Corona II
45 Leão Declarado
Notas iniciais
Percy Weasley estava vermelho por baixo de seus óculos de tartaruga. Havia discursado sobre rebeldia e indulgencia, ao que esperei que acabasse. Quando finalmente sua boca se fechou, olhei para ele com calma, minha voz saindo suave e verdadeira como a muito tempo não saia. O peso que eu sentia dentro de mim havia sido desamarrado e eu me sentia leve. Nem mesmo a detenção e a perde de pontos consequentes de minhas ações seriam o bastante para diminuir essa sensação.
— Se eu não acertar alguém de vez em quando, as pessoas começam a esquecer quem eu sou, monitor — foi minha resposta para seu sermão. Ele não ficou nada feliz com minha cara lavada, suas orelhas esquentando rápido como era de seu sangue.
— Ora...! Vá já para a sua aula, Mal! Já está quase dez minutos atrasada! Você também, Harry!
Estávamos indo. Não era como se houvesse sobrado alguém no corredor. As serpentes seguiram um Malfoy quase carregado em direção as estufas, e os leões já haviam entrado na sala de feitiços. Até mesmo a fileira de primeiranistas, que reparei na presença de Gina Weasley, também já havia debandado. A pobre menina havia ficado mortificada quando o anão leu o bilhete, o que não restou duvida para qualquer um que estivesse prestando atenção sobre quem havia mandado. Mas seu pânico, muito mais que sua vergonha, foi o que havia me saltado. Vi pela beirada da minha visão toda cor e vida que a menina havia recuperado escorrer de uma só vez quando ela colocou os olhos castanhos no diário nas mãos de Malfoy.
Agora Potter colocava, com calma, seu material nos braços. Ele me olhou agradecido uma última vez antes de se enfiar dentro da sala. Eu também dei as costas, deixando a sincope de Percy para trás ao começar a ir em direção a minha aula de Herbologia. Parei, no entanto, assim que virei o corredor. A mente de Harry saltou em direção a minha como um farol aceso e tive que respirar fundo para não me afogar em sua incredulidade. O diário. Diferente dos outros livros e do seu pergaminho ensopados, o diário estava intacto. Quais eram a chances de aquilo não ter recebido uma gota de tinta sequer?!
É isto! Deve ser algo assim! Temos de ver isso direito, Mal!
Absorver a tinta..., essa era a coisa mais obvia a se pensar. Nunca me ocorreu tentar escrever na coisa, muito provavelmente por ter gastado boa parte do tempo tentando apenas não ser esmagada pelo peso de sua energia e, na outra parte, já ter um método bastante eficaz de me comunicar com o que tinha ali dentro sem precisar gastar pena e tinta. Mordi os lábios com minha mente funcionando depressa. Potter não iria descansar. Ele havia passado semanas folheando e carregando aquilo para cima e para baixo, como se esperasse que algo acontecesse. "É como se Riddle..., engraçado, é como se eu o conhecesse de algum lugar. Como um amigo de infância que perdi contato e me esqueci". Se eu estivesse certa, e Salazar sabe como eu não queria ter essa glória desta vez, Tom Riddle em dado momento de fato cruzou com o jovem Harry Potter. Mas não foi de uma forma amigável.
Hoje à noite. Consegue esperar?
A resposta foi sim. E durante toda a aula de propriedade de plantas da Professora Sprout (a classe finalmente estava um pouco animada outra vez, já que havíamos voltado para a técnica), admito que não estava tão focada quanto deveria na hora de cortar minha burbolínea. A parte boa era que metade da minha atenção era o suficiente para evitar um acidente infeliz com os espinhos que ela soltava ao ser cortada de maneira desajeitada.
Não posso dizer o mesmo de Malfoy, que enquanto não estava muito imóvel para evitar que a dor se espalhasse, parecia pensar na possibilidade de me enfiar em um barril de espinhos. Por duas vezes sustentei seu olhar e por duas vezes ele recuou como uma serpente ferida, derrotada apenas naquele momento, os olhos prometendo muito mais do que ele podia fazer.
Por mim ele podia morrer engasgado com o veneno que tentava me injetar. A última coisa que eu tinha para me importar era orgulho ferido de um lorde em decadência. Eu estava mais ansiosa do que deveria com a eminencia do encontro entre Tom e Harry. O que Riddle falaria? Ele deixaria claro que não era o nosso primeiro contato? O que ele mostraria e como trataria o garoto? Tom não escondeu sua natureza de mim, mas duvidava que fosse tão aberto com qualquer pessoa, duvidava que havia sido com Ginevra.
Havia quinze minutos de intervalo entre o fim da última aula e o jantar. No geral, era o tempo que os alunos utilizavam para voltarem para suas salas comunais, largaram seus materiais e talvez xingar um professor especifico do dia. No caso do segundo ano da Sonserina, meus amigos corriam para seus banheiros para limpar as mãos e rostos sujos de terro – as vezes chegavam até mesmo a tomar um banho completo. Era meu objetivo deixar minha mochila no dormitório, junto com a capa do uniforme e lavar minhas mãos do cheiro da burbolínea. Snape, por outro lado, não estava com tanta pressa em me deixar em paz.
— Venha aqui, garota — ele me esperava na porta de sua sala, no caminho para a sala comunal. Parei no meio corredor, soltando o ar devagar enquanto me virava em direção a ele. Severo estava parado, as mãos juntos na frente do corpo. Eu conhecia aqueles lábios torcidos nos cantos e a sobrancelha escura levantada em cima dos olhos mordazes. Weasley havia cumprido seu papel de monitor.
— Boa tarde, Capitão Gancho — cantei para o professor, deslizando para dentro de sua sala vazia. Não me dei ao trabalho de sentar, mas me encostei em uma carteira do fundo, erguendo meus olhos para ele. — Passou um dia agradável, espero. Muitos pedidos de Poção do Amor?
— Poções do Amor são poderosas e muito perigosas — sua voz seca me contrapôs. — Além de serem proibidas em Hogwarts, por mais que saibamos que algumas menininhas bobas sempre acabarão as fabricando, vez ou outra. Se delatadas, dependendo do dano causado na vítima, o caso pode levar a uma expulsão.
— Em resumo, Lockhart deu mais um exemplo do quão patético, ignorante e despreparado ele é — inclinei a cabeça, sorrindo pela forma como seus olhos acenderam de satisfação cruel. Ao contrário de Minerva, ele não me mandaria respeitar aquele energúmeno. Severo, eu sabia, compartilhava da minha ideologia de ignorar a existência de Gilderoy em nome de não manchar a escola com um assassinato.
— Isso não é novidade nenhuma para qualquer pessoa que possua o mínimo de inteligência necessária para se auto intitular um ser racional — a melhor parte era sua voz enfadada, como se estivesse sendo obrigado a falar algo que nem sequer devia ser necessário uma explicação. Era a voz com que dava aula. — De qualquer forma, chegou ao meu conhecimento que o jovem Malfoy foi atacado.
— O jovem Malfoy, como usualmente faz, mereceu o ataque — meneei com a cabeça, os ombros encolhidos para seus olhos estreitos. — Poupe o discurso sobre delinquência e irresponsabilidade, Gancho, Percy Weasley já palestrou o suficiente sobre o código de Hogwarts por toda minha vida. Só me diga quando, com quem e onde.
— Como desejar, senhorita — os braços do homem se cruzaram, o humor balanceado entre impaciência e satisfação. — Não tenho nem dizer que, mais uma vez, você fez o favor de perder pontos para sua Casa. Quinze, para ser mais exato. Depois de minha aula Filch te espera em frente ao Salão Principal. E faça o favor de transmitir a mesma mensagem ao sra. Potter.
— Harry? O que ele tem a ver com isso?! — Pela primeira vez minha voz subiu de nível, perdendo a tranquilidade que a estabilizava até o momento. De frente para seus tuneis, foi fácil ver quando eles se acenderam de satisfação. — Eu acertei Malfoy, não ele!
— Potter usou magia nos corredores — devia ser essa sensação de mergulhar em areia movediça, de sufocar em uma montanha de travesseiros macios. Sinceramente, era um dom de Severo fazer algo tão suave pesar tanto. O maldito..., um simples feitiço de desarmar não era caso de detenção e ele sabia disso! — E, se não me falha a memória, você disse para eu lhe poupar.
A porta da sala se abriu em um movimento fluido de varinha (era de se admirar a velocidade com que ele a sacava das vestes), uma indicação mais que clara que o assunto estava encerrado. Minha boca chegou a abrir e a fechar uma, talvez duas vezes, enquanto meus olhos ainda estavam pregados nos dele. O cretino, o nojento, o miserável..., minha única opção foi marchar porta afora, colocando-o fora do meu alcance.
— Velhos amargurados têm uma incrível necessidade de fazer da vida alheia um purgatório. Estou chegando à conclusão que isso faz com que se sintam mais confortáveis na própria miséria.
Para meu azar, porém, Gancho sabia jogar. Ele já me conhecia o suficiente para saber que eu poderia dançar e rir de qualquer punição que ele me enfiasse, mas não iria levar mais ninguém comigo. Harry já estava pegando uma detenção que não receberia se não fosse por mim e eu não deixaria que Snape tivesse mais chances de me usar como trampolim para atingir seu objeto mesquinho e nojento de atormentar a vida do garoto.
Para o bem do castelo em geral (e focando nas minhas relações dúbias com alguns membros da minha corte), cheguei a rápida conclusão de que tudo que não precisava depois de Severo era lidar com a raiva e orgulho ferido de Malfoy, já irritantes durante a aula, nem a racha que isso causaria na Casa. Se ouvisse Parkinson soltar meia palavra de reclamação sobre "quebrar uma obra de arte" eu enfiaria a cabeça dela no caldeirão de sopa. Considerando tudo isso, quando subi para jantar, fui direto para a mesa dos leões.
Como de costume, a energia tranquila foi como colocar pés doloridos em uma bacia de água quente. O efeito imediato e rápido de conforto e relaxamento. Grifinórios eram o que pareciam ser. Sentar com eles era como sentar em uma grande mesa de família, com conversas altas, risos e boas maneiras não sendo exatamente a maior preocupação. Franzi as sobrancelhas com esse pensamento. Eu, definitivamente, havia passado tempo demais com o bando de senhorinhas e projetos de lordes para achar defeito na forma como meus amigos se portavam. Só por eles não comerem de postura reta e a meio metro de distancia do prato não queria dizer que eram sem educação!
— Em uma escala de um a dez — comecei a dizer assim que me sentei, deslizando minhas pernas sobre o banco ao lado de Potter. — O quanto você está satisfeito com termos colocado Malfoy no lugar dele?
Harry olhou para mim com um sorriso que contrastava bastante com toda a gentileza e bondade de seus olhos.
— Onze.
— Ótimo — o meu próprio sorriso era um espelho do dele, mesmo quando meus ombros caíram um pouco. — Pois pegamos detenção e perdemos quinze pontos.
— Ver aquele nojento guinchando vale até trinta pontos em qualquer dia! — Ronald se interpôs, sentando do outro lado de Potter. Ele se inclinou sobre a mesa e sobre seu prato cheio, apenas para colocar seus olhos azuis na reta dos meus. — Você devia fazer isso mais vezes, Mal, assim eu não esqueço o motivo que me fez gostar de você.
— Não comece, Rony! — Granger chiou entre os dentes, sentada à nossa frente. Virei meu rosto para ela, encontrando a expressão severa e reprovadora que eu sabia que estaria ali. — Atacar Malfoy não leva a nada! Só prejudica nossa Casa e a vocês! Eu disse a Harry, o melhor a fazer é ignorar, ele não vale a pena!
— E eu disse a você, Mione, que não ataquei ninguém! Só peguei o diário de volta! — O garoto se defendeu, mas seu ombro se chocando com o meu logo depois tirou grande parte do peso de seu argumento. — Não que o fato de Mal ter acertado ele vá me impedir de dormir bem a noite...
— O que leva ao outro fato de que, se eu não tivesse feito, quem iria ter problemas para repousar sou eu — me inclinei sobre a mesa, apoiando os cotovelos nela para me aproximar de minha amiga. Fiz da minha voz suave, cantada de forma quase condolente, enquanto meu rosto assumia uma expressão sofrida. — Não sente pena de mim, Hermione? Com todo meu ritmo de estudos e dores de cabeça..., não acha que eu mereça uma boa-noite de sono?
Weasley e Potter explodiu em uma risada enquanto Granger fechava a cara, mas eu vi o sorriso que ela tentou matar no canto de seus lábios, o rosto vermelho pelo esforço de se manter séria. Eu sentia falta de estar com os leões. Entre os garotos conversando sobre como Wood estava treinando o time da Grifinória e Hermione me provocando por conta de minha "pequena classe" de estudos, eu senti meus ombros relaxarem e meu humor clarear. Eu estava me recuperando de uma risada depois de Ronald fazer uma imitação muito cabível (entende-se por ridícula) de Gilderoy, já no final do jantar, quando Fred Weasley se sentou ao meu lado.
— Boa noite, Cobrinha — ele sorriu para mim, os olhos castanhos turvando de traquinagem. — Que sorriso bonito, ele tem algum motivo especial?
— O seu irmão tem um talento — respondi com o rosto quente de tanto rir não só da atuação do garoto, mas também do rosto absolutamente ultrajado de Hermione. — Seus pais não deviam deixar isso passar.
— Ronyzinho? Ah, ele sabe que pode contar conosco se esse for seu sonho — e se esticou na mesa, acima de nossas cabeças, alargando o sorriso. — Ei, Rony! Saiba que te amamos e apoiamos!
— Cale a boca, Fred!
— Viu? União familiar — ele se sentou outra vez, cruzando os braços em cima da mesa. — Então não tem nada a ver com as últimas notícias? Dizem as más línguas por aí que você chutou um anão e arruinou as chances da linhagem Malfoy.
— Dizem, hem? — Meus lábios tremeram com o esforço para mantê-los retos. Oh, Salazar, isso explicava o frio afiado e gelado que alcançava minhas costas do outro lado do salão. — Bom, as más línguas quase acertaram dessa vez. Eu, de fato, chutei um anão. E também acertei o Malfoy..., mas não neste ponto.
— Coitado... do anão, no caso — a satisfação em seus olhos me fez soltar o ar pelo nariz, um sorriso apertado formado. — Se foi difícil convencer os outros dez depois que falei para quem era o bilhete., imagine para ele.
— O que...? — Minha testa se franziu junto a minhas sobrancelhas, minha boca se abrindo em choque e descrença. Não. Ele não faria...
— Prometi para eles que você não os chutaria.
— Fred Weasley...
Seus olhos sempre prometiam caos. Seu sorriso sempre prometia mais do que falava. O gêmeo mais travesso e perverso, eu sempre o diferenciava de Jorge. Ele tinha essa energia, esse jeito de quem iria aprontar alguma, de quem já tinha aprontado e só estava esperando para ver o que acontecia, para ver a confusão. Mais de uma vez senti vontade de checar se não havia nenhum papel pendurado nas minhas costas ou no chão. Um dia, eu sabia que tinha esse risco, eu poderia ser vitima de uma geminialidade Weasley.
Esse foi o dia.
Os onze anões de Lockhart saltaram para dentro do Salão Principal. Harpas e asas douradas, Jorge apontou a varinha para cima e uma batida rápida começou da ponta dela, inundando o silêncio surpreso do salão. A atenção do castelo estava toda naqueles homenzinhos que se apinhavam em acrobacias e giros na minha direção, até pararem em fileira bem na minha frente, no corredor do meio. Talvez, se tivessem feito apenas as acrobacias, eu ainda teria alguma chance. Mas Gilderoy os contratou para entregar bilhetes cantados, então eles abriram a boca.
— Temos um cartão musical para entregar a Mal da Sonserina!
Uma cobrinha voadora
me fez comer poeira.
Ela é encantadora,
mas também traiçoeira.
Em cima da vassoura
levou meu coração,
foi parar nas masmorras
e o encheu de atração.
Na encrenca ela não bobeia,
das masmorras às torres,
é minha perfeita parceira.
Agora, deixe-me explicar como o bilhete poético foi declamado.
Cada anão tinha uma frase e a cantava à medida que pulava em cima do outro com uma cambalhota. Primeiro, os dois primeiros versos foram os anões-base. Logo em seguida, mais dois subiram em cima de cada um, criando duas duplas de torres. Então, ou anões sabiam pular muito alto ou havia alguma varinha apontada para eles, pois os outros três criaram um "v" e se juntaram em pleno ar, ligando as duas colunas. O resultado final foi um grande "M" feito de homenzinhos de rostos agressivos e asas douradas, as harpas presas de qualquer jeito nos braços que não se ocupavam em sustentar uns aos outros naquele espetáculo.
E, tenham certeza, aquilo era um show. Mais ou menos na altura de "Em cima da vassoura levou meu coração", os gritos chegaram até mim. A explosão de energia. Se existisse um termômetro que medisse o nível de ânimo e excitação de um lugar, ele explodira antes de chegar na porta do Salão Principal. Urros, palmas batendo, vivas, encorajamentos. Não percebi ninguém rindo, mas mal estava percebendo todo o resto. Minha atenção ainda estava presa na letra do meu nome (agora se desfazendo, pois os anões não eram obrigados a ficar ali a vida toda). Aquela imagem ficaria na minha mente pelo resto da minha vida.
Me lembraria de como, ao contrário da vez de Potter, ninguém estava rindo. Eu poderia lidar com a piada, mas com a torcida? Seria difícil esquecer os leões ao meu lado, rugindo quase ao ponto de fazerem os talheres tremerem. Gina, que na sua vez havia se encolhido tanto, não parecia achar qualquer motivo para fazer o mesmo dessa vez – ela quicava no banco, vermelha e batendo palmas, gritando onomatopeias desconexas. Não que ela estivesse diferente de todo resto do castelo. Por qual razão Corvinal e Lufa-Lufa estavam se juntando ao coro? Lagrum diria que aquilo havia ultrapassado qualquer limite entre casas e atingido a unificação humana. Vendo o estado que aquelas pessoas estavam, eu não poderia nem sonhar em discordar.
Alguém, em algum lugar, gritou "beija!", e como uma faísca em um barril de pólvora todo o salão estava reverberando no coro dessa palavra. Eu sentia meu rosto quente e meu coração rápido enquanto virava o rosto em direção a Fred Weasley. O garoto ainda estava sentado do meu lado, o sorriso largo e os olhos brilhando. Eu conhecia essa expressão, mesmo que fosse tão diferente dessa vez. Havia sido em uma noite fria e longa, quando as estrelas atravessaram o céu com tanta força que bastaram para iluminar toda a escuridão. A lembrança fez uma ferida antiga arder o bastante para eu me lembrar o motivo de tê-la enterrado.
Não havia nada de celestial no rosto do gêmeo. Suas cores eram vermelho e marrom. Fogo e terra. No seu cabelo, nas sardas de seu rosto e em seus olhos. Fred era quente, era terreno, era físico. Ele estava ali e não iria a lugar nenhum. Mais importante, eu sabia que também não deixaria que eu fosse. Grifinórios eram exatamente o que pareciam. Eu podia confiar no que aqueles olhos travessos me prometiam. Eu podia tocar naquilo, segurar, afundar meus pés. O castanho ali me prometia raízes, se eu estivesse disposta. E eu não tinha uma resposta para aquilo. Não naquele nível, não naquele momento. Não quer dizer, porém, que eu não tinha resposta alguma.
Quando estalei os lábios no rosto de Fred Weasley, Hogwarts me provou mais uma vez que sabia fazer barulho. Não achava que seria possível conseguirem superar a capacidade sonora de quando a Grifinória ganhara a Taça das Casas no ano anterior, ou a que haviam alcançado agora a pouco, mas o fizeram. O chão e o ar tremeram com pés e palmas batendo, os urros balançaram os vidros das janelas e até mesmo os professores riam para a cena, batendo palmas.
— Muito bem, muito bem! — A voz potente de Dumbledore teve que agir para abafar os ânimos. O diretor, mesmo que eu pudesse ver seu sorriso e olhos brilhando apesar da distância, não teve que fazer mais do que se levantar e começar a falar para que os alunos se controlassem. — Que belíssima forma de terminar um Dia dos Namorados! Meus sinceros desejos de felicidade ao novo casal! Como presente pessoal, mais uma rodada de sobremesa será servida! — Aplausos e vivas explodiram outra vez, sendo controlados pelo suave manejo de cabeça de Alvo. — Sim, sim, mas devo lembra-los que amanhã todos tem aula, então nada de exageros!
Eu duvidava que alguém naquele castelo fosse dormir cedo. Eu sabia que, mesmo que minha noite ainda estivesse longe de acabar, eu não fecharia os olhos com facilidade. Fred estava do meu lado, sorrindo, e não tive como não sorrir para ele e seu rosto vermelho. Pela primeira vez, vi o gêmeo maroto se mexer no banco, buscando palavras, e eu sabia o que ele queria dizer antes que abrisse a boca. Coloquei minha mão por cima da dele na madeira do banco e me inclinei, deixando que meu sorriso fosse sincero. Não largo, não extravagante, mas tão honesto e quente quanto poderia ser. Como ele me fazia sentir.
— Conversamos amanhã — sussurrei as palavras no meio do barulho ainda alto do Salão Principal, mas ele estava perto o bastante para ouvir. Balançou a cabeça para cima e para baixo, o sorriso se alargando enquanto os olhos acendiam na traquinagem que me fascinava. Fred virou a palma da mão para também segurar a minha, encaixando meus dedos nos seus.
— Amanhã.
Não foi a mais fácil das coisas chegar nas masmorras para minha aula com Snape. Mesmo depois do aviso do diretor, a escola ainda estava em polvorosa. Mais de uma vez meus olhos correram, ansiosos, para onde meu professor estava. Ele até foi bastante paciente, mas quando o tempo extra marcou cinco minutos, o vi se levantar e ir embora. Eu estaria mentindo se dissesse que não queria ficar ali, na mesa dos leões, conversando alto e comendo bolinhos recheados. Infelizmente, porém, Severo e eu não estávamos em termos tão bons para que ariscasse fazê-lo esperar.
— Nossa detenção vai ser hoje, às 21:30h — disse para Potter enquanto me levantava, deslizando minha mão da de Weasley enquanto o fazia. — Gancho disse para esperar o Filch aqui em frente.
— Já vai, Cobrinha? — O rosto de Fred me lembrava muito o das garotas do Santa Maria quando um casal ia embora e as deixava para trás. Em resposta, usei a mesma a mesma voz compassiva que usava com elas.
— Tenho que ir ou vou acabar chegando atrasada na detenção que seu irmão fez questão que pegasse — me inclinei sobre o banco outra vez, beijando seu rosto. — Até amanhã.
O sorriso do garoto me seguiu em direção a minha aula, muito depois das luzes e barulhos do Salão Principal se transformarem nas sombras e no silêncio das masmorras. Era um consenso geral que a maioria da escola não gostava daquele lugar e eu não podia dizer que não entendia a lógica: era frio e úmido, além de poder "impressionar" os de nervos mais voláteis. Mas da minha parte, e do meu círculo, não encontrava muito do que reclamar. Era familiar, seguro, privado. Naquele dia em especifico, porém, mais do que não me incomodar com o ambiente à minha volta, senti que o repelia.
Não de uma forma agressiva, como repulsa, e sim como se eu não estivesse me misturando. O frio do lugar chegava na minha pele e, ao invés de se acomodar em meus ossos, era afastado pelo calor. Eu estava quente. Esquentada por olhos castanhos caóticos, por um sorriso largo e sincero. O sentimento que exalava do garoto era estável e sólido, confiável e tentador como as chamas de uma lareira. Ainda me sentia amortecida e sonhadora depois de alguns momentos e me peguei desejando voltar para a companhia do garoto Weasley. Mas, como nem tudo na vida se consegue, abri a porta para minha aula com Severo Snape.
— Boa noite à futura sra. Weasley — meu professor soltou como cumprimento, sentado em seu lugar usual. Torci meus lábios para ele, meus dentes aparecendo em um hibrido de ameaçada e bom humor enquanto me sentava à sua frente.
— Boa noite, velho amargurado que nunca deve ter recebido nem um bombom de Dia dos Namorados, quem dirá algo deste nível.
Uma dica? Se estivem em uma situação em que o alvo da provocação tem o poder de te causar algum dano em retorno da gracinha, e ainda por cima ser um dano justificável, aproveitem a oportunidade de manterem a boca fechada. Caso contrário, é só uma péssima ideia.
Fale com o autor