Corona II
2 Troca de Pele
Notas iniciais
Naquele dia, lembro que pela primeira vez agradeci a qualquer coisa – talvez, a própria sorte. Fui grata por Katherine não ter demorado com Joan, e fui grata pelo silêncio no caminho de volta. Mas, principalmente, por Kate não ter tentando bancar a tutora preocupada ao chegarmos. Ela simplesmente me deixou ir, sem dizer nada quando saltei do carro antes mesmo de parar por completo. Sua mente estava ferida demais com a morte iminente e cada vez mais próxima da abadessa e seu coração, compadecido da minha situação.
Pobre menina – jovem demais, ferida demais, manchada demais. Eu não me via dessa forma, pois isso invocava pena. Eu não era uma vítima. Vítimas não mordem de volta, não sujam as mãos, não fazem pior. Mas assim como todas as vezes antes não fiz nada para mudar a visão da mulher sobre mim: que continuasse me vendo como uma criança traumatizada e quebrada, como algo de idade ainda tão tenra que deveria ser puro e, invés disso, é completamente corrompido. Sua compaixão inata e sua gentileza insensata eram constantemente usados ao meu favor ao me livrar de todas as brigas que me meti, mesmo depois de Greta.
Uma vez mais não faria diferença.
Em uma tarde de julho, a maioria estava do lado de fora. Os corredores e escadas tinham pouco ou nenhum barulho e meus pés conheciam bastante o caminho até o quarto da velha mulher. O que fariam com ele quando ela se fosse? A sala de Greta foi fechada e transformada em deposito – ninguém conseguia passar mais de três minutos ali dentro. Uns por saberem os pesadelos que aquelas paredes sussurravam, outros por imaginar. Seja qual fosse o destino do quarto e da posição de diretora do orfanato, eu sabia que teria a ver com Kate. Isso me tranquilizava. Ela era boa e cuidaria das outras meninas com dignidade.
Mesmo com meses desde que sua moradora se foi, o quarto de Joan ainda cheirava a velhice e doença. Havia algo de errado entrar ali sem a velha mulher na cama, os olhos desfocados e, ainda sim, inteligentes. Não esperavam que ela voltasse, eu já sabia, pois nem a enfermeira nem as costumeiras aparelhagens médicas estavam ali. Era só um quarto, como qualquer outro, como o meu. Uma cama simples, talvez uma janela maior, e um pequeno santuário, como um altar. Lá estava Jesus Cristo e sua mãe, Santa Maria. Ele não estava crucificado e sim em pé, os braços abertos e palmas para cima, tão branco e loiro quanto acreditavam que ele era. Ao seu lado, Maria tinha a feição plácida e amorosa, quase devota, a cabeça coberta inclinada em respeito ao filho. O rosto dela me prendeu mais tempo do que eu gostaria, uma órfã imaginando o amor de uma mãe, então quebrei o sentimento com desprezo e virei o rosto, me concentrando na base do altar.
Minha varinha era um alento constante, escondida dentro do meu coturno. Meus dedos formigaram para puxá-la, mas a lei idiota me faria ser expulsa de Hogwarts se eu fizesse isso. Então fiz pelo método trouxa e corri os dedos pela base, com calma, fechando os olhos para tampar o sentido traiçoeiro. Seria mais fácil sentir alguma fissura ou escutar algum som diferente dos demais e foi justamente ele que me denunciou. Uma pequena gavetinha na base fez um eco mínimo quando tamborilei os dedos ali. Tive que puxar a gaveta pela unha e prender a respiração pela poeira que se soltou das fissuras. Era claro que Joan não abria aquele compartimento a anos, imagino que desde que cheguei por aqui.
A gaveta era mais funda do que parecia, não tanto, mas era. Dentro dela, apenas um pano escuro, enrolado como uma pequena trouxa. O tecido era, notoriamente, uma das coisas mais caras (e mágicas) que eu havia colocado a mão – anos de escuridão não tiraram seu brilho, sua maciez. Sequer estava cheirando mal ou com qualquer sinal de traças ou mofo. A trouxa leve pesou uma tonelada na minha mão, mesmo que seu peso fosse tão pequeno. Aquele tecido havia sido parte de algo maior, isso era nítido pelo recorte desregulado. Uma manta, talvez? Quem sabe eu estivesse enrolada com ele quando cheguei, e Joan guardou um pequeno pedaço para esconder o resto.
Que resto, já não sei. Não tive coragem de desembrulhar o tecido, de ver o que meu tato tentava adivinhar. Seja o que for, não era grande e nem propriamente pesado, mas também não era leve. Fiquei sentada em frente ao altar, a trouxinha nas mãos e minhas mãos no meu colo por vinte minutos ou mais, então fechei a gaveta, levantei e fui para o meu quarto com o único indicio de quem eu era preso em meus dedos. Uma recém-nascida bruxa, antes da órfã perdida no mundo dos trouxas. Não gostei desses pensamentos, não gostei do que eles representavam e os empurrei para o fundo mais uma vez.
Lagrum estava me esperando no quarto, acordado por mais incrível que pareça. Minhas emoções erradicas e tempestuosas conseguiram o acordar de seu sono digestivo e o preocupar o bastante para não me provocar. Já grande demais para meu quarto, meu melhor amigo enrolou o corpo no meu e me ergueu sem o menor problema, e então eu estava no meio de suas dobras, sentada e abraçada, sua cabeça ao lado da minha. Observei quase com letargia ele ir até meu criado mudo e pegar, com o máximo de delicadeza que sua boca enorme e presas imensas conseguiam, os livros ganhos no Natal e os trazer para perto de mim.
Eu acredito que Salazar tenha se isolado por algum motivo, também. Talvez um nobre, até. Poderia estar visando a proteção de alguém, poderia estar em busca de algo.
Bom amigo, Lagrum. Sua voz obrigou o mundo a focar outra vez, aos sons chegarem até mim e ao meu cérebro processar meus sentidos. Minha mão estava muito mais firme do que no corredor quando abri o primeiro livro, na época ainda pela metade, e passei a ler sobre Slytherin. Palavra depois de palavra e capitulo após capitulo, obriguei minha mente a se curar. O resto do meu dia festivo foi embora comigo na mesma posição e o livro abandonado e finalizado. Acabei dormindo ali, mesmo com minha cama ao lado, e Lagrum não fez nada para me acordar. Me deixou mergulhar em um sonho escuro, tranquilo, e de vez em quando me favorecia com a melodia de minha música, reconhecível mesmo sem letra. Considerei isso seu presente de aniversário e o agradeceria por isso – se não soubesse que ele desdenharia por puro costume.
Como o esperado, abadessa Joan morreu dois no dia 18 de julho. Seu corpo foi transportado para o lugar onde passou toda sua vida – o Orfanato Santa Maria. Não participei dos preparativos e nem compareci à missa do sétimo dia. Kate chegou a me chamar, mas não insistiu. A essa altura, sabia bem da minha opinião sobre Deus e religião, então me deixou ter meu próprio luto, ou o que for. Foi só no dia do funeral e do enterro da mais velha amiga que já tive que sai do quarto, depois de ter aprendido quase metade das famílias exaltadas no Diretório Puro Sangue.
Katherine me arranjou um lugar na primeira fileira e acho que gostaria que eu fizesse muito mais do que ficar parada. Haviam simbolismos em eventos assim, como fazer um discurso emocional, jogar a primeira terra no caixão ou colocar a última flor. Como a interna mais próxima da velha mulher, era claro a escolha que eu representasse todas as meninas do orfanato, mas não fiz nada. Permaneci sentada, com uma multidão atrás de mim, os mesmos olhares em brasa nas minhas costas. Como um evento público, grande parte dos morados e dos ricaços que moravam nas redondezas vieram fingir que se importavam.
Mentirosos, todos eles. Eu sabia disso. Eram fofoqueiros, curiosos – principalmente. Abadessa Joan e sua morte era sim uma lástima, claro. Alguns estavam lá por ter de fato conhecido a mulher em seus melhores dias e lamentarem sua morte. Outros, a maioria, queria apenas uma desculpa para olhar para o Santa Maria mais de perto. O orfanato das manchetes, as garotas torturadas, a menina da capa dos jornais. Com todos os esforços, ninguém conseguiu que uma foto ou outra do meu rosto circulasse naquela época e isso era o bastante. Eles lembravam de mim e, como um animal de zoológico, queriam ver mais de perto. Só mais um pouquinho, quem sabe tocar?
Para acalmar meu temperamento, mantive meus olhos no caixão durante todo o tempo e minha mente no livro presentado por Pansy Parkinson. Passava, quase em forma de tópicos, todas as famílias que já tinha visto. O livro em si era um dos originais, provavelmente tirado da biblioteca da família dela, mas havia marcas pessoais de Pam: em algumas famílias, ela atualizava sua situação e dizia o porquê de não pertencerem mais a lista das Sagradas Vinte e Oito. Os Abbott, por exemplo, permaneceram nela apenas até os anos trinta, antes de assumirem casamentos com mestiços e nascidos trouxas. Havia uma Abbott no meu ano, na Lufa Lufa – Ana. Ana Abbott. Outras famílias estavam praticamente extintas, como os Avery, cujo último membro já era um homem adulto e sem matrimonio.
— Em pé, para rezar a oração de o Senhor Jesus Cristo nos ensinou. Pai Nosso, que estais no céu...
Havia os Black, e eles com certeza estavam entre as famílias mais interessantes. O livro dava a entender que, se procurasse bem, qualquer pessoa da comunidade bruxa da Grã-Bretanha tinha algum fio que o ligava a ela. Era uma das famílias mais elitistas e puras, tão rica e preconceituosa quanto os Malfoy. Seu lema em francês, Toujours Pur, significava Sempre Puro e levavam isso muito a sério. Pansy escreveu que pelo menos dois membros da família Black haviam sido completamente apagados da arvore genealógica nos últimos trinta ou quarenta anos: um por se envolver com um nascido trouxa e outro por se opor a tudo que a família pregava. Ela não soube informar nomes, mas disse que a linhagem masculina da família também estava quase extinta: havia apenas um homem Black vivo e ele estava em Azkaban. Pela linhagem feminina, por outro lado, havia Draco Malfoy, filho de Narcisa Black Malfoy.
—... santificado seja o vosso Nome...
É uma tradição de família, Draco disse quando zombei de seu nome. Agora eu sabia de qual. Os Black tinham o costume egocêntrico e narcisista de se nomearem com nomes de constelações e estrelas. Apesar de sua própria mãe ter sido batizada em honra a uma planta (e a uma história da mitologia grega, consequentemente), era claro que gostava da tradição. Muitas vezes os nomes se repetiam, dando a seus membros números depois do nome como realezas. A única questão era que, se um membro fosse deserdado, seu nome era banido do rodizio para sempre.
— ...venha a nós o vosso Reino...
À mão, Pansy também contou sobre os últimos Black conhecidos. Havia Sirius Black III, o que estava preso em Azkaban por explodir uma rua inteira e matar mais de uma dezena de trouxas. Narcisa Black havia se casado com Lucius Malfoy e tido um filho, mas ela era apenas a mais nova de três irmãs. Andrômeda, a do meio, foi a exilada quando ousou se apaixonar por um nascido trouxa. E havia a notória Bellatrix Black, que casou com Rodolphus Lestrange, e nem de longe esse era seu feito mais relevante. Bellatrix, Pansy escreveu, era a tenente dos exércitos de Lorde Voldemort – a Comensal da Morte mais devota e fiel. Também estava trancada em Azkaban, junto com seu cunhado, seu marido e outro comparsa, após os quatro terem sido presos em flagrante torturando um casal de aurores.
— ...seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.
Os Bulstrode, que também já haviam saído do diretório; os Burke, cujo ultimo membro tinha uma loja de artefatos de magia negra na Travessa do Tranco, a irmã feia e renegada do Beco Diagonal. Os Carrow, que ainda tinha alguns membros; os Crouch, que tinha seu ultimo representante trabalhando no Ministério; os Flint, como Marcos, o capitão do time da Sonserina; os Gaunt, extintos em sua loucura. Cheguei até mesmo nos Greengrass, como Daphy e sua irmã Astoria; os Lestrange, como o marido e cunhado de Bellatrix, Rodolphus e Rabastan. Longbottom, por incrível que pareça, também estava lá, mesmo que sob o titulo de traidor de sangue (escrito por Pam). O ultima coisa que havia lido antes de sair do quarto havia sido, enfim, sobre os Malfoy.
— O pão nosso de cada dia nos dai hoje...
Malfoy é o sobrenome de uma família rica bruxa e puro-sangue. Eles vivem na Mansão Malfoy em Wiltshire , Inglaterra, e estão relacionados com muitas outras famílias puro-sangue, incluindo os Black , Lestrange e Rosier.
— ...perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...
Daphne estava certa: o nome deles vinha de Má Fé, do francês arcaico, e estavam no pódio das histórias mais fascinantes, assim como os Black e os Gaunt. Armand Malfoy foi o primeiro parvo de olhos prateados e cabelos claros que se teve noticia na Grã-Bretanha, e foi ele quem recebeu de um rei trouxa as terras de Wiltshire, onde construiu o lar de sua família. Eu me perguntava se Draco sabia, se o pai dele se lembrava de como a própria família era muito condizente com os trouxas na antiguidade. Contanto que fossem os trouxas certos, é claro.
— ...e não nos deixeis cair em tentação...
Os Malfoy só passaram a se declarar racistas e puristas após a divisão entre trouxas e bruxos acontecer, com o Estatuto do Sigilo, pois então tiveram que escolher um lado. Havia um boato que bem na época da ruptura, mais um casamento Malfoy com um trouxa estava sendo negociado... um deles iria se casar com a futura rainha da Inglaterra. De forma trágica, tudo foi rompido e abafado e esquecido, de preferência.
— ..., mas livrai-nos do Mal...
Amém. O coro encerrou quando o caixão sumiu de vista, quando a terra foi jogada, quando todos começaram a se afastar do tumulo fresco. Fui embora antes que fosse desastroso ficar. Com o foco do dia a sete palmos debaixo da terra, os olhares se afiaram em minha direção com ainda mais intensidade. Katherine entenderia, ela sempre entendia, e o fazia até mesmo quando não deveria.
Se existe algo lá em cima que vigia por todos, então seja o que for era testemunha que eu não queria ter feito aquilo. Meus planos simples se resumiam a voltar para meu quarto e ler os mesmos livros, de novo e de novo, até voltar para minha casa. Mas havia algo na minha vida, e nisso eu acreditava plenamente, que sempre desdobrava as situações para que o meu pior lado mostrasse os dentes.
Não era para Crystal estar lá, mas ela estava.
Ouvi seus pensamentos podres e senti suas emoções distorcidas ainda na escada. Ela não estava sozinha: Amber e Mary estavam com ela. Eu conhecia as duas, a primeira de longa data. Amber tinha os cabelos loiros e os olhos verdes, e observei com prazer ela se juntar a Crystal – a garota já tinha quinze anos e fazia parte das antigas seguidoras de Greta. Um grupo de garotas tolas e cruéis que achavam que se juntar ao seu mártir as salvariam de alguma coisa. Pode ter funcionado, mais ou menos, até a página dois. A pele dela era destruída também, e se não por Greta, foi por mim.
Mary, por outro lado, era apenas burra. Ou iludida. Pensando bem, os dois. Era pobre lá fora e continuou sendo depois de chegar aqui. Agora, dois anos depois, tinha os olhos castanhos derretidos para cima da herdeira rica. As duas tinham a mesma idade, o que serviu para a aproximação. Isso e sua natureza bajuladora e submissa. Aliás, a risada mais alta era a dela. Ria de algo que Crystal havia dito, e Crystal ria de um antigo comentário anterior de Amber. Meu monstro sibilou e mostrou as presas, levemente satisfeito ao ver como Mary engasgou com a própria risada ao me ver ali, entrando no corredor.
— Podem ir, meninas, eu já desço — Davies tinha os olhos brilhando, o que só me fez ter vontade de arranca-los com os dedos. Flexionei os dedos, testando a sensação e me agarrando à lembrança de Sue Hopkins, ela havia me dado luvas novas e me permitido usar as de segunda mão como um acessório. A pequena ruiva, ela tocava violino. Tocava muito bem. Eu gostava de ouvir, era bonito. Ao menos o bastante para me impedir de jogar Amber e Mary da escada quando passaram por mim. — Amby estava me contando umas coisas maravilhosas aqui. Sabe, Lewis, eu nunca achei que você levava jeito de babá de velhos.
— E eu sempre achei que os seres humanos tivessem o mínimo de senso de autopreservação ou algum instinto de sobrevivência, estamos todas surpresas — minha voz suave foi o bastante para irrita-la e me fazer sorrir. Era perigoso estar ali, eu sabia disso. Meu monstro inquieto, minha mente afiada, nada de bom poderia acontecer. Mas eu também não queria distribuir abraços.
— Quem você pensa que é? — Crystal chiou. Tinha a terrível mania de afinar a voz quando se estressava. — Você fica aí, se achando a dona do mundo, e não passa de uma pirralha sem ter onde cair morta e ninguém que vá lamentar se isso acontecer. Ou você fez amigos na escolinha para gente esquisita que você se enfiou, hem? Duvido. É uma aberração até mesmo entre os outros renegados.
— Acho admirável o tempo que você dedica a fantasiar sobre minha vida escolar —Minha voz estava distante em meus ouvidos, uma pequena parte de mim reconhecendo que Katherine disse para as meninas que eu havia ido para uma escola particular interna para jovens superdotados. — Mas devia se concentrar em prestar mais atenção em si mesma. Nunca se sabe quando algo pode acontecer.
— O que quer.... — Guardei em um canto dourado da minha memoria o momento preciso onde o desdém dos olhos de Crystal Thomas Davies virou pânico. Que péssima ideia me provocar na beira de uma escadaria. Limpei minha mão na roupa e ainda escutava ela rolar pela escada quando entrei no quarto. Talvez tenha sorte e quebre uma perna, talvez eu tenha e ela quebre o pescoço. Ao contrario dela, não perdi tempo divagando sobre sua vida, tinha Lagrum para lidar.
Você quase usou magia.
— Não seria a primeira vez — Lagrum não gostou do mal humor na minha voz e mostrou as presas para minha petulância. — Ela mereceu.
Aquele desperdício de carne merece muito mais, Malorie, mas você não é mais criança. Quer ser expulsa?
Maldita cobra. O ignorei, como geralmente fazia quando ele estava certo em algo que eu odiava. Fui para a cama, mas Lagrum era grande demais e já estava lá antes mesmo de mim. Seu silencio era uma acusação e um alento: eu devia me controlar. As varias aventuras que havia feito antes de ir para Hogwarts tinham acabado. Das pequenas e toscas até as grandes e perigosas, todas de algum modo tinham passado despercebidas pelo rigoroso controle do Ministério sobre os bruxos menores de idade – classificadas como "magia acidental", talvez. Mas agora eu estava matriculada em uma escola de bruxaria: tinha minha varinha e conhecimento necessário. Qualquer coisa, uma porta abrindo que fosse, poderia me causar problemas enormes e eu tinha que me lembrar constantemente disso.
Como agora.
— Lewis! Lewis, abra essa porta, agora!
Irmã Eliza tinha senso de sobrevivência o bastante para não forçar a porta do meu quarto, mas ainda não era o suficiente para impedir que esmurrasse a madeira de segunda mão. Meus olhos foram até o som e fiz força para bloquear o impulso natural de deslizar para dentro de sua mente, de respirar suas emoções. Lagrum me manteve firme em suas dobras, me lembrando que o mundo existia antes que eu fosse até lá, o deixando camuflado no escuro do quarto.
Não fiz questão de evitar minha voz lenta e minha sobrancelha arqueada. Eu sabia o motivo dela estar ali, não precisava de legilimência nenhuma para isso. Será que Crystal já tinha chegado no hospital ou foi direto para o necrotério? O pensamento fez um primo feio do sorriso torcer meus lábios enquanto Eliza rangia os dentes. Eu podia sentir como se fosse na minha própria pele sua vontade de me balançar até que meus olhos saltassem para fora, de me jogar na rua com um pontapé. Aquela velha me odiava, mas, diferente de Greta, ao menos me odiava pelos motivos certos – eu era alguém a se detestar.
Mas ainda senti minhas cicatrizes repuxarem, velhos instintos voltando para a superfície naquele pequeno momento. Senti meu coração batendo, meus músculos relaxando, prontos para correr ou atacar, o que fosse mais fácil. Ela deve ter visto isso nos meus olhos, Eliza, pois recuou com a mão apertada contra o corpo. Seus dedos haviam se recuperado bem, ainda mais depois de terem se quebrado em uma idade tão avançada e de forma tão grotesca. Eu sabia disso, fui eu que os parti ao meio na primeira vez que a mulher tentou me puxar o braço. Irmã Eliza, então, sabia que eu a empurraria da escada também se demonstrasse qualquer inclinação real de me ferir. Ela não podia encostar mim. Não podia me ferir.
Não de forma física.
— Quero que arrume suas coisas — os lábios dela estavam secos, os olhos quase injetados. Medo. Aquela mulher tinha pavor de mim, do que eu era capaz. O medo dela impregnava minhas narinas, fazia meu monstro colocar a língua de fora – sonolento, mas tentado. E se eu lhe desse exatamente o que queria? Uma aberração, um monstro, um mal. Eu poderia fazer os pesadelos dela se tornarem reais, poderia destruir a mente dele de forma rápida ou lenta, como fiz por anos com os Lewis. — Katherine foi na ambulância com Crystal, estou no comando até ela voltar, e quero que arrume suas coisas. O serviço social vai vir te buscar e não me importo se aquela desmiolada quiser te colocar aqui outra vez, mas você não passa mais uma noite debaixo deste teto.
E foi embora. Arrancou os pés do chão e se afastou como se tivesse passado os últimos minutos presa em cimento. Observei suas costas desaparecem escada abaixo, percebi os olhares das outras garotas no corredor, os sussurros (dentro e fora da minha cabeça) chegando até mim. Então fechei a porta. Lagrum estava me esperando, a grande cabeça na altura da minha enquanto seu corpo permanecia enrolado. Devagar, levei meus olhos em direção aos seus.
Não precisa fazer o que ela diz. Assim que Katherine voltar...
— Eu já não vou estar mais aqui — interrompi, avançando em direção à minha cama. Em baixo dela estava meu malão e era tudo que eu precisava, e da minha mochila. Lagrum não me respondeu, ele sabia que não estava nos meus planos esperar alguma agente do governo me buscar para tentar me enfiar em outro buraco com crianças esquecidas. Sequer era o meu governo. — Já não devia estar a muito tempo. Greta se foi, as meninas não precisam mais de mim, e Joan morreu. Não tem mais nada aqui para mim. Nesse orfanato, nessa cidade, nesse lado do mundo. Um teto e alguma comida eu tive durante todo esse tempo, mas a que custo? — Crispei os lábios ao guardar minhas poucas roupas no fundo do malão e então despregar as fotos e o brasão da parede antes de os colocar com cuidado lá, minhas mãos destruídas bem em vista. — Esse não é meu mundo, Lagrum, nunca foi.
Uma das coisas que mais gostava em meu amigo era nossa ligação. Minha cobra sequer precisava de meu pequeno discurso, ele sabia. Várias vezes ele mesmo tentou me convencer a ir embora, mas nunca fui. Porque? Por anos não fui capaz de abandonar as outras para as crueldades de Greta, e mesmo depois ainda havia Joan, a única pessoa neste mundo que havia visto algo bom em mim, que achava que alguma luz ainda estava reservada na minha vida. Mas ela estava morta agora, enterrada também, junto com todos os outros frágeis motivos da minha permanência no Lar para Meninas de Santa Maria.
E sabe para onde vamos?
— Entre na mochila — torci a boca depois de fechar meu malão. Havia pouquíssima coisa nele: roupas, minhas vestes de Hogwarts, meu material, minhas fotos e minha câmera, além de meus livros. Torci para que um pequeno feitiço não chamasse a atenção do Ministério e o encolhi para caber dentro de minha bolsa, onde Lagrum ficou por cima dele, ainda com a cabeça para fora enquanto me sentava no peitoril da janela. — Temos um longo caminho em direção a Londres.
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