógio batia cinco horas, meus estudos terminavam. Pousava a pena, fechava o tinteiro e enrolava o pergaminho antes de os enfiar no bolso da calça, então me despedia de Hugo e ia para minha ultima parada no dia. A loja de varinhas do Olivaras estava ali desde 328 A.C, como dizia sua placa. Era um longo, firme e prospero negocio de família, mas duvidava que qualquer antepassado tivesse tido metade do brilhantismo de Garrick. Foi dele a ideia de levar a fabricação de varinhas para outro nível ao se dedicar aos núcleos mágicos mais poderosos e propícios: pelo de unicórnio, coração de dragão e pena de fênix. Bruxos de todos os lugares vinham comprar suas varinhas ali, no melhor fabricante do mundo. Minha própria varinha havia sido comprada lá, quase um ano atrás, quando conheci o velho bruxo.

— Boa tarde, Mal — Garrick tinha olhos de lua-cheia, prateados, o que combinava com seu cabelo completamente branco. Não que a cor de seus fios fosse de fato importante: o homem tinha as mãos leves, sim, mas firmes. — Como foi o dia?

— Agradável — sorri para ele. A poeira do lugar não me incomodava e, depois de dar a volta no balcão, beijei seu rosto magro. — Boas vendas hoje?

— O suficiente, menina — piscou para mim ao afagar meu cabelo. — Me diga, outra vez, a razão de perder seu tempo com a companhia de um velho como eu?

— Não é tempo perdido se eu gosto de perder — devolvi com suavidade, o que era bem verdade. Garrick tinha dois filhos, Olin e Lya, mas nunca os vi além das fotos. Não me pareciam muito presentes na vida do pai, que vivia naquela loja. Não fazia mal nenhum tomar chá com ele todo dia, aliás, fazia bem. Olivaras era inteligentíssimo, ex aluno da Corvinal, e eu podia ficar horas ouvindo-o falar sobre madeiras e curiosidades da fabricação de varinhas. Ele não me contou a técnica, nem eu a busquei, mas tinha histórias fascinantes sobre suas buscas por matéria-prima.

Quando eu voltava para o Caldeirão Furado, já era tão tarde que Garrick me acompanhava pelo caminho. Em algumas noites, ele entrava e tomava um pouco de cerveja ou beliscava alguma comida com Tom, outras apenas me deixava na porta. Eu jantava com ele, na maioria das vezes, então apenas desejava boa noite ao casal taberneiro e subia para meu quarto onde o dia estava um pouco longe de acabar ainda. Lá havia Lagrum e o livro de transcrito de Hogwarts – era hora de estudar e traduzir todas as palavras que não conhecia, anotando as próximas a serem pesquisadas.

Era uma manhã clara quando acordei com batidas no vidro da minha janela. Lagrum chiou e se moveu na cama, seu estomago mais ou menos cheio das carnes que roubava da cozinha para ele lhe deixando de mais mal humor do que o normal. A corajosa coruja, mesmo assim, continuou batendo no vidro até que eu fosse até ela, minha própria vontade de agarrá-la pelas asas e enfiar na garganta de Lagrum desaparecendo ao ver de onde era: a carta tinha o selo de Hogwarts.

Quem é Gilderoy Lockbart?

— Não aceito ninguém menos que Merlin reencarnado para todos esses livros — respondi com as sobrancelhas franzidas depois de ler a pequena carta e a lista. Lá estava meu bilhete do trem e o aviso padrão de local e horário de embarque do Expresso de Hogwarts. Com a coruja paga já tendo ido embora (eu tinha alguns trocados a mais agora que Tom os enfiava na minha mão depois de terminar minha ajuda na cozinha), o chamado da cama estava cada vez mais abafado com minha nova lista.

O Livro Padrão de Feitiços (2ª série), de Miranda Goshawk.

Como Dominar um Espírito Agourento, de Gilderoy Lockhart.

Como se Divertir com Vampiros, de Gilderoy Lockhart.

Férias com Bruxas Malvadas, de Gilderoy Lockhart.

Viagens com Trasgos, de Gilderoy Lockhart.

Excursões com Lobisomens, de Gilderoy Lockhart.

Um Ano com o Iéti, de Gilderoy Lockhart.

Livros de um paspalho qualquer a parte, eu precisava de um novo livro de feitiços e renovar todo meu estoque de penas, tinteiros e pergaminhos, além de fazer alguns remendos no meu uniforme e regular minha balança. No ano anterior, Lagrum havia me feito esperar até o ultimo momento para ir às compras – agora ele sequer tentou. Nem ele conseguiria me fazer ver os dias passarem ali, do lado do Beco, sentindo o mundo bruxo pulsar.

Pela primeira vez mal podia esperar para a manhã terminar. Minha ansiedade não passou despercebida por Daisy enquanto eu a ajudava, nem mesmo por Tom, e fui encurralada sobre o motivo. Quando disse que estava empolgada para fazer minhas compras de material, riram com suavidade.

— Você realmente gosta da escola, não é, Mal? — Tom perguntou com algo como orgulho na voz, mas não pensei sobre isso ao enxugar minhas mãos no pano e recolocar minhas luvas. Apenas sorri da forma mais honesta que consegui.

— É a minha casa, Tom.

Não havia sido minha intenção, mas os deixei sentimentais outra vez. O velho Tom colocou o dobro de pagamento nos meus bolsos antes de eu sair e Daisy beijou meu rosto com ternura. Sorri para eles, sorri de verdade. Eram boas pessoas – felizes, gentis, altruístas. Como um casal lufano deveria ser, como qualquer ser humano deveria. Eu os adorava e não eram muitas pessoas nesse mundo que recebiam esse sentimento de minha parte. O velho Tom e a boa Daisy, prometi que nunca os faria arrepender de terem me acolhido. Tempos depois, engoli essa promessa com veneno.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que os comentários do cap 3 serão respondidos durante a semana ♥ Malfeito, feito! Nox ♥