Corona
21 Trégua da Penumbra
Notas iniciais
Acordei ainda de madrugada com Pomfrey vindo ver como eu estava. Ela estava debruçada por cima de mim com a mão na minha testa. Já estava completamente vestida e me perguntei se ela sequer havia dormido, o que era provável que não. Não seria uma surpresa para mim se Papoula houvesse vigiado meu sono e o de Draco, garantindo que nenhum efeito retardado de nosso duelo nos perturbasse.
— Que horas são? — Murmurei com minha voz arrastada, piscando para me afastar do sono. Se fechasse os olhos ainda poderia voltar para a sensação da terra molhada, das folhas na minha pele. Pomfrey me olhou com a testa franzida, mas acho que era a expressão natural dela: séria e preocupada.
— Ainda é muito cedo, Lewis — me acalmou. — Falta pouco para seis da manhã, ainda. Pode dormir mais.
Ela se afastou quando deu por satisfeita, provavelmente voltando para sua sala onde ficaria até nos dar alta, espero. Ignorei completamente seu conselho e terminei de me sentar na cama, cruzando as pernas e esfregando os olhos. Meus machucados já não estavam doendo mais, provando a excelente eficácia da curandeira com problemas físicos, mas não mentais.
— Você fala enquanto dorme — Malfoy chamou minha atenção, fazendo com que eu o olhasse. Tinha uma aparência muito melhor do que na noite passada, apesar de seu cabelo ainda estar bagunçado e os olhos um pouco inchados. Preferia assim, sem todo aquele gel (ou o que for, existia gel de cabelo no mundo bruxo?) fazendo seu cabelo ficar todo para trás, impecável como o de nenhuma criança deveria ser, ficava muito mais bonito. Franzi as sobrancelhas para ele, afastando esse pensamento.
— Já me disseram isso — retruquei. — Queria devolver com alguma observação da minha parte, mas não prestei atenção em você.
— Eu também não prestaria em você, Lewis — sua cara se torceu para mim. — Mas eu não sou acostumado a dormir em camas de qualidade bosta, tive uma noite péssima.
— Então o pequeno lorde passou uma noite longe de seus lençóis de seda e travesseiros de pena e já está falando coisas feias? Merlin tenha piedade, espero que consiga superar o trauma — ironizei, fazendo sua cara se fechar ainda mais. Não liguei. Não devia nada a ele... ou quase. Apertei os lábios, tomando uma respiração funda antes de forçar as palavras a saírem. — O que foi aquilo com Dumbledore, no final? Sobre seu pai.
Não que eu estivesse procurando, mas assim como Malfoy foi incapaz de manter seus ouvidos longe da única fonte de som em uma enfermaria no meio da noite, eu era incapaz de não perceber suas emoções. Algo sobre o pai lhe trazia uma sensação gelada, nada fraterna ou particularmente amorosa. Me lembrei do que tinha visto em suas memorias, como o relacionamento deles passava longe de ser íntimo e, pela primeira vez, me perguntei se isso lhe doía.
— Meu pai... — demorou um tempo para ele responder e, quando o fez, não olhava na minha direção. Estava muito concentrado em seu próprio colo, nas mãos ali, a testa franzida. — Você pode desprezar o fato, mas meu pai é um homem poderoso e importante. Se chegasse aos ouvidos dele o que aconteceu, ele não iria descansar até tomar alguma providência.
— Como me mandar para Azkaban? — Devolvi para ele. Só então me olhou, sem nada de vergonha ou remorso, com uma sobrancelha tão arqueada quanto a minha.
— Você ficou sabendo, então.
— Claro que fiquei. Achou que só porque não fui quebrar sua cara eu não sabia? Não sou uma selvagem, Malfoy —sua sobrancelha se arqueou mais ainda, debochando, e prendi um riso na ponta da língua. — Na maior parte do tempo.
Um som meio risada e meio tosse saiu da sua garganta, rápido demais para eu ter tempo de o identificar com certeza. Os olhos dele reluziam na penumbra, bastante claros e prateados e focados nos meus, tão escuros em contrapartida. Então voltou a falar, finalmente percebendo que estávamos nos encarando.
— Hogwarts responde a um conselho, talvez não saiba — arranhou a garganta. — O diretor responde, melhor dizendo. Esse conselho tem certo poder e influência, podem chegar até mesmo a afastar um diretor se for decisão da maioria. Meu pai faz parte dele e não seria nada difícil para ele mexer uns pauzinhos... não para te mandar para Azkaban, não tanto, foi realmente exagero. Mas uma expulsão? Fácil.
Minha habilidade de ter conhecimento das emoções e pensamentos alheios me era útil várias vezes como formadora de minha opinião sobre alguém. Por causa dela, eu geralmente sabia que havia muito mais do que os outros deixavam aparecer, era até mesmo a razão de ainda não acreditar que Severo seja o ladrão da pedra. Não duvidava que o professor tivesse seus segredos (aliás, deviam ser tudo que ele tinha), mas tentar adquirir vida e riquezas eternas ao trair Dumbledore não era um deles.
Logo, esse pequeno detalhe da minha percepção mais apurada foi a única coisa que me permitiu não desprezar ainda mais Draco Malfoy. Não havia vergonha enquanto falava da forma como seu papai rico estalava os dedos e o mundo inteiro parava de girar. Nem orgulho. Nem raiva. Era apenas certeza. A convicção cega de uma criança cujo esse era o único mundo que conhecia: papai quer, papai pode, papai faz. Essa segurança se estendia para ele mesmo, sempre protegido pela sombra e nome do homem que o criava e moldava para ser como ele em absolutamente todos os aspectos, a começar pela arrogância e corrupção.
Crianças são resultado de onde vivem, do que aprendem. Como poderia encher minha mão de pedras quando eu mesma era marcada demais? Porém havia uma diferença, e era ali que tudo se afastava como água e óleo: minhas doutrinas rasgaram minha pele e estouraram qualquer bolha de segurança que deveria ter. As dele ainda o protegiam e o confortavam, muito acolhido depois de barreiras e barreiras de dinheiro, status e tradições.
— Estou curiosa, pequeno lorde — chamei sua atenção outra vez, o arrancando de quaisquer lembranças que formaram suas certezas. — Uma carta de Dumbledore, uma carta sua, e eu estaria fora da sua vida para sempre. Mesmo assim...
— Eu já disse, Lewis — me interrompeu, seus traços ficando cada vez mais claros a medida que o dia ganhava da noite. Podia enxergar seu nariz que ia naturalmente para cima, sua boca pálida e fina, suas maçãs do rosto altas e seus cílios cumpridos, tão loiros e claros como seu cabelo bagunçado, que sem ser puxado para trás, chegava até suas sobrancelhas bem formadas. Pansy estava certa, eu não era cega para negar. Draco Malfoy era lindo até Merlin proibir, o que claramente não aconteceu. — Você não me conhece. Além do mais, eu não estava e continuo não estando ansioso para explicar que perdi um duelo para alguém que não é de sangue-puro.
— Não fique triste, Malfoy — soltei uma risada enquanto balançava a cabeça, cansada desse assunto irritante que era a especulação de minha linhagem de sangue. — Você até foi bem para quem foi pego de surpresa, atacado pelas costas. No mundo trouxa, minhas costas iriam me incomodar por um bom tempo, sem falar do corte na cabeça. Acho que precisaria de pontos.
Fiz ele sorrir com isso, realmente sorrir. Era um sorriso frágil e hesitante, de alguém que recebeu um protocolo para tudo na vida e não se sentia seguro quando não o seguia. Mas não deixava de ser bonito, com seus dentes brancos e retos. Draco ficava mais bonito assim, quando sorria sem desdém ou crueldade, mas não cheguei a saber o que iria vir depois da exibição de sua arcada dentaria bem formada. Madame Pomfrey entrou de novo na enfermaria e olhou de um para o outro antes de apertar os lábios.
— Vocês deviam estar descansando.
— Bom dia, Poppy — respondi para ela, ignorando seu rosto severo. — Decidimos te poupar do trabalho de fazer silêncio, além de permitir uma avaliação mais completa. Seu atendimento é excelente, mas ninguém gosta de ficar muito tempo na enfermaria.
— Eu ainda tenho que fazer meu dever de Feitiços — fui capaz de ouvir Draco resmungar, então olhei para ele outra vez.
— Ainda não fez?
— Não tive tempo.
— Faz quase uma semana que foi dado, Malfoy, eu comecei a fazer no dia e consegui dois rolos de pergaminho a mais.
— Que graça, quer uma estrelinha? — Debochou para mim. Observei enquanto Pomfrey ia até ele, ignorando nossa discussão, e esperei estar de costas para, em um gesto extremamente maduro e superior, lhe mostrar a língua. O idiota ainda me revirou os olhos ao balançar a cabeça em negação, mas eu apostava que estava prendendo o riso naquela torcida malfeita de lábios.
Pomfrey nos liberou quando ainda faltava meia hora para o café da manhã ser servido, dando tempo de sobra para que trocássemos de roupa e voltássemos para nossos dormitórios em busca de banhos decentes e talvez algum cochilo rápido. O caminho para as masmorras, aliás, foi repleto de um silêncio pesado. Parecia que sabíamos, eu e Draco, de que a cada passo para longe da enfermaria e a cada minuto perto do inicio do dia letivo, era mais uma distancia ao momento curioso e inusitado de trégua que havíamos experimentado aos sussurros na penumbra do amanhecer.
Estendemos aquela calmaria estranha até o momento em que descemos, cada um para um lado, em direção aos seus respectivos lugares. Ainda cheguei a olhar em seus olhos uma ultima vez, e ele nos meus, guardando na memoria o rosto de Malfoy como realmente era, sem desprezo, inveja ou arrogância lhe torcendo os traços. Guardei a forma como parecia um menino, uma criança normal de onze anos, com o cabelo ainda uma bagunça e os olhos de lua reluzindo. Quem sabe ele também estivesse fazendo o mesmo? Poderia estar me olhando assim, sem nem piscar, talvez para lembrar como era meu próprio rosto sem a fúria sanguinária gelada o atravessando, gravando a cor de meus olhos sem o vermelho os roubando.
Em honra ao seja o que for que havia acontecido, não tentei descobrir. Fui a primeira a virar o rosto, me afastando dele e de sua mente naturalmente blindada. Não era do meu interesse lhe destrinchar como algum animal – não mais. E eu, com toda a sinceridade, me recusei a pensar sobre isso. Havia coisas demais para raciocinar, cada uma delas pensando em meus ombros, uma se apoiando na outra e ameaçando me derrubar de vez a medida que as águas do lago iam clareando.
Havia Lagrum e o fato de precisar o ver com urgência. Havia minhas futuras detenções duplas com Snape e McGonagall, que fariam meu tempo livre após as aulas praticamente nulo se as juntasse à minhas aulas particulares com Severo. Quem eu queria enganar? Eu estava bem ferrada e teria que me virar entre as aulas e na hora das refeições se quisesse, ao menos, manter meus deveres em dia. Minha pesquisa própria sobre o Praedam Vitae, então, nessa brincadeira, despencava para o ultimo na minha longa lista de afazeres por mais que fosse uma das coisas mais importantes a nível pessoal.
Pensei sobre tudo isso no banho, tentando em vão clarear minha cabeça. O máximo que consegui foi afastar uma dor crescente que subia pela minha nuca, ganhando mais algumas horas antes de ela explodir. Quando havia entrado no dormitório, para a mudança de roteiro, nem mesmo Greengrass estava me esperando acordada com sua preocupação e sermões. Mas na altura em que sai do banheiro, já vestida com o uniforme limpo e passado, encontrei minhas colegas todas começando a darem um jeito na aparência. Para minha total surpresa, não foi Pam e nem Daphne quem me metralhou com os olhos primeiro.
Foi a pequena Sue Hopkins
— Tem a menor ideia de quanto dinheiro eu perdi, Malorie?! — Disparou na minha direção, ainda com o rabo de cabelo frouxo que costumava usar para dormir apesar de ter o uniforme quase completo no corpo. Pelo visto havia decidido não lavar a cabeça hoje e não era nenhum absurdo: vinha chovendo tanto que a maioria das meninas não se dava esse trabalho. Arqueei uma sobrancelha para ela, me encostando em um dos postes do dossel da minha cama.
— Espero que o bastante para te fazer chorar, Hopkins, ou tenho que melhorar meu serviço de desapontamento alheio.
Pansy soltou uma gargalhada solta com isso antes de me olhar de sua cama, o cabelo já arrumado e terminando de dar um nó perfeito em sua gravata. Isso me fez imaginar a minha, tão desleixada como no primeiro dia de aula. A verdade era que nunca havia aprendido a dar nós em gravatas, e na verdade não me interessava nada aprender enquanto os professores continuassem ignorando minha falta de consideração com as normas de vestimenta.
— Ela só está com raiva porque todas dissemos que ela iria perder e perdeu — Daphy cantarolou de seu banheiro, limpando o rosto com cuidado de frente ao espelho de corpo inteiro que também havia no meu. — Estávamos todos apostando sobre quem iria atacar o outro primeiro, você ou Malfoy. Sue apostou em Malfoy, mas sabíamos que seria você.
— Em primeiro lugar, agradeço do fundo do coração a confiança no meu autocontrole — arqueei ainda mais uma sobrancelha. — Em segundo, o que quis dizer com todos?
— Quase a Casa inteira apostou — Parkinson devolveu para mim, seus olhos repletos de escarnio enquanto me olhava. — E não se faça de ofendida, Malorie, todos sabem que você tem um péssimo temperamento.
— Não negue — Bulstrode me interrompeu ao me ver abrir a boca. Bulstrode! Eu mal falava com ela! — Você pode ser sim mais, digamos, acessível. Mas ainda é abusada, impulsiva, tem uma paciência minúscula e um controle ridículo sobre sua raiva, sem falar que seu primeiro impulso é sempre reagir com violência. Basicamente, você tem um pavio curto demais e sempre reage da pior forma.
— O que fez Hopkins perder dinheiro de burrice — Pam debochou. — Ela vive com você, devia saber que não demoraria a pular no pescoço do Malfoy outra vez. Aliás, espero que não tenha danificado aquele rosto esculpido ou eu mesma arranco sua pele.
— Está intacto — resmunguei. Mesmo assim, graças a Severo. Com certeza algumas das peças da armadura teriam acertado sua cara se o professor não as tivesse impedido. Isso seria realmente um desperdício, pois o menino era perfeito contanto que não abrisse a boca. Passei a mão pela minha nuca, massageando a dor que vinha dali. — Quem mais apostou em Malfoy?
— O pessoal mais velho — Sue respondeu. — Todo nosso ano até o terceiro, que se dividiu bastante, apostou em você.
— Então juntaram uma boa quantia às minhas custas — comentei devagar, um sorriso lento se espalhando pelo meu rosto. — De quem foi a ideia da aposta?
— E ainda pergunta?— Greengrass finalmente saiu do banheiro, o rosto de porcelana impecável como toda garota que tinha dinheiro e disposição podia ter. — Zabini, é obvio.
É claro. A informação me fez rir enquanto esperava todas elas terminarem de se arrumar para subirmos juntas para tomar café da manhã. O assunto da aposta foi logo substituído pela imprudência de ter quebrado, de novo, uma das normas do colégio e o fato de ter perdido mais de cem pontos para a Casa, algo que me arrependi de contar no mesmo instante. Apenas o instinto de sobrevivência impediu Parkinson de arrancar meu cabelo, pois era exatamente isso que ela queria fazer, conseguia até mesmo vê-la se deliciando com a cena dentro de si. Daphne foi pior: apenas me olhou com seus olhos claros cobertos de decepção antes de balançar a cabeça, transtornada.
Toda aquela critica azedou meu humor (mesmo que soubesse que as merecia) e teria sido um dia horrível se não houvesse cruzado com Blásio no saguão de entrada. Sem cerimônia alguma me afastei das meninas e fui em sua direção, sorrindo imediatamente quando vi seus lábios cheios se abrirem naquele sorriso lindo para mim – ao menos alguém não queria minha cabeça.
— Mal, meu amor, morri de preocupação! — Exclamou antes de me segurar as mãos, levando ambas aos seus lábios e me fazendo soltar uma risada alta. — Draco parecia bem, o que queria dizer que você não devia ter nem se arranhado, mesmo assim...
— Estou bem, Blás — ainda estava rindo um pouco entre as palavras. — E não menospreze seu amigo, fui mesmo acertada. Mas madame Pomfrey é excelente no que faz e já estou aqui, prontinha para te deixar mais rico outra vez.
Eu adorava a forma como vergonha era algo que Blásio Zabini parecia não sentir. Seja qual fosse a situação, sua resposta era sempre dar seu melhor sorriso e usar aquela voz macia e baixa. Não foi diferente dessa vez. Observei enquanto seus ombros balançavam e ele passava a mão pelo cabelo cortado rente a cabeça. Ele era um dos meninos mais altos do nosso ano, o que fazia nossas alturas não serem muito diferentes.
— Eu iria te contar, querida, juro que ia— piscou para mim.— Mas se você soubesse, poderia comprometer os resultados, entende?
— Não ligo— pois era verdade, mesmo assim soltei um suspiro longo e dramático, ganhando sua atenção dobrado. — Mas houveram consequências. Perdi cento e cinquenta pontos para Sonserina por ter entrado na sala comunal da Grifinória e ainda vou ter detenções com Snape e McGonagall... não me sinto muito vitoriosa agora, se quer saber. Poderia fazer algo para melhorar isso?
Sem pestanejar, meu amigo me prometeu um presente realmente bonito e mais da metade de todo o dinheiro que conseguiu arrancar dos apostadores sonserinos. Blás era rico, ele não se importava com dinheiro quando podia escrever à sua mãe e, na semana seguinte, receber quantas bolsas de ouro quisesse. Ele queria me dar tudo, aliás, mas insisti que não teríamos dinheiro nenhum se não fosse ele, então merecia uma parte. Quando perguntei que espécie de presente estava pensando (não, não cheguei perto da mente dele, gosto de surpresas), Blásio me deu um beijo no rosto antes de ir se sentar, sussurrando como um segredo mutuo:
— Para futura senhora Zabini, até as estrelas do céu.
Foi bom que eu tivesse a lembrança do bom humor de Blás para me animar, pois o dia não foi dos melhores. Era muito cedo para meus amigos leões terem descido para comer e o silencio emburrado de minhas colegas de dormitório me fez levantar rápido da mesa, com os papeis de minhas detenções no fundo do bolso das minhas vestes. Acabei arrastando os pés direto para a biblioteca, onde me enfiei até a primeira aula. Foi o primeiro dia de todo o ano letivo em que mantive minha mão baixa e a boca fechada – era claro que eu queria recuperar os pontos que perdi, mas a medida que a noticia ia se espalhando e todos ficavam sabendo do motivo de terem acordado e visto as esmeraldas da Sonserina tão baixas no contator de pontos, decidi deixar que eles se explodissem.
Na hora do almoço, a escola inteira já sabia da consequência dos meus atos. Da noite para o dia meus colegas de casa passaram a me tratar de "menina prodígio que nos levaria a Taça das Casas mais fácil da história" para "selvagem incontrolada que devia estar de focinheira antes de causar mais danos". Não ajudava nada o fato de que agora, carregada pela outra menina prodígio, a Grifinória era quem liderava a competição. Nem mesmo os sorrisos que recebia nos corredores dos membros das outras casas (mesmo Lufa Lufa e Corvinal, que apenas queriam que a Sonserina perdesse) e as verdadeiras palmas dos grifinórios eram o bastante era clarear meu humor, então voltei para a biblioteca sem qualquer almoço – se percebesse mais uma boca torcido, mais um cochicho desdenhoso ou mais uma olhada de canto de olho nem mesmo uma focinheira iria adiantar quando eu explodisse toda aquela maldita mesa.
O único que estava silencio, e me surpreendia, era Draco Malfoy. Ele não havia se juntado aos grupos que destilavam veneno em minha direção, permanecendo alheio a qualquer coisa relacionada ao meu nome. Apenas se fazia de surdo toda vez que ouvia um "ela é uma selvagem, não é, Draco?" ou "ela devia ser expulsa". Ficava quieto, olhando seu pergaminho ou para o professor, usando seu melhor ar superior para fingir que ninguém estava falando com ele.
Mas havia, sim, um pequeno grupo de defensores – ou quase isso. Zabini, Greengrass, Hopkins e Parkinson não compactuavam para todo aquele show. Mesmo que tenha sido Pansy quem primeiro espalhou a notícia, louca para partilhar sua indignação com alguém, agora lançava seu olhar mais cruel e frio a qualquer um que ouvia, fazendo o veneno de sua língua pingar junto a Daphne, devolvendo coisas como "como está sua família?" "seu pai já foi demitido? Espere por ser", "quem é você mesmo?". Porém, o fato de me "defenderem" não anulava a raiva das mesmas, o que fazia me querer machucá-las e me obrigou a buscar refugio com os livros. Estava tudo indo muito bem, obrigada, até Hermione Granger me encontrar.
Ela entrou na biblioteca andando o mais rápido que podia sem madame Pince a expulsar logo na entrada. Levantei os olhos dos meus livros, parando de escrever meus deveres enquanto a observava avançar em minha direção, prestando bastante atenção em qual era sua expressão. Suas bochechas rosas diziam que havia corrido e os lábios apertados entregavam que estava tensa, mas os olhos... estavam brilhantes, como deviam ser, então julguei que ela podia estar pronta para uma bronca padrão sobre quebrar as regras, mas não estava com raiva.
— Mal, meu Deus, te procurei por todo o canto! — Chiou para mim, ganhando uma sobrancelha arqueada.
— Obviamente não.
— Não fique de mal humor — ela resmungou, as sobrancelhas se franzindo antes de olhar para Pince que nos encarava, nada feliz com aquele dialogo. — Venha, vamos sair daqui. O pessoal quer te ver.
O pessoal se consistia de Potter e Ronald, além dos gêmeos Weasley, Lino Jordan e Neville Longbottom, todos me esperando um pouco distantes da porta da biblioteca para não haver possibilidade da responsável por ela aparecer por qualquer "baderna" sendo causada em sua porta. Assim que me viu, Fred se adiantou e fez um floreio de varinha exagerado para conjurar um pequeno tapete vermelho enquanto Jorge fazia com que pétalas de flores voassem em minha direção.
— Abram alas para nossa heroína! — Jorge entoou em uma voz muito mais grave e arrastada do que realmente tinha.
— A cobra mais querida por leões que Hogwarts já viu! — Fred completou, me fazendo estreitar os olhos.
— Calem a boca, Weasley e Weasley — mas eu estava sorrindo pela primeira vez desde Blás. — Para que tudo isso?
— Imagine a seguinte cena, Mal — Fred ergueu um dedo. — Descobrimos que aconteceu uma grande confusão nas masmorras, um duelo, entre você e Malfoy.
— Então tentamos chegar até você — Mione tomou seu lugar. — Mas Pomfrey não deixou absolutamente ninguém entrar. Tínhamos que esperar até o dia seguinte.
— Mas quem disse que você facilita?— Jorge balançou a cabeça, desaprovando o fato de eu poder andar. — Quando chegamos na enfermaria, você já tinha sido liberada. Então, quando fomos para o café, não estava mais lá.
— Foi a Mione que teve a ideia de te buscar na biblioteca — Neville falou e me parecia bem melhor do que no dia anterior. — Então quando vi eles vindo para cá, também vim. Eu queria... queria te agradecer.
— E eu queria te xingar— Ronald bufou. — Como se atreve a arrebentar a cara daquele nojento e não me deixar assistir? Ou participar?!
— Ronald! — Granger o repreendeu, mas não estava prestando atenção nela. Olhava para Potter e seus olhos verdes, sua mente já familiar quase me puxando para dentro de si. Tinha uma expressão ansiosa, quase preocupada, e era quase um absurdo entrar em sua mente: Harry já era naturalmente fácil de ler demais, expressivo e emotivo demais. Deu um passo à frente, me olhando mais de perto através de seus óculos redondos, o verde intenso refletindo ali.
— Você está bem, Mal?
A pergunta saiu baixa, carregada, e alguma coisa dentro de mim se inflou. Ele estava preocupado, além de tão disposto quanto Weasley de quebrar o nariz de Malfoy se visse qualquer arranhão novo em mim. Isso me fez sorri de novo, dessa vez de forma mais aberta, enquanto sentia as nuvens pesadas do meu mal humor se dissiparem ao estar rodeada do que os idiotas de meus companheiros de casa diziam serem meus inimigos. Ao inferno com todos eles.
— Estou, Harry, estou muito bem.
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