Corona
23 Natureza Humana
Notas iniciais
Pela primeira vez, lamentei quando a madrugada começou a recuar. Ainda não estava pronta para voltar para escola e ignorar tudo que já sabia. A ideia de encarar Snape era vergonhosa. A lembrança havia sido claramente uma armadilha, uma que eu cai. Seja qual fosse o final da conversa que vi, eu havia lhe confirmado o que precisava saber quando sai correndo como uma garotinha assustada.
De um modo infeliz, ficar entocada na floresta não era o jeito de provar de que estava enganado. Maior do que minha vergonha era a sensação de pura repulsa ao cogitar deixar meu professor imaginar que eu estava encolhida em algum canto, escondida do mundo malvado. Por isso deixei Lagrum para trás e voltei para o castelo, os ouvidos bem atentos a qualquer latido ou barulho quando passei pela cabana de Hagrid ou as patas macias de madame Nor-r-ra quando entrei no saguão de entrada. Tinha sorte de minha sala comunal ser tão próxima da entrada e não demorei a estar segura em meu dormitório.
Uma vez lá, o peso das minhas escolhas apressadas caiu em cima dos meus ombros outra vez enquanto ia para o banho e separava meu uniforme sujo para os elfos darem um jeito rápido (eu teria que os visitar e agradecer, qualquer dia). Havia sido uma péssima ideia não ter dormido, pois hoje começava minha detenção com Minerva e eu não fazia ideia do que esperar dela. Eu sabia que, até agora, havia dado muita sorte de todas minhas detenções serem diretamente com os professores e não com Filch – já tinha ouvido falar que ele colocava alunos para esfregar toda a galeria de troféus duas vezes. E talvez a vida mansa de Hogwarts estivesse me fazendo mal, mas aquele lugar era enorme e cheio de quinquilharia. Só me imaginar esfregando tudo noite a dentro fazia com que meus braços pesassem chumbo.
Tenho que agradecer, porém, que minha vida havia encontrado uma balança funcional. Mesmo que existissem momentos terríveis, eu era recompensada com calmarias refrescantes, e vice-versa. Meu dia começou provando que não seria um desastre tão grande quanto o anterior quando minhas colegas de dormitório decidiram que já haviam chegado ao seu limite de direito para sentir raiva de mim. Pansy, inclusive, me intimou a parar de palhaça e tratar de recuperar os pontos perdidos. Ela havia feito isso com a boca cheia de mingau no café da manhã, mesmo assim fiz a cara mais séria que pude – foi Sue quem riu dela.
O restante do pessoal de minha casa também começou a parecer desinteressado em fofocar ruindades sobre mim, se dignando a me lançar alguns olhares rancorosos. Admito que isso me fazia querer cruzar os braços e deixar a Sonserina ter a pior derrota em seis anos, mas se eu tinha decidido voltar a minha vida normalmente isso incluía ser uma sabe-tudo que ganhava pontos em todas as aulas.
Mesmo a detenção com McGonagall não foi tão ruim. Ela era uma mulher bastante justa, afinal, e apesar de sua detenção ser quatro vezes por semana (incluindo no sábado), duraria apenas duas semanas e não era nada chato. Na verdade, enquanto arrumava os livros das aulas e folheava os exercícios antigos, era uma ótima forma de estudar. No final, nada ficou tão ruim quanto aparentava ficar e ainda tive que ouvir Lagrum debochando da minha cara, me chamando de desesperada e dramática. Cobra desgraçada.
Hogwarts era, definitivamente, uma escola esportiva. A medida que a próxima partida de Quadribol se aproximava todos os corredores e grupos de alunos pareciam focados nisso. O jogo seria Grifinória contra Lufa Lufa e as apostas estavam bastante equilibradas. Se fosse um jogo usual, não tinha duvidas de que as pessoas tenderiam para a casa vermelha e dourada. Porém, a noticia de que era Snape quem iria apitar (uma vez que a saúde de madame Hooch foi atingida pelo tempo chuvoso e frio) se espalhou rápido e quase todo mundo (incluindo o fanático do Wood) estavam apostando que Severo iria dar um jeito de favorecer os texugos de todas as formas possíveis apenas para prejudicar sua casa rival.
Potter, apesar de se manter firme em sua decisão de jogar, ia ficando cada vez mais nervoso e não era preciso ler sua mente para perceber isso, pois Hermione e Rony viviam olhando para ele com uma cara preocupada que mudava rápido para uma cética quando ele respondia que estava bem. Além de se preocupar com sua próxima escapada da morte, ele havia contado que os ânimos do time estavam tensos: estavam todos ansiosos e na expectativa de garantir a frente da Sonserina no campeonato entre as casas (já que, a cada dia, eu restaurava mais e mais pontos), mas tinham duvidas se conseguiriam com o juiz em questão. Logo, a responsabilidade de terminar o jogo logo era toda de Harry: que ele apanhasse o pomo de uma vez para não deixar o jogo desenrolar e dar muitas chances à Snape.
Falando no homem, eu tinha sérias desconfianças de que alguém tinha quebrado seu caldeirão favorito ou algo assim, que mal humor! Meu mestre de legilimência e oclumência parecia decidido a fazer das duas horas semanais com o menino que sobreviveu as piores da semana dela, descontando pontos até se o garoto olhasse para um lugar errado. Claro que ele era pior com Harry, mas não estava tão diferente com o resto de nós. Nossas aulas passaram a serem mais silenciosas do que já eram e eu começava a sentir falta de nossos pequenos embates. Cheguei a perguntar do assunto do caldeirão e levei uma pancada tão forte em minhas defesas que não passou completamente nem com a poção para dor de cabeça de Mione. Depois disso, prometi a mim mesma que iria lhe acertar um chute onde mais doía qualquer dia desses.
Na sexta feira, dia anterior à partida, considerei uma punição especial quando Minerva anunciou que me queria dentro da sala dela catalogando seus livros e alimentando os animais que usava em sua aula invés de me deixar assistir a partida. Eu não era fanática por Quadribol, mas assistir as partidas me davam uma sensação estimulante como se mil volts descarregassem em meu corpo. Sem falar que três dos meus amigos jogavam no time dos leões, eu queria estar lá para eles. Lembro que fechei a cara e bati o pé.
— Mas amanhã vai ser o jogo, professora.
Muito calmamente, McGonagall levantou a cabeça dos pergaminhos de deveres que analisava e me olhou através de seus óculos quadrados, o rosto tão duro e uma sobrancelha arqueada.
— Você está em algum dos times, Lewis?
— Você está? — A pergunta saiu antes que eu pensasse direito, fruto de uma vida inteira de não ligar a mínima para o respeito aos mais velhos e em cargos superiores. Me dei conta de que tinha extrapolado quando seus olhos verdes faiscaram perigosamente em minha direção, as narinas se dilatando. Então respirei fundo, fazendo minha voz suave. — Não, professora McGonagall, não estou.
E voltei a me concentrar em meus afazeres. Apesar do meu histórico, Minerva era de fato alguém que eu respeitava e com quem não queria fazer inimizade. Eu a achava um exemplo de grande bruxa a ser seguido: era uma das mais poderosas e talentosas do seu século, vice-diretora da maior escola de magia do mundo e dona de caráter e bússola moral de ferro. Ela preferiu fingir que não ouviu meu desaforo, o que para mim foi a maior prova de que a mulher me considerava muito.
Como acordado, no dia seguinte permaneci dentro do castelo enquanto toda a escola se dirigia ao campo de Quadribol. Quando a hora de minha detenção terminou (a esperta diretora dos leões deixou uma ampulheta encantada em cima de sua mesa) já não era mais possível ouvir qualquer barulho de confusão, o que me indicava que a partida havia acabado. Imaginando que todos já deviam estar em seus dormitórios comemorando ou lamentando, decidi fazer uma visita à Lagrum e continuei a caminhar pelos terrenos do castelo até ver Potter na porta do vestiário dos times. Já estava trocado, mas ainda segurava sua vassoura e tinha um ar sonhador e de pleno orgulho no rosto enquanto encarava Hogwarts iluminada pelo pôr-do-sol.
— Alguém já te disse que você é extremamente expressivo? — Perguntei quando cheguei ao seu lado, arrancando-o de qualquer que seja seu devaneio. O sorriso sincero que ele abriu quando me viu foi o bastante para um igual nascer no meu rosto. — Não preciso ler mentes para saber o resultado do jogo. Grifinória ganhou, não foi?
— O jogo não durou nem cinco minutos, Mal — seu sorriso quase rasgava suas bochechas, os olhos brilhavam com força. Era impossível não me sentir feliz e orgulhosa, também, ao vê-lo dessa forma, todo confiante e satisfeito com suas habilidades.— Eu consegui, consegui de verdade! Provei que não sou só um nome, que posso fazer alguma coisa, de fato, por eu mesmo!
— É claro que pode, Potter –- soltei uma risada baixa, empurrando meu ombro com o dele. — O mais jovem apanhador do século, esqueceu? Não fez mais que sua obrigação.
— A ultima hora foi de comemoração — tornou a falar. — Até Dumbledore estava aqui! Toda Grifinória me ergueu nos ombros, Mione e Rony pulando... Rony estava com o nariz sangrando, lembrei, tenho que perguntar a razão. Dumbledore veio me parabenizar, apertou meu ombro e disse que fui muito bem!
Era bonito como o peito dele se enchia ao lembrar disso. Era obvio que o diretor de Hogwarts havia mais que impressionado Harry – era uma figura máxima que o menino preferia morrer do que decepcionar de algum modo. Imaginava que isso era coisa de grifinório, pois apesar de também ter grande respeito e admiração por Dumbledore, não ficaria assim tão cheia de mim com um simples muito bem do velho.
— Já pode eternizar o momento em seu diário— debochei. Mas Potter já me conhecia o bastante para não se importar com o veneno que, de vez em quando escorria sem controle pela minha boca. Ele riu da minha acidez, ainda segurando o cabo da vassoura com força.
— Eu realmente consegui— repetiu, a voz de puro êxtase. — Consegui provar à Snape...
Ele parou. Ser um apanhador havia melhorado em muito sua visão periférica, pois sua cabeça virou rapidamente para enxergar melhor a entrada do castelo. De lá descia uma figura encapuzada com pressa os degraus de mármore, indo direto para a Floresta Proibida. Foi como se alguém houvesse dado descarga em toda a euforia de sua vitória: orgulho, felicidade e despreocupação, tudo foi apagado de seu rosto enquanto observava a figura. Tanto eu quanto ele reconhecemos aquele andar predador: era Snape. O professor estava ali, vestindo em uma capa ridícula e escapulindo quando todos estavam ocupados jantando.
Harry precisou olhar para mim por apenas um segundo antes de concordarmos com a ideia maluca. Não acreditava que Severo queria roubar a pedra, mas agora não tinha mais como negar que ele estava envolvido em alguma coisa. Potter montou em sua vassoura, eu montei logo atrás e, enquanto eu segurava em sua cintura, o menino deu um impulso suave no chão e subiu conosco, silencioso e leve como uma pena para os céus.
Quando estava embrenhada em suas profundezas, várias vezes agradeci o fato de as árvores da floresta serem tão altas e tão juntas. Agora, no céu e buscando distinguir o ponto escuro que era Snape em meio as folhas e a claridade cada vez menor, tive uma súbita vontade de ter uma machadinha comigo. Potter também não pareceu ter sorte alguma com a visão, então passou a voar em círculos cada vez mais baixos, a ponto de nossos pés roçando a copa das árvores até que ouvimos vozes. Ele parou seu voo circular e, com agilidade, pousou sem ruído algum em uma árvore alta, uma bétula, se aprendi alguma coisa com Lagrum.
Ainda em silêncio e cuidando para não cairmos e quebrarmos o pescoço, subimos com cuidado em um dos ramos da árvore. Não era apenas eu que demonstrei certa familiaridade e segurança ali no alto, o que me fez querer saber como havia sido a infância de Harry. Mas isso ficaria para depois, pois eu e ele estávamos ocupados demais espiando o que conseguíamos: embaixo, em uma clareira sombria, Snape não estava sozinho. O patético professor Quirrell estava ali, tão pálido e aterrorizado que esperava a qualquer instante sentir o cheiro de urina no ar.
— ... não sei por que você quis se encontrar logo aqui, Severo... — a gagueira do homem estava pior do que nunca, mal era incapaz de fazer uma palavra de três letras sem a transformar em algo com sete sílabas. Inclinei o corpo para frente, me aproximando mais de Harry para tentar ouvir melhor, ignorando seu coração acelerado. Ou seria o meu?
— Ah, quis manter o encontro sigiloso— disse Snape, a voz mais gelada do que eu me lembrava de alguma vez ter ouvido. — Afinal os alunos não devem saber sobre a Pedra Filosofal.
Severo disse o nome de uma forma tão franca e clara que quase achei que estávamos em outra armadilha, mas não era possível. Meu professor não era como eu. Diferente da oclumência, que se sustentava em controle puro das suas emoções e sua mente, a legilimência precisava de ter seu feitiço usado, e Snape sequer segurava sua varinha da forma que fazia em nossas aulas. Ele então não fazia ideia de que estávamos aqui, não tinha acesso as nossas mentes, bastante concentrado no professor de Defesa Contras as Artes das Trevas. O gago, por si mesmo, tentou abrir a boca, mas a gagueira não formou nada de útil antes de Snape o interromper.
— Você já descobriu como passar por aquela fera do Hagrid?
— Mas, Severo, eu...
— Você não quer que eu seja seu inimigo, Quirrell –- Severo o ameaçou, dando um passo em sua direção. Sua voz, sua postura, até as roupas pretas que eram piadas no ambiente de Hogwarts, fazendo-o ganhar o apelido de Morcegão... nada disso era brincadeira. Senti os pelos da minha nuca se arrepiando com a certeza bruta que me atingiu: Snape era perigoso. Não era apenas mal-humorado, carrancudo, intragável... era uma ameaça. O que já devia ter feito? Quanto sangue teria em suas mãos? Pois dava minha cara à tapa, havia uma boa quantidade ali. E talvez toda sua história sombria fosse a razão de tanto amargor, mas com certeza não era algo com que ele estava decidido a deixar para trás.
— Não sei o que você...
— Você sabe perfeitamente o que quero dizer.
Uma coruja piou alto no meio do silêncio tenso, tão perto de nós que Harry quase caiu da árvore. Segurei em seus braços com os punhos de ferro que desenvolvi no orfanato, obrigando o garoto a recuperar o equilíbrio depressa. Como o bom jogador de Quadribol que era, Potter logo estava estável outra vez, a respiração trancada no peito enquanto ajeitava os óculos e me agradecia com o olhar, voltando-o para baixo. Infelizmente, sua quase queda distraiu ambos, nos fazendo perder parte da conversa. Porém, ainda pegamos Severo dizendo algo:
— ... as suas mágicas de araque. Estou esperando.
— Mas eu... Eu não...
— Muito bem— Snape concluiu que já aterrorizara o homem o suficiente. Eu já teria chegado à essa conclusão desde que ele apareceu. As falas de Quirrell iam de mal a pior, tremidas e cortadas em sua pior crise de gagueira da vida, provavelmente.— Vamos ter outra conversinha em breve, quando você tiver tido tempo de pensar nas coisas e decidir com quem está sua lealdade.
Com um efeito dramático, Snape jogou a capa por cima da cabeça e saiu da clareira. Agora, com certeza, já estava mais escuro que que claro, mas tanto eu quanto Potter podíamos distinguir Quirrell parado na clareira, absolutamente congelado como se Severo o tivesse enfeitiçado. Apertei meus lábios ao me dar conta da presença próxima de Lagrum e puxei a manga da blusa de Harry, era hora de irmos. Ele, pelo menos, pois queria saber o que meu amigo pensava sobre o que, com certeza, ouviu.
Harry acordou de seu estupor e voltou a se ajeitar na vassoura, me puxando para subir com ele logo depois. Da mesma forma com que pousou, o menino alçou voo com silêncio e rapidez, subindo com a velocidade de um tiro e o peso de uma pena. Ninguém disse nada até estarmos longe da floresta, seguros em frente ao deposito de vassouras. Potter estava pálido e com as mãos tremendo quando se virou para mim, os olhos com um brilho febril e a boca aberta.
— Você viu, você ouviu... — ele estava sem fôlego e, mesmo não estando mais colados, ainda conseguia ouvir seu coração batendo em disparada contra o peito.
— Eu estava lá também, Potter— respondi quase sem mexer os lábios. A verdade era que não entendia nada do que tinha acabado de ver, ou de ouvir, se não confiasse em meus olhos. Snape estava ameaçando Quirrell, perguntando se ele já havia achado uma forma de passar por Cérbero, isso era um fato. Mas porquê?! Se ele não queria a Pedra Filosofal, qual era seu objetivo ao colocar o outro professor contra a parede dessa forma? Eram coisas demais para pensar e não era Harry e sua opinião totalmente parcial sobre o homem que me ajudariam a esclarecer.— Entre logo no castelo, já está ficando tarde e todos devem estar se perguntando onde se meteu o herói do dia.
— Mas...— era obvio que me deixar para trás não estava em seus planos e isso quase, quase me fez rir. O que ele estava pensando, depois do desastre que foi quando ajudei Neville? Que iriamos dar as mãos e correr para a Torre da Grifinória? A cor involuntária de suas bochechas diante de meu rosto cético entregou que estava pensando nisso, sim. Absolutamente adorável, mas não tínhamos tempo para isso. Logo estar do lado de fora do castelo significaria problemas e o garoto de ouro não merecia manchar seu dia de gloria com uma detenção. Porém, Harry Potter tinha um raciocínio rápido e não demorou a entender que, além de não o acompanhar para a torre, eu sequer planejava entrar no castelo. — Onde você vai, Mal?
Ele já sabia, claro. Minhas famosas escapadas noturnas se espalharam pelos alunos, sempre com muito cuidado para não chegar a algum professor. As principais delatoras? Provavelmente minhas companheiras de quarto, sempre dispostas a reclamar com alguém que minha cama estava intocada pela manhã e minhas roupas, sujas de terra. Ninguém sabia o que eu fazia durante a noite na Floresta Proibida, mas não tinham duvidas de que era para lá que eu ia. Agradecia por ninguém ter tido a brilhante ideia de me seguir, ou teria que mandar Lagrum dar um pequeno susto em qualquer espertinho que tentasse a sua sorte. Harry olhou para trás de mim, para a floresta, e então franziu as sobrancelhas, a pergunta em cada linha de seu rosto.
— Eu não quero mentir para você, Potter, então não pergunte— minha voz saiu baixa, o mais suave que consegui. O garoto estava em um grupo muito, muito pequeno de pessoas que aprendi a deixarem tocar um pouco do tinha abaixo de arrogância e despeito. Ele era, até mesmo entre esse grupo, o único que sabia das minhas capacidades e era exatamente o motivo de não querer entregar outro grande pedaço de mim. Harry já tinha um grande pedaço nas mãos, um pedaço de mim – de quem eu era, do que eu poderia fazer. Eu já me sentia aberta o suficiente. — Vá. Conte a Granger e Ronald o que ouvimos. Eu sei me cuidar. Vá.
Ele não foi, ao menos, não na hora. Ainda mudou o peso das pernas e abriu e fechou as mãos, controlando o impulso de agarrar meu braço e me obrigar a não me arriscar sozinha. Mas então olhou meu rosto por bastante tempo, bem nos meus olhos, e enxergou ali o que já sabia que iria encontrar: escuridão. Fechei minha mente e minha alma para aqueles olhos tão verdes e tão sinceros, capazes de refletir a bondade natural de seu dono a todo instante. Protegi meu coração contra o fascínio natural por algo tão oposto de mim e observei ele dar as costas e ir embora em direção a segurança do castelo.
Mais uma vez embrenhada na floresta, o chão era um ponto de vista que eu conhecia bem. Hoje era sábado e eu não estava de uniforme, mas temia que o suéter da sra. Weasley pudesse acabar um bocado sujo. Meus pés conheciam o caminho até a árvore de Lagrum, tanto que meus coturnos velhos mal faziam barulho. Quando cheguei, fui recebida por um silvo longo e desagradável de meu amigo.
Então aquele era o famoso Harry Potter, hem? Meio magricela, se quer saber. Poderia parti-lo sem nem tentar.
— Não se interesse muito por ele— resmunguei ao me trepar na árvore e me sentar no galho em meio as várias dobras de seu corpo. — Não tem quase carne nenhuma, não dá para nada.
Serve para se agarrar em uma árvore, espiando conversas sombrias entre dois professores.
— Deixe com esse ciúme ridículo— Salazar, como eu agradecia por cobras não enxergarem. Maldito sangue no rosto. — Porque estava lá?
Venho prestando atenção em qualquer coisa que não devia estar na floresta desde o trasgo. Falando nisso, ele estava lá. O homem que entrou com o trasgo. Senti a mesma presença outra vez, como um ser duplicado... a sombra de uma presença grudada em outra mais firme.
Apertei os lábios retirando meus agradecimentos. Se Lagrum ao menos pudesse enxergar e apontar qual deles havia sido o traidor..., mas não podia. Cobras não tinham visão, elas apenas sentiam o calor da vítima, as encontrando através dos sinais vitais. Era o motivo de seus botes serem fatais: era muito fácil para elas enxergarem onde era sua maior movimentação de sangue e atacarem, geralmente no pescoço.
— Pode ter sido ele? — Perguntei devagar, sentindo o gosto das palavras. Eram amargas. — Pode ter sido Severo?
Não está fazendo a pergunta certa, Malorie. Livre sua mente, pense direito.
Livrar minha mente era o jeito de Lagrum dizer que eu estava sendo fraca e tola. Me prendendo e deixando encurralar por gostos pessoais e achismos baseados em sentimentos recém descobertos e tudo isso era estupidez. Na natureza, significaria a morte. Nenhum animal tinha tempo ou condições de imaginar se o predador era mesmo quem ele estava pensando – tinha apenas o tempo de se proteger, de lutar. Isso deveria ser minha preocupação, como eu iria lutar?
Se fosse Snape, eu me via no mesmo barco que Potter, Weasley e Granger – não tinha o que fazer. Severo era um homem de confiança de Dumbledore, um professor reconhecido e um bruxo poderoso. Denuncia-lo nunca resultaria em nada: a palavra de quatro crianças fantasiosas contra um adulto cheio de autoridade seria esmagada. A única solução seria me resguardar, tomar cuidado e prestar bastante atenção. Se fosse o culpado, o homem poderia tomar medidas drásticas se sentisse que estava sendo encurralado. A resposta mais viável continuava sendo permanecer parada e esperar o próximo avanço da parte dele, se algum de fato viesse.
Mas ele não era o único homem naquela clareira. Também havia Quirrell ali e eu me amaldiçoei pelo homem ser tão bom em ser insignificante. Mesmo lecionando uma das melhores matérias da escola, sua aula era uma das mais repudiadas e ele mesmo, desprezado. Sua figura cômica andando de turbante para lá e para cá, assustado demais com a própria sombra era raramente vista – devia ficar a maior parte do tempo em seus aposentos ou na sala dos professores. No fim do dia, ele mal era visto e, se chegasse a tanto, era ignorado como um verme.
Tudo que eu me lembrava além de suas aulas ridículas e sua gagueira irritante eram seus olhares. Desde meu primeiro ataque à Malfoy o professor havia começado a olhar de forma demorada em minha direção e eu apenas não tinha lhe arrancado os dentes por não ver nada de malicia ali. Apesar de passar os últimos anos da minha vida em um lugar praticamente livre da presença masculina, isso não fez com que eu não reconhecesse lasciva quando a via, pois garotas dominavam esse tipo de olhar muito bem. Não, o olhar do professor não era nem parecido com algo do tipo – era mais demorado, detalhista, definitivamente hesitante. Um observador encarando uma criatura rara e nova, louco para estuda-la, mas sem coragem para tal.
Era claro que o homem parecia aterrorizado, mas parecer era diferente de estar. Alguns animais podiam até mesmo fazer o próprio coração parar para passarem despercebidos, porque o animal humano não conseguiria chorar de medo? Eu conhecia Snape. Eu vi suas emoções, passeei por sua mente, lhe fiz sorrir algumas vezes. Quirrell era patético demais, quase como se tentasse ao máximo causar desinteresse por sua existência, muito bom em afastar qualquer pensamento relevante em sua direção. Ele era o quadro perfeito da pobre vitima apavorada e indefesa. Felizmente, Greta me ensinou que nada e ninguém é livre do pecado.
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