Corona II
7 Presságio de Sorte
Notas iniciais
A noite não foi longa o bastante que conseguisse me preparar para o que é a manhã do dia primeiro de setembro n'A Toca. Gina, destemida e corajosa menina, tentou me avisar. Mas nenhum aviso era capaz de conter o caos: principalmente um guiado por uma mal-humorada Molly Weasley e orquestrado por sete estudantes fazendo as últimas preparações. Durante toda a manhã, que começou ao nascer do sol. não houve um intervalo maior do que dez segundos entre os barulhos de passos nas escadas, com malões sendo levados para fora e objetos sendo catados de última hora. Nem mesmo eu, que já tinha tudo em ordem desde a noite anterior, me salvei de ser contaminada pela bagunça. A simples tarefa de ficar fora do caminho de quem estava atrasado e ansioso já era estressante e o café da manhã foi mais uma batalha entre gritos e correria do que algo a se degustar.
Finalmente depois de Arthur ter quase quebrado o pescoço ao tropeçar em uma galinha solta e Molly ter acabado de achar todas as meias e penas espalhadas, e todos nós terminados de colocar as roupas (recebi meu primeiro olhar mal-humorado da senhora Weasley ao me trancar no banheiro para poder fazer isso), observei ao lado de Harry como seria resolvido o pequeno problema da falta de espaço: nove pessoas, sete malões, uma mochila, duas corujas e um rato em um carro modesto azul claro.
— Nem uma palavra a Molly — o homem murmurou para nós enquanto o ajudávamos a colocar tudo dentro do porta-malas magicamente expandido. Isso me fez sorrir ao ajeitar minha mochila nas costas, meu amigo bem seguro ali dentro, mais tranquilo (e ele menos propenso a morder canelas) ao saber que não seria esmagado entre penas e pés no chão de um carro superlotado.
Quando entramos todos no carro e estávamos prontos para ir tive que segurar minha língua para não dizer nada sobre como Arthur abusava do fato da mulher ser uma bruxa que, assim como a maioria, não entendia nada do mundo trouxa, nem a mais básica das coisas como o fato do banco do carona não ser do tamanho de bancos de jardim. Ela se sentou nele comigo e Gina, enquanto os cinco meninos, duas corujas e um rato ficavam confortáveis no banco de trás.
— Os trouxas sabem mais do que nós queremos reconhecer, não é? — Suas sobrancelhas para cima demonstravam sua agradável surpresa com o fato. — Quero dizer, olhando de fora, a pessoa nunca imaginaria como o carro é espaço, não é?
Meus olhos encontraram os de Potter e mordi a parte de dentro de minha bochecha para conseguir engolir minha risada. O garoto não teve tanta sorte – teve que virar o rosto para a janela, escondendo a boca torcida da matriarca da família ao observar a casa se distanciando com olhos saudosos... o que foi um grande desperdício de uma despedida interna bonita. Mesmo com toda correria e preparação, voltamos na casa três vezes. A primeira mal tínhamos ligado o carro e Jorge disse que esqueceu a caixa de fogos Filibusteiro. A segunda, cinco minutos depois, foi a vez de Fred ao dizer que esquecera a vassoura. Ele jogava no time da Grifinória, não podia ficar sem vassoura, e com isso seu pai voltou para o quintal, mesmo com a boca travada da esposa. Então, na terceira e última vez, foi Gina que soltou um grito quando praticamente já estávamos na rodovia.
— Meu diário! Esqueci meu diário, papai, por favor!
Molly quase estava pisando no acelerador ela mesma, os meninos não xingaram e protestaram, mas Arthur negaria algo a sua princesa? Sob os olhares afiados e mal humor palpável dentro do carro, o homem fez o caminho de volta e esperou a garota correr para dentro de casa e voltar logo depois com o maldito caderno preto na mão. Gina se sentou de novo ao meu lado e muito sabiamente não olhou em minha direção: minha cara não estava boa para ela e nem para seu diário. Meu monstro olhava na direção daquela coisa, se inclinando para ele e Lagrum despertou do sono forçado, tenso e irritado como eu.
Não posso deixar para trás, se mamãe ver...
Os pensamentos superficiais da menina apenas fizeram minha cabeça doer ainda mais, então me afastei deles, bloqueando qualquer coisa a minha volta. Ocupei minha mente com a ideia de chegar tarde demais para pegar o trem e com a pequena briga entre Molly e Arthur, que queria nos tornar invisíveis para chegarmos na estação em poucos minutos. Mesmo mais que atrasados, sua mulher negou a ideia: era muito arriscado em plena luz do dia e o homem não discutiu mais, mesmo que isso tenha nos custado chegar na estação faltando apenas quinze minutos para o trem partir.
Arthur Weasley disparou para o outro lado da rua para pegar os carrinhos enquanto todos desciam do carro em um pulo, puxando suas respectivas bagagens de dentro do porta-malas e as enfiando nos carrinhos. Disparamos pela plataforma depois de termos perdido quase dez minutos inteiros e paramos em frente a parede de pedra das plataformas nove dez, que escondia a entrada para a estação bruxa. Sequer tive tempo de ficar animada e alegre em estar ali de novo, tão perto de voltar para casa – tínhamos que atravessar em cinco minutos e não podíamos ser todos de uma vez, ou os trouxas iriam desconfiar.
— Percy primeiro — a sra. Weasley decidiu depois de olhar o relógio da estação, nervosa. O mais velho dos Weasley foi com passos firmes e rápidos para a parede, a atravessando sem problemas e provavelmente correndo para a reunião dos monitores que não parou de falar que se atrasaria. O sr. Weasley atravessou logo depois para ajudar com a bagagem do outro lado, e então Fred e Jorge. — Mal, pode ir, estarei logo atrás com Gina. E então vocês dois — ela olhou para Rony e Harry, mas não fiquei para ver se eles tinham feito algo para mostrar que concordavam em serem os últimos, tinha menos de três minutos. Disparei pela plataforma e deixei o mundo trouxa completamente para trás.
Tive menos que dez segundos para registrar as coisas a minha volta: a grande maria fumaça preta e vermelha, a plataforma ainda apinhada de gente (nessa altura, a maioria eram pais que queriam ficar até o último momento), e o maquinista gritando que já iriamos partir. Não me importei quando Arthur tirou o malão da minha mão e o enfiou dentro do vagão bagageiro, e enquanto Gina e Molly atravessavam, apertei as mãos dele com um sorriso rápido.
— Obrigada por ter me deixado ficar na sua casa, sr. Weasley, foi incrível.
— Volte sempre que quiser, Mal — e então já havia se virado, cuidando da bagagem de Gina. Olhei então para Molly, pronta para segurar suas mãos também, mas ela me pegou em um abraço rápido, porém firme. A mulher estava mais sentimental do que o costume desde que me viu sem luvas e não neguei a necessidade dela.
— Você é bem-vinda na família, querida, tenha um bom ano — me apertou uma última vez antes de me deixar ir. Sorri para ela, soltando palavras de agradecimento de novo antes de pular dentro do trem com Gina ao meu lado. O fato de já ter embarcado tranquilizou meu coração, mas ainda tinha bastante adrenalina nas minhas veias.
— Quer que eu te ajude a achar seus irmãos? Eles devem ter achado a Hermione — comecei ao me virar para a garota, mas ela balançou a cabeça, decidida.
— Não posso depender deles para ter amigos em Hogwarts, nenhum é do meu ano e todos já tem suas próprias amizades. Além do mais, muitas amizades começam no trem, então vou procurar alguma cabine — de repente, seu sorriso vacilou e ela se tornou quase tão tímida quanto quando via Potter. — Você vai estar na Seleção, não é?
— Me procure na mesa dos cara-amarrada, Gina, e seus irmãos na dos barulhentos — sorri para ela. — Vai tudo ficar bem, você vai ver. É quase um desperdício chamarem seu nome, é claro para onde vai.
— Obrigada, Mal — e, assim como a mãe, passou os braços a minha volta. — Até mais!
Observei a menina adentrar o trem e balancei a cabeça, silenciosamente a desejando sorte. Ela tinha razão, muita coisa podia acontecer na primeira viagem de ida para Hogwarts. No ano anterior, eu havia conhecido Harry e Rony e quebrado o nariz de Draco Malfoy na parede do trem. A lembrança me fez alargar ainda mais o sorriso enquanto começava a andar, minha mente atenta dessa vez para reconhecer as vozes familiares dos Weasley.
— Vamos, não sejam tão obtusos...
— Você não pode estar falando sério que acha que aquele cara vai ensinar alguma coisa para gente, Hermione!
— Dumbledore não teria...
— Dumbledore ainda vai acordar com o rosto de um bebê por ter escolhido alguém como Lockhart — entrei na conversa ao abrir a cabine. Mione, Fred e Jorge estavam ali, sentados confortáveis no banco. — Não me diga que caiu no sorriso dele, Hermione, achei que você era mais inteligente que isso — o rosto da menina ficou vermelho enquanto os gêmeos se dobravam de rir e eu me ao lado de minha amiga. Quando pararam de rir, continuei. — Sua irmãzinha está buscando a própria independência, está nesse momento procurando novos amigos no trem.
— Ah, eles crescem tão rápido — Jorge comoveu a voz. — Nossa garotinha já está mostrando as garras.
— Contanto que sejam garras e não presas — Fred emendou. — Ela pode mostrar o que quiser?
— E você tem algum problema particular com presas, Weasley? — Arqueei uma sobrancelha para ele, que abriu ainda mais o sorriso meio torto para mim.
— Nenhum, Cobrinha, é só que já temos nossa cota cheia.
— Mal, onde está o Rony? E Harry? — Mione chamou minha atenção outra vez e franzi as sobrancelhas.
— É uma ótima pergunta — comecei devagar, odiando o fato de não ter olhado para trás. — Iriam atravessar logo depois de mim e de Gina, mas não os vi entrar no trem.
— O trem está andando — Hermione tinha a voz tensa agora, olhando pela janela, e senti meus ombros seguindo o exemplo. — Se eles não estão aqui, então não embarcaram?
— Chegamos muito atrasados — Jorge começou. Tinha os olhos ansiosos, mas ainda mantinha um pequeno sorriso. — Mamãe e papai vão dar um jeito de os levar até a escola.
— Sim — minha amiga se amuou em um canto, tensa. — Sim, eles devem escrever para Dumbledore ou algo assim, os dois irão no máximo perder o banquete de boas-vindas.
O assunto foi encerrado pela força de vontade: ninguém queria admitir que algo tinha dado realmente errado, não havia qualquer coisa que pudéssemos fazer. O Expresso de Hogwarts já estava em movimento e agora cabia a Molly e Arthur resolverem seja qual for a situação. Mas mesmo enquanto as conversas continuavam, depois que Lino Jordan apareceu para dar um "olá" e levar os gêmeos para sua própria turma, e Hermione me contou sobre as férias dela e me fez contar como foi com os Weasley, eu conseguia sentir através dos muros à minha volta a tensão e preocupação em saber onde os meninos estavam.
— Não acredito que vocês não me escreveram — minha amiga fez esforço para manter a manter a mente ocupada em outras coisas, ao menos uma parte dela. — Eu poderia ter pedido aos meus pais para visitar, sabe?
— Vamos, Mione, não seja ciumenta — sorri um pouco. — Tenho certeza que vão ter outras oportunidades, eu mesma não tinha pretensão de parar por lá.
— E tinha pretensão de parar em algum lugar? — Uma sobrancelha sua se levantou, o rosto sério. — O que estava fazendo no Beco Diagonal durante as férias, Mal?
— Já disse — me esquivei do assunto, empilhando outra mentira em nossa relação. — Fui liberada do orfanato, pode me culpar por querer sair?
Não era totalmente mentira, afinal. Com a morte da abadessa, eu não tinha mais motivos para ficar naquele lugar. Considerava o tumulo recém feito como um claro sinal de que meu tempo ali havia acabado. Também não havia razão de preocupar a Srta. Responsável com minha situação incerta, tampouco necessidade de me subjugar aos seus sermões e olhares críticos. A distração caiu bem como achei que iria e enquanto seus olhos desciam para minhas mãos cobertas pelas luvas de couro, soube que não seria mais condenada por não estar onde deveria.
A viagem tomou rumos de conversas mais suaves, como o dever de casa e as expectativas para o ano escolar. Depois do que disse quando cheguei, Mione tomou cuidado para não deixar sua paixonite ficar muito clara ao chegarmos em Defesa Contras as Artes das Trevas, mas o estrago já estava feito e não tive piedade, principalmente ao fisgar um dos livros de sua bolsa de mão e ver como tinha, também, desenhado em Gilderoy – ao contrário de mim, porém, havia feito flechas de cupido e corações.
— Você é ruim, Mal — Hermione se defendeu, tomando o livro das minhas mãos com o rosto quase tão vermelho quanto um Weasley. — Não pode negar que ele é bonito.
— Não nego, Mione, se você não negar que o Sr. Dentes Retos é um exibido nojento — devolvi, sentada no banco de frente para ela, as pernas para cima. — Você viu como ele puxou o Harry para a foto? "Daremos a primeira página", otário.
— Como você fica sabendo dessas coisas? — Ela murmurou contrariada. — Você não estava lá.
— Harry me contou — deixei que um sorriso preguiçoso abrisse minha boca. — Ele tem excelente memória.
Hermione abriu a boca, provavelmente para rebater que Potter não era nada brilhante na arte de se lembrar das coisas: ele era um aluno mediano na maioria das matérias, se destacando apenas em quadribol e, talvez se algum dia aparecesse um professor decente, em Defesa Contra Artes das Trevas. O menino tinha coragem e pensamento rápido, poderia se sair bem em um duelo, assim como provou se sair bem ao salvar a própria pele no final do ano interior. Minha amiga, porém, foi interrompida quando a porta se abriu e um rosto conhecido apareceu.
— Oi, gente — era Neville Longbottom, ainda rechonchudo e com bochechas rosadas. Não mudou quase nada desde o final do ano letivo: sua franja talvez estivesse mais curta, mas ainda tinha os dentes grandes e separados, orelhas de abano e todo um ar de quem iria cair apenas por ter levantado. Mas estava sorrindo para nós.
— Não me diga que é Trevo, de novo — cutuquei com um canto dos lábios levantado, assim como uma sobrancelha. O rosto do menino esquentou ainda mais, mas balançou a cabeça.
— Não, não, desta vez não — então parou, a timidez cruzando e voltando a linha da insegurança. — Posso me sentar com vocês? É que... bom...
— Você é nosso amigo, Neville, não tem que se explicar — Mione cortou ao dar espaço para o garoto se sentar ao seu lado antes mesmo que eu pudesse me mexer no banco. Encostei a cabeça na janela no trem e alarguei o sorriso para ele.
— Não tem, mas estou curiosa, o que foi?
— Não é nada, Mal — o tom de sua voz me fez olhá-lo com mais atenção. Me parecia bem, atrapalhado como foi toda vida, mas deixei minha proteção cair e senti sua vergonha. — De verdade, eu só...
— Você é um péssimo mentiroso, Longbottom — cortei. — Desembucha.
— Estava voltando para a cabine que dividia com Dino e Simas quando vi Draco, Crabbe e Goyle... não quis passar por eles para ser humilhado antes mesmo que as aulas começassem — soltou em um folego só, o rosto avermelhando ainda mais. — Não quis lhes dar a chance...
— Aquele imbecil é incapaz de dar um passo sem suas sombras grotescas atrás, não é? — Reconheci o veneno na minha voz, Lagrum também. Pior do que ele, o monstro dentro de mim se mexeu, antecipando o momento. — Mione é excelente companhia, então fique aqui o resto da viagem se quiser, mas eu tenho que fazer valer a minha parte se outros insistem em fazerem a deles.
— Mal! Mal, não! — Hermione se levantou em um pulo, mas não foi rápida o bastante para se colocar no meu caminho. Eu já estava do lado de fora e caminhando para o fundo do trem quando ela e Neville começaram a me seguir. — Mal, para, vai se meter em encrenca...
— Por estourar a bola do Malfoy por um momento? Deviam me dar uma medalha, Mione.
— Não precisa fazer isso, Mal, eu que preciso criar coragem...
— Isso é um fato, Neville, mas eu quero fazer — cortei a frase no meio. Não que eu achasse o garoto um covarde. Ele estava na casa dos leões, afinal. Além disso, tinha certeza que o maior problema dele era sua insegurança que vinha do nervosismo, que vinha da pressão que avó colocava sobre ele para ser "tão bom quanto seu pai". Esperava que um dia Longbottom encontrasse sua própria força, longe da sombra dos pais, mas esse dia ainda não tinha chegado.
De onde eu estava, mal dava para ver Malfoy. Estava dobrado sobre o carrinho de doces, mas a mulher que cuidava dele não estava ali. Vincent e Gregory estavam às suas costas, ainda duas montanhas feias e gordas. Nenhum deles estava olhando para nossa direção, mas Draco levantou a cabeça e endireitou a postura para olhar para trás, para mim, entre o pequeno espaço aberto deixado por seus comparsas.
— As férias não serviram para limpar sua cabeça e fazer repensar suas companhias, Lewis?
Tinha bastante consciência de Hermione e Neville atrás de mim, e flexionei os dedos ao me focar na figura pálida e viciada em doces. Me lembrei de sua foto, uma das muitas penduradas em diferentes paredes durante as férias, um dos muitos rostos que me ajudaram a me tranquilizar, que acalmaram o monstro dentro de mim enquanto eu sufocava no mundo trouxa. Ninguém estava olhando para ele quando tirei, nem mesmo eu, até onde o garoto sabia, e ficava tão melhor assim.
— Não vejo razão de não começar agora, Malfoy, já que o tempo também não te ajudou a ser menos boçal — cantei para ele, observando a dureza de aço em seus olhos prateados. — Fiquei sabendo que estava zelando pelo corredor, esperando cruzar com alguém?
— Mal, deixa disso, não vale a pena — Mione segurou na manga da minha blusa, me puxando para trás. Não me mexi, vendo como os olhos do menino se desviaram para ela. Eu precisava de apenas um centímetro de expressão, de um olhar, de um sussurro..., mas nada. A tendência natural de oclumência de Draco não deixou nada escapar para mim, como a vergonha de Neville, e seu rosto era treinado o bastante... até agora. — Vamos voltar para a cabine.
— Está sentada com eles? — O chiado saiu dos dentes fechados, me fazendo soltar de minha amiga e me mover em sua direção. Os gigantes fecharam a guarda, mas sequer tive a chance de vê-los rolar pelo chão do trem: uma cabine um pouco atrás de nós se abriu de uma vez e lá estava alguém que não me causou nenhuma vontade primaria de ver o sangue.
— Pensei ter ouvido sua bela voz, meu amor — Blásio abriu seu sorriso para mim. Estava um pouco mais alto, mas também não muito mudado. Veio para o corredor e olhou em volta, para Crabbe e Goyle em guarda e os leões atrás de mim. — Draco, você não consegue comprar uns chocolates sem fazer disso um acontecimento? Olá, Granger, como vai? Longbottom.
Blás era educado e decente demais para não cumprimentar meus dois companheiros, não importava as crenças dos outros a sua volta. Neville não respondeu, mais de surpresa do que de ignorância, e Hermione lhe deu um sorriso cordial ao responder que estava bem, agradecendo logo depois. Os dois só haviam se falado uma vez, no Natal do ano passado, quando minha amiga havia voltado entre meus colegas de casa, de Hogsmeade para Hogwarts, e todos se trataram com bastante educação, para surpresa da leoa e minha satisfação. Esses garotos mimados tinham certa capacidade para serem classificados como seres humanos, afinal.
— É sempre um prazer te ver, Blás, mesmo que em circunstâncias ruins.
— Mas não seja por isso, minha amada — o garoto se moveu com tanta leveza pelo corredor, passando do meu lado e enrolando uma mexa do meu cabelo em seu dedo longo, que fez com que meus próprios ombros descessem um pouco. — Não há razão para brigar antes mesmo do ano começar, amanhã pode ser. Hoje, porém, Draco pode terminar de pegar os chocolates e irmos todos para a cabine. As garotas querem te ver, Daphne ficou te esperando na plataforma.
— Você é um amigo bom demais para quem não merece, Blásio — e ele sabia para quem eu estava falando isso, fiz questão de encarar seus olhos de aço. — Mas já estou com companhia, diga que encontro vocês em Hogwarts, certo?
— Como desejar — o sorriso de Zabini era verdadeiro, chegava aos olhos escuros. Pegou minha mão e beijou o couro da minha luva antes de fazer o mesmo com a pele macia de Hermione e olhar para mim outra vez. — Tenha uma boa viagem, querida noiva.
Deixei Malfoy e seus capangas para trás, mesmo que isso significasse deixar também Blásio e Daphy, até mesmo Pansy. Eu teria muito mais chances de aceitar o convite do garoto se não tivesse deixado Lagrum na nossa cabine e se Potter e Weasley tivessem embarcado – onde eles estavam? Não deixaria Granger sozinha com seus pensamentos naquela situação, minha pobre amiga iria apenas ficar cada vez mais ansiosa e preocupada. Então voltamos as duas para onde estávamos, deixando Neville com Dino e Simas, e me acomodei outra vez no banco, ciente dos olhos castanhos da garota em mim.
— Podia ter ido com eles, se quisesse — Hermione começou a dizer. — Eu sei que você tem outros amigos, está tudo bem em passar o resto da viagem lá.
— No momento, Mione, a única amiga que quero perto de mim está prestes a puxar minha orelha por ter quase arrebentado a cara de Draco Malfoy no trem, outra vez — cortei o assunto do jeito que sabia que ela não resistiria, e acertei. Ouvi, sem me importar nada, em como era imprudência puxar briga dessa forma. Pobre Mione que ainda tentava, eu era a imprudência em pessoa. Era uma das razões de Potter e eu nos darmos bem.
Quando o maquinista nos avisou para trocar de roupa, pela segunda vez minha amiga me deu licença da cabine enquanto eu vestia minhas vestes de bruxo. No ano anterior tive a prudência de não comprar a roupa exatamente do meu tamanho, pois eu havia crescido um pouco e isso teria feito ficar ridículo, ao invés da medida certa. No ano que vem eu teria que gastar com vestes, mas decidi não pensar nisso como decidi não pensar em tudo que envolvia depois do ano letivo terminar, ao menos não ainda.
Desci do trem com Hermione depois de garantir que Lagrum estava calmo o bastante para não morder quem quer que o buscasse para colocar no dormitório. Hagrid estava lá assim como no ano interior, segurando uma grande lanterna e chamando os primeiranistas. Sorri para sua figura enorme, meu coração se aquecendo ao ver outro pedaço importante do mundo bruxo, da minha casa. Ele me viu também junto à Hermione, mas não teve tempo de fazer nada além de um cumprimento, a confusão clara em seu rosto: onde estavam os outros dois, onde estava o Harry? Mordi o interior da bochecha ao ver Mione olhar em volta na confusão da plataforma, tinha alguma esperança que talvez eles estivessem ali.
— Vamos — toquei seu braço pela ponta dos dedos. — Eles podem já estar em Hogwarts.
Os estudantes do segundo ano seguiram os estudantes mais velhos pelo caminho contrario do que Hagrid tomava para o lago. Na verdade, estávamos indo em direção a rota a pé entre o vilarejo e a escola e imaginei se iriamos fazer todo o caminho a pé, se apenas os novatos tinham alguma mordomia, quando enxerguei as carruagens. Não era surpresa não ter visto logo de uma vez: eram pretas contra a noite, todas enfileiradas e amarradas a quatro cavalos também negros... até chegar mais perto.
— Salazar — deixei escapar ao ficar realmente perto dos animais. No ano anterior, tive a sorte de ver um unicórnio. Já estava morto e mesmo assim era a coisa mais linda que já havia visto no mundo. Ainda me lembrava da sua crina prateada, do seu pelo mais branco do que a neve e dos cascos de ouro. Essas criaturas que puxavam as carruagens pareciam terem sido criadas de proposito para serem o oposto: eram cavalos negros esqueléticos, com o rosto mais parecido com o de um dragão do que de um equino. Os olhos eram duas bolas brancas e vazias, com enormes asas de morcego, agora fechadas. — O que eles são?
— O que? — Hermione franziu as sobrancelhas ao meu lado, aguardando uma carruagem chegar até nós. Observei os animais se aproximando, dóceis e tranquilos, em um troque calmo até nós. — Mal, o que está olhando?
Não respondi. Por algum motivo, era claro que minha amiga não via o grande animal bem ao seu lado. Ela o ignorou, a mente mais preocupada com Harry e Rony do que com o que quer eu estivesse vendo ou não. Não a culpei. Subimos dentro da carruagem depois que toquei no focinho de um deles em uma caricia suave, sentindo a pele e os ossos por baixo. Era real, não apenas meus olhos, e sim meu tato haviam o visto. Um sorriso muito pequeno surgiu nos meus lábios – não eram as criaturas mais bonitas do mundo, mas tinham um temperamento doce.
O caminho até o castelo foi diferente: a carruagem subiu em fila atrás das outras, quase nunca chacoalhando. Em certo momento, depois de uma curva, foi possível enxergar os grandes portões de Hogwarts: uma coisa colossal que tinha muito mais proteção do que o metal de que era feito. O brasão da escola estava ali, dividido ao meio graças a abertura das portas: Grifinória e Lufa-Lufa de um lado, Sonserina e Corvinal de outro. Teria sido assim? Talvez Salazar e Rowena fossem mais próximos, talvez tivessem mais afinidades, apesar de fontes afirmarem que o melhor amigo de Slytherin era Gryffindor.
Mantive meus olhos no caminho, observando até enxergar as luzes do castelo e então olhei para Hermione. Uma amizade entre leões e cobras havia sido o que construiu essa escola, ao menos uma parte. Era mais que natural que isso fosse estimulado, invés de fragmentarem a casa de tantos em quatro partes distintas. Sendo assim, esperava não ter que aguentar menos duas partes faltando do nosso todo se Ronald e Harry não estivessem nos esperando no castelo... se sobrasse algo de mim para lidar com isso depois de ter feito Daphne Greengrass esperar por mim e recusado sua companhia.
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