Corona II

3 Órfã


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Mais um capítulo para vocês e, posso dizer, tô muito feliz do jeito que a história tá sendo recebida outra vez ♥ São dois capítulos e 40 acompanhamentos, ai gente, eu amo vocês ♥ ♥ Já teve até gente que favoritou, SEUS LINDOS ♥ E obrigada a todos que comentaram, sério, seus comentários só me deixam cada vez mais feliz e animada ♥ Um obrigada especial a Ella Branco (Bella ♥), Valerie Malfoy, JovanaSerafini, Amanda Pêra e MaduBlackfyre por deixarem suas opiniões, o cap é pra vocês ♥ Espero que gostem desse ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Por sinal, foi bastante fácil uma pré-adolescente de doze anos chegar até a capital. Bom, talvez o fato de confundir a mente dos trouxas com a minha tenha facilitado o trajeto. Dumbledore não se orgulharia disso, mas nem eu fiquei particularmente feliz em dobrar a consciência fraca e desprotegida deles. Era apenas necessário se eu não quisesse algum adulto enxerido ligando para a assistência social e dizendo coisas como "olá, tem uma criança sozinha na beira da estrada pedindo carona, podem vir aqui?". Com minha habilidade (que eu já havia chegado à conclusão de ser parte da minha própria existência e não detectável pelo Ministério) cheguei à Londres em duas horas.

Minha boa memória foi responsável em me guiar em direção ao Caldeirão Furado. Não sabia o que iria encontrar lá, mas era o único lugar que eu conhecia além do orfanato. O endereço de meus colegas de casa e dos leões estavam guardados na minha mochila e vou admitir que pensei bastante neles, mas desisti de ir a qualquer lugar. O que eu diria aparecendo na porta dos outros dessa forma? Poderiam me receber, mas duvido que seus pais e responsáveis seriam tão abertos a uma órfã de malas prontas e arriscar não era algo em consideração, bom, ao menos não hoje. Não agora.

Já era tarde da noite quando passei pela porta da taberna/hospedaria bruxa. A sensação de alivio genuíno me fez abandonar qualquer hesitação infantil que ainda tivesse. Era como jogar água em uma queimadura. Eu podia respirar outra vez e nem mesmo o fato de ser uma fugitiva e provável moradora de rua com uma serpente gigante nas minhas costas e um passado sombrio escondido no meu malão encolhido conseguiram me tirar o sorriso. Pude respirar de novo e de fato sentir o ar preencher meus pulmões – magia. No ar, nas pessoas à minha volta, na madeira e nas pedras que mantinham o lugar em pé.

Eu ficaria bem.

— Mal! Não acredito, o que faz aqui?! As férias ainda estão na metade! — Fazia muito tempo que não via Tom, o dono do Caldeirão Furado. Durante meu ano em Hogwarts trocamos cartas com frequência, mas não era o mesmo do que ouvir sua voz e observar seu sorriso. — Finalmente veio visitar o velho Tom, hem? Venha, venha cá! Diggory, esta é Malorie Lewis!

Ignorei o silvo impaciente de Lagrum e deixei meus pés me levarem até o homem. Ele não estava atrás do balcão, coordenando pedidos com sua varinha, como da ultima vez que o vi. Dessa vez ele estava no salão, bem em pé ao lado de uma das mesas compridas enquanto conversava com um homem baixinho e grisalho, mas com um sorriso tão aberto quanto o seu. Na frente dele havia um rapaz de olhos castanhos e cabelos da mesma cor, com sorriso e gestos menos espalhafatosos que o mais velho, mas nem por isso menos simpáticos ou agradáveis. Grudou os olhos em mim – era um garoto bonito. De pele pálida, lábios retos e maxilar forte. Não me era estranho, também.

— Eu conheço você? — A pergunta saiu de forma legitima. Salazar abençoe Severo e suas aulas dolorosas: a mente dos três homens eram silêncio para mim. Orbitei naquilo, na quietude construída que aprendi, e isso tornou meu sorriso mais honesto enquanto ele respondia.

— Não particularmente — sorriu. Até sua voz era agradevel. Tinha um timbre descontraído, forte. Estava ali alguém que acordava nas manhãs pronto para viver. Ansioso pelo que a vida aguardava. — Eu sou do quinto ano, me chamo Cedrico. Mas, mesmo assim, eu com certeza já ouvi falar de você. Papai, se lembra? Contei sobre o que aconteceu no final do ano, com o professor Quirrell...

— Pelas barbas de Merlin, é verdade! — O pai respondeu. Olhando de perto, era claramente o pai. Tinha os mesmos olhos castanhos atrás dos óculos e estendeu as mãos para mim, apertando as minhas com firmeza. Não pela primeira vez, agradeci as luvas que as cobriam. Que situação seria se ele sentisse minha pele destroçada. — Muito prazer, mocinha, sou Amos Diggory. Você está em que ano em Hogwarts? Não no mesmo do meu filhão, pelo visto.

— Não — havia graça na minha voz. Amos idolatrava o filho, isso era claro pela forma que o olhava, que falava com ela, que orbitava à sua volta. Cedrico, por outro lado, me parecia como qualquer adolescente ao acabar de ser chamado de "filhão" em publico e em alto e bom som: devidamente envergonhado, mas nem por isso desgostoso. Amava o pai. — Sou do segundo ano, quero dizer, vou começar ele depois das férias.

— Então só tem doze anos?

— Fiz não tem nem muito tempo — mudei o peso das minhas pernas, Lagrum muito quieto na mochila em meus ombros. Ele estava acordado, eu sabia, apenas bastante atento. Queria ver o que sairia daquela conversa. Bom, eu também. Amos subiu as sobrancelhas grossas de forma engraçada, a boca meio aberta antes de soltar uma risada meio alta.

— É alta para a idade! — E depois de constatar o obvio, se voltou para Tom. — Meu amigo, roubamos muito seu tempo sem nem pedir nada! Então que tal isso: um bolinho, alguma coisinha doce para a garota? Temos uma aniversariante, afinal!

— Não — a palavra se atropelou na minha boca, quase me fazendo engasgar. Na mochila, Lagrum riu. — Por favor, não é necessário...

— Não me venha com essa, Mal, eu mesmo faço questão, só uma lembrancinha — o velho lufano deu tapinhas no meu ombro, sorrindo para mim. — Tenho uma nova receita, vai ser você mesma que vai testar. Venha, Amos, me alugou por tanto tempo... venha, me ajude nas bebidas um pouco.

É melhor tentar dormir um pouco, isso pode demorar.

Lagrum resmungou na minha mente depois disso, mas senti quando se acomodou melhor dentro da minha mochila. Não estava em posição de brigar comigo, nem eu de sair andando. Deixei a bolsa aos meus pés enquanto observava Tom e Amos irem em direção ao balcão e me sentava ao lado de Cedrico Diggory e tentava não pensar sobre o fato de alguém estar me providenciando um bolo de aniversário.

— Me desculpe por isso, sabe, meu pai é um pouco...

— Ele é ótimo — interrompi com um sorriso. Não estava mentindo. Uma boa pessoa, espalhafatosa e expansiva, mas boa. — E, se quer saber, acho que é tudo parte de um plano maior para ele comer a nova receita de bolo do velho Tom.

— Agora que você comentou, ele vem mesmo querendo tirar um pedaço da cozinha desde que chegamos — a boca dele se tornou na tentativa de seriedade, mas o sorriso fácil o traiu. A risada, então, foi um golpe fatal que tornou tudo ainda mais divertido quando tentou engoli-la. — É isso que fazem lá na Sonserina? Suspeitam das boas ações alheias?

— Não, só de velhos de óculos.

— Nunca comeu nada da sala do diretor?

Você já?

Dessa vez, quando Cedrico riu, consegui rir com ele. Tinha a pequena impressão de que Lagrum estava se preparando para morder minha perna e me obrigar a deixar de ser idiota, trocando sorrisos e abaixando a guarda com o garoto. Mas ele era apenas uma cobra mal-humorada e ciumenta que sabia muito bem que não tinha qualquer fundamento para me interromper. Mesmo assim, levei a ponta do meu pé até minha mochila, cutucando meu amigo em provocação.

— Você vai muito para lá, não é? — Ele recomeçou, então apertou os lábios, os ombros se estreitando. — Desculpe se estiver me intrometendo.

— Não está — minha vez de deixar os ombros caírem. — Não é como se fosse segredo para Hogwarts inteira minha frequência exemplar na sala do Dumbledore. Mas agradeço não ter falado nada na frente do seu pai, os motivos de ir para lá não mostram meu melhor lado.

— E ele é bem menos intimidador, se quer saber — o sorriso dele se abriu outra vez. — Para alguém tão nova, você anda de cara muito amarrada lá no castelo. Tenho amigos que não perguntariam onde fica o banheiro para você.

— Até porque se estão no quinto ano e não sabem... — minhas sobrancelhas subiram enquanto minha boca torcia, o bom humor me fazendo brincar. A risada do garoto, descobri, tinha um efeito contagiante de despreocupação. — É isso vocês fazem lá na Lufa Lufa, têm medo de uma garotinha?

— Como se você fosse uma garotinha — zombou com um resto de sorriso. — E se quer saber, eu prefiro acreditar que a maioria das pessoas tem um lado melhor, até mesmo a famosa Malorie Lewis.

— Me chame de Mal — ele não podia saber como aquilo soou para mim. Como suas palavras se misturaram dentro das minhas lembranças e, por um momento, enxerguei uma velha mulher que também acreditava (muito mais do que eu) na bondade e gentileza dentro de mim. A ferida recente ardeu dentro de mim e a sufoquei com pressa – ela estava morta. Vi seu corpo ser colocado sete palmos abaixo da terra ainda hoje mais cedo, era hora de todo o resto ser soterrado também.

Diggory não percebeu a mudança do ar perto de mim – não durou o bastante para isso. Amos e Tom voltaram naquele momento, chamando atenção de todo lugar com o grande bolo decorado. Os clientes viraram o pescoço para ver a decoração na cobertura que soltava faíscas e entre uma subida timidez e uma voraz vontade de agarrar o momento, o pequeno lapso na boa noite foi esquecido com muito bolo bruxo.

Cantaram parabéns para mim e centelhas voaram de varinhas desconhecidas de uma festa que se tornou longa e publica. Cheguei a conhecer a mulher de Tom, Daisy. Tinha cabelo castanho e olhos espertos, além de um sorriso tão receptivo quanto o do marido. Mas era mesmo mais perceptiva que Tom e, a medida que a noite avançou e os Diggory foram embora (Cedrico chegou a dizer que me procuraria no castelo, se não nos víssemos mais pelas férias), ela puxou o velho homem para um canto e não precisei ler mentes para saber o que aquelas sobrancelhas franzidas e olhares rápidos significavam. Descanso por algumas horas e comida já tinham valido minha noite, então me esgueirei para baixo do banco e peguei minha mochila.

— Mal, ei, onde você está indo? — Tinha que me lembrar que taberneiros tinham excelente visão periférica. Apertei meus dedos que tocavam nas alças da bolsa e endireitei as costas ao puxá-la para cima, não sorri para eles dessa vez. — Alguém vem te buscar?

— Não — eu podia mentir. É claro que eu sempre podia mentir, mas para quê? Não é como se um bruxo tivesse anotado o numero do serviço social trouxa. — Mas estou indo, de qualquer jeito. Muito obrigada pelo bolo, de verdade, fazia tempo que eu... bom, obrigada, boa noite.

— O orfanato é aqui por perto? — Daisy torceu o avental, coisa que fazia quando estava ansiosa. Soltei o ar devagar, olhando em volta para garantir que ninguém estivesse prestando particular atenção a cena. Já era mais de meia noite, haviam poucos clientes no salão ainda, então olhei de volta para o casal, um amargor substituindo todo o açúcar do meu bolo.

— Não vou voltar para lá — e eles não precisavam mais do que isso para entender o que significavam essas palavras saindo de uma criança sozinha, tarde da noite, com uma mochila nas costas. Me arrependi rápido demais da minha honestidade: suas emoções me atingiram. Preocupação, choque, confusão. O que eles iriam fazer comigo agora? Andei para trás quando reconheci o tipo de pensamento: como iriam resolver esse problema? A palavra rodou na minha cabeça, desceu pela garganta e caiu dentro de mim, bem, bem fundo – fez barulho o bastante para acordar meu monstro, fazê-lo abrir os olhos. Problema. Indesejada. Órfã. Lagrum se mexeu na minha mochila e avancei mais uma vez em direção a porta.

Isso os despertou. Perceberam que a garota que fugiu do orfanato iria fugir deles, também. Tom avançou na minha direção com cuidado, como se eu fosse algum bicho. Bom, talvez eu estivesse parecendo um. Com certeza não estava sorrindo mais. Não pisquei enquanto ele se aproximava, meus instintos e velhos hábitos prontos para quebrar qualquer coisa nele se encostasse em mim.

— Mal, não existe a menor possibilidade de te deixarmos varar a noite sozinha, é perigoso — ele começou. Eu podia responder que sabia me cuidar. Também tinha Lagrum, mesmo que não pudesse falar isso, mas permaneci em silêncio. — Temos um quarto sobrando, não estamos cheios, fique, tudo bem? Não precisamos falar sobre nada disso agora, apenas passe a noite e amanhã...

— Amanhã é outro dia — sua esposa interrompeu. Não era hora de me lembrar que tentariam me fazer mudar de ideia logo pela manhã. — Já é bastante tarde, deve estar cansada, eu te levo lá para cima. Vamos?

Apesar de ela estar sorrindo e com a mão estendida, não me movi. Deveria? Seria burrice recusar uma cama confortável e um teto por uma noite. Eu sairia pela janela antes que acordassem, antes que pudessem fazer qualquer coisa se fosse necessário. E com um plano de fuga disponível, arrastei os pés em sua direção enquanto enfiava as mãos nos bolsos – nada de pegar nelas, Daisy. Deixamos Tom lá embaixo e subimos as escadas, e fiquei ainda mais satisfeita de me colocarem em um andar baixo, seria fácil de pular.

— Fique à vontade — a mulher me deu mais um sorriso, mas não retribui. Chega de sorrisos. Isso fez seu rosto cair um pouco, mas ela continuou. — Nos chame, se precisar. Durma bem.

— Daisy? — Chamei enquanto colocava minha mochila aos pés da grande cama. A taberneira colocou o corpo para dentro do quarto outra vez, a mão na maçaneta, e sequer precisava olhar para ela para saber disso. — Obrigada. A você e ao Tom. Não tinham obrigação de fazer isso.

— Ora, que isso...

— E não me leve a mal — murmurei enquanto tirava minhas luvas. Não queria ver seu rosto, não vi. Mas suas emoções o desenharam para mim. O horror, o choque, a surpresa, a pena, a tristeza – sua boca aberta, os olhos grandes quase se afogando. Tive vontade de juntar todos eles e os chutar para longe, mas olhei para baixo, para minhas cicatrizes e as senti puxar e arder como novas. Fechei os olhos. — Não gosto que encostem em mim. Boa noite.

A porta se fechou com um atraso de três segundos – o tempo para a mulher recuperar os movimentos do corpo, mas não a fala. Ao menos não a coerente, pois juro que consegui escutar um soluço do outro lado da porta, e então uma corrida de pés pesados no piso de madeira. Ótimo, que conte ao Tom. Que coloque a porcaria de uma faixa, não me importo.

Se pensa em fugir antes que eles acordem é melhor dormir, filhote.

Lagrum havia saído da minha mochila, finalmente, e eu quase podia sentir o seu prazer em não estar mais compactado. O quarto do Caldeirão Furado era grande e bem mobiliado, mas não senti vontade nenhuma de vasculhar cada canto dele. Estava exausta. Mal conseguia distinguir os momentos do dia – o enterro de Joan havia sido hoje ainda? Me parecia uma vida atrás desde quando observei seu caixão ir para baixo da terra. Então Crystal, que poderia estar viva ou morta, e o medo de Eliza impregnado nas minhas narinas e a ansiedade dos donos do Caldeirão atrás das minhas pálpebras.

Fui incapaz de soltar minha varinha depois de tirar meus coturnos e mantive ela firme nos dedos quando me deitei, pericialmente trocada com uma calça velha e uma regata branca que já usava por baixo de mangas cumpridas finas. Uma parte de mim imaginou por um minuto qual seria a reação de Daisy se entrasse no quarto – além da cobra, ela veria muito mais do que minhas mãos. Talvez ela chorasse de novo, na minha frente dessa vez. De qualquer jeito, foi apenas por um momento mesmo, e isso era muito. Lagrum se enroscou ao meu lado, deixando sua grande cabeça ao lado da minha, e cantou sem letras até que eu só escutasse o eco de sua voz em algum lugar bem, bem fundo de mim.

No dia seguinte, duas coisas ficaram claras: eu não havia conseguido fugir antes de todos acordarem e ninguém havia entrado no quarto. Não ousei perguntar para Lagrum a razão de não ter me acordado, seria humilhante demais ouvir sua preocupação. De qualquer forma, ele havia me velado durante toda a noite e agora era sua vez de descansar: meu amigo foi para debaixo da cama junto com minha mochila sem dizer uma palavra. Se alguém entrasse no quarto, ele se esconderia nela.

Decidi então abusar um pouco mais da minha sorte e fui para o banho. Tinha algo de familiar com a água, quase acolhedor, o que era no mínimo estranho considerando que a maior concentração de água que já estive havia sido a banheira de Hogwarts. Lagrum havia dito que existia um lago dentro da floresta, como um irmão caçula do grande Lago Negro que banhava os terrenos do castelo, mas no meio da madrugada nunca me senti tentada a busca-lo.

A lembrança de meu amigo e da Floresta Proibida fez um pequeno estalo de consciência acontecer dentro da minha cabeça – não estava mais no mundo trouxa, até onde minha magia podia ir agora? A Floreiros e Borrões estava logo ali, a uma parede de tijolos de distância, onde eu poderia buscar compreender melhor o livro que transcrevi da Sessão Reservada no final do ano letivo. Haviam palavras e termos e referências a matérias inteiras que desconhecia, precisava decifrá-los se quisesse avançar no maldito feitiço. E queria. O lugar de Lagrum era ao meu lado, não ao relento, por mais que soubesse se cuidar.

Desci as escadas em direção ao salão da estalagem armada com minhas luvas, minha varinha e meu coturno. Mesmo estando em pleno verão, agradeci a meu estranho sistema biológico que raramente me fazia calor, graças a ele a velha e gasta calça jeans e camiseta cinco números superiores ao meu não eram um incomodo. O salão estava cheio e o cheiro de comida não era típica de café da manhã. Tom me viu primeiro, tinha acabado de sair da cozinha quando me enxergou parada nos pés da escada. Para dizer alguma coisa boa, passado o choque da noite anterior, seu sorriso foi verdadeiro.

— Bom dia, dorminhoca! — Ele me convidou a me aproximar do balcão com um gesto, e foi o que eu fiz. Se Daisy tinha ou não chorado em seu ombro e contato o que viu, já não sei. O homem não lançou nenhum olhar demorado em direção a minhas mãos e não me interessei em vasculhar sua cabeça. — Já é quase a hora do almoço, mas achamos melhor deixar você dormir, um pouco de sono a mais não faz mal a ninguém, não é?

— Suponho que não — consegui responder. — Escute, vocês foram muito gentis em me deixar passar a noite, mas eu sei que não posso...

— Olhe a hora! — Tom me interrompeu sem qualquer acidente. Queria que eu ficasse quieta, mas fez isso sorrindo. Na verdade, tinha um brilho no olhar e uma alegria que quase se infiltrava em mim. — Mal, poderia me fazer um favor? Eu preciso de umas coisinhas da farmácia, algumas ervas comestíveis, pode ir buscar para mim? É logo ali, no Beco, depois você almoça e conversamos, tudo bem?

Concordei sem oferecer resistência – não estava ansiosa para ter conversa nenhuma. Foi Daisy que trouxe da cozinha um pedaço de pergaminho com nomes estranhos rabiscados. A mulher sorriu para mim e me desejou um bom dia antes de voltar para suas panelas, era mais do que eu poderia esperar. Tom me levou até os fundos do Caldeirão e mostrou, de novo e devagar, a ordem certa de bater nos tijolos e então me entregou uma pequena bolsinha de couro antes de voltar para dentro e me deixar sozinha, esperando a parede se abrir.

O Beco Diagonal não tinha mudado nada. Talvez estivesse menos apinhado, mas não tanto. Se me senti confiante e segura no Caldeirão Furado – um oásis bruxo no meio da cidade trouxa –, a sensação dessa vez foi forte o bastante para eu soltar o ar dos meus pulmões. Um ar muito antigo e pesado, rançoso, que talvez eu estivesse prendendo desde a ultima vez que estive aqui, quase um ano atrás. Foi o bastante para deixar afundar em um lugar escuro todo o dia anterior: Joan, os trouxas confusos, os pensamentos errantes do casal taberneiro. Eu poderia lidar com tudo isso, poderia lidar com o mundo todo, desde que fosse o meu mundo.

O fato de estar no meio das férias tirava o fluxo estudantil do comércio, mas não mudava o fato do Beco ser o núcleo bruxo de Londres. Adultos com túnicas e crianças com chapéus pontudos passeavam pelas lojas. Grande parte delas, aliás, ia em direção a e me perguntei se sobraria algumas moedas da bolsa para comprar um doce mágico, o velho Tom não se importaria, certo?

Eu teria que ver se algo sobrava, em primeiro lugar, e comecei a caminhar Beco – sem muita pressa, admito. Ainda era fascinante observar todos aqueles bruxos cuidando de suas vidas: namorando vassouras novas e seus itens no Vassourax e Artigos de Qualidade para Quadribol, garimpavam livros na Floreios e Borrões, iam atrás de animais no Empório de Corujas e Animais Mágicos, ou atravessavam em direção contrária para almoçar no Caldeirão Furado, ou até mesmo em algum dos pequenos restaurantes no próprio lugar. Alguns deles olhavam para mim de volta com estranheza e imaginei que seriam minhas roupas: jeans e camiseta não era o que a moda bruxa ditava, mas isso me fez sorrir ao imaginar o que Daphne Greengrass e Pansy Parkinson diriam do meu guarda-roupa.

A Farmácia não era nem de longe a loja mais convidativa do Beco Diagonal, mas como seria? O lugar era cheio de ingredientes de poções e os materiais necessários: vidros de fígado de dragão e balanças empilhadas. Iria fazer questão de perguntar qual prato, exatamente, Tom estava querendo criar com algo vindo dali – manteria distância. Mas já na porta descobri que talvez eu devesse ter entrado na sua cabeça quando o vi, apenas um pouco, só o suficiente para saber que estava sendo enganada. O velho Tom não queria nada dali, mas não consegui sentir raiva de sua manipulação. Foi boa.

— Capitão Gancho?

Severo Snape virou o rosto para mim, bem devagar. Sim, era ele. Igualzinho minha memoria e a foto que eu tinha, agora guardada no meu malão. A mesma pele branca cansada, o grande nariz adunco e os olhos pretos de um vazio cruel. Sua boca se torceu em uma careta que pode ter sido um sorriso ou não, mas o meu foi. Terminei de entrar na loja rápido demais, mas parei de avançar quando cheguei perto o bastante para suas vestes longas e pretas encostarem em mim. Uma sobrancelha sua se levantou em direção a raiz do cabelo escorrido.

— Você cresceu — não foi uma pergunta. — E está atrasada.

— O seu nariz também e não sabia que tínhamos horário marcado — devolvi, mostrando os dentes para ele. Peguei o brilho em seus olhos antes que se apagasse e foi o bastante para me fazer saltitar em direção ao balcão. — O que é isto?

— Não gosto de comprar nada perto do retorno das aulas — sua voz seca esclareceu as coisas para mim antes que se virasse para o atendente outra vez. — Isso é tudo, obrigado.

— Não acredito que você sabe falar essa palavra — cutuquei depois que o homem saiu de vista para embrulhar o que quer que Snape tenha pedido. Ele, inclusive, olhou para mim com um sorrisinho meio cruel que eu sabia ser sua gargalhada.

— Para mim é uma surpresa que você a reconheça, garota atrevida.

— Eu sou muito educada, Severo, pode perguntar por aí.

— É uma excelente ideia — já estávamos do lado de fora quando olhei para ele outra vez, percebendo (não chegou a ser difícil) a mudança venenosa e incisiva em seu tom de voz. — Talvez devêssemos começar pela garota trouxa hospitalizada?

Sequer tentei negar. Estava ocupada demais decidindo como me sentia sobre o assunto. Hospitalizada, não morta. Davies estava viva, isso era bom ou ruim? Bom, a resposta certa vinha rápido. Eu não queria que a garota morresse, não é? Não queria ser eu com sangue dela nas mãos. Eu a detestava e com certeza saber que estava em uma cama de hospital me deixava de bom humor, mas e se fosse em uma cova? Eu sabia a resposta, a que não ousava sequer pensar. Era terrível demais, mas era a verdadeira. Vinha de um lugar bem fundo de mim, muito escuro – era de lá que vinha o que quer que fez os Lewis temerem um bebê, que derrotou Greta, que mudava a cor dos meus olhos. Meu monstro se alimentava disso, era desse lugar de onde tirava suas forças, fazia todo dia ser uma jogada de sorte: quem vai vencer hoje?

— Em uma escala de zero a dez — umedeci meus lábios depois de um tempo, meus olhos focados nos tuneis do meu professor. Snape esperou pacientemente minha resposta, estudou com cautela meu rosto. O que você vê, Capitão Gancho? Consegue ver o monstro dentro de mim recuar até a próxima oportunidade? Eu não quero. — O quanto estou com problemas?

— Como sempre, Malorie, menos do que deveria.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ Malfeito, feito! Nox ♥