Corona II
33 Preço do Sangue
Notas iniciais
Na decima quarta vez que o poltergeist começou o verso de "Potter pirado, veja o que você fez; Matar alunos não é nada cortes", McGonagall perdeu a paciência.
— Já chega, Pirraça! — Ela urrou para cima, as pupilas quase estreitas, fazendo-o sair voando em cambalhotas, a língua pendurada em nossa direção. Sem a distração irritante do parasita particular de Hogwarts, Minerva se dedicou a de fato colocar ordem no lugar: Flitwick levou Finch-Fletchley para a ala hospitalar com a ajuda de uma mulher alta de pele negra, com vestes pesadas de pele de animal e uma pena cumprida espetada no chapéu pontudo cujo o sobrenome eu sabia ser Sinistra, do Departamento de Astronomia, mas que o nome se revelava como Aurora.
Já Nick levou algum tempo para descobrirem o que fazer. A diretora da Grifinória acabou por conjurar um grande leque de abano e o entregou ao tal de Macmillan, que ainda estava nos arredores, com instruções para literalmente abanar o fantasma até o andar de cima. O aluno a obedeceu, quase rasgando suas roupas contra a parede para se afastar de mim e Harry ao passar, deixando-nos enfim a sós com a mulher.
Minerva tinha olhos muito verdes, tão brilhantes e vivos como os de Potter. Eu guardaria dentro de mim aquele olhar, o modo como a dureza revestiu seus sentimentos sombrios e acuados. Como ela olhou para mim e então para seu aluno e apertou os lábios bem firme um no outro. Não importava o que ela achava, não importava o que ela esperava que fosse verdade, ela nunca poderia ignorar aquilo.
— Por aqui, Potter e Lewis.
— Professora — Harry protestou depressa, recuperando logo agora o dom da fala. — Eu juro que eu não...
— Isto não está mais em minhas mãos, Potter — a professora o interrompeu, fria e inflexível como costumava ser. Seu tom fez Harry recuar, calado e de rosto vermelho, enquanto a seguia ao meu lado. Tivemos que subir dois lances de escadas para chegar ao terceiro andar e então dobrar um corredor até chegar em frente a grande gárgula que guardava o escritório/residência do diretor de Hogwarts. Nosso destino eu já conhecia, mas me lembrei que Harry e seu pescoço espichado de curiosidade, nunca haviam sido encaminhados para a diretoria. — Gota de limão!
A senha da sala de Dumbledore devia ser trocada com a mesma frequência do que a das Salas Comunais, pois não era a mesma da última vez que tinha vindo aqui. Já sabendo de cor o que aconteci – a gárgula se arrastando para o lado e a parede atrás dela se abrindo para revelar uma escadaria em caracol que subia sozinha e devagar, como uma escada rolante mágica – aproveitei melhor meu tempo prestando atenção nos olhos arregalados e boca aberta de Potter.
Eu também devo ter feito a mesma cara na minha primeira vez, Cicatriz.
Você já veio quantas vezes? Os olhos verdes do garoto vieram para mim e eu sorri, encolhendo meus ombros.
Algumas. Espere só para ver a sala em si.
Os olhos do garoto voltaram a se encher e tive que estrangular minha risada com uma tosse. Harry era um pouco lento, não tinha como negar, ou estava ocupado demais pensando no último ataque para raciocinar direito. Apenas agora se dava conta para onde estávamos sendo levados. E talvez devesse ter continuado na ignorância pois senti sua tensão e nervosismo ao meu lado durante toda a longa subida até a porta de carvalho bem cuidada com uma aldrava em forma de grifo – a mesma que a gárgula da entrada.
Minerva bateu na porta, fazendo-a se abrir sem qualquer ruído, e então nos guiou para dentro. Eu já tinha estado ali vezes demais e mesmo assim eram impossíveis não demorar o olhar pela grande sala circular. Os objetos de alquimia de Dumbledore, prateados e barulhentos, arrumados em cima de mesas de pernas finas e curtas. Os talvez mil retratos de antigos diretores diferentes que cobriam as paredes, com um especifico logo atrás da mesa de Alvo – seu antecessor. A escrivaninha imensa com pés de garra e atulhada, mas ainda organizada, de papeis de carta, livros e pergaminhos.
— Esperem aqui — a vice-diretora saiu, deixando-nos sozinhos. Potter estava ocupado demais admirando a sala e percebi o exato momento em que os olhos dele caíram no Chapéu Seletor. Deixado em uma prateleira atrás da escrivaninha, era lá que o objeto repousava durante todo o ano até o próximo primeiro de setembro. Vi à vontade em seus olhos, o nó em sua garganta, a dúvida que o devorava desde o primeiro ataque.
— Se vai pegar, seja rápido — minha voz fez o garoto de nervos já tensos quase pular, o que acho que foi algo bom, pois se apressou para frente e puxou o chapéu mágico para si, cobrindo a própria cabeça com ele até os olhos, assim como um ano atrás. Eu me afastei de sua segunda seleção e virei o rosto para uma nota triste e sofrida, como um piano ou órgão muito mal afinado e senti o coração afundar.
Fawkes não se parecia quase nada com o pássaro glorioso que eu havia encontrado da última vez que estive aqui. Estava em seu poleiro atrás da porta e agora estava muito mais para galinha depenada do que a criatura magica feita de fogo e vida que era – penas caiam a intervalos de segundos de sua cauda já esparsa e seus olhos estavam leitosos e opacos. Mesmo assim, ele tornou a piar quando me aproximei e sustentou meu olhar como se soubesse muito bem quem eu era, talvez até mesmo o motivo de estar ali.
— Você está enganado! — Era a voz de Harry, alta e clara fora de sua cabeça, trazendo a discussão para o mundo ouvir. Ao menos sua parte, pois o rasgo no tecido não se abriu e o Chapéu Seletor deu a conversa por encerrada. Ele estava com o objeto em mãos e não mais na cabeça e não demorou a coloca-lo de volta na estante, contrariado e emburrado. Levantei uma sobrancelha.
— Não teve o que queria? — Era uma provocação, eu sabia. Ele também, pois sua boca se torceu para baixo em resposta. Mesmo me mantendo distante e guardando minha mente, eu não tinha duvidas do teor da conversa que o garoto tivera: a possibilidade levantada, a vontade inicial do Chapéu de coloca-lo na Sonserina, contornada apenas pela força do preconceito já fixada em sua cabeça em tão pouco tempo. Eu podia apostar que o Chapéu ainda mantinha suas palavras, o que resultou nos ombros tenso e maxilar duro de Potter.
Um terceiro pio de Fawkes fez o garoto desviar sua atenção do aborrecimento recente e de mim, levando-o a reparar no pássaro pela primeira vez. Tive pena que essa fosse sua primeira lembrança e contato de uma ave tão bonita e estava justamente indo lhe dizer que o motivo disso era que devia estar no final de seu ciclo, quando a fênix se incendiou. Harry gritou na mesma hora, pulando para trás, mas permaneci quieta enquanto o calor da combustão esquentava minha pele, pois até mesmo nisso aquela espécie proporcionava um último espetáculo – Fawkes se transformou em uma bola de puro calor, fogo e luz antes de gritar uma última nota demorada, e então nada lhe restou além das cinzas.
Foi neste momento que seu dono resolveu aparecer.
— Professor — Potter ofegou do lugar onde estava, ainda afastado e com olhos ansiosos nos arredores. Ele havia tentando achar água? — Seu pássaro, eu não pude fazer nada, ele simplesmente pegou fogo...
— Já não era sem tempo — Dumbledore sorriu, deixando o ar grave com que tinha aberto a porta de lado, escondido no fundo de seus olhos azuis muito claros. — Ele tem andando com uma aparência medonha há dias; e venho dizendo a ele para se apressar — e o velho chegou até mesmo a rir do rosto chocado de seu aluno, mas confesso que até eu sorria para o queixo caído e olhos abertos de Cicatriz. — Fawkes é uma fênix, Harry. As fênix pegam fogo quando chega a hora de morrer e tornar a renascer das cinzas. Não lhe explicou isso, Mal?
— Não tive oportunidade, senhor — e foi a minha vez de soltar uma risadinha através dos dentes com os olhos de Potter em cima de mim. — Vem aqui, Harry. Vem, olhe, poucas pessoas devem poder dizer que viram uma fênix renascer, não quer perder isso, ou quer?
Ele não queria. Em três passos já estava ao meu lado outra vez, se debruçando sobre o amontoado de cinzas que era a fênix do diretor. Era uma maravilha. Não pelo pássaro em si. Fawkes era tão impressionante no inicio de sua vida como era no final, só que menor. Minúsculo, aliás. Vimos, lado a lado, uma cabeça do tamanho de um pomo-de-ouro se levantar das cinzas, depenada e enrugada. Mas, de fato, quantas pessoas tinham esse luxo? Uma fênix não era exatamente um tipo de animal que se encontra disponível em lojas por aí. Era um animal mitológico e com propriedades magicas fenomenais. Me perguntei o que Dumbledore havia feito para conseguir sua amizade.
— É uma pena que você a tenha visto no dia em que queimou, Harry — o diretor chamou nossa atenção, nos levando a perceber que já havia se sentado atrás de sua escrivaninha. — Mal, que já a viu de outras visitas, pode te afirmar que ela é muito bonita quase o tempo todo, tem uma plumagem vermelha e dourada. Criaturas fascinantes, as fênixes. São capazes de sustentar cargas pesadíssimas, suas lágrimas têm poderes curativos e são animais de estimação muitíssimo fiéis.
Potter voltou a parecer doente no mesmo instante. A influencia do diretor sobre o garoto era gritante. Ele não parecia tão pequeno ou tão envergonhado na frente de McGonagall, mas quase achei que ele iria começar a tremer diante dos olhos claríssimos de Alvo. Fiquei quieta, esperando algum dos dois iniciar a conversa: seja Dumbledore questionar o que houve ou Harry começar a gaguejar desculpas, mas nenhum dos dois teve chance, pois a porta se abriu com tanto barulho que fiquei surpresa que não houvesse se partido ao meio e quem a atravessou não era ninguém menos que Hagrid.
Eu não o via de perto fazia muito tempo. Com o ritmo de estudos e de todas minhas atividades extracurriculares, acabei deixando a visita à sua cabana para um depois que nunca aconteceu. Mas lá estava ele, com um gorro enorme cobrindo quase todo seu rosto, já usualmente oculto pelo cabelo escuro emaranhado na barba e coberto pelo inseparável casaco de toupeira. Também havia, por alguma razão, um galo morto balançando em sua mão.
— Não foi Harry, Prof. Dumbledore! — O homem enorme disparou, sem folego e esbaforido enquanto gesticulava com as mãos, cobrindo a sala arrumada e limpa do diretor de penas de galo. — Eu estava falando com ele segundos antes daquele garoto ser encontrado, ele nunca teria tido tempo, meu senhor... — Eu até cheguei a ver a boca do velho se abrir, mas não seria com complacência que ele conseguiria lidar com Rúbeo neste estado. Tirei uma pena do cabelo, o que me fez notar. — Mal! Está aqui também?! Não, ela também não tem nada com essa sujeira, senhor! Canino gosta dela e, o senhor sabe, Canino tem faro bom para essas coisas! Não, não poderia ter sido qualquer um deles! Eu não vi a Mal, mas eu a conheço! Eu juro até na frente do Ministro da Magia se precisar...
— Hagrid... — Pobre Alvo, até mesmo Potter estava mordendo a boca para não rir, mais uma vez esquecido do motivo de estar ali. Era simplesmente demais a figura grande e energética do Guardião das Chaves enchendo a sala do diretor de penas de galo morto.
— ... o senhor pegou as crianças erradas, meu senhor! — Rúbeo continuava, e talvez eu conseguisse ver um ponto vermelho na altura de seu rosto, um resto de pele que aparecia entre o gorro e o cabelo. — Eu sei que eles jamais...
— Hagrid! — A voz alta de Dumbledore finalmente fez com que o grande homem fechasse a boca. Ele parou até mesmo de mexer os braços. — Eu não acho que qualquer um deles tenha atacado essas pessoas.
— Ah — o constrangimento do grandalhão chegou até mim em uma onda quente de calor. — Certo. Então vou esperar lá fora, diretor.
E saiu em dois passos, o rosto vermelho escondido sob o gorro e o cabelo/barba. A porta se fechou enquanto eu me virava para frente outra vez, olhando para Dumbledore, que espanava penas de sua escrivaninha.
— O senhor não acha que fomos nós, professor? — Havia esperança na voz de Potter, mas o rosto envelhecido do diretor havia se tornado grave outra vez, os olhos azuis muito concentrados nos do garoto.
— Não, Harry, não acho — desistindo de limpar sua mesa, o homem juntou a ponta dos dedos muito longos uma na outra e se acomodou em sua cadeira. — Mas ainda assim quero falar com vocês — e houve um momento de silêncio tenso, enquanto Potter se esticava como uma corda e o diretor o analisava da mesma forma que havia feito comigo na noite em que Colyn Creevey fora atacado. — Preciso lhes perguntar se tem alguma coisa que gostariam de me contar — e agora sua voz era muito mais mansa, um homem velho e gentil. — Qualquer coisa.
Potter demorou a responder. Eu sabia que toda a situação estava se desenrolando dentro de sua cabeça e me perguntava se, mais do que saber, o diretor não estava vendo. Mas quando o garoto negou a existência de algo que quisesse compartilhar, não foi questionado e sim dispensado. Harry exalava alivio quando deu meia volta e se encaminhou para a porta, parando em frente a ela para olhar para trás, para mim. Mas balancei a cabeça. Essa era uma conversa que já devia ter acontecido.
Fiquei sozinha com o diretor de Hogwarts, meus dedos se afastando de Fawkes – haviam ficado no pássaro o tempo inteiro, alisando sua cabeça enrugada, muito mais sentindo sua música vibrar através de minha pele do que ouvindo-a de fato – para que eu pudesse me sentar na cadeira em frente ao velho homem. Dumbledore não havia mudado de posição e esperava, paciente, que eu desse o primeiro movimento. Não o decepcionei.
— O nome Tom Riddle é familiar para você?
Tentei prestar atenção em seu rosto, assim como já tinha feito tantas vezes com Severo. Detalhes que tantas pessoas não registram, coisas pequenas como as sombras nos olhos, o canto dos lábios, a velocidade que os dedos se separavam e voltavam a se tocar. Alvo congelava o rosto em uma expressão de complacência da mesma maneira que Snape o fazia com desprazer, então cheguei aos olhos. Eram muito brilhantes, os olhos do diretor. Muito claros também. E, agora, muito pesados.
— Houve um aluno com esse nome — o diretor começou, a voz suave, quase um sussurro, como se lembrasse de algo distante, como se vivesse tudo outra vez. — Brilhante. O melhor aluno de toda Hogwarts de seu tempo e dos próximos, ao menos até agora — Dumbledore parou por um momento, seus olhos faiscando para mim. — Se tornou monitor e então monitor-chefe, e não tirou nada nota além da máxima em qualquer exame que se prestou a fazer, desde os deveres de classe até NOM e NIEM. Mas isso já faz cinquenta anos.
Cinquenta anos. Me mexi na cadeira, engolindo o gosto de veneno que se acumulava em minha boca. Eu tinha muita certeza de que o rapaz que se apresentou para mim na minha cabeça não tinha cinquenta anos. Assim como sabia que ele não era um estudante atual de Hogwarts – o monitor da Sonserina era Anthony Rivers, não Tom Riddle. Não havia Tom Riddle em todo a porcaria do castelo... ao menos, não neste tempo.
— O que aconteceu com ele? — E pelos seus olhos atentos, mordi minha própria língua. — Digo, o que ele fez quando se formou? Um aluno tão brilhante assim... ele deve ter deixado sua marca depois de terminar os estudos.
— E ele deixou, Mal — e os olhos do diretor estavam tristes antes que eu pudesse perceber a mudança. Até mesmo seu rosto pareceu envelhecer, o brilho de seu azul enfraquecendo ao chegar em uma parte sóbria da própria memória. — Profundas e memoráveis. Infelizmente, nenhuma delas é agradável de se lembrar.
Não poderia dizer que isso era uma surpresa. Eu me lembrava dos olhos muito escuros e cruéis do rapaz – olhos de predador sombreados por um sorriso muito bem ensaiado e uma voz muito bem controlada. Riddle não era alguém que eu fosse apostar para lutar pela paz mundial, muito pelo contrário, seus olhos tinham sede de sangue e apenas imaginei o que ele poderia ter feito para Dumbledore lembrar de seu nome e rosto entre tantos.
Ao abrir a porta e encarar a escadaria que me levaria de volta ao castelo, virei o rosto para atrás. O diretor parecia concentrado, contemplativo, olhando para dentro de uma grande bacia de pedra. Em uma última batida de coração e esforço, forcei minha voz a sair.
— Professor Dumbledore? — Chamei seu nome e ganhei sua atenção outra vez. Não era hora de recuar. — Você nunca achou que fosse eu. A culpada. Mesmo com Colyn Creevey. Eu entendo a razão de Harry ser uma aposta ridícula, mas...
— Eu já lhe disse antes, Mal — havia gentileza e até mesmo um sorriso no rosto de Alvo, um que fazia seus olhos brilharem por cima dos óculos de meia-lua. — Tenho um palpite sobre você.
— E acha que ele está certo?
— É importante que esteja — o jeito que seus olhos brilhavam, pareciam repletos de magia por si só, independentes do bruxo. Mas ainda conseguiam ser gentis, calmos como um céu do ápice do verão. — Há coisas demais depende dele.
Não ousei perguntar que coisas e, pensando melhor, ele provavelmente não me diria. Fui embora de sua sala com a sensação de que tinha um monstro de garras muito afiadas arranhando meu cérebro, fatiando-o aos poucos. Tom Riddle. Enquanto se exibia para mim no palco que criou dentro da minha própria consciência, chegou a mencionar ela. Alguém do gênero feminino que lhe passava informações sobre mim e sabe-se do que mais. A primeira coisa a se fazer era ter certeza de quem era ela, apenas com isso eu poderia conseguir parar de rodar em círculos com essa música estranha.
Felizmente, eu tinha um excelente palpite de onde começar a procurar.
Os ânimos de três das quatro Casas estavam quase fazendo o teto encantando se tornar tão negro quanto o fundo do lago na hora do jantar. O que antes havia se estabelecido como uma tensão silenciosa e quase engraçadinha com alunos pulando ao ouvirem barulhos altos e assustando uns aos outros com histórias mirabolantes sobre o herdeiro e sua criatura, agora havia se transformado em terror generalizado após a noticia do ataque duplo se espalhar.
A única mesa que não estava obcecada com o assunto era a da Sonserina e não achava que encontraria algo de bom no título que me deram até descobrir um refúgio entre eles. Estava sentada ao lado de Blásio, com Daphne do outro lado – havia sido ela que recolhera meu material quando não voltei para o final da aula de História da Magia, mas estava muito quieta desde então. Na verdade, me parecia muito alheia o dia todo.
— Vocês acham que vão deixar mais alunos reservarem assentos no Expresso? — Nott perguntou, os olhos verdes-escuros passando pelo Salão Principal. — Quero dizer, a lista já passou a muito tempo.
— Não acho que eles vão ter escolha — Malfoy respondeu. — Estão todos desesperados para fugir.
— Se pelo menos vinte pessoas ficarem, considero um número alto — Zabini completou e não podia deixar de concordar com ele. Eu sabia que os Weasley iriam ficar, todos eles, assim como Potter e Granger. Eu não estaria em outro lugar no mundo além de Hogwarts para o Natal, e Draco havia tido sua volta para casa barrada pelo pai, fazendo Crabbe e Goyle se juntarem a ele.
Para ser sincera, estava feliz que a escola estaria ainda mais vazia do que o ano anterior. Lagrum poderia se juntar a mim no dormitório e a Torre da Grifinória seria tomada mais uma vez por sardas e cabelos vermelhos, o que era quase certo que garantia minha permanência nela. Além disso, seria bom entrar no banheiro sem que todas saíssem correndo, as fofocas (sobre mim) interrompidas no ato.
Mas ao menos nem todos estavam levando a sério. Os gêmeos Weasley, por exemplo, achavam a ideia de Harry ser o herdeiro tão ridícula que eu podia ouvir suas piadas debochadas se escutasse com atenção. A graça, porém, não era compartilhada por Gina Weasley, que tremia e quase chorava toda vez que escutava o irmão perguntar quem Potter pretendia atacar em seguida. Ela não demorou a sair da mesa, pálida e pequena, disparando para fora do salão com a cabeça baixa e o rosto escondido.
Naquela noite, como todas sextas-feiras, fui até Lagrum. A floresta estava o transformando, mas não para melhor. Além de ter quase certeza que havia aumentado uns bons trinta centímetros, não hesitou um segundo antes de me fazer rolar e afundar na lama congelada. Quando voltei para o dormitório bem cedo na manhã de sábado, não sentia a ponta dos meus dedos das mãos e nem mesmo meus pés, mas ao menos havia conseguido impedir que meu amigo arrancasse minha cabeça. Não foi, porém, o silêncio do sono das minhas companheiras que me recebeu. Ao menos, não todas elas.
Daphne Greengrass, diferente das outras vezes, não parecia estar me esperando. Estava sentada em sua própria cama com uma única vela acesa flutuando ao seu lado, fazendo sua sombra aparecer nas cortinas verdes de seu dossel. E eu teria lhe dado o direito a privacidade sobre seja o que for que estivesse fazendo se, por tanto tempo, a garota não tivesse dado um passo a mais em minha direção, um que nenhuma outra dava, oferecendo algo que nunca aprendi o nome e muito menos a importância.
— Isso são horas, Daphy? — Sussurrei para sua cortina, tocando-a um momento depois e a abrindo devagar. Greengrass tinha os olhos virados em minha direção e um sorriso que não chegava neles. — Pensei que vocês, senhoras da elite, tinham uma escala de sono rígida para recuperar a beleza.
— Algumas precisam mais do que as outras — a tentativa de graça morreu na ponta de sua língua e mordi a minha própria, abaixando os olhos para a carta que estava aberta em seu colo. — Ah, sim, isto. Chegou dos meus pais ontem a noite. Tome — seus dedos longos e suaves puseram o pergaminho aberto em minha mão enquanto me sentava. — Fique à vontade.
O azedume em seu rosto bonito e nos olhos tão claros tencionou meus músculos antes mesmo que eu lesse a primeira linha. A letra era feminina, apesar de estar assinada como "mamãe e papai", o que me dizia que a Lady Greengrass havia feito as honras. Me parecia uma carta comum de uma mãe saudosa para a filha: expressava seus desejos e anseios de ter a prole de volta no ninho, a pressa para passarem um tempo agradável em família. Mas havia o final. Aquelas últimas linhas.
"... Não sabe como seu pai e eu estamos orgulhosos da moça que se tornou, minha querida! É uma dádiva que muitos pedem ter uma filha como você, tão amorosa, dedicada e fiel aos valores que lhe ensinamos. Seu pai ficou um pouco branco quando contei a notícia, mas ele é apenas um pai ciumento! Não se preocupe, minha filha, que ele não atrapalhará a ordem natural dos acontecimentos!..."
— Existem tradições e regras no mundo bruxo. Bom, talvez não em todo ele, mas com certeza há nas famílias mais antigas — seus lábios róseos se torceram, seus olhos fitando a carta em minhas mãos e não meus olhos. — Eu sempre soube disso. Eu fui criada para isso. Sou a mais velha, sou a herdeira. Fiz de todos os ensinamentos que papai me passou parte de mim. Para honrar o legado dos Greengrass. Mas não ficou mais fácil.
— O que quer dizer? — Levantei uma sobrancelha, meus olhos cravejados em seu rosto. — Daphne, olhe para mim. O que sua mãe quis dizer com "ordem natural?".
— Tive meu primeiro sangramento em outubro, Mal, você sabe — balancei a cabeça, impaciente, e um pouco de luz voltou ao seus olhos. — Ao que parece, minha mãe acredita que as festas são um ótimo momento para começar a planejar o próximo passo do meu futuro — com meu silêncio, Greengrass balançou a cabeça e tomou novamente o pergaminho de minhas mãos. O dobrou com a ponta dos dedos uma, duas, até três vezes. Quantas mais havia feito? — Casamento, Mal. Papai me colocará à venda para o bruxo sangue-puro que oferecer mais. E aceitarei, pois é para isso que fui criada. Uma boa filha, dedicada e leal. E não ousaria ser diferente. Pois se não for eu então a próxima será Astoria.
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