Corona
4 Sangue de Cobra
Notas iniciais
Se possível, Rony amarrou ainda mais a cara enquanto eu tirava minha amiga dali em meio uma risada, a mancha de sangue de Draco Malfoy na parede melhorando em muitos níveis meu estado de espírito. Até chegarmos em nossa cabine outra vez, o trem com certeza já havia diminuído bastante a velocidade e o céu estava de uma cor roxa profunda. Quando o maquinista avisou que deveríamos deixar qualquer mala dentro do trem, esperei Hermione se trocar para pedir privacidade. Ela olhou para minhas mãos marcadas quando o fiz, e apesar de ter de morder os lábios para isso, não falou nada ao sair.
As vestes longas e pretas de bruxo me serviram bem, apesar de serem de segunda mão. Ajeitei-as o melhor que pude e murmurei para Lagrum ficar calmo e não, sabem, morder ninguém ou coisa parecida, ele provavelmente seria levado para meu quarto e eu traria pedaços grandes de carne para compensar o contratempo. Ele me xingou de algumas coisas feias, mas prometeu se comportar.
Quando o trem finalmente parou houve um tumulto básico para se chegar à porta e descer na pequena plataforma escura. Estreitando os olhos, avistei casas ao longe e cheguei à conclusão que estávamos em Hogsmeade. O fato de Hermione não parar de espichar o pescoço para tentar ver ao redor apenas comprovava isso.
— Que frio — ela reclamou, apesar de não estar com cara de quem estava realmente prestando atenção na temperatura, então encolhi os ombros para ela. Lagrum sempre disse que eu tinha algo de réptil em mim, já não sentia tanto frio ou calor quanto as pessoas a minha volta, e literalmente precisava de um pouco de sol para me sentir quente em algum dia.
— Alunos do primeiro ano! Alunos do primeiro ano aqui! Tudo bem, Harry? — O maior homem que eu já havia visto estava sorrindo para Harry, não muito distante de nós. Usava um casaco grande e bege, de aparência velha e gasta, e o cabelo negro se misturava com a barba, cobrindo seu rosto quase inteiro. Mas ainda era possível ver seus olhos escuros pequenos e brilhantes e aquele sorriso bobão. Apesar de ter uns bons dois metros de altura, ou mais, ali estava alguém com um coração genuíno. — Vamos, venham comigo. Mais alguém do primeiro ano?
O homem nos fez segui-lo por um caminho muito escuro e íngreme, o que resultou em muitos tropeços e escorregões coletivos. O cheiro me dizia que havia muitas arvores ali em volta, mas estava tão escuro que nem eu conseguia ver alguma coisa. Deviam estar todos muitíssimos concentrados em não cair, pois ninguém abriu a boca. Isso, pelo menos, até o homem fazer com que sua voz assustasse algumas das crianças.
— Vocês vão ter a primeira visão de Hogwarts em um segundo — gritou por cima do ombro. — Logo depois dessa curva.
Eu juro que não fomos treinados para isso, mas qualquer um que visse duvidaria. Soltamos todos "ah", "oh" e "uau" muito alto e muito sincronizados. O caminho estreito se abriu de repente na margem de grande lago. Podia ser a noite, mas suas águas me pareciam tão negras quanto as escamas de Lagrum e isso me fez me mexer de preocupação. Esperava que ele estivesse bem. Mas, sendo um pouco egoísta, eu tinha uma visão um pouco mais impactante do que a situação do meu amigo. Do outro lado do lago, no topo de um penhasco, havia um imenso castelo. Mil janelas brilhavam na escuridão e eu podia ver muitas torres, grandes e pequenas, se erguendo no céu estrelado. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto.
— Só quatro em cada barco! — Gritou o homem outra vez, apontando para um fila de barquinhos parados na margem do lago. Vi Harry e Ronald indo para um deles e os segui bem de perto com Hermione. O homem grande tinha um barco só para ele, claro, já que ninguém mais caberia, e depois de se assegurar que estavam todos acomodados, fez com que toda a fila se lançasse nas águas de uma só vez. Todos continuaram em silencio, os olhos apenas naquele imenso castelo que parecia ficar cada vez maior a medida que chegávamos mais perto.
Abaixamos as cabeças quando ele mandou, ao chegarmos ao penhasco. Atravessamos então uma cortina de hera que escondia larga abertura na face do penhasco, como um porto natural. Entramos direto em um túnel escuro e liso que nos levava com calma e tranquilamente por baixo do castelo até um cais subterrâneo, onde desembarcamos pisando em pedras e seixos.
— Ei, você aí, é seu sapo? — O homem perguntou enquanto verificava os barcos à medida que todos saiam deles.
— Trevo! — O garoto gordo, cujo nome Hermione me sussurrou que era Neville, gritou em plena felicidade ao estender as mãos. Com todos os alunos (e sapos) em segurança, começamos a subir por uma passagem aberta na rocha, a única luz sendo a lanterna do homem, até finalmente sairmos em um gramado verde e fofo bem às sombras do castelo. Subimos, enfim, uma escada de pedra e nos aglomeramos em frente a uma grande porta de carvalho.
— Estão todos aqui? Você aí, ainda está com seu sapo?
Então o homem ergueu o punho do tamanho da minha cabeça e bateu três vezes nas grandes portas do castelo. Elas se abriram quase imediatamente e uma mulher alta apareceu. Tinha cabelos negros e vestes verde-esmeralda, além de um rosto severo que me lembrava Greta, mas seus olhos não eram cruéis como os dela. Eram duros, sim, de um tom verde profundo. Mas não cruéis, apenas exigentes, críticos demais.
— Alunos do primeiro ano, Professora Minerva McGonagall — o homem grande lhe apresentou. Quis falar algo sobre ela ter o nome da deusa romana da sabedoria e se ela sabia disso, já que não fazia ideia se bruxos se informam dessas coisas, mas se nem Hermione havia falado algo, resolvi ficar calada.
— Obrigada, Hagrid — ah, esse era o nome dele. — Eu cuido deles daqui em diante.
Ela escancarou a porta, permitindo que todos atravessássemos e chegássemos ao saguão. Este, aliás, era enorme. Todo o complexo do Orfanato caberia apenas ali, o que não era pouca coisa. As paredes de pedra eram iluminadas com archotes, e precisei de um pouco de estudo em História da Magia para aprender que toda essa resistência a eletricidade não era nenhuma fixação e sim uma necessidade: eletrônicos ficam malucos e entram em curto perto de magia. Mesmo se Hogwarts tivesse um sistema elétrico, provavelmente viveria mais com defeito e quebrado do que em funcionamento.
Fora a iluminação, o teto era alto demais para sequer o enxergar e estávamos de cara com uma grande e larga escada de mármore que subia em muitos, muitos andares. Me perguntei quantos, exatamente, o castelo tinha pois não me lembrava dessa informação no livro e teria perguntado para Hermione se não tivéssemos começado a andar. Consegui ouvir o murmúrio conhecido de vozes não muito longe, muito parecido com o refeitório do orfanato, mas multiplicado em cem. Apesar disso, professora McGonagall não nos levou direto para eles (e para comida) e sim para uma sala vazia adjacente, fazendo com que ficássemos mais colados um no outro do que gostaríamos e três vezes mais ansiosos.
— Bem-vindos a Hogwarts — ela começou. — O banquete de abertura do ano letivo vai começar daqui a pouco, mas antes de se sentarem as mesas, vocês serão selecionados para suas casas. A Seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui, sua casa será uma espécie de família em Hogwarts. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão o tempo livre na sala comunal. As quatro casas chamam-se Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina. Cada casa tem sua história honrosa e cada uma produziu bruxos e bruxas extraordinários. Enquanto estiverem em Hogwarts os seus acertos renderão pontos para sua casa, enquanto os erros a farão perder. No fim do ano, a casa com maior numero de pontos receberá a Taça das Casas, uma grande honra. Espero que cada um de vocês sejam um motivo de orgulho a casa à qual irão pertencer. A Cerimônia de Seleção vai se realizar dentro de alguns minutos na presença de toda a escola. Sugiro que vocês se arrumem o melhor que puderem enquanto esperam.
Tenho absoluta certeza que ela olhou para mim quando disse isso e para meu cabelo despenteado, além de roupas amassadas por uma cobra enorme estar as usando de colchão. Além de olhar Neville, que tinha a capa presa na orelha esquerda e na estranha sujeira no nariz de Ronald que ainda estava lá. De canto de olho, observei Harry tentar arrumar o cabelo e quase lhe dei um chute nas canelas para deixar de ser tão bobo.
— Voltarei quando estivermos prontos para receber vocês — continuou a professora Minerva. — Por favor, aguardem em silêncio.
De forma incrível, todos se mantinham muito quietos. Ouvi Harry e Rony cochicharem alguma coisa sobre teste e doer a beça, mas decidi ignorar, pois entre eles e Hermione que sussurrava cada feitiço que havia no livro (e eu sabia disso, porque também li), eu acabaria remando de volta para o mundo trouxa. Soltei o ar devagar e mantive os olhos fixos na porta onde a professora havia desaparecido. Me lembrei de Burbage, talvez eu a veria. E Lagrum. Eu odiaria aguentar ele rindo ao saber que senti medo. Medo era algo que ele não entendia e desprezava, pois apenas os fortes vivem na natureza e os fortes são aqueles que não tem medo de enfrentar o que vem até eles.
Em minha defesa, eu não me assustei com os fantasmas, me assustei com os outros! A maioria gritou e qualquer um pode ver Harry subir uns bons trinta centímetros do chão. Todos começaram a ofegar e arregalar os olhos, o que me deixou a vontade para relaxar um pouco mais ao descobrir que, mesmo entre as crianças bruxas, ver mais de vinte fantasmas deslizando um pouco acima da cabeça não era algo rotineiro.
Mas pelo visto era para os fantasmas. Mal olhavam para baixo enquanto conversavam entre si, as formas peroladas e meio transparentes dando a sensação de estar olhando através de um vidro embaçado. Um fantasma gordo discutia com outro de barba e algo prateado por toda sua roupa, cintilando como sangue fantasmagórico.
— Perdoar e esquecer, eu diria, vamos dar a ele uma segunda chance...
— Meu caro frei — o fantasma sujo interrompeu o gordo. — Já não demos a Pirraça todas as chances que ele merecia? Ele mancha a nossa reputação e, você sabe, ele nem ao menos é um fantasma. Nossa, o que é que essa garotada está fazendo aqui?
Ninguém respondeu.
— Alunos novos! — O frei gordo celebrou com um sorriso. — Estão esperando para serem selecionados, imagino?
Acenei com a cabeça junto à outra meia dúzia de alunos, ainda bastante mudos.
— Espero ver vocês na Lufa-Lufa! — O frei continuou, ignorante ao silencio da outra parte da conversa. Era o Frei Gorducho, claro. O fantasma da Lufa-Lufa. Ele estava no livro de Hogwarts, junto com a Dama Cinzenta da Corvinal, Nick-Quase-Sem-Cabeça da Grifinória e o Barão Sangrento da Sonserina. Levando em conta que o fantasma ao lado dele não era mulher e nem tinha a cabeça quase caindo, minha percepção sobre sangue estava mais que certa. — A minha casa antiga, sabe?
— Vamos andando agora — professora Minerva com certeza tinha uma voz forte. — A Cerimônia de Seleção vai começar — seguindo suas mortes, um a um, os fantasmas continuaram seu caminho. — Agora façam fila e me sigam.
Entrei na fila na frente de Hermione e atrás do garoto do sapo, Neville. Ele estava quase verde de nervoso e senti Mione segurar minha mão com força por um momento. A apertei de volta, tentando lhe passar alguma confiança, mas não sei se tivemos tempo para isso antes de terminarmos de atravessar o saguão e as portas duplas que levavam ao Grande Salão de Hogwarts.
Eu havia lido sobre aquele lugar varias e varias vezes. Terminava o capitulo e lia outra vez, tentando construir cada detalhe na minha mente e infernizando Lagrum para me ajudar. Mas nenhuma descrição metódica e nenhuma imaginação infantil eram capazes de chegarem aos pés daquele lugar. Hogwarts inteira parecia em competição consigo mesma pelo lugar mais fabuloso e mágico a oferecer: o lago brigava com o cais subterrâneo que brigava com o saguão de entrada que brigava com o Grande Salão. Sendo honesta, se fosse depender de mim, o ultimo estaria vencendo de lavada.
Quatro mesas compridas eram iluminadas com mil velas ou mais, todas elas flutuando no ar. Todas as mesas já estavam ocupadas pelos estudantes do segundo ao sétimo ano de cada casa, sentados e esperando na frente de taças e pratos dourados, todos vazios, olhando para nós. Alguns podiam ter irmãos ou primos os aguardando em alguma casa e pela primeira vez agradeci por ser órfã, onde não teria qualquer responsabilidade como essa. Mas então me lembrei de Mione, Harry e Rony e senti meu estômago afundar com a possibilidade de ser separada de qualquer um dos três.
No extremo do salão havia uma quinta mesa, quase tão cumprida quanto aos outras, onde se sentavam os professores. Sorri ao reconhecer Caridade Burbage, muito bem vestida em uma túnica amarelo marrom escura e fosca, um chapéu pontudo na cabeça. Pelo visto se vestia melhor aqui do que no mundo dos trouxas. Enquanto andávamos e a professora Minerva nos levava justamente até lá, para que ficássemos a frente de todo o salão e de costas para o corpo docente.
Tentei não prestar atenção as centenas de pares de olhos concentrados em nós, todos eles tremelicando como um sonho pela luz inconstante das velas. Pontilhados aqui e ali, os fantasmas chamavam atenção para o alto, e no alto havia o céu. Literalmente o céu. Se no saguão era impossível ver o teto, o Grande Salão ia até as estrelas. Ver foi muito mais bonito e impactante do que ler, e perdoei Hermione quando ela cochichou que era apenas enfeitiçado para parecer o céu a noite porque entendia seu nervosismo. Era fácil se agarrar a fatos nessas horas.
Olhei para baixo de novo ao notar a professora McGonagall colocar um banquinho de quatro pernas diante de nós. Em cima dele ela colocou o chapéu de bruxo mais velho e maltratado que já havia visto na vida: velho, esfarrapado e imundo. Podia não parecer grande coisa aos olhos, mesmo assim troquei o peso das pernas. Tinha uma energia muito antiga e muito poderosa naquele chapéu acabado, e levando em conta como todos o olhavam, eu provavelmente estava certa.
Confirmei isso quando ele se mexeu.
Confirmei mais ainda quando um rasgo na frente se abriu e ele começou a cantar.
Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
mas não me julguem pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
suas cartolas altas de cetim brilhoso
porque eu sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
que o Chapéu Seletor não consiga ver,
por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue frio e nobreza
destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
onde seus moradores são justos e leais
pacientes, sinceros, sem medo da dor;
ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que tem a mente sempre alerta,
onde os homens de grande espírito e saber
sempre encontrarão companheiros seus iguais;
ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
homens de astúcia que usam quaisquer meios
para atingir os fins que antes colimaram.
Vamos, me experimentem! Não deverão temer!
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
porque sou o único, sou um Chapéu Pensador!
Desde a mesa dos professores até as das quatro casas explodiu em aplausos no final da canção. O chapéu fez uma referencia profunda para cada uma das mesas no salão e voltou a ficar tão quieto como, bom, um chapéu.
— Então só precisamos experimentar o chapéu! — Consegui ouvir Weasley cochichar para Harry algumas cabeças atrás de mim. — Vou matar o Fred. Ele não parou de falar de uma luta contra um trasgo.
Soltei um risinho mudo com isso. Seja quem for Fred, ele não tinha culpa de Ronald ser tonto a ponto de acreditar em algo assim. Chamando a atenção de todos mais uma vez, a Minerva se adiantou segurando um longo rolo de pergaminho nas mãos.
— Quando eu chamar seus nomes, vocês porão o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. Abbott, Ana!
Uma garota de marias-chiquinhas loiras conseguiu sair da fila, mesmo que quase caindo na barra das vestes. Conseguiu se sentar sem maiores vexames e a professora lhe pôs o chapéu, que afundou direto até a linha dos olhos. Um segundo... dois...
— Lufa-Lufa!
A mesa à direita deu vários vivas e explodiu em palmas e eu só pensei em como Frei Gorducho devia estar feliz pela seleção começar desta forma ao ver Ana Abbott ir andando até a mesa da Lufa-Lufa... na verdade, ele estava radiante. Até acenou para ela.
— Bones, Susana!
Ela foi para a Lufa-Lufa, também. Teo Boot foi para Corvinal, fazendo à mesa da esquerda aplaudir agora. Vários dos alunos chegaram até mesmo a se levantar para o receber quando o garoto se sentou com eles. Maddy Brocklehurts foi para Corvinal, também, e a primeira Grifinória a ser escolhida foi Lavander Brown e, com certeza, essa casa ganhava no entusiasmo. Alunos ficaram de pé e bateram com os pratos e copos na mesa, gritando e dando vivas. Dois irmãos gêmeos muito parecidos com Rony assoviaram e eu sorri para isso. Era tanta energia que quase me fez pular também.
Emily Bulstrode, por outro lado, se encaminhou para a mesa da Sonserina. Ela ficava no extremo do salão, exatamente do lado oposto ao da Grifinória. Seus companheiros de casa aplaudiram com entusiasmo, também, mas depois da explosão de energia vermelha e dourada me pareceu meio apagado.
Os nomes foram passando a medida que os rostos se tornavam mais ansiosos, e isso não ajudava ao fato de que, às vezes, o chapéu levava dois segundos ou até menos para se decidir. Outras, demorava muito mais. Justino Finch-Fletchley foi para Lufa-Lufa, também. Simas Finnigan, um menino de cabelo loiro palha, foi mandado para a Grifinória depois de quase um minuto inteira com o chapéu em sua cabeça.
— Granger, Hermione! — Já estávamos no G. Na mesma hora, Mione passou por mim quase correndo em direção ao banquinho. Fiz questão de que, no meio segundo que ela teve antes do chapéu cobrir seus olhos, que lesse em meus lábios "destrambelhada", a fazendo corar. O chapéu demorou mais nela do que em qualquer um. Contei quatro agonizantes minutos inteiros antes que ela, finalmente, fosse sorteada para Grifinória. Ela sorriu para mim enquanto eu sentia vontade de afundar meu cotovelo no estômago de Ronald ao ouvi-lo gemer, mas preferi sorrir para ela de volta, a esperança de estar na mesma casa que ela me fazendo apertar os dedos dos pés dentro dos sapatos.
— Lewis, Malorie! — E ali estava. Fiz minhas pernas se deslocarem em direção ao banquinho e olhei no rosto da professora McGonagall e para Hermione antes de ter apenas a escuridão e a voz do chapéu dentro da minha cabeça de uma forma que apenas Lagrum costumava fazer.
Não creio, não creio... o sangue retorna... Vejamos o que temos aqui, ah! Que mente brilhante, brilhante mesmo. E com uma capacidade incrível de ser cruel, devo dizer. Coragem e fibra, tem de sobra. E um coração no lugar, apesar de tudo. Porém... grande Hogwarts, quanto talento! O sangue é forte em você, forte demais, essa vontade de se provar, de se superar, de ser melhor... Não há duvida nenhuma, senhorita, não para o que há dentro de você.
— Sonserina! — Anunciou para todo o salão. O chapéu foi tirado de mim e pisquei para a claridade súbita outra vez. Sangue forte? O sangue retorna? Tive vontade de arrancar o chapéu das mãos da professora e ter outro momento com ele, mas a mesa da Sonserina estava aplaudindo para me receber, então com um ultimo olhar em direção a Mione (que tinha uma expressão de abandono profunda), eu lhe sorri e fui em direção a mesa da casa das serpentes.
Recebi tapas nas costas e cumprimentos de mãos antes de todos voltarem a atenção para o resto da cerimônia. Logo depois de mim, foi a vez de Neville Longbottom, o perdedor de sapos do trem. Como esperado de sua pessoa, levou um belo tombo a caminho do banquinho e demorou quase tanto tempo quanto Mione para ser selecionado. Quando finalmente o chapéu anunciou Grifinória o garoto saiu correndo com ele ainda na cabeça, e teve de dar meia volta e o entregar a Minerva no meio de uma risada coletiva de todo salão.
— Malfoy, Draco! — Torci minha cara ao ouvir o nome e olhei diretamente para o parvo loiro que quase rebolava em direção ao banco, como um pavão albino ridículo. Foi a seleção mais rápida de todas: o chapéu mal tocou aqueles fios quase brancos antes de gritar Sonserina.
Draco desfilou em direção a mesa de sua casa, com um sorriso pequeno e olhos brilhando. Ele se sentou longe de mim, para o bem de todos, e eu decidi pensar em como minha casa já tinha motivos de desagrado para voltar a prestar atenção no resto da cerimônia. Faltava pouca gente agora. Pansy Parkinson também veio para Sonserina, assim como Theodoro Nott. Duas gêmeas de aparência indiana foram selecionadas para casas diferentes: Padma foi para Corvinal e Parvati para Grifinória, que fez sua usual festa.
Mas não tanto quanto a vez de Harry Potter.
Confirmando minhas suspeitas, o Harry de óculos e olhos verdes do trem subiu no banquinho com cara de quem queria que alguma tortura acabasse logo. Ficou mais do que alguns segundos lá, mas com certeza não tanto tempo quanto Hermione ou Neville. Quando finalmente foi selecionado para a casa dos leões, eles fizeram a maior ovação da cerimonia inteira. Um rapaz ruivo como Rony e como os gêmeos se levantou para apertar a mão dele, mas talvez tenha tentado arrancar seus braços. Os gêmeos em si fizeram cones com as mãos e passaram a gritar "Ganhamos Potter! Ganhamos Potter!". Toda a alegria coletiva me fez afundar os cotovelos na mesa enquanto Pansy Parkinson, que se sentou ao meu lado, cruzava os braços.
— Quanta celebração — ela murmurou. — Quem liga se Potter foi para Grifinória? Com certeza não viria para cá.
— E porque não justamente para cá? — Retruquei ao encará-la. Pansy tinha cabelos pretos e um nariz em pé, além de olhos castanhos amendoados. Ela revirou os olhos para mim, impaciente.
— Não sabe quem era dessa casa? — Ao ver meu silencio, fez a mesma expressão que Malfoy quando cogitou a possibilidade de eu não ser uma puro-sangue. — O Lorde das Trevas foi da Sonserina. Entendeu porque Harry Potter nunca viria para cá?
Meu olhar foi para a mesa da Grifinória do outro lado do salão, onde o menino de olhos verdes e cabelos espetados também estava me olhando. Ficou muito surpreso quando foi pego e desviou a cara, me fazendo sorrir. Harry Potter realmente nunca viria para essa casa, mas não deixa de ser uma pena. Os olhos dele me lembravam o verde da minha nova casa.
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