Corona II
44 Frio Despertar
Notas iniciais
Leões são criaturas obstinadas, quase teimosas. Quando colocavam algo na cabeça, era mais fácil convencer Snape a performar uma apresentação solo no Coral de Sapos do que fazê-los desistir ou mudar de ideia. Sendo assim, me poupei do trabalho de tentar ser a voz da razão quando minha presença foi requisitada na Torre da Grifinória fora da temporada de férias, quando muitos poderiam me ver e denunciar. Em defesa de meus amigos, porém, devo acrescentar que era uma ocasião especial: Mione havia sido, finalmente e sem qualquer efeito colateral, liberada da ala hospitalar.
Tive, no entanto, alguma ajuda da sorte. Era o primeiro sábado de fevereiro e, sendo o último mês do inverno, a maioria do castelo estava desesperada por qualquer raio de sol que pudesse aparecer. Isso fez um caminho quase livre até a sala comunal vermelha e dourada, e então subimos para do dormitório masculino vazio. Durante o trajeto, Harry foi atualizando Granger aos cochichos sobre o diário de Tom Riddle, e a garota ficou tão empolgada que, uma vez que viu a coisa na sua frente (Potter já havia me falado para trazê-lo), o arrancou da minha mão sem qualquer cerimônia.
— Ah, talvez tenha poderes secretos! — Era bom ouvir a voz de minha amiga sem estar mesclada a um miado fino, melhor ainda ver seu rosto afoito sem pelos.
— Se tiver, deve estar escondendo esses poderes muito bem — Ronald apontou, os olhos quase entediados em cima da capa de couro velha. — Vai ver é tímido. Não sei por que você não joga esse diário fora, Mal, ainda mais depois de como você ficou...
— O quê? Como assim? — Hermione levantou a cabeça do diário, que foleava e revirava com tanto afinco que cheguei a imaginar se Riddle estaria se sentindo violado. — O que aconteceu?
— Sinceramente, Mione, eu não sei — encolhi os ombros. — Quando o peguei, senti... alguma coisa. Uma energia... uma magia muito forte. Me desestabilizou um pouco...
— Um pouco? Você quase caiu dura! Sério, Hermione, ela ficou toda branca! E tremia...
— Obrigada, Weasley! — Cortei sua descrição com mais impaciência do que devia enquanto Granger colocava o diário em cima da cama de Harry com muita calma e cuidado. — Sim, eu passei por um mal momento, mas já estou bem. Além do mais, eu não iria jogar fora alguma coisa que tenha a capacidade de deixar alguém naquele estado. Deve ter uma razão. A única coisa certa é que não é só um diário velho.
— O que torna o por que alguém tê-lo jogado fora mais curioso — Potter tornou a falar, os olhos no objeto em sua cama. — E também gostaria de saber por que foi que Riddle recebeu um prêmio por serviços especiais prestados a Hogwarts.
— Dumbledore me disse que ele era um gênio — a atenção dos três quase me fez arrepender de abrir a boca. — Eu o perguntei se o nome significava alguma coisa e ele me disse que era um aluno de cinquenta anos atrás, mais que brilhante, conseguiu todas as honras máximas que um aluno pode imaginar..., talvez seu serviço tenha sido ser um aluno tão bom. Escolas dão prêmios para essas coisas, não é? Prestigia o nome delas.
— Faz até sentido — Ronald balançou a cabeça, considerando a ideia. — Mas pode ter sido por qualquer outra coisa. Talvez tenha ganho trinta corujas ou salvou um professor dos tentáculos da lula gigante. Talvez tenha assassinado a Murta; isso teria sido um favor para todo mundo...
Warren. O nome me cortou como os açoites de Greta costumavam fazer. Aquela fantasminha desprezível... quando foi que ela havia morrido? Minha mente disparou de sua reação ao me ver pela primeira vez, a forma como puxou algo fundo de sua memória, como se perceber algo em meu rosto, em meus olhos, havia sido o bastante para fazê-la se afastar em incredulidade, mergulhada em lembranças e pensamentos enterrados a muito tempo. Também lembrei do medo, do pavor congelado e imortal em seu rosto, tão real e presente como se ela de fato houvesse algo a se temer quando deixei de ser gentil com ela. Murta fugiu naquele momento como se sua vida dependesse disso – e talvez, a muito tempo atrás, tivesse dependido.
— Que foi? — Weasley perguntou, mas não para mim. Pisquei para voltar ao dormitório, para Granger e seu rosto congelado, como se também tivesse sido atingida por algo. Ah, esse cérebro...
— Bom, a Câmera Secreta foi aberta há cinquenta anos, não foi? Foi o que Draco disse.
— É... — Rony soltou devagar, como um aluno tendo de acompanhar e completar o raciocínio de um professor no meio da aula. Tinha até a mesma cara: sobrancelhas franzidas e testa vincada em hesitação e confusão.
— E este diário tem cinquenta anos — Mione prosseguiu, os olhos castanhos febris como costumava ficar quando achava a resposta de alguma coisa. Infelizmente, Ronald não estava em seus momentos mais sábios.
— E daí?
— Salazar abençoado, Weasley, preste atenção! — Minha voz saiu abafada pelas mãos no meu rosto, pela frustração. Como ele podia ser tão brilhante no xadrez?! — Sabemos que quem abriu a Câmera da última vez foi expulso há cinquenta anos. Sabemos, também, que T. S. Riddle recebeu um prêmio por serviços prestados à escola há cinquenta anos!
— Exato! — Hermione concordou, satisfeita e animada. — E se Riddle recebeu o prêmio por ter pego o herdeiro de Slytherin? O diário dele provavelmente nos contaria tudo! Onde fica a câmera, como abri-la, que tipo de criatura mora lá, e a pessoa que está por trás desses ataques desta vez não gostaria de ver o diário rolando por aí, não é?
— É uma teoria brilhante — Rony concordou, a cabeça balançando enquanto um olhar cético se formava em seus olhos azuis. — Só tem um detalhe pequenininho. Não tem anda escrito no diário.
Em reposta, Granger já estava com a varinha em punho, sussurrando que talvez a tinta fosse invisível.
— Mione... — tentei falar, mas a menina já tinha apontado para o diário, dado três pequenos toques e dito o feitiço aparecium. Como da última vez, nada aconteceu. Nem tentei abrir a boca quando, sem se abalar, a garota meteu a mão na mochila e, depois de algum esforço, tirou de lá um pedaço de borracha vermelho-berrante.
— É um revelador que comprei no Beco Diagonal — explicou enquanto esfregava com força a coisa em cima do primeiro de janeiro. Outra vez, nada. E agora Hermione parecia sem ideias, pois seu rosto murchou enquanto guardava a borracha outra vez.
— Eu tentei usar esse feitiço, também — comentei com suavidade ao seu lado, uma mão no seu ombro. Estar errada não era algo que a garota processava com muita facilidade, o que eu compreendia.
— Estou dizendo que não tem nada aí para se achar — Weasley insistiu, se tacando em sua cama. — Riddle simplesmente ganhou um diário de Natal e não se deu o trabalho de usá-lo.
Frustrados outra vez, o diário de Tom Riddle voltou para minhas mãos, selando minha consciência quase pesada. Queria falar o que achava. Queria dizer que sabia o que aquele diário tinha de tão especial: um garoto de quinze anos metido a lorde inglês, com uma voz suave demais para ser diferente de uma cobra se enrolando devagar ao redor de uma presa distraída. Queria, mas mantive minha boca fechada e me amaldiçoei por isso. Pois se eu dissesse tudo que sei..., então acabaria. Os três entregariam a diário a Dumbledore, dizendo que aquela coisa estava sugando Gina Weasley, além de ser capaz de se comunicar por algum meio obscuro da magia.
Eu não podia deixar que isso acontecesse. Não ainda. Não era como se a pressa fosse necessária – os ataques haviam cessado e Ginevra estava bem. Tudo estava sob controle. Além do mais, eu ainda precisava de Riddle. A leitura do pergaminho que havia me passado estava mais lenta do que eu gostaria. Eram detalhes demais, ingredientes demais, preparações demais. O ritual para o feitiço era muito mais minucioso do que qualquer aula que eu já havia frequentado, mais completo do qualquer livro avançado que já havia foleado.
O que me ajudava era já ter tido experiencia com o livro da sessão reservada de onde tirei a maioria das informações sobre o Praedam Vitae. Sendo assim, a maioria dos termos gerais não me eram estranhos, uma vez que já tinha gasto todo um verão os estudando. Mas aquelas instruções continuam mais do que termos gerais e eu avançava uma frase por dia, gravando tudo que precisaria fazer, verificando a veracidade daquilo e buscando o que ainda me faltava. Neste ritmo, com sorte, eu terminaria em um mês.
E, claro, como eu já estava acostumada, o pergaminho não era minha única preocupação. Potter estava quase que obcecado com o diário, chegando a pedi-lo para mim no dia seguinte, após ter ido bem de manhãzinha com Weasley e Hermione na sala de troféus, checar o tal escudo em homenagem a Tom. Como esperado, não continha nenhuma informação sobre qual havia sido seu "serviço prestado", mas eles também foram capazes de encontrar seu nome em uma medalha de Mérito em Magia e em uma lista de antigos monitores-chefes. Não tive escolha senão o entregar e assassinar a sensação de ansiedade que aquilo me trouxe.
Durante o resto da semana o sol começava a iluminar por cada vez mais tempo o castelo. A luz agora não se encerrava as três da tarde e, durante boa parte do dia e apesar do frio, uma constante e pálido se mantinha no céu. A cada dia a esperança natural da primavera se acentuava com o distanciamento do último ataque. Madame Pomfrey também havia anunciado – e só isso parecia ter trazido todo um fôlego de ar fresco à Hogwarts – que os cuidados da diretora da Casa de Lufa-Lufa estavam dando resultados esplêndidos e as mandrágoras agora se encontravam revoltadas e cheias de segredinhos, significando sua saída da infância.
O único ser vivo no castelo que não havia se deixado contaminar pela esperança que circulava no castelo foi Ernie Mcmillan. O lufano que havia apontado o dedo para mim e Harry quando Justino e Nick sofreram o ataque duplo não estava menos firme em suas convicções. Para ele, Potter e eu nos denunciamos no Clube de Duelos e ainda por cima fomos apanhados na cena do crime. E seus olhares desconfiados e hostis estavam começando a me irritar. Tanto o mais do que Pirraça (que não se encaixa em ser vivo) com seu estupido verso "Potter, pobre...", agora reanimado a cantar depois de ter incluído "Mal, malvada" e um numero de dança.
Mas se for para falar de coisas que me empurram um pouco mais em direção a uma detenção, é importante citar Lockhart. O homem havia tomado cuidado o bastante para não cometer este erro na minha frente, mas Harry havia me contado que ouviu-o dizer à Minerva que não haveria mais problemas e que o culpado deve ter se sentido acuado com a situação, parando os ataques com medo que o grande Gilderoy o achasse e liquidasse. A única razão que não fiz o parvo provar sua frase foi que não tive o prazer de cruzar com ele enquanto meu sangue ainda estava quente. Uma vez tendo me acalmado, a insistência do Garoto de Ouro para que eu não me metesse em problemas e minha já lotada agenda me convenceram a voltar a ignorar a existência do charlatão.
Potter também mencionou que Lockhart havia mencionado que Hogwarts agora precisava de uma injeção de ânimo. Vindo dele, eu podia esperar qualquer coisa ridícula, muito provavelmente voltada para sua existência como um dia de autógrafos ou sessão de fotos grátis. Mas tenho que, pelo menos uma vez, dar os devidos créditos ao antigo corvino: ele me surpreendeu. Com certeza não estava preparada para o que iria encontrar na manhã do dia catorze de fevereiro. Nem eu e nem ninguém.
— Em nome de Merlin, o que aconteceu aqui? — Subíamos todos juntos e essa voz veio de Zabini apenas por questão de rapidez, pois era exatamente o que cada um estava pensando. De bocas abertas e olhos incrédulos, precisamos olhar duas vezes para ter certeza que aquele era o Salão Principal.
— Desde quando Hogwarts tem uma decoração para o Dia dos Namorados? — Daphne perguntou atrás de mim enquanto andávamos em direção a nossa mesa. Me sentei depois de tirar o monte de confete em tons de rosa, que caiam em forma de coração de um teto azul-celeste, de cima do banco.
— Não tem — respondi com meus olhos correndo pelo salão até parar em um loiro patético na mesa dos professores, meu mal humor despontando logo cedo. Aquele maldito confete estava na comida também. — Isso é coisa dele.
Lockhart estava visível mesmo para Potter sem seus óculos. O rosa-berrante de suas vestes garantia isso. Combina com as flores que cobriam cada pedaço das paredes do lugar. Ele parecia muito animado, para o infortúnio da professora de Astrologia que havia se sentado ao seu lado. O pior, no entanto, ainda estava por vir. Depois de conseguir comer alguma coisa (e tenho certeza que ainda engoli um confete ou vários, apesar dos esforços de catá-los e espaná-los) e observar os professores ao longo de sua mesa ficarem cada vez menos despreocupados em disfarçar um ardente desejo de morte (juro que, pela primeira vez, Minerva devia estar desejando que eu chutasse alguém para que ela fosse resolver), Gilderoy se levantou.
— Feliz Dia dos Namorados! — Sua animação, pelo menos, era verdadeira. Seu sorriso largo e de dentes brancos, os cabelos loiros perfeitamente penteados e os olhos azuis – ele mesmo parecia um querubim crescido e melhorado. Era o cumulo de a ignorância negar a beleza de Lockhart. O fato de aquele homem, muito mais preocupado com a combinação de roupas que usava do que com o ensino, estava ocupando um cargo de respeito em uma escola de elite apenas ofuscava o fato. — E será que posso agradecer às quarenta e seis pessoas que me enviaram cartões até o momento? Claro, tomei a liberdade de fazer esta surpresinha para vocês, e ela não acaba aqui!
Lhe dou um mês de férias de suas aulas particulares se jogar seu prato na cabeça dele.
A voz de Snape, cujo rosto era o mesmo de alguém que tinha acabado de tomar um caldeirão inteiro de Poção Polissuco, ecoou dentro da minha cabeça como não fazia questão de fazer a tempos. Puxei meus lábios para dentro e os mordi para evitar a gargalhada que explodiu da minha garganta, fazendo-a se transformar apenas em barulhos engasgados e nasalados.
Seria muito mais que um mês, Gancho, já que eu estaria expulsa antes do final do dia.
Os lábios pálidos e finos do meu professor se crisparam ainda mais, desgostos, e eu tive que abaixar a cabeça na mesa para esconder outra risada. Quando voltei a me endireitar, sem fôlego e com o rosto quente, meus amigos estavam todos olhando para mim com sobrancelhas arqueadas e testas franzidas. Felizmente, não tive que dar nenhuma explicação da minha aparente insanidade, pois Gilderoy batia palmas e as portas do salão se escancaravam, deixando que um grupo de onze anões entrasse. A julgar pelas carrancas mal humoradas, não acho que eles estavam muito felizes em vestir asas douradas e carregar pequenas harpas.
— Os meus cupidos, entregadores de cartões! — Lockhart sorria ainda mais, quase pulando de uma satisfação que apenas ele sentia. — Eles vão circular pela escola durante o dia de hoje entregando os cartões dos namorados! E a brincadeira não termina por aí! Tenho certeza que meus colegas vão querer entrar no espirito festivo da data! Por que não pedir ao Professor Snape para lhes ensinar a preparar uma Poção do Amor! — Talvez por ele estar com ares de quem iria dar veneno e depois sentar e assistir a morte lenta de quem tentasse a sorte. — E por falar nisso, o Professor Flitwick conhece mais Feitiços de Fascinação do que qualquer outro amigo que eu conheça, o santinho!
O coitado do homem escondeu o rosto entre as mãos, talvez pela primeira vez desejando que fosse ainda menor para conseguir desaparecer dali. E ele foi só o primeiro. Ao longo do dia, os anões de Gilderoy perseguiram alunos pelos corredores, emboscaram em salas de aula, encurralaram em frente aos amigos, não deixando escolha se não ouvirem seus bilhetes declamados. Ao menos era isso que fiquei sabendo na hora do almoço: o assunto em Hogwarts eram os alvos, concentrados massivamente em alunos do terceiro ano para cima, e os conteúdos dos cartões entregados ao longo da manhã.
A aparte impressionante era que, em sua maioria, os estudantes consideraram uma brincadeira divertida e Lockhart de fato havia conseguido seu objetivo: estavam todos rindo, se apontando e aproveitando a oportunidade para brincar de flertar com altas doses de verdade. Eu não duvidava que alguns casais de fato estariam formados, ou se formando, até o final do dia. A única pessoa que não gostou nada da brincadeira foi meu caro amigo Harry Potter.
Já era fim de tarde. Por acaso, os alunos da Sonserina e da Grifinória se cruzaram no corredor ao caminho de suas respectivas aulas, o que não era incomum. Mas justo naquele dia, chegamos bem a tempo de vermos o Garoto de Ouro de quatro no chão, se esticando e catando todas suas coisas caídas da mochila rasgada. Demorei dois segundos para entender a situação: havia um anão perto dele e o rosto do garoto estava do mesmo tom de vermelho do brasão de sua casa estampado no peito das vestes.
— Que é que está acontecendo aqui? — Malfoy, como o bom enxerido que era, não resistiu ao impulso de se esgueirar para frente. A voz do garoto fez Harry entrar em um modo febril, quase em pânico, enquanto tentava juntar pergaminho, pena, livros e a varinha manchados de tinta no pano rasgado que fora sua mochila. Ele estava tão concentrado em sair dali antes que Draco pudesse ter a chance de ouvir o que o anão tinha a cantar que pulou quando me abaixei de seu lado, mas o alivio grato em seus olhos logo depois foi tão grande que achei que ele iria chorar.
— Que confusão é essa? — Percy Weasley havia se juntado ao show. Ainda estávamos no chão, tentando embrulhar o que um dia fora o material do garoto na mochila, mas Potter mais ajudava do que atrapalhava com suas mãos ansiosas e gestos desorganizados – o material estava molhado e era difícil manusear sem causar ainda mais estragos. Por fim, ele decidiu tomar a pior decisão possível, pois quando ele desistiu e se levantou em um segundo para correr, o anão saltou por cima de suas pernas, agarrou seus joelhos e o derrubou com um baque tão alto que qualquer chance de o corredor inteiro não estar prestando atenção na cena foi embora.
— Muito bem — o falso querubim fungou, satisfeito, se sentando em cima de seus calcanhares. — Vamos ao seu cartão cantado:
Teus olhos são verdes como sapinhos cozidos,
Teus cabelos negros como um quadro de aula.
Queria que tu fosses meu, garoto divino,
Herói que venceu o maldo Lorde das Trevas.
Havia mais, mas a humilhação no rosto vermelho do meu amigo e o desespero em seus olhos me fez arriscar mais uma detenção. Enquanto os risos ecoavam de cada ser vivo naquele lugar, me levantei e respirei fundo. Me concentrei força que Potter fazia para fingir que ria com os outros, me concentrei na risada sem folego de Malfoy e pelas lágrimas que escorriam de seu rosto por causa dela, me concentrei no mal estar e na vergonha de Harry e então mirei o chute. O anão, que não estava esperando um ataque, foi jogado a quase dois metros de distância, liberando as pernas do leão encurralado.
— Suma daqui — chiei para ele quando se levantou, o rosto vermelho e os punhos cerrados. A vontade de brigar, porém, desapareceu quando prestou um pouco mais de atenção em meu rosto, em minha postura, em mim. Eu o chutaria todo caminho para fora do castelo, se fosse preciso, e ele entendeu bem o recado pois catou a harpa no chão e deu as costas, marchando e metendo cotovelos nos joelhos da aglomeração.
— Vão andando, vão andando, a sineta tocou há cinco minutos, já para a aula — Percy tratou de começar a dispersar a multidão que já não ria tanto. Sei que a graça de Draco havia acabado, o imbecil. Ignorando seus olhos afiados e seu rosto transmutado em desdém, estendi minha mão para Harry e o ajudei a se levantar. Enquanto ele sorria para mim em absoluto agradecimento, ouvimos o monitor continuar. — Mal, você já é bem consciente que agressões físicas são contra o regulamento da escola! Terei de reportar isso e tirar dez pontos da Sonserina! E você, Malfoy...
Viramos a cabeça ao mesmo tempo. Vimos o enxerido fofoqueiro se abaixar e apanhar algo do chão. Havia caído um pouco mais distante do resto do material e, quando ergueu para balança-lo em arrogância para Crabbe e Goyle, senti o coração falhar uma batida ao mesmo tempo que senti a palma de Potter úmida: era o diário.
— Devolva isso aqui — Harry tentou se controlar, se virando em direção a Draco. Os olhos claros do menino se focaram no meu amigo com deboche, o rosto retorcido em um sorriso feio de desdém.
— O que será que Potter andou escrevendo nisso? — Malfoy provocou, pois como o perfeito arrogante que era sequer havia reparado na data impressa na capa de couro, julgando que o caderno pertencia ao leão.
— A não ser que queira ficar muito familiarizado com isso, Draco, eu sugiro fortemente que tire as mãos do que não te pertence — não havia mais risos. A escola ainda se lembrava muito bem da última vez que eu, Malfoy e Potter estivemos no mesmo círculo, nos encarando com olhos gelados e posturas tensas.
— Devolva, Malfoy — Percy repetiu, tentando fazer sua voz severa, tentando evitar que aquilo virasse um desastre. Onde estava um professor quando se precisa, não é mesmo?
— Depois — e Draco falou devagar, seus olhos de aço frio se arrastando de mim para Harry em despeito. — Que eu olhar.
— Como monitor... — ninguém se importava para o que Weasley iria falar ou dizer como monitor. Em um segundo Potter puxou a varinha e apontou para o peito do garoto, gritando "Expelliarmus" em alto e bom som. A boa noticia era que o feitiço foi um sucesso. Do mesmo jeito que a varinha de Lockhart havia voado de sua mão quando Severo lançará o feitiço contra ele, o diário foi lançado ao ar. Ronald, que havia passado todo o tempo observando a situação na borda, o apanhou no ar. A má notícia (ou boa notícia número dois, dependendo do ponto de vista) era que eu também havia puxado a minha.
O feitiço de invocação, Accio, devia ter trazido o caderno até minhas mãos. Uma vez, porém, que não havia mais nada ali, ele puxou o próprio Malfoy. Tive apenas um segundo para agir. E não vou mentir, eu poderia ter apenas me desviado. Mas talvez eu quisesse fazer aquilo a tempo demais. Desde o dia seguinte, desde quando ele havia se achado no direito de me olhar daquele jeito após me ver com Fred Weasley, desde que ele havia se fechado, desde que clamou para si o direito de me excluir, de ignorar minha existência e de fazer a dele para mim o completo vácuo.
Querem saber? Não vou envergonhar a educação que Lagrum me deu. Eu queria muito fazer aquilo.
Quando o corpo do garoto apenas parou de avançar quando se chocou contra meu joelho, senti meus lábios se abrirem em um sorriso. Era uma sorte o almoço já ter sido a tanto tempo, pois consegui acertar em cheio na sua barriga. O corpo magro de Malfoy se dobrou para frente, caindo por cima de mim, e passei meus braços envolta dele. Eu conseguia sentir sua raiva e sua humilhação. Eu podia sentir sua luta para vencer a dor, para se colocar de pé, para respirar. Eu podia até mesmo me compadecer da trégua que deixávamos para trás, mas valia a pena.
— Poderia ter sido mais embaixo, pequeno lorde — atirei o veneno em seu ouvido, minha voz baixa o bastante para ser um sussurro até mesmo para ele. — Agradeça depois.
Vincent e Gregory já estavam arrancando o garoto de meus braços no momento seguinte e deixei que fizessem. Fiquei parada enquanto Percy Weasley gritava que eu havia perdido mais pontos e que aquilo também seria relatado, assim como o uso de magia por parte de Harry. Não me importei. Meus olhos estavam no loiro sendo carregado para longe de mim, pois os dele também estavam em mim pelo tempo que conseguiram. Oh, estavam gelados. O pior dia do pior dos invernos da Escócia ainda perderia para o frio desalmado que aquele olhar prometia.
Eu sabia que nossa trégua havia acabado. Sabia que era guerra. Mas eu também estava cansada de fingir. Havia um monstro dentro de mim de saco cheio de sua hibernação, irritado de por ser afastado pela lembrança do calor. O frio era seu habitat natural e era nele que ele se movia, crescia, despertava. Deixei que o fizesse. Eu precisaria dele de agora em diante.
Nenhuma trégua pelo bem da corte o deixaria a salvo de mim. Nenhuma lembrança cálida. Nenhuma compaixão humanitária. Alguns meses atrás, o mimado nunca se atreveria a debochar na minha cara, não depois de um aviso tão direto. Fiz um acordo cordial com as trevas dentro de mim e chegamos à conclusão que era mais que tempo de lembrar a Draco Malfoy com quem ele estava lidando.
Quando meu monstro mostrou os dentes, sentindo o ar pela primeira vez em muito tempo, eu também o fiz.
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