Corona

22 Decifra-me ou Devoro-te


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Não tem muito o que dizer aqui, é a outra parte da atualização dupla ♥ Espero que gostem ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Graças aos leões tive um almoço muito mais agradável do que achei que teria. Nos escondemos todos em uma das muitas salas de aulas vazias do castelo e afastamos algumas carteiras para conseguirmos sentar em um círculo no chão, joelhos com joelhos, enquanto Fred e Jorge mostravam que não escolheram aquela sala por acaso quando tiraram montes de comida de um esconderijo atrás da mesa do professor. Tudo bem, não chegavam a serem montes, mas eram o bastante para encher os braços cumpridos dos dois.

— Assim que vimos que você nem sentou para o almoço, corremos para a cozinha para pegarmos umas coisinhas— Jorge explicou enquanto se sentava e distribuindo as comidas no meio da roda. Hermione franziu as sobrancelhas.

— Não sabia que era permitido...

— Quem liga?!— Ronald expressou a opinião do povo ao pegar um dos pratos surrupiados e o encher de purê de batatas e cordeiro. Ele havia se sentado ao lado dela, que, por sua vez, estava à minha esquerda. Na minha direita estava Harry, então Jorge, Lino, Fred e Neville antes de chegar em Rony outra vez.

— Não pode ser nada muito errado, Mione— acalmei os nervos com níveis altos de moral de minha amiga.— Quero dizer, estamos na hora do almoço e não me lembro de regra nenhuma sobre ser terminantemente proibido de comer fora do Grande Salão.

Isso fez com que ela se rendesse, pois estava com fome como todos ali. Na época da administração de Greta no orfanato, havia pouquíssimas outras freiras (apenas as que ela pudesse controlar) e a comida era precária. Um castigo quase tão comum quanto a Vara era ficar sem as refeições. Geralmente por não tempo suficiente para desmaiar, apesar de eu e algumas outras meninas escolhidas a dedo já termos batido recordes de quase uma semana. Mesmo assim, quando se podia comer não era lá muito diferente: a comida era de péssima qualidade e muito pouca, além de ser proibido repetição.

A fome, então, não era algo desconhecido para mim. A dor no estomago e a fraqueza nos músculos não mais me impediam de prosseguir com o dia, mas também não era algo que eu apreciava. Depois de um café da manhã digno do regime de Greta e perdido meia hora do almoço na biblioteca, enchi meu prato quase tanto quanto Ronald e comi com gosto.

Uma característica marcante dos grifinórios era o fato de raramente ficarem em silêncio. Eram pessoas mais agitadas e com pouca inclinação a se conterem, então não demorou até que todos estivessem presos em conversas. Neville prestava bastante atenção em Fred e Jorge, que lhe explicavam formas de melhorar seu desempenho na aula já que os dois eram muito bons na maioria das matérias, tais quais transfiguração, feitiços e poções. Em agradecimento, o menino lhes devolvia seu entusiasmo com Herbologia: a única matéria em que era realmente bom e se destacava.

Lino Jordan, que era ainda mais carismático e engraçado sem McGonagall para o repreender toda hora, não parava de falar com Rony sobre as chances da Grifinória no campeonato, os rostos tão sérios e os acenos de cabeça tão energéticos como se estivessem discutindo um plano de guerra. Harry, ao meu lado, prestava atenção na conversa deles enquanto Hermione franzia as sobrancelhas para tudo aquilo e prestava mais atenção a conversa dos gêmeos com Neville.

— Ei, Mal— Potter sussurrou para mim, me pegando de surpresa. Tinha aproximado a boca do meu rosto, se inclinado na minha direção e eu podia sentir seu hálito quente na minha pele usualmente gelada. Mexi nas minhas luvas cortadas para esconder a tensão nos meus ombros e o arrepio em minha coluna.— Não cheguei a te contar, não tive tempo. Ontem, depois do treino, fiquei sabendo que o Snape vai apitar o próximo jogo de Quadribol.

Franzi as sobrancelhas. Snape?! Quando Capitão Gancho já havia apitado um jogo na vida? Eu duvidava até mesmo que ele soubesse as regras do esporte! Sem falar da imagem tão traumatizante quanto hilária de Severo em cima de uma vassoura, ele usaria calças para isso? Ele usava calças, de todo, ou aquilo era uma espécie de vestido? Túnica, lembrei o nome. Balancei minha cabeça com força para afastar a imagem das pernas do professor da minha mente, uma vez que não tinha nenhuma pretensão de correr para o banheiro mais próximo e vomitar.

— O que diabos aquele homem vai fazer dentro de um campo?— Sussurrei em resposta, torcendo os lábios.— Todo mundo sabe que ele nem gosta de Quadribol, gosta de ter a Taça no escritório dele, isso sim.

— Não esqueça o que ele tentou fazer com o Harry no ultimo jogo, Mal— Hermione murmurava do meu outro lado, tentando não chamar atenção de Jordan. — Achamos que ele quer ficar mais perto, assim não tem como ninguém o atrapalhar outra vez.

— E suponho que você já avisou ao Wood que sua coruja morreu e agora precisa de um tempo de luto?— Segui na linha de pensamento deles enquanto olhava de novo para Potter. Convencer aqueles três de que meu professor não era o grande vilão era uma batalha perdida, pois nenhum deles puderem ouvir a sinceridade com que se defendeu naquele dia, nenhum deles podia sentir suas emoções ou interpretar seus ínfimos pensamentos.

— Decidi hoje de manhã que vou jogar mesmo assim— Harry tinha a voz decidida, firme. — A Grifinória não tem um apanhador reserva, se não eu não jogar vai ser um desastre, derrota na certa. Não posso fazer isso.

— Estaremos na cola do Snape, eu e Rony— Mione não parecia nada feliz com a decisão perigosa do amigo, mas mesmo assim seu cérebro potente não iria deixar de trabalhar.— A qualquer sinal de alteração na vassoura do Harry, azaramos ele.

— Eu vivi o bastante para ouvir Hermione Granger planejar um ataque a um professor— não consegui controlar um sorriso enquanto o sangue subia para suas bochechas.— O que fizemos com você e seu medo de expulsão?

— Harry é meu amigo— ela devolveu como se respondesse tudo, e respondia. Ainda estava vermelha, mas mostrava em seu rosto suas características grifinórias: ousadia e sangue frio e nobreza. Seja qual fosse a grande duvida que o Chapéu Seletor teve por ter demorado tanto tempo com ela, não errou ao escolher a casa dos leões. Granger nunca daria as costas para um amigo, não importa quão perigosa fosse a situação.

O almoço prosseguiu como se o assunto "Snape e sua possível segunda tentativa de assassinato" não houvesse surgido. Mesmo depois que todos estavam satisfeitos, ainda ficamos sentados e conversando e tive a oportunidade de conhecer Jordan um pouco melhor. Ele era mestiço e, logicamente, estava no mesmo ano que os gêmeos. Tinham virado melhores amigos logo de cara e frequentemente os ajudava com suas geminialidades, como ele as chamava. Também era o tipo de gente que não se pode ficar ao lado sem soltar ao menos um sorriso aqui e ali, pois sempre fazia uma piada ou uma brincadeira que tirava qualquer um do sério. Não era nada difícil enxergar o motivo de ele e os gêmeos terem se juntado, eram três almas feitas de e para alegria.

— Foi um prazer finalmente te conhecer, Mal— ele sorriu para mim enquanto limpávamos a sala.— Aqueles dois sabem irritar e não conseguiam calar a boca: "você tem que conhecer a Mal", "a Mal é incrível", "vamos chamar a Mal para aprontar com a gente!".

— Lá vem você falando calunias, Lino— Jorge devolveu, um pouco afastado, mas agora olhando na nossa direção. — Não falamos nada disso.

— Sim, ele é um mentiroso— Fred completou o irmão, alargando seu sorriso para mim. — Te chamamos de Cobrinha, não de Mal.

Isso me fez rir, pois essa era a especialidade deles. Quando saímos da sala vazia todo mundo já estava um pouco atrasado para as aulas da tarde e, mesmo assim, Fred Weasley tocou meu cotovelo para me impedir de ir. Jorge e Lino já haviam ido na frente entregar os pratos vazios na cozinha e Ronald e Potter foram puxamos por uma desesperada Hermione (isso, pelo visto, nunca vai mudar). Então olhei para ele com uma sobrancelha arqueada, feliz por seu toque ter sido tão gentil e tão breve.

— Ei, eu queria te dar isso aqui— o gêmeo de sorriso mais maroto estendeu uma caixa para mim. Era de um tamanho médio e tinha um cheiro delicioso conseguindo atravessa-la.— É uma caixa da Dedos de Mel, a loja de doces do povoado. Peguei as coisas que achei que gostaria: bolos de caldeirão, quadradinhos de chocolate... as mais comuns, já que você veio do mundo trouxa. A maioria das coisas vendidas lá pode ser estranha pra quem não cresceu como bruxo e eu quero estar presente quando você comer sua primeira lesma de geleia.

Minha sobrancelha subiu ainda mais, mas não posso dizer que eu não estava sorrindo. Apertei com mais força a caixa de doces, louca para a guardar nas minhas coisas e devorar cada pedaço dos meus presentes. As vezes era fácil esquecer que, ao contrario de mim, Fred tinha treze anos, não onze e talvez, apenas talvez, isso tivesse sido algum convite.

— Obrigada, Fred — então mordi os lábios, arriscando a pergunta. — Mas pra que tudo isso?

— Meu pai sempre dá chocolates para minha mãe quando vê que ela não está bem — explicou, sorrindo. — Eles estão juntos a tanto tempo e se amam de verdade, então acho que funciona.

Ele foi embora depois disso, me dando um beijo na bochecha. Ainda fiquei parada no corredor, com a caixa nas mãos, mudando o peso das minhas pernas de uma para outra. Demorei um tempo vergonhoso (algo que, com certeza, Lagrum debocharia depois) para guardar o presente em minha mochila e obrigar minhas pernas a seguirem para as aulas da tarde.

Confesso que meu "péssimo temperamento" teria dado as caras se minhas energias negativas não tivessem sido descarregadas no almoço, pois a tarde foi mais da manhã. Porém, agora eu tinha uma caixa de chocolates para beliscar entre as aulas, a lembrança de um almoço particular e a nova informação sobre Snape. Com o objetivo de matar Harry ou não, a ideia dele em uma vassoura continuava absurda, então devia ter um ótimo motivo. A questão era qual e me irritava não poder perguntar, ao menos por enquanto, pois minha detenção conjunta com Malfoy tiraria nossa privacidade por não sei quanto tempo.

Não muito, descobri. Logo depois do jantar voltei a minha rotina de comer quase nada e disparar para as masmorras, indo em direção a sala de poções. Porém, agora eu tinha Draco do meu lado. Andávamos rápido depois que vimos Snape levantar da mesa dos professores e em silêncio, a trégua de hoje de manhã ainda bastante viva e recente para qualquer um disparar algo contra o outro. Conseguimos chegar uns instantinhos antes do professor, mas isso não melhorou a cara feia dele.

Descobrimos que nossa detenção duraria três semanas, porém sendo apenas dois dias por semana e durante uma hora após o jantar. Conhecendo Snape, eu sabia que aquilo não era detenção nenhuma, era até vergonhoso a chamar assim. Claramente, Gancho sequer queria nos dar alguma punição, mas devia ter sido pressionado por terceiros. Também suspeitava de que agora o detido era um Malfoy, mas isso era o de menos. Na verdade, até agradecia. Se a presença esnobe do garoto me fizesse ficar menos tempo detida, melhor para mim.

No fim de uma hora organizando um velho armário cheio de livros antigos, Draco foi mandado embora. Essa foi minha deixa para deixar toda aquela poeira de lado e ir até minha carteira costumeira, bem de frente para sua mesa, onde me sentei apoiando a cabeça nas mãos. Encarei seus olhos e eles os meus, sentindo a familiar presença escura que era sua mente ao redor da minha, suas emoções superficiais me invadindo como ar contaminado. Curiosidade, acima de tudo. Arqueei uma sobrancelha ao ler um pensamento especifico, jogado no meio da piscina rasa que era sua mente acessível.

— Um dia para cada feitiço? Mesmo? Nem percebi que havia entrado...

— Mais uma coisa que irá aprender — sua voz seca me cortou, os olhos como o lago congelado do lado de fora. — Controlar a mente é controlar suas emoções. Em um momento em que estava tão entregue a elas, no calor de um duelo, foi brincadeira de criança ver tudo que havia acontecido. Quase sequer precisei terminar o feitiço.

— Nota baixa para mim— resmunguei e ele não respondeu. Sabia, assim como eu, que uma parte de mim estava de fato irritada e envergonhada de ter esquecido completamente todos os muros que havia construído até então para me dedicar apenas ao meu coração batendo e a sede de sangue. Era ridículo, um descontrole puro e infantil. E mesmo que eu tentasse me convencer de que era uma criança, eu não tinha os alcances mágicos de uma – não tinha direito de agir como tal.

Ele se ajeitou em sua cadeira, apoiando o queixo sobre as mãos juntas e focando os olhos nos meus, pois essa era nossa aula. Duas horas, talvez três, de puro contato visual. Nessa altura do campeonato, eu já havia gravado cada detalhe do rosto do meu professor: o nariz adunco, os lábios finos, as linhas de expressão de um rosto que não devia ser tão acabado ou velho, mas tanta amargura e tristeza haviam exigido seu preço. Mesmo assim, algumas vezes quase não o enxergava, perdida nas informações que ele deixava disponível para que eu acessasse no lago dos pensamentos livres ao redor da fortaleza sólida e gelada que era sua mente de fato. Ela era meu objetivo, claro, assim como a minha era a dele, mas não deixava de ser interessante.

Por exemplo, era divertido sentir sua exasperação ao corrigir provas e trabalhos e deveres, resmungando e massageando as têmporas em um tique nervoso por ser forçado a aguentar tanta burrice. Severo era o mestre de poções de Hogwarts, era um gênio nisso, sem sombra de dúvida. Para ele as coisas eram tão obvias, claras e simples que qualquer erro era sinal claro que seu tempo era apenas desperdiçado. Seria bom se ele lembrasse que nem todos eram gênios como ele, ou sequer teriam um carinho natural pela matéria – e um professor ruim não melhorava em nada a experiencia.

Em contrapartida, não havia muita coisa que ele pudesse enxergar em mim. Ao menos, algo interessante. Meu almoço privado e minha conversa com Malfoy eram lembranças trancadas dentro dos meus muros cada vez mais resistentes. Não queria que aquele nariz chegasse perto de um momento tão bom com os leões, até porque com certeza ele daria um jeito de os punir mais tarde, ou melhor, punir Potter. Quando a Draco, eu poderia deixar que visse... se eu mesma soubesse o que ela significava. Até ela não ser mais confusa ou até mesmo incapacitante, eu preferia não a compartilhar com ninguém.

Foi já no final de duas horas e meia que eu a pesquei. A lembrança estava ali, entre o lago e a fortaleza, dividida entre as duas. Talvez fosse até mesmo uma isca, mas era tentador demais para não olhar mais de perto, então a agarrei com força e a obriguei a se separar das muralhas de sua mente até me ver encarando madame Pomfrey. Ela estava no escritório do diretor Dumbledore, parada em frente a mesa principal com as mãos juntas à frente do corpo e os olhos aflitos. Não me parecia tão compenetrada agora, algo havia realmente a abalado. Porém, como Severo não se dignou a invadi-la, teria que esperar que parasse de mordes os lábios e dissesse o que a teria levado ali.

— Eu quero deixar claro que nunca fiz isso, diretor, nunca... — a fala da mulher estava apressada, nervosa. — Eu nunca confidenciei segredos de um paciente. O sigilo entre curandeiro e curado é sagrado, você sabe, só diz respeito a ambos o que acontece no ambiente hospitalar. Porém, oh, o que eu vi... ela é tão nova... e órfã, pelo que ouvi falar. Em situações assim, com um bruxo menor de idade, é preciso se falar com os responsáveis, mas...

— Mas ela não tem ninguém e os mais próximos disso somos eu o diretor — Snape interrompeu, parado em um canto da sala como o perfeito morcegão que era, mais que impaciente pela enrolação da mulher. Dumbledore, por outro lado, permanecia sereno sentado à sua mesa, uma mão enrugada acariciando um pássaro estranho que nunca tinha visto, mas que provavelmente era dono do poleiro que conhecia. Era vermelho e dourado e era lindo, me lembrava uma grande águia apesar de seu bico dourado e olhos vermelhos. Inconscientemente, me aproximei do pássaro, mesmo sabendo que aquilo era uma lembrança e, por isso, nada era material.

— Sim, sim, isso mesmo — Pomfrey assentiu antes de respirar fundo e encarar os olhos claros e cintilantes do diretor. Se havia ido até lá, era hora de dar seu prontuário. — Quando examinei a menina Lewis, vi que a maior parte de seu corpo é coberta de cicatrizes, em exuberância nas costas e nas mãos, porém, presentes nas pernas e até mesmo em seus braços e pescoço. As marcas condizem com açoites, flagelos, nos mais variados tamanhos e força, pela profundidade variada.

— Alguma recente?— Para minha total surpresa, foi Severo quem perguntou. Apesar de ter sua cara azeda de sempre, havia uma faísca de emoção em seus olhos que não consegui identificar e, no segundo seguinte, desapareceu. A curandeira balançou a cabeça de um lado para o outro.

— Não, nenhuma. Na verdade, julgaria que fazem anos desde que estão lá. Seus únicos ferimentos recentes são do duelo com o menino Malfoy, mas... por Merlin, Alvo, algo deve ser feito! Aquela menina foi torturada!

O quase desespero na voz de Papoula Pomfrey não abalou a imagem plácida que era o diretor acariciando seu pássaro. Apesar de ter a mão ocupada na cabeça do bicho, tinha os olhos azuis brilhando com poder através de seus óculos de meia lua, concentrados na mulher à sua frente. Quando finalmente falou, sua voz não era diferente da que havia ouvido alguma vez: baixa e calma, suave como as plumas de seu animal.

— Malorie Lewis sofreu muito mais do que qualquer um deveria sofrer, quanto mais uma criança. Não tenho dúvidas de que essas cicatrizes são apenas fracos reflexos dos verdadeiros danos que lhe foram infringidos. Contudo, creio que devo lhe alertar que já sabia ou, ao menos, tinha desconfiança de tais fatos. A professora Burbage me informou, assim que voltou da entrega da carta de admissão para a senhorita Lewis, que uma vez no orfanato onde a jovem passou seus últimos cinco anos, foi informada de acontecimentos assustadores no passado, todos encerrados já a dois anos quando a causadora de tanto sofrimento e tanta dor foi...

A cadeira rangeu para trás e por pouco não tombou com a força com que me arranquei daquela lembrança. Maldita Pomfrey, esperava que mantivesse a boca fechada! Mas o que eu estava pensando, afinal?! Era claro que ela diria para alguém, que buscaria orientação. Isso era comum nos médicos trouxas, também, quando se deparavam com casos em menores de idade onde simplesmente não podiam ignorar o que acontecia, uma vez que a vida de seu paciente estava em risco. Nesses casos, eles tinham o direito de alertar os pais da criança ou, se a situação exigisse, as autoridades.

No caso, claro, a mulher foi atrás do diretor da escola e de Snape, o adulto mais próximo de mim, ao menos, tinha uma responsabilidade mais estreita, uma vez que eu estava em sua Casa. Mas não queria saber o que tinha sido resultado da conversa, não queria ouvir Dumbledore tornando aquela noite ainda mais real palavra após palavra. Não queria sequer entender o fato de Pomfrey não ter dito nada sobre a marca em minha pele, talvez ela ainda diria? Talvez não tivesse visto? Não importava. Juntei os muros da minha mente e os reforcei com tudo que tinha antes de levantar.

— A aula terminou? — Queria que minha voz não tivesse soado tão frágil e quebrada, queria mesmo, mas eu não era perfeita. Aquilo era pessoal. Era um segredo que eu até mesmo evitava pensar sobre e saber que ele havia vazado, imaginar Dumbledore e Snape conjecturando sobre ele me fazia ter vontade de gritar – mesmo que minha garganta estivesse trancada demais para isso.

Com um aceno de varinha silencioso, a porta da sala se abriu. Não olhei para trás e não me despedi ao andar para fora, as mãos enfiadas nas vestes e o coração disparado. Queria ir embora. Queria me afastar dos olhos frios de Severo, da lembrança das mãos ansiosas de Papoula, do brilho cintilante do diretor. O quanto ele sabia? Eu suspeitava que o velho tinha certo conhecimento, mas agora era diferente, agora eu sabia que possuía todo o saber da história inteira, da desgraça inteira.

Não fui para minha sala comunal, fui para minha casa. Foi muita sorte não ter encontrado ninguém pelo caminho, nem Filch, nem Hagrid, pois no estado em que estava era possível dar um pontapé no focinho de Canino se tentasse me impedir de chegar à Floresta Proibida. Ele estava me esperando na orla, bastante escondido no escuro da noite e das sombras, mas perto o suficiente para o conforto de sua presença física. Nenhum de nós disse uma palavra enquanto íamos cada vez mais fundo na mata, até porque Lagrum estava ocupado demais tendo acesso a cada pequeno detalhe do meu dia.

Você não chegou a ver como está.

Não era uma pergunta e eu não precisei responder, mas mesmo assim neguei com a cabeça enquanto deixava minhas pernas caírem e se meus joelhos se afundarem na terra molhada da floresta. Não queria lidar com a surpresa e o medo de não saber o que estava acontecendo, de estar caminhando no escuro. Minha mente trabalhava rápido pensando em qualquer possibilidade de Pomfrey não ter a visto, mas isso era impossível, certo? Eu queria acreditar que em um mundo de magia tudo tinha sua parcela de possibilidades, mas era difícil quando se é acostumada demais com a má sorte.

Não desmorone agora, Mal.

Puxei o ar com força para meus pulmões, me negando a agir como uma criança assustada nessa altura do campeonato. Lagrum estava certo, eu não podia desmoronar. Nem Salazar poderia prever as consequências que viriam depois. Chutei a terra molhada com meus coturnos, criando vincos fundos e arrastando a lama para longe até encostar em seu corpo. Ele estava enrolado na minha frente, a cabeça erguida até um pouco acima da minha própria e ergui meus olhos até encontrar os dele – tão escuros que era incapaz de enxergar a pupila em fenda, ainda mais no breu da floresta.

— Já sentiu como se estivesse perdendo sua mente? — Minha voz ainda estava frágil e eu me odiei por isso, mas meu amigo foi convalescente o bastante para não me repreender. Lagrum apenas enrolou meu corpo com o seu em uma velocidade mínima até eu estar completamente envolvida em um casulo de escamas negras. Então seu rosto parou na minha frente, sua enorme cabeça se sustentando no ar. Ele poderia engolir minha cabeça inteira com apenas uma tentativa, poderia me apertar até meus ossos virarem poeira e meus órgãos explodirem com a pressão, poderia usar seus dentes menores (que eram ainda mais preocupantes que as presas maciças) e arrancar um bom bocado de mim como um corte de espada. Nada era novidade para mim – eu já havia o visto fazer cada uma dessas coisas com suas presas.

Sequer tentar direcionar seu medo para mim é patético, Malorie.

— Será que você não pode manter a boca fechada?! — Sibilei de forma grosseira, mas já sabia a resposta. Era não. Lagrum nunca iria apenas ficar calado e observar eu pensar ou fazer besteiras, ele sempre iria atrás de mim com sua voz mal-humorada, me batendo se necessário. Agora, ele havia se limitado a soltar um sibilo tão irritado quanto eu, me avisando que sua curta paciência para dramas humanos estava no limite. Trinquei o maxilar. — Não me respondeu.

Às vezes sonho com o que não é do meu alcance e nunca será, se quer saber.

A resposta, dada a muito contragosto, quase fez com que uma gargalhada saísse de meus lábios. Levei uma mão até sua cabeça, acariciando-a com os dedos da forma que podia tão presa e protegida. Não esperava essa resposta, era surpreendente. Lagrum era o ser com que eu mais tinha intimidade e afinidade, nossas mentes e emoções se conectavam sem quaisquer barreiras e, mesmo assim, eu não o conhecia. Não totalmente, não em cada ângulo e detalhe. E se eu era incapaz de saber a origem de cada pensamento do meu amigo, duvidava que mais alguém fosse capaz de tal ato. Era impossível se conhecer outra pessoa, outro ser. Pensamento bem, isso devia ser claro: se eu mal me conhecia, como poderia ser entendedora de outro?

— Quando vou começar a ter algumas respostas, hem, Lagrum? — Havia uma cadência quase musical na minha voz, um cantarolar meio infantil. Fiquei feliz de ouvi-la, não tinha nada que me entregasse nela. E enquanto cantarolava a musica com que dormia, outra vez, e destrinchava sua resposta, cheguei à conclusão que não havia nada mais justo.

Quando eu ter as minhas, filhote.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 20 ♥ Malfeito, feito! ♥