Corona

15 Águas Turvas


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Bem vindos ao 15º capitulo de "Corona - Livro 1" ♥ Eu tô muito feliz porque isso quer dizer que já estamos mais ou menos na metade, já que o livro vai ter por volta dos trinta capitulos ♥ Espero, de verdade, que essa jornada esteja sendo tão incrivel para vocês como vem sido para mim e que me acompanhem pelos próximos também ♥ E, também, eu prometo responder todos os comentários antes que o livro termine KKKKKKKK' Comentários do cap 14 estão para ser respondidos essa semana ♥ Obrigado Luiza Avelino, Syh All Black, Ero Hime (May ♥), Lua Helena, Ella Branco (Bella ♥) e Kyle o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Não estava nos planos de Lagrum me deixar ficar pensando muito sobre pacotes misteriosos e traidores no castelo, então mesmo que uma boa parte da minha mente ainda estivesse girando em torno do que isso significava e ainda ansiosa pela situação de Hermione, fui obrigada (sem muito esforço), a acompanha-lo pela floresta. Talvez não fosse seguro, para a maioria das crianças de onze anos, andar por uma floresta cheia de criaturas mágicas potencialmente perigosas, mas eu não era como a maioria. Eu tinha minha varinha e eu tinha Lagrum, nada era uma ameaça.

Andei com eficiência pela floresta, meus pés descalços se embrenhando em terra e folhas, deixando que eles aprendessem o caminho, decorassem o ambiente. Cobras eram cegas, mas haviam outras formas de se enxergar. A textura da terra, o cheiro da grama, o quebrar de uma folha: tudo isso ajudava a se localizar, a saber para onde você estava indo e de onde havia saído.

Fique por perto, acho que estamos chegando...

Queria perguntar onde, exatamente, estávamos chegando, mas algo nos encontrou primeiro. Lagrum parou de deslizar e se enrolou, mas não estava em nenhuma posição de defesa, o que me permitiu manter os ombros relaxados e a cabeça erguida enquanto procurava entender, naquela escuridão, o que havia aparecido na minha frente.

Tinha pelo menos três vezes meu tamanho e não era humano, ao menos não completamente. Da parte de cima, era um homem – o torso nu se projetava, mais alto do que Hagrid, até. A cabeça coroada de cabelo e barba vermelhos. A parte de baixo, fazendo uma ligação com a cintura do homem, já era um cavalo – o corpo de um garanhão castanho forte, luzido, com uma calda longa e avermelhada. Carrega um arco e uma alijava nas costas e seus olhos, de um castanho avermelhado, se concentraram em nós ao mesmo tempo que pareciam mais interessados em algo muito, muito distante.

— Pequenina — a criatura falou. — Está muito longe da escola, não acha?

Seu nome é Ronan. Ele é um centauro, como pode ver. Era ele que queria que visse, é o único agradável com seres humanos.

— Eu disse para não se meter em confusão, Lagrum — sibilei para ele, voltando minha atenção ao centauro. — Ignorando as normas da escola, não existe nenhuma lei que me proíba de estar aqui, não é?

— Desde que consiga se defender, não há — havia um fantasma de um sorriso nos lábios dele. — Você fala a Língua das Cobras, menina, e há tempos não se vê algo assim. Esse seu amigo tem causado certo alvoroço por aqui, por mais que tenha sido cuidadoso.

— Lagrum não pode estar causando tanto mal — respondi. — Ou já teria acontecido alguma coisa. É por suas caçadas?

— A floresta dá e recebe o suficiente para alimentar mais uma criatura, não, não é por isso — suspirou, então, olhando para cima como se conseguisse enxergar alguma coisa apesar do bloqueio de folhas. — A constelação de Serpentário, brilhando tão forte... — se interrompeu. — Sabe algo sobre os astros, criança?

— Malorie — corrigi, cansada de ser chamada por adjetivos. — Mal, na verdade. E estudamos isso em Hogwarts. O sistema solar e seus planetas, a características deles, os tipos de galáxias...

— E aprendem também, Mal, o que cada planeta significa e cada aspecto que pode apresentar, suas interferências em nossas vidas?

— Não — entreguei, encolhendo os ombros. — Ao menos, ainda não. Mas os trouxas, de onde eu vim, conhecem isso, já ouvi falar. Chamam de astrologia. É interessante, mas não sei muito.

— Não sabe muito... — Ronan repetiu, voltando a olhar para mim. — Meus iguais estavam um pouco agitados com a chegada de sua criatura, mas creio que o conhecimento de sua presença os acalmará. Pretende deixar a floresta?

— Não — respondi com honestidade. Ao contrário de Hagrid, o centauro não tinha qualquer obrigação moral de me levar de volta à "segurança" do castelo. — Vou ficar com Lagrum por um tempo.

— Nesse caso... — havia o mais discreto dos sorrisos nos lábios dele. — Se conseguir manter o silêncio, você me parece uma garota inteligente demais para não saber "muito" sobre o céu.

Ficamos um bocado de tempo com Ronan. O centauro nos levou até uma clareira no interior da floresta, uma espécie de buraco aberto no meio de tanta vegetação, e se prostrou ali, olhando o céu. Às vezes, raramente, comentava sobre um planeta ou outro: Marte, brilhando mais a cada noite. Saturno, apagado. Era difícil conseguir enxergar, admito, mas era tranquilizante tentar.

Quando nos separamos, me surpreendi com o aperto de mão que ele me deu e achei sentado inclinar a cabeça, em algo mais respeitoso. Minhas suspeitas foram confirmadas enquanto caminhávamos, na verdade Lagrum rastejava, de volta para a arvore onde ele havia se instalado.

Centauros são extremamente orgulhos quanto a seres humanos. Não costumam se misturar ou os tratar como iguais. Ronan, percebi, é o mais cordial de sua colônia. Conversava bastante com o homem barbudo, Hagrid, não muita coisa além de observações sobre o céu noturno.

— Por qual razão não me disse que estava causando alvoroço por aqui? — Questionei e recebi um sibilo exasperado.

Pois não era grande coisa. Não é. Apenas quis poupar qualquer desentendimento futuro. Os centauros não falam minha língua, o que tornou explicar que eu não era nenhum selvagem que os comeria um tanto difícil.

— Você precisava de uma tradutora, seu interesseiro — conclui com uma careta, pisando em cima de sua cauda de propósito. No mesmo momento, Lagrum curvou o enorme corpo para trás e me derrubou no chão pelas costas.

Você entendeu tudo tão rápido, eu juro, juro mesmo que vou chorar de orgulho.

Chutei sua cara. Simples assim, girei o corpo na terra e chutei sua cara. A luta que se seguiu foi rápida e brutal, terminando com minha imperdoável derrota. Nunca havia acontecido, e provavelmente não ia acontecer, de eu conseguir superar a força física de uma cobra de quase cem quilos. Mesmo assim, minha dignidade me mandava tentar e dar quantos chutes, cotovelas e mordidas pudesse conseguir. Nunca me arrependia porque eu sempre saia mais machucada que ele, e mais suja, também.

Logo, imaginem minha situação quando me esgueirei, mais suja e enlameada do que da ultima vez, pelos corredores que levavam à masmorra quando já quase amanhecia. Eu havia perdido o resto da comemoração do dia das bruxas e não havia sobrado qualquer prato de comida para mim, mas como logo seria a hora do café não me senti particularmente ofendida. Eu considerei que tudo tinha ido bem, no final das contas. Hermione estava bem. Dumbledore não tinha me punido. Severo continuaria sendo meu professor de legilimência (tudo bem, essa parte estava em pauta sobre minhas emoções). Lagrum estava bem e eu até conheci um centauro.

Mas Daphne Greengrass não iria deixar eu me safar com tanta facilidade.

Não posso dizer que fiquei surpresa de a encontrar acordada, me esperado sentada na minha própria cama. Mas, com certeza, fiquei cansada. Aguentar Daphne e seus sermões era a última coisa que eu queria antes de começar a sexta feira sem uma hora sequer de sono, mas mantive minha boca fechada enquanto seus olhos me avaliavam da cabeça aos pés.

— Acordei agora, praticamente, e fiquei me perguntando quando você iria aparecer. Sabe, talvez você sumisse e aparecesse apenas no Natal.

— Não seja cínica, Daphy — respondi em um sorriso torto, ignorando seu tom de voz azedo. — Por que motivo eu voltaria justo no Natal? Não existe muita coisa que uma órfã se comemora em uma data feita para festejar a família.

— Está enganada — ela devolveu, seu sussurro indo para um chiado antes de respirar fundo, evitando acordar nossas colegas. — Está enganada sobre isso. Não ouviu nada que os monitores disseram? Somos uma família agora, Malorie. Eu, você, Pansy, Sue e Emily. Mesmo Blás e Malfoy. Estamos juntos nessa.

— Não me coloque na mesma família que vossa alteza — devolvi, meu sorriso sumindo. — E é claro que eu ouvi. Mas vai precisar de um pouco mais do que palavras bonitas para eu aumentar meu núcleo familiar. Pode ser fácil para vocês, mas para mim... vem sendo apenas eu a muito tempo e está bom assim.

Isso fez ela ficar quieta, por um tempo, e não precisei invadir sua mente para saber exatamente o que ela estava pensando, o que estava supondo. Era tão fácil no orfanato. Todas tinham cicatrizes, das mais velhas as mais novas, e não havia surpresa ou explicações. Em Hogwarts, era diferente. Eu sabia que quase toda a escola já tinha olhado para minhas mãos, a única parte de mim que ficava realmente dando na vista, e imaginava o que aconteceria se vissem mais. Se, e apenas se, descobrissem que algumas linhas das mãos subiam pelos meus braços, ou desciam pelas minhas pernas, devorando a pele que supostamente devia ser intocada, até chegar em minhas costas – ou o que restou delas.

O pensamento fez um sorriso feio aparecer em meus lábios, e eu sabia que ele era assim porque não chegou nos meus olhos e me fez sentir estranha, selvagem, como quando caço com Lagrum. Ele já teria arrancado um pedaço de Daphne há tempos pela simples inconveniência de sua tola preocupação. Era patético, afinal. Sempre cuidei de mim mesma, e quando não conseguia, Lagrum assumiu a responsabilidade. Tinha minha magia, tinha meu amigo e tinha meus instintos – era tudo que eu precisava para estar em segurança, não importa onde.

— Imagino que não vá me dizer o que foi fazer na Floresta Proibida outra vez, não é mesmo? — Havia um tom amargurado nela, quase uma criança que não recebe o que quer. Meu sorriso se alargou, talvez um pouquinho mais suave. Ah, esses riquinhos...

— Isso, Daphy, é assunto meu e de mais ninguém.

— Pois bem — seus lábios mal se abriram para soltar a frase de derrota, enquanto jogava as pernas para fora de minha cama e saia de lá. Parou do meu lado, antes de ir continuar caminho, e a ponta de seus dedos tocaram os meus por um segundo apenas. — Isso não acabou, Lewis.

Não respondi. Observei ela e seu perfume de menina rica, doce e caro, irem para longe de mim e se acomodarem em sua própria cama, pronta para fingir que dormia a ultima hora de sono. Eu, sabendo que se dormisse iria faltar às aulas, fui em direção ao banheiro e, pela primeira vez liguei a banheira. Meu uniforme sujo de terra foi parar na cesta de roupa suja e eu esperava que ele se limpasse a tempo das aulas.

A água estava quente para combater o frio do auge do outono. Agora seria raro um dia que fizesse mais que quinze graus e uma noite com mais de dez. Me enrolei, molhando cabelo e tudo, e imaginei como Lagrum iria gostar dessa banheira. Era grande o bastante para caber nós dois, com certeza. Não sabia se existiam rios ou lagos dentro da Floresta Proibida e apesar de uma cobra não precisar se banhar ou beber água com frequência, me perguntei se ele estava passando alguma necessidade.

Só me dignei a terminar o banho quando ouvi o movimento do lado de fora do banheiro que dizia que todas as outras já estavam de pé. Talvez fosse magia, mas a água não tinha esfriado em nada e meus dedos estavam enrugados enquanto eu me secava. Meu uniforme, percebi, estava limpo e dobrado, sendo devolvido em silencio enquanto eu não prestava atenção. Me vesti com rapidez e sai do banheiro dando de cara com uma garota irritada.

— Onde você estava, Lewis?! — Pansy avançou na minha direção, só meio vestida, com um pente na mão enquanto domava seu cabelo curto. — Ao menos avise quando for desaparecer assim para eu preparar minha paciência! Greengrass ficou um porre quando não voltou!

— Ah, é? — Cutuquei a loira que estava sentada na cama, as pernas cruzadas, terminando de fazer uma trança em seu cabelo. — Adiantaria dizer que sinto muito?

— Não, pois não sente — Daphne jogou o cabelo para trás, a trança pronta indo para as costas e os olhos afiados em mim. — E eu já disse, ela estava suja de terra quando voltou, estava na Floresta.

— O que tanto vê naquele lugar, Mal?— Sue perguntou com as sobrancelhas franzidas ao ajeitar a gravata. — É tão... sinistro.

— Sinistro é meu nome do meio — pisquei. — Agora, as madames ainda vão demorar muito? Estou faminta!

— Nem todo mundo passou a noite em claro, sabe — Emily devolveu para mim, terminando de fechar seus sapatos. — Nós, meros mortais, estamos acordando ainda.

— Azar o de vocês — sorri para elas, indo para a saída do dormitório. — Vejo-as na mesa.

Ninguém tentou me impedir (apesar de sentir os olhos de Greengrass em mim e os de Pansy em nós). Não duvidaria que ela interrogasse Daphne atrás de alguma informação sobre nosso aparente desentendimento, mas não me importei. Eu não tinha nada a acrescentar ou opinar sobre isso, então que ela falasse o que quiser. No momento, havia assuntos de maior urgência para mim. Subi as escadas pulando os degraus, meus coturnos velhos me segurando bem na pedra, mas eu estava um pouco cansada pela noite, pois só por isso trombei com Malfoy.

Ele estava quase que plantado na entrada do dormitório das meninas e por pouco não caiu quando bati nele. Estava pronto para a aula, de uniforme e tudo, mas o cabelo se desarrumou daquele penteado para trás ridículo que insistia de usar. Se segurou em mim e eu nele, ambos travando as pernas para evitar ir ao chão. Quando o susto passou, nos largamos e eu olhei para ele, uma sobrancelha arqueada.

— O que, em nome da barba de Salazar, você estava fazendo na porta do dormitório feminino, Malfoy?

— Nada que você está pensando, Lewis — ele devolveu para mim, sua boca se torcendo. — Não sei se você sabe, mas há um encantamento...

— Que arremessa qualquer menino que tentar entrar, eu sei.

Ficamos em silêncio e, pela primeira vez, foi um pouco constrangedor. Me lembrei de nossa pequena conversa antes de Severo me levar e de como ele até mesmo pareceu com um ser humano, e pelo visto ele também. Ficou parado, me olhando, como se tivesse se arrependido amargamente de alguma coisa. Eu podia descobrir, mas decidi lhe dar uma chance.

— Então? Estava esperando alguém?

A pergunta fez ele piscar os olhos e a boca abrir. Achei que iria ir embora pelo jeito que uma perna foi para trás, mas Draco se manteve firme e cruzou os braços.

— Achei que tivesse sido expulsa — explicou, o queixo indo para cima em algo que já reconhecia como autodefesa. Parecer maior e melhor do que o que te assusta, mas, nesse caso, seria eu? Já tínhamos passado desse ponto. — Daphne ficou de muito mal humor.

— Já tenho pleno conhecimento da forma como interfiro no humor dela, obrigada — devolvi cansada das pessoas me responsabilizarem por isso. Greengrass que cuidasse da própria vida. — E, para sua informação, não vai ser dessa vez que vai se livrar de mim.

— Que bom — havia um sorriso estranho ali. Arrogante, mas nem tanto. Tinha até mesmo algo de verdadeiro, e eu sabia como era pois já tinha visto dentro dele, dado para a mãe. — Se alguém vai te mandar para fora de Hogwarts, Lewis, esse alguém vai ser eu.

— Tão convencido de seu próprio poder, o pequeno lorde — debochei em um sorriso que imitava o dele. — Se me der licença, eu estou com fome. E você deveria sair da porta do dormitório feminino. Pode parecer estranho.

— Já se esqueceu, Mal? — uma sobrancelha clara se arqueou mesma medida que os olhos ganhavam um brilho bonito. — Pequenos lordes ficam onde quiserem.

Isso me fez rir enquanto o deixava para trás e só quando já estava entrando no Grande Salão minha ficha caiu: eu ri para algo que saiu da boca de Draco Malfoy. Tivemos uma conversa, eu e ele. Mais do que civilizada, ela foi verdadeiramente agradável. Quem nos visse, acharia que éramos amigos. A simples ideia me fez sentir doente, quase nauseada. O garoto que era tão arrogante e tão imbecil não podia ser nada além do que um incomodo. Ele foi um imbecil com Harry. Com Weasley também, mas no momento eu não me importava. Malfoy havia sido um babaca comigo e isso não era algo a se esquecer com facilidade.

— Mal! Mal, aqui! — Era a voz de Granger, aquele tom alto e mandão que me fazia querer lhe dar um peteleco. Ela estava sentada à mesa da Grifinória, inteira e exalando saúde, junto a Potter e Weasley como nunca vi. Os três nunca haviam sido amigos, sequer colegas. Pareciam quase se detestar ao longo de tão pouco tempo de aula, mas lá estavam: Hermione sorrindo e acenando, Ronald enchendo a boca de pão e Potter me olhando. Estava sorrindo, esse último, mas talvez já conhecesse a mente dele bem demais para saber que não havia esquecido como fora alertado sobre Mione.

— Dia — cumprimentei com um pequeno sorriso ao me sentar com eles, uma sobrancelha arqueada. — Considerando a cena inédita de vocês juntos, novidades?

A história era quase demais para se acreditar. Harry começou a contar, dizendo que havia se lembrado de Hermione (olhou para mim quando disse isso e seu tom mudou, mas ninguém mais percebeu e ele não entrou em detalhes sobre o como) e havia arrastado Weasley em direção ao banheiro das meninas. Lá, viram o trasgo entrando no banheiro e o trancaram... até os imbecis se lembrarem que Hermione estava lá dentro.

Enfrentar um trasgo montanhês adulto não é tarefa para qualquer um, muito menos três crianças em seu primeiro ano em Hogwarts, mas conseguiram – com muita sorte e uma boa memória do wingardium leviosa. Então mentiram, Mione principalmente, na cara de Quirrell, Filch e McGonagall, sobre como ela havia ido procurar o trasgo sozinha e foi salva pelos dois. No final, Grifinória ainda ganhou cinco pontos pelo feito (Ronald expressou sua indignação sobre isso de forma ruidosa) e nenhuma punição.

— Na próxima não vou deixar que me levem para a masmorra, perdi toda a diversão! — Soltei uma risada enquanto comia os ovos que me servi ao ouvir a história. — Porém, apesar de ver como vocês enfrentaram de forma tão tipicamente Grifinória o trasgo e terem criado um laço de irmandade nascido das dificuldades e provações que superaram juntos e tudo mais, ainda falta uma coisa.

— O que? — Weasley perguntou para mim, as sobrancelhas arqueadas e a boca cheia de salsichas, agora. Sorri para ele, piscando meus olhos, antes de agarrar a gola de suas vestes e as puxar para baixo, fazendo sua testa ir em cheio em seu prato de comida. O barulho foi alto, as risadas também e vi Minerva se levantar da mesa dos professores no mesmo instante, mas não me importei nada.

— Se fizer Mione chorar outra vez, Ronald, tenha certeza que vai ser bem menos engraçado e muito mais dolorido do que meter a cara na comida — declarei enquanto ele se ajeitava, as orelhas rubras de raiva, uma mancha vermelha na testa e ketchup no queixo. Olhou para Potter e Granger, que se seguravam com tudo para não rir, e fechou a cara para eles.

— Nem vem, Rony — Hermione cortou qualquer sermão da parte dele. — Você mereceu. Foi muito maldoso comigo.

— Foi mesmo — Harry concordou, os olhos verdes brilhando. — Salvamos a Mione, mas ela não precisaria ser salva se não fosse a gente.

— A gente coisa alguma, Potter— interferi. — A culpa foi do Weasley e de seu orgulho ferido, apenas.

— E como é que você sabe?! — Ronald tinha se ajeitado outra vez e, apesar de ainda parecer irritado, não passou a me ignorar ou me bater. — Você não estava lá!

Olhei para Potter quando ele disse isso e sabia que estava pensando o mesmo que eu. Não, eu não estava lá. Mas sim, eu sabia como se estivesse. O sorriso que ele deu para mim era secreto e cúmplice, da mesma forma que seus olhos brilharam: verde esmeralda da cor da Sonserina. Quando piscou para mim, pisquei para ele também.

— Isso, Weasley, não é da sua conta.

Isso fez com que ele fechasse a cara no momento que McGonagall chegou até nós. Muito inteligente da parte dele, Weasley se manteve de boca fechada enquanto Mione e Potter diziam que não havia acontecido nada, mas fui mandada para minha mesa, de qualquer forma. Mas não fui embora antes de olhar para Harry, surpresa demais por ele ter me puxado para sua mente.

Vai me explicar?

Pisquei algumas vezes, a borca apertada, mas assenti com a cabeça antes de deixar os três para trás, ainda sentindo os olhos verdes de Minerva em cima de mim, provavelmente se perguntando se devia tirar pontos da Sonserina ou não. Sequer tive de ler sua mente: aqueles olhos estreitos e a boca crispada já diziam tudo. Mas era um fato de que não poderia fazer nada se não houvesse o que fazer, e com a consciência tranquila me sentei ao lado de Pam na mesa.

— Problemas com os heróis? — Sua boca se encheu de um veneno conhecido que eu dispensei com um aceno de mão, pegando algumas torradas e passando geleia.

— Está familiarizada com o karma, Parkinson? — Tinha plena consciência de ter a atenção não apenas dela, mas de Sue e de Daphne, até mesmo de Zabini, sempre sentado no meio do caminho entre Malfoy e eu. — É uma crença trouxa que se baseia em "tudo que vai, volta". Se você faz algo bom, recebe coisas boas. Se faz algo mal, recebe coisas ruins. Tudo aquilo não foi nada além de um acerto de contas do karma.

— E qual foi a coisa ruim que o Cenoura fez? — Essa voz estava se fazendo mais presente do que o normal hoje, se dirigindo a minha pessoa. Arrastei meus olhos pela mesa, passando por Theodoro e caindo ao lado de Goyle. Draco tinha a cabeça apoiada na mão e uma sobrancelha arqueada, o rosto por si só um deboche eterno. Estreitei os olhos para ele, um pequeno sorriso brotando em meus lábios.

— Me irritou, Malfoy — ronronei. — E eu, você mesmo já deve saber disso, não sou alguém a se irritar.

A provocação o atingiu em cheio, percebi. Se mostrou nos olhos escurecidos e nos dentes para fora em algo que não era um sorriso. A tensão acumulada fez Blásio rir e dizer algo sobre nervos de cobra, mas não prestei atenção. O dia já estava sendo estranho o bastante, fora do normal o bastante. Eu esperava que Malfoy fosse saltar a qualquer momento e se transformar outra vez no pavão nojento que geralmente era, mas ele parecia determinado a fazer de conta de que era um ser humano decente.

Isso me fez ir com a cabeça cheia para a aula de poções. Cansada pela noite e por tentar entender cada passo estranho dos outros à minha volta (Draco e sua boa disposição, Greengrass e seu cerco sobre mim), prestei apenas metade da atenção à poção de sono que eu e Malfoy estávamos preparando. Felizmente, ele escolheu os velhos tempos e se manteve calado, ignorando minha existência de forma excepcional assim como eu fiz com a dele.

Quando a aula terminou, e eu me iludia com a possibilidade de faltar a próxima (Herbologia) e ir dormir mais cedo, talvez até com Lagrum na floresta, claro que pude contar com Snape para estragar minhas poucas fantasias. Ele me chamou com seu tom de voz seco e tive que observar todos saírem enquanto me arrastava em direção a sua mesa.

— Parece indisposta, Lewis, devo invadir essa sua cabecinha para saber o motivo? — o escarnio em sua pergunta acendeu um pouco da minha presença de espirito, então arqueei uma sobrancelha para ele.

— Só se me deixar saber o motivo de andar de luto por aí.

Touché. O pouco brilho que tinha em seus olhos se apagou junto com a torção que ele chamava de sorriso. Com rispidez, me passou um pedaço de pergaminho como se fosse algo tóxico.

— Nossos novos horários. Agora saia.

Ainda olhei para ele uma última vez, bem nos seus olhos, encontrando apenas o negro – tanto o de suas íris quanto o de seus muros – e posso jurar diante do que quiser que vi um pouco de dor ali. Apenas a ponta do iceberg e o bastante para fazer minha alma afundar. Durou um segundo, talvez menos, e então eu dei as costas. Severo Snape tinha os mesmos olhos de Greta, menos quando sangravam.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 14 ♥ Malfeito, feito! ♥