Corona

18 Troca de Casa


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Felizmente não tem muita coisa para se dizer aqui, tirando que espero que gostem ♥ Comentários do cap 17 estão para ser respondidos essa semana ♥ Obrigado Ella Branco (Bella ♥), Caique Morningstar, JovanaSerafini, Luiza Avelino, Amanda Pêra, Lua Helena e Princess Rapunzel Sunny Spring pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Quando anoiteceu, Lagrum e eu estávamos em frente a lareira de chamas esverdeadas. Havia passado as ultimas horas mostrando para ele cada canto do meu dormitório, e ele me respondia dizendo que finalmente eu tinha um quarto grande o bastante para ele caber com conforto. Mostrei onde cada uma das meninas ficavam, meu banheiro e meu materiais. Fiz um monte de feitiços para que ele pudesse ver, a maioria sem falar, e fui recompensada com cutucões provocantes da ponta de sua cauda em minha cintura. Por fim, sentada no meio de suas dobras como um grande travesseiro negro, falei do meu projeto pessoal.

Se está fazendo tudo isso por causa do frio, já lhe disse, não sou nenhum filhote e posso...

— Pode se cuidar, eu sei, eu sei — interrompi com impaciência. — Mas nem você pode suportar tanto, e então o que acontece? Não estou com vontade de descobrir, Lagrum, e se há um jeito...

Um jeito perigoso. Teria de ter certeza que está pronta. Já pensou em como testaria isso, Mal?

— Em ratos? — Arrisquei ao me afundar mais em seu corpo. Era verdade que não tinha gasto tanto tempo com essa parte, mas apenas porque ela ainda estava distante demais. Em primeiro lugar, precisaria do livro. — Cientistas trouxas testam venenos, vacinas e remédios em ratos, não tem problema e você ainda pode comer depois.

Tenho certeza de sua capacidade, filhote. Sua magia tem evoluído muito nessas paredes, a minha também. Mas seria de fato necessário?

— Talvez não hoje, Lagrum — balancei a cabeça. — Talvez não amanhã. Mas não podemos arriscar. Ficar apostando de que sempre vai haver um lugar perto para te esconder... aliás, isso é mesmo um absurdo. Não deveria ter que me preocupar com isso, você devia ficar comigo sempre.

Se o que planeja der certo, vou ficar. Mas espero que não esteja planejando nenhuma escala de vinte e quatro horas, sete dias por semana., ou juro que te estrangulo enquanto dorme.

— Ofídio babaca — devolvi com um sorrisinho, pois Lagrum, como a cobra que era, nunca poderia se render a sentimentalismo e declarações melosas. Mas ele podia me apertar um pouco mais e deixar que eu dormisse ali, com a cabeça apoiada em seu corpo, que me servia também de ninho.

Os dias que se seguiram quase me fizeram querer mandar uma coruja à Draco Malfoy, uma única mensagem escrita em letras garrafais: HAHA. O motivo? Não que um seja realmente necessário, afinal, são fatos. Porém, havia, desta vez. As férias de Natal em Hogwarts tinham se tornado o período mais feliz da minha vida em muito pouco tempo.

Mesmo que Mione houvesse ido passar o Natal com seus pais, Ronald e Harry haviam ficado. Logo no primeiro dia de férias, cumpri minha promessa aos Weasley e fui convidada a entrar na sala comunal da Grifinória. Fomos os três para o sétimo andar, eu meio escondida entre os dois, pois estávamos quebrando mais umas mil regras e tradições. Me lembro de ficar parada atrás deles em frente ao quadro da Mulher Gorda enquanto falavam a senha, tomando o cuidado para passar apenas quando ela abrisse por completo.

A sala comunal da Grifinória me lembrava uma mistura de taberna e estalagem medieval. Onde minha masmorra era verde e escura, a torre deles era vermelha e clara. Era um lugar redondo e cheiro de poltronas vermelhas, com uma lareira enorme. Era praticamente a mesma coisa, só que completamente diferente. Eu reconhecia as escrivaninhas, os tapetes, as estantes de livros, as tapeçarias, os quadros e as entradas que deveriam levar para os dormitórios. Porém, as cores eram vermelho e dourado onde quer que se olhasse, e não havia tantos brilhos de joias (quase nenhum). As janelas podiam ser abertas e davam para a Floresta Proibida.

Se a Masmorra da Sonserina lembrava algum palácio submarino, a Torre da Grifinória era mais acolhedora e menos opulenta. Lá embaixo, apenas as cobras podiam se jogar nos sofás de couro de dragão com confiança. Aqui, qualquer um era chamado para perto do fogo. Era uma sensação boa e enervante estar em um lugar onde não era possível receber um golpe pelas costas – eram todos nobres demais para isso. Esse sentimento fez a tensão nos meus ombros quase desaparecer, o que era fenomenal visto que só sentia isso com Lagrum. Confiança. Não por uma pessoa, mas por um lugar.

— Mal! — Potter foi o primeiro a me ver, largando o garfo com um bolinho espetado na hora. Apesar da nítida surpresa, a alegria genuína dele me fez sorrir. Sem as roupas da Sonserina, esse podia ser meu lugar, também.

— Não acredito! É, tipo, umas mil regras quebradas! — Weasley tinha um sorriso enorme, mas não largou de seu garfo. Tinha muito mais carinho pela comida que Harry. Então olhou para os gêmeos. — Não sabiam que se conheciam!

— Rony, meu amigo, Hermione ficaria tão orgulhosa de você — debochei ao me adiantar e me sentar perto deles e seu fogo acolhedor. — E, vocês sabem, regras quebradas são meus sobrenomes.

— A Mal está praticamente sozinha, lá naquele mausoléu — Fred contou. — Então pensamos em convidar ela para passar um tempo na melhor casa de Hogwarts.

— Ah, não comece, Weasley, ou já vou fazer com que se arrependa de me trazer aqui — devolvi para ele com um sorriso, fazendo Jorge rir.

— Não insulte o ninho da cobra, mano, vai que ela morde.

— E Percy? — Rony tornou a perguntar. — Já pensaram nele?

Os gêmeos Weasley sorriram juntos daquele jeito que me fazia querer rir e explodir alguma coisa.

— Do nosso monitor, cuidaremos depois.

E cuidaram. Isso envolveu um rápido feitiço de pernas presas assim que Percy Weasley entrou na torre, então uma longa promessa de fazer da vida de monitor dele um inferno e mais alguns poucos, mas perversos, pobres que haviam descoberto sobre o rapaz. Muito vermelho (acho que era de família) e a contragosto, o mais irritantemente certo dos Weasley prometeu não ir direto na McGonagall ou em qualquer outro professor, fantasma ou zelador.

— Mas se me perguntarem, não vou mentir, deixo claro!

Como a possibilidade de alguém perguntar se havia uma aluna da Sonserina de bobeira na torre da Grifinória era tão baixa que beirava ao nulo, deixamos assim. Ignoramos completamente a carranca de Percy e passamos um bocado de tempo, assando qualquer coisa cabível de ser espetada em um garfo na fogueira e sonhando com a expulsão de um certo pavão albino.

Nesse meio tempo (pois não podíamos passar o dia inteiro comendo em frente a lareira, nem mesmo o estomago de Weasley era desse tamanho), cheguei a aprender xadrez bruxo. Nunca havia sequer aprendido o normal pois não tínhamos um no orfanato, então passei um bocado de tempo observando Rony ensinando a Harry. O jogo era divertidíssimo de assistir já que não era apenas um exercício mental – as peças falavam e ficavam xingando o jogador o tempo inteiro, dando sugestões não muito confiáveis. Quando finalmente joguei, fui melhor do que Potter (que, vá me desculpar, Cicatriz, mas que vergonha), porém, não melhor que Ronald.

— Você é realmente bom nisso, hem — elogiei, pois não era má perdedora. Rony conhecia todas as peças, todas suas jogadas e todas as estratégias. Era um mestre, se eu pudesse falar alguma coisa. Merecia ter ganhado e seu sorriso de olhos brilhantes que faziam suas sardas se destacarem foi bonito. — Quero ver você e Mione jogando, iria ser épico. O melhor jogador contra o melhor cérebro.

Harry concordou que seria uma partida sem preço e Weasley, ainda sorrindo por ser reconhecido como melhor em algo, insistiu em outra partida. Cansado de perder com plateia, foi a minha vez de novo. Porém, quando não estávamos entocados na torre da Grifinória, fazíamos bola de neve com os gêmeos e visitamos a cabana quente de Hagrid. Pela noite, eu tinha Lagrum. Sem me preocupar se comia ou não (pois tinha se alimentado antes de vir e escolhido bem para poder passar uma semana comigo), eu quase não dormia. Em meio a exercícios de reflexo e lutas sérias e algumas de brincadeira (as que eu acabava tão vergonhosamente de cara no chão), acabei ficando muito boa no feitiço de reparo. Era isso ou não existiria mais dormitório.

Na manhã de Natal, a data não seria completa se o imbecil do meu melhor amigo não me sacaneasse. Acordei com algo molhado e fino dentro da minha orelha e quase quebrei o pescoço no reflexo para tirar qualquer coisa de lá. Era a língua de Lagrum, que apenas não gargalhava no chão porque cobras não riam.

— Você é um baita de um filho de uma peçonhenta, sabia disso? — Rosnei começando a me desvencilhar dele. Ainda estava em frente a lareira, queimando até agora, e enroscada em seu corpo. — Algum dia vai me acordar de forma decente? Eu nunca te acordo desses jeitos.

Porque sabe que perderia a cabeça. Agora levante e pare de reclamar, você recebeu presentes.

E realmente tinha. Não eram muitos, mas eram mais do que eu estava acostumada. Não tinha lembranças de ganhar presentes caros e numerosos desde a morte dos Lewis, pois o orfanato não tinha dinheiro para fazer do Natal de cada menina especial. Costumavam caprichar na comida e ficavam lembrando ao fieis durante um mês que haviam "cartinhas" disponíveis, mas era só. Mesmo assim, lá estavam. No pé da minha cama, pelo menos meia dúzia de pacotes: alguns grandes e outros pequenos, e outros com a aparência do embrulho tão cara e requintada que pensei em guardar e vender depois.

Ainda esfregando os olhos, deixei o banho para depois e me sentei na frente dos presentes. Lagrum se enrolou ao meu lado, em silêncio, enquanto eu separava os presentes. Havia ao menos dois retangulares e grossos que pareciam livros, outro nem tão grosso, mas tão comprido quanto, além de caixas pequenas e um embrulho simples e amarrotado. O peguei primeiro e vi que era extremamente leve e o chacoalhei, ganhando um silvo irritado de meu amigo.

Abra logo.

Mostrei a língua para ele e estava sorrindo ao abrir o embrulho com as mãos. A primeira coisa que vi foi a cor: cinza prateado. Depois, foi o material. Era feito de linha grossa, tricô. O peguei de forma decente e vi que era um suéter feito a mão, e, junto dele, uma grande caixa de barras de chocolate. Experimentei uma e o sabor explodiu na minha boca com algo que só podia ser caseiro: nenhuma máquina teria aquele ponto preciso.

Sangue e vísceras são tão melhores, isso é nojento.

Eu sabia que Lagrum estava apenas implicando, pois era isso que fazia, então dei um empurrão em seu corpo. Ele havia se enrolado em mim de novo, a cabeça descansando em meu ombro, enquanto eu colocava com cuidado o suéter em cima da minha cama. Não havia remetente e eu tentei não chorar por alguém ter tido tanto trabalho para mim. Iria coloca-lo depois do banho e revirar o castelo atrás de quem o mandou.

Lagrum foi gentil enquanto eu abria os outros presentes, beliscando minha barra de chocolate. Gentil pois não chorar foi extremamente difícil e, mesmo assim, não ganhei nenhum sermão. Logo depois do suéter e dos chocolates, abri o embrulho pardo e amarrado com barbantes. A letra em garranchos fez meu coração apertar ainda mais: para Mal, de Hagrid. Abri o papel e me deparei com o brasão de Sonserina todo entalhado em madeira. Era um trabalho extremamente bem feito, cada detalhe ali, e era quase do tamanho de todo meu braço. Segurei o brasão com força antes de o colocar de lado, o sorriso fazendo minhas bochechas doerem.

Fui para um pequeno, depois disso. Era de Blásio Zabini e havia um bilhete: minha mãe sempre diz que a primeira pessoa a te elogiar no dia deve ser você mesma. Espero que se aprecie mais com isso, eu com certeza já o faço. Não pude deixar de rir com o tom de flerte de Blás, pois era tão a cara dele! Em sua caixa, havia um delicado espelho de mão, ornamentado em prata pura e cristal. Nem mesmo eu, que era a ultima pessoa a me demorar na frente de um espelho, podia negar que era uma peça belíssima.

Não quero saber de filhotes, mocinha.

— Que nojo, Lagrum, seu pervertido — devolvi com uma careta, mas coloquei o presente vaidoso com cuidado em cima do brasão cuidadosamente esculpido. Peguei então os embrulhos pesados: eram de Mione e Pansy. Granger havia me dado um livro todo dedicado a Salazar Sonserina: tudo que o mundo bruxo conhecia de sua infância, adolescência, tempo com os fundadores, como professores de Hogwarts e depois de sua separação da escola e descendentes conhecidos. Folheei avida as paginas marcadas e Lagrum teve que me bater para largar o livro, ou teria lido até chegar ao final do livro e aos Gaut, a ultima linhagem conhecida de descentes do fundador.

Pam também me deu um livro e seu bilhete de explicação me fez enxergar com clareza seus olhos escuros brilhando de malicia e seu sorriso meio cruel: quem sabe você se identifique com alguma? Ela havia me dado o famoso e infame Diretório das Sagradas Vinte e Oito, com capítulos e mais capítulos sobre cada família que o compunha: seus lemas, seus brasões, seus membros mais famosos, propriedades e influencias. Lagrum, mais uma vez, teve que me bater para largar o livro, pois era extremamente fascinante toda aquela informação e teria ficado um bom tempo ali, lendo para entender a razão dos Black, uma família puro sangue tão britânica, terem um lema em francês.

Livros de lado, peguei uma caixa. Era leve, apesar de grande, e era de Hopkins. Desfiz o laço e ri ao ver um conjunto completo de roupas de frio: cachecol, luvas de couro de dragão, moletom, touca e até meias. As luvas eram as únicas que não estavam decoradas com o brasão de Sonserina e não vi nada daquilo como uma indireta por pegar emprestado suas coisas: Sue apenas estava querendo me dar algum presente, e eu realmente precisava de roupas próprias de frio. Não era vergonha nenhuma aceitar algo necessário, dado de coração aberto.

Por fim, apenas o presente de Daphne Greengrass. Era o menor de todos e apenas a caixa me parecia cara o bastante para se guardar de recordação. A abri com cuidado, pois apesar do tamanho era bastante pesada, e apenas e teria deixado o presente cair se fosse alguma pessoa mais estabanada. Era como uma pequena replica de Lagrum, ou quase. Do tamanho da palma da minha mão, a cobra negra enrolada chegava a brilhar de tão cara e preciosa. Seus olhinhos, duas pequenas gotas vermelhas, pareciam sangue e deixei meu amigo se aproximar dela, a língua indo varias vezes para fora enquanto farejava o presente.

Diamante. Diamante negro e granadas. Está aí um presente bem caro e bem bonito.

Lapis negrum — respondi com um sorriso, meus olhos quase sendo consumidos pelos vermelhos da cobra.

Uma parte de mim quis matar Daphne Greengrass por ter gasto tanto dinheiro comigo. Outra, a maior, colocou o presente de lado e respirou fundo. Eu não estava esperando presente nenhum e ali estava, bem no inicio da manhã, com sete das coisas mais preciosas que eu tinha na vida a partir de agora. O sentimento de culpa por não ter nada para ninguém foi substituído por um sorriso selvagem enquanto eu pulava do chão e estralava minhas costas.

— Vamos para o banho, Lagrum, bem rápido — chamei enquanto pegava todos meus presentes e os deixava em segurança em cima da cama, longe do grande corpo de meu amigo. — Temos trabalho a fazer.

Quando saímos do banho (acabou que nem tão rápido quanto eu gostaria, pois Lagrum adorava uma água), a primeira coisa que fiz foi arrumar o lugar de meus presentes. Vesti o suéter (que era muito confortável) e comi mais um pouco da minha primeira barra de chocolate, guardando o restante na parte de baixo do meu criado mudo. Em sua superfície, coloquei os livros, a cobra de diamante e o espelho de Zabini.

Junto com o suéter, vesti o cachecol dado por Sue e suas meias, que ficaram bem festivas na altura dos meus joelhos em meus coturnos. Deixei guardada minhas novas e caras luvas para usar nas aulas de poções ou quando sentisse necessidade, e peguei as de segunda mão que havia comprado e cortei os dedos fora ante de fazer um feitiço para a deixar com espinhos de metal do jeito que havia visto em uma revista trouxa. O bonito brasão entalhado de Hagrid, coloquei em cima da cabeceira de minha cama. Então, finalmente, passei a trabalhar.

Fiz primeiro os dos meus companheiros de casa, mesmo que fossem ficar guardados até quando voltassem. Para Daphy, Parkinson e Blás, segui a mesma ideia de seus presentes. Conjurei um bloco de madeira e o transformei em uma pequena cobra tingida de preto com um gorro de Natal, em homenagem a ultima conversa que tive com Greengrass, quando me pegou voltando da floresta. Para Pansy, conjurei um livro de ciências trouxa, de genética, mais especificamente: os trouxa tem essa coisa maravilhosa, acho que faria bem você ter conhecimento. Zabini ganhou um espelho, também, e para ele escrevi: gostaria de ter a sorte dessa coisinha, porém a vida é ruim assim mesmo. Sue, por último, ganhou um bloco transfigurado em um delicado violino de decoração, com notas flutuantes acima dele, pintado de vermelho como seu cabelo.

Passei, então, aos outros. Mione recebeu um pequeno conto, com capa e tudo, contando uma história exagerada e mais que dramática sobre como ela choraria se eu fosse expulsa, brincando com a primeira vez que brigou comigo. Rúbeo exigiu mais concentração: lhe fiz uma varinha. Não funcionava, claro. Era um pedaço de madeira sem valor. Mas o enchi de desenhos de guarda chuvas, fechados e abertos, e esperei que ele gostasse. Ronald me fez roubar uma almofada do salão comunal, uma que mudei a cor para vermelho e desenhei, com a própria varinha, o leão da Grifinória e a peça rei do xadrez. O enfeiticei, também, para que abrisse a boca e soltasse um rugido de tempos em tempos que fazia com que a palavra WEASLEY aparecesse no topo da almofada. Seguindo a linha da família, dei para os gêmeos um brasão com dois W interligados, com vários estalinhos saindo dele. Harry foi fácil: uma miniatura de sua amada Nimbus 2000, perfeita para se colocar na estante.

Mas ainda não havia acabado. Me controlando muito para não rir enquanto ditava, transcrevi todo o conto do Peter Pan em rolo de pergaminho, talvez dois. Não deixei de ilustrar as cenas principais, fazendo o cabelo do Capitão Gancho ficar bastante liso e adicionando uma cicatriz de raio no menino voador. Este era para Snape. Para a professora McGonagall, não era segredo que ela era uma animaga. Apesar de nunca ter visto, sabia que a professora era um gato listrado com marcas ao redor dos olhos do formato de seus óculos quadrados. Então, lhe fiz uma pequena escultura de um gato com óculos quadrados que ronronava de verdade. O ultimo presente de todos me deu mais trabalho. Não para fazer, mas para pensar. O presente do professor Dumbledore acabou sendo um conjunto completo de tricô, pois ele me parecia velho o bastante para isso.

Deixei os presentes sonserinos debaixo da minha cama e juntei dentro da minha mochila, com todo cuidado que consegui, os restantes. Lagrum havia dormido em algum momento, enrolado perto da fogueira acesa, e sorri para ele antes de subir para a Sala Comunal. Já era a hora do almoço nessa altura e esperava encontrar todos no Grande Salão. Não me decepcionei. Claro que precisei de muita força de vontade para não ir direto na comida e sim procurar meus amigos, mas não me envergonho. Aquilo era um banquete até para os padrões de Hogwarts. Cem perus gordos, todos assados, montanhas de batatas assadas e cozidas, travessas de salsichas, terrinhas de ervilhas passadas na manteiga, molheiras com uva-do-monte em molho espesso e bem temperado e, a pequenos intervalos sobre as mesas, pilhas de bombinhas de bruxo.

— Mal! Olha a Mal! — Jorge Weasley me viu de longe e sorriu para mim. — Ah, não acredito!

— Ela está com um suéter Weasley! — Fred riu com gosto. — Agora é uma de nós, sente-se aqui!

Corri para a mesa da Grifinória, pela primeira vez sem sentir o olhar dos professores em mim. Estavam muito ocupados, bebendo e rindo entre eles. Até mesmo Severo estava lá, com um sorrisinho enquanto conversava com Sprout. Me sentei com os leões, no meio de Harry e Rony e em frente a Fred e Jorge. Percy Weasley também estava lá e até sorriu para mim.

— Como você tem um suéter Weasley, Mal? — Os gêmeos perguntaram, me fazendo encolher os ombros.

— Eu não sei — respondi com sinceridade. — Eu apenas acordei e ele estava lá, no meio dos meus presentes... Ronald?

O Weasley mais novo tinha ficado cada vez mais vermelho a medida que eu falava, e só começou a vomitar as palavras quando arqueei uma sobrancelha.

— Foi a mamãe, eu... eu só... — engoliu em seco. — Eu só disse que você, que nem o Harry, não devia estar esperando nada e...

Não deixei que terminasse e fiz uma coisa que, provavelmente, iria me perseguir para o resto da vida. Dei um beijo estalado e demorado na bochecha de Rony Weasley, o que o fez ficar três vezes mais vermelho e os gêmeos baterem palma, soltando vivas e puxando uma música de casamento. Isso me fez rir, pois fez até o Percy rir, e aquele ali não ria por qualquer coisa.

— Feliz Natal, Cenoura — debochei em uma risada, fazendo ele sorrir também, ainda que envergonhado. — Tenho presentes!

A atenção logo foi desviada de Rony e seu rosto vermelho. Abri minha mochila e tirei os presentes deles, um por um, deixando os dos professores no fundo para mais tarde. Entreguei a almofada para Ronald, a mini vassoura pra o Harry e o emblema para os gêmeos, sorrindo ao ver os olhos brilhantes e sorrisos largos que apareceram.

— Eu não tinha nada para dar — comecei a explicar. — Porque achei que também não iria receber. Então acordo e vejo que me enganei, passei a manhã me virando da melhor maneira que podia... espero que gostem.

— Se gostamos?! — Os gêmeos se inclinaram na mesa, ambos me dando beijos estalados em minhas bochechas, mesmo que quase tivesse se deitado no peru para conseguir me alcançar. — Foi chocante! Vamos te retribuir!

— E, nossa! — Rony sorriu para mim enquanto observava o leão abrir a boca em um rugido, fazendo seu sobrenome aparecer. — Você acertou em cheio! Obrigado, mesmo!

— Não tenho nada para te dar — Potter parecia verdadeiramente acanhado com o presente e entendi sua situação. Ele não tinha dinheiro ou família a quem recorrer, assim como eu, e também não tinha tempo para preparar algo. Porém, algo que ele tinha era o pensamento rápido, pois sorriu para mim enquanto ajeitava os óculos. — Já sei! Não está ventando tanto hoje, que tal finalmente dar uma volta na minha vassoura?

Concordei, pois não iria ser burra de negar uma volta na vassoura mais rápida da atualidade, e, com metade de meu serviço entregue, pude me concentrar na deliciosa comida. Sem exagero, devo ter comido dois pratos recheados de batatas e peru de Natal antes deles serem substituídos pelos pudins. Todos gargalharam quando Percy Weasley quase quebrou os dentes ao morder com tudo uma foice de prata na fatia dele e eu estava feliz demais para não rir com todo mundo pelo susto que levei ao estourar uma bombinha de bruxo que fez morcegos vivos saírem voando depois de explodir com o barulho de um canhão e me cobrir de fumaça roxa, além de uma bengala preta toda lustrada que usei para cutucar Percy toda vez que falava a palavra "monitor".

— Esperem um instante! — Pedi quando todos, depois de séculos, começaram a se levantar. A maioria estava com os braços recheados de presentes das bombinhas (Potter tinha ganhado até um jogo de xadrez bruxo novinho!). Eu estava feliz com minha bengala, uma caixa grande de sapos de chocolate (que Rony comeu metade antes de eu o acertar) e um conjunto de snap explosivo. Deixei os Weasley e Harry irem para a saída enquanto disparava em direção a mesa principal, observando o rosto vermelho de Hagrid e o chapéu de bruxa enviesado na cabeça de Minerva.

— Feliz Natal, srta. Lewis! — Dumbledore me cumprimentou, risonho como nunca tinha visto. Sorri de volta para ele.

— Feliz Natal, professor –- peguei a alça da minha mochila e a coloquei no chão, sentindo meu rosto corar um pouco com a atenção do corpo docente em peso. — Eu não tive tempo de fazer para todos, mas eu tenho alguns presentes...

— Ah, Mal! — Hagrid sorriu para mim, bêbado como nunca o tinha visto, os olhos brilhando. — Presentes? Tem para mim?

— É claro que tem para você, Rúbeo! — Ri enquanto enfiava a mão na mochila e tirava minha replica de varinha e estendia para ele. — Aqui!

Hagrid pegou a varinha na mão enorme e vi, imediatamente, seus olhos se encherem de lágrimas. Devia ter sido duro ser expulso e "proibido" de fazer magia, pois se levantou em um soluço (quase derrubando a mesa no chão) e correu para me abraçar. O gigante me tirou completamente do chão e me rodou no ar, fazendo vários professores soltarem avisos para não me partir ao meio. Não liguei. Foi muito divertido para me importar com uma coisa tão pequena quanto o bem-estar da minha coluna.

— Isso são guarda-chuvas? — Professora McGonagall perguntou, olhando a varinha na mão de Rúbeo com mais atenção. Eu estava descabelada quando fui posta no chão outra vez e soltei uma risada.

— São sim, Minnie — pisquei para ela, sabendo que ela também estava alta o suficiente para não brigar comigo. — É apenas uma piada. E, agora, este é o seu.

Pus na sua frente o gato de óculos que, imediatamente, soltou um ronronar alto. A boca da professora se abriu e ela piscou os olhos várias vezes, os lábios se abrindo em um sorriso fácil pela primeira vez na minha frente.

— Oh, Lewis, isso... isso é... — Passou os dedos no gato de madeira. — É muito atencioso.

— Feliz Natal — foi minha resposta, já procurando o conjunto de novelos de lã. Os coloquei em frente ao diretor e encolhi os ombros. — Eu acho que o senhor deve ganhar muitos livros, porque todo mundo sabe que é muito inteligente. Mas você também é bem velho, e velhos costumam gostar de tricô.

Dumbledore riu para mim, alto e claro, enquanto seus olhos encontravam os meus. Eu sabia que ele estava procurando algum momento em que eu tivesse lido sua mente, mas não li, e havia apenas alegria quando ele pegou as agulhas com conhecimento.

— Saiba, Mal, que é um hobbie meu, sim — piscou um olho muito claro. — Eu estava mesmo precisando de um nojo par de agulhas, obrigado.

Sorri para ele e, finalmente, cheguei no ultimo presente. Meus olhos correram até onde meu professor da mente estava sentado, com os olhos negros em mim. Uma sobrancelha dele se arqueou enquanto eu ia, pé ante pé e com um sorrisinho cruel, até sua frente.

— Então, Sev... — ronronei para ele, ganhando seus olhos estreitos e boca torcida.

— Professor Snape para você, menina mal-educada — disparou para mim, fazendo meu sorriso se alargar.

— Certo, Sev — pisquei meus olhos para ele de forma doce, sabendo que estava ganhando pois ele já havia bebido o bastante também para a tentativa de segurar o riso ser clara. — Eu fiquei pensando na nossa ultima conversa antes das férias e cheguei a conclusão que não iria ter presente melhor.

Entreguei na frente dele, então os rolos que continham a história de Peter Pan. Snape franziu as sobrancelhas, talvez pensando por um momento que havia dado para ele tarefas para corrigir. Então pegou os rolos e desenrolou, soltando um barulho que com certeza foi uma risada estrangulada ao reconhecer a história e, principalmente, a piada com as ilustrações.

— Saia da minha frente antes que te faça engolir isso, Lewis — foi sua resposta de cara fechada e boca travada, mas nossas mentes e emoções já eram conhecidas demais e ri na cara dele, fazendo uma reverencia antes de disparar para onde os grifinórios ainda me esperavam. Quando cheguei, Harry estava com sua vassoura e foi o primeiro a falar.

— O que você deu para o Snape?

— Eu imagino, Potter, que você esteja familiarizado com a história de Peter Pan, o Capitão Gancho? — Arqueei uma sobrancelha para ele que soltou uma gargalhada alta quando entendia a brincadeira.

— Peter quem? — Ronald perguntou, uma interrogação no meio do rosto, mas dei de ombros. Esses bruxos...

— E isso importa? Vamos!

E lá estávamos nós, uma cobra em meio aos leões, todos disparando para o lado de fora do castelo. Hoje era tarde do dia de Natal e Fred e Jorge não pouparam tempo ao iniciar uma violenta guerra de neve. E com os dedos gelados e cabelo bagunçado, além da perspectiva de um passeio na vassoura de Potter, não fazia diferença se eu acertava ou era acertada. Não quando aquele era, sem sombra de dúvida, o melhor Natal da minha vida.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 17 ♥ Malfeito, feito! ♥