Corona II

43 Porta Aberta


Notas iniciais
HEY NENÊS ♥ ATRASEI UMA SEMANA, MAS QUEM LIGA? FOI SÓ UMA, NÃO UM MÊS, I CONSIDER IT A VICTORY ♥ Eu faltei semana passada, mas como eu disse, é melhor que um mês, ou dois, quem dirá três. Poderia ser melhor? Poderia. Mas estamos aqui, bem mais cedo do que tarde, e estou dançando de alegria ♥ Como amostra disso, espero que gostem desse mais novo pedaço da nossa história ♥ Obrigada a Ella Branco (Bella ♥), Layane Oliveira, nightshade45, Birdie, Duda, Gih Gold e Juliet pelos comentários maravilhosos que me alegraram todo esse tempo, o capítulo é para vocês ♥ Inclusive, eles serão respondidos ao longo da semana (ou do tempo, mas espero que da semana). Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

O único motivo que Lagrum não me procurou pelo resto da noite foi pena.

Quando puxei minha blusa molhada por cima da cabeça, acabei decidindo que tomaria um banho de uma vez. Ao menos não me sentia mais ao ponto de colapsar, com minha respiração estável e meu coração constante. Mesmo assim minha pele ainda ardia, contaminada pelo rastro doloroso e incendiado da minha Marca. A imersão na água da banheira, porém, foi o bastante para que o alivio percorresse minha espinha. Eu gostava da água, gostava da sensação dela em minha pele, da forma como me fazia sentir quase em paz.

Gradualmente, o silêncio e o conforto foram o bastante para me embalar outra vez, minha mente anestesiada pela concentração em meu corpo, em como cada músculo e nervo parecia relaxar e soltar, em como minha pela maltratada encontrava consolo na pura sensação de frescor. Dormi um sono sem sonhos, sem pensamentos, sem meu amigo – por mais que eu sentisse sua preocupação rondando as beiradas da minha existência.

A água estava gelada quando abri meus olhos outra vez e, a despeito disso, não me sentia como se tivesse de fato descansado. Ao menos minha mente estava suficientemente recuperada para que a coerência se estabelecesse e meu corpo forte o bastante para me sustentar outra vez. Cheguei a olhar o grande espelho por um breve momento antes de voltar para o dormitório e só consegui pensar no que Daphne iria dizer quando acordasse se ela achou que ontem eu parecia abatida.

Tentei manter algum respeito próprio, mas tudo que pude fazer foi agradecer por nenhuma alma testemunhar meu rosto quando, seca e embrulhada em meu velho conjunto que chamava de pijama, me enfiei debaixo das cobertas de minha cama. A completa ausência de todos meus sentidos foi mais que bem-vinda outra vez e, agora, aproveitada da forma que se deve. Foi apenas a movimentação no dormitório pela manhã que me fez voltar à consciência. Eu sabia que o viria assim que levantasse, então agradeci por já estar me sentindo recuperada o suficiente para lidar com os olhares das senhoras da corte.

— Merlin, Mal, o que Filch fez com você? — Lady Daphy nunca decepcionava. Ela estava sentada em sua cama, com a mochila à sua frente, arrumando o material do dia. Seus olhos, no entanto, não estavam no volume de Transfiguração que segurava nas mãos bem cuidadas e sim em mim. Pela sua mente, era fácil entender a junção de suas sobrancelhas e o vinco em sua testa: apesar de estar me sentimento plenamente bem, minha aparência não havia seguido o ritmo com tanto entusiasmo pela minha palidez quase azulada e mancha escura sob os olhos.

— Parece que ele enfim teve a chance de usar as correntes que fica resmungando por aí — Parkinson jogou do seu lado do quarto, onde estava penteando o cabelo muito liso e preto. Seus olhos escuros e estreitos por natureza me olharam de cima a baixo com uma seriedade critica. — E então ela o matou.

— Pam! — A pequena Sue chiou entre os dentes, recebendo uma lenta sobrancelha levantada em resposta, o que me fez sorrir. Hopkins encontrava, a cada dia, sua voz dentro do ninho. Isso era bom. Era hora de Pansy não apenas olhar a garota como um ato de caridade e sim como alguém com tanto direito quanto ela de estar naquela Casa.

— Foi um bom chute, na verdade — a atenção foi voltada para mim outra vez enquanto jogava minhas pernas para fora da cama. — Mas não. Ele só me mandou enxugar o banheiro da Murta Que Geme, sem magia...

— Só? — Bulstrode arfou de sua cama. Era impossível não olhar para ela e pensar em seu gato preto, o que me fazia torcer os lábios para esconder a risada. — Os banheiros de Hogwarts são grandes e aquele lá está sempre alagado!

— Não é grande coisa, Emily — levei meus ombros para baixo. — Estou acostumada a limpar, era uma das minhas mais frequentes atividades no orfanato. E em condições muito piores do que um esfregão pra lá de usado e a vigília de um velho asmático. A questão é que minha dor de cabeça piorou muito durante a noite e isso deixa algumas marcas.

— Você está melhor, Mal? — Sue perguntou outra vez, endireitando seu corpo após amarrar os cadarços. Ela o vinha fazendo desde voltará do feriado, revezando com naturalidade entre o jeito trouxa e bruxo, mantendo o queixo erguido as sobrancelhas arqueadas que recebeu. A melhora de sua confiança chegava a ser contagiante, quase quente. Por isso eu ainda tinha o canto dos lábios torcido para cima ao abrir a boca responder, mas não fui rápida o suficiente.

— Melhor ou não, vamos passar na enfermaria antes do café — Pam disparou ao deixar seu pente de prata pura no móvel de sua cabeceira e se virar para mim com os braços cruzados. Levantei uma sobrancelha para a decisão firme em seus ombros. — Você tem quarenta pontos para recuperar e não vai ser uma enxaqueca que vai te distrair.

Por algum motivo, isso fez a torção virar um sorriso. Largo e espalhado, era a vez da Garota Venenosa expressar confusão. Levei, então, uma mão na direção ao lado esquerdo do meu peito e inclinei a cabeça, fazendo a voz mais solene que pude encontrar àquela hora da manhã, depois da noite que tive e ainda sem minha dose diária de café.

— Pansy Parkinson, seu cuidado e gentileza aquecem meu pobre e duvidoso coração.

A mistura leve de sentimentos que me embalou serviu para varrer, quase, completamente a noite anterior. Ainda havia a parte que tinha uma ciência muito clara do pedaço de pergaminho guardado entre as páginas do diário em branco em meu móvel da cabeceira. Peguei essa parte e a guardei em um canto – ela teria a devida atenção, mas não agora. Não logo no inicio da manhã, rodeada do incrível bom humor conjunto de minhas amigas, mesmo que umas mais que outras.

Depois de uma rápida visita a enfermaria e uma poção revigorante forçada por minha goela abaixo, o café da manhã seguiu sem problemas. Sue perdoou minha falta em seu aniversário, até mesmo porque não haveria festa alguma se não fosse por mim. Afinal, fui eu que consegui o bolo com os elfos. Palavras dela, não minha, mas não fiz esforço para retrucar. Foi quando percebi que não provei do pedaço que deixaram para mim na noite anterior e, ao longo dela, um elfo deve ter recolhido para limpar. Além de tudo, Riddle havia me feito perder um bolo de aniversário, o bastardo.

O único acontecimento fora do comum foi já do lado de fora do Salão Principal, quando Argus Filch apareceu mancando em nossa direção. Todas paramos, em silêncio como se é comum da conversa cessar ao um adulto ser avistado. O zelador de Hogwarts parou na nossa frente e consegui reparar na boca torcida e olhos avaliadores de algumas de minhas companheiras – elitistas ou não, o homem de fato não era alguém muito agradável de se ver. Ficou parado na nossa frente por dois segundos, os olhos escuros e pequenos em mim, antes de meter a mão no bolso do casaco velho.

— Aqui, garota — ele chiou pela boca meio fechada, segurando em suas mãos ósseas e manchadas meu par de luvas esquecido. — Deixou isso para trás.

Sem controlar minhas próprias sobrancelhas arqueadas, estendi a mão para pegá-las. Era um couro barato, de segundo mão, que comprei com o parco dinheiro que Hogwarts disponibilizava para seus bolsistas. Eu as usava nas aulas de Herbologia e Poções, algumas vezes em dias particularmente frios, durante todo meu primeiro ano. Até Sue Hopkins me presentear com luvas novas e eu decidir que já estava cheia dos olhares demorados e falas interrompidas no meio quando alguém reparava em minhas mãos expostas, adotando-as como peças do uniforme. Fazia tanto tempo, um ano inteiro, e tinha que admitir que apenas me acostumei a elas, o que gerou uma pequena pontada de ansiedade quando não as vesti pela manhã, como se estivesse esquecendo de colocar a saia ou fechar a blusa.

— Obrigada, Argus — a menção de seu primeiro nome fez seu rosto se torcer um pouco mais, mas não me repreendeu. — Foi gentileza da sua parte.

O zelador soltou algo entre um rosnado e um escarro como resposta, antes de olhar para minhas companheiras mais uma vez, e dar as costas, mancando corredor afora. Com tranquilidade, ignorei o peso dos olhos e expectativas a minha volta, colocando as luvas nas minhas mãos. Eu não tinha grandes problemas com minhas cicatrizes, mas o resto do mundo parecia incapaz de superá-las, então era lá que ficariam.

— Vejo vocês na aula — e não olhei para trás enquanto elas arfavam, ofendidas e surpresas, e nem quando Parkinson e Hopkins chamaram por mim. Elas queriam saber sobre o que tinha sido essa cena e, na realidade, eu não poderia dar qualquer resposta satisfatória para suas curiosidades. Eu me lembrava a forma que as palavras morrerem na boca do zelador na noite anterior, sempre tão pronto para pregar a volta dos "métodos antigos" de punição no castelo, ao ver até onde alguém que se acha no direito de ferir o outro pode ir. Mas não esperava que houvesse de fato o tocado de alguma forma, tampouco a ponto de uma demonstração de que ele era mais do que um velho amargurado e detestável.

Ao contrário de minhas amigas, porém, eu tinha mais controle sobre mim para apenas deixar ir. Apreciar e não me agarrar. Elas queriam explicações e detalhes, e eu não os tinha além do obvio: o zelador de Hogwarts havia me feito um favor afável e inesperado. E isso me era o suficiente. Então guardei o momento agradável em um lugar especial depois de reservar algum tempo para aprecia-lo e continuei o meu dia. Isso implicava mais uma sessão de aula particular com Ginevra e Luna antes das primeiras aulas do dia.

Transfiguração era uma das matérias mais complexas de Hogwarts e, como conseguinte, uma das esferas mais intricadas da magia. Tinha leis e pormenores e exigia nada menos que a perfeição: uma transfiguração executada de forma desleixada podia causar problemas muito sérios, talvez até mesmo irreversíveis. Um exemplo claro de como a disciplina ia muito além de transformar corujas em binóculos e porcos-espinhos em porta-alfinetes era a poção Polissuco que, além de ser naturalmente da área traiçoeira das Poções, envolvia diretamente o poder transfigurar um ser humano em outro. Outro exemplo, não tão claro e mais puro, seria o Praedam Vitae.

O feitiço da Alma Presa havia me prendido desde o ano anterior. Apesar de todos meus esforços e talentos, de toda minha pesquisa na biblioteca de Hogwarts e na coleção abastecida na Floreios & Borrões, o feitiço apenas não funcionava. Nas últimas semanas, talvez ultimo mês, eu o tinha oficialmente declarado derrota temporária e engavetado a maldita coisa. Pelo menos, até ter condições e conhecimentos suficientes para fazer algo além de transfigurações rotineiras de uma estudante. Eu estava começando a engolir o fato de que não havia uma data prevista para voltar a trabalhar em cima dele... até ontem.

Falar com a diretora da Grifinória era ariscado. Tanto pela sua alta posição, tanto pela sua inteligente e perspicácia afiadas. Ela não seria driblada com facilidade, o que tornava as coisas ainda mais complicadas se levarmos em conta o fato de já ter me dito, um ano atrás, para deixar o assunto de lado e seguir com os estudos esperados de uma aluna do meu ano, apenas. Minerva não iria gostar de saber que havia ignorado sua ordem tanto quanto eu não estava disposta a lhe dizer. Infelizmente, ela e Dumbledore eram os únicos mestres em Transfiguração no castelo... e, ao contrario do diretor, a professora e eu tínhamos horário marcado.

— Posso falar com a senhora, professora McGonagall? — Eu havia me aproximado de sua mesa após a aula, fazendo a mulher desviar os olhos do movimento de varinha que estava fazendo, não que tenha atrapalhado alguma coisa: o quadro se apagou no mesmo instante.

— É algo rápido, senhorita? — Seus olhos eram tão felinos que às vezes me surpreendia de não serem cortados por fendas. — Tenho outra classe em quinze minutos e tenho que preparar a sala.

— Posso ajudar a arrumar, se quiser.

— Você não tem aula com o professor Lockhart agora? — Minerva levantou uma sobrancelha para qual minha resposta foi um sorriso pela metade.

— Em quinze minutos — meus ombros foram para baixo enquanto minha cabeça ia para o lado. — E, apesar de ser um completo desperdício de tempo e absolutamente irrelevante perder ou não alguns minutos das histórias de Gilderoy, prometo sair a tempo, se isso te deixar mais confortável.

— Olhe como fala, Lewis — não era culpa dela, mas não pude evitar que meu bom humor fosse cutucado por esse nome. Por sorte, nada em meu rosto demonstrou isso. — A matéria de Defesa Contra as Artes das Trevas é muitíssimo importante na grade curricular. Mais importante, deve tratar o professor Lockhart com o devido respeito, assim como todos os outros professores.

— Eu respeito muitíssimo a matéria, professora — e agora eu estava encarando seus olhos muito verdes e muito duros com toda a honestidade que consegui preservar durante minha vida. — Mas não vai me convencer a tratar aquela piada com o mesmo respeito que trato a senhora, por exemplo. Você é uma grande bruxa. Seu domínio na arte da Transfiguração deve ser superado apenas pelo professor Dumbledore e, assim como ele, não acho que essa seja a única área que se sobressai. Eu respeito a senhora pelo exemplo de bruxa que é, pelo conhecimento que tem para transmitir. Você merece meu respeito. Lockhart precisaria nascer sete vezes antes de chegar a isso.

Ela não estava esperando um discurso. Para ser sincera, nem eu. Foi uma das poucas vezes que vi algo mais do que severidade rígida em seu rosto. Observei sua boca se entreabrir e seus olhos ficarem maiores em surpresa, e depois se fechar enquanto a cor se espalhava pelo seu rosto magro. Minerva McGonagall chegou a sorrir para mim, sorrir de verdade, saindo dos protocolos sociais estritos de professora-aluna. Havia calor em seus olhos muito verdes quando ela decidiu se recuperar, levando as mãos ao chapéu pontudo e o arrumando (mesmo que não precisasse), enquanto fazia esforço para fechar os lábios na linha reta que costumava mantê-los.

— Bom, Lewis... — a professora limpou a garganta, o que me fez sorrir quando olhou para outro lado, provavelmente tentando controlar o fluxo de sangue em seu rosto. — Pegue os besouros no armário, por favor.

Durante os próximos minutos, McGonagall apenas falou comigo para dar instruções de como poderia ajuda-la. Não me importei, pois mesmo se eu não pudesse sentir seu bom-humor, construído da satisfação e lisonja, eu tinha seus olhos. Eles ela não havia conseguido controlar, apesar de já não haver mais qualquer vermelho em seu rosto e nem sorriso em seus lábios. Estavam brilhantes, quase risonhos e com certeza vivos. Nunca os tinha visto tão verdes como naquele momento, e Minerva já era naturalmente dona de um tom bastante forte de esmeralda.

Então não foi nenhum sacrifício os minutos que fui de um canto para outro, dançando em volta de sua energia positiva, energética, vibrante. Além do mais, não era nada difícil ou demorado, apenas organizar os insetos nas carteiras e restaurar se alguma estivesse danificada da aula anterior. Como prometido, peguei minha mochila e passei pelo ombro quando faltavam cinco minutos para o sino denunciar o inicio da terceira aula. McGonagall já estava em posição de receber seus próximos alunos, mas eu ainda não tinha abordado o motivo de ter ficado após a aula.

— Professora? — Com seus olhos em jubilo e sua expressão menos dura, esperava que fosse eu a ameaçar seu dia. — Em que ano se começa a ter aulas avançadas de Transfiguração?

— A medida de se avança nos estudos, a cada ano, naturalmente os conhecimentos vão ser tornando mais elaborados e densos — ela ponderou, inclinando a cabeça em minha direção. — Mas as classes mais avançadas de toda matéria são as de pós prestação dos exames de Níveis Ordinários de Magia, ou NOM, no quinto ano. De acordo com suas notas em cada disciplina, você terá acesso a aulas mais profundas sobre elas, pois estarão ligadas a carreira que tiver em mente. Você as frequentará durante todo seu sexto e sétimo ano, quando prestará os exames de Níveis Incrivelmente Exaustivos de Magia, também chamado de NIEM, que determinará se está apta de conhecimentos para ingressar em sua vida profissional

— Então um aluno até o quinto ano ainda não tem acesso a assuntos mais avançados? — Foi preciso força de vontade para meu rosto permanecer desinteressado. Por sorte, Minerva ainda estava feliz demais.

— Não mais avançados do que aqueles dirigidos ao seu ano — e balançou a cabeça, os olhos no relógio acima do quadro-negro. — É hora de você ir, Lewis. E não se preocupe com isso agora. Se continuar levando seus estudos a sério como agora, não vai ter muito mais que se empenhar quando chegar a hora e serão duas provas como tantas que já fez. Agora vá.

Para minha sorte, ou não, o resto do dia foi calmo o bastante para que minha cabeça tivesse seu tempo para ficar longe da classe – a aula de Lockhart era uma piada e História da Magia, apesar de importante e interessante, tinha o grave problema de ser ministrada por um fantasma que não tinha qualquer interesse se alguém estava ou não prestando atenção nele. Foi apenas nos dois últimos horários, uma aula dupla de Poções, que tive que tirar minha mente do ciclo vicioso de pensamentos sobre Tom Riddle, enumerando e categorizando cada informação que eu tinha dele, dada ou deduzida. Haviam lacunas demais para meu gosto.

Ao final de uma exemplar poção para Arrepiar Cabelo, Snape me devolveu dez pontos dos que havia tirado ainda essa semana, além de conceder cinco extras a Malfoy. Juntando aos cinco pontos que McGonagall havia me dado ao responder uma pergunta em sua sala, já era metade dos pontos que eu havia jogado fora na terça-feira, o que deixou o humor dos meus colegas (principalmente de Pansy) ainda melhor. Quando o dia terminou, esperava não acabar perdendo-os de novo.

Meu dia marcado de ver Lagrum era toda sexta-feira. Era o mais lógico e sensato, uma vez que meu amigo era noturno e não era incomum chegarmos a ver o sol nascer, ou ficar perto disso. Seria desagradável e desgastante ter essa rotina com aulas na manhã seguinte..., porém, em decorrência aos últimos acontecimentos, uma exceção foi aberta. Ansioso como nunca iria admitir que estava, meu amigo me esperava na orla da floresta quando a noite já estava firme e o castelo dormindo.

Fomos em silêncio em direção a árvore que ele havia reclamado como morada. Já era fim de inverno, então não estava tão frio quanto poderia e nem a terra tão congelada quanto antes, mesmo assim eu ainda encontrava conforto no quente suéter de lã que ganhara da sra. Weasley – apesar de ter de admitir que muito pouco se devia ao fato de precisar me aquecer. Não, o sangue gelado que corria nas minhas veias se responsabilizava em não tornar uma preocupação séria eu me expor a temperaturas quase extremas (e com certeza prejudiciais) para um ser humano comum. Era mais interior do que apenas calor físico.

Na mata fechada, com a noite como cumplice, pela primeira vez senti que tinha de buscar algum conforto. E talvez isso estivesse ligado ao tema da conversa que iria vir, ou com as lembranças e sensações que ignorei durante todo o dia, ou com minha mente rápida que saltava de dedução em dedução que eu não queria fazer. Lagrum foi paciente enquanto esperava que eu tirasse meus coturnos e depois escalasse sua árvore. Então me acolheu em duas dobras frias, rodeando meu corpo com o próprio, criando não uma barreira quente contra o inverno, mas sólida – o que era uma analogia bastante boa sobre nossa relação.

Você sabe que não precisa fazer isso.

— Agora não — concordei com os lábios apertados. — Nem amanhã. Mas e mês que vem? Ou no próximo ano? Você não para de crescer, Lagrum, e te carregar por aí na minha mochila pode chegar a um limite. E se você se tornar grande demais até mesmo para a magia? E se ficar pesado demais? Eu não quero me dispor a descobrir de uma hora para outra, em um momento em nada é uma favorável.

Lagrum silvou para isso, tão contrariado quanto eu. Ele havia me criado para estar pronta, para estar precavida em qualquer ocasião ou, ao menos, na maioria delas. Cruzar os dedos e torcer pelo melhor nunca estaria na sua lista de conselhos – a sorte era ingrata e imprevisível e, na hora de escolher sobreviventes, muitas vezes abdicava de interferir. Contudo, chamar a origem da ajuda de duvidosa era ingenuidade. Tom tinha ameaça demais atrás de seus modos de lorde para considerar o ato como pura bondade de seu coração.

— De qualquer forma — voltei a falar depois de um tempo, mudando de posição e ajeitando meu corpo no seu mais por ansiedade do que desconforto. — De acordo com Minerva, Riddle pode ainda nem mesmo ter acesso ao conhecimento necessário.

Ter acesso e saber são duas coisas diferentes, Malorie, você também sabe de feitiços e matérias além de sua idade e ano.

— Certo, gênio do óbvio — chiei de volta para o nome que lançou sobre mim, os dentes apertados para conter minha frustração, pelo menos um pouco dela. — Então, supondo que ele tenha a informação que eu precise, de forma lícita ou não, e daí? A ideia de aceitar a ajuda não me é ruim até lembrar que ela veio de uma espécie de fantasma preso em um diário datado de cinquenta anos atrás, que me olha como se tivesse algum direito ou poder sobre mim, como se me conhecesse, como se fosse...

Engoli rápido as palavras. Estavam perto de sair, na ponta da língua, mas era demais. Não. Não. Não. Eu não podia conceber a ideia, não em voz alta, não fora dos meus pensamentos mais sombrios, tão escondidos que mesmo Lagrum os evitava. Ele deixou que o silêncio retornasse, muito calmo depois de meu mal comportamento. Meu amigo sabia. Sabia o que me arranhava de dentro para fora, buscando caminho para o mundo real, o mundo dos fatos e das certezas.

A brisa fresca passou por nós e acalmou meu coração. Ela esquentava cada vez mais, trazendo a primavera, prometendo renascimento depois da morte invernal. Por um momento, desejei que tempo parasse apenas parar poder respirar com mais calma aquele momento de promessas gentis.

Voltamos a questão principal, filhote. Meu amigo e mentor se aproximou de mim, trazendo sua longa e pesada cabeça para perto, seu rosto (e consequentemente sua boca) ao lado do meu. Apesar de sua mente ser, sem qualquer dúvida, uma das armas mais poderosas que você possui, ela não vai ajudar agora. Concentre-se no que você viu, no que sentiu, no que sabe. O que você sabe?

— Eu sei que o nome dele é Tom Riddle — comecei devagar, jogando minha voz em um sussurro que eu sabia que ele não teria problema de entender. Cobras tinham uma audição incrível. — Sei que é monitor e sei que estudou em Hogwarts cinquenta anos atrás. Sei que era da Sonserina. Sei que ele é perigoso, sei ele quer algo além de ser prestativo ao me ajudar. Sei que está ligado ou preso ao diário e sei que, de alguma forma, é o responsável por fazer Gina Weasley se parecer com um cadáver. Sei que ele é arrogante e egocêntrico, sei que gosta de estar no controle e deixar isso muito claro. Sei que gosta de fingir que é um lorde e ele pode até ser inglês, mas suas roupas são remendadas e seu cheiro é do kit de higiene que Hogwarts oferece. Sei que está interessado em mim e parece genuinamente querer me conhecer..., mas talvez Ginevra tenha tido a mesma impressão.

A fêmea Weasley foi pega em uma armadilha, com certeza. Ela é uma bruxa crescida nesse mundo e, mesmo assim abaixou a guarda para um objeto estranho e poderoso.

— Riddle disse que não conseguiria mentir para mim... — mordi o interior das bochechas, soltando o ar devagar. — Ele estava falando da sua natureza. Ele sabia que eu estava vendo, muito bem, o predador embaixo de sua elegância e beleza. Eu vi..., mas e se Gina não? Ela é uma criança, como deveria ser, e ainda acha que os monstros são coisas feias no canto escuro, não rapazes com voz suave.

É uma excelente aposta, Mal. Mas devo continuar, no que isso ajuda?

— Ajuda que Tom está sendo honesto, ao menos até agora — a cabeça de Lagrum deslizou mais para frente antes de virar, ficando de frente para mim. Encarei seus olhos negros e cegos sabendo que ele não precisava deles para me enxergar e havia me ensinado esse talento. O sentido mais traiçoeiro, tudo que vale a pena está além dele. — Eu também sei que ele é brilhante. O melhor aluno que Hogwarts já teve em mais de mil anos de história, de acordo com o próprio Dumbledore. Sei que ele tem a capacidade para saber as respostas, assim como eu também as alcançaria, eventualmente.

Se for como você, não há duvidas de que aquele pergaminho é a informação que você precisava para seguir em frente. Mas me prove que lhe criei com alguma coisa na cabeça: vai confiar nele?

— Riddle é um manipulador que eu ainda não sei o que, exatamente, quer de mim — devolvi para sua língua bifurcada quase na minha cara. — Mas também é um gênio, se o velho diretor não tiver mentido. Eu não estou mais perto de descobrir as respostas sozinha do que estava a meses atrás e não temos o luxo de apostar no tempo. Então sim, vou aceitar os conhecimentos dele. Mas não me ofenda ao sugerir que irei ir além disso.

Meu amigo ficou um pouco em silêncio depois disso. Eu sabia que estava fazendo o possível para não interferir. Ele não queria, quase não podia. Era parte do seu código, seja lá onde havia o conseguido, deixar que minhas decisões fossem minhas, não importando o que ele achasse melhor. Essa era a principal razão, por exemplo, que Greta demorou tanto tempo para desaparecer. Por fim, senti seu corpo forte me apertando mais um pouco, o frio de seu couro me trazendo o único sentimento de proteção que conhecia na vida. Quando ouvi seu silvo outra vez, veio muito mais baixo e suave, quase como se esperasse que eu não ouvisse.

Um último conselho.

Um último aviso.

É melhor ser cuidadosa onde vai, filhote. Ou pode acabar perdendo o caminho de casa.

— Eu sei, Lagrum, eu sei — a vontade de sorrir conseguiu subir meus lábios apenas o bastante para as pontas entortarem enquanto fechava os olhos. Era hora de começar a saber quão bem ele havia me criado. Até onde eu poderia ir sem me perder? — Ou devora meu coração.

Notas finais
Então, gostaram? Digam nos comentários, amo falar com vocês ♥ LEMBRANDO, os comentários do capitulo anterior serão respondidos durante as semanas ♥ Malfeito, feito! Nox! ♥