Corona II
8 Retorno ao Ninho
Notas iniciais
Me separei de Granger na entrada do Salão Principal, quando ela foi para a mesa da Grifinória e eu para a da Sonserina. Ainda procurei, e sei que ela também, a testa rachada de Potter e o nariz cumprido de Ronald através da mesa, mas não estavam ali. Senti meu estomago afundar em uma não bem-vinda sensação de ansiedade acompanhada de impotência. Onde eles estavam? Flexionei os dedos das mãos e deixei que o ar chegasse aos meus pulmões e ao meu cérebro. Eles estavam bem, tinham de estar. Noticias ruins nunca demoram para chegar.
Uma vez forçado a ir para o fundo da minha consciência, pude aproveitar emoções muito mais acolhedoras. Sentia meus próprios ossos tremerem, meu sangue correr e minha pele formigar. Eu estava em casa. Debaixo do teto encantando do Salão Principal, olhando para cima e vendo o infinito em uma noite clara de verão: estrelas e mais estrelas nos davam as boas-vindas. O salão também estava arrumado para a festa: todas as quatro mesas estavam decoradas com suas respectivas cores, toalhas de mesa das cores verde, amarela, azul e vermelha estavam estendidas por baixo de pratos, taças, talheres e travessas de ouro vazias. Elas se enxeriam apenas depois, quando os primeiranistas fossem selecionados e Dumbledore fizesse o discurso de inicio do ano.
Imaginei Gina Weasley na mesma sala meio apertada onde estive no ano anterior, rodeada de mais novatos. A irmã de Daphne estaria lá, me lembrei, Astoria – a menina de cabelos castanhos que vi brevemente na plataforma no fim da viagem de volta para o mundo trouxa. Será que elas se impressionariam? Será que já estavam impressionadas? Não era a primeira vez que eu enxergava os estandartes por cima de cada mesa – a solene águia de Corvinal, em azul e prata. O poderoso leão da Grifinória, em vermelho e dourado. O amigável texugo da Lufa-Lufa, em preto e amarelo. E, por fim, a nobre serpente da Sonserina, reluzindo em verde e prata –, todos eles orgulhosos, exibindo-se, e o faziam mesmo: o leão rugia, a águia batia as asas, a serpente se enroscava e o texugo ia para um lado e outro, o felizardo tinha mais espaço que os outros.
No fundo, a mesa dos professores estava cheia, todos em suas melhores roupas para a abertura do ano letivo. Capitão Gancho estava lá, em suas habituais roupas escuras e o rosto contraído em amargura. Seu olhar cruzou com o meu quando entrei e posso ter, talvez, visto alguma saudação ali, mas sumiu rápido demais e ele já tinha o rosto virado, ouvindo o que Pomona Sprout estava falando. A mulher me parecia a mesma: baixa e rechonchuda, mais limpa do que a veríamos durante todo o ano, tinha um sorriso tão fácil que não parecia saber com quem falava. Alvo Dumbledore, Filius Flitwick, Rolanda Hooch, Papoula Pomfrey, Irma Pince, Charity Burbage, até mesmo Hagrid. Sim, estavam todos ali e mais alguns. Professores de aulas que ainda iria ter – mal esperava para ver a grade desse ano. Atrás de todos eles, destoando da separação no salão, o símbolo de Hogwarts reinava sozinho e unido: quatro casas, quatro pilares, fazendo a maior escola de magia do mundo.
Me sentei na mesa entre Daphne e Pansy, que abriram espaço para mim assim que me aproximei. Para surpresa de ninguém, logo a frente tínhamos Zabini, Draco e Nott, além de Crabbe e Goyle. O primeiro ataque, e isso foi algo, não veio de Malfoy, apesar das espadas afiadas de seus olhos. Veio bem ao meu lado, e eu devia ter esperado por isso.
— Bom — Parkinson começou. Eu havia me esquecido como sua voz tinha uma cadencia aguda e virei meu rosto em sua direção com tranquilidade. — Que bom que agora nos deu a honra de se sentar conosco. Mas se estiver sendo muito difícil para você, devem conseguir abrir um espacinho para você com seus amiguinhos.
— Ah, Pam, eu sempre soube que me amava — cantei para ela, ignorando seus olhos estreitos e quase selvagens. — Mas não precisa de tanto ciúme. Tudo tem seu tempo e estou aqui agora, não estou?
— Você devia estar aqui o tempo todo, Mal — Theodore começou, as sobrancelhas franzidas antes que engolisse em seco pelo meu olhar. Quem ele era para me chamar assim? — Malorie, quero dizer, você é uma de nós. Não devia andar com todos aqueles desajustados.
— Perdão, Nott, desajustados? — Minha língua se afiou enquanto meus dedos corriam pela mesa, muito perto da faca de ouro destinada para mim. — Eu não consigo entender o seu conceito disso, então peço, por gentileza, que o explique para a órfã sem uma moeda no bolso e uma longa ficha de atitudes agressivas e violentas o que seria uma pessoa desajustada.
O garoto não respondeu, engoliu sua língua e qualquer coisa que quisesse pingar dela. Observei seus olhos verdes indo até minhas mãos – ele sabia o que estavam ali. Todos as tinham visto com frequência até o Natal, quando passei as cobrir por cansar da pena e da curiosidade. Deixei que encarasse, que tentasse se lembrar dos desenhos horríveis, das linhas fundas e altas, sobrepostas e irregulares que tomavam minhas mãos algo destroçado. O veneno de Lagrum as curou e muito mais, mas não completamente – ficaria com minha própria pele de cobra pelo resto da vida.
— Ficamos tanto tempo assim, no ano anterior? — A voz de Daphne subsistiu com rapidez o peso da lembrança de quem eu era: mutilada, de origem desconhecida, selvagem. Virei o rosto para ela, vendo a placidez de seu rosto treinado de dama, o nariz pequeno e os cílios claros. Quando virou o rosto para mim, pude enxergar seus olhos verde-água pela primeira vez em meses frente a frente, tinha me esquecido como eram claros.
— Não vejo McGonagall — Zabini respondeu ao virar o pescoço para a mesa dos professores. — Deve ter ido buscar os primeiranistas. Não deve demorar muito agora.
— Sua irmã está aqui esse ano — comecei com uma voz muito diferente da que usei com Nott, mais suave. — Está nervosa?
— Ela ou eu? — Daphy me deu um sorriso meio tenso antes de puxar o ar para os pulmões. — Vai dar tudo certo, eu só queria poder estar com ela para tirar qualquer nervosismo.
— Dela ou seu, Greengrass? — Arqueei uma sobrancelha com deboche na minha voz. Minha amiga riu e tocou o cabelo loiro claro, muito bem arrumado em uma trança por cima do ombro. Talvez, mais cedo, ela tivesse algum discurso pronto por eu ter preferido os leões no trem. Não mais agora, não depois de Theodore. — Se ela é como a irmã, vai se sair bem... contanto que tenha um espelho para se olhar uma ultima vez.
— Ah, cale a boca!
Na risada de sorriso fácil que ela soltou, conclui que minha desfeita havia sido perdoada. Foi então que em algum lugar no canto da minha consciência senti a presença que estava procurando desde o trem, mesmo sem saber. Olhei em volta, estiquei o pescoço e finalmente avistei a cabeça de Harry Potter atrás de uma janela. Estava mais descabelado do que seu normal, suado e meio maltratado, mas vivo e em Hogwarts. A cabeça de Ronald estava com ele, também, nas mesmas condições que o amigo.
Ouvi quando as grandes portas se abriram e os alunos novatos entraram em grupo atrás de Minerva, mas olhei apenas o bastante para reconhecer o cabelo vermelho vivo de todos os Weasley na pequena Gina. A atenção de Potter também foi desviada do majestoso salão e da cerimonia, conseguiu me olhar nos olhos antes que eu tivesse que me ajeitar no banco para não atrair muita atenção.
Pela barba de Salazar, Cicatriz, onde vocês estavam?!
Uma sessão uma rápida de imagens me atingiu como resposta: a passagem para a plataforma se fechando e a ideia genial de Rony de roubarem o carro voador do pai. A viagem longa e quente, a fantasia da entrada triunfal amassada como a lataria do Ford Argila quando bateram contra a árvore estranha que se movia sozinha nos terrenos do castelo. Isso explicaria a aparência de quem havia acabado de levar uma surra dos dois: tinham apanhado de uma árvore. Meu sorriso me traiu enquanto escutava sua voz na minha cabeça, um reflexo do que ele falava em voz alta do lado de fora.
Há uma cadeira vaga na mesa dos funcionários... Onde está o Snape?
Na mesma hora corri os olhos de novo para o lado da grande mesa e mordi a boca – Gancho não estava lá. Maldito enxerido de nariz enorme, se ficou me observando e viu Potter e Weasley pela janela... sem me preocupar dessa vez, virei o corpo todo em direção aos rapazes e tive vontade de atirar um prato de ouro pelo vidro. Lá estava a figura de Snape, sorrindo que nem um maníaco na frente de duas crianças.
— Quem...? Aqueles ali são Potter e Weasley? — Parkinson perguntou em voz alta, também se virando para olhar. Quem não estava prestando atenção ou foi rápido, perdeu a oportunidade de ver os dois garotos acompanhando o professor de poções para longe da janela. Não me surpreendi com quem estava.
— São, são sim — Draco confirmou. Tinha os olhos curiosos e um sorriso nojento no rosto. — Não os vi no trem e nem na plataforma, aposto que se meteram em uma enrascada.
— E você presta muita atenção em onde eles estão ou deixam de estar, Malfoy, invés de cuidar da própria vida — sibilei. Eu o odiava quando ficava assim: o rosto retorcido de um ódio mesquinho e infantil, de um desdém ensinado como lei natural. A mesa era larga demais e por isso não tentei acertá-lo... ainda. Mais uma palavra e o prato iria nele.
— Mas o que eles estão fazendo do lado de fora? — Sue perguntou com uma sobrancelha ruiva levantada. — Eles não estavam mesmo no trem, Mal?
— Não — confirmei, meus olhos ainda fixos no olhar prata de Draco. Eu sabia que ele estava pronto para revidar, se eu atacasse. E gostaria muito de ver se ele deixou de ser a coisa patética do ano anterior, que apenas não perdeu a cabeça por interferência de um professor. — Eles vieram em um carro voador.
Aquela cerimonia da Seleção foi, provavelmente, a mais malcomportada dos últimos anos. Não pela celebração padrão das casas ao terem mais membros, e sim pelo burburinho que se seguiu. Debaixo da canção do Chapéu Seletor e entre um nome e outro a informação era passada de casa em casa. Observei a reação de apenas algumas pessoas, como os Weasley e Granger, todos variando de chocados para em êxtase. Quando Snape voltou para o Salão Principal por uma porta lateral e ficou encarando as costas de Minerva enquanto ela chamava os nomes, fiz questão de olhar para aquela cara feia com desgosto.
— Greengrass, Astoria — o nome da irmã fez com que Daphne desviasse a atenção da trigésima oitava pessoa que se inclinava para ela perguntando "É verdade sobre Potter e Weasley?". Acompanhei seu olhar verde-água e prestei atenção na garota que se sentava no banco de três pernas: tinha uma altura normal para a idade e os cabelos negros soltos, mas muito bem penteados. O Chapéu Seletor não havia sido feito para crianças e, como na maioria das vezes, cobriu toda sua cabeça até o nariz e lá ficou por quase um minuto inteiro. Ao meu lado, senti Daphy tencionar, os pulmões prendendo o ar quando apertou minha mão.
— Sonserina! — O rasgo-boca se abriu enquanto as costumeiras palmas eram ouvidas pela nossa mesa. A pequena Greengrass saiu do banco com rapidez depois de McGonagall tirar o Chapéu de cima dela e buscou com olhos ansiosos sua irmã mais velha, vindo até nós sem qualquer hesitação.
— Daphy, eu consegui! Estou com você! — A garota exclamou assim que ocupou o espaço aberto ao lado da irmã. Daphne, que estava muito mais relaxada do que alguns minutos, sorriu para a irmã mais nova e soltou minha mão ao abraça-la.
— Eu disse que se sairia bem, Tory — e então olhou em volta, para nós. — Pessoal, vocês já conhecem minha irmãzinha lá de casa e ela vocês: Pansy, Sue, Draco, Vincent, Gregory, Theodore, Blásio...
— Vocês realmente socializaram durante as férias, não foi? — Soltei com um sorriso, sabendo que acenderia uma centelha. Na mosca, Parkinson se virou para mim.
— Só porque você não quis se juntar a nós, Lewis...
— Ah, e tentarei conseguir fechar os olhos a noite com isso, Pam — meu sorriso se alargou enquanto via sua antiga raiva subir até os olhos. Nunca perdia a graça.
— E essa — Daphne tinha uma voz arrastada, lábios torcidos e sobrancelhas arqueadas. Mesmo com uma cara estranha, eu sabia que estava achando graça. — É Malorie Lewis.
— Mal — Astoria soltou antes de se dar conta, então sorriu. Tinha um sorriso ainda mais gentil do que a irmã, de uma delicadeza de boneca. — Desculpe, só te chamam assim então me acostumei... ouvi falar muito de você.
— Apenas as piores coisas, imagino — fingi um suspiro olhando para todos meus colegas, antes de rir e encolher os ombros. — É provavelmente tudo verdade.
A garotinha riu, acolhida e feliz entre sua nova família. Claro que ela teria suas próprias amizades e construiria sua própria história, mas que mal fazia passar o banquete de boas vindas ao lado da irmã? Seus olhos não tinham nada de azul: eram puramente verdes e brilhavam. Quase tanto quanto os de Potter. A lembrança do nome me fez olhar para a mesa dos professores outra vez, buscando entender o que estava acontecendo.
Severo estava ali, tinha voltado de seja onde for que levou os garotos. Não estava sentado na mesa, porém. Estava em pé, em um canto perto da porta lateral, os olhos tão fixos em Minerva enquanto ela prosseguia com a cerimonia que quase quis lhe oferecer um analgésico. Solenemente, a mulher o ignorou e passou pelos nomes. Na letra "L", chamou uma tal de Luna. Luna Lovegood, e só reparei nela pois saiu de perto de Gina – consegui ouvi-la desejar boa sorte para a garota de longos cabelos prateados como Draco. Talvez sua primeira amiga? Desejei que sim, talvez uma amizade a distraísse do diário.
Mesmo que fosse uma amizade um pouquinho mais difícil de manter – a garota que parecia deslizar em sua própria orbita foi selecionada para a Corvinal e não havia qualquer duvida de qual casa a Weasley seria. Justamente, quando seu nome foi chamado, Gina Weasley sentou no banquinho de três pernas. Olhou para os irmãos na mesa dos leões e chegou mesmo a me procurar, então sorri para ela quando encarei seus olhos de chocolate. O Chapéu Seletor ficou um tempo irrisório na cabeça da garota, cinco segundos, talvez? Antes de exclamar para todo o salão ouvir:
— Grifinória! — Os aplausos da mesa vermelha e dourada foram altos: a tradição estava completa, eles tinham todos os Weasley. Ao menos, os dessa geração. Gina foi recebida por Fred e Jorge, que a rodaram no ar, e até mesmo Percy lhe deu palmadinhas nos ombros com um sorriso quase orgulhoso. Mas quando ela olhou em volta procurando com mais atenção o irmão que faltava, a preocupação tomou seu rosto: onde estava o Rony?
A fofoca ainda não havia chegado nos primeiranistas, mas logo ela ficaria sabendo. Não apenas ela, mas muito mais – quanto tempo demoraria para a noticia se espalhar fora de Hogwarts? Isso se já não o tivesse feito muito mais rápido do que aqui dentro. Pensei em Arthur Weasley que trabalhava justamente na Seção de Controle de Mau Uso de Artefatos Trouxas, no Ministério da Magia. Qual seria o tamanho do problema que enfrentaria ao descobrirem que ele mesmo tinha um carro voador na garagem de casa? De repente, a pequena inveja que senti ao ver sua aventura foi embora. Não queria estar na pele dos dois, principalmente a me lembrar de Molly Weasley. A mulher tinha nos recebido, Harry e eu, de coração aberto em sua casa e nos tratado como filhos. Que grande demonstração de agradecimento lhe trazer esse tipo de encrenca.
— McGonagall está saindo com Snape — Sue atraiu minha atenção, mas meus olhos foram direto para a mesa dos professores. Enquanto Minerva deslizava com Severo para fora do Salão Principal, parou ao lado de Dumbledore e o cochichou alguma coisa que não me atrevi a tentar ouvir. O diretor de Hogwarts ainda esperou poucos minutos para que os novatos se ajeitassem e mais algumas palavras fossem trocadas antes de se levantar. Não importava o quanto todos estivessem empolgados e interessados na nova fofoca: a presença de Alvo Dumbledore não era algo para se ignorar. E, quando levantou uma das mãos, todos se ficaram em silencio.
— É meu prazer dar as boas vindas para vocês — a voz do diretor continuava suave, como sempre, mas ainda forte. Chegava em todos os cantos do salão sem ajuda de nenhum feitiço. Os olhos dele cintilavam atrás dos óculos de meia-lua e suas vestes da cor púrpura imitavam as estrelas do céu. Quando sorriu, foi com bondade e genuína felicidade. Mas talvez eu estivesse prestando demais atenção nele para sentir que estava incomodado. — Temo que, assim como todos os anos, precisarão ouvir as palavras de um velho antes de caírem de boca em um delicioso banquete, então tentarei ser breve...
Assim como no ano anterior, nos foi avisado sobre as normas da escola e sobre a lista de objetos proibidos feita pro Filch que aumentava a cada ano. Era proibido nadar no Lago Negro e entrar na Floresta Proibida – muitas pessoas, incluindo o próprio Dumbledore, olharam para mim nesse momento –, e finalmente, nosso novo professor foi apresentado. Gilderoy Lockhart se levantou com pompa ao ouvir que era o novo professor de Defesa Contra Artes das Trevas. Suas vestes lilases eram de primeira mão e seu cabelo loiro tinha ondas impecáveis. O sorriso, também, era de dentes retos e perfeitos enquanto acenava para a ovação dos alunos... perdão, alunas.
— Merlin, que homem lindo! — A decepção foi grande quando ouvi tal frase sair de Daphne Greengrass. Virei o rosto para ela, quase tão desgostosa quando ouvi os mesmos suspiros vindos de Hermione. Não era a única: os garotos e Pansy a olhavam como se tivesse acabado de nascer outra cabeça. — Ah, por favor, ele é! Vocês têm olhos!
— Também temos o mínimo de inteligência para saber que se esse cara lutou com um lobisomem em uma cabine telefônica, aqueles dois são as próximas mentes brilhantes do mundo bruxo — Pam devolveu, apontando com a cabeça para Crabbe e Goyle.
— Esperava mais de você, Greengrass — Draco, que passou todo esse tempo calado demais, se pronunciou depois de arrancar os olhos de Gilderoy, que já havia se sentado outra vez. — Sinceramente, esse lugar só vai ladeira a baixo. Ano passado, aquele gago ridículo. Agora, aquela coisa ali. Se ele souber lançar um simples feitiço de levitação eu vou ficar surpreso.
— Devia escrever para o seu pai — comecei com leveza, ignorando as cabeças viradas em minha direção. Ignorei até mesmo a sobrancelha arqueada do garoto e a surpresa que fazia rachaduras aparecerem em seu escudo natural. Prestei atenção nisso, mesmo que por um momento, em sua satisfação e empolgação mesquinhas sobre o problema em que Harry e Rony estariam agora. Também, bem lá no fundo, a magoa que com muita rapidez se transformava em rancor dentro dele por ter preferido Granger e Longbottom do que eles, do que ele. — Se ele tem, de fato, alguma influencia sobre isso aqui, é hora de usá-la. Talvez um abaixo assinado para um professor decente ser contratado? Eu assino primeiro.
— E eu achava que você não tinha nenhum pingo de sensatez — um sorriso começou a se formar nos lábios dele, um hibrido entre o que eu achava bonito e o que repudiava. Odiava aquele ar de arrogância, de desdém, mas havia um fraco brilho de diversão em seus olhos, o aço se tornando apenas um pouco menos frio. Devolvi o sorriso para ele, arqueando minha própria sobrancelha.
— Se até mesmo você tem seus momentos, pequeno lorde, porque não eu?
O garoto sustentou o meu olhar o quanto conseguiu – bem mais do que o ano anterior, devo reconhecer seu mérito. Talvez conseguisse até mais se Dumbledore não houvesse terminado de falar e dado inicio ao banquete. O efeito não foi tão grande entre meus colegas como no ano passado, quando as taças, pratos e travessas se encheram das mais variadas e cheirosas comidas, mas eu devia estar com a mesma expressão extasiada do que Astoria, que via o truque pela primeira vez.
Eu teria comido muito mais se não tivesse me alimentado tão bem durante as férias, no Caldeirão Furado e nos Weasley. Também foi um fator contra meu apetite o fato de o diretor ter saído assim que deu permissão para o banquete começar, se juntando a Snape e McGonagall em algum lugar para julgar os garotos. Nenhum dos três demorou tanto tempo – voltaram por volta de vinte minutos depois e se sentaram em seus devidos lugares, prontos para aproveitar a festa. Ou quase.
A única evidencia de que nem Potter nem Weasley estavam voltando para casa nesse exato momento era Severo Snape. Seu rosto estava tão duro e a boca tão apertada que duvidei que fosse capaz de a abrir para a comida entrar. Ele chegou a me olhar uma vez, os olhos tão faiscantes que senti vontade de pular em cima da mesa e dançar. Não tinha conseguido. Toda sua cena, fazendo Alvo e Minerva se ausentarem do banquete, havia sido em vão. Os garotos ainda estavam em Hogwarts, quem sabe nem tivessem pego alguma detenção ou perdido pontos? O ano ainda não havia começado, afinal, e a pancada na minha consciência valeu a pena pelo sorriso que dei para meu professor.
O ódio absoluto de Snape me tranquilizou o bastante para aproveitar o resto do banquete e, quando os primeiranistas se levantaram para acompanhar Farley e Rivers depois do hino da escola, eu tinha algumas peças de carne nos bolsos para acalmar o estomago de meu amigo compactado no dormitório. Era verdade que queria saber com exatidão onde estavam Potter e Ronald, mas estava longe de ter tempo de ir procura-los. Se não bastasse a comitiva fechada que meus colegas fizeram a minha volta, me guiando em direção à masmorra, Lagrum estava sozinho e com fome.
Cheguei, antes de ser levada para a familiar sala comunal, a sentir algo parecido com a consciência de Harry naquele andar. Odiei, então, as pessoas à minha volta e quase me desvencilhei para ir sanar minha curiosidade. Mais uma vez, a lembrança do meu amigo me fez ficar quieta e me contentar em esperar saber de tudo no dia seguinte. Já sabia que estava certa, os dois não haviam sido expulsos, todo o resto poderia esperar o dia seguinte. E, sinceramente, não teve muito que restou na minha cabeça quando finalmente coloquei os pés outra vez na Masmorra da Sonserina.
Ela estava exatamente como me lembrava, como se mostrava no fundo da maioria das minhas fotos. Toda em verde e prata e pedra escura, brilhante a sua própria maneira. As águas do Lago Negro estavam fazendo jus ao seu nome do lado de fora das janelas, mas o movimento que faziam contra o vidro marcava as paredes, o teto e chão. Respirei fundo, guardando cada pequeno detalhe dentro de mim outra vez: as almofadas de seda, as poltronas de couro de dragão ou de camurça, as lareiras feitas de joias sendo um espetáculo mesmo apagadas, as estantes de livros e os candelabros de cristal, talvez até de diamante. Na primeira vez que entrei naquele lugar, não pude deixar de reparar em como era luxuoso e, ao mesmo tempo, em como era certo. Não pela ostentação em si, mas pela sensação. Antes e agora, era como voltar para um lugar de onde você não se lembra, mas nunca esqueceu.
— Eu volto já — murmurei para quem quer que estivesse ao meu lado, nem lembrava mais. Também ninguém lembrava muito de mim: voltar para cá era um balsamo para todos. Estávamos em Hogwarts, agora, bem longe de títulos e famílias e casas nobres, bem longe da proteção dos pais. Aqui, teríamos de fazer nossa própria história e eu podia sentir a ansiedade coletiva, o desejo de grandeza. Mais importante que isso, a necessidade de se provar digno dela.
No ano anterior, os quartos ficavam no primeiro patamar descendo a sala comunal. De fato, quando desci o primeiro lance de escadas, lá estava a porta que indicava o dormitório feminino do primeiro ano. Usando o mínimo de intuição, desci o segundo lance, me aprofundando ainda mais nas entranhas do castelo e do lago, chegando na porta que indicava ser o dormitório do segundo ano. Imaginei se, a cada ano, desceríamos um andar e se com isso acabaríamos chegando de fato nas profundezas do lago – ou ele era ainda mais fundo do que pensava.
Mais uma vez fui a primeira a entrar e, com isso, escolhi a cama que quis. O quarto era o mesmo em comparação com o do ano anterior: cinco enormes camas feitas com seda e linho, o dossel verde e prata amarrado nas extremidades. Haviam baús aos pés das camas e criado-mudo ao lado, além da porta que dava para o banheiro de cada garota. Peguei uma cama perto da porta e com uma grande janela ao lado, e então pus minha mochila em meu colo ao me sentar no colchão macio.
— Você está tão quieto, quase parece bem-comportado — cantarolei para meu amigo dentro da bolsa. Vi seus olhos se abrirem, escuros assim como sua língua que ia repetidamente para fora, e então sua grande cabeça deslizando até ficar na altura da minha. Lagrum era enorme e me parecia crescer um pouco mais a cada ano, se continuasse assim poderia me engolir inteira de uma só vez. Com certeza já podia o fazer com minha cabeça.
Todo ano essa viagem horrível, Malorie, e ainda tenho que aturar suas gracinhas... um dia vou mesmo conferir se sua cabeça cabe dentro da minha boca.
— Não faça promessas que não pode cumprir — devolvi seu sermão, ganhando um silvo irritado em resposta que me fez rir. — Tome, peguei um pouco de carne para você. Assim que todas dormirem, vou te levar para a floresta.
Ah, a floresta... imagine o quão felizes os centauros deem estar depois de um carro invadi-la?
— Espero que extasiados, Lagrum, contanto que não causem problema para você — apertei os lábios, mas meu amigo deu uma pequena volta no meu pescoço, sua língua fazendo cocegas em meu rosto.
Se me tratar como um filhote mais uma vez, Mal, juro que lhe quebro a coluna.
— Teria que me pegar primeiro, cobra arrogante — devolvi com um sorriso, antes de conseguir ouvir a mente Pansy Parkinson antes de sua voz. Lagrum entrou de novo em minha mochila, silencioso, e foi o tempo de a colocar de baixo da cama quando todas elas entraram outra vez, me fazendo arquear uma sobrancelha para seus rostos contrariados. — Eu aconselharia a não demorar tanto lá em cima, mas gosto de ser a primeira a escolher.
— Vou enforca-la com a seda dos lençóis, Lewis, juro que vou — Parkinson chiou entre os dentes, o que me fez lhe dar um sorriso doce. Adorava ver seus olhos escuros queimarem.
— Ameaças vazias, Pam — cantei. — Preocupe-se com Daphy, que enquanto isso já escolheu a cama dela.
A briga entre Daphne e Pansy sobre quem ficaria com a cama me acompanhou até chegar ao patamar dos primeiranistas. Era bom estar em casa.
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