Corona II

29 Pureza Valiosa


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Só quero me desculpar por ter sumido semana passada: passei mal e não consegui escrever. Quando consegui, já era fim de semana outra vez. Se eu postasse de uma vez, não teria tempo nenhum para o da segunda que chegava. Ou seja, alguém iria atrasar, de uma forma ou de outra. Mas já está aqui e espero que compense a demora ♥ Obrigada a Lua Helena, Ella Branco (Bella ♥), Juliet e Gabrielle Malfoy pelos comentários maravilhosos e que me fizeram sorrir ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

O inverno se firmou na semana que se seguiu e trouxe com ele alguns acontecimentos notáveis. O primeiro deles foi o fenômeno dos talismãs em Hogwarts. Teve inicio ainda no domingo e, durante o decorrer dos dias fiquei abismada sobre como os professores podiam ser obtusos – ou os alunos o exemplo da discrição. O comércio totalmente ilegal de amuletos protetores corria pelos corredores, ultrapassando anos vencendo barreiras entre Casas. Nascidos trouxas e até mesmo mestiços buscavam formas de se protegerem do Herdeiro, ou ao menos a sensação de que estavam seguros de alguma forma.

Quando Neville Longbottom comprou uma grande cebola fedorenta, uma pedra roxa pontiaguda e um rabo de lagarto já podre dos gêmeos Weasley (fonte dos principais produtos), ninguém pôde convence-lo de que não fazia o menor sentido. O Herdeiro tinha tantos motivos para ir atrás dele, um puro-sangue pertencente às Sagradas Vinte e Oito, quanto de Daphne ou Malfoy.

— Melhor não arriscar, Mal — o garoto gorducho balançou a cabeça enquanto enfiava suas compras nos bolsos das vestes. — Todo mundo sabe que sou praticamente uma aberração.

— Você não é uma aberração, Neville, nem perto disto — rebati com minhas sobrancelhas juntas. — Só por ter dificuldade em certas áreas...

— Em todas as áreas — o rosto desanimado do garoto me fez suspirar. A avó tinha feito um excelente trabalho em acabar com sua imagem. — Só sou bom em Herbologia. Mal sei segurar uma varinha e minhas poções sempre são desastrosas e...

— Eu estou ouvindo o Snape sair da sua boca, Longbottom, e isso é preocupante — interrompi sua auto depreciação. Neville fechou a boca, as bochechas vermelhas, mas os olhos ainda tristes. — Escute, eu já lhe disse, se tentar relaxar as coisas podem mudar. Você se cobra demais por isso fica nervoso e se atrapalha, o que geralmente resulta no fracasso.

— Mas eu tenho que me cobrar — o grifinório insistiu, batendo os dedos nas vestes de forma nervosa. — Vovó sempre diz sobre meu pai... ela me deu a varinha dele, sabe? Ele foi um grande bruxo, muito talentoso e poderoso. Foi auror. Eu tenho que honrá-lo.

— Eu tenho certeza que seu pai não gostaria que o honrasse ficando tão triste consigo mesmo desta forma — fiz da minha voz suave. Havia sempre essa distancia quando o assunto eram os pais do garoto, essa tristeza no fundo de seus olhos castanho-escuros. Neville havia sido criado pela avó e nunca, nem uma vez, explicara a razão disso. Como órfã, escolhi respeitar sua privacidade. — E usar uma varinha que não tenha te escolhido nunca vai te dar bons resultados. Sua avó devia saber disso.

— Talvez saiba, Mal — um sorriso fraco apareceu em seus lábios. — Mas, de novo, não custa nada prevenir, certo? O Herdeiro pode me mirar pelo simples fato de ser uma vergonha para os puro-sangue.

E foi embora antes que eu pudesse, mais uma vez, puxar sua orelha por tanta falta de consideração consigo. Longbottom tinha um bom coração – puro e amigo. Mas o peso de sua avó e o ideal utópico de seu pai eram uma muralha em seu caminho. Eu sabia que o garoto não tinha qualquer impedimento físico ou mental ou mesmo mágico que o fizesse tão desastrado. Era apenas sua insegurança, nascida e alimentada por gente querendo que ele fosse outra pessoa.

De toda forma, a verdade deve ser dita mesmo que cruel, pois fui criada por uma cobra que não fez questão de me ensinar os rodeios sociais que os humanos são habituados. Uma delas era que Neville era uma baixa preocupação na minha cabeça, ainda mais com o objeto escondido queimando pesado no bolso das minhas vestes. Eu havia o tirado do pequeno pacote ainda naquela noite do domingo e, como toda a minha vida, era claro que não havia nada fácil. Nenhum mapa, nenhum "ei, é aqui que sua família vive, segue abaixo o número de contato". Só mais uma peça, só mais um enigma, só mais um pedaço de um ano inteiro da minha vida que havia sido arrancado de mim.

E mesmo com o vazio que representava, não fui capaz de me separar dele. Por doze anos nem mesmo sabia que existia, mas agora que o tinha em mãos nada no mundo conseguiria me fazer larga-lo. O deixei perto de mim como um peso constante, um calor pontual. As vezes podia jurar que pulsava como algo vivo, me puxando em uma corda tensa esticada por tempo demais, mas logo parava, adormecia, e eu tinha que suportar sua presença silenciosa gritando para mim que era mais uma resposta, tão obvio e tão clara, que eu apenas não conseguia enxergar.

Para minha felicidade, também me foi provida distração sobre isto quando Astoria Greengrass aproveitou a oportunidade de sua irmã enclausurada no dormitório para fazer seus deveres. A irmã mais se sentou ao meu lado com quase tanta fineza quanto a outra, mas havia algo de fluido em seus movimentos que os anos de etiqueta restrita já haviam varrido de Daphy. Era claro que a Astoria não era tão cobrada quanto a irmã e imaginei se isso era o que Daphne prezava tanto – a oportunidade de identidade própria.

— Mal, ei, você sabe que dia vai cair este fim de semana, não sabe? — A garota se inclinou para mim, a voz baixa como se guardasse um segredo, mas os lábios abertos demais em um sorriso para não chamar atenção. Subi uma sobrancelha enquanto fechava com cuidado o antigo livro de feitiços que me entretinha.

— Catorze e quinze de novembro, suponho? — Para suas sobrancelhas escuras e bem-feitas vincadas em sua testa, ri. — Se acalme, senhorinha. É o aniversário de Daphy.

— Sim, neste sábado — seu rosto relaxou de volta ao bom-humor. — E é por isso que preciso de sua ajuda.

A senhorinha tinha uma mente muita afiada, ainda mais se tratando da festa surpresa de sua irmã. Daphne estaria fazendo doze anos, como a maioria das garotas em seu segundo ano em Hogwarts, mas a maioria das garotas não vinha de uma das famílias mais ricas e antigas da Grã-Bretanha e não possuíam uma caçula com olhos tão sagazes.

No ano anterior, eu me lembrava, a data havia sido comemorada com até mesmo certa tristeza, o que descobri ser comum na maioria dos primeiranistas. Sendo o primeiro aniversario que passava longe da família, Greengrass se conteve com os bolos e doces enviados por uma dúzia de corujas, além de seus presentes e uma celebração pequena à mesa do café da manhã. Meu presente havia aparecido depois do jantar na forma de um grande bolo de aniversário de mirtilo e baunilha, seus sabores favoritos.

Neste ano, porém, haveria uma festa digna para a herdeira dos Greengrass. Ao menos, é claro, dentro dos limites que uma festa na escola oferecia. Mesmo que estes limites fossem bem tênues para crianças com tanto dinheiro e tanta determinação em fazer o mundo girar em torno delas. Foi assim que ficou decidido que Zabini me ajudaria com o transporte dos comes e bebes da cozinha até a Sala Comunal enquanto Hopkins e Theodore fariam alguma decoração.

— Eu sei que não é o lugar mais privado para uma festa — Greengrass resmungou enquanto torcia a ponta dos cabelos, os lábios formando uma protuberância de forma petulante. — Mas se for no dormitório, os garotos não vão poder vir. E eles ficariam chateados, não é?

— Para ser honesta, não sei o grau de relacionamento de sua irmã com a parte masculina do nosso ano vai além do companheirismo caseiro ou convivência cordial — um sorriso torceu meus lábios ao passar, em uma sucessão rápida, todas as interações que já havia visto Daphne protagonizar com o sexo oposto. Não muitas e nunca sozinha. — Mas sei que isso não importa e, que da parte deles, ficariam particularmente ofendidos, sim.

— Imaginei que fossem ficar, além do mais, não é ruim fazermos algo mais geral para cortar o bolo — Astoria balançou os ombros, rabiscando o canto do pergaminho onde anotava os pontos da conversa. — Vai tornar a noite das garotas mais especial, depois.

Noite das garotas era como estava sendo chamada a festa depois da festa. Um momento mais casual e já compartilhado antes nas férias passadas, cujo qual não tinha participado. Pelo visto, não era incomum as garotas se juntarem na residência dos Greengrass para uma noite inteira de pijamas, fofocas e doces. Tinha que admitir que estava ansiosa para o que seria minha primeira noite de garotas, ainda mais considerando que minhas únicas noites até hora haviam sido com um réptil enorme na floresta. Era uma grande mudança de cenário e só havia um problema: apenas três das cinco residentes do dormitório estavam convidadas.

Pansy ainda não havia largado o fio de seu orgulho e se mantinha distante de todas nós, menos de Emily por quem parecia ter desenvolvido um carinho surreal. Dormia e acordava sem nos desejar boa noite ou bom dia, e se não participava de nossas conversas e fazia um esforço reconhecível para parecer que sequer escutava. Seria desconfortável fazer penteados e beliscar besteiras com sua figura isolada em um canto, afundando a pobre Bulstrode com ela. Astoria sugeriu que Sue falasse com ela, mas neguei com a cabeça.

— O problema de Parkinson não é com a Hopkins, senhorinha, é comigo — corri os dedos pela lombada do meu livro. — E, por mim, ela poderia segurá-lo e levar para o túmulo, se faz tanta questão. Mas pelo bem da festa de sua irmã, tentarei uma coisa. Considere um presente.

Tory não quis saber o que era a coisa e era melhor que não soubesse. A herdeira dos Parkinson não ficava na minha linha de visão direta desde o dia em que parti seu dedo em vários pedaços sem usar varinha ou voz, mas pelo que conseguia ver das aulas Pomfrey havia feito um maravilhoso trabalho, como sempre. Não que isso implicasse em algo nos sentimentos da garota em relação a mim: até os primeiros dias após o ocorrido, eu ainda sentia seu desejo por vingança rastejar em minha direção, alimentado por um orgulho rasgado e um ego estourado.

Não era a coisa mais difícil do mundo encontrá-la, mas levando em conta que durante as aulas não seria o melhor momento, esperei até a hora do café da manhã no dia seguinte. Era uma terça-feira de inverno escocês, fria e clara. Meus braços cobertos pelas longas mangas do uniforme eram minha única proteção contra o manto gelado da temperatura, mas Pansy tinha muito mais dinheiro e roupas do que eu: vestia um casaco pesado e luvas, além de um cachecol folgado no pescoço e não estávamos ainda nem no auge da estação. Mas se eu bem me lembrava, de qualquer forma, Parkinson não se adaptava bem ao frio: era que tinha mais acumulo de cobertas na cama e que dormia mais perto da lareira.

— Se essa é sua roupa para esse friozinho tenho medo que vai tirar do baú quando começar a nevar — a conversa já tinha parado antes mesmo que eu me sentasse, com a pobre Bulstrode congelando uma torrada à caminho de sua boca, os olhos mais abertos do que normal seguindo meus passos. Pansy, por outro lado, permaneceu de ombros retos e queixo para cima (o que era um fenômeno incrível nessas crianças ricas, olharem para o alto mesmo quando olhavam para baixo). — Bom dia, Emily. Me concede a honra, Parkinson?

Sem esperar resposta, pesquei de seu prato um morango gordo que coroava seu chantili nas panquecas. Haviam outros na mesa em uma grande tigela, mas o desdém fez suas narinas dilatarem e seus ombros se erguerem ainda mais. Eu podia sentir seu temperamento ruim e quase queria riscar o fósforo para ter a desculpa de a fazer em cinzas, mas era fácil demais e não era meu objetivo.

— Como se importasse se eu o fizesse, Lewis — o sobrenome trouxa foi uma lixa para meus sentidos, mas o varri para longe da minha atenção. Devagar e com os olhos escuros parecendo carvões, a garota virou o rosto na minha direção. — Você só vai e faz o que quer, como sempre.

— Engraçado, Pam, sempre achei que minha iniciativa fosse uma das poucas coisas que gostasse em mim — levantei uma sobrancelha para seu rosto torcido e congelado, a impaciência pontuando em detalhes que não podia controlar. Parkinson era boa, como qualquer um de nós, em esconder o que queria, o que sentia e o que pensava. Mas não era a melhor, pelo contrário, se traia com frequência. — Esse sábado vai ser o aniversário de Daphne.

— O que eu tenho com isso? — Aí estava. A aspereza na voz traindo a dureza de seu rosto. Algum nível de rancor escapava de sua língua, destruindo a máscara bem-feita de indiferença. Mordi o morango que ainda segurava, o ácido descendo pela minha garganta ainda muito mais doce que seu veneno.

— Você está convidada, sabe — encolhi os ombros, deixei a franqueza aparecer na minha voz. Eu não estava ali para brigar. Eu nunca tinha brigado. Salazar sabia que, se de fato tivesse feito de Pansy minha inimiga, ela já não estaria mais sobre os dois pés. Foi ela que me pôs como alvo e depois atirou em tentativas desesperadas de fazer Malfoy encontrar nela uma aliada em sua raiva vingativa, o que funcionou bastante bem por um tempo e agora não mais. — Vão ter mais três além de mim. E bolo e presentes.

— E a aniversariante quer que eu esteja lá? — Os olhos pequenos da herdeira dos Parkinson, já naturalmente estreitos, se fecharam ainda mais. — Da última vez que chequei, Greengrass não olha na minha cara faz alguns meses.

— Parkinson, quem não olha na cara de ninguém é você — levantei uma sobrancelha. Crianças mimadas viam o mundo com os próprios olhos, mas isso não o suficiente para que eu sentisse pena de tal visão tão deturbada. — Não me diga que ficou todo esse tempo achando que era a vítima da história!

— E quem seria, então?! Você?

Ninguém — sibilei entre os dentes, meu próprio temperamento despontando. Puxei o ar para mim, uma e duas vezes, nublando a imagem nítida da cabeça da garota esmagada contra a mesa. — Éramos amigas, Pansy, todas nós. Até você decidir que amaciar o ego de Malfoy era mais importante. Onde ele está agora? Não aqui, pelo visto, não devolvendo toda a atenção que você deu para ele. Será que valeu a pena? Eu sei que eu e você sempre tivemos nossos pontos de atrito, mas Daphy? Sue? Em que elas mereciam isso?

— Ora, não comece — Parkinson se inflou, seu rosto tendo a decência de se tornar tingido de vermelho enquanto as palavras se atrapalhavam para fora da boca. Sozinha. Pobre menina mimada e rica, o que ela tinha além de dinheiro e atenção? E o que tinha agora, além de um único par de olhos e ouvidos? Não era o bastante, não para alguém como Pansy. O sentimento de solidão a devorava a tempo demais. — Elas escolheram você.

— E o que tinham para escolher, Pam? — Balancei a cabeça, triste como não admitiria estar pela visão fragmentada da garota. — Já disse, a única pessoa vivendo essa guerra entre nós é você. E se não quiser fazer as pazes comigo então não faça. Mas sábado irá acontecer a festa de Greengrass, é surpresa e você devia vir. Escute alguém além das paranoias de sua cabeça, escute as pessoas a quem condena invés de colocar palavras na boca delas, de reimaginar seus passos com algum plano maligno para te ferir. Elas nunca te feriram.

E eu, sim. Parkinson tinha motivos e direitos se não quisesse mais apertar minha mão e eu podia conviver com isso – Lagrum me ensinou bem a não fugir das consequências dos meus atos, amargas ou não, e a inimizade de Pansy Parkinson era apenas uma gota no fundo venenoso que carregava. Então eu poderia compreender, e viver com isso, se a garota cruzasse os braços e me virasse o rosto, como vinha fazendo, aliás. Mas era apenas demais que estendesse o tratamento hostil para mais alguém: nem Sue e nem Daphne lhe fizeram qualquer mal, e sua ideologia crua em uma guerra inventada só traria amargura. Não apenas para ela, mas para quem tinha lembranças gentis a envolvendo.

Minha rotina era ocupada o suficiente – fazer as tarefas escolares, visitar Lagrum uma vez por semana, ter aulas com Snape quatro dos cinco dias uteis, acompanhar a Poção Polissuco com os leões e cutucar os ratos experimentais com minha varinha –, mas não abri a boca para reclamar quando Astoria me fez de sua assistente pessoal para o planejamento da festa. Havia muito mais a se acertar do que eu imaginava e não tive coragem de apagar o brilho genuíno nos olhos da pequena Greengrass, tão decidida a fazer algo belo e especial para a irmã mais velha.

Tory vinha ao meu encontro vezes o bastante para Daphne levantar uma sobrancelha, mas também era esperta o suficiente para puxar outro assunto para estes momentos: Gina Weasley. Era bom saber que, mesmo dedicada ao aniversário da irmã e sem qualquer obrigação, a garota ainda se empenhava em fazer o que pedi, mesmo que não fosse a mais fácil das tarefas. Como o esperado, Ginevra era uma sombra tão apagada, um fantasma tão cruel da garotinha vivaz e feroz que conheci no verão que não estava sendo, exatamente, a mais fácil das tarefas manter algum contato com ela, quem dirá amizade.

— Ela é muito quieta, sabe? — A pequena Greengrass gesticulou com as mãos, as sobrancelhas franzidas. Era sempre impressionante observar como a garota não tinha tantas amarras como a Daphne. — Na verdade, mal fala. A não ser que algum professor pergunte diretamente, e como ela senta bem no fundo da sala e vive de cabeça baixa...

— Ela está dormindo na classe?

— Dormindo? Não — Astoria balançou a cabeça, os olhos verde-água como um ponto de luz clara. — Fica escrevendo. Ela deixa um caderno antigo escondido debaixo da carteira, ou em cima dos joelhos, e o puxa o tempo inteiro para escrever alguma coisa. O que é, não faço ideia. Alguns dias ela chega a escrever um bom pedaço, mas na próxima aula lá está ela, de volta ao início. Deve ser encantado para nunca acabar, não é?

— Sim — meus lábios apertaram e minha língua rachou com amargura, o gosto ácido da obviedade. — Sim, deve ser.

O maldito caderno. Aquela porcaria velha que apareceu no poder da cria mais nova dos Weasley depois da visita ao Beco Diagonal para a compra de material escolar. Na ocasião, Gina disse que ele estava entre seus livros e que provavelmente a mãe havia comprado junto com os outros, ou até mesmo vindo de brinde. Mas Molly nunca reclamou o presente e não acho que a filha tenha chegado a perguntar.

Eu estava certa, então, e ela o tinha trago consigo para Hogwarts. E pelo visto andava com a coisa para cima e para baixo – não me admirava que suas notas não fossem das melhores ou estivesse com problemas de acompanhamento se passava mais da metade da aula com a concentração enterrada em seja o que for. Precisava tirar aquilo dela, ver o que tinha naquelas paginas que faziam com que se agarrasse com tanto força ao couro velho, mas não seria tão fácil como na teoria: se sequer se desgrudava durante as aulas, não me surpreenderia se dormisse com ele debaixo do travesseiro.

Mas Lagrum me criou com esmero. Os fundamentos da caçada foram marcados em mim desde o primeiro dia, eu quisesse ou não. Era preciso que eu me segurasse neles, na calmaria e na sombra, como o vi fazer tantas vezes. Imóvel pelo tempo que fosse necessário. Eu esperaria e prestaria atenção, teria toda a paciência que fosse preciso. Quando fazia isso, meu amigo sempre terminava com algo se debatendo em suas dobras – eu também teria.

Um bom exercício de força de vontade eram as aulas de Snape. O único dia livre que tínhamos um do outro era sexta-feira, pois ambos concordávamos que eram necessários ao menos três dias consecutivos de distância. Começando com uma aula padrão na segunda feira, Severo revezou os dias. A primeira vez que treinamos a oclumência passiva, na terça feira, foi quase um desastre. O diretor da minha Casa me esperava com um frasquinho de poção do sono – o bastante apenas para meio gole e para me fazer despencar segundos depois em cima da carteira.

— Isso não é veneno, ou é? — Apesar do gracejo em minha voz, a linha fina e afiada que meu professor chamava de sorriso era o bastante para ter vontade de sacudir o frasco atrás de alguma alteração.

— Se te envenenar fosse uma possibilidade... — Me devolveu com a voz gelada e os olhos cruéis, o que me fez sorrir enquanto virava o frasco e tomava o conteúdo de uma vez. Em cheio, Gancho, acertou em cheio.

Não demorei a perceber que o Mestre de Poções havia sido gentil ao dizer que as defesas diminuem ao adormecer. Severo entrou em minha mente como não houvesse nada o impedindo, cortando minha usual muralha como se não passasse de um monte de manteiga fresca. Fiquei satisfeita em ter prevenido Lagrum para se afastar da minha cabeça naquele dia, pois não duvidava que Snape teria sido capaz de sentir sua presença com a velocidade de um pensamento, talvez nem precisasse de tanto. O esforço para tirá-lo de lá, para organizar minha consciência e expulsar sua presença invasiva deixou minha cabeça doendo de uma forma que não tinha que aguentar desde o ano passado.

A segunda tentativa, na quinta feira, não foi muito diferente. O que não contribuiu para meu humor naquele fim de semana – ainda por cima levando em conta a madrugada com Lagrum, que dessa vez se concentrou em meu condicionamento físico. Passei a noite com os dedos meio enterrados na terra quase congelada, puxando e torcendo meu corpo até que o maldito réptil estivesse satisfeito com meus reflexos, resistência e flexibilidade. Se eu não fosse capaz de subir em uma árvore ou saltar dela, pular sobre sua cabeça e rolar no chão até mesmo de costas em uma batida de coração, então não estava bom.

Na manhã de sábado eu tinha meu corpo dolorido, arranhado e machucado, além de uma faca enfiada na minha nuca, irradiando dor até minhas têmporas. Mas não era como se eu tivesse oportunidade de me dedicar a reclamar de todos meus problemas: catorze de novembro havia chegado e foi Sue quem me despertou, não mais do que duas horas ou três horas depois que me deitei. Tocou meu braço e tirou a mão antes que eu percebesse, levando um dedo até os lábios e indicando com a cabeça para que levantasse.

Foi o que eu fiz, encontrando o quarto ainda iluminado apenas pelas chamas verdes da lareira, mas com mais gente do que o usual rodeando a cama de Greengrass. Ali estava Hopkins, que havia me acordado. E Emily e Parkinson, uma ao lado da outra, a última de braços cruzados e olhos em chamas, mas quieta quando seu olhar cruzou com o meu. A invasora era esperada: Astoria ainda com um pijama de seda, debruçada sobre o rosto adormecido da irmã. Ela olhou para trás, um sorriso perverso torcendo os lábios, e então sinalizou: um, dois, três.

Varinhas foram tiradas e apontadas para a garota indefesa. Se varias vozes anunciando o feitiço combinado não a acordasse, o efeito com certeza o fez. Rictusempra era a azaração do riso, que causava do alvo uma crise descontrolada de gargalhadas exageradas. Daphne pulou na cama, assustada e sem ar enquanto a maior risada que já ouvia ouvido saiu de sua boca. Ela se curvava e arfava, tentando puxar o ar enquanto era obrigada a continuar rindo, sua tortura provocando gargalhadas pelo dormitório.

— Certo — puxei o ar ao me apoiar no dossel da cama, o cansaço e a dor varridos do meu corpo pela cena e pelo bom humor que causava. — Ela precisa estar viva para o resto.

Fui a única que apontou a varinha outra vez para minha amiga, o contrafeitiço básico passando pela minha cabeça. Finite. No mesmo instante Greengrass parou de se debater e se curvar, engolindo grandes quantidades de ar de uma vez enquanto se recuperava. Seus cabelos, geralmente arrumados e no lugar até para dormir, não era muita coisa além de um ninho dourado. E seu rosto, tão trabalhado em anos de contenção para ser o exemplo da cortesia, estava transformado pelo vermelho-berrante do sangue correndo. Daphy olhou para cada uma de nós, os olhos molhados e as bochechas com rastros das lágrimas que acabou soltando, e fiquei feliz de Hopkins estar entre ela e sua varinha.

— Eu vou matar cada uma de vocês — chiou pelos dentes, a voz ainda trêmula pelo ataque brutal. Era verdade que o mesmo feitiço lançado por vários bruxos em um único alvo potencializava seu efeito. O quanto dependia apenas dos bruxos em questão, mas pelo visto havíamos feito um trabalho bom demais. — Até mesmo você, Parkinson! Por que não estou surpresa que, depois de todo este tempo, é para isto que aparece?

— Eu não ia mesmo perder a chance, Greengrass — uma sobrancelha fina se levantou no rosto de Pansy, seus olhos ainda queimando e seu sorriso afiado despontando pela manhã. — Agora, por que não levanta essa bunda daí para receber o resto?

— O resto? — Daphne, um pouco menos vermelha e com um pouco mais de fôlego, olhou para o rosto de cada uma de nós. Parou no meu, uma sobrancelha clara se levantando até quase sumir, mas balancei a cabeça, um sorriso próprio torcendo meus lábios, talvez bem parecido com o de Pam.

— Não tomo parte de nenhum castigo ou tortura — apontei com o queixo para a pequena garota, agora sentada ao lado da cama e batucando a varinha na perna por pura impaciência. — Fomos todas recrutadas.

— Além de, é obvio, a data de hoje — Astoria sorriu para a irmã, os olhos da mesmíssima cor refletindo o brilho claro das águas da manhã. Ainda não era tão avançado na estação, o Lago Negro ainda não havia congelado e, com isso, a luz ainda chegava em suas profundezas. Essa luz enchia os olhos de Tory, refletindo em seu rosto. — Também preciso compensar pelo ano passado, então levanta!

Daphne Greengrass, a herdeira de uma das mais antigas, nobres, ricas e influentes famílias bruxas da Grã-Bretanha, nascida para manter a cabeça acima dos meros mortais e para honrar seu nome acima de tudo, teve sua bunda cutucada repetidas vezes pela varinha da irmã mais nova até que pulasse para fora da cama. Correu para seu banheiro, fugindo de nós, mas todas tínhamos que acabar de acordar, também. Me afastei da cama com o bom humor espantando o fantasma das dores e das preocupações. Hoje não. Mesmo quando toquei meu bolso e o senti ali, guardado, me passou apenas calor. Como ficar no sol depois de tanto tempo no escuro.

Quando me olhei no espelho do meu banheiro, estava sorrindo.

E o mais importante, ele chegava aos meus olhos.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 28 ♥ Malfeito, feito! ♥