Corona II

28 Confiança Cega


Notas iniciais
Hey nenês ♥ DE NOVO eu tô respondendo os comentários, sim? Os comentários do cap 27 vão ser respondidos todos ♥ Obrigada a Milly, Lua Helena, Juliet e Ella Branco (Bella ♥) pelos comentarios lindos, perfeitos, pedaços do céu, maravilhosos e perfeitos² ♥ O cap é pra vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Sue voltou para o almoço muito melhor do que saiu. Enquanto eu me trocava ela tratou de lavar e pentear seu cabelo mais uma vez, se olhando no espelho para garantir que ninguém percebesse a crise que acabara de ter. Teve muito sucesso e quando saímos de braços dados do dormitório, a imagem de seu rosto vermelho e inchado era apenas uma lembrança. Uma que eu não esqueceria.

Daphne ainda estava mordiscando uma sobremesa quando chegamos, mas não havia sinal de Parkinson ou Bulstrode. O sexto sentido de Greengrass era afiado demais para se estender apenas em minha direção então, quando Hopkins se sentou, recebeu um olhar pesado e um toque gentil em uma das mãos. Sonserinos não tinham o costume de desabafar, já havia percebido, mas talvez por Daphy ter uma irmã mais nova as coisas ficaram diferentes em sua perspectiva. Ela sempre sabia quando pressionar e quando apenas deixar um lembrete sutil de que estava ali quando o outro estivesse precisasse. A pequena Sue Hopkins deu um sorriso que acendeu novamente seus olhos escuros enquanto apertava a mão de volta – ela sabia.

Ao terminar o almoço de domingo, deixei que minhas companheiras fossem embora sem mim. Elas tinham o dia inteiro para aproveitá-lo como desejar, uma vez que fizeram os deveres comigo no dia anterior, mas ao contrário delas, eu tinha muito o que fazer. Corri meus olhos pela mesa dos professores e soltei o ar ao ver a figura sombria de Snape sentada ali, parcialmente virado em direção a professora Sprout. Ele parecia, ao menos, um mais interessado do que estava na festa do Dia das Bruxas. Herbologia e Poções eram duas matérias com similaridades latentes, afinal, com tanta utilização de ervas em ambas.

Estiquei minha mente até a dele, tocando com a ponta dos dedos a muralha de obsidiana fria que era sua consciência. Um leve espasmo que fez sua sobrancelha ir para cima foi toda a reação física que consegui à chamada, mas ele permaneceu em silêncio enquanto esperava que eu explicasse a razão de ter entrado ali. Respirei outra vez ao levar os dedos até a nuca, massageando o ponto que ameaçava me partir.

Preciso conversar.

Desta vez ganhei mais de sua atenção. Não por muito tempo, mas Severo definitivamente chegou a virar o rosto para mim. Mesmo de tão longe consegui ver com clareza o túnel de seus olhos, a pressão que impunha em sua boca para transformar em algo tão fino. Foi por três segundos, algo que podia ser levado como uma olhada casual pelo ambiente no meio de uma conversa, mas eu estava dentro de sua mente. Eu vi que Dumbledore conversara com ele pois escutava o eco da voz do diretor ressoando com o nome de Colyn Creevey.

Meu escritório. Três horas.

Era uma hora após o horário do almoço terminar, o que significava que não tinha tanto tempo para checar uma outra parte. Me retirei de sua mente e fui em direção a biblioteca. Pince estava lá, como sempre, e me olhou como um falcão assim que pus os pés para dentro do lugar. Sua sobrancelha subia a cada passo que avançava em sua direção, mas se caras feias me impedissem de alguma coisa eu não estaria chamando Snape de Capitão Gancho.

— Boa tarde, Madame Pince — cumprimentei a mulher que tinha um nariz quase tão grande quanto o do meu professor. Fino, mas ainda curvo. A mulher estava empacotada em um vestido verde-musgo com pele no colarinho e nas magas, além do chapéu pontudo de bruxa da mesma cor. Os olhos me observavam através dos óculos quadrados, questionando o que eu teria de tão importante para incomodá-la. — Você poderia me dizer se Hogwarts mantêm registros?

— É claro que sim, srta. Lewis.

— E eles são acessíveis para alunos? — A pergunta era arriscada, mas Pince era menos perigosa do que McGonagall, principalmente após me olhar com tanta intensidade na noite anterior. A bibliotecária deixou o grande pergaminho onde escrevia de lado e se inclinou em minha direção, seus olhos escuros trabalhando para me perfurar.

— Os diretores das Casas podem conceder acesso de alguns registros aos seus monitores, se assim desejarem — a boca dela se apertou tanto que não sabia como ainda conseguia estar falando. — Algum motivo para querer saber sobre?

— Nenhum, Madame Pince — aveludei minha voz enquanto recuava. — Obrigada pelo seu tempo.

Era um tiro no escuro, de qualquer forma. Tinha muita certeza que Tom Riddle não estudava em Hogwarts – ao menos, não neste tempo. Era um ex-aluno, então, pois estava com o uniforme da Sonserina e o emblema de monitor. Mas como ainda poderia estar aqui sem ninguém notar? Havia se infiltrado no castelo, estava escondido em algum lugar? Não fazia o menor sentido. Era outra coisa, muito pior do que a imagem de alguém morando escondido em algum armário de vassouras abandonado.

Passei o resto do meu tempo entre os corredores de livros, vasculhando livros atrás de títulos sobre a magia da mente. Mas Snape havia sido bastante preciso em sua descrição: tanto oclumência quanto legilimência eram magias sombrias de um ramo obscuro de poder. Não haviam muitos exemplares expostos para crianças lerem e, os que estavam, não eram muito específicos além dos dados básicos: mesmo que precisam de varinhas e feitiços e pratica devem nascer com um certo grau de afinidade para um ou outro, o que era o caso da grande maioria. Era o caso de Severo, por exemplo. Mas haviam outros, em muito menor numero dentro, que não precisavam de nada. Como eu.

Não fiquei surpresa quando não encontrei a resposta que precisava e, exatamente as três da tarde, bati na porta do escritório do meu professor. Ele me esperava sentada em frente a sua lareira, mais informal do que eu já havia visto ele antes: as pernas cruzadas e um livro sobre o colo. A cena me lembrou outra ocasião, mas naquela eu estava perdida demais dentro de mim mesma para aproveitar o momento. Os olhos negros de Severo me focaram assim que entrei e ele estava com a varinha em punho, mas a deixou em um bolso das vestes quando me sentei na cadeira em sua frente.

— Você sabe que alguém não recebe visitas quando só há um assento confortável no cômodo inteiro — soltei com a voz suave, à guisa de cumprimento. A boca do diretor da minha casa se torceu, nem para cima e nem para baixo e sim por si mesma, e eu soube que havia marcado pontos.

— Você trouxe essa boca atrevida até aqui em um domingo apenas pelo prazer de me atrapalhar?

— E em que, exatamente, eu te atrapalhei, Capitão Gancho? — Levantei uma sobrancelha em resposta para seus olhos brilhantes de veneno. Uma olhada em sua mesa e não havia qualquer pergaminho para ser corrigido ali.

— Em esquecer, ao menos por umas horas, que leciono para vocês — a resposta me fez sorrir, ainda mais vinda de um rosto tão duro e uma voz tão ácida. Balancei a cabeça, a risada chegando aos meus olhos de forma que achei que não conseguia depois da noite anterior.

— Por mais tentador que ajudar você a odiar sua vida pareça, eu também tenho o que fazer além de olhar mais que necessário para sua cara velha — devolvi, meu sorriso largo e meus dentes, eu sabia que ele podia ver, pingando desrespeito. Mas então me lembrei do rosto em terror de um garotinho apenas um ano mais novo do que eu, o que fez a ponta dos meus lábios caírem. — Eu imagino que você já saiba de Colyn Creevey.

Severo não me respondeu, mas eu sabia que tinha. Se já não tivesse essa certeza por saber que Dumbledore o tinha na mais alta confiança e ambos trocavam confidências (algumas delas, com certeza, sobre mim), eu saberia pela sua postura. Tantas horas parada na frente daquele homem, com meus olhos fixos em seu rosto, prestando atenção em cada movimento que podia dar. Snape era bom – mal se mexia. Não fez muita coisa além de cruzar os dedos das mãos na altura da barriga, os cotovelos ainda apoiados nos braços da cadeira, e esperar. Não havia sido ele que marcara o encontro, afinal.

— Na noite passada... — testei as palavras na minha língua. Até onde eu poderia ir? Meu professor iria relatar essa conversa, eu tinha certeza disso, assim como tinha que relatou várias outras. Dumbledore não podia estar em tantos lugares ao mesmo tempo e nem pedir um relatório detalhado de cada quadro do castelo, o que o obrigava a ter olhos e ouvidos em outros lugares e de outras formas. Não seria difícil para o diretor perceber a relação que acabei construindo com o Mestre de Poções e ainda mais fácil usar isso em seu proveito. — É possível que alguém invada sua mente enquanto dorme?

— É a mais fácil das formas — os tuneis dele se acenderam outra vez, atentos e rápidos para montar o quebra-cabeça com as peças que eu estava prestes a soltar. — Ao adormecer é natural que se perca, pelo menos, um terço de suas defesas. Isto se houver alguma. É por isso que se deve praticar constantemente a oclumência: não apenas para se manter fortalecida, mas para conseguir identificar e conter os danos.

— E imagino que se houver algum tipo de conexão ficaria mais fácil — oh, pode ir se sentar e tentar passar a linha pela agulha, Gancho, eu não darei muito além disso. Me recostei na cadeira de madeira antiga e bem cuidada, mas ainda dura, mantendo seus olhos nos meus. Seu silencio foi minha confirmação. — Ela poderia ter naturezas distintas?

— Sim — a profundidade de seus olhos se aprofundou um pouco mais. Ele estava com a varinha na mão, podia entrar a qualquer momento e eu sabia que ainda não tinha forças para impedir um ataque total de Severo. Talvez o incomodar e fazer algum dano mutuo, mas não o expulsar – com certeza não antes de ele ter o que quisesse. Estava parado, mesmo assim, sem mexer um dedo para mirar a varinha. — A conexão familiar, por exemplo, é a mais forte. Um vinculo tão profundo como este pode ser explorado de várias formas, incluindo a legilimência. Dependendo da força, é capaz do invadido sequer perceber o que está acontecendo. Sua oclumência não lhe alerta, pois não reconhece a ameaça externa. Especula-se que, quanto mais próximo a essência das duas partes sejam, menor será o nível de resistência.

— Como se as mentes se misturassem, talvez?

— Talvez — os lábios pálidos do professor se apertaram. — O ramo da legilimência e oclumência é obscuro justamente pela falta de pesquisas no assunto, e não há muitas pesquisas pois não há muitos com essa capacidade.

— E os poucos que possuem não costumam colocar no cartão de visitas, imagino — um sorriso que não chegou aos meus olhos puxou o canto da minha boca. Um dos motivos de manter meu poder para mim. As pessoas, no geral, não costumavam lidar muito bem com a possibilidade de serem invadidas a todo instante e talvez nunca saberem. Um legilimênte poderia descobrir em segundos sua vinda inteira e essa era uma realidade que a maioria se afastava de viver. Não culpei, por exemplo, quando Malfoy nunca mais olhou nos meus olhos.

Até ontem, pelo menos.

— Um poder desejado por muitos e evitado por mais ainda — Snape concordou, os dedos compridos se tocando nas pontas uma, duas vezes. — Você vem demonstrado progresso considerável em sua oclumência. Como sabe, é um poder que exige, acima de tudo, controle. Sobre suas emoções, sobre seus pensamentos, sobre si mesmo. Controlar suas emoções, disciplinar sua mente, esta é a chave. Ao dormir, perdemos esse controle e ficamos quase expostos, é natural, mas há meios de aperfeiçoar suas defesas para que mesmo que alguém consiga entrar, seja rapidamente expulso.

— Existe alguma maneira de treinar isto de forma específica?

— Você precisaria estar dormindo — uma mudança em sua expressão congelada em aspereza fria, uma sobrancelha arqueada, mas não recuei. Ele também não. Seus olhos de inferno se estreitaram, quase faiscando para mim enquanto acenava com a cabeça. — Irei aumentar nossas aulas.

— Eu estava mesmo com saudade de passar as noites com você, Gancho — ronronei de minha cadeira, meus dentes aparecendo em um sorriso largo que acendeu meus olhos. Quando vi a torção de seus lábios, nos dois cantos desta vez, soube que tinha feito a escolha certa em vir até aqui. Snape podia ser um espião, podia entregar cada pedaço dessa conversa para o diretor, mas iria me ajudar. Sem perguntas.

Pois ele conhecia meus pensamentos e minhas emoções tanto quanto eu conhecia as dele e, da mesma forma em que nunca achei que fosse o culpado no ano anterior, ele sabia – de uma forma de McGonagall nunca poderia saber – que eu nunca machucaria Colyn Creevey e que se eu estava pedindo por algo, era importante. E ele iria confiar nisso.

Sai de sua sala com um novo horário escrito em um pedaço de pergaminho enfiado no bolso da calça. Severo não tinha aberto mão de nenhum horário e sim acrescendo mais, o que valeu sua promessa. Agora eu passaria quatro noites em seu escritório ao invés de três, sempre após o jantar, sendo duas delas reservada para a oclumência do sono, para me ensinar a me proteger de invasores na hora mais indefesa de minha consciência. Riddle não criaria um palco para ele outra vez e, se sequer tentasse, eu o faria o meu.

A conversa com Snape não havia demorado tanto, então meus pés me fizeram subir as escadas. Não havia visto o trio de leões durante o almoço, o que significava que haviam comido mais cedo e bem rápido. Era tarde de domingo e uma intuição me levou para o banheiro feminino interditado do segundo andar. O lugar quase silencioso quando passei pela porta e a fechei às minhas costas, sem Warren chorando, mas ainda havia um estalo baixo vindo de um dos boxes. Andei até lá, chapinhando no piso molhado, e parei na porta.

— Depois de criar fogo a prova de água, Hermione, devia se concentrar agora em criar um que não faça barulho — a porta se abriu em um segundo revelando Potter, Weasley e Granger espremidos dentro do cubículo, dividindo espaço com um caldeirão. Os rostos dos três eram bem diferentes um do outro: Mione e Potter pareciam ansiosos e preocupados, já Weasley tinha os olhos estreitos para mim, me olhando por cima de seu longo nariz.

— Mal! Entre, estávamos te esperando! — Granger foi a primeira a falar, mesmo que Harry tenha sido o primeiro a reagir. Abriu espaço no boxe, empurrando Ronald mais para o canto. Quando entrei no boxe, percebi que Hogwarts guardava muito espaço para esses lugares. — Harry nos contou sobre ontem a noite! O que aconteceu?

— Vocês já sabem de Creevey, então?

— A escola inteira já deve saber a esta altura — Rony rebateu com as mãos nos bolsos. Ele tinha sorte de ser tão alto e magro naquele canto, mesmo que não me passasse, com certeza ganhava dos outros dois. — Mas ficamos sabendo hoje de manhã quando McGonagall contou para o Flitwick e nós ouvimos.

— Foi o que nos fez começar logo a poção — Mione abaixou a cabeça para o caldeirão, os olhos marrons atentos em uma checagem rápida antes de se nivelarem outra vez. — Estamos aqui o dia inteiro, praticamente. Mas me diga sobre ontem! Harry contou que ouviu Dumbledore dizer que você encontrou o Colyn. Como isso aconteceu?

— Ora, Hermione, então nosso amigo também deve ter contado o que disse aos professores: encontrei o garoto na cozinha e o acompanhei até quase a ala hospitalar antes de começar a voltar para as masmorras — a mentira devia ter vindo mais fácil na segunda vez, mas não era verdade. Não com Granger me olhando daquele jeito, não com Potter e seus olhos verdes brilhantes. Eles acreditariam em mim pois confiavam em mim. Eram meus amigos. Mas o que eu podia fazer? Não havia nenhuma voz na noite anterior para Harry ser meu cumplice e Ronald já me mirava com o azul frio em seus olhos. — Voltei correndo quando ouvi o corpo caindo, mas era tarde demais. Dumbledore chegou uns segundos depois.

— Que perigo, Mal, você podia ter sido atacada, também! — A preocupação na voz de Harry era real e eu a odiei. Devia ter uma forma de contar a verdade, ao menos para ele. Potter entenderia, não é? Ele escutava a voz também, tinha mais chances de compreender se eu dissesse que muito antes de ouvir a criatura eu podia senti-la. Eu, ao menos, esperava que sim.

— Eu estou bem, Cicatriz — forcei as palavras a saírem com naturalidade. — Não se preocupe comigo.

A poção precisava descansar, então não ficamos muito tempo espremidos naquele boxe. Weasley e Mione saíram na frente, mas Potter ficou para trás comigo. Ele me contava sobre o motivo de estar tão agitado quando entrei na ala hospitalar ontem a noite – a visita do elfo chamado Dobby. O mesmo que havia aparecido na casa de seus tios e criado uma confusão com a primazia de pudim de Petúnia.

O elfo não apenas confirmou que, de fato, a Câmera já havia sido aberta antes como admitiu sua culpa pelo fechamento da passagem na plataforma e o balaço perseguidor. Dobby queria, a todo custo, impedir que Harry chegasse e permanecesse em Hogwarts, chegando a tentar tirá-lo do castelo em um caixão para conseguir salvar sua vida. Eram métodos muito pouco convencionais, admitia, mas eu havia sido criada por uma cobra – extrema violência para atingir um objetivo não me era estranha.

— Rony agora tem ainda mais certeza de que é o Draco — ele continuou falando, sentado no banco de um dos corredores do castelo, vazio tão tarde no domingo. Logo já seria a hora do jantar, mas não me parecia com pressa e nem eu. — Acha que quem abriu antes foi o pai, Lucius, e que ele ensinou ao filho como fazer.

— Ronald tem certeza de qualquer coisa que apresente uma chance de atacar aquela família — murmurei. Não que eles não merecessem, mas Weasley fazia tanto esforço para os incriminar de coisas absurdas que chegava a ser triste. Tanto pai quanto filho já distribuíam motivos o bastante para a hostilidade sem precisar que alguém criasse teorias mirabolantes e planos diabólicos passado de geração para geração. — O que você acha, Harry?

— Eu acho que faz sentido — para meu prazer, o garoto não respondeu de imediato. Era claro que não, colocar o rosto de Draco (e agora de seu pai) no lugar vago do culpado da situação não havia sido ideia dele. Mas odiava Malfoy quase tanto quanto Rony, o que tornou sua persuasão algo muito fácil e rápido. — E como não temos outro suspeito, não custa investigar.

— Fale por você — devolvi com minha voz mais áspera e seca do que pretendia, minha boca se torcendo de um jeito parecido demais com Snape. — Weasley não colocaria a mão no fogo por mim.

— Não é bem assim, Mal — um dos maiores defeitos e qualidades do garoto era a lealdade. Principalmente ao primeiro amigo que havia feito na vida, após tantos anos de isolamento social sofrido por seu primo trouxa. Ele defenderia o ruivo, eu sabia que faria, mesmo que não tivesse muito o que defender. — Rony só...

— Só lembra, com muita frequência, que sou da Sonserina. E isto vai muito além de cores no uniforme para ele, sabe que sim — chiei entre os dentes. Se ele queria proteger seu escudeiro, não seria eu que faria disso algo fácil. — Isso significa que, não importa o quanto "prove" ser de confiança. Para ele, no final das contas, dou na mesma que Snape, que Malfoy, que a droga do Voldemort. E nisto Ronald não pode confiar, não de olhos fechados.

— Bom, ele está errado — a força da frase me fez virar o rosto, meus olhos distraídos que corriam pelas aberturas de pedra nas paredes indo direto para os olhos do garoto. Potter falava sério: cada pedaço de seu rosto sério, de sua voz firme e de sua postura reta exalavam isso. Leal e gentil, não era sempre que mostrava os dentes, ainda mais acerca de seu melhor amigo, então ouvi. — Eles são preconceituosos e racistas, são ruins e cruéis. Gostam de causar dano e dor pelo prazer de assistir. São mentirosos e covardes, assassinos e valentões. Você não é nada como eles, Mal. Nada. E Rony...

— Ei, não — O impulso me fez levar uma mão até a dele, qualquer coisa para fazê-lo parar. Mesmo que meu rosto estivesse com uma alta concentração de sangue e meu coração aquecido, não podia deixa-lo continuar a dar uma palavra além. Potter não era assim. Não falava mal dos amigos dele, não os injuriava pelas costas e eu não deixaria que começasse comigo. Principalmente depois de fazer com que uma espécie diferente de calor se espalhasse pela minha pele, emanando em ondas a cada batida do meu coração. Não era destrutivo. Não era nada parecido com o caminho de fogo que a marca causava. Harry não hesitou, nem por um segundo, em fechar os dedos entre os meus. — Esqueça, sim? Eu me entendo com Weasley depois.

— Tem certeza? Eu posso tentar falar com ele.

— Por mais que eu aprecie a iniciativa Grifinória em bravura de salvar o dia — meu sorriso foi fácil e verdadeiro. Gentileza e altruísmo tão puros incrustados nos olhos muito verdes foi como respirar ar fresco. Isso era real. Pessoas assim existiam. Eu tinha de me lembrar disso. — Eu não preciso de um herói, Potter.

— Mas e de um amigo? — Uma sobrancelha do garoto se levantou e a risada me subiu à boca. Por estar ali, ao seu lado, com aquela onda de calor suave correndo pelas minhas veias, encostei minha cabeça em seu ombro. Potter tinha cheiro do grama por baixo do sabonete padrão do castelo, e respirei aquilo para me lembrar de dias mais aquecidos. Não da minha infância, tinha muita pouca coisa boa lá, mas do verão. Da Toca. De Quadribol durante toda a tarde e risadas altas levadas pelo vento – como a vida deveria ser, a imagem despreocupada e feliz que crianças deveriam passar. Me refugiei ali, naquela lembrança, e fechei os olhos.

— Você não faz ideia.

Ficamos sozinhos naquele corredor até a hora do jantar quando fomos, em silêncio, para o Salão Principal. A confiança profunda, quase cega, que Harry tinha em mim era comovente. Me fazia querer lutar para merecer o brilho honesto de seus olhos, para que nunca deixassem de ser assim para o mundo, para mim. Mas a voz na minha cabeça (e não era Lagrum) continuava me trazendo de volta para o pacotinho no meu malão, para o Riddle e para a criatura que alcançava meus ossos.

Eu não fazia a menor ideia do que o garoto poderia achar ou reagir a tudo isso, pois nem eu mesma tinha muita coisa em mim além de resignação cansada. Potter foi feroz e firme em suas palavras e eu poderia passar em acreditar em coisas sagradas apenas para jurar em nome delas: eu acreditava naquilo. Tinha fé na amizade do Garoto Que Sobreviveu como tive em pouquíssimas coisas na vida, mas eu também o conhecia.

Harry Potter era fervoroso e apaixonado no mais primal sentido na palavra. Era um Grifinório – seu coração rugia. Tinha emoções fortes e uma alma viva. Mas já havia aprendido a ter medo. Medo foi uma das primeiras coisas que aprendeu ao conhecer o mundo bruxo: verdadeiro pavor de se misturar a casa do homem que assassinou seus pais, a casa que fabricava tantos bruxos malignos, a casa que via exemplos em seu cotidiano que não ajudavam a formar uma boa opinião. Foi incapaz de contar para seus melhores amigos o ocorrido em sua Seleção por medo que o rejeitassem, que Ronald o pareasse. Eu mesma nunca saberia se não tivesse visto por conta própria.

Era demais para arriscar. Sonserina era onde a linha de xeque fora estabelecida para ele. E enquanto ao menos Weasley era honesto e não negava que nunca esqueceria disso, Potter se esquecia demais. Era muita dedicação em negar minha afinidade com a Casa. Ele não queria ver quão confortável eu era no meio das cobras, preferindo se concentrar na minha fácil adaptação aos leões. Por isso não poderia arriscar.

Pois se aquele verde se apagasse, tão vivo e esmeraldino como a cor da minha Casa, aquela chama iria com ela. Isso levaria embora algo tão mais profundo e frágil dentro de mim que eu esqueci de sua existência, e agora que fui lembrada, não queria deixar ir. Não estava pronta para voltar para o frio, para a escuridão, para a luta e sobrevivência interminável. Não ainda. Eu precisava de mais algumas lembranças, de mais alguns momentos para guardar a sensação em um lugar tão fundo que nunca poderia ser tirado completamente.

Elas seriam tudo que eu teria.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 27 ♥ Malfeito, feito! ♥