Corona II

31 Conduta Incitada


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Obrigada a Luiza Avelino, Lua Helena e Ella Branco pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Com a calmaria e o tempo desde o último ataque, foi engano meu pensar que Hogwarts não estava mais preocupada com o Herdeiro. Havia uma verdadeira multidão atulhada no Salão Principal, cujo as mesas haviam desaparecido e sido substituídas por um único grande palco dourado encostado em uma parede, iluminado por milhares de velas flutuantes, refletindo no teto de veludo negro. Tinha a impressão que o primeiro ano em peso estava ali, mas alunos de todas as casas e todos os anos, talvez metade da escola e um pouco mais, todos de varinha na mão e olhos ansiosos.

Eu mesma não havia vindo sozinha: as irmãs Greengrass, Pansy, Malfoy, Blásio, Crabbe, Gregory e até mesmo Emily estavam ali. Apenas Sue Hopkins havia permanecido na Sala Comunal, acompanhada de Theodoro. Eu os olhei antes de sair, sentados lado a lado no sofá escuro, e pensei quanto tempo já havia sido desperdiçado. Mesmo que Sue não mais o hostilizasse, ainda havia tristeza em seus olhos. Os sentimentos de Nott eram puros e eu não duvidava que ela soubesse disso – mas a dúvida de que isso sobreviveria a tantos séculos de preconceito era o que partia seu coração.

— Quem acha que vai ser o professor? — Vincent perguntou para Gregory, mas Parkinson estava perto o bastante para enfiar o nariz pequeno na conversa.

— Como é, Crabbe? — Uma sobrancelha se arqueava acima do olho estreito. — Por qual razão não poderia ser uma professora?

— Não disse que não podia, mas...

— Mas? — Virei o rosto em sua direção. Vincent era mais baixo que Goyle, com menos cabelo também e com mais aparência de primata. — Hogwarts conta com um corpo docente feminino magnifico e também não entendi a razão de sequer pensar na possibilidade de uma delas ministrar o curso. McGonagall, por exemplo, é uma bruxa com "b" maiúsculo.

— Mas ela teria tempo? — Astoria perguntou, olhos ansiosos tentando ver além do mar a nossa volta. — Quero dizer, ela também não é a vice-diretora? Pode ser muito ocupada...

— Pouco me importa — Draco encolheu os ombros. — Contanto que não seja o patético do Lockhart. A gata do zelador é mais capaz do que ele.

— Então comece a procurar Madame Nor-r-ra pelo castelo — Daphne murmurou, os olhos no palco e o canto da boca torcido para baixo. A razão era bem simples: por mais que a visão de Gilderoy fosse apreciada pelos seus olhos, não havia qualquer chance de defender que o homem fosse bom em algo além de sorrir e posar para fotos. E, mesmo assim, lá estava ele andando acima de nós com vestes ameixa-escuras esvoaçantes, tão bem passadas e arrumadas que estariam mais cabíveis a um baile do que um duelo. Mas quem o acompanhava...

— Bem — respirei com um sorriso, meus olhos focados nos tuneis escuros que conhecia bem. — Isso vai ser interessante

Era Capitão Gancho ali, em suas roupas pretas costumeiras e com o rosto endurecido, os lábios torcidos para baixo como se bebesse veneno. Me deliciei com sua impaciência e desprezo latentes, quase pulando no lugar de ansiedade. Lockhart provava, mais uma vez, ser o cumulo do obtuso ao não perceber os sentimentos do meu professor em relação aquele momento, a ele. O ganhador do sorriso mais bonito pelo Seminário das Bruxos devia ser suicida em se colocar na mira da varinha de Severo Snape de bom grado.

— Aproximem-se, aproximem-se! — Gilderoy acenou para todos, silenciando o salão, sua voz alta preenchendo meus ouvidos mais vezes do que era obrigada a suportar em suas aulas. — Todos estão me vendo? Todos estão me ouvindo? Excelente! O Prof. Dumbledore me deu permissão para começar um pequeno clube de duelos, para treiná-los, caso um dia precisem se defender, como eu próprio já precisei fazer em inúmeras ocasiões, quem quiser conhecer os detalhes, leia os livros que publiquei — a piscadinha no final fez risadas femininas subirem pelo silêncio. — Deixem-se apresentar a vocês o meu assistente, o Prof. Snape!

Com um largo sorriso e floreio, Lockhart exibiu o Mestre de Poções como se estivessem em um espetáculo. Severo não mexeu um centímetro de corpo ou de rosto, mas eu via seus olhos queimando e cheguei mais perto do palco, buscando sua mente com rapidez. Não havia obstáculos para mim na camada mais rasa de sua consciência, ainda mais quando a lembrança já me esperava: Alvo e os dois professores, um no lugar errado e hora errada, sendo oferecido sem consulta prévia – e aceitado sem devolução.

— Ele me contou que que sabe alguma coisa de duelos e desportivamente concordou em me ajudar a fazer uma breve demonstração antes de começarmos — Gilderoy continuou. — Agora, não quero que nenhum de vocês se preocupe, continuarão a ter o seu professor de Poções mesmo depois de eu o derrotar, não precisam ter medo!

O lábio superior de Gancho se crispou, os olhos escuros e cruéis mirados na figura pavoneada que era o professor. Mudei o peso de uma perna para a outra, me acomodando melhor para ver o que esperava o ano inteiro: alguma autoridade fazer algo contra o imbecil que teve o deboche de vir lecionar nesta escola. Lockhart e Severo ficaram frente a frente e se reverenciaram – ao menos, eu imaginava que era o que as duas partes deviam fazer, mas o primeiro pareceu quase um passo de dança e o segundo mal chegou a inclinar a cabeça. Logo em seguida, ergueram as varinhas cruzando-as no peito como espadas.

— Como vocês veem, estamos segurando nossas varinhas na posição de combate normalmente adotada — Gilderoy explicou para o salão silencioso. — Quando contarmos três, lançaremos os primeiros feitiços. Nenhum de nós está pretendendo matar, é claro.

— Diga por você — Malfoy murmurou, me fazendo perceber que havia acabado ao meu lado na beira do palco. E não estava mentindo. Snape mostrava os dentes como um bicho raivoso, os olhos fixos na jugular do outro. Se fosse Lagrum, eu sabia que se não fosse o rápida o bastante, minha cabeça estaria rolando no próximo segundo.

— Um... — Lockhart iniciou a contagem. Os dois ergueram as varinhas acima da cabeça, apontando-as direto um para o outro. — Dois...

Faça valer a pena, Gancho.

— Três!

Expelliarmus! — A voz de Severo foi alta e clara ao lançar o feitiço de desarmamento, e para meu deleite e de muitos outros, com ímpeto de sobra. Houve um intenso lampejo rubro e quando Gilderoy foi atingido, não apenas sua varinha foi arremessada, mas ele próprio. Seu corpo se elevou uns bons seis metros do chão ao ser atirado nos fundos palco, em direção a parede, onde colidiu com o barulho de um inseto esmagado antes de escorrer para o chão e ficar lá, um amontoado ameixa-escura.

— Grande homem! — Exclamei ao bater palmas, me misturando a ovação. Duvidava que houvesse um único aluno das masmorras que não estivesse dando vivas, mas não representávamos a totalidade pois haviam outras casas e outros anos ali, e muito mais gente havia acabado de descobrir um amor novo para com o diretor da Sonserina. Os olhos de Snape encontraram os meus e juro que acho que o vi torcer o cantinho da boca, mas então descobrimos que Lockhart ainda não tinha morrido.

— Muito bem! — Ele se levantava com esforço, as vestes quase do avesso e os cabelos tão ondulados e bem-penteados completamente em pé. Cambaleou de volta ao palco, o rosto lutando contra a dor e o instinto natural de sorrir. — Isto foi um Feitiço de Desarmamento, como viram, perdi minha varinha, ah, muito obrigado, Srta. Brown — era Lavender, já muito recuperada de seus dentes do tamanho de portas, que entregara a varinha do homem, as mãos tão tremulas e o rosto tão vermelho que parecia estar de toalha. Fugiu sem ar logo que os olhos azuis se desviaram. — Sim, foi uma excelente demonstração, Prof. Snape, mas se não se importa que eu diga, ficou muito obvio o que o senhor ia fazer. Se eu tivesse querido detê-lo teria sido muito fácil, mas achei mais instrutivo deixa-los ver... — A língua tagarela se enrolou, as palavras quase o fazendo engasgar, ao tirar os olhos da plateia e se focar em Gancho. Gilderoy me pareceu empalidecer três tons enquanto o sorriso virava algo nervoso e quase doente. Ele tinha algum instinto de sobrevivência, afinal. — Chega de demonstrações! Vou me reunir a vocês agora e separá-los aos pares. Prof. Snape, se o senhor quiser me ajudar...

Ambos professores desceram do palco, separando os alunos que achavam melhor. Não por coincidência, Severo foi o primeiro a chegar no trio de leões que, agora percebia, estava na terceira fileira do palco no lado oposto. Disse algo para eles e vi enquanto Ronald era separado e ficava de frente para Simas Finningan, um grifinório de seu ano. Pobre Potter se virou na mesma hora para Hermione, e foi quando a voz do professor se elevou, um sorriso afiado e frio nos lábios.

— Acho que não — e então olhou para minha direção, seus olhos estudando meu rosto, mas não foi meu nome que chamou. — Sr. Malfoy, venha cá. Vamos ver o que o senhor faz com o famoso Potter. E a senhorita — focou em Granger por alguns momentos. — Pode fazer par com a Srta. Greengrass.

— Qual delas, senhor? — Mione questionou, olhando ansiosa na direção do meu grupo. Seus olhos deixavam claro o que achava da escolha de pares, mas Snape já tinha saído. Draco se adiantou, o rosto se torcendo em arrogância e despeito ao se aproximar de Harry, sendo seguido por Daphne. Ela sabia que Hermione era talentosa e queria uma segunda chance para a irmã duelar com alguém de seu próprio ano, ao menos. Ao ficarem frente a frente, Granger lhe deu um sorriso ansioso e tenso, sendo retribuída por outro cordial. Iria ser uma luta justa. Uma que eu não poderia garantir que acontecesse se houvesse sido Parkinson, ou até mesmo Bulstrode.

O resto dos meus colegas, e eu inclusa, fomos rapidamente separados – Pansy agora estava de frente para Lavender Brown, Padma Patil não estava feliz ao se ver em parceria com Crabbe, um garoto lufano fez par com Emily enquanto Astoria havia acabado com alguém do segundo ano da mesma forma, uma aluna da Grifinória chama Isla Jones. Blás e Goyle foram os únicos que permaneceram entre os seus, virando-se um para o outro, pois era minha vez de Snape ter pairando em cima de mim.

— Você — e havia algo em sua voz, algo no escuro de seus olhos, rondando o limite da minha percepção. Tentei ler seu rosto, buscar traços que já conhecia, e o máximo que consegui foi malicia e um divertimento quase cruel, do tipo que me fazia querer enforca-lo com a capa, do tipo que me lembrava Greta e seus olhos azuis, sempre brilhantes de prazer para o sofrimento e a miséria alheia. — Venha cá.

Eu o segui entre a multidão, imaginando que tipo de espetáculo ele estava procurando para aquela noite. Potter e Malfoy eram como folgo e pólvora e Severo sabia disso. Ele sabia que os dois fariam do desporte de duelos algo pessoal, quase perigoso se tivessem capacidade, e como alguém sem o mínimo preparo e profissionalismo para professor, era o que ele esperava para ver. Quase podia ouvir sua torcida para que Harry acabasse humilhado de alguma forma – Draco não nada medíocre. Muito pelo contrário, era um bruxo poderoso que havia sido capaz de me machucar de verdade no ano passado com um ordinário Flipendo, o feitiço do cutucão. Também havia a possibilidade de o sangue quente do garoto explodir, levando-o a fazer algo passível de punição, que Snape bateria seu recorde para conceder.

Eram muitas chances de Gancho sair ganhando naquela noite e apenas uma contra. A de que Potter, um garoto criado no mundo trouxa e sem um pingo de conhecimento sobre duelos bruxos até dez minutos atrás e com nenhuma excepcional nota em Feitiços, derrotasse um oponente que respirou suas fundações desde criança. Mas eu estava confiante. Harry também nunca havia montado em uma vassoura na vida antes de sua primeira aula de voo e agora era o mais jovem apanhador do século. A lembrança, não tão sutilmente implantada na consciência do meu professor, fez com que parte de sua graça evaporasse – e uma dor subisse pela minha nuca.

Mas havia mais uma cena que Snape queria orquestrar. Uma mais pessoal, sem tantos ligamentos à uma vingança contra um garoto. Ele me levou direto para onde Neville Longbottom se encontrava sozinho, nervoso e acanhado, olhando de forma ansiosa para os pares já formados ao seu redor enquanto segurava a varinha com a mão suada e vermelha. Quando percebeu quem se aproximava ficou pálido, abriu e fechou a boca várias vezes e então se focou em mim.

— Encontrei uma parceira perfeita para você, Longbottom — o imbecil tinha o sorriso renovado em mais uma camada de sadismo. — Ou você finalmente aprende alguma coisa ou peço para o diretor dizer à sua avó que vá visitar o que sobrar no St. Mungus.

— Você não tem que ser um cretino em algum outro lugar? — Chiei entre os dentes, vendo o modo como o garoto se encolheu. O cretino não respondeu, mas se afastou ainda com o sorriso e sua capa esvoaçando atrás. Precisei de tudo de mim para não colocar fogo naquilo, e parte do meu sucesso foi por Neville já estar assustado o suficiente sem que eu tentasse matar um professor. Soltei o ar devagar, olhando para a figura nervosa à minha frente. — Por que está aqui, Longbottom?

O garoto ficou ainda mais vermelho, suas bochechas proeminentes me lembrando bolas de Natal.

— Eu sei que não sou... — Seu tom de desculpa fazia as palavras se enrolarem. — Você vai se atrasar comigo, Mal, eu não sou um bom...

— Por que está aqui, Longbottom? — Repeti minha pergunta, fazendo de minha voz algo manso e suave. Tinha a impressão que qualquer movimento brusco o faria pular e correr. — Quero uma resposta, não desculpas.

— Eu... — Neville engoliu em seco, ainda apertando sua varinha. Ou melhor, a varinha de seu pai. — Eu quero aprender a duelar.

— E para quê? — Os pares já estavam quase todo formados, mas mantive a calma, meus olhos focados nos castanhos do leão. Ele tinha de se lembrar que era isso que era. Que não havia sido um engano. Coragem, sangue-frio, nobreza. Era do que era feito, só precisava acreditar nisso. — Quer orgulhar sua avó? Ou seu pai? Talvez para se defender?

— Sim, tudo isso — aqueles olhos tristes, meio baixos, eram errados. Não combinavam com seu coração, com sua alma. — Mas eu...

— Prestou atenção nas instruções e está pronto? — Sorri para o garoto, feliz com a ponta acesa no fundo de seus olhos. — Surpreenda-se, Longbottom.

— De frente aos seus parceiros! — A voz de Lockhart soou, a seleção estava feita. — E façam uma reverencia! — Eu e Neville nos inclinamos, ou ao menos ele o fez. Minha reverencia parecia alguém com dor nas costas, mas ao menos fez com que o garoto risse. Já não suava tanto e havia cor outra vez em seu rosto. — Preparar as varinhas! Quando eu contar três, lancem seus feitiços para desarmar os oponentes, apenas para desarmá-los, não queremos acidentes, um... dois... três...

A postura e o movimento do feitiço estavam gravados na minha memória, minha magia ansiosa para ser direcionada e libertada. Fiquei parada, no entanto, esperando que Longbottom se atrevesse a erguer a varinha. E o fez, lentamente e indeciso, eu sabia que não haveria resultado mesmo antes da pronuncia sair de seus lábios e nada acontecer comigo ou com minha varinha, ainda bem segura na minha mão. Balancei a cabeça.

— Neville, não vai conseguir assim — mordi o interior da bochecha, mudando o peso de uma perna para outra, ignorando seu semblante oprimido. — Se lembra da primeira aula de voo?

— Lembro — suas bochechas se esquentaram. — Eu fiz bobagem, cai e me machuquei.

— Vamos voltar para um pouco antes disso, sim? — Me aproximei dele, tocando seu pulso com a ponta de meus dedos. Estava disparado. — Quando Madame Hooch mandou que fizéssemos a vassoura subir, a sua ficou parada. Sabe o porquê?

— Porque sou um desastre — ele resmungou, o rosto vermelho e os olhos baixos. Respirei fundo ao fazer seus dedos abrirem e pegar sua varinha. Estava molhada de suor, mas a limpei nas barras de minhas vestes e olhei para ele.

— Não — coloquei firmeza na minha voz, o bastante para que o garoto levantasse a cabeça e me olhasse. — Ela não subiu pois você não queria que subisse. Igual a lançar um feitiço. É uma boa varinha, Neville, mesmo que não seja sua. Mas ela não irá fazer todo o trabalho, na verdade, ela não serve para nada além de direcionar o que já está dentro de você. E assim como a vassoura, se ela ver que tudo que você tem é dúvida, vai ser duvida que ela vai entregar. Você precisa confiar em si mesmo para que sua varinha também confie, entendeu?

— Entendi, Mal, eu... — O garoto respirou fundo, chegou até mesmo a fechar os olhos por um momento ou dois e consegui ouvir seu coração, bem aos poucos, voltar a um ritmo saudável. — Poderia me devolver a varinha?

Sorri e coloquei sua varinha outra vez em sua mão e me afastei, permanecendo parada, esperando para ver qual lado sairia vencendo de sua psique. Quantos anos ouvindo que estava abaixo de todas as expectativas, que não era o suficiente, que sempre falhava? Alguma hora ele teria de começar a ouvir a si mesmo invés dos outros e com um discurso muito diferente. Um de que ele era capaz – não como o pai, mas como Neville.

— Aponte a varinha — incentivei para seu rosto torcido, apertado e quase dolorido. Precisava que algo o afastasse da sensação de ter a avó ao seu lado, medindo com uma régua injusta cada minuto de sua vida. Minha voz fez com que abrisse os olhos e não deixei que fechasse de novo, mantendo o contato visual. — Aponte a varinha, Longbottom, e se concentre. Visualize o feitiço. Agora, é só dizer...

Expelliarmus! — O feitiço foi um jato vermelho em minha direção, rápido e certeiro. Minha varinha teria sido lançada como Lockhart se o feitiço de proteção não houvesse ricochetado em minha memória, meu braço traçando uma linha diagonal de baixo para cima quando Protego impediu que o feitiço me alcançasse, mas não anulasse. O clarão vermelho foi rebatido para o lado, atingindo uma menina da Corvinal do quinto ou sexto ano, que olhou de cara fechada para nós antes de ir catar sua varinha pelo chão.

A boca aberta e os olhos arregalados foram sinais o bastante para que eu me aproximasse outra vez do leão em choque. Toquei seu ombro e isso fez com que piscasse, seu rosto se virando para mim com cuidado, quase como se estivesse com medo de fazer algum movimento brusco. Mas meus lábios estavam torcidos e uma sobrancelha arqueada, esperando que percebesse que não era um sonho.

— Eu consegui? — Sua voz saiu por um fio, o que fez uma risada subir pela minha garganta. Não maldosa, não ruim, mas quase comparecida. Apertei meus dedos em seu braço ao balançar a cabeça.

— Tire o tom interrogativo da frase, Neville, é claro que conseguiu — e então trombei em seu corpo, fazendo-o balançar para sair do transe. — Eu sabia que iria.

— Mas... — Ainda com o rosto quase lívido, ao menos não estava mais na pose de duelo. E talvez, apenas talvez, fosse alegria genuína e satisfeita se expandindo no fundo de seus olhos escuros. — Não te atingiu...

— Bom, desculpe por isso, foi reflexo — encolhi os ombros, batendo a ponta da minha varinha na palma de couro da luva. — Mas acho que deveria ter deixado o feitiço me atingir, teria sido mais esportivo.

— Mas você não disse nada, Mal — E agora era oficial, o menino estava sorrindo. A energia expansiva e quase elétrica que exalava de seu corpo fez o meu formigar, sua ansiedade em não deixar passar o momento fazendo cocegas em meu próprio humor. — Não pronunciou, digo. Foi o Feitiço do Escudo, não foi?

— Foi — inclinei minha cabeça, um sorriso mais fino em meus lábios. — Você quer tentar?

Ele queria. Não o feitiço não-verbal, mas a defesa em si. Estava exultante, satisfeito, confiante. Talvez pela primeira vez na vida. A vitória havia lhe dado uma base que nunca possuiu e queria fazer o máximo possível de pé nela enquanto durasse. Neville escutou com atenção minha explicação sobre a postura e a manobra, além de repetir consigo mesmo várias vezes a pronuncia bem clara: pro-te-go. Era um dos feitiços que deveriam ter sido passados para nossos conhecimentos no ano anterior em Defesa Contra as Artes das Trevas e que apenas meu tempo gasto na biblioteca fizeram com que eu o conhecesse.

Mas quando posicionei minha varinha em direção ao rapaz de rosto decidido e varinha firme, percebi como estava engajada em nossa pequena aula.

— Parem! Parem! — O grito agudo e estrangulado de Gilderoy quebrou em meus ouvidos como um espelho, me fazendo olhar (e finalmente perceber) o caos que a maioria das duplas havia se tornado. Uma nevoa verde cobria quase todo o chão do Salão Principal, envolvendo cenas que dividiam entre a gloria e a miséria: Greengrass e Granger estavam ofegantes, inclinadas com mãos nos joelhos, mas ao menos não me pareciam hostis, apenas esforçadas. Ronald segurava Finningan pelas vestes, o segundo quase mais branco que papel, enquanto balbucia desculpas e perdões por sua varinha quebrada. Parkinson havia feito algo com Brown que a garota chorava no chão, e Padma mancava para longe de Vincent com um rosto vermelho. Bulstrode ainda lutava com o rapaz lufano, mas não com a varinha: havia prendido seu pescoço em uma chave de cabeça. Asty e a tal Jones faltavam rosnar uma para outra, com ombros tensos e varinhas apontadas para o pescoço, e Gregory me parecia muito inclinado a largar a sua e partir para cima de Blásio com as próprias mãos.

A dupla que mais havia causado estrago, no entanto, tinha de ser Harry e Draco. Era bem onde ambos os professores estavam, com varinhas em punho para apartar (ao menos, Snape era capaz, apesar de duvidar que de fato fosse interferir). Ambos estavam vermelhos, descabelados e ofegantes. Meio dobrados e claramente doloridos, mas com olhos que prometiam muito mais do que seja lá que aconteceu.

— Ai, ai-ai, ai-ai — Lockhart exclamou em um suspiro, se desprendendo da dupla e rondando a sala, analisando o resultado das demais lutas. — Levante, Macmillan... Cuidado, Mis Fawcett... Aperte com força, vai parar de sangrar em um segundo, Boot... — Quando se deu por satisfeito (e certificou que ninguém havia se machucado seriamente), parou no meio do salão. — Acho que é melhor ensinar aos senhores como se bloqueia feitiços hostis — eu daria muita coisa para poder gravar o momento em que os olhos azuis do homem cruzaram com os negros de Snape – ainda brilhavam com o Inferno prometido, e Gilderoy desviou o olhar. — Vamos arranjar um par voluntário, Weasley e Finningan, que tal vocês...

— Uma má ideia, Prof. Lockhart — Gancho quase ronronou enquanto deslizava até o outro, sua capa quase se arrastando no chão como uma espécie de noiva ao avesso. — A varinha de Weasley causa devastação até com o feitiço mais simples. Vamos ter que mandar o que sobrar do sr. Finningan para a ala hospitalar em uma caixa de fósforo — as orelhas de Ronald se tornaram da cor de seus cabelos com o comentário cruel e verdadeiro. Simas ainda estava mole e branco, mais encostado em uma parede do que apoiado nas próprias pernas. — Que tal Malfoy e Potter?

— Ótima ideia! — Gilderoy exclamou com tanto entusiasmo que quase acreditei que achasse que a combinação era algo instrutivo e didático, e não que apenas estava quase se ajoelhando e agradecendo por não ser ele e Severo. O homem fez sinal para que a dupla se aproximasse do meio do salão enquanto todos os outros se afastavam, criando um grande circulo em volta de Harry e Draco, acompanhados de Snape e Lockhart. Mantive meu lugar na orla do círculo, a varinha já guardada e Longbottom ainda ao meu lado. Snape não iria desistir assim tão fácil.

O problema era que, pelos olhos frios e rostos congelados dos dois garotos, eles também não.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 30 ♥ Malfeito, feito! ♥