Corona

6 Garras e Presas


Notas iniciais
Hey nenês :3 Então gente, bem vindos a mais um capítulo ♥ Gente, DE NOVO, eu tô respondendo os comentários, tá? Os comentários do cap 5 vão ser respondidos todos ainda hoje, e os lindos que foram deixando nos anteriores, até no máximo amanhã ♥ Obrigada a Caique Morningstar, Princess Rapunzel Sunny Spring, Ella Branco (Bella ♥), Ero Hime, Kristini, Asuna wonderland, Mawwi (Gracinha ♥) Luiza Avelino e Alice Prince (Alice ♥) pelos comentários maravilindos, o cap é pra vocês ♥ Juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Lagrum concordou em ficar quieto embaixo de minha cama até todas dormirem e, com um ultimo aperto, ele deslizou para lá. O que foi algo de extrema pontualidade, uma vez que a porta do dormitório se abriu e Pansy e Daphne entraram, acompanhadas de Emília Bulstrode e Sue Hopkins, as outras duas sonserinas de nosso ano. Todas estavam rindo e Daphne sorriu para mim.

— Não acho que seja do seu feitio se esconder, Mal, que coisa mais feia — apontou. Esbocei um sorriso para ela e me levantei do chão, me jogando em minha cama com um pulo.

— Vocês é que são lerdas demais — cantei. — Quem chega primeiro escolhe a cama que quiser.

— Ah, não é justo! — Sue reclamou. Era uma menina baixinha e ruiva, mas com muitos menos sardas do que os Weasley. — Eu queria essa!

— Vai ficar querendo, Hopkins, agora te vira — devolvi causando um bico nela. — E é melhor se virar logo.

E era mesmo. Seguindo meu exemplo, Daphy e Pam já estavam reclamando suas camas, deixando-a e Bulstrode paradas na porta por momentos precisos. Por ser mais baixa e mais ágil, Sue conseguiu a ultima cama ao lado da janela, deixando Emília com a cama ao lado da porta.

— Meninas, agora a sério, o que acharam dele? — Daphne obviamente voltou com o assunto que estavam debatendo antes de entrarem. O assunto, aliás, fez com que Pansy soltasse um suspiro profundo ao se atirar na cama e abraçar seu travesseiro.

— Lindo! Lindo até Merlin proibir, e não proibiu! — Ela causou risos nas outras, principalmente em Sue. — Falando sério, ele é o menino mais bonito do nosso ano! Entre ele e o esquisito do Nott e Crabbe e Goyle...

— Você está se esquecendo do Blás — Emília interrompeu. — Ele é bem bonito, também.

— Zabini é um bobão! — Pansy se sentou na cama, cruzando as pernas. — Mas Draco parece tão maturo e respeitável, entendem?

— Querida Pam, eu te garanto que Draco Malfoy não chega a sequer estar na lista de seres respeitáveis — disparei ainda olhando o teto do dossel da cama. — Ele é só um garotinho mimado que se acha melhor do que todo mundo.

— Você já o conheceu, Mal? — Daphne perguntou ao se sentar na cama, tirando seus sapatos. — E, de verdade, concordo com você. Eu também vim de uma família tradicional e rica e tudo mais, mas não tenho um nariz tão em pé quanto o dele.

— Tive o desprezar, Daphy — balancei uma mão no ar. — Foi no Beco Diagonal. Ele reconheceu que meu nome não estava nos usuais "padrões bruxos" e me chamou de sangue-ruim, assim, na cara dura. Não me culpe por já não gostar do sujeito — omiti a parte onde eu o acertei com um livro e nosso segundo encontro, bem mais curto e muito mais violento no trem. Não por pena ou respeito a Malfoy, mas porque não era da conta de ninguém. — Mas agora podem me dizer porque o assunto está naquela loirinha chata?

— Ah, porque ele está dando uma aula extensiva sobre sua vida lá embaixo — Sue respondeu. — Já sabemos que ele mora em Wiltshire, que a família dele é dona de praticamente todas as terras lá, mesmo as dos trouxas. Que ele é incrível em Quadribol e que acha um completo absurdo os alunos do primeiro ano serem proibidos de entrarem nos times.

— Que adora maçã verde, que não tem animais de estimação e que não ficou nada surpreso com a escolha do chapéu seletor, já que todos os Malfoy sempre foram para a Sonserina — Emily encolhei os ombros. — Pode não parecer interessante, mas ele está com uma bela audiência.

— Má fé — Daphy disparou. — O nome deles vêm do francês arcaico e significa "Má Fé", considerando a história da família, acho que combina até bem demais.

— Faz parte da nossa criação — Pansy se apiedou das minhas sobrancelhas arqueadas. — Se você é puro sangue e de uma família antiga e poderosa como os Malfoy, os Greengrass, os Parkinson, você vai aprender tudo e mais um pouco sobre a história da sua família e as dos demais. Pode parecer interessante, mas é apenas nossos pais nos ensinando a conhecer o inimigo desde cedo.

— Os Malfoy, no caso, são ricos desde sempre — Daphne franziu as sobrancelhas. — Nenhum deles trabalha, realmente, só vivem do dinheiro que já tem e fazem as amizades certas, com as pessoas certas. Lucius Malfoy, o pai de Draco, está tão embrenhado no Ministério da Magia que dizem que pode fazer o que quiser, e deve poder mesmo. Com o dinheiro que tem, não me admira se ele comprasse uma lei ou outra lá dentro.

— Isso é baixo — torci o nariz. — Mas não surpreendente. Será que ele ainda está falando?

— Talvez... — Pansy estreitou os olhos para mim. — Mal, o que vai fazer?

Eu já estava de pé e sentia a presença quase risonha de Lagrum na minha cabeça. Meu amigo gostaria de descer comigo e ver até onde a exibição do garoto ia, mas se contentava em ficar na minha mente e observar o show. Olhei por cima do ombro para minhas companheiras de quarto e pisquei um olho.

— Vou dar a vossa alteza, Malfoy, toda a atenção que ele quer — virei nos calcanhares e comecei a subir as escadas em direção a sala comunal. Como elas haviam dito, Draco estava sentado em uma das poltronas, largado e feliz como se fosse um rei. Perto dele, como fieis muralhas, estavam Crabbe e Goyle, e envolta, o resto de meninos do nosso ano e alguns dos anos superiores.

Malfoy percebeu que eu estava ali assim que entrei. Talvez ele estivesse prestando atenção na área do dormitório das meninas, talvez sua cabeça latejasse e seu nariz doesse toda vez que eu estava em um raio de cinco quilômetros. Seja qual fosse a razão, seus gorilas de estimação fecharam a guarda e ele consertou a postura toda relaxada.

— Você — eram muitas ofensas para poucas letras. — Como você entrou aqui?

— Além de mais platinado do que seria recomendado, ainda tem demência? — Sorri para ele. Tinha plena consciência de minhas colegas de dormitório atrás de mim, atraídas pela confusão que eu prometia causar, mas não olhei para elas. Tinha meus olhos muito concentrados nos quase prateados de Malfoy. — Tudo bem, vou explicar. Primeiro tem uma lista de chamada, então você se senta em um banquinho...

— Quero dizer aqui — ele ficava muito feio quando torcia o rosto assim, em tanta arrogância e desprezo. — Pensei que a Sonserina era livre de gente do seu tipo.

— Ela não é sangue ruim, Draco — Pansy me defendeu, cruzando os braços ao ficar do meu lado. — Você devia tomar cuidado com o que diz, comparando gente decente a eles sem saber o que fala.

— Viram o nome dela? — O menino soltou uma risada pelo nariz que me lembrou com muita clareza o motivo de tê-lo quebrado. Era uma pena que já estivesse perfeito de novo, consertado ainda no trem. — É nome de trouxa.

— Eu prefiro ter nome de trouxa do que me chamar de dragão. Sério? Quanta prepotência tem que ter uma pessoa para chamar seu filho de algo assim? Isso nem é nome de gente — rebati. Uma parte de mim queimou com o igual desprezo que Pam falou dos nascidos trouxas, minha mente queimando com a imagem de Hermione. Dane-se. Eu faço o que eu quero.

— É uma tradição de família — ele se inclinou para frente, os olhos se estreitando. –- Toda a família da minha mãe tem nome de estrelas ou constelações.

— E temos aí um belo exemplo de narcisismo e ego inflamado, e... caramba, Malfoy, abaixa esse nariz! Não tenho nenhuma vontade de ver esse seu catarro nojento, por mais elitizado que ele seja! –- Disparei ao ver seu nariz quase completamente empinado. Crabbe (ou será que era o Goyle?) era tão burro que soltou uma risada e Zabini mordeu os lábios com força. Daphne já não foi tão discreta, soltando um riso alto enquanto alguns dos meninos mais velhos sorriam ou soltavam risadinhas.

— É o que eu disse na mesa do jantar, Draco, para as meninas — Blás sorriu para mim. — A Mal está na casa certa para ela, com certeza.

— Blás, você é um amor, saia de perto dele antes de se contaminar com a babaquice — ronronei em sua direção, recebendo um sorriso ainda maior de seus lábios cheios.

— Não dá, Mal, somos colegas de dormitório.

— Dá para pararem?! — Draco tinha aquele leve rosa no rosto outra vez, mas tinha abaixado o nariz. — Se não é sangue-ruim, é o que, então? Porque o seu nome é de trouxa.

— Meu nome é trouxa pois fui criada por eles, seu idiota — esse assunto já estava começando a me irritar. — Não que eu precise de sua aprovação, mas pelo visto é algo de extrema importância — debochei. — Eu sou órfã, como Blásio e as meninas já sabem, e fui deixada em um orfanato trouxa ainda recém-nascida. O casal Lewis me adotou logo depois, mas morreram em alguns anos, então eu voltei para o orfanato e estou lá. Esclareci sua mente agora, dragãozinho?

— Oh — um leve, muito leve mesmo, traço de inimizada saiu de seu rosto. Qual era o problema com essa gente? Era só colocar a dúvida... — Então, se é assim, prefiro acreditar que é uma puro sangue.

— Pode acreditar no que quiser, Malfoy, contanto que não encha meu saco — encolhi os ombros, cansada de olhar para ele. — Boa noite para as pobres almas que vão continuar ouvindo sua voz. Devia fazer um favor, Blás, e sufoca-lo enquanto dorme. Só um pouquinho.

Ouvi a gargalhada dele enquanto saia, e até mesmo sua desculpa "é só uma brincadeira, Draco". Ouvi passos atrás de mim nas escadas e não precisei olhar para trás para saber que quem abraçou minha cintura havia sido Daphy.

— Você é fantástica, Mal! — ela riu enquanto descíamos abraçadas. — Ah, a cara dele! Estava lá se achando o maioral!

— Não está mais — até mesmo Pansy estava com um sorriso divertido. — Eu o acho bonito, mas não sou cega, o garoto precisava abaixar a cabeça um pouco. Somos todos puro sangue e filhos de grandes famílias bruxas aqui.

— Talvez eu não seja — a lembrei enquanto ia para perto da minha cama. O dormitório era tão grande que havia armários individuais ao lado de cada cama, incluindo um criado mudo e cinco portas fechadas, onde seriam os banheiros. Agradeci e muito por Salazar ter sido pateticamente rico.

— Sabemos que é — Hopkins teimou. — Tem como saber, entende? Você é... apenas tem algo em você.

— É verdade –- Emily concordou de seu canto. — Uma energia, não sei. Mas é muito forte. Forte o bastante para não ter jeito de você não ter sangue mágico muito antigo nas suas veias.

— Se vocês dizem — peguei um pijama em minha bolsa. — Mas agora, eu e minha forte energia vamos para o banho. Foi um dia longo.

Não foi surpresa nenhuma os banheiros serem tão verdes quanto todo o resto. Mas a banheira ao menos reluzia como prata e os armários eram negros, assim como a pia. Tranquei a porta do banheiro e suspirei ao tirar minhas roupas. Claro que isso não iria se manter para sempre – eu não tinha vergonha das cicatrizes que carregava. Apenas tinha sido um dia e tanto e eu não precisava de mais essa.

O chuveiro acoplado à banheira tinha um jato potente e água quente e não vou negar que fiquei ali embaixo até sentir meus dedos enrugarem. Fiquei tempo o bastante para que, quando sai, todas já estarem deitadas e os roncos baixos de Sue criarem uma trilha sonora. Eu mesma me deitei e apenas a consciência da presença desperta de Lagrum me manteve de olhos abertos, pois o colchão era macio demais, os lençóis quentes demais e água batendo nas paredes era suave demais. Me considerei uma excelente amiga por aguentar, no meio disso tudo, até quase duas da manhã.

— Lagrum — chamei baixinho, me inclinando e colocando a cabeça no vão da cama. — Lagrum, vamos!

Se não sair da frente vou morder a sua cara.

— Não temos tempo para lanchinhos, esfomeado — debochei, recebendo um silvo irritado. Não era culpa dele estar de mal humor, ele estava sem comer o dia inteiro. Sai da cama com todo cuidado que consegui. — Vamos, a saída é perto.

Inconsequente era um apelido muito gentil e carinhoso por eu decidir deixar que uma cobra negra de quase cinco metros deslizasse por aí. Mas eu estava com pena por ele ter se escondido e encolhido durante todo o dia, além de querer que conhecesse os lugares onde eu estive. Ele não veria nada, é claro, mas sentiria os cheiros e ouviria os sons, além de conhecer os caminhos. E se até mesmo o próprio não fez objeção, pensaria em uma forma de me livrar depois.

Subi com Lagrum se enrolando em meus pés até a Sala Comunal que estava gloriosamente vazia. Até mesmo os sonserinos veteranos haviam ido deitar, a consciência finalmente pesando depois da meia noite, os lembrando que o dia seguinte era o primeiro de aula. Passamos pela entrada e agradeci a minha sempre confiável memória por conseguir me lembrar do caminho até o saguão de entrada e, consequentemente, até as portas principais. Se fiz magia ou se já estavam destrancadas, não sei, mas já encostei nelas desejando com tudo que tinha que não me dessem problema.

Ah, ar puro!

Sorri com a plena satisfação de Lagrum ao sair nos terrenos do castelo. Havia uma massa de arvores muito escuras um pouco a frente, então apressamos o passo (ou o rastejar) em sua direção. Agradeci pela profunda escuridão e pela minha cobra ser da mesma cor que a noite, não enfrentando qualquer problema na orla da Floresta Proibida.

— Não vire um selvagem, ouviu? — Sussurrei para ele, me ajoelhando na grama para lhe fazer um carinho no grande corpo. — Eu venho lhe visitar amanhã no café, fique por perto e tome cuidado.

Não sou um filhote, Mal, posso me defender.

— Sendo durão ou não, se cuide — insisti. Não sabia o que teria dentro dessa floresta e era a primeira vez em anos que meu amigo não poderia voltar para meu quarto depois de se alimentar. Ele teria dias e noites ao relento e tive que me lembrar de que, na verdade, ele nunca havia sido domesticado. — Vou sentir sua falta.

De forma incrível, minha cobra não debochou do meu sentimentalismo. Pelo contrário. Me dando outro de seus suaves e raros momentos no mesmo dia, Lagrum se enroscou em mim e me apertou um pouco em sua versão de um abraço, colocando a língua para fora perto de minha bochecha, fazendo cosquinhas.

Venha me visitar.

Mais tarde, já deitada na minha cama, estaria mentindo se dissesse que demorei a dormir. Mas em meus sonhos, eu rastejava pela floresta, debaixo do manto de estrelas e me sentia livre e selvagem como qualquer ser vivo deveria se sentir. Era algo tão libertador e profundo que quase soquei Sue Hopkins na cara quando ela tentou me acordar.

— Eu sei que as camas são ótimas, mas vamos, temos que ir para o café.

— Sue, bom dia — pedi esfregando os olhos ao me obrigar a sentar na cama. Se não fosse minha rotina no orfanato, eu provavelmente teria muito mais dificuldade para acordar nesse horário. — Onde estão as outras?

— Pam e Daphy já foram, e Emily está no banheiro dela — respondeu. — Agora vem, vá se arrumar, vou te esperar lá em cima.

Sue foi embora, deixando um rastro do seu perfume caro para trás, mas nem era necessário. Não demorei quase nada para tomar uma ducha rápida e vestir o uniforme. De alguma forma, durante a noite, ele havia deixado de ser inteiramente negro e agora ostentava o brasão da Sonserina, além de uma nova gravata verde e prata. Deixei a gravata jogava no pescoço e penteei o cabelo o melhor que pude (porque ele nunca ficava no lugar) antes de subir os degraus.

— Mal, você sabe que há um código de vestimenta, não sabe? — Hopkins arqueou as sobrancelhas assim que me viu. Encolhi os ombros para ela.

— Eu estou de uniforme, não podem falar nada.

— Sua gravata não está fechada, a blusa está por cima da saia, a capa está aberta e... que tipo de sapatos são esses? Parecem velhos — revirei os olhos para suas observações e agarrei seu cotovelo, enganchando nossos braços e lhe dando um sorriso de lado.

— Se chamam coturnos no mundo dos trouxas e parecem velhos porque estão, agora, eu estou faminta, roupas podem esperar, vamos.

Arrastei a menina dali. O que não foi difícil considerando que eu era ao menos uma cabeça e meia mais alta que ela. Rivers estava certo: nossa sala comunal ficava praticamente ao lado do Grande Salão, sendo assim, a maioria dos Sonserinos já estavam sentados. Andamos até onde Pansy e Daphne estavam sentadas na companhia de Blásio e Draco e alarguei meu sorriso.

— Ora, ora, bom dia a todos — cantei. — Blás, Pam, Daphy, Lagartixa, que bela manhã!

— Lagartixa? É o sono ou acabou sua criatividade? — Malfoy respondeu enquanto eu me sentava e os outros me cumprimentavam. Soltei um suspiro profundo ao colocar a mão no peito.

— Uma garota precisa de seu alimento antes de começar a xingar, Draquinho, prometo que melhoro na hora do almoço.

— Não me chame de Draquinho — sua cara se contorceu de novo. — Minha mãe me chama de Draquinho.

— Alias, ela mandou isso — Pansy agarrou uma grande cesta que estava na frente de Malfoy e trouxe para perto de mim. — Uma cesta completa de doces, tudo para seu filhinho sonserino.

— Porque não mostra a sua cesta, Parkinson? — Ele devolveu, apoiando a cabeça na mão. — Sua mãe te enviou quase seu peso em sapos de chocolate.

— Eu acho que vocês todos são mimados demais — revirei os olhos. — Em nome da humildade e das boas maneiras, eu vou confiscar tudo, podem passar.

Não quer dizer que me entregaram de boa vontade, mas consegui boa parte dos doces de Draco (eram caseiros!), uma barra generosa dos chocolates de Pansy, um bom punhado dos biscoitos de Blásio e duas grandes fatias de torta de carne de Daphy (receita da avó dela, pelo visto).

— Olha lá, é o Professor Snape! — Sue me cutucou. — Aquele ali, com o nariz enorme!

— Não me admira que parece que odeia a vida, cruzes — murmurei. Severo Snape, o diretor da nossa casa, era um homem alto e todo vestido de preto, desde suas vestes até sua longa capa que vinha esvoaçando a cada passo que dava. Tinha uma pele muito branca e cabelos negros lisos, quase escorridos, brilhantes de tanta oleosidade, além de um nariz muito grande em formato de gancho.

— Eu o conheço — como esperado, Draco não perdeu a chance de se gabar. — É amigo de papai. Hogwarts para mim vai ser moleza.

— Claro, Malfoy — respondi. — Tudo que vejo quando olho para esse cara é seu amor eterno pele sua família. Dá para ver brilhando nos olhos dele enquanto ele anda para cá.

Passando por toda a mesa, Snape estava realmente andando na direção do nosso grupo carregando papeis nas mãos. Não parou, não nos direcionou bom dia e o único sinal de real favoritismo foi o aceno de cabeça que deu para Draco ao entregar seu pergaminho.

— Temos feitiços no primeiro tempo! — A voz de Sue afinou de excitação. — E ainda teremos Defesa Contra Artes das Trevas antes do almoço!

— Sim, Hopkins, acho que todo mundo está lendo — Pansy respondeu, mas também estava sorrindo. — Não é ruim. Quase nenhuma aula com aquele povo da Grifinória.

Era verdade. O símbolo da casa dos leões só aparecia no final da tabela, em plena sexta feira, onde teríamos aula dupla de poções. Isso me fez suspirar ao saber que não teria quase nenhum contato com Mione ou Harry ou Ronald durante as aulas, então virei o pescoço para os procurar do outro lado do salão. Achei Hermione em um canto da mesa, já com grandes livros ao seu lado, enquanto lia de forma voraz o pergaminho que professora McGonagall, aparente diretora da Grifinória, a havia entregada.

— Eu encontro vocês na aula — não tínhamos mais tanto tempo assim de café da manhã e eu ainda iria ver Lagrum antes de começar a estudar. Não ouvi e nem olhei para trás enquanto me encaminhava para a mesa vermelha e dourada, tendo sucesso em ignorar com igual habilidade os olhares dos outros grifos ao me largar do lado de Hermione. — Dia para você, apressada. Nem eu cheguei a ir na biblioteca, ainda. Como é?

— Mal! — Os olhos castanhos dela se arregalaram e eu vi a duvida neles, se deveria ou não falar comigo. Como a menina esperta que era, sorriu. — Olhe, é a coisa mais incrível que você poderia ver! É enorme, gigantesca mesmo! E tem tantos livros, alguns com mais de mil anos e... você sabia que sua gravata não está amarrada?

— Ah, maldição — soltei uma risada enquanto finalmente a prendia de uma forma quase correta, afinal, ela ainda estava bastante folgada e desarrumada, mas era um avanço. — Como é sua sala comunal? A minha é incrível. Parece que estou em um naufrágio secreto.

— Nas masmorras? — Ela parecia ter dificuldade em acreditar, mas abriu mais o sorriso de dentes grandes. — É aconchegante, sabe? Toda vermelha e dourada, com tapetes e poltronas confortáveis e uma grande lareira. Fica em uma das torres mais altas então a vista é linda!

— A minha vista é o fundo do lago, Mione, você não vai me superar nessa — trombei seu ombro com o meu. — Vai ter que me mostrar a biblioteca depois. No almoço, talvez?

— Claro, eu adoraria, mas... Mal... — ela franziu as sobrancelhas. — Seus amigos não parecem felizes e, na verdade, eu não sei se é certo termos uma amizade, considerando nossas casas...

— Para começo de conversa, tire Draco Malfoy dos meus amigos — afastei o nome dele com uma careta. — E depois, eu não devo satisfações a ninguém, Hermione, e nem você. Não ligo para o que os outros acham pois está para nascer alguém que me diga o que eu posso ou não fazer, ou com quem eu posso ou não falar, não concorda?

— Bom — ela sorriu. — Eu sempre preferi pensar por mim mesma.

— E pensa de uma maneira fabulosamente espetacular, minha cara — pisquei um olho para ela enquanto me levantava. — Até o almoço, oh, minha grande rival.

Fui embora ouvindo a risada dela atrás de mim e acenei para minha mesa com um sorriso, onde Draco Malfoy tinha uma cara azeda e todo o resto estava bastante dividido entre imita-lo ou me corresponder. Acabou que Daphy foi a única que me acenou de volta, e Sue, mesmo que bem devagar. Não precisei de muito para me convencer de que não ligava, pois era verdade. Acabei passando tempo demais com uma cobra, meio que me tornei uma. Tudo isso era tão desnecessário e fútil. Se quisessem ser meus amigos, era excelente. Se não, eu sempre tinha a mim em primeiro lugar. E Lagrum, claro.

É ótimo saber que algo entra nessa cabecinha.

— Bom dia para você, réptil gordo — o cumprimentei. Havia sido muito mais fácil atravessar os terrenos durante o dia, mesmo que o cuidado tivesse que ser maior, uma vez que não era para eu estar naquela floresta, mesmo que na orla. — Se alimentou bem?

Não imagina o quanto, Mal, tenho de te mostrar alguma hora. As coisas que vi... centauros, com certeza! E unicórnios, testrálios...

— Salazar louvado me diz que você não comeu nenhum unicórnio.

Claro que não! As coisas que ouvi... tive uma pequena aula, eu vou lhe explicar melhor quando tivermos mais tempo. Mas qualquer ser vivo que se alimente de um unicórnio é amaldiçoado. Matar algo tão puro te destrói.

— E quem iria querer matar algo assim? — Me sentei na grama, fazendo carinho em seu pescoço. Ele ainda estava inchado, seja pelo que houvesse comido. — Bom, espero que ainda esteja tomando cuidado. Nada de brigas desnecessárias ou se meter com algo que pode dar confusão.

O sangue de unicórnio tem propriedades magicas poderosas. Dizem que podem prolongar a vida, curar doenças... e eu já lhe disse para não se preocupar. Sei me cuidar e já entendi como essa floresta funciona. Nada dará errado.

— Assim espero, não há muitas cobras insuportáveis no pet shop — retruquei, ganhando uma amostra de suas presas venenosas, aos quais dei um peteleco rápido. — Tenho que ir. Minhas aulas vão começar e ainda não arrumei minha mochila. Venho te ver depois do jantar, não quero atrapalhar seu sono de beleza no almoço.

É bom que não atrapalhe, preciso digerir com calma e paz, sem menininhas irritantes me atazanando.

Dessa vez dei um peteleco em seu nariz, o que me fez ganhar um bom golpe nas costelas da ponta sua calda. Me afastei antes que continuássemos a briga (que sempre terminava com ele quase me matando) e quase cheguei a correr em direção ao meu dormitório, agarrando minha mochila e jogando meus livros junto com vários rolos de pergaminho, frascos de tinta e penas de escrever. Além do essencial, minha varinha.

Sem querer dizer que me arrependia de ter deixando meus compatriotas sonserinos para trás, mas eu devia ter aprendido onde eram as malditas salas. O relógio indicando nove horas, o inicio do primeiro tempo, já havia tocado a quase dez minutos quando achei a sala de Feitiços no terceiro andar. Dei três batidas na porta e entrei quando ela abriu, mesmo que ninguém estivesse lá. Como esperado, várias cabeças se viraram para enxergar quem havia chegado atrasada, mas mantive meus olhos no professor.

— Ora, ora, se perdeu, senhorita? — O homenzinho falou. Estava em cima de uma pilha de livros enormes para conseguir enxergar toda a sala e era, com certeza, o ser mais baixo que já havia visto, do tamanho dos duendes de Gringotes. — O primeiro dia será perdoado, mas só ele, entendido? Sente-se, sente-se.

Sorri agradecida para ele enquanto via Daphne acenar para mim e me sentei com ela, que estava sentada com Pansy e Sue. Todas elas me olharam quando eu cheguei, mas ninguém pode me recriminar ou dizer a quão louca eu era, já que o professor tomou a fala outra vez.

— Bem, como eu ia dizendo, sou o professor , também diretor da Casa de Corvinal. Vou ser o professor de feitiços de vocês e gostaria de esclarecer que é uma matéria que muitos podem achar fácil, mas necessita de muita concentração e precisão. Em Feitiços não se pode errar, é necessário que prestem atenção tanto em pronuncia quanto na postura, além da força de movimentar a varinha, agora, abram o livro no capitulo um. Teremos uma aula mais teórica, receio, para tirarem suas dúvidas sobre a matéria...

Senti um cutucão na lateral do corpo, bem onde Lagrum me acertou, e fiz uma careta ao virar a cabeça e encontrar Pansy me estendendo um pedaço de pergaminho através da mesa. Peguei-o e desdobrei, olhando sua letra inclinada e pequena até conseguir distinguir as letras.

Precisamos conversar.

Consegui sorrir para isso e estendi minha mão para ela, olhando em direção a sua pena. Com as sobrancelhas franzidas, Pam me estendeu a pena ainda molhada de tinta e eu a segurei com sutileza, escrevendo minha resposta com um floreio, dobrando com lentidão e a estendendo para ela outra vez. Depois de ler, Pansy me olhou com os olhos estreitados enquanto eu lhe devolvia sua pena de cabeça abaixada em uma pequena reverencia, sentindo Daphne tremer para conter a risada do meu outro lado.

Tenho certeza que ficarei encantada com qualquer coisa que tenha para me dizer.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 5 e os novos dos anteriores ♥ Malfeito, feito!