Corona

20 Duelo de Vontades


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Nada para falar aqui, AINDA BEM ♥ Comentários do cap 19 vão ser respondidos durante a semana ♥ Por falar nisso, obrigada a Ella Branco (Bella ♥), Luiza Avelino, Princess Rapunzel Sunny Spring, Amanda Pêra, Lua Helena e GRT pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Eu estaria mentindo se dissesse que nunca o senti antes.

Ele – meu pesadelo, meu monstro, meu bicho-papão. A criatura sombria que rastejava dentro de minhas entranhas, ameaçando rasgar minha pele e devorar minha alma. Talvez tenha sempre estado comigo, mesmo que me lembrasse tão pouco de sua presença em meus anos mais ternos. Mas estava, pois, nada no mundo simplesmente surge de uma hora para outra. Ele foi se construindo, se alimentando e crescendo a cada dia, a cada pequeno pensamento, a cada pequeno gesto... até se soltar.

A noite em que minhas mãos se mancharam para sempre um perdi um pedaço de mim para ele. A noite em que meus olhos viraram uma assinatura e meu corpo se marcou, se recusando a me deixar esquecer. Podia senti-la agora, a maldita marca, queimando em cima do meu coração, muito mais forte e insistente do que vinha me acostumando. Era costume senti-la arder quando me irritava, quando chegava ao ponto de o mundo ficar vermelho. Porém, assim como meus olhos, costumava ser temporário.

Mas não agora.

Minha agitação foi o bastante para despertar Lagrum, que se mexeu e silvou da floresta, ameaçando vir até mim. Proibi, pois nada de bom sairia de sua aparição. Eu iria até ele quando acabasse, para lhe acalmar ou para o recolher e voltar ao mundo dos trouxas, já não sei. A perspectiva de ser expulsa não era nada agradável, mas eu tinha uma promessa a cumprir. E eu era alguém de palavra, quando a dava.

Encontrei Draco Malfoy ainda rindo nas masmorras, na companhia de seus seguidores sem cérebro. Crabbe, Goyle e Nott. Todos eles amontoados perto da entrada da sala comunal, ouvindo qualquer bobagem que seu líder tinha a dizer. Puxei minha varinha do meu coturno, meus olhos se concentrando na figura loira que ainda não tinha me visto. Geralmente, não atacava ninguém que sequer estivesse olhando em minha direção. Mas Malfoy não tinha qualquer pingo de honra ou dignidade, logo eu também não deveria ter.

Apontei a varinha para ele e agradeci novamente a Garrick por ser tão bom no que faz. Não precisei falar, a varinha me entendeu, entendeu minha magia. O feitiço Alarte Ascendare disparou em direção a Draco, o acertando em cheio e o lançando para cima antes que caísse com violência no chão. Os sorrisos de seus companheiros morreram e eu tinha pouquíssimo tempo antes da confusão se alastrar. Estávamos perto da sala de Snape e em frente a nossa sala comunal – não iria demorar até alguém aparecer.

— Você vai morrer, Lewis — Crabbe rosnou, os olhos cruéis mirando em mim. Lhe devolvi um sorriso suave, meus olhos brilhando no mundo vermelho enquanto a marca em meu coração queimava. Hoje, eu atenderia seu desejo. Apontei minha varinha para ele, também, e o Immobulus o fez congelar no lugar. Tão parecido com o Feitiço do Corpo Preso, mas muito mais prático. Joguei também em Goyle, e então me concentrei em Malfoy outra vez. Ele já havia levantado, com a varinha na mão e os olhos brilhando de ódio, empurrando Theodoro para longe.

— Eu te fiz uma promessa, Malfoy — ronronei. — Eu disse para não me ofender e manter sua repugnante existência apenas para quem interessasse a reconhecer.

— Não me lembro de ter feito alguma coisa contra você, Lewis— ele rosnou de volta, os dentes trincados e a varinha apontada para mim. Balancei a cabeça para ele, impaciente.

— Considero a ação covarde de atacar um menino mais fraco uma ofensa pessoal.

Seus olhos gelados se estreitaram, a postura reta e o cabelo tão milimetricamente arrumado para trás todo bagunçado. Não demorou a apontar a varinha para mim, gritando o feitiço das cócegas, Rictusempra, que consegui desviar unicamente pelos malditos botes de Lagrum. Me amaldiçoei por não me lembrar de nenhum feitiço defensivo e culpei meu histórico enorme de não levar lutas longas – preferia bater com o máximo de força que conseguia e não dar chances para revanche.

Infelizmente, não seria o bastante agora. Draco não era um leigo, e não esperava que fosse. Vindo de uma família bruxa tradicional, seus pais provavelmente o ensinaram algumas coisas antes de pisar em Hogwarts – e, considerando a fama de quem eles eram, principalmente o pai, imaginava que algumas poderiam ser muito mais feias do que cócegas. Apontei minha varinha, lembrando do feitiço das pernas loucas, algo tão infantil que ele deveria estar familiarizado: Tarantallegra. E estava. Porém, isso não foi o bastante para o garoto se render e, ainda com as pernas balançando de um lado para o outro, urrou seu ultimo feitiço em minha direção: Flipendo.

O feitiço do empurrão me acertou com tanta, tanta força que experimentei a sensação de voar e bater nas paredes de pedra da masmorra. Não consegui me esquivar desse e Malfoy estava com ódio o suficiente para fazer com que um feitiço que, geralmente, não fazia tanto estrago, ter a potência de uma bomba. Senti a dor do impacto, o ar saindo dos meus pulmões e o sangue na boca por ter cortado minha língua ao mordê-la. Também ouvi o estrondo das armaduras que derrubei no chão, mas não tinha tempo para isso.

A adrenalina e a queimação em minha pele foram o bastante para me obrigar a levantar, mesmo que minha cabeça estivesse leve e uma pequena, pequeníssima parte de mim, registrasse algo quente escorrendo do meu coro cabeludo. Sangue. O maldito havia conseguido me machucar, eu iria retribuir o favor. Olhei para os pedaços de metal trabalhado a minha volta e para Draco, ainda tendo muitas dificuldades em controlar as próprias pernas. Sorri.

O Wingardium Leviosa fez com que escudos, espadas e lanças se levantassem do chão. Ocupado com suas pernas, mas ainda esperto o bastante vi seus olhos se arregalarem. Malfoy não conseguiria fugir com as pernas sem obedecê-lo e duvidava que conhecesse algum feitiço de bloqueio. O medo em seu prateado brilhante fez o monstro dentro de mim armar o bote final e, com um movimento de pulso, lancei tudo que podia na direção dele.

Para a sorte dele e do resto da minha alma, acertei muita pouca coisa.

Os objetos foram bloqueados em pleno ar, a maioria deles a muito pouco de tocarem a pele branca do garoto. Uma única lança havia atravessado a distancia o bastante para cortar seu ombro e o fato de ter sido interrompida provavelmente impediu que decepasse todo seu braço. Em vez disso, causou apenas um corte superficial, apostava.

Impedida, finalmente olhei em volta. Eu estava muito concentrada em arrancar a pele de Malfoy para notar como nosso duelo havia atraído um publico generoso. Se havia sido Nott quem correu atrás deles ou apenas fizemos muito barulho, já não sei. Nem mesmo importava. Provavelmente seria a ultima vez que os veria, pois não via como tentar matar um colega de casa pudesse ser perdoado. Guardei então os rostos de Daphne e Pansy, e Sue e Blásio. Até mesmo o de Severo, que tinha a varinha na mão e os lábios crispados a ponto de ter um derrame.

Vocês — sua voz quase tremia. Fui invadida pelas suas emoções, ou pelo que ele deixava escapar tamanho era seu choque. Sua raiva, sua incredulidade, seu quase desapontamento. O ultimo me fez trincar o maxilar e puxar o ar com força, me negando a prestar atenção naquilo. Não me importava se estava decepcionado. Não me importava nada. Nem sequer era comigo, quero dizer, não tinha como saber... — Malfoy e Lewis, venham comigo. E todos os outros, para dentro!

Não se atreva a mentir para si mesma. Aceite as consequências de seus atos – cada uma delas.

A voz dura de Lagrum, acordado e raivoso, fez minha marca arder outra vez. Funda e aguda como a dor de uma mordida, espremendo meu coração. Maldita cobra, será que não podia errar nem mesmo uma vez? Obriguei meus pés a andarem sentindo a presença e a mente do meu professor acima de mim. Aprendi que, quando uma cobra come algo muito mar do que si, ou tenta comer, ela regurgita inteiro o alimento... ou é morta por desafiar algo que não lhe cabia. E a culpa era apenas de si mesma. Isso me fez manter a cabeça erguida ao ser levada na companhia de Draco (que já andava normalmente depois de Snape apontar a varinha para ele, Finite Incantatem) em direção a sala do diretor.

Paramos em cima da gárgula que já conhecia bem e subimos os degraus. Uma parte de mim registrava que era a primeira vez de Malfoy com Dumbledore, mas não podia ligar menos. Quando entramos na sala depois de três batidas de Snape, o diretor da escola já estava sentado em sua mesa, as mãos juntas em frente aos lábios e os olhos claros reluzindo por cima dos óculos meia lua. O fato de já estar nos esperando fez com que eu respeitasse um pouco mais o sistema de fofoca de Hogwarts.

— Senhor Malfoy e senhorita Lewis, noite — ele começou com a voz calma de sempre, como se estivesse comentando sobre o crescimento das plantas da escola, mas mais sério do que eu já havia o visto antes. — Sentem-se e, por favor, expliquem-se.

Para minha surpresa, Malfoy manteve a boca fechada. O covarde costumava se esquivar e fazer de desentendido toda vez que algum professor o pegava sendo o ser desagradável que era, mas não pensei que isso se estenderia a esse momento. Pensei que não perderia tempo em chorar e fingir desmaios, piorando ainda mais minha situação. Então era minha responsabilidade, pois sempre foi, encarar os olhos azuis de Alvo Dumbledore e deixar que visse com mais detalhes o quão escuro era o ser que admitira em sua escola.

— Ataquei Draco Malfoy — admiti, mantendo minha voz a mais clara possível e deixando minha mente livre para que Dumbledore e Snape vissem, se quiserem, aquela parte tão superficial. — Ele não estava preparado, sequer sabia que eu estava ali. O ataquei sem avisar e sem o chamar para um duelo, obrigando-o a se defender. Fiz isso depois de saber que azarou Neville Longbottom com o Feitiço da Perna Presa quando o menino apenas teve a infelicidade de cruzar seu caminho, tão sem honra ou caráter quanto alguém o atacando "pelas costas", já que não é surpresa para ninguém que Longbottom não é nenhum duelista. Eu já tinha feito uma promessa para Malfoy, para não me ofender outra vez, ou o machucaria de verdade. Cumpro minhas promessas, professor Dumbledore, e fico particularmente ofendida ao testemunhar tamanha covardia com quem não pode se defender.

Nem Snape, nem Dumbledore e nem Malfoy falaram nada de imediato, então eu mesma me calei. Já tinha dito tudo que precisava, de qualquer forma. Draco, ao meu lado, estava estranhamente calado. Era mais que fora de seu contexto não estar apontando o dedo para mim e tirando o máximo de seu corpo fora. Mas lá estava ele, o rosto duro e a boca fechada, sua tendência natural a oclumência fazendo com que seus sentimentos fossem mascarados, a menos que eu os procurasse, e não fiz.

— Imagino que confirme toda a história, senhor Malfoy? — O diretor foi o primeiro a falar, a voz mansa e os olhos brilhantes, provavelmente enxergando até a alma do garoto. Não duvidava. Quando ele não respondeu, prosseguiu. — Muito bem, então. O professor Snape irá definir sua punição, pois não importa o motivo, brigas são proibidas na escola, azarar alunos também. Por enquanto, imagino que uma visita a enfermaria seja recomendada, Severo.

Essa foi a deixa para Draco se levantar e ir embora com Snape. Costas retas, queixo erguido e nariz em pé, o pequeno lorde sequer pediu licença ou agradeceu a clemência do diretor enquanto dava as costas e se encaminhava para a saída. Mas parou, quase na porta e já com o diretor de nossa casa ao lado, para olhar por cima do ombro. Tinha as sobrancelhas franzidas e os lábios apertados, o receio escapando de seu escudo natural.

— Meu pai... — começou com a voz baixa, quase fraca, antes de limpar a garganta e dar jus a todas suas aulas de dicção. — Vai escrever ao meu pai sobre o ocorrido, diretor Dumbledore?

— Você acha que devo, senhor Malfoy? — Foi a resposta de Alvo. Tão baixo, tão suave, os olhos intensos em Draco que havia voltado a apertar os lábios com força. Então não respondeu, outra vez, e finalmente foi embora com Severo, me deixando sozinha com Dumbledore. Por algum motivo, esse fato me fez soltar o ar e relaxar os ombros. Principalmente pelo fato de o homem estar com um sorrisinho.

— Creio que nunca tenha visto uma primeiranista que tivesse uma frequência tão grande em meu escritório, Malorie — começou. — Claro, houve os gêmeos Weasley, mas eles são dois.

— Considerando a cor do seu cabelo, é um grande feito — debochei com um sorriso pequeno. — Mas não vamos prolongar isso, certo? Quanto tempo eu tenho para arrumar minhas coisas?

— Você não está expulsa, Mal — murmurou. — Mas é curioso como escolhe as formas mais tortuosas para agir, mesmo que por, digamos, motivos nobres.

— Sabe que, acima de tudo, eu queria acertar o Malfoy, não é? — Arqueei uma sobrancelha, ganhando um brilho acentuado de seus olhos. Encolhi os ombros. — Imagino que esteja em detenção?

— Escolhida pelo professor Snape em duração e forma, sim — e se interrompeu quando ouviu batidas em sua porta. — Entre, professora McGonagall.

Me senti afundar na cadeira quando lembrei que tentar matar um estudante não havia sido minha única infração do dia. Quando Minerva entrou no escritório do diretor, com os lábios torcidos e o rosto duro, tive certeza que havia perdido qualquer gosto que a mulher pudesse nutrir por mim. Eu havia invadido a sala comunal da casa dela, afinal.

— Malorie Lewis — disse meu nome devagar. — Quero que se explique.

Foi muito mais difícil narrar para Minerva do que para Dumbledore. Talvez porque o diretor tinha a voz suave e os olhos gentis, muito diferente da professora de transfiguração, com sua voz inflexível e olhos estreitos, o rosto de pedra. Mesmo assim mantive meus ombros retos e minha voz clara enquanto voltava no tempo e explicava, com um pouco mais de detalhes, como havia encontrado Neville pulando a caminho na biblioteca e então o carreguei para a torre da Grifinória, onde Hermione Granger desfez o feitiço antes de eu ir procurar Draco Malfoy para um acerto de contas.

Durante todo o tempo, McGonagall permaneceu quieta. Quando terminei, limpou a garganta e ajeitou seu chapéu de bruxa antes de trocar um olhar com o diretor.

— Devo perguntar, senhorita Lewis, a razão de não ter apenas acompanhado o senhor Longbottom até a porta da sala comunal — questionou. — Dessa forma o ajudaria e não iria infringir uma regra base da escola, invadindo um ambiente cujo nenhum estrangeiro viu em mil anos.

— Ele iria cair, professora — retruquei devagar, minha língua coçando para dizer que não havia nada lá que eu não tinha visto, literalmente. Havia entrado até mesmo nos dormitórios durante as férias de Natal, mas isso não era algo que Minerva deveria saber se eu quisesse permanecer com alguma dignidade diante de seu olhar. — Sabe como Neville é... desastrado. Os dois ou três pulos que daria para atravessar o quadro seriam o suficiente para se estatelar no chão. Peço desculpas por entrar em um lugar proibido, mas não fiz com nenhuma intenção ruim.

— Sei que não, Lewis — Minerva suspirou, mesmo que a curva de sua boca estivesse dura. — Mesmo assim, regras são regras. Menos cento e cinquenta pontos para Sonserina e irei falar com o professor Snape para discutir os detalhes de sua detenção comigo.

Senti um gosto amargo na minha boca, um embrulho no estomago. Isso tiraria a Sonserina do primeiro lugar do campeonato das casas e era tudo culpa minha. Chegava a ser ridículo de tão irônico: eu a coloquei lá e eu a tirei. Mesmo com o rosto queimando, tive a decência de permanecer quieta e concordar. Já era bom demais não ter sido expulsa. Conseguia os pontos de novo depois, se fosse o caso, se ainda estivesse viva depois de Parkinson saber as consequências de meus atos.

— Acredito que uma visita a enfermaria também lhe seja recomendada, senhorita Lewis — Dumbledore aconselhou. — Poderia leva-la, Minerva?

Ela concordou enquanto eu olhava feio para o diretor. Velho intrometido e esperto. Alguma parte dele, não sabia qual, tinha consciência de que eu correria para a Floresta Proibida na primeira oportunidade. Duvidava que soubesse o porquê, mas sabia que eu iria e isso era o bastante. Enquanto saia de sua sala com McGonagall, porém, tinha que aceitar a muito contragosto que era a melhor ideia. Entre a detenção com a professora de transfiguração, com o diretor da minha casa e minhas lições particulares eu não teria tempo para respirar até a formatura se arriscasse um pouquinho mais que seja. Pelo menos por enquanto.

E não era como se eu não tivesse coisas mais importantes para me preocupar no momento. Ainda me lembrava da forma com que Madame Pomfrey havia apalpado e cutucado Neville quando havia fraturado o pulso e a simples ideia de acontecer o mesmo comigo fazia todas minhas cicatrizes se repuxarem. Usualmente eu não tinha problemas com toques – conseguia dar o braço, abraçar, até mesmo ser carregada. Contanto que não sentisse dedos se fechando a minha volta como aço, nada era um problema. E não era que eu achasse que Pomfrey fosse ser brutal, era que eu não queria passar por tudo outra vez.

Eu me lembrava do horror nos olhos dos médicos, das mãos tremendo, das vozes fracas e arquejadas. Nenhum deles havia escapado de demonstrar alguma coisa, nem que mínima, quando enxergaram todo o mapa de cicatrizes que eu possuía. Tive nojo de toda aquela piedade, daquela compaixão, e por isso ignorei qualquer brecha e tentativa de meus amigos de descobrirem mais sobre elas. Minha mente trabalhou rápido com a possibilidade de fugir da enfermaria, mas não havia nada que pudesse fazer com Minerva me escoltando. Eu seria examinada e desvendada, e a certeza disso me fez recuar para um canto escuro de mim.

A enfermaria estava iluminada por velas e archotes, muito diferente da ultima vez que estive lá. Eu imaginava que se não fosse a facilidade de uma poção de revitalização muitas das camas estariam ocupados com alunos gripados por conta do mau tempo, mas, para minha extrema sorte, só havia uma cama ocupada naquela noite – a de Draco Malfoy. Estava ali, finalmente fazendo toda a cena que eu esperava dele. Gemia e reclamava enquanto Papoula se debruçava por ele, varinha na mão, cuidando e medindo qualquer ferimento que tivesse, por dentro ou por fora.

— Papoula — Minerva chamou a curandeira assim que entramos, ganhando a atenção dela e de seu paciente. Assim que me viu, Malfoy se endireitou na cama, os lábios torcidos de desprezo e os olhos ainda queimando de raiva. Não liguei. Estava confortável demais muito longe de mim, muito dentro de minha própria consciência para aguentar o que viria. — Lhe trouxe mais uma.

— A outra parte do duelo, imagino — Pomfrey assentiu, se afastando de Draco e vindo na minha direção. — Me parece muito menos machucada do que ele, mas irei ver melhor e vai passar a noite por precaução.

Não respondi, nem protestei. Observei ela e McGonagall se despedirem e sequer retribui o olhar gelado de Malfoy, que fazia minhas costas queimarem. Apenas coloquei um pé na frente do outro em direção a cama destinada a mim (do lado posto da de Draco) e soltei o ar devagar ao me sentar nela. Não iria demorar.

Madame Pomfrey era uma curandeira experiente e rigorosa, com um olho atento e mãos rápidas. Assim que me sentei e ergui a cabeça para encontrar seus olhos castanhos, percebi sua sobrancelha arqueada e olhar fixo em minhas mãos. Pelo canto do olho, percebi Malfoy se inclinando em sua cama, curioso sobre as marcas que nunca havia contado nada sobre para ninguém prestes a serem expostas.

— Senhorita Lewis — murmurou devagar antes de se interromper. Percebendo a curiosidade indiscreta de seu outro paciente, se afastou e voltou com um biombo, que colocou ao redor de toda minha cama. Isolada dos olhares curiosos do menino, continuou com as mãos juntas. — Preciso que tire sua blusa para poder examinar suas costas com precisão, já que as bateu na parede.

Não tinha vergonha das minhas cicatrizes, não tinha vergonha do meu corpo. Não hesitei antes de tirar a capa da Sonserina e minha gravata, e então a blusa branca. Prestei bastante atenção no rosto de Papoula, procurei qualquer mínima reação. Uma testa franzida, um lábio apertado, talvez narinas dilatadas. Ela foi melhor do que qualquer um dos médicos trouxas, mas não escapou de sua boca aberta por meio segundo, então se recompôs. Ergueu a varinha e se inclinou para mim, decidida a me avaliar da melhor forma que podia.

O exame foi rápido e preciso. Foi, além de tudo, silencioso. Havia uma contusão nas minhas costas pelo impacto com a parede e um corte na minha cabeça, ambos facilmente curados por sua varinha. Ela até mesmo limpou o sangue no meu couro cabeludo e achei, por um momento, que escaparia de algum comentário.

— Posso melhora-las — sussurrou devagar, os olhos encontrando os meus. Eu teria dado uma resposta mal-educada se não visse algo tão diferente ali. Não era pena ou compaixão, era determinação. — Algumas estão mais feias do que deveriam por falta de cuidado devido.

— Obrigada, madame Pomfrey — respondi depois de umedecer os lábios. — Mas quero deixa-las assim. Dessa forma, não me permitirão esquecer tudo que passei, tudo que fiz. Algumas marcas devem ser carregadas por toda a vida, eu acho, e estou conformada com as minhas.

Ela assentiu, mesmo que relutante, e não fez qualquer pergunta. Apenas conjurou de algum armário um conjunto de pijamas da enfermaria e me entregou antes de sair. Decidi naquele momento que gostava bastante da enfermeira de Hogwarts, pois era discreta e resoluta o bastante para não se intrometer além do necessário, sendo fiel a seu trabalho.

O pijama era confortável e a cama também, o que já superava em muito todas minhas experiencias acamada. Pomfrey pediu que eu a chamasse se sentisse muitas dores ou dificuldade para dormir, se fosse o caso, me daria uma poção para um sono sem sonhos igual havia feito com Draco, mas não tinha necessidade. Ao contrario do pequeno lorde, não me era estranho o latejar constante e a limitação de movimentos na hora de dormir. Apenas me afundei nos lençóis limpos e olhei por um tempo para a nuvem negra que minha vida iria se tornar quando o castelo acordasse e meu nome enchesse a boca dos alunos e professores outra vez antes de dormir.

Em meus sonhos eu não sentia dor. Também não enxergava, mas nunca havia precisado. Olhos eram as ultimas coisas que eu precisava com tantas outras informações para me saciar: o cheiro da terra molhada, o barulho das gotas de chuva contra cada uma das folhas nas arvores, o toque gelado da noite em minha pele. Eu me sentia deslizar entre os galhos mais altos, meu corpo forte e cumprido o suficiente para se estender de um até o outro, fugindo da lama do chão. Não havia nada que pudesse me machucar, nada que pudesse me atingir se continuasse seguindo em frente, se não olhasse para trás.

Quis responder que não queria, mas não precisei. Minha teimosia fez Lagrum rir, sua risada sendo a mesma que a minha. Devagar, meu amigo se enrolou em um galho final. Estava muito mais calmo agora, ou talvez estivesse esperando eu ter plenas capacidades para suportar sua ira. Seja qual fosse a razão, não se importou com meus protestos e jogou sujo, o mais baixo que poderia para me mandar ao mundo da inconsciência. Cantou para mim, tão baixo e devagar que a cadencia me obrigada a fechar os olhos, buscando o ritmo perigoso da cantiga de ninar que usava para mim desde que era nova. Mesmo na escuridão para onde fui, ainda podia ouvir seus últimos versos me embalando, fazendo promessas que não conhecia o peso.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 19 ♥ Malfeito, feito! ♥