Corona II
1 O Último Aniversário
Notas iniciais
Não era a primeira vez que irrompia uma discussão à mesa do café da manhã no Orfanato para Meninas de Santa Maria, em Chelmsford, Inglaterra. Irmã Eliza, uma freira que podia ser uma copia de Greta se também se interessasse em torturar criancinhas, ainda teve tempo de invadir o refeitório e gritar em latim antes de me agarrar pela gola da camisa e me arrancar de cima de Crystal Thomas Davies como se eu fosse um cão.
— Louca! Ela devia estar em um hospício e não aqui! — A garota loira guinchou do chão, algo muito patético para alguém de sua altura e idade, então lhe dei um chute na cara. O som do impacto me fez sorrir, o que não ajudou muito a situação. A freira me puxou ainda mais para trás, a mão de ferro três vezes mais firme na minha roupa. Roupa, não pele. Havia aprendido a lição depois da primeira vez.
— Basta, Lewis! — Eliza vociferou. Tinha pulmões muito fortes para quem beirava os sessenta. — Se fosse eu no comando desse lugar, juro que já tinha...
— Mas o que está acontecendo? — Katherine foi atraída, como usualmente costumava ser quando eu estava prestes a ser expulsa, mesmo que não achasse que podiam fazer isso. — Irmã, solte a menina.
— Se ela prometer que não irá continuar a tentar matar os outros — despejou enquanto me olhava. Eu detestava seus olhos castanhos quase tanto detestava os azuis de Greta e o quanto ainda o fazia, às vezes, com Snape. Pensar no meu professor fez meu monstro rugir mais uma vez, a fenda no meu coração se abrindo ainda mais, então o empurrei para muito abaixo da minha consciência.
— Tenho certeza que Malorie teve bons motivos para tal, mesmo que sua atitude ainda seja horrível — Kate me olhava de forma incisiva, talvez esperando que eu me explicasse, mas fiquei quieta. — Muito bem. Leve a Crystal para a enfermaria, irmã Eliza, e eu cuidarei dela. As outras, dispersando, por favor.
E assim o show acabou. Vi Davies ser levada aos tropeços para a enfermaria por Eliza, chorado e soluçando tão alto que era falso. Não que eu duvidava que estivesse com dor, eu garanti que sim, mas ela não podia perder uma oportunidade de tornar as cosias piores. Para quem, não sei. Não havia nada mais fundo para mim. Foi com esse pensamento que acompanhei Katherine para sua sala, onde havia se instalado pela sua posição de coordenadora do lugar. Não era a mesma que Greta usava, notei na primeira vez que pisei ali, o que achei de ótimo tom – havia sangue demais.
— Sente-se, Mal — não me sentei. Permaneci de pé, perto da janela, e consegui ouvir o suspiro que a mulher deu. — Certo. Então apenas se explique.
— Crystal estava sendo ela mesma — debochei enquanto estralava os dedos ainda sujos do sangue da menina. — Uma vaca desgraçada.
— Olhe a língua, Malorie, isso aqui é uma casa do Senhor — seu olhar duro quase me fez rir. Katherine podia ser muitas coisas, mas severa não era uma delas. — O que Davies estava fazendo?
— Além de respirar e atrapalhar meu café da manhã aparecendo na minha frente? — Passei a língua nos dentes, encolhendo os ombros. — Ah, sim, estava patrulhando a mesa das garotas menores para pegar sua parte de salsichas.
— E a razão dela fazer algo assim seria?
— Você quer que eu responda ou respeite a casa do Senhor? Escolha só um — grunhi para ela, mal-humorada. Eu sabia que não era uma boa ideia tratar com grosseria minha única aliada de peso – irmã Kate era a única que eu ainda via os olhos encherem de água ao se lembrar do inferno que aconteceu nessas paredes supostamente santas. Ela tinha consciência do meu passado, tanto com Greta quanto com Joan, e talvez por isso eu ainda tinha um teto sobre mim. — Pela mesma razão de todas crianças ricas: acha que é seu direito supremo e absoluto fazer o que quiser com seus inferiores, também conhecidos como resto do mundo.
— Mal — a voz da mulher assumiu o tom complacente que eu tanto odiava. — Você tem que entender, Crystal perdeu os pais...
— Estamos em um orfanato, Kate — rebati, meus olhos quase se fechando ao encarar sua figura plácida. — Todo mundo aqui perdeu os pais ou nem os conheceu. Isso não é desculpa.
— Não, é claro que não é — a mulher deu a volta em sua mesa, tentando se aproximar de mim, mas mudou de ideia. Ótimo. — Mas foi muito recente, um pouco mais de seis meses, deve-se levar em consideração o trauma dela.
— É isso que ela diz? — O veneno quase saltou para fora. — O único trauma que aquela garota tem é estar presa aqui até fazer vinte e um e não em sua mansão com alguém limpando a bunda dela com notas de cinquenta.
E eu não podia provar, mas já havia passado tempo demais naquela mente asquerosa para saber cada pequeno detalhe da alma pobre de Crystal Thomas Davies. Ela não estava traumatizada pela morte dos pais – ela mal os conhecia. Dois ricaços que decidiram ter um filho para ter fotos de família bonita e nada mais, a garota passava semanas sem ver a cara de nenhum deles, sua criação relegada a babás e empregadas que deitavam no chão para facilitar o chute de sua patroazinha. Quando os dois morreram de alguma doença pega no exterior, a única herdeira foi chutada para um orfanato.
Desde que havia voltado de Hogwarts, já havia visto o advogado da família duas vezes quando veio a visitar. Me disseram que ele vinha todo mês e nunca era agradável. Sempre terminava com Crystal esperneando, exigindo sair do orfanato. Por alguma razão, além de não ter quaisquer parentes vivos, ninguém se interessou por adotá-la, então era aqui que a garota ficaria até completar a maioridade, daqui a sete anos. Eu, sinceramente, esperava que o advogado obtivesse sucesso em roubar cada centavo dela até lá – eu adoraria sentar e assistir Crystal definhar ao relento.
— Olhe a linguagem — Kate repreendeu, cansada e conformada. Tomou outro ar. — Mal, eu estava pensando... talvez fosse melhor você aceitar a ajuda psicológica. Eu vi que eles a ofereceram quando... quando tudo aconteceu, mas você nunca fez. Quem sabe...
— Não — rosnei, me afastando em direção a porta. — Não vai me enfiar em uma sala com alguém tentando entender minha mente, e se fizer isso, vou jogá-lo pela janela. Posso ir?
Não esperei resposta, mas Katherine não tentou me impedir. Nunca impedia, não tinha coragem para isso. Em lugar disso possuía um coração grande demais que enxergava uma garota traumatizada com os horrores do passado, constantemente ferida pelas dificuldades que ainda me apareciam. Toda essa compaixão era ótima para mim, pena que também fazia ela proteger outros ainda menos merecedores do que eu.
Fui direto para meu quarto, o confronto com Crystal havia tirado meu apetite e nem mesmo a lembrança do cheiro do café era o suficiente para me fazer voltar lá. Queria Lagrum, mas estava cedo e ele dormindo na floresta. Era perigoso que eu ficasse raivosa e solitária no meu quarto, mas isso vinha acontecendo com bastante frequência desde que voltei. Grande parte disso se devia a minha total incompreensão por estar assim. A outra, a pequena e a que arrancava um pedaço de mim a cada dia, sabia que tudo isso era mentira.
Abadessa Joan estava em uma cama de hospital – completamente entubada e silenciosa. O que tinha para me dizer, os segredos que mantinha, todos tão selados quanto ela. Kate chorou ao meu lado e disse que eu poderia ficar o quanto quisesse, quando chegamos ao hospital. Não fiquei. Ver a mulher definhando não estava na minha lista de afazeres, e a imagem da morte aparecia atrás dos meus olhos toda vez que os fechava.
Outra parte, e essa pelo menos eu já esperava, era minha saudade. Sonhava acordava com os corredores do castelo e tinha sonhos com a Masmorra da Sonserina, às vezes até mesmo com a Torre da Grifinória. Acordava deles e tinha minha parede como um consolo doloroso. Havia pendurado o brasão de Hagrid ali, decorado com todas as fotos que tinha tirado em volta dele. Meus amigos se mexiam e sorriam para mim, todos eles. Lá estava Mione com seu cabelo cheio e dentes grandes, e Ronald com o nariz cumprido e o rosto sardento, até mesmo Neville e seus dentes meio separados e bochechas rosadas. Os gêmeos Weasley, com seus sorrisos perversos e olhos maliciosos pareciam prestes a me pegar alguma peça, mesmo em foto. Daphne e Pansy, uma de cabelo claro e outra com escuro, uma com um sorriso honesto e outra com um cruel. A pequena Sue Hopkins e seu cabelo ruivo e Blásio Zabini com a pele negra destacando os dentes alinhados para o sorriso perfeito.
E havia Harry Potter e Draco Malfoy. O Menino de Ouro sorria para mim, acanhado por uma foto tão de perto. Seus olhos verdes brilhavam, seu rosto começava a se tingir por baixo do cabelo preto despenteado. Mas tirei a foto do pequeno lorde escondida, pois ele era uma pessoa melhor quando ninguém estava olhando. Mais bonito também. Com a postura reta, mas o rosto relaxado, os olhos prateados escondidos pelo cabelo sem gel. Não fazia questão de conhecer seus pensamentos quando ele estava assim, em paz – ele os merecia.
Por quase toda a parede as fotos se espalhavam. Blás quase se arrependeu do presente, eu não havia a largado um minuto desde então. Meus amigos estavam lá – sozinhos, em grupo, sozinhos comigo, ou eu com todos. Ali estava Canino e Hagrid, e Minerva McGonagall e Alvo Dumbledore. Convenci até mesmo Severo Snape a me dar uma foto, mesmo que ele tivesse a mesma cara horrível de sempre, eu estava bonita demais nela para ser importante. As fotos rodeavam o brasão de Sonserina na parede ao lado da minha cama e serviam para ter fôlego ao cruzar mais um dia no calendário toda manhã. Em breve eu os veria outra vez.
Mas enquanto isso não acontecia, fazia de tudo para me contentar com as poucas doses de magia com que me presenteava. Decidi conter minha própria ânsia quando cheguei na metade de julho com todos meus deveres prontos. Agora me obrigava a esperar alguns dias para lê-los e refaze-los, e ia ler quando me entediava. O livro sobre Salazar Slytherin estava ao lado da minha cama com uma página pateticamente baixa marcada. Não se tinha muita coisa do homem além de seu tempo em Hogwarts e uma possível descendência (os bruxos bem podiam aprender a fazer exames de DNA).
O livro afirmava que era um bruxo poderosíssimo, mas isso eu já sabia. Também dizia ter sido muito amigo, talvez o melhor, de Godric Gryffindor, o que muita gente sequer imagina, mesmo que vivessem para brigar um com o outro. A saída de Salazar de Hogwarts se devia a uma briga particularmente horrível entre os dois, as opiniões divergentes sobre mestiços e nascidos trouxas foi apontada como a razão. Slytherin era o único que defendia a crença purista e, sem nenhum aliado, deu as costas para a escola que ele mesmo ajudou a construir e desapareceu.
Ele morreu em algum lugar, ninguém sabe onde, mas sozinho. Esse fato conseguiu me incomodar por muitas razões, algumas delas sendo que me identifiquei com o cara. Salazar era ofidioglota, como eu. Um bruxo com a rara (e malvista) habilidade de se falar a língua das cobras. Também era um legilimente natural, o que significava que podia ler e ouvir as emoções e pensamentos de qualquer um ao seu redor sem ajuda de varinha ou feitiço. Por coincidência, eu possuía as mesmas estranhas habilidades e me perguntei se meu destino era esse: morrer sozinha, sem ninguém para contar até mesmo onde e como.
Lagrum nunca me deixava pensar nisso por muito tempo e eu agradecia, tinha muito mais o que pensar. Com tão pouca informação pessoal, era extremamente divertido brincar de preencher as lacunas em sua história. Talvez odiasse tanto os trouxas por ter sofrido na mão deles. Salazar nasceu e morreu com os bruxos sendo caçados como pragas, atirados na fogueira e enforcados, mesmo que nenhum dos mortos (ou quase nenhum) fossem realmente dotados de magia. A maioria das vitimas reais eram as crianças que não tinham controle e se mostravam, e não conseguiam fugir depois. Quantas crianças ele viu serem queimadas? Quantas casas ele viu serem invadidas? Quanto sangue ele viu ser derramado, inocente ou não? Sua completa aversão aos trouxas não parecia tão absurda vista desse ponto.
O livro dizia que ele vinha dos pântanos, isso e nada mais. Sua trajetória até Hogwarts era obscura, mas definida. Ele tinha dinheiro o bastante para ter sido o que mais gastou na construção do castelo, então por que foi embora? Ele não confiava nos alunos que tinham relações com os trouxas, tudo bem, era compreensível. Em uma época de caça, eu também não gostaria de saber que o segredo da localização de uma escola de bruxaria estava nas mãos de gente com pais, mães e irmãos prontos para arrancar pedra por pedra do lugar e usá-las para bater na cabeça do nosso povo.
Mas Salazar não foi embora antes da escola ser construída, nem durante e nem logo após. Não desapareceu assim que viu que estava sozinho em suas convicções. Ele havia lecionado em Hogwarts por anos, então o que mudou? A briga com seu melhor amigo tinha sido assim, tão decisiva? E por que desaparecer? Famoso, poderoso, rico – Salazar era o inicio do que hoje chamam de realeza bruxa. Qual a razão de alguém assim desaparecer no mundo? Amargura e ressentimento eram respostas idiotas demais para mim e eu perdia horas de sono (e irritava meu amigo) imaginando o que não estava escrito naquelas páginas.
O ápice foi o final do livro, quando poucos capítulos se dedicavam a dissertar sobre o mais próximo de descentes que Slytherin havia deixado. Como eu disse, bruxos não tinham exames de DNA – principalmente na Idade Média – então alguma mulher apareceu com um bebê, dizendo que era do famoso Salazar Slytherin e ninguém negou, nem ele, apesar de não ter também confirmado. Ficou por isso mesmo, e a maior e incontestável prova que o garoto era mesmo filho de quem alegava ser era sua única capacidade de falar com as cobras.
Se criou uma certeza popular, desde dali, de que todos ofidioglotas são parentes de sangue do bruxo, mas isso era apenas muita arrogância. Um mundo inteiro, bruxos de diferentes continentes e países – deviam ter mais, certo? Na África, na Ásia, nas Américas. Eles não podiam vir todos de um bruxo só. Mas havia sim uma informação no livro, e essa sim eu concordava, de que poderiam vir todos de uma única família. Eu já tinha visto a bagunça que era a arvore genealógica dos meus colegas de casa, e, quem sabe, ir para outro lugar, talvez atravessando oceanos, não seria difícil. O livro defendia que a capacidade de falar com as cobras era algo passado entre gerações e me diverti com isso, mesmo que tenha sido informação o bastante para me fazer deixar o livro de lado por algumas semanas.
Gaunt, de qualquer forma, era o nome que o livro apontava como os últimos descentes diretos de Salazar Sonserina conhecidos, se é que ainda podia dizer isso deles. A família havia desaparecido completamente, uma história muito vergonhosa e rápida. Loucos com a sombra de realeza e riqueza, os montes de ouro e as muitas propriedades não demoraram a virar isso, sombras. A medida que os nascidos trouxas e os mestiços ganhavam seus direitos na comunidade bruxa, os Gaunt esbravejavam mais e mais alto, até finalmente perceberem que estavam fazendo isso para as paredes: dividas até o pescoço e arrogância além da insanidade, eles se isolaram. Sumiram da comunidade bruxa e disseram que só voltariam quando todos voltassem a razão. Isso foi a alguns séculos atrás.
Que grande fim para os Slytherin.
Mas Hermione estava certa, afinal, eu gostei do livro. Conseguiu me entreter no purgatório das férias, com Crystal me pedindo para arrancar seu couro cabeludo a cada vez que respirava perto de mim. Atendi seu desejo algumas vezes, e justamente por isso fiquei bastante tempo trancada no quarto depois de rezar na Igreja. Eu precisei de algo para me distrair principalmente em uma noite particularmente quente de verão, no décimo sexto dia de julho, também conhecido (mesmo que por pouquíssimas pessoas) como meu aniversário.
O dia teve a audácia de começar promissor. Lagrum cantou para mim de manhã, mesmo que já tivesse me desejado os parabéns na noite anterior, na floresta. Acordei com quase uma tonelada de réptil em cima de mim, mas não fui capaz de ficar com raiva. A melodia me embalou muito antes da pressão de seu corpo nos meus pulmões ficar impossível. Mesmo depois do filme horrível de onde minha musica serviu como trilha sonora, nada no mundo seria capaz de tirar a calma que ela me passava desde as primeiras palavras.
Silva, Silva, serpinha...
Ele dormiu debaixo da minha cama depois disso e eu me sentia bem-disposta o bastante para encarar Crystal sem qualquer pré-disposição de a obrigar ir para uma mesa de cirurgia. O cheiro de café do mundo dos trouxas (os elfos de Hogwarts ainda não tinham acertado o ponto) me fez flutuar em direção a uma das mesas, ainda rodeada da maioria das minhas colegas do ano anterior. Holly e Taylor haviam conseguido a adoção – um acontecimento e tanto, me contaram.
Holly era um ano mais nova e Taylor tinha minha idade, o que fez elas terem dez e onze anos quando foram tiradas daqui. Pode parecer jovem, crianças, mas ambas estavam aqui no tempo de Greta e, se isso só não bastasse, ninguém quer adotar filhos que já raciocinem que são adotados. A maioria dos adolescentes, pré-adolescente e crianças perto disso são simplesmente deixadas para apodrecer nos orfanatos, velhas demais. Fiquei feliz por as duas terem ido embora – ficar dentro daquele lugar ainda era muito difícil para a maioria das garotas.
— Eu não acredito que você não vai dar mais detalhes da sua escola, Mal! — Hannah reclamou, me fazendo rolar os olhos em direção a sua figura. Com cabelos loiros e olhos claros, ela me lembrava Daphne Greengrass., apesar de Daphy não ter papada. — Esperamos muito por detalhes!
— Vocês precisam de um hobby, isso sim — devolvi, me dividindo entre respirar o ar quente do café e de fato bebê-lo. — São muito atoas se ficaram um ano inteiro com isso na cabeça.
— Não é como se muita coisa acontecesse por aqui, você sabe — Harper, apesar de não parecer muito interessada, entrou na conversa. Tinha um rosto anguloso e magro que se destacava ainda mais quando chupava as bochechas, como agora. — Vivemos no meio do nada.
— Ela não vai dizer nada — Lauren encerrou o assunto. Tinha a pele cor de caramelo e olhos estreitos, sempre fazia piada de que devia ser a filha bastarda de algum ricaço que se engraçou com a empregada. Era ótimo ela ainda ter senso de humor. — O que é bem maldoso, Mal, só deixando registrado.
— Reclamação anotada, aguarde o retorno de nossa equipe de atendimento — debochei, arrancando risadas das meninas à minha volta. Até mesmo Davies estava em seu lugar, rodeada das garotas que havia conseguido puxar para sua orbita, meninas desesperadas e pobres com olhos grandes em cima da herdeira (futuramente falida). Era decepcionante observar como até mesmo a pior das pessoas sempre iria encontrar subordinados – se tivesse o necessário para isso. Na maioria das vezes, dinheiro. A simples promessa dele já bastava. Poder e status eram fortes chamarizes, também.
E que Deus os abençoe e ilumine em suas jornadas em busca disso.
Eu tinha que parar de blasfemar bem na cara da imagem de Cristo – as consequências vinham rápido. Mal terminei o pensamento e meu café, amargo e precioso café, travou na minha boca como se fosse pó de canela. Minha garganta fechou e engasguei, mas não cheguei a sentir o liquido quente voltando para minha pele. Estava concentrada em Katherine e na nuvem que ela trazia dentro de si. Seus olhos vermelhos e mão agarrada ao crucifixo me fizeram levantar, meu coração batendo tão rápido quanto meus passos até ela.
— Venha comigo, Mal, por favor.
Não perguntei para onde ou porquê. Não fingi que não sabia e nem tive que chegar perto de sua mente. Ela era fácil demais, aberta demais, e apenas uma coisa, naquele momento, poderia deixa-la tão angustiada e perdida. Acompanhei a freira até o lado de fora, onde o único carro por aqui nos esperava. Eu conseguia sentir Lagrum despertar, inquieto por meu nervosismo e principio de desespero, então preguei meus olhos na janela e me lembrei das lições do meu professor, mesmo que sua simples lembrança me fizesse sentir um gosto horrível.
Fiz da escuridão uma fortaleza de metal e aço, aprisionando minha consciência. Não queria ter a mínima ideia da mente perdida e coração dolorido de irmã Katherine, ou do motorista amigo do padre, ou das pessoas do lado de fora, ou de mim. Tentei meu melhor para enterrar as palavras que ecoavam dentro de mim e sangravam atrás dos meus olhos como se alguém houvesse as desenhado ali desde o momento em que vi Joan resumida a um vegetal.
Mas tinha uma coisa com ela. Disse que apenas a própria menina poderia ir buscar, e mais ninguém. Talvez seja uma pista de onde ela veio...
Não é que eu tivesse alguma birra particular com hospitais, só que todas minhas lembranças neles (incluindo as recém resgatadas) não eram nada convidativas. Nada de médicos sorridentes com um pote de pirulitos como recompensa pelo bom comportamento – minhas memorias eram de rostos tensos e olhos nublados. Nunca souberem o que fazer com a menina saudável que os pais insistiam que tinha alguma coisa, assim como não souberam o que pensar da garota mutilada, a sobrevivente e salvadora do Horror de Santa Maria.
Torci os lábios para a última palavra por ser ridícula. Não me coube naquela época e ainda não cabia. O termo salvador remetia a algum tipo de heroína, e isso eu tinha certeza que não era. Heróis são altruístas, nobres, dignos. Eles se doam e se sacrificam pelo que acreditam, por quem protegem. Eu não me sacrifiquei por nada. Eu apenas sobrevivi e fiz o que era preciso para isso. Sobrevivente era o único nome que aceitava – era o único correto. Empurrei esses pensamentos para o fundo da minha consciência já tão abarrotada e respirei fundo todo o sofrimento, a dor e a tênue esperança que vinha do ambiente hospitalar.
Não fazia ideia de como seria um hospital bruxo, mas um trouxa não era nada agradável para um receptor humano de emoções e pensamentos. Reforcei minhas barreiras e arrastei meus pés ao lado de Katherine em direção à recepção. Odiei a voz do recepcionista dizer que o médico viria nos buscar e tive um impulso quase irrefreável de invadir sua mente, descobrir por mim mesma onde estava agora que tinha sido mudada de quarto em função de receber cuidados mais intensos. Não haviam muitas freiras internadas ali, Salazar, não seria nenhum desafio. Mas o canal entre as mentes sempre eram uma via de mão dupla e não estava nada disposta a me abrir, mesmo que um pouquinho, a todo o oceano à minha volta.
— Bom dia, desculpem a demora, irmã Katherine, senhorita Lewis — tremi ao ouvir esse nome, ou talvez tenha sido apenas impressão. Conseguia controlar minhas reações com muito mais desenvoltura do que algumas semanas atrás, mas ainda era difícil evitar pelo menos um canto dos lábios despencando.
— Doutor — Kate e sua voz afetada. Respirei fundo para controlar meu temperamento. — Recebi uma ligação...
— A abadessa está no quarto 106, quarto andar — o doutor Phelps, muito provavelmente, iria falar muito mais que isso, mas não me interessava. Passei por ele em direção ao elevador enquanto escutava, atrás de mim, Katherine explicar ao bom médico o motivo de perdoar minha falta de educação.
Elas eram muito próximas, entende?
Travei o maxilar, me concentrei em puxar o ar para os meus pulmões. Tantas vezes me sentei na beira da cama daquela velha, tantas vezes... não permitiria que fosse embora assim, que levasse para o tumulo seja o que for que saiba sobre mim. A definição de irmã Katherine queimou dentro de mim, deixou meu monstro de olhos abertos e me fez lembrar das aulas com Severo. Eu me lembrava bastante dele com bastante frequência, tudo por ter que constantemente abafar as vozes ao meu redor, segurar as rédeas do meu poder, controlar o impulso de transformar a mente de quem merecia em um redemoinho além de qualquer salvação.
Muitas vezes já flertei com a ideia de fazer isso com Crystal. A imagem dela babando em uma cama, incapaz de falar, andar, comer ou ir ao banheiro por causa de uma mente em frangalhos me fazia dormir melhor. Então me lembrava de Snape e sua boca torcida, e Potter e seus olhos puros de Sonserina, e até mesmo Dumbledore com os óculos na ponta do nariz, me olhando como se soubesse de todo o passado, presente e futuro do mundo. A imagem deles me fazia recuar e controlar o monstro caótico dentro de mim. Eu só não sabia por quanto tempo.
Nesse exato momento, por exemplo, esquivando e contando o numero dos quartos até Joan, não fazia ideia do que dizer ou fazer quando chegasse ao quarto. Uma parte ruim de mim queria chacoalhar a velha até que reagisse, mas eu ainda tinha controle o bastante sobre ela para apenas ficar parada quando entrei. Abadessa Joan estava quase da mesma forma de quando eu a vi no dia em que voltei de Hogwarts: entubada, pálida e mais perto da morte do que me lembrava de ter visto alguém. Claro, tinha Quirrell, mas ele foi morto (por sua própria ganancia e burrice). Tinha trinta anos, quarenta? Muito diferente da mulher acamada na minha frente.
Só havia uma coisa: ela estava de olhos abertos. Não que isso significasse muita coisa por sua cegueira, mas eu sempre tive impressão de que Joan não precisava de olhos para ver e tive outra vez. A mulher mexeu a cabeça, como se reconhecesse minha presença e meus pés me levaram até a beira de sua cama como se ainda fossem tempos melhores. Na primeira e única vez que eu havia estado ali não fiquei nem mesmo cinco minutos, a figura da abadessa e os sentimentos atravessados que ela me causava naquele estado me expulsaram. Mas agora não tinha escolha, na verdade nem estava tentando ter.
— Olá, Jonie.
— Mal — fiz força para ignorar sua voz, mais áspera do que uma lixa, mas ainda não tinha chegado lá. Estiquei minha mão até o criado mudo ao lado e servi um copo de água, levando até seus lábios débeis. A enferma deu fracos goles antes que puxar a cabeça para trás e eu recuar minha mão. Lambeu os lábios e respirou fundo. — Vai ficar dessa vez?
— Temo que sim — meus lábios se torceram ao colocar o copo em seu lugar. Ao menos a voz dela melhorou.
— Ótimo — abadessa se acomodou o melhor que pode, os olhos vagos voltados para mim. — Eu não tenho tempo, criança, e vamos precisar de algum. Posso te perguntar o que você sabe sobre os abortos?
— É algo que ocorre quando se interrompe a gravidez.
— Não esse tipo, Malorie, e você sabe disso — cerrei os dentes, flexionando os dedos no impulso de quebrar algo. — O outro tipo, qual é?
— São crianças de pais bruxos que nascem sem magia — minha voz me saiu afiada e gelada, até mesmo para meus ouvidos. — É isso que você é?
— Não — um sorriso débil tomou conta dos lábios enrugados. — Minha parcela de magia é menor do que isso, acredite. Um aborto, você sabe, não tem magia o bastante para realizar feitiços, mas tem alguma para, ao menos, enxergar o mundo como ele é e não da forma distorcida e fragmentada que os trouxas fazem. Eu sou a filha de um aborto, Malorie. Não tenho qualquer capacidade de realizar a mais simples magia, e nem mesmo tinha a enxergar sem uma venda durante todo o tempo. Para mim, era necessário olhar com atenção, duas vezes até, sem garantia de funcionar. Mas nem sempre minha visão falhava... eu consegui enxergar você. Contei algumas mentiras, menina, e vou me entender com o Senhor em pouco tempo, mas antes preciso que me escute: a história não é bem do jeito que conhece.
— Posso me poupar do esforço de ouvir uma velha moribunda e simplesmente tirar tudo de você — Lagrum me morderia por isso. Não faça ameaças que não pode cumprir, ele dizia. Eu conseguiria fazer? Conseguiria rachar a consciência de Joan em duas, usar como um brinquedo pessoal? Ela mesma respondeu para mim, plácida e ainda sã na cama.
— Você não tiraria o prazer de uma velha por contar uma história, Mal — não havia arrogância em sua voz, só certeza, e a odiei por isso, por ter tanta certeza de que eu era alguém decente. — Agora só preciso que me escute. Naquela noite, anos antes de adoecer, eu lhe contei que você foi entregue ao orfanato recém-nascida, e isso foi mentira. Algumas horas de vida? Não, você já tinha um ano inteiro. Saudável, forte e poderosa. Fui capaz de sentir meus dedos formigando quando lhe peguei, e se alguém como eu pude ter essa percepção, imaginei o que um bruxo ou bruxa de verdade poderia sentir.
— Você viu quem...?
— Não, essa parte é verdadeira — e senti a profunda vergonha da mulher por não poder me dar uma das respostas mais importantes. — Eu estava andando no andar inferior quando ouvi um estalo, como um galho de arvore se partindo. Quando abri a porta, lá estava você: enrolada em um manto escuro, bastante acordada, mas sem chorar. Não chorou nem uma vez, mesmo quando uma completa estranha lhe pegou. Foi sorte. Você teria ficado ali até de manhã se eu não estivesse sem sono naquela noite. Te levamos para o hospital no dia seguinte, não havia nada de errado com você. Bonita e saudável, o casal Lewis lhe adotou duas semanas depois.
— Então eles me levaram e me criaram até os seis — meu olhar correu para a porta do quarto, sentindo as emoções de Katherine próximas dali. Ela já havia nós dado tempo demais, também queria ver a abadessa. — Antes de morrerem e eu voltar para Santa Helena. Eu conheço essa parte, Joan, conte o resto.
— Há cerca de um ano, pouco antes de setembro, eu recebi uma visita — minha respiração falhou tanto quanto a dela, o ar escapando pelos meus dentes. — No meio da noite, em segredo, o homem se apresentou como Alvo Dumbledore. Mais da metade das coisas que eu te disse hoje foi ele que me explicou. Disse que logo o ano escolar começaria e, junto com ele, as cartas de aprovação seriam enviadas. Ele me explicou que, todo ano, a vice-diretora vai até um livro mágico onde estão escritos os nomes de todas as crianças aprovadas naquele ano, com magia o suficiente para a escola. Dumbledore disse que veio imediatamente depois que ficou sabendo que nome estava ali, pois jurava que era impossível.
— Malorie? — Não apenas o ar, minha própria voz saiu cortada. Joan sequer me respondeu, ela sabia que era uma pergunta estúpida. Nunca perdi meu tempo fazendo suposições, até porque sempre acreditei que não houve tempo para tal, mas Malorie havia sido o nome que os trouxas me deram. Se eu cheguei ao orfanato com todo o ano, era tempo o bastante para ser nomeada. A dor subiu pela minha nuca, forte o bastante para me fazer levar a ponta dos dedos até ela.
A mulher de cabelos espessos e dedos frios.
O homem alto que me segurava e me protegia.
Eles me chamavam... do que eles me chamavam?
— Ele ficou muito curioso sobre você, Mal — até mesmo a velha apressou sua fala. Não demoraria muito e seriamos interrompidas, e ambas sabíamos que não haveria outra chance. — E furioso, se posso arriscar. Pelo que entendi, achava que estava morta. Não entenda errado, ao que parece, ele foi enganado. Alguém forjou sua morte quando ainda era um bebê, criança, e isso ele não podia aceitar. Depois disso foi embora, me fazendo garantir que você embarcasse para Hogwarts e lhe entregasse o que é seu.
Seu fôlego finalmente havia acabado e, com ele, nosso tempo. Katherine finalmente desistiu de marchar em frente à porta e a abriu, sua cara sofrida piorando ao ver o estado da acamada. Recuei em silêncio a medida que ela avançava e só percebi que tremia quando segurei minhas mãos uma na outra. Kate perguntou se eu estava bem, não respondi. Olhava para a abadessa, meu coração ameaçando se rasgar e minha cabeça explodir.
No meu quarto, aos pés da estatua de Jesus Cristo. Proteja-se, criança.
Abadessa Joan morreu no dia seguinte da visita, suas ultimas palavras queimando dentro de mim. Proteja-se. De quem? De Dumbledore? O homem ficou tão surpreso há um ano quanto eu estava agora, ele não estava metido nessa sujeira. Pelo contrário, me pareceu propenso a descobrir o que tinha acontecido e tudo que eu precisava fazer era perguntar. Alvo não mentiria para mim, assim como não mentiu quando acordei depois dos eventos do final do ano. A única pergunta era se eu queria saber.
Levando em consideração meu constante estado de péssimo humor e o fato da caixinha de madeira que peguei do antigo quarto de uma velha amiga ainda estar soterrada no fundo do meu malão, eu sabia a resposta. Lagrum não concordava com minha atitude. Chamou de infantil e birrenta e disse que isso poderia me custar caro, tanta teimosia. Concordei com ele, como usualmente faço, mas nem por isso cheguei perto da caixinha. Como meu mentor, fui condenada. Como meu amigo, recebi seu silêncio como o máximo de compreensão de que era capaz de demonstrar.
Não queria saber agora como não queria saber a dois meses atrás. Eu conseguia enxergar as respostas: uma massa escura pingando sangue. Não queria enfrentar o que tinha ali dentro, não queria desistir da desculpa da ignorância. A raiva alimentava meu monstro cada dia um pouco mais: de Joan, de Dumbledore, dos Lewis e então de mim e, em compensação, ficava muito tempo olhando para minha parede de fotos. Busquei nos rostos de meus amigos e professores razões para ainda acreditar que havia algo de bom e digno no mundo. Algo que não fosse a escuridão na minha maldita vida, cada vez mais expeça, me fazendo ter cada vez mais necessidade de olhar para eles. Qualquer coisa, menos pensar.
Ou devoro teu coração
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