Corona
17 Presente Verde e Prata
Notas iniciais
Dezembro chegou com uma nevasca. Mais ou menos no meio do mês toda Hogwarts acordou coberta de neve até os joelhos. O lago se tornou um espelho congelado do fim do mundo de tão negro, e agora suas águas eram quase sempre escuras vistas da sala comunal. Certo dia, os gêmeos Weasley enfeitiçaram um monte de bolas de neve para perseguir o patético do Quirrell por todo o pátio, o acertando na parte de trás do turbante ridículo. Eles receberam um castigo por isso, claro, mas eu ri tanto que sequer me preocupei, pois não era de hoje que o professor me encarava por muito tempo durante as aulas, as vezes com o rosto branco de tanto pânico, as vezes com as mãos tremendo.
Isso havia começado depois de minha briga com Malfoy, a que o atirei na parede, e quando fiquei um bom tempo sendo evitada por qualquer um que não os grifinórios que conhecia e minhas colegas de dormitório, uma vez que a menção ao vermelho dos meus olhos tinha corrido toda a escola. Era de se imaginar que um covarde como Quirrell fosse se assustar com isso, mas já estava começando a me irritar de verdade, então bati na mão dos Weasley, peguei minha varinha e fui para detenção com eles.
Felizmente, eu tinha coisas mais importantes a me preocupar do que uma pequena detenção. Snape, por exemplo. Na nossa primeira aula depois do jogo, na segunda feira, fui em direção a sua sala esperando que me mandasse embora. Apesar de ser um pedido do diretor, ele não era obrigado a me ensinar coisa algum além de poções. E mesmo assim, ele me deixou entrar. A fúria que havia visto em seus olhos tinha apagado, mas ainda me parecia mais desgostoso que o usual.
— O que fez no sábado, Lewis, foi de uma estupidez tamanha... — começou o que, acredito, havia pensado em dizer durante todo fim de semana. — Me atrapalhou de tal forma... eu quase consegui...
— Achei que estava tentando matar o Potter — disparei. Às vezes, falar algo de forma bruta desestabiliza o ouvinte, e foi o que aconteceu. Choque correu o rosto pálido de Severo antes de se transformar em indignação e raiva. Achei que iria me mandar embora, mas disse apenas quatro palavras antes de me mandar sentar na frente dele para a aula, tão baixo e tão pausadamente que tive que inclinar a cabeça.
— Nunca mais repita isso.
E acreditei nele. Acreditei, pois suas emoções eram verdadeiras, ao menos o que ele deixou aparecer. Mas minha crença não seria nem de longe o suficiente para convencer o trio de leões, então mantive minha boca fechada e minha lealdade comigo mesma. Afinal, eu tinha mais coisas com que me preocupar do que meu professor de legilimência e oclumência sendo crucificado. O tempo estava cruel. E, apesar de haver grandes lareiras quentinhas no Grande Salão, na Sala Comunal e nos dormitórios, não havia nada assim nos corredores ou nas salas de aula, e nem na floresta.
Cobras não sofrem com a mesma intensidade dos outros animais os impactos do tempo extremo. Tanto para o calor quanto para o frio, elas conseguiam se adaptar muito bem ao regular a própria temperatura do corpo, as vezes até chegavam a hibernar. Mas esse não era o caso de Lagrum, e mesmo tendo ficado bem até hoje, minhas noites eram cada vez mais agitadas de preocupação por saber que ele estava exposto ao frio a todo momento.
O avanço nas aulas de transfiguração me deu uma ideia de que meu amigo talvez não fosse gostar, mas era o melhor. Se eu conseguisse realizar, seria a salvação de sua pele e ele sabia disso, pois não veio sibilar no meu ouvido durante meu sono ou durante nossos encontros escondidos. A ideia me fazia passar tanto tempo quanto Hermione na biblioteca e ser obrigada a dividir minha atenção durante as aulas, com metade da minha mente no professor e outra em um pergaminho discreto e enfeitiçado com alguns truques para afastar curiosos, onde eu rabiscava tantos diagramas e contas quanto seria possível.
— Tenho tanta pena — Draco disse uma vez, despertando minha atenção na aula de poções. Não estava falando comigo, é claro, e sim com Zabini à algumas cadeiras para trás. — Dessas pessoas que tem de passar o Natal em Hogwarts porque a família não as quer em casa.
E aí estava. Malfoy andara acido esses tempos desde que Sonserina perdera, voltando a atormentar Potter com força total. Primeiro, em um comentário infantil e estupido, tentou fazer graça e dizer que um sapo iria substitui-lo no próximo jogo. Foi uma piada tão ruim que nem mesmo seus asseclas acharam graça. Então, ainda mais raivoso e invejoso, voltar a ficar soltando frases do tipo, cutucando Harry por não ter uma família como todos os outros.
Potter, medindo pó de espinha de peixe-leão, sequer se dignou a levantar os olhos. Sorri ao ver que deixaria Draco onde ele merecia: na ignorância e berlinda. Por mais que nossas ultimas conversas tenham sido civilizadas e, às vezes, agradáveis, Malfoy ainda se mostrava o pior tipo de babaca sempre que tinha chance, fazendo meu estômago revirar.
— Não fique chateado, Draquinho — ronronei para ele sem tirar meus olhos do meu pergaminho, uma vez que já tinha acabado minha poção. — Tenho certeza que, uma hora, ele irá reconhecer os sentimentos por você. Só não desista.
— Cale a maldita boca, Lewis — ele devolveu com a voz seca e arrastada. — O que tanto escreve aí, hem?
— Se fosse do seu interesse, Malfoy, eu teria compartilhado em algum momento da última hora — devolvi ainda sem o olhar. Não me preocupei que, pelo resto da aula, sentisse seu pescoço espichado em direção ao pergaminho (coisa difícil, já que ele se sentava a minha direita e eu era canhota), pois um dos feitiços que havia lançado era de nublar, distorcendo as letras para qualquer um que as visse de longe. Se não bastasse e o pergaminho fosse tomado, havia algumas surpresas nele para que se tornasse o que mais a pessoa achasse desinteressante.
Demorei um bocado para sair de sala, focada em terminar o ultimo rascunho antes de me levantar. Severo não me apressou e cheguei no saguão de entrada a tempo de ver Weasley vermelho de raiva, Granger com a cara fechada e Harry com a maxilar travado em companhia de Hagrid, que carregava um enorme pinheiro.
— Odeio os dois — Potter soltou. — Draco e Snape.
— São pessoas a se odiar — comentei ao me aproximar deles. — Melhore essa cara, Ronald, está parecendo um vegetal.
— Vou acerta-lo um dia, juro que vou — ele rosnou. — Ofendeu minha família, aquele...
— E o que você esperava de Malfoy? — Arqueei uma sobrancelha. — Não é como se tivesse alguma coisa decente ali. Ah, desculpe, como vai, Rúbeo?
— Vou bem, Mal — ele me sorriu por trás das folhas. — E vocês quatro, chega disso. Animo, o Natal já está quase aí. Vou lhes dizer o que vamos fazer, venham comigo ver o Grande Salão, está lindo.
E estava mesmo. Na verdade, estava maravilhoso e nem mesmo havia terminado. Minerva e Flitwick estavam trabalhando na decoração, fazendo festões de azevinho e visco ficarem pendurados em todas as paredes e, com a última arvore, agora havia doze grandes pinheiros no salão – um no centro cintilando com cristais de neve e os outros onze iluminados por centenas de velas. Malfoy era um idiota por tentar fazer alguém se sentir mal por ficar em Hogwarts no Natal, aquilo era fantástico.
— Quantos dias ainda faltam até as férias? — Hagrid perguntou.
— Um — Mione foi a primeira a responder. — Ah, isso me lembra: falta meia hora para o almoço, deveríamos estar na biblioteca.
— É verdade — concordei ainda com os olhos no professor de feitiços, que fazia bolhas azuis saírem da ponta da varinha e irem até os galhos da arvore recém-chegada.
— Biblioteca? — Rúbeo parecia surpreso, e devia estar, enquanto nos levava para fora da sala. Não era lugar de quatro crianças estarem quando as férias estavam tão perto, eu acho. — Na véspera das férias? Não estão estudando demais?
— Em primeiro lugar, não existe estudar demais — devolvi para ele, Hermione concordando comigo com um aceno enfático de cabeça antes de Harry explicar, animado e sem nenhuma vergonha na cara.
— E não estamos estudando. Desde que você mencionou o Nicolau Flamel estamos tentando descobrir quem ele é.
— Vocês o quê? — Saiu um pouco alto demais, mas o gigante se controlou com rapidez enquanto se inclinava para nós, os olhos abertos e o rosto em choque. — Ouçam aqui: já disse a vocês, parem com isso. Não é da sua conta o que o cachorro está guardando.
— Só queremos saber quem é Nicolau Flamel, só isso — Mione murmurou em uma voz quase manhosa, os olhos castanhos brilhando para Hagrid.
— A não ser que você queira nos dizer e nos poupar o trabalho? — Decididamente, Potter não tinha a mínima vergonha. — Já devemos ter consultado uns cem livros e não o encontramos em lugar nenhum. Que tal nos dar uma pista? Sei que já li o nome dele em algum lugar.
— Não digo uma palavra.
— Então vamos ter que descobrir sozinhos, vamos, Mal — disse Rony enquanto dava as costas para um Rúbeo muito desapontado, mas balancei a cabeça.
— Encontro vocês daqui a pouco.
Apesar de ver eles sumirem de vista, não dei a chance de Hagrid tentar me convencer a não cutucar o dragão adormecido. Apenas entrei novamente no Grande Salão e fui em direção a McGonagall. A professora ainda estaca concentrada na preparação para o Natal, então me mantive um pouco a distancia antes de limpar a garganta.
— Com licença, professora McGonagall?
A mulher alta virou o rosto em minha direção, a varinha ainda em punho e os olhos verdes me avaliando. Não era por mal, já tinha aprendido. Minerva apenas gostava das coisas do jeito que elas devem ser, o que me fazia uma grande exceção a regra. Mesmo assim, acreditava que tinha ao menos um pouco da consideração da professora de transfiguração por ser uma das melhores alunas na sua matéria.
— Posso ajudar, srta. Lewis? — Perguntou terminando seja qual for o feitiço com um movimento de pulso e se virando para mim, terminando a distancia que nos separava.
— Sim, na verdade, eu tenho uma dúvida sobre a matéria — comecei devagar, testando suas reações. Mas McGonagall era tão boa no jogo do sério quanto eu e, esperta o bastante para não tentar invadir a mente dela, apenas continuei no escuro. — Venho estudado por conta própria e cheguei a uma parte muitíssimo interessante. Fala sobre transformar... seres vivos de grande porte em objetos inanimados e, ainda assim, eles permanecerem com consciência...
— Praedam Vitae — reconheceu o feitiço no mesmo momento, seus olhos ganhando um brilho a mais enquanto voltava a me analisar. Eu sabia que seria um risco perguntar algo assim a Minerva, mas era um risco necessário. Apenas minha dedução e as poucas referencias que encontrava não seriam o bastante para o compreender totalmente, e os ricos se desse errado poderiam ser terríveis. — O feitiço da Alma Presa, é muito perigoso e avançado, Lewis, me admira que tenha conhecimento sobre ele.
— Não tenho — e era verdade, não tinha mais nada além de sua ideia básica e algumas teorias e rascunhos montados por mim mesma. — Como eu ia dizendo, ao chegar nessa parte era tudo muito vago. Eu fiquei curiosa e pensei...
— Há um motivo para estar vago — me interrompeu. — Não se deixaria algo tão poderoso e perigoso ao alcance de estudantes do primeiro ano como você. É um feitiço complexo que pode resultar em consequências terríveis tanto para quem o faz tanto para o alvo. Além de estar muito além de qualquer necessidade acadêmica da sua parte, é Magia Negra. Quero que prossiga os estudos sem se meter nisso de novo, entendido?
Concordei com a voz suave e os olhos baixos antes de sair do Grande Salão, ainda sentindo os olhos verdes dela em minhas costas. Talvez tenha sido o espirito de Natal, mas McGonagall havia me dito muito mais do que eu precisava. Agora eu tinha a confirmação da funcionalidade do feitiço e sabia exatamente onde o procurar. Um lugar fora do alcance de qualquer um? A Seção Reservada seria perfeita. Eu apenas precisava de uma autorização e, se não conseguisse, entraria mesmo assim.
Não encontrei nenhum dos grifinórios na biblioteca, o que me mostrava que já haviam ido almoçar. Estavam obcecados em descobrir o que Snape queria tanto roubar, e mesmo que eu não concordasse que fosse o meu professor o vilão da história, sentia uma ansiedade crescente toda vez que pensava no alçapão embaixo do grande cachorro de três cabeças, colocado em um corredor no meio de uma escola. Já haviam tentando achar o tal do Flamel em tudo quanto era livro: Grandes sábios do século XX, Nomes notáveis da mágica do nosso tempo, Importantes descobertas modernas da magia e em Um estudo dos avanços recentes na magia. Mesmo assim, ainda centenas de prateleiras e milhares de livros, então desistir não era uma opção. Infelizmente, não conseguiam fazer avanço nenhum já que os intervalos entre as aulas eram sempre muito rápidos.
Sabendo que Madame Pince, a bibliotecária rígida e apaixonada por livros, só iria me enxotar se me visse chegar perto de onde queria sem um bilhete de autorização, também dei meia volta. Se Dumbledore errava ao escolher um professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, havia escolhido grande parte de seu resto de corpo docente com destreza: ninguém naquela escola gostava tanto de livros como Pince, que arrancaria sua cara se lhe visse dobrar uma página errado.
A Seção Reservada tinha um acesso mais do que controlado por uma boa razão: ali estava toda a Magia Negra que você pudesse encontrar em Hogwarts. Coisas medonhas e assustadoras, meios para fazer atos inimagináveis e tão horríveis quanto. Nada ali nunca seria ensinado em uma sala e, geralmente, era apenas liberado para alunos do sexto ou sétimo ano, prestadores de exames de níveis avançados de toda matéria que pudesse imaginar, pois não era apenas Defesa Contra as Artes das Trevas que possuía um lado sombrio e sinistro.
Eu sabia, ou ao menos uma parte de mim tinha essa consciência, de que eu não devia me meter com algo assim, de fato. Mas era uma questão de necessidade. Magia servia para facilitar a vida dos bruxos, para ajuda-los. Se o tipo de ajuda que eu necessitava estava com "negra" no nome era apenas um detalhe. O conhecimento estava lá e seria burrice não utilizar.
Pelas aulas nas estufas canceladas por causa da neve, o almoço foi servido mais cedo. Me sentei entre Parkinson e Hopkins, com Daphne e Bulstrode na minha frente. Não falei muito e não se incomodaram em falar comigo. Achei melhor. O assunto eram as férias de Natal e, enquanto todas falavam da lista de presentes que haviam pedido aos pais e sobre as viagens que fariam nesse meio tempo, eu pensava em como um Natal bruxo poderia ser diferente de um Natal católico e em como eu estava quase maluca para descobrir.
Naquela noite, Severo me deu uma excelente notícia: não queria ver minha cara durante as férias, então estava dispensada até o fim delas. Fiquei tão feliz de não ter mais que tomar poções para dor de cabeça por pelo menos uma semana que cheguei a tentar a sorte e pedir que me desse um bilhete de autorização para a seção reservada. Erro meu.
— E por qual razão você quer se enfiar na Sessão Reservada, Lewis?
— Já disse que começo a lhe dar satisfação da minha vida quando me der da sua, Capitão Gancho.
Suspeito que o professor tenha conhecimento de contos infantis trouxas, pois sai de lá com a cabeça doendo e um não para o meu pedido. No final do dia seguinte, observei todas as minhas colegas de dormitório empacotarem suas coisas e embarcarem no Expresso de Hogwarts. Cheguei a acompanha-las até a estação de Hogsmeade e recebi vários abraços e desejos de feliz Natal, até mesmo de Zabini e Pam. Malfoy não se dignou a tomar conhecimento, mas não me fez falta.
Voltei para a Sala Comunal quase vazia depois de voltar andando com Hagrid, aproveitando que as nevascas haviam parado um pouquinho. Acabei descobrindo que ele era filho único e órfão, provavelmente. Não tinha certeza pois, apesar do pai ter morrido logo depois de entrar em Hogwarts, a mãe não participou de sua criação. Também, sem surpresa alguma, ele havia sido Grifinório até o terceiro ano... quando foi expulso e teve sua varinha quebrada. Foi quando Dumbledore, que era professor de transfiguração em sua época, conseguiu o manter como aprendiz de guarda caça na escola.
— Grande homem, o professor Dumbledore, grande homem.
Mas não falou mais nada. Nem sobre sua mãe, nem sobre a razão de ter sido expulso (só que, pelo visto, guardava seus pedaços em seu guarda-chuva rosa). Tinha certeza de que ele estava mentindo e que sabia muito mais do que deixava aparecer, mas havia pelo menos um segredo realmente guardado por ele: o próprio. Mas não era problema para mim. Eu respeitava os segredos dos outros se respeitassem os meus, e Rúbeo não fez qualquer comentário sobre minhas mãos mesmo que as tenha visto várias vezes enquanto eu brincava com Canino pelo caminho, nos dois mergulhando na neve.
De noite, tive meu presente de Natal.
Foi logo depois do jantar. Desci para meu dormitório, pensando em matar tempo até ser seguro cruzar a sala comunal e ir para a floresta. Então poderia passar a noite com Lagrum e passar a noite de Natal com ele. Era uma data importante para nós, pois foi quando nós conhecemos. Perder meus pais adotivos tão perto de uma data emotivo e familiar não foi nem de longe tão ruim quando poderia ter sido, já que encontrei meu melhor amigo na manhã de neve do dia cristão.
Eu estava distraída demais pensando em coisas piegas e melosas e isso teria me custado a vida se fosse um ataque de verdade. Pisei dentro do dormitório quente e senti seu corpo enorme se enroscando em mim em menos de um segundo, prendendo meus braços e pernas e me jogando no chão, esmagando minhas costelas e me roubando a porcaria do ar. Como uma afronta pessoal, colocou sua enorme boca em pescoço, suas presas venenosas a centímetros de me arranhar a pele – e era tudo que precisaria para causar minha humilhação total.
Isso foi patético, Malorie. Poderia ter arrancado sua cabeça três vezes até agora.
— Tire a boca do meu pescoço e solte meus braços para eu poder chutar essa sua fuça escamosa, babaca — chiei para ele, meu coração pesado ameaçando explodir. Sem qualquer pena, como a cobra que era, Lagrum me largou no chão de uma vez, fazendo meu corpo quase girar no ar pela força bruta. Tonta e sem ar, me levantei em um salto, observando-o ainda de bote armado no meio do meu dormitório.
Mantenha sua mente clara. Teremos tempo para isso, temos uma semana inteira. Foco, agora.
Comecei a olhar em volta, mas não tive tempo. Lagrum atacou em um bote rápido e apenas meus reflexos me fizeram rolar para o lado, sua boca enorme com suas presas afiadas passando a centímetros de onde estava minha cabeça. Fui para o lado, passando uma das camas e a colocando entre mim e ele, o vendo se recuperar com mais facilidade do que gostaria depois de ter acertado uma parede de pedra. Então soltou um som baixo e intercalado, um sibilo curto e raivoso, prestes a me dar um sermão.
Ver... ver é inútil. Eu não enxergo e sei bem onde você está sem usar qualquer imagem da sua mente. A visão é um dos sentidos mais fracos, Mal, e você sabe disso. Ela engana e ela falha. Escuro demais, claro demais, e você já não vê as coisas como são, qualquer coisa pode os impossibilitar... não, os olhos são fracos. Escute, fareje, sinta, prove. Nunca veja.
E pense. Sempre pense. Controlei meu péssimo temperamento, a força selvagem que me impulsionava com ódio e violência para cima do meu amigo, preparada para me defender e obedecer aos meus instintos mais básicos. Eu enxergava meus olhos vermelhos pela visão que Lagrum tinha de mim, mas não lhes dei importância. Os olhos eram o sentido mais fraco do corpo, eu sempre soube disso. Pela forma como qualquer trouxa que já tenha me visto fazer magia arranjava uma desculpa, uma razão, forma como seus olhos lhe traíam quando a mente entrava em guerra, e eles perdiam. Sempre perdiam.
Dessa vez, quando ele veio para cima de mim, fui para cima dele. Impulsionei meu salto com magia, desejando que me levasse para cima e para frente, e vi seu corpo deslizar por baixo de mim. No último momento, ele se virou para tentar agarrar meu pé, mas eu já estava ajoelhada, apenas um dos joelhos no chão, perto da cama de Greengrass, a respiração curta e profunda, os olhos estreitos e as mãos no chão.
Você não é mais forte que eu, filhote. Esqueceu de tudo? Não é mais forte, não é maior. Então o que pode fazer contra mim?
Posso usar tudo isso contra você. O pensamento fez ele soltar um sibilo que parecia uma risada, mas eu sabia que ele estava orgulhoso de minha mente ter voltado ao seu estado natural. Sinta, pense, ataque. Foi assim que fui criada. Lagrum era mais pesado e mais forte, o que logicamente me tornava mais leve e mais ágil. Ele tinha apenas dois golpes, a boca e a ponta da cauda. Já estava claro que não era uma de suas preocupações a destruição do lugar, então eu devia tomar cuidado com suas duas pontas. Sorri para ele, meus músculos queimando, enquanto ouvia o ruído baixo de seu corpo pesado deslizando na pedra e sentia a as vibrações de suas escamas em atrito.
Fui para a direita quando voltou a atacar, preparada para a ponta de sua cauda que quebraria minhas costelas indo em minha direção. Agarrei ela apenas por tempo o suficiente para que seus reflexos mirassem outra vez, e me afastei para trás, trepando em um dos suportes da cama e me equilibrando no alto antes de pular em cima da cabeça dele.
Lagrum caiu no chão com o peso do meu corpo auxiliado pela gravidade. Sua enorme cabeça fez um baque surdo na pedra, mas não fiquei ali para contar vitória. Deslizei pelo seu corpo e aproveitei sua desorientação momentânea para acertá-lo outra vez, agora bem no fim da sua cabeça, quase na garganta, e então me afastei. Meu amigo estava parado e quieto, o que me fez sorrir.
— Ganhei.
Má ideia. Fui acertada na cabeça pela ponta de sua cauda, o infeliz aproveitando minha guarda baixa. O golpe me fez cair e minha visão ficar turva, mas logo eu o senti se enrolando a minha volta de forma amigável, dando a briga por vencida.
Nunca abaixe a guarda, filhote.
Minha cabeça estava latejando e ficaria um belo hematoma escondido por meu cabelo, mas passei um braço ao redor de seu pescoço pois não era do meu feitio choramingar e nem do dele me deixar chegar a um nível tão baixo. Olhei para o quarto e peguei minha varinha encaixada no meu coturno, apontando para a destruição de paredes e camas e pensando no feitiço reparo. Em instantes, e eu amava magia, tudo estava em perfeita ordem.
— Agora pode, por gentiliza, me explicar o que está fazendo aqui?! Como entrou? Quando chegou? Não me disse nada!
Acho que os humanos chamam isso de "fazer uma surpresa". Ta-ra, surpresa!
— Isso é sério, Lagrum, se alguém te ver...
Estou começando a achar que não está feliz em me ver.
— Não seja estupido! – Chiei. — Apenas me diga como...
O lago. Hogwarts tem canos que conectam ao Lago Negro, não foi difícil subir por um deles até seu banheiro, sabe que cobras são boas nadadoras.
— Então... você veio pelo esgoto? — fiz uma careta. — Você tem muita sorte de cobras não terem cheiro..., mas, Hogwarts joga tudo no lago?
Fique tranquila, existe um enorme feitiço dentro dele para o limpar. Acho que não existe água mais limpa no mundo, e eu usei a bela banheira que você tem ali dentro. Você tinha razão, eu adorei.
Eu ri ao imaginar meu amigo usando as imagens que tinha da minha mente, abrindo a torneira e esperando a banheira encher antes de se largar lá dentro. Era uma banheira realmente grande se ele coube dentro dela, e mesmo assim a imagem era engraçada. Quase podia vê-lo com uma touca rosa de banho, e a imagem fez ele sibilar e jogar a língua na minha cara.
Estou vendo que essa escola está te transformando em uma piada ambulante, Mal.
— Não seja chato — retruquei dando um peteleco em seu nariz. — Temos a semana inteira sozinhos no meu dormitório e vamos estar juntos hoje a noite. Isso tudo é muito lindo e tudo mais. Mas, sabe, eu acho que seria melhor o senhor tomar outro banho, entende, só para garantir...
Cale a boca, Malorie.
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