Corona
24 Aguardada Amargura
Notas iniciais
Descobri na manhã seguinte quando retornei ao castelo que Harry havia, de fato, cantado a Weasley e Granger o que havíamos ouvido. Ronald já tinha uma cara de quem havia perdido as esperanças, pois quem era Quirrell e sua covardia perto de Snape? Eu, que não tinha me esquecido das conclusões que havia chegado na floresta, fiquei quieta enquanto observava toda aquela confusão ir para mais um capítulo.
Nisso, percebemos que, ou Quirrell tinha uma fibra moral desconhecida, ou tinha uma razão muito grande para não temer as ameaças de Severo. Era claro que ficava cada dia mais pálido e mais magro, porém Fofo continuava a rosnar atrás da porta do terceiro andar, o que significava que não tinha cedido. Eu juro que pensei em contar a eles o que pensei do professor, mas via em seus olhos fanáticos que não adiantaria abrir a boca: Potter havia até mesmo começado a sorrir para o homem no corredor e Ronald a mandar cuidar da própria vida qualquer um que visse rindo da gagueira do homem.
Para eles, a aparência cada vez mais doente do gago e o mal humor sempre constante do meu professor eram provas incontestáveis de suas intenções e do estado atual da Pedra. Hermione, porém, minha sempre sensata Hermione, tinha mais do que fazer do que ficar mostrando o polegar para cima – tinha, junto comigo, começado a programar suas revisões. Então, enquanto os dois meninos corajosos estavam focados em prestar atenção em algo que não lhes dizia respeito, Mione vivia puxando a orelha de ambos para começarem a estudar.
— Dez semanas — os lábios de Granger se apertaram de reprovação de uma forma muito parecida com McGonagall quando Rony reclamou, pela milésima vez, que os exames estavam a séculos de distância. — Não são séculos, é como um segundo para Nicolau Flamel. Mal também já começou a estudar.
— Mas nós não temos seiscentos anos — o Weasley era esperto na hora de procrastinar. — Em todo o caso, que é que vocês duas estudam tanto se já sabem tudo?
— Ninguém sabe tudo, Cenoura — retorqui sem levantar os olhos das minhas anotações de História da Magia. — Nem mesmo nossos maravilhosos cérebros podem guardar cada frase de todos os livros por tanto tempo... quem dirá o seu.
— E vocês devem estar malucos — Mione ainda tentava discutir com o desinteresse dos dois. — Vocês percebem que precisamos passar nesses exames para chegar ao segundo ano? Eles são muito importantes, eu deveria ter começado a estudar há um mês, não sei o que deu em mim...
Eu sabia. Era todo um aglomerado de situações que poderiam ser arrumadas sob um único titulo "Harry Potter e a Pedra Filosofal". O ano foi corrido com todas as supostas tentativas de homicídio e roubo de um artefato poderosíssimo guardado por um cão enorme de três cabeças no meio de uma escola. Eu mesma também estava mais atrasado do que gostaria: as aulas com Severo não tinham diminuído em nada e ainda havia minha pesquisa...
Porém, para o desespero de ambos e para o atraso em minha vida, todos os professores pensavam exatamente da mesma forma que Hermione: passaram tanto dever de casa que, quando as férias de Páscoa finalmente chegaram, ninguém as sentiu. Estavam todos com as caras enfiadas nos livros, com as mãos doendo e olheiras cada vez maiores. Nem mesmo a chegada da primavera foi recebida como devia: ninguém saiu para aproveitar a volta dos dias de sol, ainda trancafiados no castelo.
Agora, muito diferente do inverno, o dia começava muito cedo e terminava muito tarde. Até por volta das dez e meia ainda era possível ver claridade no lago pelas janelas do dormitório, uma claridade que voltava muito rápido já as quatro da manhã. Isso fazia com que as cortinas agora estivessem sendo constantemente usadas e as lareiras acesas em fogo baixo, pois ainda fazia frio. Isso fazia com que eu ficasse muito tempo no salão comunal ou no meu dormitório, tanto que acho que comecei a deixar meus companheiros meio incomodados com o próprio desleixo.
Assim como Harry e Ronald se renderam e deixaram Hermione tentar colocar alguma coisa em suas cabeças, também fui buscada com diferentes exigências. Pansy precisava de ajuda em Transfiguração, Daphne em Herbologia e Sue em História da Magia. Até mesmo Blásio veio me procurar, pois não entendia nada que Quirrell falava e também não havia estudado por si mesmo. Com relutância e por puro desespero, Malfoy se juntou ao nosso frequente grupo de estudos: o garoto precisava de reforço em tudo, exceto Poções, onde realmente se destacava aquém do favoritismo de Snape.
Eu ajudava com a maior paciência que podia, pois não era nenhum sacrifício. Enquanto repetia três vezes até que eles entendessem alguma coisa ou fazia um movimento de varinha devagar, eu mesma estudava. Nos reuníamos nos sofás e poltronas da sala comunal quando estudávamos todos, ou ficávamos no dormitório se fosse apenas eu e as meninas. Ficava feliz de vê-las entendendo a matéria e vencendo suas dificuldades, pois seria incrivelmente inconveniente se alguma delas repetisse o ano.
Mas, como sempre, Hogwarts não parecia ser capaz de me deixar focar totalmente em meus estudos. Entre visitar Lagrum ao menos uma vez por semana (e, por consequência, passar esse dia sem dormir) e ficar mergulhada em livros, um dia encontrei meus três leões com expressões preocupadas e modos agitados. Nem cogitei ler a mente deles, pois não demoraram a me cercar e contar o mais novo problema que tínhamos nas mãos: Hagrid havia arrumado a porcaria de um dragão. Xinguei quando me deram a notícia, pois apesar de achar dragões uma das criaturas mais fantásticas do mundo magico, também sabia que criar um era tremendamente ilegal. Se alguém descobrisse que Rúbeo tinha um...
Mais do que isso, eles haviam sido convidados a estarem presentes quando o ovo partisse, então, quando Edwiges, a coruja da neve de Potter trouxe um bilhete para ele no café da manhã, andei rápido até lá com tempo de ver apenas duas palavras rabiscadas no pergaminho: está furando.
— Hermione — Rony exclamou depois de ver a cara da amiga quando sugeriu que faltássemos aula para ir direto para a cabana. — Quantas vezes na vida vamos ver um dragão saindo do ovo?
— Temos aulas, vamos nos meter em confusão, e isso não vai ser nada comparado à situação de Rúbeo quando descobrirem o que ele anda fazendo.
— Cala a boca! — Harry mandou em um cochicho ao acompanhar meu olhar e perceber Malfoy a apenas alguns passos. O intrometido havia parado de andar instantaneamente, fazendo uma expressão presunçosa e predatória antes de continuar andando. Trinquei o maxilar ao observar seu cabelo platinado se afastando. Se eu o matasse, ele não teria chances de causar problemas.
No intervalo da manhã, não tive tempo de me certificar se Malfoy havia desistido da ideia ou não. Eu sabia que o garoto iria ir atrás de nós pelo simples prazer de causar uma expulsão ou demissão, mas uma parte de mim (que Lagrum com certeza me bateria depois até sair) queria acreditar que nossa trégua ainda estava valendo e que ele não colocaria tudo a perder por um desejo ridículo e infantil de implicar com os outros.
Consegui interceptar o trio de leões no meio do caminho para a cabana de Hagrid e, juntos, batemos em sua porta. O gigante abriu, vermelho e excitado, os olhos negros brilhando ao dizer que chegamos bem na hora e nos conduzir para dentro. O lugar estava mais quente a abafado do que eu já havia sentido, e imaginei que devia ser por conta do dragão. O ovo, aliás, estava em cima da mesa, tão negro quanto as escamas de Lagrum. Tinha rachaduras profundas e alguma coisa se mexia dentro dele, fazendo um barulho esquisito. Sem dizer nada, todos sentamos em volta da mesa, a respiração presa na garganta. Weasley tinha razão: quantas vezes teríamos essa chance?
Com a velocidade de uma piscada, houve um som arranhado e o ovo se abriu. O filhote de dragão caiu de forma mole na mesa, cheio de gosma e ainda sem forças para se sustentar direito, ou apenas confuso com o mundo estranho que encarava agora. Não era nenhuma beleza: as asas eram espinhosas e enormes, contrastando com o corpo preto e magro, um focinho longo com narinas largas e tocos de chifres, além de olhos grandes e laranjas. Quando espirrou, saíram fagulhas de seu focinho que fizeram Mione pular, mas Hagrid devia estar sentindo a maternidade, pois tinha lágrimas grossas correndo pelo rosto.
— Ele não é lindo? — Murmurou enquanto esticava a mão para afagar a cabeça do bicho como se estivesse lidando com um filhote de cachorro. Tinha que me lembrar que eu, aos seis anos, fiz a mesma coisa com Lagrum – mas ele era muito menor e menos ameaçador do que hoje e eu podia entende-lo. Não achava que Hagrid sabia falar a língua dos dragões, se houvesse uma além de "vou te devorar". Fato comprovado quando o filhote tentou arrancar seus dedos com uma dentada, deixando a mostra as presas já bem formadas e bastante afiadas. — Deus o abençoe, olhem, ele conhece a mamãe!
— Rúbeo — Hermione tinha uma voz rouca, meio fraca. Tentou clarear a garganta antes de continuar. — Exatamente com que rapidez um dragão norueguês cresce?
Para uma informação precisa, teríamos que ler algum livro, pois Hagrid nunca chegou a responder. Todo o vermelho desapareceu de seu rosto, sendo substituído por um branco apavorado antes de saltar (e fazer o chão tremer) e correr para a janela.
— Que foi? — Perguntei avançando em direção a janela, preocupada e curiosa sobre o que havia acabado com a alegria do homem com tanta rapidez.
— Alguém estava espiando pela fresta nas cortinas, um garoto está correndo de volta para a escola.
Na mesma hora, Potter disparou para a porta e espiou para fora. Deve ter visto o mesmo que eu – mesmo à distância, o conhecíamos bem. Aquele cabelo platinado, as roupas bem-feitas em preto, verde e prata: Malfoy havia metido o nariz onde não era chamado. Senti a dor fantasma das minhas cicatrizes, lembranças de garotas menores ou maiores do que, correndo em direção à Greta com apenas mesquinharia no coração. Eu sempre lidava com elas depois, faria o mesmo com Draco.
Não ficamos por muito mais tempo. Deixamos Hagrid em sua cabana com seu novo filho e voltamos para o resto de nossas aulas. Em todas, eu conseguia ver a cabeça platinada e o perfil bem desenhado de Malfoy à distância. Ele, em todo caso, não olhou para mim uma única vez. Durante o jantar, não resisti (na verdade, nem tentei) a arranhar sua mente e buscar seus pensamentos. Não devia ter feito isso enquanto comia, no entanto, pois fiquei enjoada com tanta satisfação pessoal por algo tão ridículo. O menino tinha uma carta na manga, agora, e tinha a língua coçando para ir dizer para alguém. A única coisa que o segurava era o prazer de ser o detentor de algo que não devia saber e os olhares rancorosos e apreensivos que recebia dos grifinórios.
No final do jantar as meninas saíram da mesa com pressa, queriam estudar antes de dormir e me fizeram acompanha-las. Eu fui, pois Malfoy ainda precisava de ajuda em algumas matérias e ele era descarado o suficiente para se sentar perto de mim depois do que fez e do que pensava em fazer. Dito e feito: livros, penas, pergaminhos e tinteiros à postos, Draco se juntou a mim e minhas colegas, além de Blásio, Crabbe, Goyle e Nott no nosso lugar habitual da sala comunal, perto da lareira principal.
Malfoy se acomodou em uma poltrona, como geralmente fazia, o livro enorme de História da Magia em seu colo, um pergaminho aberto de um lado enquanto fazia seu dever da aula. Aproveitei, então, que já tinha instruído todos a começar e me perguntassem quando empacarem de novo, me levantei do chão onde havia sentado e fui até a poltrona dele, me escorando do lado e observando a letra meio desleixada do garoto que provavelmente teve aulas e mais aulas de caligrafia que não serviram para nada.
— Tenho excelentes lembranças desse livro — falei baixo, finalmente puxando sua atenção para mim. Era sério que Malfoy não estava bem em nenhuma matéria, ele vinha realmente se concentrando nos estudos esses tempos para poder passar de ano. Desse modo houve um pequeno tencionar de suas costas, sua pena parando de arranha o pergaminho por um segundo enquanto ele controlava o impulso de levar os dedos até o local onde o acertei quando nos conhecemos. Só enxergava seu perfil, mas não precisava de mais do que isso para saber que ele tinha estreitado os olhos.
— O que você quer, Lewis?
— Posso te fazer a mesma pergunta, Malfoy — ronronei.— Acho que não quebrei seu nariz o bastante para que aprendesse a mantê-lo longe do que não é da sua conta.
Sua pena, que havia continuado a deslizar pelo pergaminho, parou outra vez. Observei seu pescoço se virar, bem devagar, e então seus olhos encontraram os meus. Não tinha muita coisa ali, em seu rosto: era apenas uma mascara fria e bem construída, pensada para não refletir coisa alguma. Se não pudesse enxergar por trás disso, seu nervosismo e hesitação, acreditaria facilmente que ele não tinha algo que batia.
— É proibido — ele finalmente respondeu, baixo e devagar, muito ciente dos olhares arrastados e orelhas atentas a nossa aproximação. Bando de fofoqueiros. — Eu não estaria fazendo nada de errado se denunciasse. Até você deve saber se trata de um crime por motivos óbvios. É perigoso, estamos em uma escola. Aquele brutamontes está pondo não só a si mesmo em risco, mas todo o castelo.
— Você não estaria errado, Draco — arqueei uma sobrancelha. — Estaria fazendo seu dever como estudante responsável. Mas, de verdade, eu encontro dificuldades em acreditar que estaria entregando alguém, entregando-o, para as autoridades pelo simples prazer de cumprir seu dever, a satisfação de receber um aperto de mão, sabe?
Ele sabia. Sabia que não valia a pena, não para mim, tentar se fazer de santo. Malfoy não estava preocupado com a própria segurança nem com a de ninguém, só queria infernizar a vida alheia. Queria destilar sua visão torta do mundo ao fazer alguém que nunca lhe fez mal entrar em problemas pelo simples fato de ser pobre e ser diferente. Queria torturar o trio de leões pelo puro prazer de se sentir poderoso e superior. Era nojento e era patético.
Draco devia ter visto a repugnância no meu olhar, pois virou o rosto e voltou a se concentrar no dever. Ele não queria mais falar sobre o assunto, mas eu também não tinha mais o que falar. Não sabia de quem ele esperava receber aplausos com sua atitude, mas não seria de mim. Me afastei de sua poltrona, tendo consciência dos olhos espichados captando meus movimentos e voltei a me sentar, puxando um grande rolo de pergaminho onde fazia minha redação sobre os princípios da Transfiguração. Durante toda a próxima hora, o olhar de Malfoy queimava minha nuca, antes de parar e voltar outra vez. Felizmente, eu já estava farta de qualquer coisa que viesse do garoto e mantinha meus ombros retos e minha mente controlada.
Durante a semana seguinte, a parte minha que Lagrum com certeza acertou com bastante força quando o encontrei depois de ver o dragão nascer, se amaciou de novo mesmo contra minha vontade. Talvez algo em minha voz e no meu rosto, muito mais do que qualquer coisa que eu tinha tido, houvessem feito o garoto segurar a língua. Apesar de manter um sorriso presunçoso e predatório sempre que estava na presença de algum dos três grifinórios, sua boca estava fechada.
Falando no meu trio de leões, eles não relaxaram nada. O silêncio de Malfoy mais os deixava ansiosos do que aliviados e continuavam tentando fazer Hagrid se livrar do dragão, o que me parecia impossível. O homem de coração mole simplesmente não ouvia a razão. Eu tinha dificuldades de acreditar que um dragão, mesmo filhote, pudesse ser morto com tanta facilidade na natureza, mas Rúbeo agia como se sugerissem soltar um coelhinho em um ninho de cobras.
Norberto, o dragão, havia triplicado de tamanho nesse tempo e suas narinas estavam sempre soltando fumaça naquela cabana de madeira. Virou rotina sempre virar o pescoço quando tinha a vista livre e me certificar de que a casa de Hagrid ainda continuava lá, sem nenhum incêndio tendo a consumido durante a noite. O homem, aliás, logo se meteria em problemas sérios de uma forma ou de outra: não estava mais cumprindo com os deveres de guarda-caça e sua casa, que apesar de pequena e meio atolada sempre foi confortável, estava uma zona com garrafas de conhaque e penas de galinha cobrindo cada centímetro do chão.
Nós constantemente o lembrávamos que, mais dia, menos dia (provavelmente menos) o dragão estaria do tamanho da casa. Rúbeo tinha consciência, pelo menos, da sorte que estava tendo até o momento: Malfoy com o bico fechado e tudo mais, mas não poderia se livrar do dragão assim, como uma trouxa de roupa suja. Eu o entendia aí, tinha que admitir. Lagrum não era exatamente o tipo de bichinho popular. A qualquer um que não o entendesse, seu tamanho e o tamanho de sua boca e presas seria o bastante para eu ouvir os mesmos conselhos. Porém, eu me mantinha firme que eu, ao menos, entendia Lagrum e sabia que seus botes e ataques eram sua forma de me ensinar ou brincar comigo – Norberto, por outro lado, parecia realmente querer com cada vez mais vontade algum pedaço de sua "mamãe".
Finalmente, foi Potter quem deu a ideia para se livrar do bicho de forma responsável. Foi quase genial ele ter se lembrado de um dos irmãos de Ronald, Carlinhos, o que estudava dragões na Romênia. Ele era um especialista profissional e poderia cuidar da criatura da forma correta, o ajudando a crescer de forma saudável e sanguinária em meio as chamas, como um bom dragão. Foi um verdadeiro alivio quando Hagrid concordou que podíamos enviar uma carta para Carlinhos, para consulta-lo, mas um alivio que durou pouquíssimo tempo.
Logo na quinta feira de manhã, descobri que Norberto havia mordido Ronald na noite anterior. Sua mão estava inchada, ao menos duas vezes do que estaria normalmente, e não parou de reclamar para mim, aos sussurros, como o dragão era um ser horrível e como estava com raiva de Hagrid por ter brigado com ele após ser mordido. Também fiquei sabendo que Carlinhos havia respondido positivamente, mas nada pode ser fácil. Teríamos que dar um jeito de levar o dragão até a torre mais alta na meia noite de sábado. Eram tantas regras quebradas (e crimes) em uma mesma frase que até a minha sobrancelha subiu, mas não tínhamos outra escolha.
Pela minha complicada situação com detenções, aceitei que me deixassem de fora da entrega do dragão. Eu havia acabado as detenções com McGonagall e Severo e não estava ansiosa para perder o pouco tempo livre que havia recuperado. No final do dia a mão de Weasley estava tão inchada e verde que ele foi levado as pressas para a ala hospitalar depois de desmaiar no meio da aula. Não faço ideia de como driblou madame Pomfrey sobre o motivo de sua mão estar daquele jeito, mas esse não era o que tinha para falar quando fomos visita-lo.
— Não é só a minha mão — cochichou apressado. — , embora ela pareça que vai cair. Malfoy disse à Madame Pomfrey que queria pedir emprestado um livro meu, para poder vir dar umas boas gargalhadas. Ficou ameaçando contar a ela o que realmente me mordera. Eu disse que foi um cachorro, mas acho que ela não está acreditando. Eu não devia ter batido nele no jogo de Quadribol, é por isso que ele está agindo assim.
— Salazar, você está realmente doente, Weasley — encostei as costas da mão em sua testa. — Se arrependendo de socar o rosto daquele imbecil? Não lhe reconheço mais!
— Você está certa — ele concordou com um sorriso meio fraco. — Mesmo assim...
— Malfoy é pior que uma bomba de bosta, Rony — interrompi. — Ele agiria dessa forma em qualquer circunstância.
— E tudo vai terminar à meia noite de sábado — Mione disse tentando o confortar, mas claramente causou o efeito oposto. O menino se sentou tão rápido e reto na cama que achei que iria desmaiar com a vertigem, mas os Weasley são mais resistentes que isso, mesmo que ele estivesse suando.
— Meia noite de sábado! — Sua voz estava rouca. — Ah, não... ah, não... acabei de me lembrar: a carta de Carlinhos estava no livro que Malfoy levou, ele vai saber que vamos nos livrar de Norberto!
Nem tive a chance bater na mão ferida dele para que aprendesse a não ser uma anta. Por qual razão havia deixado Malfoy levar o livro?! Era só dizer para Papoula que queria dormir e ela enxotaria o loiro de lá com uma força de vontade impressionante, da mesma forma que fez quando viu seu paciente fazendo tudo menos descansar na presença de nós três.
— Estupido — resmunguei enquanto andávamos com pressa até a cabana de Hagrid. Isso me fez receber um olhar ressentido dos dois, mas não liguei. — Ele não podia mesmo ter inventado alguma desculpa para tirar Malfoy dali sem o livro?
— Não vale de nada pensar assim — Harry retrucou. Também estava transtornado com a situação, mas também era um líder nato e sua cabeça continuava a trabalhar. — Agora é tarde demais para mudarmos de plano. Não temos muito mais tempo para mandar outra coruja a Carlinhos e essa pode ser nossa única oportunidade de nos livrarmos de Norberto. Teremos de arriscar. E...
Ele se interrompeu, olhando ansioso em minha direção. Tentou com tanta força ocultar de sua mente a informação que ela me atingiu no rosto. Uma capa. Franzi as sobrancelhas para ele, ofendida e magoada por não ter sido a ultima a saber. Potter, como o bom amigo que era, viu a bobagem que tinha feito e tentou consertar, me mostrando tudo que tinha perdido: havia recebido de Natal, um presente anônimo de algo que pertenceu ao seu pai. Era tão pessoal que mesmo Rony só ficou sabendo tão rápido por estar com ele quando a abriu, e só foi o primeiro a usar por... querem saber? Dane-se.
Era claro que ele havia contado sobre a capa na primeira oportunidade para Hermione e eu odiava a sensação que isso me causava. Eu só conseguia pensar que havia entregado para ele algo que nem mesmo eu compreendia direito, minha habilidade de ler mentes, e era assim que havia me retribuído. Apertei os lábios com força, virando o rosto e me concentrando no caminho para a cabana do guarda-caça. Tinha uma forte impressão que se encarasse muito seus olhos verdes através dos óculos eu os quebraria e faria mastigar o vidro.
Hagrid não nos deixou entrar, dizendo que o dragão estava em uma "fase difícil". Não deixei de reparar no pobre do Canino com o rabo enfaixado, posto do lado de fora da cabana e no fato do bicho ter mordido sua perna bem na hora que lhe contamos sobre as notícias. Me despedi dos dois no saguão de entrega, ignorando os olhares ansiosos e chamados hesitantes de Potter, tentando puxar minha consciência para dentro de si. Mas pela primeira vez, Harry estava no mesmo patamar que Draco Malfoy e eu estava com cansada com e raiva demais para me interessar por qualquer coisa que viesse dele.
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