Corona
30 Vermelho de Sangue
Notas iniciais
— Malorie Lewis, poderia nós agraciar com sua seletiva atenção? — Parkinson me tirou da minha discussão com Lagrum, mesmo que ela também já tivesse acabado. Achei que a hora do jantar seria ótima para reorganizar os pensamentos e ponderar sobre o que esperar da aventura que ainda viria. Ledo engano, Pansy estava com os olhos estreitados e uma cara torcida que me fez sorrir.
— Desfaça essa careta, Pam, dá rugas — ronronei para ela, fazendo-o seus lábios se apertarem ainda mais enquanto ouvia a risada de Sue e Greengrass.
— Você tem estado alheia desde que sumiu com os grifinórios — Hopkins pontuou enquanto partia sua batata. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada que ela vá contar, provavelmente — Daphne respondeu por mim, me fazendo olha-la com um sorriso ainda maior.
— Você me conhece tão bem que até me emociono, Daphy — e beijei seu rosto, ganhando mais uma risada e um olhar ferido de Zabini.
— É um absurdo uma noiva dar amor a todos menos ao seu querido noivo, sabia disso?
— Sabia, querido, mas estava nas letras pequenas todos esses pormenores — pisquei um olho para ele, recebendo sua risada solta e sorriso bonito, que enfim me obrigou a debruçar e estalar os lábios em sua pele escura. — Tudo bem, chega, ou vou ter que explodir alguém para equilibrar as coisas.
— Mas você deixou o Draco de fora, Mal — Blás não desistiu e olhei para Malfoy sentando ao seu lado, quieto enquanto bebia seu suco de abobora. Ele arrastou os olhos claros e afiados até o amigo, a boca torcida e meio molhada da bebida.
— Não me meta nisso, Blásio — sua voz se arrastou, como geralmente fazia, mas seus olhos vieram rápidos até os meus. — Mas você realmente devia dar mais atenção ao que suas amigas falam antes que mudem de ideia.
— E qual era o grande assunto? — Arqueei uma sobrancelha, voltando meu olhar para Parkinson e seus olhos estreitos, agora brilhando meio cruéis enquanto estavam fincados em Draco e, enfim, fizeram o caminho de volta para mim.
— Eu estava dizendo que, agora que todos nós nos conhecemos, poderíamos fazer algo durante as férias.
— Mas todas essas famílias elitistas já não se conhecem? Quero dizer, vocês são todos primos de algum grau — busquei a informação dentro de mim, mas foi Draco quem respondeu, já com a boca seca depois de usar o guardanapo, como o lorde que era.
— Somos, e até já tínhamos nós visto antes. Alguns jantares, umas festas...
— Mas é diferente, aqui todos moramos juntos, convivemos, até construímos amizades — Daphy maneou a cabeça. — Então, só agora que temos alguma intimidade, não vai ser mais tortura ter que olhar um para a cara do outro.
— Diga por você, imagine ter que olhar mais do que o necessário para isso? — Sue torceu a boca, os olhos brilhando da piada enquanto encarava Theodoro, que, por sua vez, abriu um sorriso rasgado.
— Admita que me quer, Hopkins.
— A questão é — Pansy interrompeu, impaciente, antes que Sue azarasse o menino. — Podemos fazer algo. Um encontro, talvez até uma festinha. Onde você mora mesmo?
Franzi as sobrancelhas, incomodada com o assunto. Um ano havia se passado e eu não estava mais inclinada a dar o endereço do orfanato para eles do que antes. A ideia de alguma carruagem ou bruxo de chapéu pontudo aparecendo naquele território católico trouxa era o bastante para me lembrar da história da Igreja contra o misticismo, então balancei a cabeça.
— Em um orfanato, Parkinson, não importa onde — sua boca se torceu com minha resposta, mimada e desgostosa por eu estragar seus planos de férias, então sorri. — Podem me dar os endereços de vocês, se quiserem. Talvez eu apareça.
Pansy não ficou satisfeita, mas eu também já não estava mais prestando atenção nela. Estava olhando para Draco, que tinha os olhos afiados e gelados em mim desde que me afastei em direção aos leões depois da última prova. Além da curiosidade que o devorava para saber o que tínhamos ido fazer e a raiva ao se indignar por eu ter simplesmente dado as costas aos meus companheiros de casa com tanta facilidade, ele era mais inteligente e observador do que parecia e não passou despercebido a minha distração, muito antes de Parkinson ou Sue falarem alguma coisa. Agora, depois de recuar sobre visitas amigáveis, seus olhos passaram até a carne restante de minhas mãos. Ah, a curiosidade...
Malfoy, até hoje, não tinha me perguntando qualquer coisa sobre minhas cicatrizes. Desde a noite da floresta onde ele se irritou por eu achar que ele sentia nojo da minha pele, suas palavras ainda eram claras "acha que eu me importo com isso?". Não fazia sentido para mim que alguém, principalmente alguém como o pequeno lorde, tão acostumado com a suavidade e a beleza externa, aceitar alguém tão visivelmente destroçado sem querer vomitar. Para mim, ele e os outros apenas evitavam falar do assunto ou olhar por muito tempo, para talvez assim conseguirem esquecer.
E, no entanto, não tinham visto nem a metade.
Mais tarde, fiquei acordada na minha cama enquanto, uma a uma, ouvia minhas companheiras caírem no sono, como já havia feito tantas e tantas vezes. A diferença era que não seria Lagrum que me esperaria no final do caminho, e sim um cão de três cabeças e sabe-se mais o que. Permaneci com os olhos fechados, concentrada ao fazer minha mente buscar a de Potter naquela distância, subindo mais de sete andares de pedra. Minha cabeça pareceu rachar à medida que eu forçava minha mente a se afastar de mim cada vez mais, caminhando até achar o que queria: a cabeça impulsiva e emotiva de Harry.
Estamos saindo.
Quase soltei um gemido de alivio ao deixar minha consciência voltar até mim. Os três estavam levantando da sala comunal, ansiosos e munidos da capa de invisibilidade, e não vi mais nada. Limpei o sangue no meu nariz enquanto jogava minhas pernas para fora da cama e respirava fundo ao tentar focalizar o mundo outra vez. Eu estava feliz por ter conseguido ir tão longe, mas sabia que teria que fazer isso mais vezes para provar se a dificuldade se dava pela falta de experiência ou por ter encontrado algum limite. De qualquer forma, não seria hoje que tentaria mais uma vez, e ignorei a dor na cabeça e a náusea no estomago ao subir em direção a sala comunal.
— Eu sabia que, na companhia daqueles três, tanta distração seria para fazer alguma besteira cabível de punição — a voz arrastada chegou até mim. Malfoy sequer tentou se esconder – estava bem a vista, sentado em sua poltrona favorita e notei que ele ainda estava vestido. O parvo estava me esperando ali desde cedo e apenas não o notei por minha mente já estar cansada demais, forçada demais. Meu corpo fraco refletia a mente e tive que me apoiar na entrada do dormitório para não cair quando tudo tombou para o lado, mais uma vez.
— Uma vez na vida cuide da sua própria, Draco — chiei ao focar os olhos nos dele. — Vá para cama.
— Vai perder mais duzentos pontos para a Sonserina, logo agora no final? — O garoto continuou, levantado do seu lugar e indo até mim. Só nós dois ali, tão perto, era impossível não lembrar da noite em que algumas partes entre nós se entenderam. — Você está péssima, seja o que for que vão fazer, duvido que consiga. O que houve?
— Nada que seja do seu interesse, Malfoy — rosnei ao tentar me afastar dele, odiando as marteladas na minha cabeça que faziam as bordas do mundo escurecerem, mas agradecendo minhas pernas ainda firmes. Não cheguei muito longe, no entanto, apenas alguns passos, pois as pontas dos dedos do garoto tocaram meu braço e me fizeram parar, meu corpo tencionando e relaxando muito rápido no segundo que ele não avançou e recuou na tentativa de me segurar.
— Desculpe — o pedido me fez virar o rosto para ele. Seus olhos ainda estavam bastante nítidos para mim. — Por tentar... não é difícil imaginar. Te machucaram e não gosta que encostem em você por isso.
— Isso não é...
— Você não devia ir, Lewis — tornou a repetir, ignorando o que tinha acabado de dizer. — Mal está se mantendo de pé, volte para cama, é uma má ideia.
Ah, se minha mente não estivesse tão dolorida... eu adoraria dissecar a cabeça dele nesse momento. Mas meus olhos, aos poucos, iam focando seu rosto cada vez mais, então me concentrei ali. O prateado de sua íris brilhava e seu rosto não era aquela coisa esculpida em arrogância e frieza, havia ansiedade ali, arriscaria até preocupação, e imaginei como ele estaria se realmente soubesse o que eu estava indo fazer. Snape ou não (e não era), eu estava indo ao encontro de um aliado de Voldemort, de um de seus seguidores. Alguém com maldade o bastante para seguir um louco e, com certeza, para eliminar algumas crianças intrometidas e impertinentes. Mas eu não tinha tempo para isso.
— Eu cuido de mim mesma, Malfoy, ninguém mais — tudo bem, Lagrum tinha sua parte, mas ele não precisava saber disso. — Vá para cama e não me siga, ou não vou piscar antes de te tirar do meu caminho.
Se o magoei com isso, não sei. Minha mente ainda estava encolhida dentro de mim, se recuperando, e eu só tinha meus olhos traidores para observar o semblante do garoto. Seus olhos gelaram outra vez e ele apertou a boca, recuando um passo enquanto seu rosto se torcia de arrependimento e raiva. Havia desdém no ultimo olhar que Draco me lançou antes de dar as costas e descer para seu dormitório, deixando com que eu lidasse com minha sorte. Talvez até torcendo para ela ser uma das piores.
Me convenci de que a frieza nos corredores não tinha nada a ver com os sentimentos magoados e olhar ferido do projeto de lorde que deixei para trás e caminhei devagar até o terceiro andar, ainda reclusa o bastante dentro de mim para não ousar ouvir qualquer sussurro de Potter. De qualquer forma, foi até mesmo fácil chegar em frente a porta do corredor, mas não foi nada fácil engolir o azedume ao vê-la aberta.
— Porcaria, chegamos tarde — a voz de Ronald vinda de lugar nenhum e ao mesmo tempo muito perto fez meu braço agir antes do pensamento, acertando seu corpo invisível, o que foi uma incrível sorte considerando que ele estava entre Mione e Harry, que agora segurava a capa nas mãos. Era uma coisa prateada e fina, que eu apostava não pesar coisa alguma, mas não era hora de tirar dúvidas. — Caramba, doeu!
— Então siga o exemplo de seus irmãos e não chegue de fininho nunca mais — chiei. — E a pedra tem proteção, ele não deve ter passado por todas ainda.
— Bem, aqui estamos — Harry disse baixinho, ignorando o amigo que massageava o peito. — Snape, com certeza, já passou por Fofo. Se vocês quiserem voltar, não vou culpa-los.
— Não me ofenda, Potter — retruquei.
— Não seja burro — Ronald emendou.
— Vamos com você — Hermione concluiu, o rosto muito sério e decidido, como todos nós. Resoluto e muito mais confiante, o garoto abriu a porta. A madeira e dobradiças rangeram baixinho antes dos rosnados ficarem mais altos do que elas. O enorme cachorro passou a farejar e rosnar na nossa direção, babando como só três cabeças podiam conseguir.
— O que é isso nos pés dele? — Granger perguntou baixinho.
— Parece uma harpa — foi Rony quem respondeu. — Snape deve tê-la deixado aí.
— Ele acorda no momento que se deixa de tocar — Potter concluiu e tirou uma flauta de madeira das vestes, as mãos pálidas e firmes. — Bem, aqui vai...
Mas não foi. Pelo visto o cão era minimamente exigente – era preciso ser ao menos melodioso para que dormisse. As primeiras notas desengonçadas de Harry apenas fizeram os dentes do bicho aparecerem, então saquei minha varinha do coturno e apontei para o cão. Ignorei o rosto quase em pânico de Hermione e sua ideia de que eu iria duelar com a coisa e limpei minha mente para deixar a magia fazer seu trabalho.
— Harpa Retificus — no mesmo instante um som de orquestra começou. Lentamente, os rosnados de Fofo diminuíram até sumir antes de suas patas falharem e ele cair de joelhos, então se estirou e adormeceu completamente. Parecia estar sob o efeito da poção do sono mais poderosa do mundo. — Os três, vão. Vou manter ele assim.
Devagar, os leões passaram por mim e quase não contive a vontade de chutar a canela do Weasley quando me avisou para continuar a tocar. Foi ele mesmo o primeiro a chegar perto do alçapão, espiando por cima do dorso do cachorro.
— Acho que vamos conseguir abrir a porta. Quer entrar primeiro, Hermione?
— Não, eu não!
— Deixe de ser covarde, Ronald, anda logo — resmunguei, recebendo uma cara amarrada dele. Porém, acho que tinha consciência de que estava tentando empurrar a menina para ir primeiro, então não devolveu nada.
— Tudo bem — a frase saiu de seus dentes cerrados antes que passasse com cuidado pelas pernas do bicho. Então se abaixou e puxou o anel do alçapão.
— O que é que você está vendo? — Granger tinha a voz ansiosa.
— Nada... só escuridão... não tem como descer, teremos que nos jogar e sei lá qual a profundidade dessa coisa.
— Eu vou primeiro — Potter anunciou, já passando por cima de Fofo e espiando o alçapão. Baixou o corpo pela borda até estar agarrado apenas pelos dedos, então mirou Weasley no rosto. — Se alguma coisa acontecer comigo, não me siga. Vá direto ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo?
— Certo.
— Vejo você daqui a pouco, espero...
Tão otimista quanto possível, o garoto se soltou. Foram segundos tensos, talvez um minuto inteiro, até que nossos ombros relaxassem outra vez com a voz dele, minha varinha ainda empunhada para manter o cachorro dormindo.
— Tudo bem! — A voz de Harry apareceu, distante, mas suficientemente clara. — A queda é macia, pode pular!
Weasley não esperou um segundo sequer, pulou atrás do amigo. Lá debaixo, um minuto depois, ouvimos ele chamar Hermione e a garota ao meu lado respirou fundo, as mãos apertadas, mas o rosto ainda firme. Se virou para mim e tentou sorrir.
— Até lá embaixo, Mal.
— Vou ficar, Granger — minha resposta fez o rosto dela desabar um pouco, mas indiquei o motivo de três cabeças com o queixo. — Alguém tem que manter ele apagado para quando vocês voltarem, e se algum professor aparecer, posso dizer o que está acontecendo e mandar reforços.
— Você tem razão — e eu sabia que havia sido difícil para ela admitir. — Tenha cuidado, Mal.
— Tome você, sabe tudo, agora vá.
Ela queria iniciar uma discussão, mas escolheu sorrir com um pouco mais de brilho e pular atrás dos garotos. Fiquei sozinha naquele corredor, com um alçapão aberto e um cachorro monstruoso adormecido. Andei devagar até o buraco no chão e me sentei ao lado dele, minhas pernas cruzadas e as costas apoiadas na pata de Fofo. Não havia qualquer sinal do fundo olhando dali e isso me fez desistir da ideia de buscar suas mentes. Não achava que aguentaria outra dose de mais cedo, então apenas aguardei, já que não era dos meus planos desmaiar e meu corpo ser devorado pelo cãozinho de Hagrid.
Contei o tempo a partir das notas graves da melodia, eu sabia que dois minutos exatos se passavam. Depois de quase uma hora inteira, eu estava preocupada e irritada com as mesmas notas, além do tédio ser um grande aliado dos pensamentos indesejados, e os meus tinham um cabelo loiro claríssimo com um penteado ridículo. Tudo bem, Malfoy e eu tínhamos avançado em alguns passos em nosso relacionamento. Diríamos até que viramos bons colegas de casa, mas disso para ele fazer aquela cena? Era patético.
Ao menos queria acreditar que sim.
— Mal! — A voz de Mione, quase em pânico, me fez ficar alerta e longe de Draco outra vez. Olhei para baixo, mesmo que não conseguisse ouvir nada. — Mal! Preciso de ajuda!
— Hermione! O que aconteceu?!
— É o Rony — sua voz tremeu. — Havia um... um jogo de xadrez bruxo enorme encantado, ele... ele teve que jogar no lugar da peça, nós todos tivemos, mas o Rony se sacrificou, deixou a própria peça... ele foi acertado! Desmaiou, Mal, e está sangrando!
— Tudo bem, Hermione, preciso que se acalme, você tem um cérebro muito bom para deixar ele inutilizável assim — usei a voz mais suave que consegui, mesmo que meu próprio coração pesasse ao imaginar os dois lá embaixo, no escuro, Ronald desmaiado e Hermione apavorada. — Preciso que você fique bem em baixo do alçapão, está vendo? É importante a mira, Mione, não pode errar.
— O que você vai fazer?
— Eu? Nada, minha varinha está ocupada. Você vai — respirei fundo. — Hermione, esse feitiço serve para jogar o conjurador para cima, muito para cima. Então por isso é importante que você não se esborrache na parede e que segure Weasley bem firme, pode fazer isso?
— Sim — sua voz tremeu menos agora, seu cérebro brilhante não dando tempo para o medo travar suas ações. –– Já estou embaixo, e agora?
— Aponte a varinha para cima e diga: ascendio.
— Ascendio! — Dessa vez, sua voz não era nada frágil. Ela disse o feitiço com toda a segurança que uma das bruxas mais inteligentes e poderosas de sua idade poderia dizer, a mesma menina que também não havia errado um único feitiço até hoje. Em um instante, as cabeças deles apareceram no alçapão antes de caírem com um estrondo ao meu lado. O cachorro apenas resmungou enquanto eu olhava o estrago.
Hermione podia estar suja de fuligem (provavelmente do tabuleiro gigante se quebrando), mas Rony estava nocauteado. Mole, branco como giz e com um lado da cabeça empapado de sangue, o garoto precisava de um médico antes que fosse tarde demais. Mione sabia disso, então se levantou na mesma hora e agarrou Ronald outra vez, sustentando-o da melhor forma que podia.
— Vamos, precisamos levar ele na enfermaria e chamar Dumbledore, Harry está sozinho lá embaixo!
Mesmo que meus olhos tenham ido ao alçapão, sustentei o outro lado do corpo flácido sem hesitar. Não podia imaginar o quanto Granger estava cansada – ela não era o exemplo de força física e nem Weasley o de leveza. Não podia deixa-la carregar o garoto sozinha pelo castelo, e quando os dois estivessem descansando na enfermaria, eu iria ao corujal.
— Harry disse para pegar as vassouras da primeira câmera... — então mordeu a língua ao perceber que eu não sabia o que era a primeira câmera, ao passo que eu terminava o feitiço ao saímos do corredor. — Cada um... testes. Cada um de um professor. Debaixo do alçapão havia visgo do diabo e, depois dele, tínhamos que pegar uma chave voadora para passar pela porta. Havia vassouras lá e Harry me mandou pegar uma na volta, mas..., mas...
— Tudo bem — tranquilizei-a enquanto subíamos até o quarto andar. — Você passou por muita coisa, é normal apenas seguir em frente.
— Depois da chave voadora, foi a vez do jogo de xadrez — senti seu corpo tremer. — Você tinha que ver, Rony foi incrível! É o melhor jogador de xadrez que já vi! Ganhamos o jogo, mesmo que ele...
Ela não falou mais nada, mas tão perto de mim e tão frenética não era preciso. Sua mente passou pela minha como a de um filme e eu vi até o momento em que ela deixou Harry na câmera das poções e voltou para pegar o Weasley. Empurrei as portas duplas da área hospitalar confiando que o barulho invocasse Madame Pomfrey. Não estava enganada. Ela saiu de sua sala aos fundos, primeiro, irritada com tamanha audácia e, então, preocupada.
— Merlin, mas o que foi que aconteceu, Lewis? O que houve com o Weasley?!
— Hermione vai te explicar tudo, Poppy — retruquei enquanto largávamos o menino em um dos leitos. — Eu tenho que ir.
— Mal, eu vou com você!
— Não vai bosta nenhuma, Granger — sibilei para ela, fazendo-a estancar no meio movimento que fazia. — Vai ficar e garantir que esse energúmeno não esteja com problemas e vai explicar as coisas se ele acordar. Além do que, tenho certeza que Pomfrey concorda que você também vai precisar de descanso.
Papoula sequer olhou para mim, completamente debruçada e concentrada em Ronald, mas Mione olhou para ela e aproveitei isso para dar as costas e disparar escadarias abaixo. Saltei conjuntos inteiros de degraus, apoiei nos corrimões não cair e saltei quando via que as escadarias ameaçavam se mudar. Cheguei ao saguão de entrada derrapando no piso bem polido (meus elogios, Filch) e teria levado ao chão o homem com que trombei se ele não fosse muito mais forte do que aparentava.
— Harry foi atrás dele, não foi? — Alvo Dumbledore estava parado, bem ali, na minha frente. A porta estava aberta atrás dele, tinha acabado de chegar, e sequer esperou uma resposta. — Varinha em punho, Mal, venha comigo.
Ela já estava, então só tive que correr. E para um cara de barba tão branca o velho era rápido. Subimos da mesma forma desembalada com a qual eu desci, as escadas engraçadinhas bem quietas para o diretor. Fofo mal teve tempo de levantar o focinho quando passamos pela porta outra vez antes da harpa no chão ser encantada e Dumbledore não esperou eu descer para pular dentro do alçapão. O segui com meu coração batendo rápido e minha pele queimando, meus instintos me preparando para o perigo no final do caminho.
Passamos pela câmera de chaves voadoras, mas a porta se abriu sozinha. O tabuleiro de xadrez, inteiro e novo em folha apesar das destruições, sequer se mexeu. Isso só me fez pensar que, seja quais tenham sido os feitiços das proteções, havia ali um reconhecimento – ou o velho apenas estava o desfazendo entre uma respiração e outra. O trasgo estava tão abatido como antes e o fogo se extinguiu quando passamos. Tive apenas o tempo de uma batida de coração para gravar na memória, na parte mais sombria, o que acontecia diante de mim.
Harry agarrava um homem como se a vida dependesse disso, e provavelmente dependia pela forma como o homem urrava de dor. Alguém, em algum lugar, berrava "MATE-O" e a voz me atingiu tão fundo que meus joelhos falharam. Agarrei minha própria garganta e tentei me livrar da sensação de estar engolindo cinzas e lava, minha pele ardendo como a primeira vez. O mundo escurecia outra vez, mas enxerguei o bastante para entender o que estava acontecendo.
Era Quirrell ali, lutando corpo a corpo com Potter – como eu já sabia.
Mas ele não estava sozinho.
Me levantei enquanto o professor era afastado de Harry. O garoto caiu no chão de pedra, a cicatriz tão vermelha como se tivesse acabado de ser feita, completamente desacordado. Tinha o rosto mais pálido e os membros mais moles do que Ronald, o que me fez cambalear em sua direção e tocar seu pescoço. Estava vivo, por pouco e por hora. A dor na minha pele, a velocidade do meu coração, tudo apontavam em direção a Quirrell e foi para lá que eu olhei, mas não foi o rosto pateta e chorão do homem que vi durante todo o ano que encontrei, não, ele estava do outro lado, em agonia pelas suas mãos e rosto em carne viva.
— O sangue sempre retorna à origem — o pesadelo na parte de trás da cabeça do professor sibilou, e só depois notei que realmente o fazia. Pela primeira vez, ouvi outro ser falar a mesma língua que eu, a língua das cobras, minha língua secreta, e tive que levar à mão em direção ao coração pela dor que vinha de lá. Malditos olhos, maldita cor, maldita dor. Aquele rosto era tão branco que ficava cinza em contraste com a pele rosada de Quirrell, o nariz não passava de duas fendas e os olhos, ah, eles eram da cor do sangue.
Exatamente como os meus.
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