Corona II
32 A Herdeira de Salazar
Notas iniciais
Eu sabia que iria ser um desastre quando Lockhart deixou a varinha cair depois de fazer um floreio complicado na tentativa de ensinar alguma coisa a Harry e Snape, Salazar tenha piedade, sorriu. Observei enquanto o homem flutuava com o canto dos lábios erguidos em direção a Draco, surrando algo em seu ouvido – baixo demais para conseguir escutar com o burburinho ansioso da plateia. Mas Malfoy soltou uma risada odiosa que fez os olhos frios brilharem como aço de espada ao trocar farpas sussurradas com seu adversário.
— Três... — Gilderoy iniciou a contagem após bater no ombro de Potter de jeito quase encorajador, se não fosse sua completa burrice. Porém, como o leão que era, o garoto manteve a varinha firme e os olhos concentrados. — Dois... Um... Agora!
— Serpensortia!
Draco quase não esperou a contagem terminar: levantou o braço na velocidade de um pomo de ouro e apontou em direção a Harry. Não foi, no entanto, o Feitiço de Desarmar que escolheu, ou qualquer outro encantamento ou azaração que eu conhecesse. Nenhum clarão colorido ou jato de magia, apenas uma explosão na ponta de sua varinha antes que uma cobra tão escura quanto Lagrum caísse pesadamente no chão entre ambos, erguendo-se no mesmo instante, seu bote armado.
Houveram gritos. O círculo de alunos se abriu ainda mais, assustado e horrorizado, mas não me mexi. Permaneci parada, os olhos presos no réptil escuro. Devia ter por volta de dois metros com a grossura de uma perna, além uma cabeça triangular para informar que era venenosa. Criada do nada e sem proposito algum, ela se enroscou ao tentar entender o ambiente, mais disposta a atacar pelo medo do que por qualquer outra coisa.
— Não se mexa, Potter — era a voz de Severo e me obriguei a tirar os olhos da cobra por um momento para guardar seu rosto. Era prazer em seu sorriso afiado, no deboche que se acumulava nos olhos. Ele sentia tanta satisfação por colocar uma criança na frente de um animal perigoso e letal que senti meu estômago afundar e minhas cicatrizes queimarem. Eu conheci uma pessoa assim, uma vez. Ela também tinha essa expressão quase faminta ao contemplar o medo. — Vou dar um fim nela...
— Permita-me! — Lockhart não poderia perder a chance de se exibir. Se adiantou para frente, gritando e brandindo a varinha, que pelo menos não saiu voando desta vez. Mas a cobra, por outro lado, foi arremessada para cima com estrondo ao invés de desaparecer, chegando a três metros antes de despencar outra vez com um barulho alto e quase nauseante. Quando ela voltou a se erguer, furiosa e indignada, e deslizou em direção ao garoto lufano que fizera dupla com Emily – presas amostra e bote armado – eu soube que tudo que ele tinha eram segundos.
— Deixe-o em paz! — A voz de Harry explodiu em um grito e precisei de meio segundo para perceber que não era bem a voz dele. Mais fria, de alguma forma, arrastada e um pouco chiada. Apenas uma vez eu já tinha ouvido mais alguém falar naquele tom, e não era bem um se humano. Então quando a Língua das Cobras saiu em perfeição da boca do Garoto de Ouro, cheguei a piscar e sentir minha boca aberta. Não que eu fosse de toda surpresa, afinal, ele também ouvia os sussurros da criatura de Slytherin, mas me parecia apenas errado. Como uma peça forçada a se encaixar no quebra-cabeça.
Potter, de qualquer forma, conseguiu que a cobra interrompesse o ataque ao garoto lufano, um tal de Justino, se o terror dele estivesse chegando em mim com precisão. Ela se virou e ficou de frente ao leão, a língua bifurcada saindo e voltando várias vezes de sua boca ainda aberta, as presas pingando veneno. O analisava, cheirava, sentia. E, assim como eu, também percebeu o erro primal – a capacidade não condizia com seu nervosismo, com sua tensão e ansiedade. Harry não sabia o que estava fazendo, mas ela sim.
Você não tem poder, ela sibilou a sentença, arrogante e desdenhosa. Ela mudaria o alvo, sem problema nenhum atacaria aquele impostor ao invés do menino apavorado. Sabia exatamente onde ficava seu pescoço e, no silêncio de chumbo que caia no Salão Principal, nem mesmo Snape poderia levantar a varinha com rapidez o suficiente. Ele esperaria demais, já estava esperando. O corpo da cobra se retesou, o sibilo profundo e longo fazendo o medo alheio lamber minha pele, mas o empurrei. Não era meu.
— Não se atreva — rosnei em uma ordem, meus pés indo para frente, em direção a cobra congelada. Podia sentir cada par de olhos em mim, mas me concentrei no réptil arisco ao meu lado. Em resposta, a cobra desabou. Dócil e inofensiva como um filhote, ou ainda mais. Desarmou o bote e se enrolou outra vez, a cabeça virada em minha direção. — Não vai fazer mal a ele e nem a ninguém, fui clara?
Me machucaram, senhora... Ela argumentou seu comportamento e senti meu coração doer. Não tinha culpa. Esse ser criado por magia, feito já na fase adulta e com sequer um nome, não tinha qualquer culpa de ter ficado assustada e irritada. Prendi o suspiro na garganta sabendo que sua breve vida terminaria logo.
— Foi o egoísmo de alguém maldoso que te obrigou a protagonizar tudo isso — as palavras não foram muito mais do que um sussurro. — Ele irá pagar, eu prometo. Agora descanse.
A cobra desapareceu em fumaça preta e eu não precisava olhar para trás para saber que Gancho havia, enfim, tomado uma atitude e encerrado o circo. Sem distrações, eu agora tinha consciência demais da multidão a nossa volta. Olhos demais, sussurros demais, mas foi o infeliz que Potter salvou que tirou a rolha da garrafa.
— Do que é que vocês acham que estão brincando? — Não me dignei a virar e procurar seu rosto, mas o tom alto mesclava muito bem o pavor e a raiva, além de seus passos ecoarem para longe, para fora do Salão Principal. O barulho das portas se abrindo foi a deixa para que o zumbido crescesse em uma espiral. Dedos em riste, emoções sombrias, vozes abafadas. Minhas costas queimaram com o olhar de Snape e de Draco nelas, mas não olhei para trás, não olhei para nenhum deles. Estava concentrada em Harry e em seu olhar quase vago.
Me adiantei para frente e agarrei a manga de suas vestes, o puxando comigo em direção a saída. O circulo se abriu para passarmos como se tivéssemos alguma doença mortal, mas não me importei desde que saíssemos dali. Precisava falar com ele, precisava conversar com o garoto e explicar algumas coisas desde o primeiro ataque e não seria rodeada de idiotas com medo que faria isso.
Guiei Harry pelas escadas até uma sala de aula deserta pelo horário e fechei a porta atrás de mim. Tanto eu quanto ele ainda estávamos com as varinhas em punho, mas foi a minha que se iluminou com o clarão de Lumus. Foi quando consegui ver o rosto atordoado do garoto e mordi minha língua. Eu não precisava atravessar para sua mente para ter certeza que Potter não tinha ideia do que aconteceu.
— Aquilo não foi muito inteligente, Harry — comecei devagar, experimentando as palavras. — Com toda essa confusão dos ataques e do Herdeiro de Sonserina, não foi nada inteligente se revelar um ofidioglota.
— Um o que?
— É alguém com capacidade de falar com as cobras — eu mesma não sabia disso até o ano anterior, quando Dumbledore me explicou que minha habilidade tinha nome. — Eu sabia que você era, quero dizer, era sobre isso que eu queria falar na noite que Madame Nor-r-ra foi atacada. A única explicação para tanto eu quanto você podermos ouvir a criatura é porque deve ser algum tipo de cobra.
— Mas e daí? — Suas sobrancelhas se franziram como seu rosto, parcialmente iluminado pela luz da minha varinha. — Aposto que um bocado de gente deve ter essa habilidade!
— Eu duvido que seja verdade, Potter, tanto pelo fato de que se mais alguém escutasse a criatura, já teríamos notado a essa altura, tanto pela reação no Salão Principal — balancei a cabeça. — Mais do que isso, ofidioglogia não é um dom comum. Pouquíssimos bruxos conhecidos a exibiram, a maioria... Não é uma habilidade bem-vista.
— Por que?! — Eu via a irritação faiscando em seus olhos verdes, mas deixei que viesse. Ele precisava disso antes de enfrentar os preconceitos e assombros do resto do castelo. — Eu ajudei o Justino! Disse para a cobra não o atacar...
— Eu ouvi cada palavra, Harry, mas eles não. Justino, não — franzi as sobrancelhas ao ligar o nome ao rosto do garoto lufano. — Os outros não conseguem entender quando se fala a Língua das Cobras. Apenas as cobras e outros ofidioglotas. Você bem podia estar atiçando-a, até onde eles sabem.
— Mas, bom... — as palavras tropeçaram dentro de sua boca, o nervosismo aparecendo em mãos agitadas e olhos febris. — Por que foi burrice?
— A capacidade de falar a Língua das Cobras não é algo popular — reforcei. — Principalmente agora, em Hogwarts, já que Salazar Slytherin foi seu dotado mais famoso. Aqueles tontos devem estar agora mesmo traçando sua árvore genealógica.
Juro que vi seus lábios chegarem a ficar azuis, a pele empalidecer dois tons. Conseguia ouvir seu coração batendo pesado e lento e suspirei. Potter já era apavorado com a ideia de ter algo a ver com a Sonserina por causa do Chapéu Seletor, com mais essa...
— Mas eu não sou descendente dele — havia pânico por trás de seus olhos, o medo que eu sabia que viria. Mudei o peso de uma perna para outra, encolhendo os ombros. — Eu não sou, Mal. Não sou.
— Eu, pessoalmente, duvido muito que você tenha qualquer migalha de Slytherin, Harry — inclinei a cabeça em sua direção. Sempre achei que a cor de seus olhos, aquele especifico tom de verde tão vivo e brilhante, eram a exata cor da minha Casa. Mas fora isso não havia nada no Garoto de Ouro que gritasse, sequer sussurrasse, Sonserina. — Mas vai ter dificuldade em provar isso. Salazar viveu há mil anos, talvez um pouco mais. A descendência dele poder ser atribuída ou reclamada por qualquer um, afinal, o próprio não vai negar, não é?
O rosto dele se tornou digno de um enterro. Pálido e abatido, o leão achou uma cadeira e desabou nela. Suas emoções chegaram até mim, nenhuma brilhante ou leve. Potter era órfão, mas ao menos sabia quem haviam sido seus pais. Sua mãe era irmã de uma trouxa, fazendo-a uma nascida-trouxa, e seu pai... talvez um sangue puro? Não havia ninguém para lhe dizer. Nem sobre seu pai, nem sobre as raízes mais antigas dos Potter. Mas eu sabia alguma coisa sobre os ramos deixados por Salazar.
— Mione me deu um livro no ano passado — comecei devagar, me aproximando do garoto e me sentando ao seu lado. — Era sobre Slytherin. Havia todos os dados conhecidos sobre ele, algumas lendas e outras teorias. E um fato sobre seus descendentes, pois não há dúvida que ele deixou um legado — levei a ponta dos dedos até seu pulso, descendo com cuidado até sua mão. Harry espremeu os dedos entre os meus antes mesmo que eu tivesse a chance de o fazer. — Gaunt. Não Potter. Foram os Gaunt os últimos descendentes conhecidos de Salazar. Desapareceram do mundo bruxo tem um século, mais ou menos. Você não tem com o que se preocupar, até porque não foi o único que se revelou — ensaiei um sorriso para seus olhos acuados. — E eu sou um palpite bem melhor do que você, afinal.
Harry não riu, mas não esperava que o fizesse. O garoto não estava nada feliz ou confortável com quaisquer das teorias fermentadas e alimentadas pelos acontecimentos no clube de duelos, além de ainda estar ressentindo e irritado com Finch-Fletchley, que devia estar apenas muito agradecido ao invés de ter sido o primeiro a cuspir aos pés da pessoa que impediu que fosse atacado.
Saímos da sala quando achei que Potter estava recomposto o suficiente para aguentar o bombardeiro de seus companheiros, com ênfase em Granger e Weasley. Ele se despediu para subir em direção a Torre da Grifinória e eu dei meia volta para enfrentar a Masmorra da Sonserina. No meio do caminho, porém, o Garoto de Ouro se lembrou de mais um pequeno fato.
— Mal — sua voz me chamou, já distante do outro lado do corredor. Virei meu rosto para olhá-lo por cima do ombro, seus olhos muito vivos quase escondidos pelo cabelo preto espetado e rebelde, mas ainda notáveis. — Você não se importa? Quero dizer, as pessoas vão achar que você é a Herdeira, vão falar...
— Eu sei que vão, Potter — e meu sorriso foi afiado desta vez, uma linha fina inspirada em sensações ruins. — Sempre falam. E se é assim então que falem sobre algo que, pelo menos, faça algum sentido. Quanto a mim, te garanto que não vou perder meu sono pelos sentimentos alheios. E você também não devia.
Claro que era mais fácil falar do que fazer, ainda mais para ele. Harry não havia tido uma boa vida e Ronald Weasley havia sido seu primeiro amigo nela. Hogwarts, o primeiro lugar em que se sentiu seguro. A Torre da Grifinória, seu primeiro lar. A ideia de ser exilado e maltratado dentro de lugares que representavam tão profundamente a paz e a aceitação era o bastante para o fazer suar frio. Ele já era detestado o bastante com os tios, e era por isso que eu queria que esquecessem dele nesta besteira do Herdeiro.
Potter não merecia ser marginalizado. Ao menos eu tinha a pele mais dura, transformada em couro, curtida por anos e obrigada a se fortalecer. Fui sincera em minha resposta: não perderia tempo com os olhos assustados e raivosos de pessoas como Justino Finch-Fletchley e eu sabia que teriam várias. Uma escola inteira, ou muito perto disso, de ressentimento e suposições, de julgamento e condenação. Mas se eu me importasse com isso eu não me sentaria à mesa da Grifinória, para começar.
O Salão Principal já estava vazio quando passei por ele a caminho das masmorras, o clube de duelos encerrado. Me perguntei se teria sido sua primeira e última reunião e me dividi entre o desejo que não fosse o caso e a certeza de que, se Lockhart continuasse a ser o supervisor, era o melhor a se fazer. Os relógios bateram dez horas quando parei em frente a parede de pedra que escondia a passagem para minha sala comunal. O dia seguinte ainda seria sexta feira, com sorte a maioria já estaria na cama, pronta para o último dia de aula antes das festas.
Mas ninguém estava dormindo no Casa das Serpentes.
Eu nunca havia visto aquele lugar tão cheio e pela primeira vez percebi o quanto era espaçoso. Dos novatos primeiranistas até os formandos do sétimo ano, estavam todos apinhados em poltronas e sofás, as conversas separadas se juntando em uma cacofonia de vozes excitadas e energéticas. Eram quase cem alunos e todos eles se calaram quando o primeiro percebeu minha presença. Um a um, como peças de um dominó, pares de olhos vieram em minha direção. E fiquei parada, as costas quase encostando na parede de pedra fria da entrada, esperando pela primeira boca torcida, pelo primeiro rosto virado, pela primeira acusação.
Nunca teria pensado que as cobras eram capazes de rugir, mas tenho certeza que os gritos balançaram os vidros das janelas. Eram gritos altos, palmas frenéticas e mãos para cima, compondo uma aclamação que estava no último lugar da minha lista de possibilidades para a noite. Quando Anthony Rivers se adiantou ao subir em uma das escrivaninhas, cheguei a apertar os lábios para o chamariz de sua figura.
— Desça daí, Rivers — Gemma chiou no silêncio que fizeram de algum discurso ou momento programado, mas foi ignorada. O novo capitão do time de quadribol e estudante sênior de Hogwarts, já em seu sexto ano, abriu os braços para englobar todo a masmorra.
— Tenho certeza que falo em nome de toda Casa de Sonserina quando digo as seguintes palavras — e parou, ciente da atenção que recebia, da minha atenção. O garoto sorriu com ela, mordendo-a em pedaços pequenos para durar mais. — Vida longa, Herdeira de Salazar!
— Desça, Anthony, falo sério — Farley repetiu e desta vez foi obedecida. O monitor já havia conseguido o que queria, de qualquer forma. A turba havia sido encintada outra vez, e muitos repediam suas palavras aos gritos. Gente que nunca havia prestado atenção no rosto, que não sabia o nome, avançavam em minha direção. Me recusei a recuar, mas avancei com a dor mordendo minha pele, minhas cicatrizes repuxando em uma dor fantasma a cada roçar de dedos em meus ombros, braços ou costas. As beiradas do mundo estavam manchadas outra vez, o vermelho fazendo meu monstro despertar e se mexer de forma pesada, então quando alguém segurou com firmeza em minhas vestes, me virei disposta a ter vermelho não apenas no mundo, mas no chão.
Por sorte, Greengrass foi rápida em se colocar na minha linha de visão, e seus olhos – muito verdes, muito azuis – me fizeram ter consciência de como meu coração batia tão pesado, imitando minha respiração rasa. Ela me guiou para longe deles, em uma linha reta e implacável até a entrada dos dormitórios. Mesmo quando desapareci pelo portal e até a porta do segundo andar ser fechada atrás de mim, eu ainda podia ouvir a baderna na sala comunal, vozes se juntando outra vez em uma celebração que não precisava da minha presença.
O restante não tardou a chegar. Pude olhar no rosto de cada uma a medida que entravam no dormitório. Os ombros retos de Emily, o rosto lívido de Hopkins, o sorriso jocoso de Astoria e os olhos famintos de Parkinson. Demorei meus olhos em Sue, na pequena Sue, que havia chorado na minha frente com medo da possibilidade de estar na lista negra do Herdeiro, minhas palavras voltando para me assombrar: eu lhe garanto, Hopkins, que nada vai acontecer com você.
— Muito bem — sem surpresa nenhuma foi Pansy que quebrou o silencio, rastejando até ficar ao meu lado como a cobra que era. Se segurou em um dos suportes da cama, o sorriso se transformando em uma coisa fina e afiada. — Quando iria contar para gente?
— Não tenho o que contar, Parkinson — devolvi, mas mesmo assim senti minha voz distante, como o eco de outra pessoa. Sue não me olhava nos olhos. — Não fiz nada.
— Fez e não é — Astoria cantou ao ir em direção a cama de sua irmã, vaga por Daphne estar ao meu lado. — Você está querendo dizer que, apesar de aceitar o título, não foi você que atacou a gata e o garoto da Grifinória?
— Eu não aceitei nada — chiei de volta para a garota. Ela me parecia a mais contente depois de Pansy. Mas Parkinson tinha uma satisfação selvagem nos olhos, uma vitória pessoal, enquanto a mais nova dos Greengrass parecia quase educadamente interessada. — Para aceitar, é preciso existir uma oferta e a possibilidade de negação. Não foi o caso.
— Você ainda teria a coragem de tentar negar alguma coisa, Mal? — Bulstrode tinha um ponto e não precisei seguir seu olhar para porta, eu também me lembrava com clareza da cena. — Quero dizer, você é órfã. Não faz ideia de quem são seus pais, muito menos sua árvore genealógica.
Não respondi. O bolso das minhas vestes queimou, pesado, pulsando outra vez. A resposta estava ali, eu só precisava me dedicar a descobrir. Flexionei meus dedos mais uma vez, sentindo a dor de uma enxaqueca ameaçar subir pela minha nuca. Quando falei outra vez, e todas esperaram que eu o fizesse, meus olhos estavam em uma pequena e pálida garota ruiva que não havia aberto a boca até o momento.
— Não me importo se quiserem brincar de adivinhação. Querem me chamar de herdeira, querem alegar que sou descendente dele? Fiquem à vontade. Não posso negar. Mas quero que algo fique bem claro: não fiz nada. Não ataquei Madame No-r-ra, não ataquei Colyn Creevey, não controlo criatura alguma e não sei merda nenhuma de uma Câmera Secreta. Então se vocês ainda quiserem acreditar que sou a herdeira de Slytherin, vão ter que aceitar que alguém está se passando por mim.
— Mas seria uma grande coincidência — Sue abriu a boca, os lábios pálidos soltando palavras secas e ásperas. — Quem poderia saber que existiria alguém de origem desconhecida, prodígio em magia e ofidioglota em Hogwarts, neste momento, para colocar a culpa em você?
— Duvido que quiseram colocar a culpa em mim, Hopkins — respondi com uma voz mais mansa, mais calma para seus olhos quase traídos. — Mas agora que aconteceu, o culpado pelos ataques deve estar bastante feliz.
— Você tem alguma suspeita, Mal? — Daphy falou pela primeira vez, muito calma e segura ao meu lado. A lady que fora criada para ser tomando cada pedaço de seu rosto compenetrado, dos olhos atentos. — Potter, talvez? Ele também é ofidioglota.
— Não tenho ideia de quem esteja fazendo tudo isso, Greengrass, mas tenho certeza que Harry não tem qualquer dedo na história — e através da claridade de seus olhos eu vi o reflexo de uma conversa sussurrada, uma promessa que ainda não tinha cumprido. Mas iria, agora com mais pressa do que previsto. Eu não me lembrava de ter visto Gina Weasley no Salão Principal, mas apostava que o acontecimento já tinha chegado aos seus ouvidos – isto é, se desviasse atenção de seu caderno o bastante para prestar atenção nas fofocas ao seu redor.
A manhã do último dia letivo do período amanheceu espelhando o humor do castelo: a neve que costumava cair de forma graciosa se transformou em uma nevasca que gelou os ossos de alunos e professores, castigando janelas e transformando as lareiras nos principais pontos de encontros. Era fácil pensar nessas coisas na última aula do dia, fechada na maçante aula de História da Magia. A classe estava mais sonolenta e melancólica do que nunca com pouca claridade que passava pela neve grossa e cinza que cobria a Escócia.
Se a Casa de Sonserina havia encontrado paz e segurança nas últimas revelações, não se podia dizer o mesmo do restante. Havia até mesmo leveza no primeiro ano das cobras outra vez, que haviam parado de olhar por cima do ombro e de andar em grupos fechados. Astoria havia me dito naquela manhã que estavam todos muito felizes e aliviados pela identidade da Herdeira ter sido revelada: mesmo com a dedução obvia de que o atacante era da Sonserina, agora havia um rosto nele, invés de apenas um medo sombrio e sem forma na curva do corredor.
— Além disso, Mal, todos viraram meus amigos agora — a senhorinha soltou uma risada alta, sentada à minha frente na mesa. — Ficam perto de mim, me rondando, perguntando o que você acha ou deixa de achar de algum deles e me pedindo para te entregar presentes.
— Uma parte boa de todo esse circo — havia sorriso para ela, mesmo que de apenas um lado, levantando uma sobrancelha. — E posso saber onde estão?
— Bom, justamente por você não concordar com toda essa comoção e tudo mais, eu os confisquei, você sabe, não seria bom se te vissem aceitando subornos — a garota encolheu os ombros, piscando os olhos claros e isso fez com que uma risada subisse pela minha garganta, escapando de meus lábios enquanto sua irmã mais velha chiava seu nome em uma repreensão.
Foi ótimo rir um pouco, pois os olhares demorados e conversas interrompidas quando eu passava estavam se esforçando para me tirar do sério. Para evitar entrar em uma briga e prejudicar a pontuação da Sonserina, comi depressa no almoço e fui em direção a biblioteca. Também haviam alunos lá, mas ao menos eles eram obrigados a ficar em silêncio por Madame Pince. Foi lá que Hermione Granger me encontrou e eu não tinha consciência de quanto eu queria que ela me encontrasse até ter seus olhos castanhos na minha frente.
Eu me importava com a opinião de muita pouca gente, e isso já era algo novo (e criticado por Lagrum), pois costumava não me importar com ninguém. Do trio de leões, eu não podia ligar menos para a arrogância e o preconceito enraizados de Ronald Weasley, mas Potter e Granger eram outra história. O verde gentil e quente de Harry eram uma lembrança constante de como o mundo deveria ser e o rosto de Hermione vinha em uma memoria feliz – o primeiro sorriso, o primeiro aperto de mão, a primeira amizade que fiz em Hogwarts, antes mesmo de pisar no trem.
— Eu sei que sempre posso te encontrar aqui — ela sussurrou perto de mim depois de se sentar no banco ao meu lado. Mione também carregava uma mochila pesada que colocou na mesa e eu sabia que seus olhos ansiosos não deixaram de correr pelo meu pergaminho, onde estive ocupada pontuando alguns animais de nível XX considerados malignos. — Quando não está com a gente e a os outros, a próxima parada é a biblioteca.
— Só a nível de curiosidade, eles também chamam vocês de "os outros" — devolvi em um sorriso mais fino do que agradável enquanto pousava a pena na mesa, minha voz igualmente baixa. — Eu imagino que tenha vindo por causa de ontem.
— Mas é claro que sim — Granger franziu as sobrancelhas, incomoda com meu tom debochado e meus lábios torcidos. — Quero saber se você está bem. Harry me pareceu um pouco perturbado ontem e ainda está chateado pela reação de Justino...
— Potter não lida muito bem com rumores em geral.
— E você lida? — Sua voz incisiva me obrigou a relaxar os ombros, abaixando armas que não me lembrava de ter levantado. Não era justo com ela. Não havia uma sombra sequer nos olhos castanhos de Hermione. Nenhuma acusação, suspeita ou dúvida. Apenas preocupação genuína reluzia ali, o que me fez soltar o ar por entre os dentes.
— Depende de quem acredita neles, acho — e forcei um sorriso nos lábios duros. — Você não acredita, não é?
— Que você fez mal a Madame Nor-r-ra e ao Colyn? É claro que não — Mione tinha sobrancelhas bem-feitas e arqueadas por natureza, que se destacavam ainda mais as franzia ou levantava, como agora. — Mas é possível que você seja descendente de Salazar. Ele viveu faz muito tempo e sabe-se lá onde sua linhagem terminou.
— No livro que você me deu diz que o último ramo conhecido de Slytherin foi uma família chamada Gaunt, mas eles desapareceram do mundo bruxo já faz um século, mais ou menos — maravilhosa mente brilhante aquela garota tinha: o que tive de mastigar na noite anterior já estava na ponta de sua língua. — Pensando desse lado, até mesmo Potter poderia ser um candidato.
— Sim, mas...
— Eu sou muito mais provável do que ele, eu sei — daquela vez, meu sorriso foi mais sincero, o que não significava que havia sido bonito. — Assumindo que eu sou a herdeira de Salazar, é fácil chegar na conclusão que alguém está usando meu título para aterrorizar o castelo.
— Faz sentindo — os olhos decididos e quase febris de Granger estavam focados em mim. Ela sequer piscou a minha facilidade em aceitar o cargo, nem mesmo piscou ou torceu o rosto a possibilidade de sua amiga ter ligações mais profundas do que o normal com a Casa das Serpentes. Aquilo me fez guarda-la um pouco mais fundo no meu coração. — A poção ficará pronta em breve. E então poderemos ter certeza de quem é o engraçadinho...
Era claro que Malfoy ainda estava no topo da lista, talvez mais do que nunca, na pressa de limpar meu nome e até mesmo o do Garoto de Ouro. Ele estava sentado na mesa ao lado, rodeado de Blásio e Crabbe desta vez e não me parecia mais ou menos culpado do que antes. Talvez sua testa estivesse um pouco mais franzida e seu humor um pouco mais ácido, mas...
— ATAQUE! ATAQUE! MAIS UM ATAQUE! NEM MORTAL, NEM FANTASMA ESTÃO SEGUROS! SALVEM SUAS VIDAS! ATAAAAQUE!
A voz de Pirraça explodiu do lado de fora do corredor e todas as cadeiras foram empurradas para trás no mesmo instante. A algazarra fez Binns despertar de seu monologo, mas duvido que mesmo Snape ou McGonagall conseguissem conter os alunos dentro de sala. A porta da classe foi escancarada e todas as outras do corredor também, baques profundos de madeira e histerias de passos e olhos curiosos, emoções demais rodopiando e me mordendo: ansiedade, medo, tensão.
Quando cheguei à porta, a confusão inicial já tinha se dissipado e pude ver o que acontecia no meio do circulo que se formou com dificuldade. Era Potter ali. Acuado e apavorado contra a parede, tão branco e encolhido que meus pés foram em sua direção antes que pudesse impedir. Segurei em suas vestes, odiando o tremor de seus lábios e a fraqueza de suas pernas.
— Harry, Harry — chamei baixinho, torcendo para que acordasse do choque. — Em nome de Salazar, Potter, reaja!
E ele o fez, piscou os olhos e engoliu em seco, mas tarde demais. Através da multidão de alunos, Minerva McGonagall vinha correndo, segurando no alto suas vestes escuras de bruxa. Fez sair de sua varinha um barulho alto e repentino que assustou e calou os observadores curiosos, permitindo que os outros professores os guiassem para dentro das classes outra vez. Ela havia se virado para nós, o corredor quase vazio, quando um rapaz com roupas da Lufa-Lufa apareceu no corredor, sem fôlego e vermelho.
— Apanhados na cena do crime! — Berrou a plenos pulmões, apontando o dedo indicador na nossa direção. Mostrei os dentes para ele com o mundo ficando vermelho depressa demais para que pudesse controlar e posso jurar que cheguei a sentir um leve odor de urina.
— Agora já chega, Macmillan! — A vice-diretora chiou como uma gata raivosa, o que fez o aluno se calar e afastar. Mas Pirraça ainda estava sobre nós, subindo e descendo no ar, sorrindo de forma cruel enquanto professores voltavam de suas classes cheias de alunos trancafiados para examinar Justino e Nick Quase Sem Cabeça, ambos petrificados. Ao menos, Finch-Fletchley estava. O fantasma da Grifinória estava negro e fumegante, flutuando a mais de um metro do chão com a cabeça completamente pendurada. O que poderia fazer isto com alguém que já morreu?
E, enquanto isso, fazendo coro com a sensação de veneno que crescia dentro de mim, Pirraça cantava ofensas para nós. Cantava enquanto eu sentia meus ossos vibrarem – tarde demais, outra vez. Eu podia o ouvir agora, pois ele queria que eu ouvisse. De algum lugar das profundezas, com as vibrações subindo pelos meus pés através da pedra e corroendo minha alma, a criatura ria.
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