Corona II
30 Corte Reunida
Notas iniciais
Os meninos nos esperavam na Sala Comunal. E quando digo meninos, quero dizer todos eles e só posso imaginar que tenha sido resultado de algum efeito dominó, pois Nott estava ali mais por Hopkins do que por Daphne, tinha certeza. E Blás tinha certo entendimento com a aniversariante, certa afinidade, mas não os chamaria de amigos e sim colegas com bom relacionamento – ele havia sido atraído com a promessa de festa e para me ajudar. E Zabini era um ponto muito importante, pois a presença dele representou a presença de Malfoy que, por sua vez, trouxera a tiracolo Vincent e Gregory.
Nada disso impediu que a satisfação de ver tantas pessoas a parabenizando naquele dia brilhassem nos olhos de Greengrass.
Fazia muito tempo que o segundo ano da Sonserina se reunia desta forma. Logo no inicio do ano, depois que acertei a cabeça de Draco, meninas e meninas se separaram. E, logo depois, Parkinson também foi embora, levando Bulstrode consigo. Era a primeira vez em muito tempo que estávamos todos juntos outra vez e me apaguei aquilo, registrando os ombros relaxados e as risadas despojadas para quando precisasse, pois iria. Por isso havia trago minha câmera, guardada até o momento, e não poupei ninguém dos flashes.
Capturei ao longo do dia momentos que montanhas de galeões ainda não poderiam comprar. Tantos pequenos senhores e senhoras, tão bem construídos para serem nada além do que seu sobrenome carregava, nem mesmo as riquezas de cada um juntas poderia sobrepujar as preciosidades registradas. Rostos tão duros, ombros tão retos, olhos tão frios – que prazer foi ver que não precisavam ser sempre assim, que ainda podiam se lembrar de serem crianças. Lembrar de rir alto, de correr, de sentir a vida pulsando ao redor, pois todos ainda eram tão, tão jovens e era mágico que lembrassem disso, mesmo que de vez em nunca.
No final do dia, bem depois do jantar e do toque de recolher, me esgueirei para fora das masmorras em direção a cozinha, como já tinha feito vezes o suficiente para nem mesmo precisar me concentrar em ser discreta ou não esbarrar nas armaduras pelo caminho. O problema era Zabini, que com certeza nunca havia ido surrupiar nada de madrugada e olhava ansioso por cima do ombro enquanto subíamos o andar.
— Blás, não tem ninguém por aqui — sussurrei para sua figura tensa ao meu lado. — Se quer prestar atenção em algo, preste em seus pés.
— Meus pés? — Uma sobrancelha bem-feita se ergueu ao passo que os olhos escuros desciam. — O que tem eles?
— Parecem pesar duas toneladas — alfinetei com um sorriso, ganhando seu rosto quase corado em resposta. Seu sorriso se abriu, mais afetado do que sugestivo, e seus ombros retos foram forçados a encolher.
— Peço perdão por não ter tanta experiencia em perambular pelo castelo depois do toque de recolher — seu tom de sarcasmo tão pouco usado me fez sorrir, mas era pedir demais ficar batendo papo no meio do corredor. Para o crédito de Blásio, seus passos se tornaram consideravelmente mais controlados ao recomeçar a andar em silêncio logo atrás de mim.
A cozinha, como já havia notado várias vezes, não se importava com o alto horário: mesmo tarde da noite era abarrotada de elfos domésticos indo de lá para cá e me perguntei se aquelas pequenas e gentis criaturas dormiam em algum momento. A questão, porém, foi esquecida e afogada em olhos grandes e curiosos nos cercando com donos fazendo reverencias tão profundas que os narizes pontudos e cumpridos roçavam no chão.
— Nunca vi tantos em um só lugar — Zabini comentou olhando em volta, os olhos escuros muito atentos e absortos pelo novo cenário. Ele nunca havia estado na cozinha da escola e nunca havia tido contato com seus funcionários invisíveis. — Mamãe tem dois elfos fêmea e vários dos maridos dela também já tiveram, mas isso é quase um exército.
— Não achou que fosse, de fato, Filch que mantinha esse castelo limpo, ou achou? — Devolvi em um sorriso e tive a resposta em uma torção involuntária. Assim como muitos, talvez quase a totalidade dos alunos que pisam, já pisaram e ainda pisarão em Hogwarts, ele nunca havia se dado ao trabalho de pensar no assunto, de dedicar seu tempo a reconhecer a existência de quem ou de que arrumava sua cama e trocava seus lençóis, recolhia sua roupa suja e devolvia bem passada e engomada, que esfregava sua banheira e limpava sua privada e recolhiam almofadas e sumiam com nojeiras em Salas Comunais. — Boa noite, eu fiz uma encomenda para hoje, será que...
— A madame pediu um bolo! — Um elfo de olhos muito azuis avançou em um sorriso. — Madame pode ficar feliz! Bolo está pronto! Mirtilo e baunilha, como madame pediu ano passado!
— Ah, as tantas formas que vocês são maravilhosos — cantei em um tom sonhador, ganhando risadas agudas e sorrisos largos de dentes pontudos. Elfos domésticos até poderiam machucar fisicamente se tentassem – olhos desse tamanho deviam ser muitos bons, além dos dentes afiados e os dedos muito longos com unhas pontiagudas. Eu não gostaria de algo assim voando em meu pescoço, mas sua natureza dócil e subversiva fazia seus componentes não passarem de detalhes. — Poderiam separar algumas garrafas de sucos, por favor?
Cinco daquelas criaturinhas disparam para atender meu pedido, com olhos brilhantes e sussurros maravilhados. Balancei a cabeça e me sentei com Blás na ponta de uma das mesas, enfim prestando atenção como suas sobrancelhas estavam franzinas, torcendo seu rosto em confusão e surpresa. Com um sorriso que esperava que estivesse gentil o bastante, toquei seu joelho com o meu, obrigando-o a parar de encarar.
— Eles se vestem tão bem — as palavras se atropelaram para fora, incertas. Foi minha vez de virar o rosto em direção ao aglomerado de elfos: tão dedicados que estavam escolhendo a dedo quais garrafas me dar. Todos vestiam uma espécie de fronha, quase uma toga, branca como linho puro, mas puída o bastante para serem claramente muito velhas e muito usadas.
— Para um garoto rico como você, Blásio, estou surpresa que considere isso a última moda — havia riso na minha voz. — Aquilo são quase trapos.
— Oh, Mal, eu sempre esqueço que você não tem conhecimentos culturais básicos do mundo bruxo — foi a vez do garoto me olhar com convalescência, a concentração direcionada apenas a mim. Ergui uma sobrancelha para seu sorriso bonito. — O que você sabe dos elfos domésticos?
— A aparência deles — tombei a cabeça em direção a eles. — E que são criaturas serventes, que vivem em função de fazer a vontade dos bruxos.
— E isso é, bem verdade, a maior parte da informação — amuou. — Mas veja, a grande virada é nesta última frase: “vivem em função de fazer a vontade dos bruxos”. Isso pode ser tanto muito bom quanto muito ruim. Quero dizer, os elfos de Hogwarts parecem ser mais do que bem tratados — o ar saiu de seus lábios quase em um assovio enquanto olhava para eles mais uma vez. — Mas alguns dos que eu vi por aí, amarrados a famílias de elite, em sua maioria... Minha mãe já terminou alguns casamentos depois de ver o estado dos elfos.
Escravidão. Escravidão e tortura em sua forma mais degradante e cruel. As lembranças de Zabini se misturavam as de Potter com o suposto elfo Malfoy, Dobby. A criatura miserável, ferida e mutilada, coberta por um pedaço de pano tão engordurado, fedido e podre que seu último dia limpo tinha de ter sido a décadas. Dedos quebrados, orelhas cortadas, cabeças chutadas e corpos pequenos e encolhidos violentados pela baixeza dos que se julgavam tão superiores. Me encolhi com a dor compartilhada, senti minhas próprias cicatrizes arderem e repuxarem – ninguém as merecia.
— Sua mãe... — engoli o nada, flexionando os dedos para pararem de doer. Destroçados, esfolados, cortados, retalhados, cada ferida voltava e chiava se eu prestasse atenção o bastante para isso. — Por que?
— Porque a marca de servidão de um elfo doméstico é sua roupa e, não faz muito tempo, a minha cor e a de minha mãe foi a nossa.
O ano era 1992. Blásio Zabini não falava de si mesmo – aquelas mãos suaves e sorriso malicioso nunca haviam sido manchados. Também não falava de sua mãe – Serafina Zabini nunca teve sua cabeça abaixada até os pés por ninguém no mundo. Mas talvez falasse de seus avós ou de suas bisavós. E que fossem até mesmo de tataravós, nunca seria longe o suficiente. Não havia uma data limite para algo assim, para essa dor, para um legado de agonia e de sobrevivência. Ele o carregaria consigo, para sempre, na pele.
Quando as bebidas e o bolo chegaram, meu coração trovejava. Sempre me senti muito grata para com aquelas pequenas criaturas mais que prestativas: elas se dispunham a me alimentar em horas proibidas, sempre limpavam de forma quase instantânea minhas roupas e coturnos sujos de lama da floresta, serviam café na mesa da Sonserina apenas pelo meu agrado pessoal. E não pediam muito por tudo isso, na verdade, não pediam por nada. Ficavam exultantes, porém, com um simples “obrigada” e “por favor”, seus olhos brilhavam para sorrisos e rodeavam os que elogiam seus feitos.
Mas até hoje nunca havia sabido o nome de nenhum deles.
Equilibrei o bolo de Daphne de volta para a Masmorra em silêncio enquanto me lembrava dos rostos de Tinky, Faw, Hoops, Duk e Jeps – os cinco elfos que escolherem, com tanto zelo, bebidas que sequer tínhamos o direito de pegar. Também de Wonny, o de olhos muito azuis que havia feito o bonito bolo de aniversário decorado mesmo no meio de suas ocupações no castelo, mesmo que pudesse ser pego e se metesse em encrenca, mesmo que não precisasse.
E mesmo no meio da festa na decorada sala comunal (Hopkins e Nott haviam perdido o jantar para pendurar o brasão dos Greengrass acima da lareira onde nos reuníamos, além de montar uma mesa digna de chá das cinco), na companhia de amigos distantes ainda risonhos e esquecidos de desentendimentos amargos, eu ainda podia sentir meu corpo queimar. Não o caminho sinistro de minha marca, mas nos muitos vestígios de uma história terrível, feitos por alguém achou que tinha o direito escrevê-las em mim.
A despeito disso, Daphne Greengrass teve seu aniversário como merecia, o evento em si trazendo um estimado dia de trégua entre todos nós. Foi uma pena, mas não uma surpresa, que já no dia seguinte tudo não parecesse um sonho distante – ou quase isso. Pansy Parkinson, apesar de ainda se manter eriçada e tensa como um bicho ferido, agora ao menos se dignava a lembrar que existiam outras no dormitório além de Bulstrode e os rapazes, a mérito deles, já não se sentavam tão próximos por muito tempo.
Mas o tempo, como é de hábito, fez seu trabalho. A muralha de aço, pedra e gelo havia sido rachada, criando uma abertura notável, mas ainda estreita. Os dias provaram que ninguém estava particularmente empenho em tampá-la novamente e, em quando novembro se despediu duas semanas depois, o segundo ano da Sonserina era mais uma vez uma unidade de roupas caras, sobrenomes floreados e sorriso de veneno destilado. Estavam todos com muito assunto para conversar, pois dezembro trouxe a ansiedade para o recesso do feriado para cada poro de meus colegas.
Blás já tinha tudo pronto com sua mãe: iria, de fato, para Grécia conhecer seu novo padrasto. Contou que pelas cartas que trocava com Serafina, pareceria um homem caloroso e entusiasmado com a vida, dado para esportes e ar livre. Tinha uma ilha particular com uma villa imensa, mas também outro no continente e estava mais que disposto a mostrar cada canto que seu enteado quisesse. Ficaria duas semanas sob o sol grego, fugindo da neve que já cobria os terrenos do castelo e de toda Grã-Bretanha. Prometeu que escreveria para todos e traria lembranças.
As irmãs Greengrass estavam ansiosas para voltar para casa. Astoria, pela primeira vez separada dos pais por tanto tempo, sentia saudade do seio familiar. Daphne não mostrava tantos sintomas quanto a irmã, mas isso devia pelo fato de que grande parte de sua ansiedade no ano anterior era para vê-la. Queria, no entanto, voltar para sua casa e ver outra coisa além da pedra das paredes do castelo. Sentimento que era compartilhado por Parkinson que, não duvidava, devia estar com algum calendário próprio para eliminar dia por dia. Emily também tinha certa pressa pelas férias – sentia falta de seu gato, que havia deixado mais uma vez em casa para sua mãe não sentir tantas saudades suas.
Isso fazia com que eu ficasse mais uma vez sozinha no dormitório, o que contribuiu para minha própria ansiedade. A lembrança doce e quente do ano anterior me acolhia, dos dias alegres e despreocupados na Torre da Grifinória e noites em frente a lareira com Lagrum. Eu sabia que ele viria, talvez não outra vez como uma surpresa, mas como uma tradição – o feitiço ainda me derrotava e, graças a minha incompetência, meu amigo agora rastejava sobre a neve fria, muito longe do conforto que poderia lhe dar, que era de seu direito.
Era o dormitório dos rapazes que não iria ficar abandonado, desta vez. Apesar de Nott também estar impaciente para arrumar suas malas, Draco contou que não voltaria para Wiltshire. Em meias palavras acompanhadas por olhos de aço espesso e gelado, explicou que seu pai recomendou que permanecesse no castelo. Mais tarde soube da história mais detalhada por Ronald Weasley: Arthur andava fazendo, com cada fez mais frequência, batidas na porta dos Malfoy em busca de qualquer coisinha com um pingo de magia negra que pudessem ter. Lucius não queria o filho por perto para os inconiventes e apenas seu rosto duro e emoções farpadas me impediram de puxar a linha da discórdia.
Tenho tanta pena, ele disse uma vez, dessas pessoas que tem de passar o Natal em Hogwarts porque a família não as quer em casa. Na época, havia mirados seu veneno em direção a Potter. Tinha a arrogância de seu lado, estampada em seu nariz empinado e no sorriso fino e falso. Queimei para o lembrar do evento, mas os olhos que encontraram os meus me disseram que ele já o fazia. As estrelas transformadas em metal insensível me desafiaram, mas recuei sem arrependimentos. Uma presa já abatida não precisa de mais emboscadas.
Trazendo o garoto de testa rachada para conversa, o lado vermelho e dourado da escola estaria muito mais cheio. Harry ficaria, em primeiro lugar para escapar do convívio com sua família trouxa odiosa e em segundo pela poção borbulhando no banheiro do segundo andar. Era o mesmo motivo de Granger – os planos do trio para “desmascarar” Draco estavam a pleno vapor para ela apenas se despedir por duas semanas, além que talvez tenha se sentido excluída do Natal anterior, onde ela foi a única a ir para casa. E teria sido a única outra vez, pois os Weasley também não pegariam o trem. Ronald, Fred, Jorge, Percy e até mesmo Gina anunciaram que escreveram os nomes na lista: os pais estavam indo para o Egito visitar Gui, o outro filho mais velho, da mesma forma que foram para a Romênia para ver Carlinhos no ano anterior. E como à época, os outros filhos não se despuseram a acompanhá-los.
Já na segunda semana de dezembro, o trio trabalhava duro para acelerar a poção que ainda estava na metade. Haviam decidido que, já que Malfoy ficaria, as festas seriam a oportunidade perfeita. Mas já não havia mais como continuar por conta própria e a hora de arriscar os pescoços (e a permanência na escola) havia chegado: precisávamos de chifre de bicórnio e da pele de ararambóia, encontrados neste castelo apenas no estoque pessoal de Severo. Potter não estava nada ansioso para e eminencia do roubo.
— Prefiro encarar o tal monstro lendário de Slytherin a deixar Snape me apanhar assaltando sua sala — se as ameaças de Filch de pendurar os alunos pelos pulsos na parede eram vazias e ridículas, pois aquele velho asmático tinha vontade de mais e capacidade de menos, a fantasia sombria era preenchida com o diretor da Sonserina fazendo as honras e isto era algo crível.
— Eu acho que a Mal devia ir — Ronald me ofereceu, tão indisposto a se colocar na reta de meu professor quanto o amigo. — Ela passa tanto tempo lá que deve saber até mesmo a organização dos ingredientes.
— Não que seja mentira, Weasley — tombei a cabeça e pressionei meus lábios, analisando a ideia. Seria fácil para mim. Eu conhecia aquela sala tão bem quanto o próprio homem e tinha conhecimentos mais do que sólidos para identificar o que precisávamos em segundos. — Mas não se esqueça que, além de Severo me considerar uma das únicas alunas competentes e vigiar meu caldeirão de cinco em cinco minutos, a minha dupla é Draco.
E o garoto prestava atenção demais, ainda mais em mim. Com dois pares de olhos pregados em meus movimentos, um de forma descarada e outro disfarçado, era preciso algo grande para que eu pudesse escapulir em direção ao armário por um ou dois minutos.
— O que precisamos — Hermione se fez ouvir em um tom eficiente, quase mecânico, como se ditasse a lista de compras. — É de uma distração. Então um de nós pode entrar escondido na sala de Snape e tirar o que for preciso — não me surpreendi por seu cérebro brilhante entender meu raciocínio, mas sim com o que veio a seguir. — Acho que é melhor eu fazer o roubo propriamente dito. Vocês dois — ela olhou para os garotos assustados. — Vão ser expulsos caso se metam em mais uma encrenca e você — seus olhos castanhos vieram em minha direção. — Tem um ponto. Mesmo com Snape distraído, justo Malfoy é sua dupla. Ele pode perceber algo, desconfiar, e tudo que não precisamos é que ele sinta que há algo de estranho acontecendo. — Mione respirou fundo, os ombros retos e rosto decidido. — Eu tenho a ficha limpa. Então só o que têm a fazer é causar bastante confusão para distrai-lo por uns cinco minutos.
Os ânimos não se relaxaram. O sorriso afetado de Harry mostrava como ele considerava causar confusão na aula de Gancho tão seguro quanto cutucar o olho de um dragão, mas não tínhamos escolha. Não havia replicas para a logica de Granger e tudo aconteceria na tarde de quinta-feira, quando Grifinória e Sonserina tinham aulas duplas de poções. Sempre ministrada em uma das masmorras maiores, o frio era afastado pelos vinte caldeirões acesos e fumegantes em carteiras de madeira, dividindo espaço com balanças e frascos de ingredientes.
A aula era sobre a Solução para Fazer Inchar e Severo, como de costume, vagava entre as carteiras e o vapor, soltando comentários mordazes e desdenhosos sobre o trabalho dos alunos da Grifinória – mesmo de Hermione que, eu sabia, tinha uma poção perfeita, enquanto ignorava a de Goyle que tinha a cor amarelo-catarro e fedia, invés de estar com o laranja opaco inodoro que deveria – mesmo que ninguém da Sonserina estivesse o estimulando mais. Pansy se absteve de rir em voz alta em honra a nossa amizade reatada, permanecendo apenas com um sorrisinho travado no rosto, e com Malfoy em silêncio, seus capangas também não reagiram.
Como o esperado, ele voltava com mais frequência na mesa que dividia com Draco, fazendo barulhos de aprovação e maneando com a cabeça. Éramos seus alunos favoritos e não quero dizer que ele não tinha razão nisso: tanto eu quanto o garoto tínhamos poções impecáveis além de a realizar com facilidade e silêncio. Mas se Gancho fosse justo, ao menos Granger também estaria no time. Por falar nela, olhei ao redor no exato momento em que ela acenou para Potter, bem quando Severo deu as costas para aterrorizar Neville, e eu soube que estava na hora.
Em questão de segundos o garoto se abaixou e levantou outra vez, lançando no ar um objetivo pontudo e fumegante – um fogo Filibusteiro. Mas não o fez ao acaso. Mirou justo na poção quase radioativa de Gregory, acertando em cheio. A histeria de dezessete vozes gritando ao mesmo tempo irrompeu quando o caldeirão explodiu, fazendo chover por toda a classe respingos da poção. Tinha que beijar cada centímetro da cara escamosa de Lagrum, pois me lancei para trás bem a tempo de sair da área de alcance. Malfoy, ao meu lado, infelizmente não teve tanta sorte: seu nariz bem feito e arrebitado agora estava do tamanho de uma goles e não foi o único. Pansy, Blás e Bulstrode também haviam sido atingidos, e agora orelhas, lábios e até mãos cresciam como se alguém bombeasse ar para dentro delas. O próprio Goyle teve o maior azar com seus olhos crescendo até atingirem tamanhos de discos de vinil.
O lado dos leões foi muito menos atingido, mas não impediu que também entrassem pânico, até mesmo porque ver membros crescerem até proporções desumanas não era nada bonito. As únicas azaradas foram Lavender Brown e Padma Patil, que faziam dupla no imediato oposto a explosão e eram as que choravam mais com seus braços e línguas enormes.
— Silêncio! SILÊNCIO! — Snape rugia ao tentar restaurar a calma de sua classe, tentando juntar as peças do acontecimento. Pelo canto do olho, vi Hermione aproveitar o pandemônio e entrar de forma discreta em sua sala. — Quem recebeu borrifos, venham até aqui tomar uma Poção para Fazer Desinchar, quando eu descobrir quem foi o autor disso...
Quase metade da classe mancou e se atropelou em direção a mesa do professor, Draco sendo o primeiro da fila com a cabeça tombada pelo peso de um nariz do tamanho de um melão. O tempo foi preciso e Granger já estava de volta, com a frente das vestes cheia, se sentando outra vez ao lado de Longbottom – que incrivelmente havia saído ileso da confusão. Depois de todos tomarem sua dose e os inchaços murcharem, Severo ainda queria sangue. Suas emoções se mesclaram e afiaram até se transformarem em mil lâminas brilhantes refletidas em seus olhos acesos de ira depois que foi até o caldeirão de Gregory e pescou os restos negros e distorcidos do fogo de artifício.
— Se eu um dia descobrir quem jogou isso — o sussurro de lábios duros do diretor da Sonserina era como a proclamação de um carrasco no silêncio opressor da masmorra. — Vou garantir que esse aluno seja expulso.
Talvez, se não tivesse algum instinto primal em odiar e culpar Harry por tudo que acontecia (e, infeliz seja, desta vez tinha razão), quem sabe tivesse se dado ao trabalho de olhar na minha direção. Invés disso, se concentrou no garoto pálido e com cara de assustado, ignorando o que poderia ver e ouvir com a varinha em punho se direcionasse metade de suas lâminas para mim. Ninguém ficou mais do que cinco segundos em classe depois que o sinal soou, e Potter ainda soava frio enquanto corríamos para o banheiro do segundo andar.
— Ele sabia que fui eu — afirmou com o coração ainda disparado. — Eu senti.
Eu não achava que sabia, mas tinha certeza que possuía fortes suspeitas. Severo não era insano de invadir a mente de um aluno desta forma, então o feitiço não foi feito. Mas ele tinha aptidão o suficiente para ser rodeado pelo o nervosismo do garoto, pela sua ansiedade e temor. Ele nunca poderia provar, mas eu sabia que guardaria o ocorrido com carinho e zelo na memória.
— Snape não pode provar que foi você — Weasley deu voz aos meus pensamentos, colocando a mão no ombro do amigo depois que Mione despejou os ingredientes no caldeirão. Agora eram só mais duas semanas.
— Conhecendo Snape, uma maldade — ele respondeu à medida que a poção continuava a borbulhar. Permaneci em silêncio, eu sabia que não havia defesa. Eu esperava que o garoto andasse na linha, pois não havia duvidas que Severo se alimentaria da sede de vingança por um bom tempo.
Já era dia dezessete de dezembro e a maioria dos meus colegas tinha as malas quase prontas para embarcarem para a casa no sábado de manhã. A ansiedade pelas férias foi trocada, no entanto, pelo pergaminho afixado naquela manhã no quadro de avisos do saguão de entrada. Durante todo o dia alunos de todas as casas e todos os anos pararam ali, sorrindo e comentando, passando adiante a mensagem escrita: o clube de duelos seria reaberto naquele dia mesmo, às oito da noite, logo após o jantar, bem no Salão Principal.
Foi quando Snape, enfim, teve sua chance.
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