Corona

31 Silva, Silva


Notas iniciais
Hey nenês ♥ Primeiro capítulo de 2018 e antepenúltimo da história 3 Mas aproveitem, sim? Esse é um capitulo MUITO importante ♥ Ah, faltam apenas CINCO comentários para uma ATUALIZAÇÃO DUPLA. Se ela acontecer, são justamente os dois últimos capítulos: sem espera e sem ansiedade para vocês. Estamos em 195 ♥ Comentários do cap 30 vão ser respondidos durante a semana ♥ Por falar nisso, obrigada a Amanda Pêra, Luiza Avelino, Ella Branco (Bella ♥), NathyMarinho, Caique Morningstar e JovanaSerafini pelos comentários, o capitulo é para vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Eu achava que conhecia a dor. Tantas vezes experimentei a ardência na pele, a falta de ar de uma pancada, o agudo de um furo. Mas aquilo era outro nível de dor, feita de todas as outras elevadas a um grau que desconhecia. Eu conhecia a ciência trouxa o suficiente para saber que estava a segundos de um ataque cardíaco, e minha cabeça... como se todas as aulas com Snape não tivessem passado de brincadeira de criança. Eu não a sentia se abrindo, já estava aberta com um pedacinho do meu cérebro sendo tirado por vez.

Assisti, com dor demais, assustada demais, enquanto o monstro afundava suas garras ali, enterrando cada vez mais fundo em minhas lembranças. Vi coisas junto com ele que sequer me lembrava, lembranças dos meus primeiros passos e primeiras palavras. Consegui enxergar os Lewis, mortos a tanto tempo que já não me lembrava de seus rostos, ou assim pensava. Estavam ali, soterrados e escondidos, Agatha e William – menos parecidos comigo, impossível, uma loira e outro acastanhado. E então, eles morreram. Seus corpos voaram para fora do carro, eu vi. Eles estavam brigando, a estrada estava ruim e eu já não estava dentro do veículo quando ele bateu. Há tempo.

Discipline suas emoções, controle sua mente.

Snape. Maldito Snape, o que diria se me visse ali? Sangrando e lamentando como um animal ferido, deixando o vilão da história se entreter com a minha vida? Não foi para essa reação que eu havia treinado, que passei todo um ano tento a mente invadida e repelindo o invasor. Apenas a fúria e a teimosia me fizeram voltar mais para o mundo físico do que o mental, encarando os olhos vermelhos do Cara de Cobra. Uma parte de mim voltou a ter consciência do meu rosto molhado, se de sangue ou lágrimas (ou os dois) já é pedir demais de mim. Eu não duvidava que minha pele estivesse se soltando, tão quente eu a sentia. A marca do monstro em mim queimando em brasa, mil vezes pior do que a primeira vez.

Tijolo por tijolo e pedaço por pedaço, o empurrei para fora. Ele era rápido em destruir, mas eu também. Ler mentes era uma via de mão dupla, então o feri com tudo que tinha. Invadi com o máximo de dor que poderia causar, e juro que ouvi um grito de alguém. Aquela semiconsciência mal podia formar pensamentos coerentes, mas havia o bastante para rasgar. Uma floresta escura, um jovem tolo e fraco que entrou em seu caminho, e antes disso, a dor. A dor igualável a uma alma partida e uma explosão, e um bebê... olhos tão, tão verdes como o da Sonserina, e uma testa livre de qualquer cicatriz.

Era Quirrell quem gritava, reconheci, e Dumbledore apontou a varinha para ele. O Cara de Cobra retorcida, desaparecendo, se desprendendo... tudo não durou nada. Segundos, talvez? Meu coração desacelerava de uma vez só e minha mente se partiu enquanto enxergava fumaça acima de nós, que desapareceu como se nunca estivesse estado lá. Mas eu sabia que estava, pois, minha alma reconheceu o que sobrou da dele e meus olhos espelharam os seus por um último momento, ambos da cor do sangue como alguma maldição. Então ele desapareceu e deixei que meu corpo parasse de lutar. Pelo menos um pouquinho, pelo menos por hora, eu recebi a escuridão de onde vim de bom grado.

Silva, Silva, serpinha,

Serpeia pelo soalho

Os gritos de Quirrell se transformaram em algo muito mais prazeroso de se escutar. Um timbre forte, baixo, mais um cantarolar do que uma canção. Não era Lagrum, mas cantavam a mesma coisa. Olhei em volta, guardando outra vez aquela memoria antiga e apagada, mas muito viva agora. Um homem e um bebê, bem pequeno em seus primeiros meses de vida, os dois ao lado de um berço de madeira escura e entalhada. Todo o quarto era luxo, era meu. As paredes pintadas de prata, o colchão do berço em preto, as prateleiras de um verde profundo. Haviam cobras, também, no entalhe do berço, nas cortinas, até nas paredes. Um brasão. Um S.

O bebê ainda sorria, quase desaparecendo entre os braços fortes do homem que o segurava, que o ninava como se não houvesse outra coisa no mundo, outro qualquer lugar para fazer ou estar. A cada passo para-lá-e-para-cá que o homem dava, passos precisos e cheios de graça, de pernas firmes e silenciosos, o bebê se divertia fazendo os brinquedos levitarem, rindo ao fazer eles irem pelo quarto inteiro, rodopiando em volta dos dois. Reconheci a mim e inclinei a cabeça, tentando ver o rosto do homem.

Não conseguia. Seu cabelo muito preto e formado em ondas cobria seu rosto. Eu só podia enxergar partes de seu rosto, as partes que meu próprio eu se lembrava: a pele muito pálida, o rosto magro, as maçãs do rosto tão altas que davam a impressão que iam cortar a pele. E sua voz. O timbre de sua voz enquanto me tinha nos braços e girava comigo pelo quarto – não para me fazer dormir, mas para me ter. Com ele, em seus braços, onde eu estaria segura e nada no mundo nunca iria me machucar. Onde tudo era real.

Seja sempre boazinha

Ou crave-lhe as presinhas

Olhando o bebê no tapete da sala, eu diria que pelo menos dois anos haviam se passado. As coisas haviam mudado, muito. O homem havia desaparecido e agora eu estava em uma sala notavelmente trouxa. Não havia mais cobras, não havia mais o berço, não havia mais música. Quem estrelava a lembrança agora era Agatha Lewis, a mulher que me escolheu para ser mãe. Mas ela não era. Ela era muito diferente para ser minha mãe. Seu cabelo loiro dourado era muito distante da profusão expeça e negra que cobria meu rosto, com que eu enrolava meus toda minha mão em um pequeno ponto. Ela não era.

Eu empurrava alguns blocos nas formas correspondentes sob seu olhar vigilante, como se esperasse que algum desastre fosse acontecer. Bom, talvez não um desastre, mas algo que a lógica e a razão não permitiam. E lá estava, irritada com o bloco não se encaixar na forma, ele se transfigurou nas minhas mãos pequenas, que riu de vitória ao encaixa-lo. Ao menos tentou.

— Não — Agatha tomou o bloco da minha mão, os lábios apertados e os olhos injetados. A quanto tempo não dormia? — Não querida, não. Nada disso, está ouvindo? Tem que parar com isso.

Como podia fazer aquilo? Como se atrevia? O homem nunca havia me criticado, nem a mulher: seja a muito loira, seja a de cabelos selvagens. Eles sorriam quando eu mostrava algo assim, seus olhos brilhavam. Era algo que eu devia fazer, era algo que eu sequer precisava pensar, era uma extensão de mim. Como se atrevia a me negar isso? Como tinha a coragem de fazer isso e ainda me dizer, de novo e de novo, que era minha mãe? Não era. A mulher gritou quando o bloco se incendiou em sua mão.

Silva, Silva, serpinha,

Serpeia pelo mato

O grito de Agatha continuou cortando o ar, mas o ambiente já não era o mesmo e nem ele me parecia assim tão dolorido, porém era igualmente assustado. Senti a grama do parque abaixo de mim e aproveitei a sensação fantasma enquanto ela durava. Busquei minha versão mais jovem e a encontrei na orla de uma mata mais densa, afastada dos Lewis e de suas tentativas de um piquenique em família.

— Malorie, se afaste disso, meu Deus... — a mulher entrava em desespero enquanto William saia em disparada pelo parque atrás de algum funcionário que resolvesse a situação. E que situação. Agora eu já tinha um nome, um novo nome, um nome trouxa. Não era por ele que o homem me chamava, nem ninguém, mas todos me chamavam assim agora. Malorie. Malorie Lewis. Mudaram o meu nome, eu sabia que tinham, mas qual era o antigo?

Pelo olhar dos dois a escolha dele nunca fez tanto sentido. Me aproximei a passos curtos e ultrapassei Agatha para poder me olhar direito. Não estava acontecendo nada demais, até eu conseguir ver as escamas escondidas na moita.

— Não existem cobras nesse parque, senhor — William havia conseguido arrastar um funcionário até lá, um bem desinformado.

— Estou dizendo que minha filha achou uma! — Meu suposto pai rebateu, e havia algo que odiei na forma como disse aquilo – soava enferrujado e forçado. Virei meu rosto de novo para minha versão bebê, não mais que três anos, e observei enquanto o funcionário do parque entrava em choque e depois começava a chamar o Controle de Animais. Não existiam cobras naquele parque, então porque eu estava acariciando uma? William disse que eu a havia encontrado, mas pela forma angustiada que Agatha não tirava os olhos de mim, soube que não era a primeira situação do tipo.

Eu havia sido encontrada, de novo.

Seja sempre talentosa

Mas cuidado com teu formato

Meu tempo com os Lewis estava, se pudesse julgar de forma correta, eu devia ser um ano após o parque. Agora, chutaria quatro anos – apenas dois antes do acidente. Eu estava admirada com o casal, de verdade, pois o medo do que eu fazia e do que era estava impregnado neles como um odor constante que me causava náuseas.

O quarto não possuía berço e sim uma cama baixa com cercados. Eu estava sentada em uma mesinha infantil, muitos papeis e lápis coloridos à minha volta, muito concentrada usando as cores preto e cinza. Quando William entrou com um prato de biscoitos e um copo de leite, chegou até a parar no batente da porta – os olhos pesados em mim. Agatha tinha seu amor maior que o medo, já ele tinha o medo maior que o amor.

— Os biscoitos vão esfriar, papai — foi assim que aprendi a chamá-los, foi assim que repetiram para mim até que eu dissesse apenas para fazê-los parar. Papai. Errado, errado de novo, tudo estava errado. Este homem de cabelos cor-de-terra e pele bronzeada... ele não era meu pai. Onde estava o outro? Alto e elegante, forte e seguro. O homem que me prometia o mundo toda noite, que me prometeu que me protegeria, que nunca deixaria o meu lado. Pele pálida, maçãs do rosto marcadas, a voz potente. Onde ele estava? — Pode deixá-los e ir embora, se quiser.

Isso fez William acordar e o impulsionou para frente, colocando o prato em cima da mesinha, junto ao copo. Apesar de ainda ser de plástico, não tinha qualquer bico ou apoio. Eu apostava que apenas não era de vidro pela teimosia do casal, assim como os cercados ao lado da cama – era mais do que obvio que eles não estavam lidando com uma criança medíocre.

— O que está desenhando?

— Não lembro — respondi com honestidade. Então observei enquanto levantava a cabeça e encarava o adulto. Errado. Era sempre essa a sensação que eu tinha a vê-lo. Ao vê-la. Ao estar naquela casa. Era errado. Este não era meu lugar, eles não eram meus pais. Onde eles estavam? Porque me deixaram aqui, com eles? Com essa gente que tinha medo de mim, medo dos meus dons, medo de quem eu era? — Sonhei com isso, mas já esqueci. Também acontece com você?

— Às vezes — a resposta veio devagar. — Nosso cérebro é programado para se esquecer de um sonho assim que acordamos. É raro se lembrar de um, ainda mais com detalhes.

— Mas era importante — insisti, meus olhos baixando para o papel outra vez. — Por algum motivo...

Espichei meu próprio pescoço em direção ao desenho, franzindo a testa ao constatar que minhas habilidades artísticas não estavam se desenvolvendo tão bem quanto a coordenação motora ou a fala. Mesmo assim consegui enxergar os portões, os jardins imensos, as portas duplas – o palácio. E o pequeno garoto dentro dele, os olhos sem colorir, mas era assim que ficariam. Cinza não era o bastante para eles, o certo era prata. Apenas o prateado brilhante os honraria. E não havia nenhum. Assim como ele – ele também sumiu.

Silva, Silva, serpinha,

Serpeia pelo mar

Eu sonhava com as ondas, mesmo que os Lewis nunca houvessem me levado para perto da praia. O barulho do mar revolto e da lareira crepitante. Era uma grande lareira, enorme, poderiam caber dois daqueles seres imensos ali – adultos. A casa era menor do que o palácio, mas ainda era grande e eu me lembrava de poucas coisas. Do meu quarto e da sala, principalmente. E da mulher. Ela ficava comigo todo o tempo, me zelando com devoção.

Eu me lembrava do toque de seus dedos frios com unhas longas.

Eu conseguia recordar de seu cabelo grosso e escuro cobrindo todo o mundo quando se debruçava para mim.

Eu ainda tinha a sensação fantasma de seus lábios em meu rosto, do beijo rápido e forte – selvagem e bruto como toda sua essência.

Mas ainda havia um pouco de calor nela, e era ele que eu procurava nos desenhos infantis. Às vezes conseguia ouvir uma voz cantarolando. Nenhuma letra, nenhuma música conhecida, apenas notas avulsas em uma voz meio fina e feroz. Então ela desaparecia também, levada para longe por... por quem? Por ninguém. Ela havia ido embora, foi embora e então a mulher loira me pegou em seus braços, até me tirarem dela também. Porque?

Seja sempre ligeirinha

Sem nunca se domar

Eles não sabiam que eu estava ali. Com cinco anos, encolhida e em silencio no topo da escada, o casal no andar de baixo não podia me ouvir e nem me ver. Me sentei ao lado de mim, imaginando a razão de ter me dado ao trabalho de levantar – eu não precisava disso para saber o que eles estavam conversando, discutindo, de novo.

— Ela está melhorando, querido, tenho certeza...

— Melhorando?! — O berro contido de William virou um soprano agudo. — Agatha, ela nunca vai melhorar! Os vizinhos falam, e como não falariam?! O Controle de Animais já entra sem bater aqui em casa, as coisas mudam de cor, formado e lugar... sem falar daqueles desenhos terríveis!

— Toda criança desenha, Will, é normal.

— Uma menina da idade dela devia desenhar unicórnios e flores, não figuras de capuz, olhos vermelhos e cobras enormes! — Ele rebateu. Houve silêncio, pois Agatha não podia negar que os desenho a assustavam. William sentiu o cheiro de sua insegurança e insistiu. — Olhe, eu fui até o orfanato onde a pegamos...

— Você o que?! — A voz dela voltou com força, chiando de ódio. — Não se atreva! Me diga que não se atreveu!

— Eu só fui tentar entender! — William se defendeu. — Conversei com a abadessa, Joan, a mulher está quase cem por cento do tempo de cama, mas me recebeu. Ela disse que Malorie apareceu na porta do orfanato, embrulhada e abandonada, com mais ou menos um ano de vida...

— Já sabíamos disso.

— Mas tinha uma coisa com ela — o homem rebateu, a voz se inflando. — A mulher não quis me dizer o que, foi categórica quanto a isso. Disse que apenas a própria menina poderia ir buscar, e mais ninguém. Talvez seja uma pista de onde ela veio...

— E o que vai fazer com essa pista, William?! — Havia gelo na voz de Agatha. — Hm? Vai rastrear sua família biológica e joga-la de volta na porta deles?! Talvez com um bilhete de desculpas?! É esse seu maldito plano?!

— Ela não é normal!

— É a nossa filha!

Silva, Silva, serpinha

Serpeia pela brasa

O carro não explodiu, mas parecia que ia. Um pouco antes do desastre, William tinha vencido. Se pela exaustão de Agatha ou se por mérito próprio, nunca fiquei sabendo. Havia me colocado no carro junto à esposa e dirigiam em direção ao orfanato Lar para Meninas de Santa Maria, não sem uma última briga.

— Não acredito que concordei com isso — a mulher quase chorou. — Quer saber? Não concordei, volte agora mesmo!

— Não vou voltar! — Will bateu o pé, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. — Vamos descobrir o que... quem ela é!

— Ela é nossa filha!

Não era. Nunca fui, nunca seria. William sempre soube disso, e eu também. Mas eu já tinha ouvido essa discussão muitas, muitas e muitas vezes. Agatha tinha pavor da mancha negra que me seguia, das minhas capacidades, mas tinha certeza de que eu poderia ser redirecionada daquilo para algo tão inferior quanto ela com muita paciência e amor. William já tinha os olhos mais claros: ele sabia que nem todo o tempo e amor do mundo seriam capazes de mudar minha natureza – ele a temia como uma criança teme o escuro no canto do quarto.

A viagem de carro onde eles morreram era quase uma tacada do destino deliciosamente cruel. Estavam me arrastando para o lugar onde me pegaram, onde ficaria mais fácil de sair correndo e me deixar para trás. Agatha não lutaria se o marido chegasse a tanto, eu e ele sabíamos disso. Cinco anos de noites mal dormidas, de medo e pesadelos haviam arruinado sua alma e sua mente.

Quando o carro foi achatado e a vida de meus seres que tiveram a coragem de se chamar de meus pais foi arrancada em uma colisão violenta, observei da beira da estrada em silêncio, com o grito de ambos chamando meu nome ainda alto nos meus ouvidos. Um segundo, apenas um segundo antes da batida eles haviam percebido que já não estava lá quando olharam para trás. Olhei bem para criança parada, me abaixando um pouco para nivelar nossos rostos e percebi de que não estava chorando.

Seja sempre melindrosa

Ou perde o caminho de casa

Não era a primeira vez que eu estive em um hospital. Desde bebê, quando minhas anormalidades apontaram, os Lewis haviam me subjugado a inúmeros exames tantos físicos como psicológicos até chegar ao ponto de se recusarem a atendê-los. Sua filha tinha uma saúde perfeita e uma mente estável, até mesmo avançada para idade, será que não podiam se contentar com um pequeno gênio e irem embora?

Foi Agatha quem interrompeu aquela invasão e nunca mais tive que lidar com o ambiente frio e clinico de centros médicos. Até aquele momento. A cama no meu quarto na ala pediátrica era tão dura e simples como poderia ser, as cobertas higiênicas estendidas até meu colo. Pelo que havia ouvido, eu estava bem. Nem um arranhão físico, apesar de ser classificada como “estado de choque” pelo meu silêncio inabalável, o que foi ótimo. Crianças devem chorar quando os pais morrem, e eu não estava chorando – choque fazia não ser tão ruim.

Levantei a cabeça quando a porta do quarto se abriu, mas não era um médico. Na verdade, não era como qualquer pessoa que já tinha visto. Usava uma veste longa e escura e um capuz cobrindo o rosto. Não poderia dizer se era homem ou mulher, até mesmo sua mente estava fechada. Tirou um pedaço de madeira cumprido e trabalho das vestes e apontou para mim, bem no meio da cabeça. Poderia fazer seu braço se partir em trinta pedaços diferentes, mas continuei olhando.

— Ainda não é hora, princesa.

Silva, Silva, serpinha

Serpeia para mim

A primeira coisa que notei foi que cortaram meu cabelo no hospital para cutucarem minha cabeça. A segunda foi que o orfanato já estava atrás de mim, se erguendo com todo a maldade e o sangue que já conhecia. As feridas abertas na minha mão e nas penas não me impediam de andar em direção a mata densa – não ligava se Greta iria me punir por me afastar e quebrar as regras, porque ela me puniria de qualquer jeito por qualquer motivo.

A neve ajudava a não doer, de qualquer jeito.

Segui a criança em sem saber quem estava em mais silêncio, eu ou ela. Minha mente fragmentada se reconstruindo, livre de algum feitiço de memoria poderoso feito por alguém que decidiu minha vida por mim. A tentativa que eu me lembrasse de uma falsa infância tranquila e amorosa fazia meu estômago embrulhar. Mas não tinha dado certo, não totalmente. Eu ainda mantive consciência o bastante para não chorar a morte dos Lewis – sequer para chama-los de pais.

Mas eu me lembrava dessa lembrança e sorri ao ouvir um silvo baixo. Minha versão mais jovem virou o rosto em direção ao barulho, se aproximando até enxergar o pequeno filhote de cobra enrolado na neve. Tão escuro que qualquer predador o acharia na mesma hora, tão pequeno que não teria qualquer chance. Ele mirou as joias negras de seus olhos para mim, curioso, e eu estiquei minha mão.

— Também estou sozinha.

Seja sempre malvadinha

Pois o ciclo não tem fim

Eu estava deitada na cama, ou, ao menos, eu com nove anos estava. Lagrum já estava crescido e tentava me fazer sobreviver naquele inferno. Uma a uma, Greta tirou até mesmo a enfermeira do lugar. Com Joan reclusa no quarto, não havia quem a impedisse de cometer a barbárie que quisesse. Apenas eu.

E daquela vez, não havia conseguido escapar.

Das presas de Lagrum pingava veneno, caindo diretamente na minha pele aberta e carne exposta até os ossos em certos pontos. Cada gota, uma batida de coração, um recuo da consciência. Tinha que ter um motivo, uma maldita razão para tudo isso. Não era a primeira vez, mas era a primeira dessa forma. Eu sabia que ajudaria a fechar, que me ajudaria a dormir, que faria melhorar... e que Lagrum não toleraria birras da minha parte.

Eu não podia apagar, mas devia. Minha mente não tinha forças para lidar com aquela dor de forma consciente, iria quebrar. E uma fez que fizesse, todo veneno de meu amigo não seria o suficiente. Ele cuidaria de mim, eu sei. Não deixaria ninguém entrar, me manteria viva, mesmo que miserável. Já havia feito antes, só precisaria de mais um pouco. Ele poderia fazer isso e então tudo ficaria bem, assim como antes.

Silva, Silva, serpinha

Serpeia junto comigo

Não foi como das outras vezes. Não demorei um dia, nem mesmo uma semana, para me curar. Quando perguntei a Lagrum, ele disse que quase três meses haviam se passado desde quando Greta tentou me matar com mais afinco do que vinha fazendo desde que me conheceu.

Eu não me lembrava de muita coisa. Às vezes despertava por alguns momentos, mas era tão ruim que não suportava. A dor nas costas, nos órgãos, na pele, na mente. Vomitei varias vezes, ele saiu vermelho em outras tantas. Quando não estava me pingando veneno e cuidando para que eu não afogasse em minha bile, Lagrum cantava para mim. Eu o ouvia do escuro e era minha única ponte para a consciência – aquela melodia tão familiar, tão certa e clara – e para um mundo pelo qual ainda valia a pena voltar.

Sejamos sempre ligados

Sempre muito mais que amigos

Eu só queria voltar para o Orfanato. Não era minha casa, mas Lagrum estava lá. Por razões obvias, meu amigo permaneceu nas sombras quando os adultos chegaram e me tiraram da floresta, tão fraca, suja e parada quanto possível. Já faziam pelo menos três dias que eu estava naquele quarto com um homem fardado na porta, colocado ali para garantir que ninguém me alcançasse.

E tentaram me alcançar.

Os sussurros me contaram que toda a história foi chamada de “Horror em Santa Maria”, como um filme de terror ruim. Acompanhei tudo, mesmo que ninguém me dissesse nada. A policia invadindo, as provas sendo apreendidas, as outras crianças sendo escutadas e o caso que chocou o país inteiro – a feira psicopata que torturava as crianças sob sua responsabilidade.

Queriam me conhecer, o povo. Jornalistas e pessoas mal-intencionadas já tinham tentado furar o bloqueio para conseguir alguma entrevista, para ouvirem minha versão. Quem conseguisse tirar o homem fardado da frente da porta a encontrava trancada, eu não queria falar com ninguém. Ouvi a palavra heroína, mas ela se tornou amarga demais. Ainda era. Os Lewis estavam certos e eu não era nada mais que uma mancha escura.

Silva, Silva, serpinha

Então serpeia para sempre

Eles foram obrigados a me esquecer, eventualmente. A fama macabra do orfanato o seguiria para sempre, mas meu nome nunca divulgado foi perdido. Voltei em silêncio no carro da assistente social, ainda muito confusa por eu ter negado tão veementemente em ser adotada. Ela não entendia, mas eu não queria que entendesse.

O ar estava diferente agora, sem o cheiro de sangue e a presença expansiva do medo. Havia todo um grupo de freiras novos, mas fugi antes que me achassem. Teria tempo de ser olhada depois, fui ver Lagrum. Me afastei em direção ao meu quarto e me observei deitar na cama. Parecia cansada, e meu amigo apenas se enrolou em mim, cantando aquela musica de ninar, a que me embalou desde que nasci e muito, muito depois.

Em verde e prata e ouro e presas

Ou devoro teu coração

A sensação de não estar tão ruim quanto poderia (e deveria) fez com que minha consciência tropeçasse. Não era mais nenhuma lembrança – o tour sinistro pela minha vida esquecida, embalado pela minha canção de ninar, havia terminado, mas quase desejei que não. Pelo menos enquanto observava minha versão pequena eu estava longe da ardência e do peso que meu corpo se resumia. Resmunguei sem saber onde estava, meu instinto me dizendo para me situar o mais rápido possível e fugir, se necessário.

— Fique quieta, garota — a voz seca e próxima me obrigou a abrir os olhos mesmo com todos os sinais me dizendo que seria uma péssima ideia. E foi. Meu não estava nada preparado para o estimulo da luz, ou de mover minhas pálpebras, e senti minha garganta queimar com o esforço de não reclamar.

— Dos muitos fetiches estranhos que você poderia ter, Capitão Gancho, observar garotinhas dormirem me pegou de surpresa — a frase saiu cortada em uma voz mais áspera do que uma lixa, mas saiu. Severo inclusive torceu o canto dos lábios, se aproximando da cama com toda aquela capa preta o seguindo.

— Algum dia irá aprender a controlar essa língua maldita?

— E deixar de instigar o desejo de assassinato nos outros? — Torci o rosto, o que não foi nada difícil já que ela estava assim mesmo. Tentei me sentar, mas Snape me lançou um olhar duro que eu estava fraca demais para desafiar. Suspirei. — Era Quirrell. Eu sabia que era.

— O quanto você se lembra? — A pergunta dele quase me fez gargalhar, mas prendi a risada cruel no fundo da minha garganta enquanto olhava em seus olhos escuros. Imitei sua torção nos lábios, testando a força dos meus dedos enquanto os corria pelo cobertor.

— De tudo — minha voz era mais suave do que meus pensamentos. — Até quando desmaiei, claro. Quanto tempo fiquei fora?

— Quatro dias — Snape me conhecia bem o bastante para perceber a mudança na minha expressão, mas não estava com a varinha em punho. — Até mesmo Potter já foi liberado, os outros dois bem antes dele. Só sobrou você.

— Que honra — debochei, mas fiquei em silêncio. Queria saber mais, mas minha mente e meu corpo ainda estavam muito quebrados para tentar achar algo na consciência de Severo. — Ele não estava sozinho. Quirrell, digo, tinha alguma coisa atrás da cabeça dele. Era ele, não era? Voldemort.

— O Lorde das Trevas — meu professor concordou, sem qualquer reação ao nome proibido. — Ou o que restou dele. Foi uma façanha e tanto, Lewis, não ter se transformado em um vegetal com baba escorrendo depois do ataque que sofreu.

— Mal.

— Como é?

— Não me chame de Lewis — falei devagar, meu coração processando tudo que havia visto. Malditos idiotas. — Me chame de Mal. Só Mal.

Isso fez com que Snape ficasse olhando para mim por um tempo, provavelmente desejando muito que estivesse com a varinha para poder vasculhar a razão da minha rejeição ao meu sobrenome trouxa. Mas ele não estava, e duvido que de fato o fizesse. Cada pessoa tinha seus segredos e o direito de mantê-los – e se eu não comentasse sobre sua vigília, ele não procuraria saber sobre minha revolta.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 30 ♥ Malfeito, feito! ♥