Corona II

5 Telefone Sem Fio


Notas iniciais
Hey nenês ♥ ♥ Os comentários do cap 4 vão ser respondidos todos essa semana ♥ No mais, obrigada a todos que comentaram, seus comentários lindos ♥ Um obrigada especial a Ella Branco (Bella ♥), MissMonster, Valerie Malfoy, MaduBlackfyre, Caique Morningstar, Amanda Pêra e Liyith, o cap é pra vocês ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Foi já em meados de agosto que consegui uma resposta para a pergunta sobre o autor da maioria dos livros daquele ano, e antes mesmo disso apenas a suspeita dela já era o bastante para me fazer sonhar em passar uma máquina zero na barba de Dumbledore. Quando Hugo pôs uma placa na frente da Floreios e Borrões com a foto do homem e os dizeres "sessão de autógrafos", decidi que ele mais parecia algum ator/modelo do que um grande bruxo defensor dos fracos e inocentes com suas incomparáveis habilidades mágicas. Eu podia estar enganada, e queria, mas seus dentes retos e cabelo bem hidratado não me passava a imagem de duelista e sim de algum comercial de produtos de beleza.

Como alguém que lutou contra um lobisomem, um espirito agourento, trasgos e vampiros pode não ter nenhuma cicatriz?

Lagrum revirou os olhos para mim, ou o que era revirar os olhos na versão reptiliana sem pálpebras, e sequer se dignou a me responder. Li cada um dos livros do homem (cortesia de Hugo, que me fez pela metade do preço uma vez que os best-seller eram bem carinhos) e a cada paragrafo a narrativa apenas não se encaixava com o homem bem vestido, jovem e bonito, sorrindo com cabelos esvoaçantes na contracapa. Cheguei a perguntar sobre ele para Tom e Daisy, Garrick e Hugo. Os dois primeiros não conheciam o homem além de seus livros e o último estava em uma relação de amor e ódio com a esperada lotação que a sessão de autógrafos reservaria para sua loja.

— Mas as damas vão comprar algum livro, Mal? Acha que vão? — E saia resmungando, na esperança de toda aquela gente render pelo menos algum lucro. Olivaras, por outro lado, tinha uma opinião dúbia sobre o homem.

— Gilderoy? Eu me lembro, claro que lembro. Vinte dois centímetros, cerejeira e fibra de coração de dragão. Era um rapazinho ansioso: não para aprender, e sim para brilhar.

E havia conseguido uma varinha para tal: o coração de dragão era um núcleo bastante conhecido pelo seu poder e lealdade, e a madeira de cerejeira era especialmente requerida pelos alunos da escola de magia Mahoutokoro, no Japão. Uma varinha dessa madeira era sinal de prestigio e apenas os idiotas diziam ser fraca ou superficial ao associa-la com a flor: o poder da varinha de cerejeira costuma ser verdadeiramente letal, não importa o núcleo, e, por isso, nunca deve se unir a um mago sem autocontrole ou com fraca força de espírito menor do excepcional.

Se olhasse apenas sua varinha, estava sendo submetida a ler aventuras de um homem realmente acima da média, algum tipo de herói. Mas minha própria consciência (que sibilava e se chamava Lagrum) e as últimas palavras de Garrick não fizeram da leitura algo agradável a cada vez que lembrava que tudo aquilo era mais que ficção. Mesmo que, na melhor das hipóteses, Lockhart houvesse feito tudo aquilo, não havia nenhum tipo de verdadeira instrução naqueles livros. Nenhuma teoria, nenhum feitiço, nenhum guia. Só páginas e páginas do homem sorrindo.

Em minha defesa, rabiscar a cara dele com tinta em todas as capas foi um ato de salvação – iria acabar jogando tudo no fogo se Gilderoy sorrisse e piscasse para mim mais uma vez.

E foi por isso que decidi ficar no Caldeirão Furado naquela quarta-feira, sabendo que durante toda a tarde a Floreios e Borrões estaria lotada de bruxas se estapeando para ver o galã. Não tinha o mínimo interesse em me juntar a elas, nem mesmo por curiosidade, e depois de ajudar na cozinha e almoçar, subi direto para o meu quarto estudar por conta própria. Iniciei e terminei resumos de alguns dos primeiros capítulos dos livros, como o de Feitiços, Transfiguração, Poções e Defesa Contra Artes das Trevas, esse ultimo baseado no que li por conta própria na livraria.

Lagrum estava certo em dizer que eu não devia ter começado tão cedo: fiquei insuportavelmente ansiosa. E aproveitando a cobertura mágica de estar cercada de bruxos maiores de idade, pratiquei tudo que podia até não precisar que nenhuma voz saísse da varinha em pelo menos feitiços básicos. Me diverti tanto que só sai do quarto, para o grande alivio de meu amigo, para encontrar Olivaras em nossa hora marcada. Mas Garrick teria de me perdoar, forças maiores agiram para me tirar do caminho. E com toda certeza considero o bando Weasley em peso mais um anão de óculos e os Granger uma força maior.

— Mal! — Foi Hermione a primeira a me ver e a denunciar minha posição, parada nas escadas que levavam aos quartos. Vi Molly ao lado de um homem ruivo com olhos azuis, e chutei ser o patriarca da família, Arthur. Percy também estava lá, com Jorge e Fred e Ronald e a pequena Gina. Sorri para eles, bastante consciência da confusão pela minha presença ali. — Está hospedada aqui? Poderia ter avisado!

— Mione, não imagina como senti falta desse tom — e havia carinho na minha voz quando os braços de minha amiga me envolveram. Ela havia crescido, só um pouco. Ainda tinha o mesmo cabelo volumoso e os mesmos dentes grandes, o que confortou meu coração. Ela ainda era a mesma.

— Vamos, Mione, solte ela, está estagnando a fila! — E eu conhecia a voz de Fred Weasley, poderia diferencia-la sem dificuldade do irmão. Seus olhos brilharam de seu jeito particularmente perverso e isso me fez sorrir ao sentir seus lábios no meu rosto. — Cobrinha, cobrinha, sempre aparecendo por aí!

— Ela não seria quem é se não aparecesse, Fred — Jorge tirou seu irmão de mim e sorriu. Sabia que me beijou apenas para fazer parecer uma brincadeira compartilhada por ambos comigo, mas não liguei, era de fato uma para mim. — Mas é uma agradável surpresa.

— Agora vocês podem deixar a garota respirar? — A voz da mãe fez os gêmeos recuarem e a risada escapar de mim na forma de ombros balançando e um sorriso largo. Andei até a grande mesa onde todos estavam sentados e me sentei ao lado de Harry quando ele abriu espaço. — Como vai, querida?

— Vou bem, sra. Weasley, apenas com saudades de seu chocolate — o comentário a fez sorrir. Corri meus olhos pela mesa e me inclinei em direção ao casal Granger. — Desculpe não ter ido visita-los, fiquei presa no orfanato antes de chegar aqui.

— E está aqui sozinha? — O patriarca dos Weasley questionou antes de balançar a cabeça e sorrir, estendendo a mão para mim. — Que modos! Arthur, pai dos gêmeos, de Rony e da minha menina ali, Gina. Você é amiga deles, certo?

— Me chame de Mal, senhor, muito prazer — apertei a mão dele, grande e quente, e decidi que gostava dele tanto quanto do resto do bando. Arthur tinha um sorriso bondoso e paterno, o que me dizia que era Molly quem devia ser a ditadora da casa – mas alguém tinha que ser. Ainda mais tendo Fred e Jorge debaixo de seu teto. — Sim, eu... bom, eu fui liberada do orfanato mais cedo. Tom e Daisy me deixaram ficar em um quarto aqui, então é onde estive nas ultimas semanas.

— Então não ficou sabendo da última — Rony ignorou os olhares preocupados dos adultos e se adiantou, passando a sussurrar para não chamar atenção. Ele não tinha mudado muita coisa, também. Talvez estivesse ainda mais alto, mas ainda parecia desajeitado. — Harry foi "liberado" também.

Virei a cabeça em direção a Potter, ao meu lado. Ele esteve olhando para mim todo o tempo e sorriu quando minha atenção foi para ele. Harry, de todos, era o que parecia mais congelado no tempo, a não ser pela magreza – que parecia ainda maior. Lá estava os mesmos cabelos pretos espetados e os óculos redondos. Mais importante, seus olhos continuavam os mesmos: verde sonserina, brilhando de felicidade genuína. Sorri para esses olhos.

— Conte então, Potter, pois não imagino aquele gorila loiro sendo bonzinho com você.

Eu sabia que Harry não se dava bem com seus parentes trouxas, mas depois de algumas frases baixas tive que pensar em lugares além de felizes para controlar meu temperamento. Permaneci concentrada nos olhos dele, espelhos que não mostravam nenhum rancor ou raiva por ser enjaulado como um animal e alimentado como um escravo. Como uma pessoa podia ser tão essencialmente boa? Ele estava até sorrindo, agora, uma vez que estava longe dos tios ordinários e na boa companhia dos Weasley.

Em dado momento, os Granger foram embora. Hermione me abraçou mais uma vez e antes de ir com os pais, que também se despediram de mim de maneira carinhosa. Fui a primeira amiga da filha deles, talvez durante toda a vida, e isso amolecia seus corações. Mas não podia reclamar: eles eram boa gente, também. Pais esforçados para deixar a filha feliz em seu mundo, mesmo que significasse o abismo de realidade entre eles.

— Mal, querida, podemos falar com você um instante? — A sra. Weasley me chamou logo depois, me tirando da narrativa de Ronald sobre como tinha suspeitado que algo estava errado com o Harry e a decisão de salvá-lo, com a ajuda de Fred e Jorge, agora em detalhes. Era divertido vê-lo contar, pois se orgulhava do feito e era como ver um filme narrado dentro da sua cabeça.

— Sim, sra. Weasley? — Me sentei no banco na frente deles, obrigando Percy a arredar para o lado.

— Você é muito amiga de nossos filhos e de Harry, não é? — Concordei com a cabeça, observando o modo como o casal tinha conforto e proximidade. — Conversámos um pouco e pensamos... você é bem-vinda na nossa casa, se quiser, claro. Férias são melhores entre amigos, mas entendemos completamente se preferir ficar aqui no Caldeirão Furado...

— Sim! — A palavra saiu tão alto que toda a mesa, concentrada em suas próprias conversas, olhou para mim. Não liguei. — Eu adoraria! Seria uma honra, de verdade, eu só preciso falar com Tom e Daisy...

— Não se preocupe com isso — Arthur respondeu, os olhos brilhando azuis atrás dos óculos. — Vamos falar com eles, mas tenho certeza que não vão se importar, agora vá buscar suas coisas.

Sequer dei atenção aos olhos curiosos dos garotos e Gina quando disparei pelo salão e subi as escadas. Fui tão facilmente sugada pela minha nova rotina no Beco Diagonal – Tom e Daisy, Garrick e Hugo, Adeline e Florean, Eugene e Raphael, Sarah e Adônis e Noele – que esqueci o quão doente de saudades estava de todo o resto. Não apenas da magia em si ou do mundo bruxo, mas das pessoas que conhecia nele. Como me doeu passar tanto tempo sem sentir o cabelo cheio de Mione me fazendo cocegas no nariz, ou as falas conjuntas dos gêmeos, até mesmo a ironia grosseira de Ronald.

E os olhos verdes sonserina de Harry Potter? Estão na lista também?

— Cale a boca — devolvi, mas teria sido melhor não falar nada. Como estava sorrindo ao dizer isso e minha voz quase cantada, Lagrum colocou a língua para fora várias vezes enquanto deslizava em minha direção, se enrolando em mim como o peso que era. Soltei um barulho do fundo da garganta e, dessa vez, usei meu tom normal. — Não me atrapalhe, eles estão me esperando!

O-ho, estão? Não podemos deixar os Weasley esperando... principalmente o menino Potter.

— Deixa disso! — Salazar seja louvado pelo fato de as cobras serem cegas. Lagrum não viu a cor, mas o maldito podia sentir minha vergonha. — Não seja um implicante justo agora. Eles moram no campo, não está cansado desse quarto?

Exausto, impaciente e faminto, filhote. Mas não pense nunca que são razões suficientes para te deixar em paz.

— Ofídio babaca — o chute de uma garota de doze anos nunca conseguiria fazer o corpo grosso se mover, mas Lagrum estava bonzinho e mais do que de saco cheio de viver debaixo da cama. Foi paciente e compreensível durante todo o verão, talvez por saber que eu longe de magia estava mais próxima de um desastre do que ele longe de ar livre. — Vou te liberar assim que puder, e então você pode comer algo decente. Coelhos, talvez raposas.

Anões de óculos e olhos verdes não?

— Se quiser desperdiçar tempo e energia... — devolvi com um sorriso, minha presença de espirito controlada. Terminei de ajeitar meu malão, organizando novamente minhas roupas e meu material nele, incluindo o novo e meus estudos pessoais. Então, dei alguns toques de varinha para que encolhesse. — Está ainda mais magro que antes. Seus tios...

Eles sim não servem para nada – uma mordida e eu já teria três veias entupidas pela gordura.

Isso me fez rir alto, e mais uma vez decidi como os donos do lugar eram gentis – nunca me perguntaram se eu era louca por isso. Ainda estava com um sorriso quando voltei a descer os lances de escada do mesmo jeito que subi: minha mochila nos ombros e toda minha vida dentro dela. Os Weasley já estavam me esperando, a conta paga, e lamentei não ter tempo de me despedir de todos que conheci no Beco, mas ao menos despediria de dois dos mais importantes.

— Obrigada por terem me deixado ficar por aqui — sorri para o velho Tom e sua mulher, a boa Daisy, que tinha saído da cozinha para se despedir de mim. — Vocês não tinham obrigação nenhuma de me abrir a porta e fizeram tão mais que isso, eu... eu realmente agradeço.

— Deixe disso, Mal — Tom sorriu para mim, pegando nas minhas mãos através do couro, afagando a pele exposta acima do meu pulso. — Você é sempre bem-vinda debaixo do nosso teto, mas é realmente hora de aproveitar as férias ao sol com gente da sua idade invés de um bando de velhos.

— Deixe você, eu estava aproveitando muito aqui — apertei as mãos dele nas minhas antes de Daisy me envolver com os braços e beijar minha cabeça. Nada demorado, mas o bastante para fazer o peso da minha perna mudar. — Obrigada, Daisy.

— Obrigada você, querida — sussurrou para mim. — Continue se cuidando, mas se acabar se cansando disso, é sempre bem-vinda aqui.

Não consegui responder nada. Me afastei deles e me enfiei entre os Weasley (e Harry) me lembrando no último momento de gritar por cima do ombro para eles avisaram a Garrick que eu não estava mais por ali, mas iria escrever quando voltasse para Hogwarts. Então estávamos de frente a lareira, e eu já a tinha visto ser usada e já me tinha sido explicado, mas era a primeira vez que usava. Aos sussurros, Harry me contou que foi um desastre na primeira vez: falou o nome errado e acabou bem longe de onde deveria, todo sujo e com óculos quebrado.

Aliás, tem muito sobre isso, Mal.

A voz do garoto na minha mente, me chamando, foi reconfortável de uma forma que eu não esperava. Durante o ano passado, fiz da mente de Potter algo familiar. Não raro eu via como um filme enquanto ele contava algo, ou lhe sussurrava alguma informação. A última vez havia sido na noite em que enfrentamos Voldemort: passei por sete andares de pedra e magia para conseguir chegar em sua consciência. O esforço havia me deixado tonta e com dor, mas tinha valido a pena. Agora, Harry me parecia muito consciente dessa linha direta entre nós e não pude deixar de sorrir mesmo que houvesse algo de mordaz em seus olhos.

— Sua vez, Mal — Arthur me chamou depois de Harry ter ido (e falado claramente "A Toca" dessa vez). — Lembre-se: diga claramente o nome e pare na lareira certa. Espere até ver a Molly, sim? Agora vá.

Peguei um punhado de Pó de Flu – que se pareciam com um monte de cinzas com textura de areia – e entrei no meio das chamas.

Se acabar se atrapalhando que nem o Potter e cair em cima de mim eu juro que vai se arrepender de ter aberto os olhos quando saiu da placenta.

— A Toca!

Mesmo com a boca torcida para conter a provável gargalhada que Lagrum tentou me causar (mesmo sabendo que ele falava bastante sério), o nome saiu em alto e bom som enquanto as chamas verdes me consumiam e eu era puxada para dentro de algum lugar. A sensação na boca do estômago de estar sendo sugada era forte o bastante para dar náuseas e o rugido nas minhas orelhas me fez apertar o maxilar. Meu corpo girava mais rápido do que qualquer outra vez na vida, mesmo quando dava voltas na Nimbus 2000, e meu rosto gelou com o toque de nada concreto. Talvez pela minha própria resiliência, talvez pelo aviso de Lagrum, consegui manter meus olhos abertos o suficiente para conseguir enxergar as diferentes lareiras e diferentes aposentos que elas mostravam até enxergar uma mulher ruiva e gorda e me lancei em direção a ela.

Merlin abençoado, acertei na mulher gorda e ruiva. Era Molly Weasley.

Considerei algo a se orgulhar quando impedi meus joelhos fracos de dobrarem e tropecei para longe da lareira, forçando meus sentidos a registrarem o ambiente a minha volta e, Salazar, tinha bastante coisa para isso. O Caldeirão era uma taberna medieval, mas além do contraste com o século atual, não havia nada muito diferente nele além de seus clientes e a sensação de magia centenária. A Toca era algo diferente: era uma casa bruxa. Construída de bruxos para bruxos sabe-se lá a quantas gerações de ruivos sardentos atrás. Senti o mesmo entusiasmo infantil de quando pisei no Beco Diagonal pela primeira vez, seria muito rude abrir a gaveta de talheres?

— Seja bem-vinda, querida, pode colocar sua mochila no quarto da Gina — Molly me recebeu logo depois que seu marido, o último a passar, tinha chegado. — Gina, mostre o quarto para ela, sim?

A pequena Weasley se adiantou, ainda segurando seu material recém adquirido e arriscou um sorriso para mim que já estava retribuído de antemão: não conseguia tirar ele da cara. Era uma casa pequena, mas bem definida, de certa forma. Eu podia ver a pequena sala, onde eu estava, com fileiras de livros empilhadas no consele da lareira, e sua cozinha, também pequena, mas com uma grande mesa de madeira escovada com uma dúzia de cadeiras. Quando segui Gina até as escadas passei por um grande relógio grudado na parede que não tinha número algum e apenas um ponteiro. Onde se devia ficar os números liam-se coisas como "hora de fazer chá", "hora de dar comida às galinhas", "você está atrasado" e "grande perigo". Achei graça do último e soltei uma risadinha, quase pulando ao subir os degraus.

— Bom, é aqui — Gina abriu a porta de seu quarto, o único naquele andar. A casa subia por muito mais, em cômodos muito afastados de seu centro para não estar sustentada por magia. Entrei no cômodo atrás dela, ainda mais ansiosa para subir e descer todas aquelas escadas, e gravei com rapidez a grande janela que ia do teto ao chão com cortinas cor-de-rosa enroladas, a cama bem-feita com almofadas caseiras e brinquedos espalhados pelo chão, até mesmo uma casinha de bonecas. A menina percebeu meu olhar no brinquedo e seu rosto ficou quase tão vermelho como quando Harry respirava perto dela. — É uma coisa velha. Já pedi para mamãe achar outro lugar para colocar, eu não brinco mais.

— Devia — retruquei de bom humor ao colocar com cuidado minha mochila aos pés da cama dela. Tinha consciência de Lagrum ali, mas ele teria que ser paciente. O pouco que tinha visto nos pensamentos superficiais à mesa no Caldeirão eram verdade: os Weasley moravam afastados da cidade, cercados de mata e árvores – senti até mesmo o cheiro de maçãs, se meu olfato não tivesse me traído. Logo ele estaria livre e comendo algo decente, mas teria que esperar um pouco mais. — Não teriam como dar para todas as garotas no orfanato então o mais diplomático foi ficar sem nenhum. Eu mesma devo ter tido algo parecido, mas eu era muito nova.

— Então é verdade? — Seus olhos castanhos vieram até mim com curiosidade, nem um pouco amedrontada e tímida. — Mamãe disse para não perguntar, mas você é...

— Órfã? Sim — encolhi os ombros, sem interesse algum de receber sua pena. Não tinha nenhuma necessidade dela antes de saber que o casal trouxa iria me desovar no orfanato e tinha muito menos agora. — Os Lewis morreram quando eu tinha seis anos. Acidente de carro. Estive no orfanato desde então.

— Esteve? — Os olhos dela se estreitaram ao processar a palavra e meu sorriso se alargou. Muito bem.

— Garota esperta — pisquei para ela, admirando seu pensamento rápido. Ela devia fazer alguma coisa sobre sua estupidez ao lado de Potter, pois na verdade não era nada tonta. — Eu não digo que você perguntou sobre minha condição familiar e você não diz sobre esse detalhe, que tal?

— Fechado — a pequena Weasley me abriu um sorriso. — Aliás, sem minha mãe dizer, me chame de Gina.

No orfanato eu costumava me dar bem com as garotas mais novas e foi ótimo descobrir que eu não precisava de pesadelo em comum para isso continuar acontecendo. Gina me ajudou a arrumar minhas coisas em seu quarto (sem o malão lá, Lagrum ficaria um pouquinho mais confortável na mochila) e me convenceu a sentar e brincar com sua casinha de bonecas, o que descobri que foi ótimo não ter tido pois odiei. Ela riu de mim depois de dez longos minutos e me mostrou sua coleção de pôsteres e livros de quadribol: era fanática. Queria poder jogar, mas os irmãos sempre a deixavam para trás por ser mais nova e menina.

— Mas eu não ligo para o que eles acham — confessou com uma torção de boca travessa. — Sempre que posso, arrombo o armário de vassouras com a técnica trouxa que Fred e Jorge me ensinaram e treino um pouco. Estar lá em cima é o que significa magia para mim.

— Devia fazer teste para o time da Grifinória — murmurei com a voz suave, nem um pouco inclinada a compartilhar que também havia sentido isso na vez em voei na vassoura de seu amor platônico. — Muitos astros de quadribol mundial começam nos times da escola.

— Quadribol mundial? Qual é, Mal, não brinca — debochou, mas havia um brilho sonhador em seus olhos que podia muito facilmente virar determinação e vigor. Se o fizesse, essa garota iria longe. — E quem disse que eu vou para a Grifinória? Pode dar tudo errado e...

— Nem em sete mil anos aquele chapéu velho vai permitir que algum Weasley vá para outra casa, Gina.

— Espera, então é um chapéu?! — Sua voz ficou aguda enquanto as bochechas avermelhavam. — Eu vou matar o Rony, ele disse que eu teria que enfrentar um trasgo montanhês de olhos vendados!

Devia estar escrito em algum tipo de etiqueta social que não era permitido rir dos novos colegas, mas gargalhei da Weasley. Ela ficou mais calma (porém não menos determinada) depois que expliquei como funcionava a Seleção de Hogwarts. Quando descemos para o jantar e trombamos com Ronald, seu cérebro aproveitou que o irmão tinha descido alguns lances de escada antes do Harry e beliscou sua cintura, fazendo-os brigar escada abaixo.

— Enquanto isso eu tenho o Duda, mas ele sempre foi muito mais largo e eu não posso revidar, então acho que nunca experimentei uma disputa justa entre familiares — Harry parou ao meu lado, tendo finalmente alcançado o patamar. Virei a cabeça para ele, um sorriso preciso no rosto e uma sobrancelha arqueada ao focar em seus olhos através do meu próprio reflexo.

— Estou preparada quando estiver, Potter, mas saiba que não tenho piedade.

— Eu acho que todo mundo sabe muito bem disso, Mal — o sorriso tímido que ele abriu era exatamente igual ao que estava na foto que eu tinha. Talvez um pouco mais bonito, agora que era real e estava na minha frente. — Senti sua falta durante as férias... bom, não a sua, especificadamente, claro, mas, você sabe...

— Eu sei, Cicatriz — fiz força para minha voz não me trair sobre o quanto seu embaraço me divertia. — Agora vem, nós dois precisamos pegar peso. Nenhuma boa luta vai sair de dois esqueletos.

Quando Harry me seguiu para a cozinha de onde saia o cheiro quase pecaminosa da comida de Molly Weasley, nós sentamos nas cadeiras vazias entre Rony e Gina, cada um com seu ruivo ao lado. E depois, quando senti o fio familiar entre nossas mentes ser tocado outra vez, me confortei com isso. Se tinha alguém que não me importava de poder me chamar como um telefone era ele.

Tenho que te contar sobre o que aconteceu nesse verão.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que os comentários do capitulo 4 serão respondidos durante a semana ♥ Malfeito, feito!