Corona
16 Asas para os Leões
Notas iniciais
Apesar de Potter querer uma explicação o mais rápido possível, nem eu e nem ele estávamos em condições de parar e conversar, não sozinhos, pelo menos. Com as tarefas aumentando de tamanho a cada dia e os treinos de Quadribol de Harry três vezes por semana, eu o via apenas nas refeições e na aula de poções, agora sempre acompanhado de Hermione e Ronald. Os três haviam ficado completamente inseparáveis depois do incidente do trasgo, levando até mesmo a boa Granger a ficar muito mais tranquila em relação a quebrar as regras.
O avanço de novembro trouxe de vez a friagem para o castelo e para os terrenos, também. Agora todos usavam cachecóis felpudos personalizados com as cores de suas casas enquanto tentavam não escorregar no chão coberto de geada. Mas, apesar dos empecilhos, a vista era bonita: a floresta ganhou um manto cinza-gelo e o lago era como um grande poço congelado.
Porém, para quem acha que uma escola entraria em desanimo coletivo pela baixa temperatura e as dificuldades que ela traz, está muito enganado. Junto com o frio, se iniciou a temporada de Quadribol. De alguma forma (e não ousem pensar em mim) a noticia de que Potter era o novo apanhador se espalhou, mas mesmo assim quase ninguém viu ele jogar. Olívio Wood, o capitão do time da Grifinória e aluno do quinto ano, era um pouco paranoico e fez segredo até para o próprio time.
O primeiro jogo iria ser no sábado e, como não podia ser diferente para dar uma esquentada nos ânimos, a partida seria Sonserina contra Grifinória com o adendo de um pequeno detalhe: se os leões ganhassem, iriam para o segundo lugar no campeonato das casas. Harry estava se esquivando como podia de toda a atenção que a noticia lhe deu, gente lhe apoiando e gente tirando sarro, mas era sempre gentil demais e os abutres sempre voltavam.
Weasley, aparentemente, havia me perdoado por tê-lo feito comer pelo nariz, pois não parava de tagarelar comigo sobre Quadribol. Enquanto Potter mergulhava dentro do livro que Hermione o havia dado (Quadribol Através dos Séculos) e a própria Granger corria os olhos e a pena sobre os deveres dos dois (ela sempre os corrigia por pena, eu preferia ver o rosto desesperado de Ronald), eu escutava sobre como voar atrás de bolas era a melhor coisa do mundo.
Na sexta-feira à tarde, véspera da primeira partida, foi um desses dias. Fomos os quatro em direção a quadra congelada, bastante aquecidos por um fogo azul vivo que Mione havia conjurado em um potinho de geleia. Enquanto nos esquentávamos, de costas para o fogo, fui a primeira a perceber Snape vir até nós. Estava atravessando o pátio e sequer iria reparar em nós... se os três patetas não tivessem se tencionado todos. Isso fez o diretor da minha casa vir mancando até nós, e não fui a única a perceber.
— Que é que você tem aí, Potter?
Era apenas Quadribol Através dos Séculos, como não podia ser diferente, mas Severo parecia mais que decidido em descontar seu desamor pela vida em Potter, como sempre. Confiscou o livro e tirou cinco pontos da Grifinória antes de ir embora, os olhos negros gelados em mim com algo parecido como desprazer. Sustentei o olhar dele com uma sobrancelha arqueada, o desafiando a tentar me tirar dali. Felizmente, ele foi embora.
— Ele acabou de inventar essa regra — Harry murmurou com raiva, os olhos verdes focados no professor. — Que será que houve com a perna dele?
— Não sei — respondi, torcendo a boca. — Mas aconteceu no dia das bruxas. Ele estava mancando quando foi nos avisar que iriamos comemorar na sala comunal.
— De qualquer forma — Ronald disparou cheio de azedume na voz. — Espero que esteja realmente doendo.
E devia estar. O ferimento que eu havia visto era feio, por pouco, seja o que for, não havia lhe arrancado a perna. Conhecia apenas uma criatura dentro do castelo que fosse capaz de algo assim, algo que estava protegendo um objeto importante e poderoso... me lembrei de Lagrum e do que ele viu, do homem guiando o trasgo pela floresta até o castelo. Pelo visto, algo parecido havia passado pela mente de Potter, pois perdeu quase todo o fôlego enquanto seu cérebro trabalhava.
— Sabe o que isso significa? Se ele se machucou naquela época, então Snape tentou passar pelo cachorro de três cabeças no Dia das Bruxas! Quando estávamos indo para o banheiro das meninas, vimos ele indo para o terceiro andar. Ele quer a coisa que o cachorro está guardando! E aposto minha vassoura como ele deixou aquele trasgo entrar, para distrair a atenção de todos!
— Eu acho que está indo com pressa demais, Cicatriz — retruquei sem dó ao estourar sua bolha de "esclarecimento". — Não acho que esteja todo errado. Alguém deixou o trasgo entrar e o único motivo que posso imaginar também é uma distração para roubar o que o Cérbero está guardando. Mas não acho que seja Snape.
— E porquê? — Foi Weasley quem amarrou a cara. –- Só porque ele é o diretor da sua casa?
— Não seja patético, Ronald — devolvi com os olhos estreitos. — Só não temos prova alguma e Harry e Severo já se detestam no mesmo nível, a essa altura. De onde eu venho, marginalizar alguém apenas por não se entender com ele se chama implicância.
— E ele não faria isso! — Hermione, sempre sensata, me apoiou, mesmo que seus olhos estivessem arregalados. — Sei que ele não é muito simpático, mas não tentaria roubar uma coisa que Dumbledore estivesse guardando a sete chaves.
— Sinceramente, Hermione, você pensa que todos os professores são santos ou coisa parecida — Rony devolveu com rispidez. — Eu concordo com Harry, acho que Snape faria qualquer coisa. Mas o que é que ele está procurando? O que é que o cachorro está guardando?
Eram perguntas válidas que ninguém tinha as respostas, ao menos, não diretamente. Os garotos continuaram a insistir na ideia de que Snape era o grande vilão, então Mione e eu os deixamos colocarem o homem em um altar da maldade em paz. Mais tarde, quando tive minha aula particular, Snape se manteve de boca fechada e quieto, se comunicando apenas através de sua mente escura, arranhando a minha e me desafiando a fazer o mesmo.
Agora minhas aulas com ele excluíam o fim de semana (uma folga merecida para ambos), mas continuavam com seus horários tardios após o jantar. O que, para mim, era excelente, pois me dava uma desculpa para vez ou outra, não ir direto para a cama e escapar para a floresta. Porém, a noite antes do primeiro jogo não foi uma dessas vezes e, quando Pansy Parkinson me acordou puxando todas minhas cobertas na manhã gelada e clara de sábado, soube que havia escolhido bem.
— Me dê um bom motivo para não te enforcar com toda essa seda, Parkinson — rosnei me sentando em um pulo, o dormitório frio pela lareira apagada. Estava acesa durante a noite, mas pelo visto já havia deixado o fogo morrer já que iriamos deixar o lugar. Pansy deu um sorriso característico dela, pequeno e cruel, enquanto jogava as cobertas de volta para mim.
— Se eu não posso dormir, ninguém pode — respondeu. — E ninguém mais aguentava ouvir você falar enquanto dorme.
— Eu não falo enquanto durmo — retruquei de mal humor ao jogar minhas pernas para fora da cama e me espreguiçar. Não falava mesmo. Lagrum já teria me dito se... ah. — Falo?
— É mais um resmungo, Mal — Daphne se intrometeu. Ela já havia me perdoado por ter uma personalidade horrível e agora sorria para mim. Seu sorriso era pequeno, como de Pam, mas era menos cruel e mais travesso. Ao menos agora. — Uns sons estranhos, parece que está sibilando, mas não é nada demais.
— Diga por você, é medonho — Hopkins acusou. — Uma noite, juro que pensei que tinha uma cobra na minha cama.
— Se olhe no espelho e verá que é verdade, Sue — debochei enquanto ia para o banheiro e fechava a porta. Lagrum nunca havia dito que eu falava enquanto dormia... porque, para seu cérebro de cobra, não era importante que eu soubesse que continuava falando em sua língua longe dele. Eu tentaria discutir com ele se não fosse tão cedo e eu não soubesse que ele estaria ferrado em sono de cobra, então apenas tomei um banho quente para acordar os ossos.
Hoje era sábado, o que tornava o uso de uniforme dispensado. Mesmo assim, o jogo de Quadribol fazia todos usarem qualquer peça prata e verde que tinham com o bração de Sonserina nele. Eu mesma vesti praticamente o uniforme completo, deixando de lado a capa e as meias longas. Mesmo assim, era claro que eu estava agasalhada, mesmo que não tanto quanto os outros, cheios de luvas e peles caras que trouxeram de casa. Tinha apenas um cachecol verde e prata e um casaco grande e velho do orfanato, o que me fez agradecer por não sentir tanto frio quanto os outros, seja lá o motivo.
— Mas o que é isso, uma emboscada? — Sue perguntou quando foi a primeira a pisar na sala comunal e não demorou quase nada para eu descobrir a razão. Sentados perto da porta, claramente em espera, estavam os meninos. Meu olhar cruzou com Malfoy, todo vestido com luvas de couro de dragão e um gorro em seus cabelos platinados, e ele arqueou uma sobrancelha para mim, mas minha atenção foi desviada antes que pudesse fazer qualquer comentário.
— Preferimos encarar como um cortejo elegante — Zabini respondeu com um sorriso largo. — Pensamos em ir todos juntos para o café e depois para o jogo.
— E então faremos trancinhas uns nos outros e daremos as mãos? — Pansy arqueou uma sobrancelha, mas Emily estreitou os olhos para ela.
— Não seja rude, Pam, os meninos estão sendo gentis.
— A troco de que, eu me pergunto — foi Greengrass que murmurou, os olhos estreitos e uma sobrancelha arqueada, mas nem isso tirou o sorriso de Blás.
— Da ilustre companhia de lindas garotas como todas vocês — e estendeu a mão para ela, esperto, pois era a mais arredia. — Vamos?
Não imaginava o objetivo final, mas deu certo. Blásio conseguiu pegar Daphne pelo braço, enquanto Nott ficava ao lado de Pansy, Crabbe com Sue e Emily com Goyle (nenhuma das duas me pareceu exatamente feliz). No fim, observei Malfoy arrastar os pés na minha direção, as mãos nos bolsos da capa.
— Isso é tudo ideia dele — despejou. — Achou que seria uma ótima ideia "confraternizar com as meninas do nosso ano".
— Que horrível, Draco — devolvi enquanto seguia todos até o Grande Salão com o pequeno lorde ao meu lado. — Nem posso imaginar a enorme tortura que esteja sendo para você, de fato, ficar na companhia de seres de maior inteligência. Não que seja difícil.
— Essa foi gratuita, Lewis — sua voz estava entediada. — Acordou de mal humor?
— Fui acordada.
— Tenho pena da pobre alma que fez isso — havia uma sugestão de graça em seus olhos prateados, apenas o bastante para fazer o canto da minha boca torcer. Assim que chegamos ao Grande Salão, o cheiro de comida me fez desviar a atenção do garoto antes que eu procurasse Potter na mesa da Grifinória. Estava lá, com Ronald devorando o café e Hermione com uma cara preocupada. Sequer tive que ler sua mente para entender o motivo: Harry estava branco e verde ao mesmo tempo e olhava para o cereal como se fosse ataca-lo.
Eles me viram, também, e sorriram para mim em comprimento, sabendo que não iria me sentar lá hoje. Tive a impressão de que Malfoy fechou a cara, mas quando olhei estava tão plácida e fria quanto era seu costume. O café da manhã foi farto, como geralmente era, e agitado. Todos estavam sentindo a atmosfera do jogo e ninguém ficou enrolando na mesa. Logo alunos saiam aos montes, em grupos ou sozinhos, indo em direção a quadra de Quadribol congelada.
Havia arquibancadas diferenciadas, quatro para cada casa além da especial para os professores, se quiserem assistir separados de seus alunos. Além disso, o campo em si era enorme, mais de cento e cinquenta metros de gramado gelado. Em cada extremidade, as três balizas estavam aguardando um goleiro para as defender – grandes palitos de fazer bolhas de sabão.
Ficamos na mesma arquibancada de Snape e Quirrell, percebi, mas algumas fileiras para cima. Em uma das arquibancadas vermelha e dourada pude ver Mione e Weasley junto a Neville e outros dois garotos grifinórios segurando um enorme lençol pintado com o grande leão da Grifinória onde se dizia "Potter para Presidente" acima, a tinta de todo o trabalha brilhando multicolorida. Isso me fez sorrir, pois sabia que a ultima parte era graças a Granger e mais uma vez o espírito alegre e vibrante dos leões fazia uma parte de mim querer se juntar a eles... se não tivesse subido tantos degraus para chegar aqui.
— Olhem ali — foi Nott quem percebeu, o desprezo apontando cada letra. — Esses grifinórios idiotas, vão passar vergonha quando perderem.
— Muito bem, Theodoro — devolvi o olhando de canto de olho. — Continue a nós iluminar com seus conhecimentos do futuro, mas acho que seria melhor prestar atenção em coisas mais importantes que um jogo de Quadribol, tipo se vai se formar ou não.
Pansy e Sue soltaram risadinhas junto com Zabini e Daphne. Me mantive séria, pois em nenhum momento havia buscado a graça na situação. Outro que não tinha mudado de expressão era Malfoy, sentado ao meu lado com a mais leve das torções em suas sobrancelhas claras.
— Você defende eles com tanta vontade — comentou devagar. — Tem certeza de que não deveria ir para lá?
Dessa vez, sorri. Sorri ao lembrar de como o Chapéu Seletor havia vasculhado minha mente, vendo até onde, já não sei. Suas palavras ainda cutucavam atrás da minha mente até hoje "o sangue retorna", e como não havia a menor dúvida, nem ao olhar os cantos de mim nem ao enunciar para toda a escola, sobre a que casa eu pertencia.
— Tenho toda a certeza do mundo, Draco — respondi sem olhar para ele, meus olhos focados nos jogadores entrando no campo sob ensurdecedores aplausos. — Estou exatamente onde deveria estar.
Hooch falou algo com os jogadores e então puxou um longo silvo em seu apito de prata fazendo quinze vassouras subirem ao ar. O narrador da partida eu já tinha ouvido falar, era Lino Jordan, um garoto do mesmo ano dos gêmeos Weasley e um grande amigo deles. O rapaz negro cheio de rastafáris, diferente de Blásio que mantinha a cabeça raspada, se inclinou com excitação febril em direção ao campo sendo segurado por pouco por McGonagall que também havia decidido ficar entre seus alunos – ou apenas vigiando o locutor.
— E a goles foi de pronto rebatida por Angelina Johnson de Grifinória – que ótima artilheira é essa menina, e bonita, também.
— Jordan!
— Desculpe, professora.
Definitivamente Minerva e seus gritos estavam ali para controlar os ânimos de seu aluno. A medida em que a partida avançava eu parei de tentar acompanhar tudo que Lino narrava. De forma básica, Grifinória estava na frente, o que fazia a torcida de minha casa não estar lá muito animada com o desenrolar do jogo. Vez ou outra eu conseguia enxergar Potter no ar: era o menor jogador de ambos os times, um ponto veloz de cabelos negros. Ficou em evidencia mesmo quando Angelina marcou outro ponto, quando fez vários loops para celebrar... e então teve um balaço lançado em sua direção feito um míssil.
— Isso é sujo — reclamei. — Vão tentar acertar o Potter apenas para impedir de pegar o pomo?
— É claro que sim –- Draco devolveu. — Isso é Quadribol.
Resmunguei alguma coisa sobre continuar injusto e baixo, mas nada que merecesse atenção, pois nesse momento Lino Jordan anunciava o que poderia ser o pomo de ouro, avistado pela primeira vez desde o inicio da partida. Estava bem ao lado da cabeça de Adrian Pucey, um artilheiro de nossa casa. Um incrivelmente burro, pois esqueceu da sua própria função no jogo ao virar o pescoço para olhar o pomo e deixar a goles cair de suas mãos.
Em defesa dele, não foi o único. Todos os artilheiros pareciam ter esquecido o que fazer enquanto observavam Potter e Terency Higgs, nosso apanhador, dispararem em direção ao pomo, cabeça à cabeça. Mas Potter tinha uma Nimbus 2000, era mais rápido e ia pegar o pomo primeiro. Ênfase no ia, pois, o capitão da Sonserina, Marcos Flint, um quintanista de dentes horríveis e sobrancelhas grossas, bloqueou Harry de proposito, o desequilibrando e quase fazendo-o cair da vassoura.
— Isso foi roubo! — Exclamei junto ao rugido de raiva da torcida Grifinória. — Marcos roubou! Espero que a gente perca só para esse idiota aprender!
— Lewis, se falar isso de novo, juro por Merlin que esqueço que levei em conta, até hoje, que você é uma menina! — Malfoy rugiu, os olhos sequer se dignando a me olhar, muito focados no jogo que ainda se desenrolava através dos rugidos de "falta" dos leões. Trinquei meus dentes enquanto um lado selvagem de mim implorava para que Draco tentasse, mas estava ocupada demais para reconhecer sua existência ao observar Madame Hooch conceder o direito da Grifinória, lhes dando um lance livre nas nossas balizas.
— Viu, estúpido?! – Chiei para Malfoy. — Olha o que acontece por trapacear!
— Então — Lino Jordan estava enfrentando enormes dificuldades em se manter neutro. — Depois dessa desonestidade obvia e repugnante...
— Jordan! — McGonagall ralhou.
— Quero dizer, depois dessa falta clara e revoltante...
—Jordan, estou lhe avisando...
— Muito bem! — O aluno se rendeu a fúria mal contida da professora de muita má vontade. — Muito bem. Marcos quase matou o apanhador da Grifinória, o que pode acontecer com qualquer um, tenho certeza. Portanto, uma penalidade a favor de Grifinória. Spinnet bate, para fora, sem problema, e continuamos o jogo. Grifinória ainda com posse da bola.
Foi quando tudo aconteceu. Potter havia acabado de se desviar de um balaço com efeito que passara raspando por sua cabeça quando sua vassoura deu uma guinada violenta no ar, se inclinando contra sua vontade. E era contra sua vontade, pois seus braços e pernas estavam duros enquanto segurava a vassoura, tentando não cair. Aconteceu outra vez, como se a vassoura estivesse disposta a derrubá-lo. E qualquer dúvida que eu tinha saiu quando alcancei sua mente, o medo gelado e a completa confusão sobre o que estava acontecendo enquanto sua vassoura ziguezagueava de um canto para o outro, fazendo movimentos aqui e ali para tentar o jogar longe.
— Sonserina ainda com a posse — Lino continuava a narrar, completamente indiferente a situação de Harry. — Marcos com a goles, passa por Spinnet, por Bell... atingido no rosto com força por um balaço, espero que tenha quebrado o nariz... é brincadeira, professora. Sonserina marca, ah, não...
Alguém tinha que olhar para ele! Trinquei o maxilar e fechei os olhos, procurando uma mente desconhecida, mas fácil de se achar. Rúbeo não era tão difícil de se enxergar então eu havia percebido quando se juntou aos outros, na arquibancada da Grifinória. Ele era um dos poucos com um enorme binóculo, poderia ver alguma coisa. Respirei fundo e alcancei sua mente, sussurrando o que devia falar bem no fundo, tomando cuidado para não o confundir ou assustar. Deu certo. No mesmo instante ele mirou o binoculo para cima, diretamente em Potter, e falou alguma coisa que atraiu a atenção de Weasley e Granger.
Hermione, apertei os olhos para ver, tomou o binoculo em suas mãos. Porém, ao invés de olhar para cima, olhou em nossa direção, para nossa arquibancada. Não precisei ler mentes para saber quem ela estava procurando e trinquei o maxilar, meus olhos focados na nuca de Snape algumas fileiras abaixo. Então, jogou o binóculo para Ronald e desapareceu da multidão.
Metade de mim tentava invadir a mente de Snape como nunca havia tentado e a outra metade estava concentrada em Harry. A vassoura se balançava com tanta força que nem o mais jovem apanhador do século iria se aguentar por muito mais tempo e a multidão finalmente havia o notado e o observava, aterrorizada. Dois ruivos do mesmo tamanho, os gêmeos Weasley, voavam embaixo de Potter em uma vã esperança de conseguir pegá-lo quando caísse quando não conseguiram o resgatar da vassoura (ela fugia toda vez que chegavam perto). Flint, o imbecil, marcou cinco vezes sem que ninguém lhe desse importância.
Foi quando um grito fez todos pularem e havia vindo do homem cuja a mente eu tentava partir ao meio. Suas vestes estavam pegando fogo e então, de uma vez, não estavam mais. Ri com a certeza que havia sido Hermione pois reconheceria aquele azul em qualquer lugar. Snape virou o rosto para mim, o ódio claro em cada linha de seu rosto, e me preparei para a retaliação. Mas nem ele conseguiu fazer alguma coisa enquanto toda a multidão vibrava – Potter havia conseguido o controle da vassoura outra vez.
Mas, mesmo assim, não permaneceu no ar. Voou rápido em direção ao chão quando levou a mão à boca como se fosse vomitar, o que era muito capaz depois de ser chacoalhado de um lado para o outro feito uma boneca de panos a mais quinze metros do chão. Caiu no chão de quatro e tossiu... fazendo uma bola dourada cair em suas mãos.
Ele gritou que o havia apanhado, provavelmente, e levantou a bola no alto para provar para qualquer um que o tinha feito. O jogo terminou em confusão, com o trasgo do Marcos reclamando com Hooch que ele havia o engolido, não apanhado. Não que fizesse qualquer diferença. Eu havia ouvido de Quadribol o suficiente para saber que nenhuma regra havia sido infringida e, enquanto Jordan anunciava alegremente o resultado final (os leões ganharam por centro e setenta pontos a sessenta) deixei Malfoy e todos para trás, resmungando e reclamando, chorando pelo orgulho ferido o quanto quisessem.
Disparei para o chão e fui convidada para me afastar de toda aquela balburdia, sendo levada por Hagrid em direção a sua cabana com Rony e Mione. Apesar de ainda meio pálido, Potter sorria e recebeu meu abraço com força, enquanto levava tapinhas nas costas durante todo o caminho. Foi apenas quando já estávamos todos servidos de chá forte que a situação esquisita do jogo voltou à tona.
— Foi Snape — Ronald explicou para mim e Hagrid. — Hermione e eu o vimos. Ele estava azarando a sua vassoura, murmurando, não despregava os olhos de você.
— Bobagens — Rúbeo debochou. — Por que Snape faria uma coisa dessas?
De fato, porque? Me lembrei de seu olhar quando foi interrompido, diretamente para mim. Jurei, por um segundo, que ele era capaz de me lançar do alto da arquibancada ali mesmo. Foi por ter sido interrompido? Não falei nada, os olhos em meu chá, enquanto Potter entregava todo o jogo para Hagrid.
— Descobrimos uma coisa — começou devagar. — Ele tentou passar pelo cachorro de três cabeças no Dia das Bruxas. Levou uma mordida. Achamos que estava tentando roubar o que o cachorro está guardando.
O gigante deixou cair o bule de chá com a surpresa.
— Como é que vocês sabem da existência do Fofo?
— Fofo?
— É... é meu... comprei-o de um grego que conheci num bar no ano passado. Emprestei-o a Dumbledore para guardar o...
— O que? — Harry estava ansiosíssimo enquanto eu pensava que acertei em cheio ao chamar o cachorro de Cérbero. Quão longe a magia iria? Existiam medusas? Cavalos voadores? Homens de um olho só?
— Não me pergunte mais nada — Hagrid tentava a todo custo encerrar o assunto. Pobre homem. — É segredo.
— Mas Snape está tentando roubá-la.
— Bobagens — ele repetiu. — Snape é professor de Hogwarts, não faria uma coisa dessas.
— Eu também tinha uma linha de pensamento parecida, Rúbeo — falei pela primeira vez, deixando meu chá já frio de lado. — Não fazia sentido Severo tentar roubar a pedra e achava que esses dois aí só estavam de implicância com o homem, não que ele não merecesse. Mas...
— Mas se não está, então por que ele tentou matar Harry? — Mione emendou. Com certeza não era apenas as minhas convicções que foram balançadas. — Eu conheço uma azaração quando vejo uma Rúbeo, já li tudo sobre o assunto! A pessoa precisa manter contato visual e Snape nem ao menos piscava, eu vi!
— Estou dizendo que vocês estão enganados! — Hagrid protestou com veemência, balançando sua grande cabeça de um lado para o outro. — Não sei por que a vassoura de Harry estava agindo daquela forma, mas Snape não iria tentar matar um aluno! Agora, escutem bem, os quatro: vocês estão se metendo em coisas que não são das suas contas. Isto é perigoso. Esqueçam aquele cachorro e esqueçam o que ele está guardando, isso é coisa do Prof. Dumbledore com o Nicolau Flamel...
— Ah-ah! — Potter exclamou, os olhos brilhando muito vivos através das lentes, pois provavelmente só havia escutado a ultima frase. — Então tem alguém chamado Nicolau Flamel metido na jogada, é?
Eu podia ver o rosto do gigante esquentar e ficar vermelho nas poucas partes que eram visíveis, de vergonha ou de raiva, já não sei. Talvez os dois, por ter uma boca tão grande e ser tão terrível mentiroso que não conseguia enrolar nem algumas crianças. Mas o estrago já estava feito: Hagrid havia nos dado o pouco que precisávamos para sair da estaca zero. Mais uma vez, eu não precisava ler mentes para entender o verde vivo dos olhos de Harry, as orelhas quentes de Ronald ou o sorriso triunfante de Mione significavam: iriamos atrás de Flamel, sendo de nossa conta ou não, perigoso ou não, contra as regras ou não. Agora sim um sorriso lento e meio selvagem se alongou em meus lábios – isso séria divertidíssimo.
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