Corona

19 Mente Aberta


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Eu queria dizer que tudo bem quem quiser pular isso aqui, mas não tá não, então NÃO PULA, LÊ AQUI, NÃO DESCE, ISSO MESMO ♥ Gente, me desculpem mesmo //////3 Eu tô muito triste de entregar o capitulo sem ter respondido nenhum comentário, mas como eu já falei aqui eu dou mais importância ao compromisso que eu tenho com vocês. MESMO ASSIM, isso não quer dizer que eu não fique mal. Eu leio TODOS eles, entendido, todos mesmo. E dos mais curtinhos aos mais elaborados, eles fazem meu dia de uma forma que vocês não tem noção. Essa foi a última semana do ENEM e não tive tempo de responder, MAS EU VOU! Eu faço questão de deixar isso MUITO claro, pra que ninguém se ressinta de mim. Eu não sou estrelinha, tudo bem? Eu dou valor a cada boa alma que se digna a conversar comigo. Comentários do cap 17 vão ser respondidos todos HOJE, no mais tardar termino amanhã. Os comentários do cap 18 vão ser respondidos durante a semana. E os comentários que chegaram em capitulos antigos (oi, May ♥), vão ser intercalados. Por falar nisso, obrigada a Luiza Avelino, Ella Branco (Bella ♥), Ero Hime (May ♥), Lua Helena, Asuna wonderland e Caique Morningstar pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Quando todos já estavam encharcados e cansados, foi quando Potter decidiu que era hora de eu dar minha volta. Então, enquanto os Weasley já iam para a torre da Grifinória para se aquecer, eu e ele fomos em direção ao campo de Quadribol. O menino não hesitou por um segundo ao estender a vassoura para mim.

— Sabe montar, certo?

— Acho que fui nas mesmas aulas de voo que você, Cicatriz — devolvi com um sorriso. — Ao menos, na primeira vez.

— Certo, desculpe— Harry me devolveu um sorriso, talvez um pouco sem graça dessa vez. — Não precisa dar um impulso forte, ela é bem mais sensível do que as vassouras da escola.

Balancei a cabeça para seu conselho e observei ele dar dois passos para trás. Passei minhas pernas pelo cabo da vassoura e impulsei para cima. Potter estava certo, flutuei quase dois metros sem o menor esforço e então fiz todas as coisas que fariam Madame Hooch enfartar do coração em um primeiranista. Quero dizer, eu fiz ziguezagues, voltas, loopings, mergulhos e rolamentos o suficientes para começar a ouvir Potter gritando do campo, me mandando ter cuidado. Claro que seu desespero apenas me fez rir, e só aterrissei de novo quando parei de sentir completamente a ponta dos meus dedos.

— Caramba, Mal! Foi incrível! — Harry sorria enquanto eu desmontava de sua vassoura, os cabelos desarrumados e o a respiração arfante. — Você tem talento! Devia entrar para o time!

— Você sabe que eu entraria na sua maior rival, não sabe? — Provoquei com uma sobrancelha arqueada, fazendo-o rir.

— É verdade, esqueça, não chegue perto do time — rimos enquanto eu passava a mão pelo cabelo, tentando dar alguma ordem neles. — Sabe, eu estava pensando...

— Isso é perigoso.

— Engraçadinha — devolveu ajeitando seus óculos. — Você ainda não me explicou... você sabe. O que aconteceu no Dia das Bruxas.

Toda a euforia do voo foi substituída por uma sensação gelada que não tinha nada a ver com a neva em volta de nós. Meu sorriso caiu pela metade enquanto observava seus olhos muito verdes e igualmente concentrados em mim. Não tínhamos tido tempo de ter essa conversa. Até agora.

— Em primeiro lugar, sinto muito — comecei encolhendo os ombros. — Por ter entrado na sua cabeça assim. Foi isso que fiz. Dumbledore me explicou que se chama legilimência, é uma espécie de magia de permite que você leia as emoções e os pensamentos de outra pessoa. Por algum motivo, eu tenho um dom natural, quero dizer, eu não preciso fazer nenhuma magia de fato. Eu só... escuto, na maior parte do tempo. Mas as vezes, como naquele dia, eu faço de propósito.

Inclusive, dei tudo de mim para não fazer outra vez. Tudo porque Harry achou que era uma excelente ideia ficar em silêncio, com aqueles olhos verdes muito intensos pregados nos meus. Com os pés fincados no chão e as mãos dentro dos bolsos, devolvi o olhar dele da melhor forma que pude. Potter era bonito. A comida de Hogwarts o havia tirado da subnutrição e, se ignorasse as calças largas seguradas pelo cinto, o suéter Weasley lhe caia bem: o verde-claro combinando com o verde sonserina dos olhos. Os cabelos, muito pretos, ainda tinham um pouco de neve da guerra e segurei minha mão para não os bagunçar ainda mais, já pareciam, por si só, que cada mecha crescia para um canto.

— Não está fazendo de novo, está? — Finalmente falou, testando as palavras com cuidado. Não o culpava.

— Não — balancei a cabeça. — É uma violação, sei disso. Tem um motivo para, normalmente, seus pensamentos e emoções não chegarem a conhecimento alheio: são seus. Então eu... eu me fiscalizo com vocês. Hermione, Ronald, os gêmeos, você... eu poderia ouvir tudo a todo segundo, mas seria errado. Severo tem me ensinado...

— Snape? — Harry me interrompeu, os olhos agora quase do tamanho de suas lentes redondas. — O professor Snape?!

— Acho que é esse o sobrenome dele — retruquei, ignorando sua crescente agitação. Tive que apertar minhas mãos para controlar a vontade de sacudir o menino e gritar para controlar suas emoções. O garoto era um vulcão. — Ele tem me ensinado, a mando de Dumbledore. Tanto a me controlar, tanto a me proteger. Disse que, se invado com tanta facilidade, tenho que ter a decência de saber me resguardar.

Snape?! — A boca dele estava aberta. — Não acredito! Mal! Ele é perigoso! Está tentando roubar a escola!

— Como pode ver, eu tenho permanecido inteira— devolvi, sem ânimo para lidar com sua perseguição ao homem. Respirei fundo e esbocei um sorriso. — Vamos, Cicatriz, estamos congelando, vamos voltar para o castelo.

No caminho, consegui desviar sua atenção o suficiente para mais algumas informações. Era mais fácil ler as coisas com o contato dos olhos, mas não era necessário, e a única defesa era a magia da oclumência, a qual Snape se mostrava não apenas mestre em poções. Claro que Potter não relaxou nada em questão a Severo e me olhou de cima a baixo varias vezes, como se quisesse ver se eu estava mesmo inteira. No final, quando chegamos ao saguão de entrada, me fez a pergunta.

— Porque não contou para os outros, também? — Arqueou uma sobrancelha. — Mione e Rony, eles iriam entender.

— Eventualmente — franzi as sobrancelhas, soltando o ar devagar. — Eu não quero assustá-los, entende? Não quero que eles fiquem na minha companhia, sabendo que eu posso ou não estar os lendo, pois ainda não tenho controle total. Quero os dar certeza absoluta que tenho tudo sob controle.

— Mas disse para mim — insistiu. — E eu acho que te conheço o bastante para saber que o fato de ter entrado na minha cabeça não necessariamente te obrigaria a abrir o jogo.

Isso me fez rir. Não tão alto e nem por tanto tempo, mas ainda uma risada. Sem ligar mais, espantei a neve restante de seu cabelo e lhe pisquei o olho.

— Acho que se chama "voto de confiança" — ainda tinha um sorriso pequeno, apreciando a forma como suas bochechas ficaram em um tom de rosa adorável. — Não faça com que eu me arrependa, Potter.

— Nunca ousaria — me respondeu com um sorriso, suas emoções mais calmas e seus olhos brilhando. Então pareceu indeciso por um momento ou dois, mas ainda era Natal. Deu um passo e, mesmo segundo a vassoura, conseguiu me dar um abraço nervoso. — Feliz Natal, Mal.

Mais tarde, seca e aquecida na minha cama, cheguei a adormecer com uma parte de Lagrum enrolada em mim e com os olhos focados na cobra de diamante no meu criado-mudo. Por um momento, naqueles instantes confusos que antecedem a inconsciência, cheguei a pensar que sua cabeça se moveu. Apenas um pouquinho, apenas para o lado, e então parada outra vez. Os olhos mentem, cheguei a pensar, mas ainda assim sonhei com uma grande serpente se enrolando em mim. Uma que não era Lagrum, uma que tinha os olhos vermelhos.

A despeito de um sonho esquisito, o resto das férias foram tão agradáveis quanto o inicio delas. Dias com os grifinórios e noites com Lagrum me permitiram viver uma vida quase de fantasia. Como acordado, Potter não disse uma palavra sobre mim para Weasley e eu me mantive longe de sua mente, mesmo que suas emoções e pensamentos tivessem ficado bastante turvos e agitados durante três dias inteiro após a noite de Natal. Seja o que for, não era assunto meu, e respeitei seus segredos assim como fez comigo.

No sábado, dois dias antes do período letivo recomeçar, foi hora de me despedir de tanta mordomia. Os alunos chegariam no dia seguinte e meu amigo não poderia mais estar no meio do dormitório. Então, sem necessidade de se fazer surpresas e penalizada em fazê-lo nadar pelo esgoto, repetimos o ato da primeira noite, andando lado a lado pelos corredores até a saída do castelo e então, até a floresta. A despedida foi curta e logo eu já estava outra vez dentro do meu dormitório. Não deixei de pensar que, completamente sozinha, as paredes de pedra me pareceram frias, pela primeira vez.

Porém, a sensação não durou quase nada. Na manhã seguinte, quando o Expresso de Hogwarts retornou, fui novamente com Hagrid em direção a estação de Hogsmeade, eu e Canino apostando uma corrida sem vencedores, uma vez que tínhamos que parar toda hora para esperar o grandalhão. Eu estava lá quando a pequena multidão de alunos tomou conta da plataforma e fiquei na ponta dos meus pés até conseguir achar alguém.

A primeira que vi foi Greengrass, e não demorou nada a achar os outros. Parkinson e Hopkins estavam com ela, assim como Malfoy e Zabini, Crabbe e Goyle e Nott. Fui em direção a eles, recebendo um sorriso das minhas companheiras – e de Blásio – que fiz questão de retribuir.

— Mal! Feliz Natal! — Daphne me cumprimentou com um abraço rápido. — Como passou as festas?

— Foi maravilho — respondi enquanto abraçava as outras meninas e Zabini, que se afastou de Draco para vir até mim, me arrancava do chão também. — Olhe essas mãos, Blás! Elas precisam estar aí para abrir seu presente!

— Agora falou minha língua, Mal! –- Zabini riu enquanto me colocava de volta no chão, seu sorriso largo e bonito se abrindo para mim. — Espero que tenha gostado do meu.

— Se gostei? Faça-me o favor — soltei uma risada antes de soltar um suspiro profundamente apaixonado, colocando as mãos sobre o coração. — Meu coração pertence apenas a ti agora.

— Que palhaçada é esta? — Malfoy finalmente nos alcançou, a cara fechada e as sobrancelhas loiras torcidas. — O que está acontecendo?

— Eu e Mal estamos trocando juras de amor, Draco, não está obvio? — Tinha um brilho quase cruel nos olhos escuros de Blás enquanto ele ia para meu lado e, cautelosamente, passava os dedos no meu cabelo. — Vamos nos casar na primavera!

— Mas, Blás! — Bati o pé para ele, afinando minha voz em varias oitavas. — Você tinha prometido que iria ser no verão!

— Isso é ridículo — havia uma vermelhidão engraçadíssima no rosto do pequeno lorde a medida que se concentrava nas mãos de Zabini em mim e nas risadas (cada vez mais altas e histéricas) das meninas à nossa volta. — Vocês não podem se casar.

— Agora você está tentando controlar o amor, Malfoy? — Daphne, como eu adorava essa menina, se intrometeu, balançando a cabeça como se estivesse muito decepcionada.

— Eu mesma vou escrever a letra da marcha nupcial! — Sue bateu palmas, quase se dobrando de rir. — E a valsa principal!

— Estarei lá para pegar o buquê — Pansy se apoiou do meu outro lado, uma sobrancelha arqueada. — E então posso fazer uma poção com as pétalas para você, Draco, quem sabe assim não tira a sorte?

Draco Malfoy não respondeu. Apenas nos lançou um daqueles olhares gelados em que era tão bom e seguiu caminho, acompanhado de perto por seus asseclas. Zabini tirou as mãos quase imediatamente de mim, quase, e piscou um olho, ainda com um sorriso enorme na cara.

— Não sabe o quanto é bom irritar ele por causa disso.

— Disso o que? — Arqueei uma sobrancelha, ao que o garoto encolheu os ombros, fazendo um ar inocente que não lhe cabia nem quando recém-nascido.

— Nada, Mal, nada— soltou uma risadinha.— Mas, então, você disse presentes?

— Disse — estreitei meus olhos para ele, uma parte de mim se afiando a grande tolice que o sorrisinho de Blásio insinuava. Não lhe disse isso, claro, apenas porque avistei o armado cabelo de Hermione Granger, e sorri. — Um instante.

Avancei pela plataforma e toquei, com as pontas dos dedos, um dos ombros de minha amiga. Não havia mais sentido algum de enterrar a certeza dentro de mim, não depois do Natal. Isso me fazia sentir bem, com uma sensação estranha e confortável na barriga, como se estivesse suspensa no ar. Esperava que não caísse.

— Mione, sua trapaceira! Não me disse que iria me dar um presente! — Exclamei, fazendo-a soltar uma risada alta no mesmo instante enquanto me abraçava.

— Você gostou, Mal? Eu queria te fazer uma surpresa — entregou antes de se separar de mim, o sorriso ainda nos seus lábios.

— Acredite, fui surpreendida — balancei a cabeça. — Por isso tenho a obrigação de retribuir o favor. Dei meu jeito e te fiz um presente.

— Mal, não precisava!

— Colha as consequências de seus atos, Granger — rebati. — Além do mais, vai contar como aniversário, também. Agora vem, estamos indo para o castelo.

Pela primeira vez, o olhar de Hermione correu até onde meus outros companheiros ainda estavam parados, me esperando, todos de olho em mim e minha interação com a Grifinória. Minha amiga franziu suas sobrancelhas e mudou o peso das pernas.

— Eu não sei se é uma boa ideia...

— Besteira — retruquei, engajando o braço dela. — Eles não vão morder... com força.

Gargalhei de seus olhos arregalados e talvez a tenha, literalmente, arrastado em direção as outras cobras, mas não me arrependo. Mantive meu queixo erguido e minha coluna reta, da mesma forma como todos eles, e olhei para o rosto de cada um, os desafiando a dizer alguma coisa, qualquer coisa. Seja pela lembrança do ataque à Malfoy seja por outro motivo, nenhum deles demonstrou reação negativa alguma além de uma sobrancelha arqueada (eu vi isso, Parkinson).

— Ei, é a Granger — Zabini se adiantou quando os alcançamos. Abriu um dos seus famosos sorrisos e beijou as mãos da menina. — Espero não ter errado o nome, mas os professores te elogiam tanto que não acho ser possível.

— E agora você já está nos trocando — Sue chiou, falsamente magoada, enquanto lhe dava uma cotovelada para largar a pobre Hermione, vermelha e hesitante.

— Mione, esses são meus amigos de casa — apresentei ao seu lado. — Blásio Zabini, Sue Hopkins, Pansy Parkinson e Daphne Greengrass.

— É um prazer — Daphy cumprimentou com um sorriso agradável. — Não sei o motivo da Mal nunca ter nós apresentado.

— Talvez achasse que iriamos te tratar mal — Pansy cantou. — Que ideia absurda. Todos aqui temos apreço pela vida.

— Pare com isso, Pam, ou ela vai pensar que sou ruim— ronronei, com um sorriso afiado. Algo nele fez o veneno de Parkinson recuar, então me virei para Mione. — Vamos andando? Assim temos mais tempo de por tudo em dia. Como foi de férias?

Minhas férias haviam sido fenomenais, e apenas a certeza e a saudade delas me fez não invejar meus amigos. Hermione, que não demorou a demonstrar que era uma leoa corajosa, andando de queixo erguido e sem se apoiar em mim, contando sobre o tempo com seus pais e como sentia falta deles, pois enviar cartas não era a mesma coisa. Contou em como o mundo dos trouxas estava diferente, agora que já não mais parte dele, mesmo que permanecesse igual em tudo.

— É como ver tudo através de um vidro — encolheu os ombros. — Consigo ver claramente, mas mesmo assim... acho que meus pais perceberam, também, por isso não saímos muito. Ficamos concentrados em nós e tentei contar para eles o máximo que consegui, entende, sobre meu mundo. Ah! Eles perguntaram de você, querem saber se pensa em visitar.

Não pensava. Não de maldade, e sim porque nunca me ocorreu que os Granger se disponibilizassem a me receber. A ideia me fez sorrir, pois nunca tive qualquer chance de "visitar" pessoa que seja. Era muito nova quando morava com os Lewis, e depois... talvez conseguisse autorização de Joan, se a mulher ainda estivesse viva quando voltasse. As órfãs não podiam sair dos terrenos do orfanato, mas a abadessa me conhecia o suficiente para saber que, uma vez tendo para onde ir, eu pularia os portões se precisasse.

A conversa seguiu bem, por incrível que pareça. Meus amigos de casa haviam passado férias fantásticas, mas parecidas: todos em suas mansões, com mordomias e luxo, ganhando montanhas de presente e participando de banquetes inteiros apenas para meia dúzia de pessoas. Havia tido uma festa de Natal na Mansão Malfoy, o que para mim me pareceu a tentativa de encher uma única mesa com todas aquelas famílias pequenas e solitárias.

Hermione, de forma incrível, não falou apenas comigo. Zabini tinha charme exalando de seus poros o suficiente para fazê-la se sentir confortável em falar de sua vida como trouxa, e Daphne ficou particularmente interessada na profissão de seus pais. Era algo de outro mundo (o que não deixava de ser mentira) existir uma profissão dedicada apenas para cuidar dos dentes dos outros, sendo que era algo tão facilmente resolvido com magia. Sue, que viajava muito, contribuiu com algumas suposições do que ouvia ou via de longe, sendo corrigida aqui e ali. A única que não falava muito foi Parkinson, mas não me importei nada com seu silencio. Era melhor que mantivesse a boca fechada se não tinha nada de bom para dizer.

Quando chegamos ao saguão, prometi a Granger que lhe entregaria seu presente durante o almoço e me despedi. Ela foi embora, quase correndo para encontrar Harry e Rony, depois de soltar um educado "tchau" para os outros. Desci com meus amigos em direção à masmorra com uma sensação de leveza agradável nos ombros. Apesar de não ser tola para achar que uma simples troca de palavras era o sinal de uma possível amizade, estava satisfeita com a existência dessa troca de palavras, ainda mais feita de forma tão agradável e fluida.

Fiz todos esperarem na sala comunal, ignorando a presença expansiva de Malfoy, que já havia voltado a tomar conta do lugar. Desci correndo para meu dormitório e peguei seus presentes, subindo outra vez e os entregando um por um antes de observar suas reações. Sue soltou um gritinho quando seu violino soltou as primeiras notas e Parkinson abriu a boca em um "o" perfeito, completamente perdida sobre o livro em suas mãos. Blásio soltou uma risada alta com meu bilhete antes de me tascar um beijo na bochecha e me prometendo seu amor, me deixando ser fortemente abraçada por Daphne assim que saiu da frente.

— Eu disse que não tinha acabado — Greengrass sussurrou para mim, fazendo uma risada subir pela minha própria garganta.

— Família, Daphy... ou quase isso.

Se reparei nos olhos grandes de Draco em cima de nosso grupinho? Claro que reparei. Inclusive, lhe dei meu melhor sorriso quando nossos olhos se encontraram, gargalhando alto a ver seu rosto virar com rapidez, o nariz arrogante para cima. Depois disso, ignorar sua presença não foi difícil: a narração das férias de meus companheiros, agora com muito mais detalhes, me absorveu o suficiente. Era fantástico imaginar casas e lugares tão bonitos, construídos para impressionar e para permanecer em pé com seu ouro e joias.

Obviamente, logo aprendi, não se era possível ignorar aquele parvo loiro por muito tempo.

As nevascas de dezembro deram lugar as chuvas torrenciais de janeiro. As águas das profundezas do lago estavam quase sempre turvas e agitadas e a floresta era um grande lamaçal, me fazendo ter muito mais cuidado e problemas toda vez que ia visitar Lagrum – que agora passava mais tempo nos galhos das arvores do que no chão e, mesmo assim, ainda conseguia me sujar.

Com a volta de Olívio Wood, eu, sinceramente, não entedia como Potter ainda estava de pé sem sequer uma gripe. Com chuva fraca ou quase furacões ele fazia o time da Grifinória ir para o campo. Mais de uma vez o vi andando completamente ensopado em direção a torre, sujo de barro e com os braços tremendo, e ainda sim, evidentemente feliz. Era claro que jogar o fazia bem, mas imaginava até quando sua saúde iria concordar com todo esse fanatismo.

Porém, com a volta das aulas, eu tinha coisas mais importantes para me preocupar do que o sistema imunológico do Menino Que Sobreviveu. Além da montanha de deveres que os professores não perderam tempo em passar, eu havia voltado a me dedicar ao meu projeto particular. Sabia que precisaria arrancar uma autorização de Snape, ou seria obrigada a invadir a Seção Reservada. De qualquer forma, todos os caminhos me levavam até a biblioteca e era justamente para lá que estava indo quando, bem no saguão que levava as outras escadarias, quase trombei em Neville Longbottom.

Era verdade que não via o garoto de perto desde quando ajudei a carrega-lo para fora da aula de voo, mas ele sempre me pareceu bem, de vista. Tão atrapalhado e gorducho como sempre, um desastre onde quer que fosse por causa de todo seu nervosismo. Podem imaginar minha surpresa quando, depois de tanto tempo, tive o menino em meus braços de novo – com o mesmo rosto vermelho e os mesmos olhos marejados.

— Neville! Merlin, o que...?! — Então percebi o motivo do garoto ter quase desabado em mim. Quero dizer, Longbottom era estabanado, mas não era de seu feitio se deitar em outros seres humanos no meio do caminho. Suas pernas estavam completamente presas, como se alguém as tivesse juntado com fita adesiva... ou, mais provável, magia. Era Locomotor Mortis, o Feitiço da Perna Presa. Uma azaração infantil e tosca, criada e usada unicamente para humilhar o adversário (sinceramente, quem prendaria as pernas de alguém em um duelo?! Ainda se podia usar as mãos, que estupidez). Justamente por o desconsiderar, o contrafeitiço da azaração havia ido para o fim da minha lista de prioridades. Burra arrogante.

— Mal! — O menino ofegou, claramente com dificuldade de falar. Se pelo esforço de estar pulando se pela humilhação, já não sei. — Eu... eu...

— Vamos— segurei-o melhor, equilibrando seu corpo da melhor forma que podia, o guiando pelas escadas.— Vou te levar para sua torre. Vamos.

Um animal antigo se agitava dentro de mim, um monstro adormecido há meses. Eu o via abrir os olhos lentamente, levantar a cabeça e colocar a língua para fora, provando ao ar, antecipando o gosto de sangue. Covardia. Covardia pura e vil. Neville era inofensivo até mesmo para uma mosca, tão atrapalhado que era. Era uma vergonha que qualquer um levantasse a varinha para ele, de tão injusta que seria a luta. Parte de mim queria chacoalhar o grifinório até lhe obrigar a demonstrar um pouco da coragem de sua casa, mas ainda existia razão o suficiente para me mandar apenas concentrada na minha respiração e em mantê-lo em pê.

Quando chegamos ao quadro da Mulher Gorda, ela arqueou uma sobrancelha para mim. Era claro que ela (e todos os quadros lá dentro) sabiam de minhas muitas violações de regras durante o período natalino. Porém, provavelmente tocados pelo feriado ou qualquer coisa piegas do gênero, permitiram que eu me divertisse. Mas agora já não era mais Natal e, sabem de alguma coisa? Gostaria de ver ela me bloquear.

— Pena de Hipogrifo— Neville conseguiu falar, ofegante e se agarrando a mim, e acho que só por isso o quadro permitiu minha passagem. Assim que passamos pelo buraco do retrato e estávamos perto o suficiente das cadeiras, o menino se soltou de mim, indo aos pulos e tombos até uma da poltronas e se largando lá, sob a gargalhada geral de seus companheiros de casa (estou mais que decepcionada com vocês, Potter e Weasley) e os olhares arregalados de outros (espera, esses eram para mim).

A única que não riu havia sido Hermione, provando ser a mais sensata garota que eu conhecia. Ela ficou em pé de um salto, saindo do lado de um Ronald sentando com seu xadrez e um Potter encharcado por ter recentemente chegado do Quadribol, apontou a varinha para o menino e fez um contrafeitiço. As pernas de Neville se separaram e ele se endireitou, tremendo.

— O que aconteceu?— perguntou Hermione, a voz branda e os olhos duros em seus amigos, que imediatamente tiraram qualquer resto de sorriso do rosto e vieram até nós. Então, olhou para mim. — Mal? Você...

— Encontrei ele no saguão de entrada e o trouxe logo para cá — expliquei, tendo muito sucesso em ignorar os olhares fixos e mim e em meu uniforme verde e prata no meio da sala comunal dos leões. — Também adoraria saber o que aconteceu.

— Malfoy — o nome fez meu monstro despertar completamente, as presas de fora. Estralei as juntas dos dedos. A voz de Longbottom tremia quase tanto quanto ele. — Encontrei-o na saída da biblioteca. Ele disse que estava procurando alguém em que praticar o feitiço.

— Vá procurar a Profa. Minerva! — Hermione insistiu de imediato. — Dê parte dele!

— Não quero mais confusão — o menino sacudiu a cabeça, infeliz.

— Você tem de enfrenta-lo, Neville! — Rony disse energético, antes que eu mesma pudesse abrir a boca. — Ele está acostumado a pisar nas pessoas, mas não há razão para se deitar aos pés dele para facilitar!

— Não precisa me dizer que não sou bastante corajoso para pertencer à Grifinória. Draco já disse isso — as palavras engasgadas de Neville me fizeram trincar os dentes.

— Para o fundo do Inferno o que aquele monte de estrume disse ou acha — rosnei entre os dentes. — Draco Malfoy é um idiota miserável e você não devia uma palavra sequer do que sai da boca dele, é apenas lixo.

Harry, se redimindo por ter rido quando viu o colega, pegou do bolso de suas vestes um sapo de chocolate e entregou ao garoto. O que foi ótimo, pois Neville tinha cara de quem iria abrir um berreiro a qualquer instante.

— Mal está certa, Neville — Harry disse. — Você vale doze Dracos. O Chapéu Seletor escolheu você para Grifinória, não foi? Ninguém além daquele chapéu velho sabe onde você pertence ou não.

A boca de Longbottom se contraiu num sorrisinho enquanto desembrulhava o sapo.

— Obrigada, Harry... pessoal, todo mundo... Acho que vou para a cama... Você quer o cartão, você coleciona, não é?

Quando o menino (que agora podia andar com as duas pernas outra vez) se afastou em direção ao seu dormitório, Potter abaixou o olhar para a carta de Bruxo Famoso que havia ganhado.

— Dumbledore, outra vez. Ele foi o primeiro que...

E soltou uma exclamação. Olhou imediatamente para o verso do cartão com uma pressa quase febril, então para nós.

Encontrei! — Murmurou. — Encontrei Flamel! Eu disse a vocês que tinha lido o nome dele em algum lugar! Li-o no trem a caminho daqui. Escutem só isso: O Prof. Dumbledore é particularmente famoso por ter derrotado Grindelwald, o bruxo das Trevas, em 1945, e ter descoberto os doze usos do sangue do dragão, e por desenvolver um trabalho de alquimia em parceria com Nicolau Flamel.

Hermione ficou de pé de uma vez só (pois havia se sentando nesses pouquíssimos segundos) e parecia ainda mais doente que Potter. Sinceramente, não a via tão animada desde quando recebemos as notas dos primeiros deveres ou, antes disso, no dia do embarque no Expresso de Hogwarts.

— Não saiam daqui! — e saiu escada acima em direção ao dormitório das meninas. Permaneci onde estava, ainda ignorando os cochichos e aproveitando minha sorte pela própria McGonagall não ter aparecido para me tirar de sua torre pela orelha. De qualquer jeito, mal tivemos tempo de nós olharmos com uma interrogação na testa antes que Mione reaparecesse com um enorme livro nos braços. — Nunca pensei em olhar aqui! Tirei-o da biblioteca há semanas para me distrair um pouco.

— Distrair? — Pelo tom, Weasley tinha grandes queixas sobre a forma como a amiga se distraia, mas Hermione estava tão empolgada que apenas mandou que se calasse, enquanto procurava freneticamente entre as páginas, resmungando para si mesma de vez em quando. Finalmente, encontrou o que procurava.

— Eu sabia! Eu sabia!

— Já podemos falar? — Ronald estava de mal humor e, como Mione não lhe deu resposta, eu mesma me assegurei ao esbarrar em seu ombro.

Nicolau Flamel — sussurrou ela como se estivesse em um teatro. — é, ao que se sabe, a única pessoa que produziu a Pedra Filosofal.

Senti como se os carpetes e tapetes macios da torre dos leões tivessem sido puxados sob meus pés. A Pedra... Santo Salazar, isso era grande. Era enorme. Era perigoso em um nível... Eu já tinha lido sobre ela, principalmente nos livros que tinha descoberto por conta da minha pesquisa. O elixir da vida, a mina de ouro...

— A o quê?— Potter e Weasley, sempre prontos para provarem sua ignorância. O pequeno sorriso que Mione tinha ao ver minha reação tremeu de exasperação quando ouviu isso, fazendo-a revirar os olhos.

— Ah, francamente, só a Mal sabe ler aqui? — Bufou. — Olhem, leiam.

Ela empurrou o livro para os dois, mas mesmo assim não resisti e li o trecho junto com eles, apenas para ter certeza...

O antigo estudo da alquimia preocupava-se com a produção da Pedra Filosofal, uma substancia lendária com poderes fantásticos. A pedra pode transformar qualquer metal em ouro puro. Produz também o Elixir da Vida, que torna quem o bebe imortal.

Falou-se muito da Pedra Filosofal durante séculos, mas a única pedra que existe presentemente pertence ao Sr. Nicolau Flamel, o famoso alquimista e amante da ópera. O Sr. Flamel, que comemorou seu sexcentésimo sexagésimo quinto aniversário no ano passado, leva uma vida tranquila em Devon, com sua esposa Perenelle (seiscentos e cinquenta e oito anos).

— Viram? — Hermione perguntou, ainda muito animada, quando terminamos de ler. Não era para menos. Era uma grande descoberta. Era nossa grande resposta! — O cachorro deve estar guardando a Pedra Filosofal de Flamel! Aposto que ele pediu a Dumbledore que a guardasse em segurança, porque são amigos e ele sabia que alguém andava atrás dela, esse é o motivo por que Dumbledore quis transferir a pedra de Gringotes.

— Uma pedra que produz ouro e não deixa a gente morrer! — Harry exclamou. — Não admira que Snape ande atrás dela! Qualquer um andaria.

— E não admira que não conseguíssemos encontrar Flamel em Estudos dos avanços recentes em magia —- Rony completou. — Ele não é bem recente, se já fez seiscentos e sessenta e cinco anos, não é mesmo°

Eu ia retrucar, não o comentário desnecessário de Ronald, mas sim a obsessão de Potter em perseguir Snape. Eu não via motivo nenhum do homem ir atrás de vida eterna e ouro. Essas me pareciam as últimas coisas que o professor buscava na vida, mas não tive tempo. Percy Weasley apareceu, vermelho e esbaforido, para me mandar embora. Era claro que, pelo tempo que passei com ele no Natal, não se sentiu confortável, mas era sua obrigação como monitor.

— Poupe o fôlego, Weasley, já estou de saída — interrompi antes que pudesse falar qualquer coisa, acenando em despedida para meus amigos, o mostro dentro de mim se remexendo, indo de um lado para o outro com as presas de fora, com sede de sangue. Deixei o sorriso dele se tornar o meu, e que meus olhos assumissem a cor que queria reivindicar. — Tenho contas a acertar.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 17 e 18 ♥ Malfeito, feito! ♥