Corona II

42 Natureza Predatória


Notas iniciais
HEY NENÊS ♥ ORA ORA, VEJAM QUE CON-SE-GUIU E FINALMENTE DEU AS CARAS NA HORA CERTA?!?!?! Eu não tenho nem como expressar como eu to FELIZ de estar aqui, em uma segunda-feira, exatamente uma semana depois do último capítulo, sem desculpas e sem atrasos. EU VOLTEEEEEEI ♥ Posso estar cantando vitória antes da hora? Posso. Mas eu tô feliz demais agora para não saltitar e querer abraçar e beijar todos vocês. Obrigada, obrigada mil vezes por não desistirem de mim, de Corona, da Mal. Todos esses meses de atrasos, essas demoras enormes entre os capítulos... eu sou muito grata e, acima de tudo, honrada a vocês ♥ Como amostra disso, espero que gostem desse mais novo pedaço da nossa história ♥ Obrigada a Layane Oliveira, Duda e Ella Branco (Bella ♥) pelos comentários maravilhosos que me alegraram todo esse tempo, o capítulo é para vocês ♥ Inclusive, eles serão respondidos ao longo da semana (ou do tempo, mas espero que da semana). Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Em um modo geral, o mês de janeiro foi excepcionalmente agitado. Se não bastasse minhas manhãs na companhia de Ginevra e Lovegood, minhas tardes na enfermaria com Mione, meu tempo padrão de estudos e prática de magia, meus treinamentos mentais com Snape de segunda à quinta-feira depois do jantar e minhas noites de sexta com Lagrum, é claro que mais coisas se juntaram a minha rotina nem um pouco já ocupada. Para começar por ordem cronológica, sem surpresa alguma meu estimado professor me deu uma detenção por sair de sua classe sem permissão.

— Como se passássemos pouco tempo juntos, não é mesmo, Gancho? — Chiei as palavras entre os lábios enquanto encarava o rosto pálido e prematuramente envelhecido de Severo. A absoluta falta de reação foi meu primeiro sinal de que não seria assim tão fácil.

— Não será comigo — sua voz chegou áspera até mim, mas seria demais dizer que não consegui sentir o prazer dela. — Filch te espera amanhã a noite, depois de sua aula.

Depois? Mas...! — Engoli as palavras junto com minha frustração, não deixaria que ele as tivesse. Era vingança mesquinha, eu sabia, e eu não lhe daria mais brechas para me sacanear.

— Atrapalhei alguma coisa, Mal? — O veneno fez a suavidade da sua voz se tornar pesada, como uma tonelada de neve caindo em cima de mim. Mantive minha boca fechada, mas garanti que lesse com clareza os nomes que gostaria de lhe atirar. Seus lábios se afinaram ainda mais, equilibrados como o fio de uma navalha e eu vi presas ali. — Você também perdeu quarenta pontos para a Sonserina, então sugiro que continue domando essa língua se não quiser prejudicar ainda mais sua Casa.

— Cujo você é diretor — as palavras escaparam por uma abertura mínima entre meus lábios, mas não fiz grande esforço para as recuar, nem aos meus olhos, pregados nos tuneis gelados e cruéis de Snape. Estava se divertindo, o imbecil. Senti meu sangue ferver, a lembrança física e mental que aqueles olhos traziam eram além da minha capacidade de bloqueio. Com esforço, obriguei meu próprio rosto a relaxar, rasgando os lábios em algo que sabia muito bem que não chegava aos olhos. — E, justamente por isso, sei que toma as melhores decisões em prol de nossa integridade.

Severo continuou com os olhos pregados em mim por mais alguns segundos, com certeza pesando que valia apenas aumentar minha detenção ou não. Por fim, decidiu que já era o suficiente. Observei-o dar as costas e jogar sua capa na minha cara. O esforço para conter a vontade de agarrar o maldito pano negro e enforca-lo com ele foi quase físico, me fazendo processar o veneno que queria ter feito ele se engasgar. Foi com pés pesados que me arrastei de volta para a mesa do almoço e passei pela luta de terminar minha refeição. Meu monstro, muito bem acordado por minhas emoções entaladas, não estava nada interessado em assado de carne e arroz. Ele queria sangue.

Eu tinha consciência que Gancho não faria vista grossa a ao fato de eu ter abandonado sua aula, mas menos quarenta pontos e uma detenção? Com o Filch?! Eu estava esperando que ele aumentasse o tempo de nossas aulas particulares, que a diversão de tentar rachar minha cabeça fosse bastante diversão para ele e punição para mim. Estava enganada. Percebi o quanto enquanto fazia da mastigação uma terapia para não ir atrás dele e estender minha detenção para o resto do ano, agora com bons motivos.

A única razão de Snape ter me dado um castigo tão exagerado foi ele saber que eu não achava que o faria. Era sua maneira sutil de dizer para que eu não esquecesse dos limites de nossa relação: ele até podia achar algum agrado na minha existência, mas não a ponto de passar a mão na minha cabeça por uma afronta pública.

Negar a escuridão dentro de mim sua necessidade de caos me custou caro. Ao decorrer das aulas vespertinas sentia meus ossos doerem e minha marca queimar, o que transformou o dia em algo muito mais longo do que eu estava disposta a enfrentar. Duas aulas de Transfiguração e uma de Feitiços depois, eu não estava com a melhor das caras quando, depois de ignorar o magnetismo da minha cama ao deixar minha mochila no dormitório, me sentei entre Fred e Jorge Weasley na mesa da Grifinória.

— Fred, a Cobrinha não parece bem.

— Eu concordo com você, Jorge, a cara dela está muito pior do que hoje de manhã.

— Me passem o pudim e ninguém se machuca, Weasley e Weasley.

Os gêmeos ainda trocaram olhares coroados de sobrancelhas arqueadas, mas ainda estavam sorrindo quando puxaram uma das sobremesas (ainda intocadas pelo inicio da refeição) em minha direção. Três taças de puro açúcar depois, senti que tinha soterrado meu monstro com chocolate e glacê o suficiente para recuperar algo do bom humor e ouvir sobre a razão de ter ido sentar ali.

Aparentemente, os gêmeos haviam começado a olhar de maneira mais profissional as belezas que fabricavam escondidos em seu quarto na Toca. Eles falaram bastante sobre uma loja especifica em Hogsmeade chamada Zonko's Logros e Brincadeiras. Pelo jeito que seus olhos brilhavam não era difícil adivinhar que era o melhor lugar do mundo para eles. Um lugar repleto de artigos para pegadinhas e travessuras, onde os dois gastavam todo o dinheiro que caísse em suas mãos. Eles deviam muito a Bilton Bilmes, o proprietário, mas e se fossem além de consumidores?

— Mamãe entraria em colapso — Jorge murmurou ao meu lado. — É por isso que não vamos falar nada sério enquanto, sabe, não temos nada sério.

— Mas poderíamos ter, não acha, Cobrinha? — Fred insistiu do outro lado, os olhos ansiosos em meu rosto. Ele queria a comprovação para seus sonhos, algum incentivo que não viesse de seu irmão ou de seu melhor amigo. Queria honestidade, acima de tudo, e não tive problemas em lhe dar isso.

— Acredito que todos tem algo a compartilhar com o mundo, Weasley, um talento nato, uma afinidade natural — inclinei minha cabeça para que minha visão periférica englobasse ambas cabeças vermelhas. — Então sim, acho. Em que posso ajudar?

Pesquisas. É claro que eles mesmos poderiam mergulhar na biblioteca eles mesmos, mas sendo um lugar tão natural para mim seria ainda mais fácil. E mais rápido. Não que eles não tivessem consciência de que tal empreitada era para ser levada com paciência e cuidado, mas também não queriam, e nem tinham, tempo a perder. Afinal, eles prestariam para os Níveis Ordinários de Magia já no próximo ano. Era hora de olhar para o futuro. Então prometi que ajudaria no que pudesse, inclusive se chegasse a precisar de auxilio prático em alguma mistura ou encantamento para seus logros.

Não foi um final de dia tão ruim, o que não posso dizer sobre o seguinte. Depois de acordar menos descansada do que deveria (Snape teve sim sua vingança particular na nossa aula da noite anterior, fazendo minha cabeça parecer estar debaixo d'água) e engolir uma hora e meia na presença de Lockhart logo no inicio da manhã, eu estava longe de ficar sem provações para minha paciência, pois no jantar minha querida corte não estava nada feliz com os futuros acontecimentos.

— Você tinha de arranjar uma detenção, não é mesmo? — Era raro Nott dirigir a palavra à minha pessoa, ainda mais nesse timbre emburrado. — Justo para hoje?

— Leve suas reclamações para Snape, Theodoro, para sua própria segurança — retruquei afundando em meu suco de morango, concentrada no fundo escuro do cálice de ouro para fugir – ou tentar – da sensação de estar com a cabeça sendo lentamente esmagada o dia inteiro. Levantei os olhos quando nada além de silêncio me respondeu, deparando com os olhos de todos meus colegas. Puxei o ar devagar pelo nariz e, sem pressa, coloquei o cálice na mesa outra vez. — Pois não?

— Me parece abatida, Mal — era o jeito elegante de Greengrass dizer que eu estava horrível. — Desde de manhã. Aconteceu alguma coisa ontem à noite?

— Depois que jantou com seus amiguinhos, é claro — Pansy emendou, Merlin, por qual razão lhe foi concedido o dom da fala? — Porque parecia muito bem lá.

— Então você é cega ou burra, Pam, mas deixo a você a escolha de qual — respondi com algo rasgado nos meus lábios, mas então notei o rosto ao lado dela e pisquei para me controlar. Não deixaria essa dor tão familiar me dizer como agir, não hoje. — Me desculpe o mal humor, Sue. É só uma dor de cabeça. Vou estar lá assim que puder, eu prometo.

— Só se prometer ir primeiro na enfermaria para tomar alguma poção — Hopkins me devolveu, um sorriso cobrindo metade da boca. — Eu quero comer meu bolo em paz e não catar os pedaços da cara de alguém.

— Acho acha que eu...? Que ultraje! — Me endireitei no banco, fazendo meus ombros ficarem retos e meu peito estufado. Como ousas?! — Eu nunca desperdiçaria um bolo de aniversario desta forma!

Hoje era o aniversário de Sue Hopkins. A pequena cobra vermelha completava treze anos e os alcançava com a gloriosa altura de 1,39cm pela fita métrica que havíamos conjurado hoje pela manhã. A garota havia sido acordada do mesmo jeito que Daphy: uma avalanche de Rictusempra, o feitiço das cócegas. Uma parte de mim hesitou por fazer um corpo tão pequeno passar pelo efeito de quatro feitiços de uma vez, mas, Sue se saiu bem. Depois de jantar, estávamos todos acordados em comer o bolo ilegal que os elfos mais uma vez haviam me concedido.

Tivemos que nos reorganizar. Estava certo de que eu mesma iria buscar o bolo assim se saísse de minha aula particular com Snape, já às 21:30m da noite. O castelo já estaria majoritariamente adormecido e não seria um problema, ainda mais para mim. Agora, Blásio e Theodoro fariam seu melhor: o primeiro por saber o caminho e o segundo por querer ajudar. Era apenas inviável que me esperassem para começar, então minha única esperança era que guardassem um pedaço para quando eu chegasse da detenção, sabe-se que horas.

Duas horas depois, Filch descobriu que não poderia me torturar tão fácil. Ele me levou para o segundo andar, em direção ao banheiro constantemente inundado de Warren, e me jogou um esfregão e um balde para enxugar o piso. Não havia tanta água, ao menos, não tanta quanto eu havia secado no dia em que o diário de Riddle foi parar nas minhas mãos, mas mesmo assim era o bastante para me colocar aí durante uma boa hora. Tive até mesmo a chance de provar que, afinal, Argus não era tão ruim assim – ao menos, não imune a real tortura.

— O que é isso, garota? — Sua voz asmática se sobrepôs ao lamurio ecoado de Murta através do encanamento. Virei o rosto em sua direção, devagar, observando os cabelos longos e ralos e o rosto macilento à medida que dobrava minhas luvas e colocava em cima da pia para não molharem. O zelador de Hogwarts era apenas um pouco mais alto do que eu, e ainda por cima andava tão curvado que quase parecia corcunda. Dumbledore devia contratar um ajudante para ele.

— Pensei que você, dentre todas as pessoas, saberia reconhecer algumas cicatrizes, Filch — levantei uma sobrancelha para sua boca torta. — Não é verdade que tem correntes na sua sala?

— Sim, mas não é... — vi quando as palavras se atropelaram em sua garganta, os olhos pequenos e escuros fixos nas minhas mãos dilaceradas. Sua cara se torceu ainda mais, o que eu não consideraria possível levando em conta sua constante careta. — Ao trabalho, garota.

Era apenas uma questão de tempo. Eu até poderia ter alguma chance de fugir se mantivesse minha mente ocupada e focada, mas limpar era tão natural para mim que meu corpo respondia sem que eu precisasse raciocinar. Isso deixou minha cabeça vazia e, naquele banheiro, não era uma boa coisa. Fazia com que o calor na minha marca se transformasse em queimação a cada minuto, a dor ganhando espaço na minha consciência até que eu não pudesse fugir dela. Não era o fim do mundo, porém, pois eu também havia aprendido a trabalhar com a dor, a ignorar, a continuar até meus nervos desistirem de gritar e morrerem em silêncio.

Então não era a minha pele queimando que me fazia agarrar o esfregão com cada vez mais força, nem a sensação de meus músculos sendo mastigados, nem mesmo meus ossos fazendo esforço para parecerem que estavam se partindo de dentro para fora. Era mais fundo e a origem de todos eles. Era a sensação do veneno, do meu monstro se mexendo, expandindo, exigindo um espaço que eu não queria dar. Em vingança, ele me mordia e me deixava neste estado.

Para fugir do meu corpo, não era estranho tomar o caminho da minha mente. A diferença era que, daquela vez, ela não estava tão longe assim. A luta para manter as bordas escuras do mundo afastadas me lembravam da última vez que tinha sentido algo assim, bem ali, naquele banheiro, quando o diário de Tom Riddle foi encontrado. Ele ainda estava guardado em meu móvel da cabeceira, tão em branco como no dia que o abri na primeira vez. Nenhum feitiço que pude pensar havia funcionado e a constante sensação de invasão que ele me passava não havia recuado nem um pouquinho. Era exaustivo sentir a onda de magia me rondando, procurando uma brecha, mas havia conseguido resistir. Até agora.

Já era passava das dez quando Filch grunhiu para que eu fosse embora. Não tenho muita certeza de como, mas com certeza eu devia algum agradecimento especial a Lagrum por ter resistência o bastante para conseguir andar até meu dormitório. Com muito mais que as bordas escurecidas, todo meu mundo se resumia a um caminho estreito à minha frente e o próprio ato de andar me fazia sentir submersa, com um peso muito além do meu corpo para mover. Tudo por causa do maldito banheiro. Algo ali sempre se infiltrava sob minha pele, se rastejando como mil cobras peçonhentas, me intoxicando a cada batida de coração. Não ajudava o fato de ter a lembrança do diário e tudo que ele me causava queimando dentro de mim. Maldito diário.

Havia um pedaço bolo me esperando ao lado da minha cama, mas não tive capacidade para sequer apreciar a gentileza. Cair na minha cama foi pura sorte, uma vez que meu corpo consumiu sua ultima migalha de teimosia para se sustentar. Como um último pensamento lúcido, percebi a maciez dos cobertores contra minhas mãos. Eu havia esquecido minhas luvas em cima da pia. E queria dizer que tive tempo para ficar preocupada em perder a peça que usava a tanto tempo, mais de um ano, mas sequer tive consciência para tanto. Fui arrastada pelos pés em direção a escuridão da inconsciência e fiquei mais do que feliz em ficar no escuro suspenso para me recuperar.

Infelizmente, me deixar descansar não estava na agenda do lorde inglês falsificado.

Eu estava na biblioteca desta vez e, pelo visto, ela não havia mudado uma estante nos últimos cinquenta anos. Assim como a última ocasião, estávamos sozinhos e a noite se denunciava através das grandes janelas. Alheio ao horário, Riddle estava sentado em uma das mesas, um longo pergaminho à sua frente, onde ele riscava a ponta da pena de forma rápida e fluída. Parecia concentrado, e apesar de saber que tinha bastante consciência da minha presença, não levantou o rosto até que eu estivesse na sua frente.

— Boa noite, Mal — sua voz me alcançou, tocando uma parte funda de minha memória. Observei, mais uma vez, como sua língua pareceu se enrolar em meu nome, pesada e firme como uma cobra. Com a mão esquerda, ele pousou a pena ao lado do pergaminho, seus olhos escuros registrando minha postura assim como eu registrava a dele. Parecia relaxado, quase feliz – ou o que chegasse perto disso naqueles olhos sem luz. — Sente-se, por favor.

— Noite, Tom — respondi sua cordialidade, deslizando minhas pernas em direção ao banco. Riddle estava vestindo o uniforme, o que significava que, mais uma vez, o distintivo reluzente de monitor estava pregado em seu peito. — Tenho que ser sincera, não esperava lhe ver tão cedo.

— Você bem que tentou, não é mesmo? — A torção de seus lábios não era bem um sorriso, mas reconheci o esforço. O garoto ajeitou sua postura, outrora levemente curvada pela escrita, e apoiou os cotovelos na tampa da mesa, juntando as duas mãos no ar. Se havia algo a afirmar sobre Tom, era que não poupava elegância. Seus movimentos eram suaves, seguros de si, calculados. Como se pesasse a finalidade de cada respiração, como se caçasse. — Passei o mês inteiro procurando uma brecha, mas você não me decepcionou e tornou as coisas bem mais difíceis depois da última vez.

— Não difíceis o bastante, pelo visto.

— Não se martirize — a condolência com que as palavras saíram apenas não era natural, em um afeto que eu sabia que não engolia a arrogância narcisista por trás delas. Ele estava ali, outra vez, relaxado e confortável dentro de minha mente. O brilho cruel em seus olhos se realçava pela minha irritação, tão satisfeito com minha derrota quanto estava com sua vitória. — Sua exaustão foi um ponto crucial.

— Falando nela, eu gostaria de poder descansar — seu rosto travado em uma expressão suave não ajudava meu temperamento. Seja lá o que ele fosse, um murro doeria? — Então se puder controlar a necessidade de ouvir sua própria voz, eu agradeço.

Minha interrupção em seu teatro foi certeira, pois vi o exato momento em que o irritei. Tom Riddle não gostava de ser interrompido ou apressado. A ira explodiu em seus olhos como um vulcão em erupção, mas foi abafada no segundo seguinte, congelada e sólida, engolida pela escuridão, muito bem armazenada atrás de seu rosto digno capa de revista.

— Você tem de aprender ser mais paciente, Mal, as melhores coisas da vida levam tempo para acontecerem — ele se ajeitou, seguro de si mais uma vez. — Não tivemos tempo de ter uma conversa decente da outra vez. Me diga, quem escolheu seu nome?

— O que no mundo — levantei uma sobrancelha para sua pertinência. — Fez você pensar que vou contar alguma coisa?

— Além de você não ter feito qualquer esforço ativo para me expulsar desde que começamos? — O garoto estava outra vez com um sorriso em seu rosto, mas pelo menos esse chegava aos olhos. Era fino e frio como a boca de uma cobra, o que casava bem com a crueldade predatória logo acima. — Eu sei que é curiosa. Ao menos sobre mim. Então que tal uma troca? Uma pergunta por uma pergunta. Sem mentiras.

— Você é capaz disso, Tom? — Inclinei a cabeça apenas um pouco, apenas para que o tom cínico em minha voz chegasse a ele de um ângulo diferente. — Não me parece o tipo muito acostumado com honestidade.

— Não acho que seja capaz de mentir para você, Mal — foi sua resposta, seu sorriso se alargando o bastante que eu visse seus dentes e, em especial, as presas que possuía no lugar dos caninos. Fiquei em silêncio olhando para seu rosto, para seus olhos, e ele deixou que eu tomasse meu tempo. Eu não gostava daquela situação na mesma proporção que Riddle adorava. Ele estava no controle ali, guiando a conversa, orquestrando essa cena dentro de minha cabeça como se fosse seu direito natural. Minhas mãos coçavam para arrancar a força todo o ar de majestade que o garoto tinha reivindicado para si, mas Lagrum havia me ensino bem demais para que eu apenas pulasse sobre a mesa e torcesse para minha mão não atravessar seu corpo esguio.

Nem sempre eu poderia contar com a força, ele me ensinou. Haveriam inimigos maiores e com maior vantagem física do que eu. E então, se não podia bater e correr, a outra opção era pensar. A única real vantagem que eu possuía era o fato de Tom achar que eu não tinha nenhuma. Eu via sua arrogância escorrendo por cada pedaço de sua postura reta, de seu sorriso frio, de seus olhos sem fundo. Ele me tinha exatamente onde queria. Esse iria ser meu ponto de ignição.

— Os trouxas que me adotaram — fiz as palavras saírem com o máximo de suavidade que consegui. — E o seu?

— De acordo com que eu sei, foi escolha da minha mãe — aí está, Riddle. O assunto que ele não queria. Não que algo em sua voz tenha denunciado qualquer desconforto. Pelo contrário, o garoto não hesitou em dar uma resposta e não havia qualquer hostilidade ou mágoa nas letras, era limpo. Limpo demais. — Os trouxas que te adotaram... Por que não pais?

— Os Lewis nunca foram meus pais, pais não tem medo dos filhos — me obriguei a registrar a forma como seus olhos seus olhos acenderam com isso. — Em que ano você nasceu?

— 1926, por pouco, se estiver interessada em um presente, foi em 31 de dezembro — seus olhos se estreitaram enquanto o canto de seus lábios se torcia. Senti minhas sobrancelhas se juntarem na minha testa.

— Não sabíamos que estávamos brincando, Tom.

— Se não estivéssemos, você saberia — mesmo no auge de sua descontração, sem surpresa alguma, percebi sem qualquer dificuldade a sombra em seu rosto, escurecendo seu sorriso bem-feito.

— Você está com um humor muito bom para quem foi jogado fora — apontei com leveza na voz, a mesma com que ele desprezou o assunto com um aceno de cabeça, como se um mosquito estivesse por perto.

— Eu já estava cansado mesmo das lamentações daquela garotinha chorona — seus ombros, sempre retos em postura, se moveram por um breve momento, enquanto alguma emoção além da que ele pretendia me mostrar escapava. — Além do mais, isso me levou até você. Qual seu aniversário?

— 16 de julho de 1980 — a conta que eu mesma havia acabado de fazer havia dado resultado atrás de seus olhos. Cinquenta e três. — O que estava escrevendo?

— Uma oferta de paz — para minha sobrancelha arqueada e uma expressão de desdém incrédulo que deixaria Snape orgulhoso, Riddle subiu um pouco mais a linha fina de seu sorriso. — Um gesto de boa fé, então.

— É uma surpresa que esteja familiarizado com o termo — torci meus próprios lábios, mas me inclinei em sua direção. — Sobre o quê?

— Nós — Tom também se inclinou, seu corpo fazendo sombra no pergaminho que permaneceu aberto o tempo inteiro. E de proposito, apostava. — Quero te ajudar, Mal, pois acho que tem muito mais potencial do que está usando. Na verdade, tenho certeza, pelo que consegui entender da última vez... você precisa de ajuda com um feitiço, não é?

O ponto foi dele. E quem eu queria enganar, praticamente a partida também. Senti minha boca amargar à medida que o rasgo que ele chamava de sorriso se alargava, a satisfação espalhando pelo rosto de maçãs destacadas. Riddle esperou em sua postura elegante e em seus olhos fixos que eu fizesse alguma coisa, não importava o que, ele sabia que não havia como fugir disso. Como uma cobra peçonhenta após o bote – tudo que tinha que fazer é esperar.

— Continue — forcei as palavras para fora dos meus lábios duros, engolindo seu veneno e obrigando meu corpo a não parar por causa dele. Meu coração tinha de continuar batendo, minha mente tinha de continuar a funcionar. A principal função do veneno é incapacitar as presas, não podia deixar que chegasse a isso.

— Não vi direito ou muito, mas ficou claro que você estava mais que frustrada com algo. Com um feitiço muito avançado para você, por mais brilhante e talentosa que seja. Algo na área da transfiguração, algo que vai muito além de transformar besouros em botões ou ratos em cálices — ele parou, uma pausa momentânea apenas para saborear meu rosto duro e meus ombros tensos. Então sorriu como se fosse um amigo, como se estivesse me oferecendo ajuda. Mas seus olhos... não, não havia como ele mentir para mim, era verdade. Tom era a serpente paciente em frente a uma presa já abatida. — Foi quando comecei a buscar uma forma de te ajudar, afinal, eu devia lembrar ou saber de algo. E, por sorte, achei exatamente o que você precisa.

Suas mãos se moveram outra vez, agora em direção ao pergaminho. Ele foi erguido e dobrado com calma antes de Tom o segurar entre os dedos, meio estendido na minha direção. Era isso, seu golpe final. Ele não me contaria, não me obrigaria a saber. Estava ali, na minha frente, e era minha escolha estender a mão ou não. Se o fizesse, estaria aceitando sua ajuda. Eu sabia, pelos seus olhos satisfeitos e pelo sorriso de presas, que isso estava longe de ser uma boa ideia. Era uma linha bem delineada e ele deixaria para minha consciência cruzá-la ou não. Me obriguei a não desviar o olhar quando satisfação pura brincou em seus olhos, se espalhando pelo seu rosto, quando estendi minha mão.

Foi rápido demais. Em um momento meus dedos roçaram no pergaminho e Tom Riddle parecia estar recebendo uma massagem nos pés. No outro, eu estava com o pedaço e o garoto com meu punho, com uma expressão bem longe da plenitude de meio segundo atrás. Entendi rápido quando vi a direção dos seus olhos: minha mão. Eu havia deixado ambas ao meu lado durante toda a conversa, longe de vista por razão nenhuma além de costume. Agora, a meia luz da biblioteca iluminava muito bem minha carne destruída e observei a tempestade de emoções que cortaram a máscara cordial e fria do garoto.

A raiva estava de volta, borbulhando de suas profundezas. Confusão, também, marcada pelas sobrancelhas juntas e os lábios apertados. E o que mais? Aquilo atrás da tensão dos seus ombros, dos dentes cerrados, da força com que seus dedos magros se fechavam em meu pulso, firmes como ferro. Mesmo em uma projeção mental do que seria meu corpo, senti meu coração ser esmagado e parar antes de voltar a bater duas vezes mais rápido. Mostrei meus dentes para ele, puxando meu braço com força ao mesmo tempo que o outro ia em direção ao rosto bonito, mais que disposta a realizar meu desejo desde o início da conversa.

A boa noticia é que consegui arrancar meu pulso (com o pergaminho ainda seguro nos meus dedos) da prisão de Tom. A má é que não o acertei. Com a mão livre, ele segurou a minha fechada apenas por tempo o bastante para a conter, antes que deixasse que eu a puxasse de volta. Eu acertaria. Provavelmente teria cortado minha mão nas maçãs de seu rosto, mas não era um golpe que eu teria errado. E não errei. Riddle apenas foi mais rápido, com reflexos melhores, e isso não era algo que eu estava acostumada.

Ficamos em silêncio, um olhando para o outro. O bom humor havia sido varrido tão completamente do rosto do garoto que parecia impossível configurar que estivesse até mesmo brincando agora a pouco. Eu também não estava melhor, com o mundo vermelho e meu coração disparado, hostil como um bicho encurralado. Com esforço, Tom pareceu capaz de desgrudar os dentes um do outro e, em um tom bem diferente do que levou toda conversa, sua voz chegou gelada até mim.

— Isso vai ter que ficar para nossa próxima conversa — proferiu cada palavra como se tentasse se lembrar como formá-las. Eu via força que ele fazia para não mostrar os dentes da mesma forma que eu estava fazendo. Via atrás de seu rosto duro, de seus olhos agora banhados em ódio calculado. — Abra os olhos, Malorie.

A sensação foi a mesma da última vez. O caminho de fogo em meu corpo me castigava, desde meu coração até minha cintura, era uma dupla imbatível com a dor em minha cabeça, tão forte que sequer tive capacidade para acender alguma luz, fizeram meus pulmões se esquecerem como trabalhar por momentos terríveis. Cambaleei para fora da cama, ainda forçando um ar que nunca parecia ser o suficiente para dentro de mim, tropeçando em direção a pia do meu banheiro.

Agarrei as bordas e abri uma torneira, usando a mão direita para jogar água no rosto e no corpo até que a sensação de ter a pele arrancada fora se aliviasse. Quando isso aconteceu, me olhei no espelho. Molhada e ofegante, com as íris ainda vermelhas e o sangue ainda quente, eu me preocuparia depois com minhas roupas e com o estardalhaço. Meus olhos estavam em uma direção. Eu havia usado a mão direita para me molhar pois a esquerda estava ocupada.

Entre meus dedos, seguro e seco, estava um pedaço de pergaminho.

Notas finais
Então, gostaram? Digam nos comentários, amo falar com vocês ♥ LEMBRANDO, os comentários do capitulo anterior serão respondidos durante as semanas ♥ Malfeito, feito! Nox! ♥