Corona
5 Lar de Pedra
Notas iniciais
Depois de Malfoy, sobraram apenas três pessoas: uma menina, um rapaz negro e Ronald. A menina, Lisa Turpin, se encaminhou alegremente para a Corvinal. Logo depois foi a vez do garoto ruivo e sardento. Rony me parecia meio verde e achei que ele iria cair enquanto andava, mas bravamente conseguiu chegar ao banquinho. Quase tão rápido quanto Draco, o chapéu gritou Grifinória para ele. Uma aparente tradição, vi os garotos muito parecidos com ele aplaudirem alto enquanto Harry os acompanhava. O ultimo da fila foi Blásio Zabini e a cerimônia se encerrou com um sonserino.
Com isso, o bruxo do meio da mesa dos professores se levantou. Tinha longos cabelos prateados que se misturavam com a barba da mesma cor, ambos tão compridos que ele amarrava no cinto das vestes azul claras. Era velho, mas sorriu de forma bondosa, nos olhando através de seus óculos de meia lua.
— Sejam bem-vindos! — A voz era muito suave, e mesmo assim encheu todo o salão. Inclinei a cabeça para conseguir ouvir mais do homem que tinha respeito e poder até mesmo em sua voz gentil. –- Sejam bem-vindos para um novo ano em Hogwarts! Antes de começarmos nosso banquete, eu gostaria de dizer umas palavrinhas: Pateta! Chorão! Destabocado! Beliscão! Obrigado.
Não houve quem não bateu palmas ou deu vivas, eu inclusa. Até mesmo Blásio, que havia se sentado do meu outro lado, riu entusiasmado.
— Mamãe diz que ele é louco! — Parecia feliz com o comentário. — Mas todo gênio é um pouquinho louco, não acha?
— E quem é ele? — Retruquei, ao que ele franziu as sobrancelhas.
— É o diretor de Hogwarts.
— Que é o diretor eu sei, espertão — empurrei seu ombro com o meu. — Mas qual o nome dele?
— Ah, sim, Alvo Dumbledore, é claro, mas... — fui poupada de perder outro potencial colega quando o pescoço dele se virou com força e o cheiro chegou em mim antes que eu olhasse. Os pratos e taças vazios que enchiam a mesa agora estavam lotados de comida, mais comida do que havia visto na minha vida inteira, mesmo com os Lewis: rosbife, batatas, galinha assada, costelas de porco e de carneiro, pudim de carne, ervilhas, molho, ketchup e... aquilo eram doces de hortelã?
Havia coisas mais importantes do que me importar com os doces de gente velha: enchi meu prato. Não tínhamos aquela qualidade e quantidade de comida no Orfanato então admito que fui muito, muito gulosa ao por um bocado de tudo. Me concentrei principalmente nas carnes, mas ao invés de coloca-las no meu prato, passei a maioria para um bolso nas vestes, imaginando a fome de Lagrum. Ele geralmente não era fã de comida morta, mas acho que não negaria depois de um dia inteiro de jejum.
— Ei, nunca viu comida na sua vida? — Pansy me cutucou, me fazendo parar uma mordida em uma batata particularmente grande. Arqueei uma sobrancelha para ela.
— E você? Nunca viu alguém comer? — Devolvi, fazendo-a apertar os lábios em um bico. O garoto Zabini ao meu lado soltou uma risada.
— Essa aí merece estar aqui, Pansy, é venenosa — jogou enquanto partia um rosbife. Pansy, por outro lado, cruzou os braços e tomou um gole de seu suco de abóbora – eu sei, também foi a minha cara, mas não julgue se nunca tomou.
— É, pode até ser, mas... — ela se inclinou para mim como se tivesse medo que alguém a ouvisse. — É verdade, mesmo? Você é... é daquele tipo de gente?
— Se está me perguntando se tenho pais trouxas, ou ao menos um deles trouxa, ou os dois bruxos, eu não sei — ao contrario dela, não tive a menor intenção de abaixar minha voz. Isso fez com que Zabini se inclinasse para ouvir, assim como a menina sentada â minha frente, Daphne Greengrass. — Sou órfã. Fui deixada em um orfanato trouxa recém-nascida e adotada quase imediatamente por um casal de trouxas. Depois fiquei órfã de novo e voltei para o orfanato. Fim da história.
— Então não sabe — Daphne entrou na conversa. Tinha os cabelos loiros quase tão claros quanto Malfoy e olhos de um verde azulado brilhante. — Como é crescer sem saber? Quero dizer, o que achou quando começou a fazer magia?
— Que eu era incrível e especial — mas não superior, completei na minha mente. — Lembro de uma vez, eu era muito criança, estava cansada de todas aquelas escadas e de ter de subi-las e desce-las o tempo inteiro, então fiz com que os degraus sumissem! Todos se divertiram muito até uma das freiras cair pela rampa ao vir ver o que estava acontecendo. Tive que consertar as coisas muito rápido, mas guardo boas lembranças.
E algumas cicatrizes. A freira que caiu tinha de ser Greta, mas cada estalar de açoite valeu a pena pela sua perna fratura e sua longa recuperação, isolada de todos em seu quarto. Daphne riu da pequena história e Blásio, que finalmente havia ganhado contra o rosbife, quase o jogou fora pela boca, tendo que ser ajudado por um bom gole de suco.
— Merlin! Isso me lembra uma vez quando meu pai tentou me enfiar em um vestido que ganhei de minha tia! — Daphne sorriu. — Era irmã da minha mãe e, bom, ele queria fazer uma surpresa para ela do tipo "olhe como nossa filha adorou o vestido de sua irmã", deviam estar brigados na época, algo assim. As coisas não saíram exatamente como planejado já que transformei aquela coisa horrível em um monte de laços de fita! Mamãe ficou riu tanto que até esqueceu da briga. Até ela achou que o tecido foi melhor aproveitado.
— Isso não é nada! — Zabini retrucou. — Uma vez fiz um marido de mamãe ficar careca! Ele gritou muito e ela riu, disse que até a falta de cabelo era melhor do que ele tinha. Ele não achou muita graça e foi embora depois disso, mas foi engraçado.
— Não tanto quanto fazer toda a louça dançar! Era de porcelana de fada e minha mãe quase teve um infarto, mas acabei não quebrando nada — Pansy soltou uma risada. — Claro que, depois disso, ela não deixou mais o jogo de chá na minha frente, mas ao menos eu acho que ficaram muito melhor rodando pela cozinha do que pegando poeira.
Pela risada coletiva, todos nós concordamos com ela. Com a dúvida sobre minha descendência sendo clara, todos pareciam querer acreditar que eu puro-sangue ou, ao menos, uma mestiça. Fiquei com um sorriso meio forçado por causa disso, mas não era muito diferente do orfanato: amiga deles, não meus. Quando até mesmo as sobremesas desapareceram (e Blásio parecia estar em uma disputa pessoal para comer quantos pudins de chocolate conseguisse), o diretor Dumbledore se levantou outra vez fazendo com que todo o salão se silenciasse.
— Hm... só mais umas palavrinhas agora que já comemos e bebemos. Tenho alguns avisos de inicio de ano letivo para vocês. Os alunos do primeiro ano devem observar que é proibido andar na floresta da propriedade. E alguns dos nossos estudantes mais antigos fariam bem em se lembrar dessa proibição — seus olhos foram direto para os gêmeos ruivos na mesa da Grifinória e eu sorri para eles, mesmo que não vissem. — O sr. Filch, o zelador, me pediu para lembrar a todos que não devem fazer mágicas no corredor durante o intervalo das aulas. Os testes de Quadribol serão realizados na segunda semana de aulas. Quem estiver interessado deverá procurar Madame Hooch. E, por último, é preciso avisar que, este ano, o corredor do terceiro andar do lado direito está proibido a todos que não quiserem ter uma morte muito dolorosa.
— É brincadeira, certo? — Daphne perguntou baixinho, franzindo as sobrancelhas.
— Ele não me parece estar brincando — respondi franzindo as sobrancelhas. O que teria no corredor do terceiro andar lado direito?
— E agora, antes de irmos para a cama, vamos cantar o hino da escola! — Dumbledore tinha tanto entusiasmo ao dizer isso que pelo visto não notou o sorriso dos outros professores atrás dele terem murchado quase completamente. O velho homem fez um movimento curto e brusco com a ponta da varinha, fazendo surgir no ar uma longa fita dourada que fez seu caminho para o alto das mesas antes de se enroscar para formar algumas palavras. — Cada um escolha sua música preferida, e lá vamos nós!
Hogwarts, Hogwarts, Hoggy Warty Hogwarts,
Ensine-nos algo, por favor,
Quer sejamos velhos e calvos
Ou jovem, com os joelhos ralados,
Poderiam fazer enchimento com nossas cabeças
Com algumas coisas interessantes,
Por enquanto eles estão nuas e cheias de ar,
Com moscas mortas e pedaços de cotão,
Então nos ensine coisas que valem a pena,
Traga de volta o que esquecemos,
Apenas faça o seu melhor, nós faremos o resto,
E aprender até que nossos cérebros se desmanchem
Não sei se deu muito certo cantar a musica no ritmo de Ave Maria (porque foi a primeira coisa que me veio à cabeça), mas ninguém deve ter reparado já que todo o salão estava em um caos sonoro. Ritmos demais e vozes demais faziam os ouvidos doerem e os sorrisos saírem, até que os únicos que sobraram foram os gêmeos ruivos ao som de uma excelente marcha fúnebre em pé. Foram aplaudidos quando terminaram e fizerem reverencias profundas e teatrais para todos antes de se sentarem outra vez.
— Ah, a música — disse Dumbledore secando os olhos. Havia sido um dos aplaudiram os gêmeos mais alto. — Uma mágica que transcende todas que fazemos aqui! E agora, hora de dormir! Andando!
— Alunos do primeiro ano, aqui! — Uma menina falou alto, se erguendo da mesa. Por todo o salão, era possível ver a cena se repetindo. — Sou a monitora da Sonserina, Gemma Farley, sigam-nos!
Havia outro garoto com ela com o mesmo distintivo no uniforme, mas enquanto Gemma havia erguido a voz ele tinha a tarefa mais braçal de catar os primeiranistas pela mesa e nos enxotar na direção dela. Quando finalmente nos amontoamos no final da mesa, ficando cada vez mais sozinhos a medida que os sonserinos mais velhos saiam primeiro, os dois pararam lado a lado e o garoto esfregou as mãos.
— Certo, essa é Gemma, como vocês ouviram, e eu sou Anthony Rivers, somos seus monitores. Estamos aqui para tirar qualquer duvida que tiverem em relação a Hogwarts, as suas aulas e sobre nossa amada Casa.
— No momento, a primeira duvida que vamos tirar é onde fica nossa Sala Comunal, então vamos — Gemma começou a andar na frente sendo seguida por nós, que tínhamos Anthony às nossas costas. — Em primeiro lugar, meus parabéns a cada um de vocês por entrarem na Casa de Sonserina — ela olhou para trás por um momento para sorrir. — Nosso emblema, como devem ter percebido, é a serpente, a mais sábia das criaturas, se querem saber, e nossas cores são o verde-esmeralda e prata.
— Nosso salão comunal também é o melhor de Hogwarts — Rivers continuou ao sairmos do Grande Salão. Ao contrario de todo o grande fluxo de estudantes, não subimos as escadas e sim tomamos uma lateral para descer. — Para começar, é a mais perto do Grande Salão, o que vai poupar muito tempo e correria para não perder alguma refeição. Depois, fica nas masmorras. E eu que pode parecer um pouco sombrio, mas vão perceber que também é o lugar mais privado de Hogwarts: nada de gente de outras casas correndo para lá e para cá na nossa porta. É o nosso lugar.
Nosso lugar era escuro e frio, pelo que percebi. Inteiramente feito de pedra e iluminado por archotes, não era grande surpresa que não houvesse ninguém além de nós por ali. Eles nos levaram até uma parede e Gemma voltou a falar.
— Essa é a entrada de nossa Sala Comunal — se virou para nós. — Para entrar, é preciso dizer uma senha. Ela muda a cada quinzena então prestem atenção no quadro de avisos lá dentro e guardem-na bem: nenhum aluno de outra casa invadiu a Sala da Sonserina em mais de mil anos. A senha agora é: medalhão — ao dizer isso, foram muitos que espicharam o pescoço quando a parede de pedra deu lugar a uma entrada escondida. Farley sorriu para nós. — Bem-vindos a Masmorra da Sonserina.
Eu não estava preparada para o que eu ia encontrar. Estava imaginando algo como uma grande sala com sofás espalhados, mesas e estantes de livros, talvez. E de fato havia tudo isso, mas atropelava sem dó toda e qualquer imagem boba que eu havia criado. Todo o lugar era iluminado por uma luz esverdeada noturna e era tão grande quanto todo o refeitório do orfanato. Descemos por uma pequena escada de mármore enquanto eu tentava quebrar meu pescoço com quase a mesma intensidade de quando fui ao Beco Diagonal.
Era tudo prata, preto e verde. Sofás de couro, carpetes e joias. Muitas joias. Aonde quer que se olhasse havia um brilho de prata pura, de esmeralda, de ouro, diamante, pérola ou rubi. Escrivaninhas equipadas com penas e estantes lotadas de livros estavam espalhadas pelo lugar, assim como mesas de xadrez e carrinhos contento uma coleção de bebidas caras. Havia uma lareira grandiosa, e até o fogo nela era meio esverdeado, a pedra onde havia sido escavada brilhava e reluzia como com o padrão em verde desenhado nela, e tinha certeza que aquilo também não era apenas tinta. Grandes tapeçarias pendiam do teto, com imagens que lembravam desde a idade média até os tempos recentes. Mas a melhor parte eram as janelas.
As grandes janelas iam quase do chão ao teto, e claro que não abriam. Se abrissem, estaríamos todos muito molhados. Havia apenas água do lado de fora, e mesmo ela estando bastante negra pela noite, era possível identificar pelo ondular contra a janela e os reflexos que lançava sobre toda sala, onde os outros sonserinos estavam sentados, desfrutando de uma boa conversa ao reencontrarem seus amigos depois do banquete. Alguns começaram a olhar para nós.
— Como podem ver — Anthony continuou as explicações. — Nossas janelas dão para as profundezas do lago de Hogwarts e sintam-se sortudos: é a única sala comunal com essa vista. Se algum dia ficarem de bobeira olhando por ela vão poder ver a Lula Gigante nadando, e quem sabe coisas mais interessantes?
— Agora, aqui algumas coisas que vocês devem saber sobre a Sonserina — Gemma tomou a vez. — Em primeiro lugar, vamos dissipar alguns mitos. Pode ser que vocês tenham ouvidos rumores sobre a Casa da Sonserina: que somos todos bruxos das trevas, que só será bem aceito se eu bisavó era um bruxo importante ou famoso ou coisa do gênero. Isso não está certo. É claro que, pela história da casa, você pode encontrar alguns colegas que compartilham dessa opinião, mas não é tudo a ferro e fogo como as outras casas fazem parecer. Nós temos, sim, uma parte de bruxos das trevas, mas todas as outras também tem e elas apenas gostam de jogar tudo para cima de nós. E, correto também, que a maioria dos sonserinos vem de longas e tradicionais famílias bruxas, mas está ficando cada vez mais comum encontrar colegas que possuem ao menos um dos pais trouxas.
— Eu mesmo, por exemplo, tenho uma mãe trouxa — Anthony esclareceu. — E, se querem ter mais motivos para se orgulharem daqui e não darem ouvidos as bobagens dos outros, fiquem com essa: Merlin era Sonserino. Sim, exatamente, o próprio Merlin. O maior bruxo de todos os tempos, era dessa casa. Ele esteve nessa Sala Comunal, ele dormiu nesses dormitórios e se sentou nesses sofás. Estando aqui, vocês estão ainda mais perto de seguirem os passos dele.
— Mas chega de falar do que é para se esquecer sobre a Sonserina — Farley bateu as mãos. — Vamos falar do que nós realmente somos: somos a casa mais ousada e mais legal de toda Hogwarts. Quando jogamos, jogamos para vencer, pois temos consciência que estamos levando toda a tradição e nome de Sonserina conosco, seja na vitória ou na derrota.
— E, se querem saber, é divertido ser tão respeitado assim — Rivers sorriu um pouco selvagem. Gostei dele. — Vem um pouco do medo? Vem. Mas quem liga? Vou dizer, dispare alguns boatos de que você tem acesso a toda uma biblioteca de magia das trevas e veja se alguém tem coragem de dar um encontrão em você no corredor.
— Mas não somos pessoas ruins — Farley parecia não ter gostado da dica do colega monitor, já que tinha os lábios apertados e os olhos estreitos. — Somos como nosso emblema, a serpente: elegantes, poderosos e frequentemente mal interpretados. Por exemplo, nós cuidamos um dos outros, somos como irmãos. Os corredores de Hogwarts podem ter surpresas desagradáveis, principalmente para os primeiranistas, então pode ficar feliz de ter alguma serpente com você nessas horas, porque não importa se você é nascido trouxa, mestiço ou puro-sangue: a partir do momento que o Chapéu te escolheu, você se tornou um de nós, se tornou elite.
— Salazar Sonserina, o fundador de nossa casa e o mais rico dos quatro fundadores de Hogwarts, como podem ver por nossa sala, buscava uma coisa em seus alunos: as sementes da grandeza. Cada um de vocês foi escolhido para cá pelo potencial de ser grande, no sentido literal da palavra — Anthony enfatizou. — Pode haver gente por aqui que você não dê muita coisa, mas guarde para você. Eles também foram escolhidos, então eles têm algo.
Imediatamente me lembrei dos gorilas de Malfoy, Crabbe e Goyle, e imaginei se ele havia reparado neles também.
— Só mais algumas coisas — Gemma pigarreou. — Nosso fantasma é o Barão Sangrento. Se ele gostar de você, pode até concordar em assustar alguém de vez em quando. Só não perguntem como ele ficou coberto de sangue, ele não gosta nem um pouco. E vocês vão ouvir, ou já ouviram, sobre uma suposta inimizade Sonserina e Grifinória. Muitos dizem que as casas representam dois lados da mesma moeda, para mim, grifinórios são apenas aspirantes a sonserinos. Dizem que Godric Grifinória e Salazar Sonserina prezavam praticamente o mesmo tipo de estudantes, então talvez sejamos mais parecidos do que gostaríamos. Mas isso com certeza não significa que nós vera andando com eles: grifinórios gostam de nos bater um pouco menos do que gostamos de espanca-los.
Me lembrei de Mione, dos gêmeos, de Harry e de Ronald. Estava para nascer alguém que me dissesse com quem eu poderia falar ou sair – e eles sequer tinham uma Vara.
— De resto, os horários são sempre entregues no café da manhã do primeiro dia de aula, no caso, amanhã — Rivers estralou os dedos. — Eles são entregues pelo Professor Severo Snape, o diretor da nossa casa. Ele é o mestre de poções de Hogwarts e é com ele que vocês deverão resolver qualquer problema que seja maior do que nossa autoridade de monitores. O toque de recolher é as oito horas para alunos do primeiro ao quarto ano, isso quer dizer que, as oito horas, vocês já têm de estar aqui. A hora de dormir é escolhida por vocês, mas lembrem-se: o café da manhã é servido as sete e meia e só dura uma hora. Estão liberados.
O grupo se dividiu tão rápido que parecia que estavam esperando por isso, e acho que estavam mesmo. A grande maioria se encaminhou para os sofás, mas eu estava com a parcela que seguiu para baixo. Os dormitórios da Sonserina eram ainda mais fundos, descendo as escadas a partir de seu salão comunal, garotas a esquerda e garotos a direita. Na escada de garotas, entrei na porta onde dizia Primeiro Ano e disparei até minha mochila que havia sido colocada em cima da cama.
— Lagrum! — sussurrei para ele, olhando em volta para ter certeza que estava sozinha. Tive poucos segundos para guardar o fôlego que a decoração do dormitório havia me tirado. As paredes de pedra eram cobertas de mais tapeçarias e havia o barulho relaxante da água batendo no vidro. Quatro camas de dossel com cortinas de seda verde e colchas grossas bordadas com fios de prata. O travesseiro era inegavelmente branco e o colchão fez meus ossos acostumado com a rigidez da minha antiga cama cantarem de alegria. Havia até uma lareira no quarto! De forma incrível, nenhuma menina do primeiro ano havia me acompanhado, e eu pude abrir a mochila. Meu amigo estava lá, bastante mal-humorado.
Ah, veja quem se lembrou da minha existência.
— Deixa disso, Lagrum, vim o mais rápido que pude, sabe disso — resmunguei olhando por cima do ombro. — Venha, saia daí e fica embaixo da cama por enquanto. Soube que tem uma floresta aqui, vou te levar para lá quando todos dormirem, mas acho que chega de mochila para você por enquanto.
Uma pena que não tenha ficado na casa de sua amiguinha Hermione, mas os outros não parecem tão ruins.
— Só estão sendo tragáveis porque não sabem o que eu sou e preferem achar que sou puro-sangue — respondi ao observá-lo deslizar para fora da mochila. Com alivio, vi seu corpo em seu tamanho normal e sem qualquer dano. Sorri. — Eu disse que havia conseguido fazer.
Sim, sim, que bruxinha esperta você é. Me trouxe comida?
— Aqui — entreguei os pedaços de carne para ele que os engoliu de uma bocada só. — Sei que não é quase nada, mas logo vai poder caçar mesmo. O que será que tem na floresta?
Criaturas mágicas, provável.
— Como você? — Era um assunto delicado. Sempre foi claro para mim que Lagrum não era uma espécie de cobra documentada e registrada no mundo dos trouxas. Eu pesquisei. Isso e o seu tamanho e o fato de eu o entender, além de sua inegável inteligência humanizada, sempre me disseram que se tratava de um ser mágico. Mas nem eu e nem ele podíamos dizer como uma cobra do mundo bruxo havia ido parar em Chelmsford.
Não sei, Mal. Talvez. Quem sabe exista outra cobra por aí?
— Espero que a encontre, quem sabe pare de me encher se estiver mais ocupado com sua espécie? — Debochei. Lagrum se enrolou no meu corpo e me fez cosquinhas na bochecha com sua língua bifurcada, me fazendo rir.
Eu nunca seria capaz de lhe deixar em paz, Mal. Vai ter que me aturar para sempre, cara amiga.
Sorri para ele, acariciando sua grande cabeça que agora pousava em meu ombro com mais uma volta. Sabia que devia manda-lo para debaixo da cama porque a qualquer momento alguém poderia entrar, mas simplesmente não podia. Havia sido um longo, longo dia, e ele sequer havia acabado, mas, enquanto isso, eu tinha Lagrum comigo. Eu sempre teria Lagrum comigo. Ele estava lá quando eu ainda estava triste e confusa e culpada com a morte de meus pais, e estava lá quando minhas mãos sangraram pela primeira vez. Foi ele quem se enrolou em mim enquanto tinha pesadelos com o acidente e era ele quem me puxava se eu chegava muito na beira da minha própria capacidade. Agora, ele estava comigo em Hogwarts.
Eu devia manda-lo se esconder, mas ele sabia que não iria. Depois de Hermione, depois da briga no trem, depois da Seleção e depois dos meus novos colegas, eu precisava disso, dele. Era meu amigo. Meu melhor amigo, talvez único. Lagrum era uma cobra e era tão frio e pratico quanto uma, o que me fazia querer que os outros também fossem assim. Ele enxergava a Mal, apenas a Mal. Sem sangue, sem magia, sem casa e sem passado. Pois ele era meu amigo, e me aceitava que eu fosse a Malorie enquanto eu aceitasse que ele fosse uma cobra, meu amigo, Lagrum.
Era o suficiente para mim.
Está ficando sentimental, Malorie.
— Cale a boca, cobra estúpida.
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