Corona II
6 Monstro na Toca
Notas iniciais
Passei uma bela primeira noite na Toca depois do fabuloso jantar de Molly e subi para o quarto de Ronald. Ele ficava no último andar da casa, perdendo apenas para o sótão logo acima onde ficava um velho vampiro, mas não liguei de subir todos aqueles degraus. Não com tanto na cabeça depois de Potter me mostrou, em um pequeno filme e entre uma garfada e outra, o problemão do elfo doméstico invadindo seu quarto, a carta de aviso do Ministério sobre uso de magia, os Weasley arrancando as grades de sua janela em um resgate no meio da noite, o mais que decepcionante novo professor de Defesa Contra Artes das Trevas – Gilderoy Lockhart, e a pancadaria entre Arthur Weasley e Lucius Malfoy, o pai de Draco.
— Harry, quando eu acho que você é incapaz de me surpreender... — me sentei na cama no quarto pequeno e cheio de pôsteres de quadribol. — Você acha mesmo que o elfo, Dobby, foi mandado por Draco?
— Bom, faria sentido, não é? — Arqueou as sobrancelhas, sem saber direito o que achar. — Rony disse que a família dele com certeza tem um elfo, e Malfoy me odeia o bastante para não querer que eu pise mais em Hogwarts.
— Eles devem ter um exercito de elfos domésticos, Garoto de Ouro, mas essa não é a questão — apoiei os cotovelos no joelho e a cabeça nas mãos. — E sim que, em primeiro lugar, nem mesmo Draco Malfoy seria patético o suficiente para pensar o bastante em você nas férias a ponto de mandar um elfo doméstico para te atazanar. Em segundo, se ele o fizesse, então você tem algum problema: se Draco mandou o elfo para te manter longe de Hogwarts, por qual razão Dobby estaria com tanto medo, se, afinal, estava ali sob ordens? E o jeito que ele falou, ele deu a entender que seria perigoso para você voltar para a escola, parece que quer te proteger. Acha mesmo que Draco Malfoy preza pelo seu bem-estar e integridade física?
— Não — o garoto concordou, amuado. — Mas se não foi ele, quem foi?
— Ainda acho que pode ser ele — Rony me atropelou para falar, bem mais resistente em concordar que nem tudo era culpa de Malfoy. — Dobby pode ter sido mandado para lá, mas para assustar o Harry ou coisa parecida. Então, ao decidir não obedecer e, na verdade, tentar ajudar, ficou pirado.
— Ainda acho que não faz sentido e, de novo, a implicância de vocês estão os cegando. Não precisavam ficar inventando motivos para detestar o Malfoy, ele mesmo já dá o suficiente — rebati, encerrando o assunto. Algumas coisas deviam, mas não mudavam. — Aliás, parece ser de família. Quão bonito foi o soco que seu pai acertou no intocável Lucius Malfoy?
— Maravilhoso — o rosto do Weasley assumiu um ar quase sonhador. — Você tinha que ter visto, Mal. Malfoy pai começou a falar um monte de bosta sobre minha família e sobre o emprego do papai, e então BAM! Papai estava ganhando, o outro lá saiu bem mais machucado, e sei que ele não se arrepende apesar do sermão que mamãe deu nele sobre se comportar mal na nossa frente e na frente dos pais da Mione.
— Se Draco não sabe brigar, duvidava que seu pai soubesse de alguma coisa, também — cena gloriosa aquela, aliás, mesmo que sendo vista sob os olhos de Harry. O senhor Weasley atingindo o rosto fino do pai de Draco com a mão cheia e fechada, e a longa cabeleira platinada indo para trás. — Eu sempre perco as melhores coisas, não é justo.
— Hermione discordaria de você, ela não está aqui agora — Rony sorriu, o que acentuava suas sardas e o azul nos olhos herdado do pai. — Mas onde você estava que nem viu a confusão?
— No meu quarto no Caldeirão Furado — e queria muito que deixasse o assunto apenas por ali, mas seus olhos permaneceram focados em mim. — Eu fui para lá umas duas semanas depois de chegar de Hogwarts, não suportava mais o mundo dos trouxas e a nova supervisora do orfanato concordou em me deixar passar o verão fora.
Não acha que pulou algumas partes da história?
Silenciei Lagrum com um xingamento no fundo da minha mente, agradecendo outra vez pela linha entre minha mente e a de Potter ser unilateral: ele não era legilimênte, não podia me ouvir. Parte do meu sorriso durante o próximo par de horas foi imaginando o que eles, Ronald e Harry, diriam sobre meu verão, principalmente sobre a parte de encontrar Severo Snape, o desprezível professor de poções, fora da escola. Quando desci em direção ao quarto de Gina, estava com esperança que ela já estivesse dormindo. Assim seria menos uma pessoa para poder levar Lagrum para fora, mas adiei meus conhecimentos quando a porta do quarto logo acima se abriu.
— Cobrinha, ei — a porta se abriu de repente, quase me fazendo pular, enquanto um dos gêmeos saia de dentro do quarto e a fechava logo em seguida. Demorei um segundo para encontrar seus olhos e identificar Fred Weasley, o que me fez sorrir. — Ainda não tivemos tempo de conversar, só nos dois. Estava se divertindo lá no Beco?
— Não tanto quanto vou me divertir aqui, espero — ao contrário de Percy e Ronald, que tinham os olhos azuis do pai, Fred (e Jorge) tinham o castanho-chocolate da mãe, assim como Gina. Mas se os olhos originalmente amorosos e quentes de Molly ficavam determinados e amigáveis na caçula da família, o efeito nos gêmeos era o oposto. A forma como seus olhos brilhavam e escureciam ao mesmo tempo passava um ar não-confiável tentador. — Jorge está lá dentro?
— Está, sim — sorriu para mim, encostando a si mesmo na porta. — Desculpe fechar a porta assim é que se minha mãe ver algumas das coisinhas que explicariam os barulhos...
— Gina me contou das explosões periódicas — arqueei uma sobrancelha, achando graça. — Espero que não aconteçam de noite, sabe, eu tenho sono leve e gosto de dormir.
— Considero seu sono algo sagrado e imperturbável — a voz pomposa e a postura reta me fizeram soltar uma risada meio estrangulada pela hora. Já era tarde. — Mas é bem-vinda para ver o que estamos fazendo. São algumas coisas para deixar a vida mais divertida, sabe? Poderia até te dar algumas amostras grátis.
— Não vou ser sua cobaia, Weasley.
— Você me ofende, não precisamos de cobaias, temos o Rony — e, de novo, a risada veio fácil aos lábios meio fechados. Observei seus olhos brilhando, imaginando se cruzaria ou não o limite de sua mente enquanto ficávamos em silêncio. Decidi que não, era mais divertido assim. — De qualquer jeito, estou feliz que esteja por aqui. Percy está um porre com o novo distintivo de monitor.
— Então temos que dar um jeito nisso — pisquei com um sorriso preguiço. — Mas antes, é melhor eu descer. Boa noite, Jorge — "boa noite, Cobrinha!", a voz que veio de dentro do quarto me fez balançar os ombros uma última vez. — E boa noite, Fred. Também estou feliz de estar aqui.
Só quando já tinha virado o patamar da escada foi quando ouvi a porta do quarto dele se fechando e, mais uma vez, resisti a tentação de viajar minha consciência até ele. Se eu consegui o fazer através de pedras em Hogwarts, não seria a madeira dos Weasley que barraria meu poder. Mesmo assim, resisti a tentação, principalmente pelo fato de Gina ainda estar acordada, mas não me esperando. Na verdade, deu um pulo tão grande da cama quando abri a porta que meus olhos voaram direto para o pequeno caderno que tinha agarrado nas mãos.
— Eu não sou intrometida, mas se não quer que ninguém ache que está fazendo algo errado, não aja como se tivessem te pegado entortando a cruz — arqueei uma sobrancelha para ela, esquadrinhando o quarto. Não tinha nada de diferente. Lagrum ainda estava na minha mochila (cochilando irritado e faminto), a única coisa que mudou era o pequeno caderno negro que a menina segurava e a mancha de tinta negra que se espalhava pelo colchão depois do tinteiro cair pelo seu pulo. Ainda com os olhos presos no caderno, peguei minha varinha e apontei para a mancha, tirando toda a tinta desperdiçada e a colocando de novo no tinteiro. Os olhos castanhos de Gina acompanharam a magia descarada, a boca aberta esquecida do susto.
— Você...
— Privilégios de estar sob um teto bruxo — murmurei avançando em sua direção, tampando o tinteiro com as mãos. — Estava escrevendo? É um diário? Não me diga que é proibido.
— Não — e lá estava a característica dos Weasley de ficaram da cor do cabelo, principalmente nas orelhas. — Quero dizer, sim. É um diário, mas não é proibido. Só é... bobo.
— Gina, sabe que sou só um ano mais velha que você, certo? Não tem que se provar adulta para mim — franzi as sobrancelhas. — Não tem nada de errado em manter um diário. Começou hoje?
— Logo agora — os ombros da menina começaram a relaxar, mas seus dedos ainda seguravam o pequeno caderno com força. — Desculpe, Mal, é costume. Mamãe tem me tratado como um bebê desde que minha carta de Hogwarts chegou, chorando, toda emotiva, dizendo que eu cresci em alguns momentos e depois agindo como seu eu ainda tivesse seis anos em outros. É irritante.
— Suponho que sim — não tinha uma mãe para comparar experiencias de negação de crescimento, então parei por aí, meu coração batendo rápido por algum motivo. Olhei para o caderno outra vez, e meu mostro abriu os olhos pela primeira vez em muito tempo. Respirei fundo. — Onde arranjou isso? É um caderno comum, bruxos não usam cadernos, é do mundo dos trouxas.
— Estava nas minhas coisas depois da Floreios e Borrões — havia desconforto na sua voz e recuei, ciente de que estava a apenas um passo da garota naquele quarto pequeno. — Mamãe deve ter comprado na loja de materiais de segunda mão, ou vindo de brinde. Seja como for, estava em branco e eu pensei...
— Em desabafar com o papel? — Perguntei devagar, precisando de todo meu controle para não descobrir de uma vez porque a reação mais que exagerada. — Não tem mal nenhum nisso, por que agiu como se estivesse fazendo algo ruim?
— Eu já disse, é bobo...
— Sim, e você mentiu — cortei suas desculpas, me afastando ainda mais. Até Lagrum havia despertado, ciente do meu desconforto e atenção aquele caderno estranho. Não tinha nada de diferente pelo que podia ver entre os dedos da garota: a capa era de couro preto e as páginas eram amareladas, mas não quebradiças. Não havia nada ali que fosse notório e quase arranquei a maldita coisa das mãos dela para descobrir a razão de sentir como estivesse com alguém sob minha pele. — Mantenha seus segredos e seu diário, Gina, mas você me parece alguém decente, que foi educada e ensinada o que é certo e errado. Me parece saber que estava fazendo algo ruim, então espero que se atenha na própria consciência.
Gina Weasley não me respondeu, apenas apertou os lábios e tinha nos olhos um medo conhecido: ela leu minha mente? Tive vontade de rir da situação: a única razão de não ter, de fato, cruzado a linha de sua consciência, era que odiava fazer isso com quem tinha o mínimo de respeito ou consideração. A menina Weasley era ainda mais nova do que eu e não tinha mentido: não duvidava que ela estava, mesmo, escrevendo no diário. Só não sabia a razão de tanta culpa e medo ao ser surpreendida, então me convenci de que estava escrevendo algumas coisas talvez recrimináveis ali. Talvez estivesse falando mal da Mal ou escrevendo um poema romântico para Potter – as possibilidades ajudaram a resistir ao meu impulso natural.
Mantenha um olho nela.
A voz de Lagrum veio forte em mim, mas sequer precisava. Eu manteria. Aquele diário (já deixado de lado e guardado dentro de uma gaveta) não me causou uma sensação nada boa, partindo do principio que um objeto inanimado não deveria transmitir sensação alguma. E o fato de Gina estar em contato com aquilo era pior ainda, mas não poderia simplesmente arrancar dela. Esperava que me ouvisse e deixasse aquela coisa bizarra de lado, que jogasse no lixo ou enterrasse bem longe da propriedade da família dela. O que fosse mais longe e definitivo possível.
Tomei banho e troquei de roupa no banheiro que ficava logo acima do quarto dos gêmeos, mas dessa vez não fui interceptada em momento algum. Ele também ficava bem na frente do quarto vazio de mais dois do clã: Gui e Carlinhos. Eu e Potter poderíamos ter sido colocados ali, mas que graça teria? Ele com certeza preferia passar dia e noite com o melhor amigo e Gina era uma companhia muito mais agradável quando não estava tentando mentir. Quando voltei para o quarto ela também já estava trocada e deitada na cama, e só percebi o quanto estava cansada quando encostei meu corpo no colchão ao lado dela.
— Dia cheio, não é? — Ela começou com a voz já preguiçosa. — O dia de comprar material é sempre um caos. Não sei como mamãe dá conta, de verdade.
— Sua mãe é uma mulher sem igual — respondi com verdadeiro afeto. — Ela me fez um suéter ano passado e me mandou chocolate, por pura bondade. Ela não tinha obrigação nenhuma, significou muito para mim.
— Eu me lembro disso — a pequena risada foi baixa, mas não menos verdadeira. — Ela ficou um bom tempo sem saber que cor usar, sabe, pelo fato de você ser da sonserina. Escolheu a cor prata, já que tinha feito o verde para o Harry. Você gostou mesmo?
— Espere o verão passar e não vai me ver com outra coisa, Weasley.
Ela riu uma última vez antes de ficar em silêncio e deixei que dormisse, contando o tempo pelas batidas de seu coração enquanto esperava toda a casa seguir seu exemplo. Finalmente, um pouco depois da meia noite, os passos de Molly e Arthur foram ouvidos subindo as escadas para quinto andar da casa. Ainda esperei quase uma hora depois, garantindo que tivessem pegado no sono e fiz um esforço para sair da cama.
Assim que coloquei meus pés no chão, Lagrum deslizou silenciosamente para fora da mochila. Seu alivio me fez esquecer qualquer cansaço e vontade birrenta de voltar para cama. Sorri para sua felicidade em não se conter e coloquei um pé na frente, agradecendo não pela primeira vez e com certeza não pela última meu amigo ter me ensinado o bela arte do silêncio ao abrir a porta e descer as escadas.
A terra do lado de fora da casa estava seca pelo verão, o que facilitaria um pouco a minha vida. Subi a barra da minha calça e ignorei a completa escuridão a minha volta. Os Weasley moravam no campo, não haviam postes de luz por aqui, ou vizinhos logo ao lado, o que era bem parecido com o orfanato. Fomos em silêncio em direção ao pomar, não me arriscava a falar qualquer ali, onde eu podia perfeitamente identificar a janela do quarto de Gina, no andar mais baixo da casa. Foi só quando atingimos a primeira linha de árvores que desgrudei os lábios.
— Eu venho te checar em um ou dois dias — comecei na cena familiar. Não demoraria muito e estaríamos de novo em algo assim, em uma mata muito mais fechada e perigosa do que o pomar dos Weasley. — Tome cuidado. Não tem nenhum vizinho próximo, mas não quer dizer que eles são completamente isolados, ou que ninguém mais tenha acesso a essa mata.
Quando vai aprender que eu não sou um filhote, Mal, e que sei me cuidar?
— Apenas se cuide, cobra arrogante — devolvi com uma pequena torção no canto da boca. Lagrum se enroscou em mim uma ultima vez, apertando um pouco mais do que o necessário, antes de sumir na escuridão das árvores, mais que confortável ao não ter que ficar compactado em uma mochila ou escondido debaixo de uma cama. Ele era inteligente, saberia não chamar atenção e aproveitar a sua liberdade. E enquanto ele o fazia na natureza, era do meu direito o fazer com os Weasley.
Aquelas últimas duas semanas de férias foram um páreo duro com o tempo que passei no Beco Diagonal. Eu aproveitei muito e me senti feliz e em paz com o velho Tom e a boa Daisy, passando o tempo com o Garrick e me divertindo com a companhia dos demais comerciantes. Mas o taberneiro estava certo: eu sentia falta de passar férias com amigos que não tivessem o triplo da minha idade. Mesmo no orfanato, sendo rodeada de garotas de mais ou menos minha faixa etária, nenhuma delas poderia se considerar minha amiga. Elas eram trouxas e sempre haveria um abismo entre eu e elas, segredos e mentiras demais sobre a mais simples das coisas. Entre os Weasley, com Harry, havia apenas uma barreira – com isso podia conviver.
Fred e Jorge, logo na manhã seguinte, cumpriram a promessa de me deixar a par sobre a situação crítica: Percy estava um saco. Mais do que era desde o dia que nasceu. Ele sempre havia sido reservado, quieto no quarto estudando..., mas agora estava demais. Trancado a maior parte do tempo, Molly tinha que tirá-lo de lá para ir comer as vezes. Ele trancava o quarto antes de sair, mas os gêmeos sabiam arrombar portas do jeito trouxa e me colocaram lá dentro para ver mais papeis de carta do que seria humanamente recomendado. E, sim, lá estava o brasão de monitor: brilhante ao ser ilustrado pela milésima vez naquela hora.
Foi divertido confundir o brasão para ofender o Weasley que deu errado, e ainda aprendi a como usar grampos em fechaduras. Durante toda minha vida, quando preciso, abri trancar com a simples vontade. Magia fraca e sem danos que agora alertariam o Ministério. Não sabia para onde iria ir depois do ano letivo terminar, mas era bom ter uma segunda alternativa para algo tão simples e necessário. Eles também me mostraram os protótipos de suas invenções: coisinhas geniais feitas para tornar a vida estudantil muito mais divertida, menos para quem os comesse por engano. Aliás, uma dessas pessoas era o coitado do Ronald. Fred não estava brincando quando disse que "tinham" ele. Pelo menos umas três vezes o garoto foi vitima das tramoias dos irmãos mais velhos, mas uma delas foi pura burrice ao comer doce do chão.
— Nós testaríamos o Percy — Jorge me contou, quase chateado. — Mas ele não sai da porcaria do quarto. Pelo menos nem tudo está perdido, ainda resta algumas opções na hora de comer.
E mesmo que Molly gritasse com eles, vi ao menos uma peça dos gêmeos sendo pregada em Percy na hora do almoço: ele arrotou por quase duas horas antes que a mãe achasse o contra feitiço em seus livros. Foi um sermão quase tão grande quanto ao que ela deu na ocasião do carro voador, mas assim como antes não foi algo que durou muito, já que dez minutos depois eles estávamos brincando de desgmonizar o jardim. Isso se tornou uma brincadeira e logo um pequeno campeonato. Os Weasley, que faziam a tarefa a vida inteira, voltaram a achar graça nela ao se deparar com o entusiasmo compartilhado entre Potter e eu. Jogar os seres pequenos e feios pelo ar e além das cercas era uma das principais coisas que fazíamos além de quadribol.
Gina disse a verdade: os irmãos não tinham costume de deixar que ela jogasse. Então chamei eles de covardes, o que acertou bem no centro do orgulho grifinório, e a pequena entrou no time. Foi hilário ouvi-los dizer coisas como "é melhor saber onde está se enfiando, Gina, não vamos pegar leve", minutos antes de quase serem derrubados da vassoura. Ginevra tinha um controle e confiança que poderiam emocionar até mesmo Madame Hooch: voava rápido, com as mãos firmes e sem medo da altura ou das colisões. As vassouras guardadas no armário dos Weasley não eram muitas e nem muito boas: as dos gêmeos e mais duas velhas, de Carlinhos e Gui. Percy nunca quis uma, o que não me surpreende. De qualquer jeito, tínhamos cinco vassouras, contando a do Harry, e sete jogadores, o que fazia com que dois sempre ficassem no chão observando, enquanto quatro faziam times de dois e tentavam marcar um único goleiro.
Rony, por sinal, era ótimo nessa posição. Tinha os membros compridos e um reflexo rápido, conseguia defender a maioria das bolas. Potter era um desastre: com seu porte pequeno e magro, a posição de apanhador era para ele. Mas como não tínhamos um pomo, ele até conseguia se virar como artilheiro: tinha um bom braço e um bom coração. Sua própria vassoura mal ficava entre suas pernas, ele a emprestava sem pensar duas vezes e até mesmo Gina jogou algumas partidas com ela.
No entanto, nem todos os dias eram passados debaixo do sol em várias partidas de quadribol ou atirando gnomos a metros de distância. Molly tinha tarefa para todos nós: varrer as folhas do quintal, aparar a grama, arrumar os quartos, pendurar a roupa, cuidar das galinhas. Os Weasley não tinham elfos domésticos, criaturas mágicas naturalmente serventes, então tinham que fazer por si mesmos todo o trabalho. Considerava mais do que justo abrir mão de um algumas horas de diversão para ajudar a matriarca da família e a dar alguns momentos de descanso e lazer, ainda mais considerando que seu marido as vezes passava mais de uma noite sem voltar para casa, preso no trabalho.
Era claro que ela se preocupava com o esforço de Arthur, mas ele era um homem feliz. Não importava o quão cansado chegasse ou até que tivesse que sair logo depois, nunca esquecia de beijar a mulher, dar uma olhada nos filhos e contar sobre seu dia. As vezes até mesmo trazia presentes, coisas bobas, mas de coração, como flores ou alguma coisa que a mulher disse que precisava. Eu gostava de conversar com ele e várias vezes me sentei ao seu lado, com Harry, na garagem que ele construiu para guardar o carro e suas muitas tralhas trouxas para explicar o melhor que conseguia cada uma.
— Então estão dizendo — ele mexeu em seus óculos, os olhos azuis brilhando de excitação. — Que essa tal de tecnocagia...
— Tecnologia, senhor Weasley — Harry corrigiu. — É uma coisa nova que vem evoluindo cada vez mais, mas promete fazer a vida de muita gente mais fácil com computadores, e também mais divertida, como os videogames e TV.
— A maior parte das coisas não fazem sentido no mundo bruxo — emendei com paciência. — Mas seria incrível se tivéssemos nossa própria emissora de TV e produtora de filmes, invés de apenas jornal e rádio.
— Ah, mas já cogitaram isso — Arthur contou com um sorriso. — Mas daria muito trabalho esconder todo um canal bruxo, entendem? Já existem trouxas aqui e ali que acabam nas nossas estações de rádio por acidente e escutam coisas como "os melhores caldeirões para cada fim", ficam muito confusos, pode apostar. Também seria ainda mais trabalhoso criar nossa própria rede de entretenimento, sem fazer parte da dos trouxas... teríamos que nos aprofundar em sua cultura o bastante para fazer o cabelo de algumas famílias ficarem em pé.
Weasley pai não ficava por muito tempo amargo, então o tom sombrio do final do discurso logo virou passado, mas não deixei de pensar no que disse. Certo, os bruxos tinham muito mais facilidade do que os trouxas em muita coisa. Porque pegar um carro ou até mesmo um avião se era possível ir e vir de qualquer lugar para qualquer lugar através do Pó de Flu, vassouras, chaves de portal ou até mesmo aparatando, coisas que os trouxas chamariam de teletransporte, ao desaparecer e aparecer em outro ponto? Mas os trouxas também tinham cinema e fliperama, e várias distrações e comodidades que bruxos desconheciam. Não faria mal a ninguém trazer um pouco da melhor parte da comunidade trouxa para a nossa sociedade.
Mais próximo do fim das férias, passei a maior parte do tempo no quarto de Ronald e Harry, os ajudando com os deveres de casa que deixaram para o último momento. Ao menos Potter tinha uma desculpa: seu material foi inteiramente trancado assim que pisou na casa dos tios ao regressar de Hogwarts, já Rony era apenas um preguiçoso de marca maior. Fazíamos os deveres depois do jantar, o que me prendia por umas duas horas e me dava uma excelente desculpa para ir visitar Lagrum dia sim, dia não.
No último dia de férias todos dormiram cedo depois do jantar digno de reis que Molly Weasley nos preparou. Tinha todos os pratos favoritos de Harry e todas minhas sobremesas, mais um pudim caramelado que fez até Percy Weasley brigar por um pedaço maior. Fred e Jorge encerraram as férias com uma queima de fogos Filibusteiro digna de sonho: encheram a cozinha de estrelas vermelhas e azuis que ricochetearam do teto para as paredes por quase duas horas. Quando terminou, como se ainda não estivéssemos sonolentos e pesados o bastante, recebemos todos a última caneca de chocolate quente e a fila do banheiro começou, mas foi rápida, e logo todos estavam na cama.
Foi mais difícil do que todas as outras noites juntas manter meus olhos fechados: tanta comida me deixou tonta e pesada. Mas não haveria outra chance. Gina já tinha me alertado que o caos reinava na Toca todo primeiro dia de aula, ela o viu por anos e agora estaria junto. Antes de dormir, a tranquilizei mais uma vez e prometi que, se sentisse medo, poderia me ver na mesa da Sonserina.
— Ainda não acredito que é de lá, Mal...
— Eu não seria de outro lugar, Gina.
Quando ela adormeceu, sai da cama e peguei minha mochila encantada. Fiz o mesmo caminho que já estava acostumada, desviando dos objetos e entulhos mágicos pelo caminho até o pomar onde Lagrum já me esperava. A liberdade fizera bem para ele: seu mal humor não estava nada além do normal, sem estar sempre meio faminto e preso. Sorri para ele quando cheguei na orla da mata e coloquei a mochila aberta no chão.
— Pronto para mais um teste de paciência?
Tanto quanto você, filhote, ao me carregar por aí por um dia inteiro.
— Os sacrifícios que faço por você... — murmurei observando-o deslizar para dentro. — Logo não vai ter que ficar sendo jogado de um lado para o outro, eu prometo.
Espero que saiba o que uma promessa significa, Malorie, mesmo que não tenha sido eu que a pedi. Por falar em promessas não requisitadas, a menina ainda escreve no caderno?
— Não que eu saiba — franzi as sobrancelhas ao colocar a mochila nos ombros, apertando a boca. — Deixou a coisa de lado desde a primeira noite. Acha que vai levar para Hogwarts?
Você não?
Não respondi – tínhamos chegado na casa. Quando deixei minha mochila aos pés da cama e me deitei de novo, perdi alguns segundos olhando para o rosto tranquilo da pequena Weasley. Ela não voltou a escrever no caderno, eu me intrometi em sua cabeça o bastante para isso, mas também sabia o quanto ela estava tentada a fazer. Era nova demais e não resistiria a ideia de passar meses sem a coisa ao seu lado, o que era ainda mais perigoso. O caderno tinha uma força atrativa e não gostei da ideia de Gina Weasley brincando com aquilo.
Você sai do orfanato, pensei com amargura, e o orfanato não sai de você.
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