Corona

11 O Guardião do Hades


Notas iniciais
Oie oie nenês ♥ Não tem muita coisa para dizer aqui, além de lembrar que quando chegarmos aos 100 acompanhamentos vai ter CAPITULO DUPLO de comemoração. FALTAM SÓ CINCO, GALERA, ME AJUDEM A ESPALHAR A PALAVRA EUAHAUEHUEH' DE NOVO eu tô respondendo os comentários, sim? Os comentários do cap 10 vão ser respondidos todos ♥ Obrigada a Caique Morningstar, Syh All Black, Mawwi (Gracinha ♥), Ella Branco (Bella ♥), Kyle, Ero Hime (May ♥), Luiza Avelino e Readysmg pelos comentários lindos, diwos e mais que perfeitos ♥ Fizeram meu dia feliz pra cacete! ♥ O cap é pra vocês ♥ Sem mais delongas, juro solenemente não fazer nada de bom ♥

Madame Hooch era uma bruxa de aparência dura e severa, mas de um tipo diferente de McGonagall. Enquanto a professora de transfiguração nos olhava por cima dos óculos até nossa dignidade sumir, a instrutora de voo e juíza dos jogos de Quadribol tinha uma rigidez mais bruta, o que eu acho que é necessário quando se lida, em sua maioria, com meninos enormes com mais músculos que cérebro atrás de um monte de bolas no céu.

Nos recebeu no meio do campo de treinamento na quinta-feira, às três e meia em ponto, com os pés separados fincados no gramado e as mãos na cintura. O dia estava bonito, claro, para subir em uma vassoura e eu animada. A brisa leve bagunçava os cabelos curtos e arrepiados da professora enquanto seus olhos, amarelos-ouro como de um gato, se estreitavam para nós.

Os alunos da Grifinória chegaram um pouco depois, se enfileirando e tomando posse em frente a outra metade das vinte vassouras colocadas no chão. A energia nervosa que passava por mim mal era compartilhada pelos meus companheiros de Casa: Pansy não podia estar menos interessada em voar e Greengrass não me parecia nervosa com a ideia. Sue era única que ficava olhando para a vassoura toda a hora, como se fosse algum bicho que merecia constante atenção.

Com rigidez e muita pouca paciência para bons modos, Madame Hooch organizou os alunos soltando frases como "o que está esperando?" e "ande logo!". Harry, consegui ver, olhava com intensidade para a vassoura. Mas, diferente de Hopkins, seus olhos muito verdes brilhavam de ansiedade, mesmo que houvesse nervosismo ali também. Ele olhou para mim justo nesse momento, e sorriu. Sorri de volta em um cumprimento antes de buscar Hermione, quase da mesma cor que os fantasmas da escola, mexendo os pés como se quisesse abrir uma petição contra a aula pratica, uma que ela não poderia decorar de livros. Isso me fez sorrir para ela com um pouco mais de crueldade, recebendo suas bochechas rosadas e um bico mal-humorado.

— Estiquem a mão da varinha sobre a vassoura! — Mandou a instrutora depois de organizar todos. — E digam: "em pé!".

Eu agradeci por todos estarem concentrados demais em si mesmos para não notarem a forma com que uma risada estrangulada escapou da minha garganta ao ver a dificuldade coletiva entre os alunos. A vassoura destinada a mim, tão meio acabada como todas as outras, subiu imediatamente para a palma da minha mão esquerda, mas foi uma das poucas a fazer isso.

Além de mim, apenas Harry, Malfoy, Zabini, Pansy, Weasley e Daphy conseguiram passar na primeira etapa. No lado grifinório do campo, a vassoura de Mione havia apenas se debatido no chão por um segundo, como o ultimo espasmo de vida de algum animal. A do garoto rechonchudo com bochechas vermelhas, Neville, sequer se mexeu. Mas não era como se pudéssemos contar vantagem. Nott fez a ponta da vassoura levantar só um pouquinho antes de desabar outra vez, e as vassouras de Crabbe e Goyle talvez estivessem se fingindo de mortas para não aguentar o peso dos dois.

Hooch então passou a andar para lá e para cá, costurando entre nós, nos mostrando como montar nas vassouras sem cair para o outro lado, corrigindo aqui e ali a maneira de que alguns seguravam ela. Eu ri junto a Weasley e Potter ao ouvir, em alto e bom som, quando ela disse para Draco que ele segurava a vassoura de forma errada a anos. Como o bom arrogante que é, claramente não se deu o trabalho de sequer virar o rosto, mas me contentei com aquelas bochechas rosas.

— Agora, quando eu apitar, deem um impulso forte com os pés — explicou a professora. — Mantenham as vassouras firmes, saiam alguns centímetros do chão e voltem a descer curvando o corpo um pouco para frente. Quando eu apitar... três... dois... Volte, menino!

Era Neville Longbottom no ar. Mais branco do que um fantasma e com uma camada de suor no rosto, ele havia dado um impulso forte no chão antes mesmo de Hooch apitar alguma coisa. Todas as cabeças se viraram para cima, exclamações de surpresa e nervosismo aqui e ali, coisa que com certeza não ajudou o pobre garoto a tomar o controle da situação. Continuou subindo e subindo, dois, quatro, seis metros do chão.

— Que patético — ouvi Pansy dizer ao meu lado para ninguém em especial, e apesar de sentir pena do garoto, não tinha duvidas de aquilo era uma cena vergonhosa. Mas minha língua se segurou enquanto eu via o olhar voraz de Malfoy no menino, sorrindo e mostrando todos os dentes brancos como um lobo cercando a presa.

Ouvi o som característico e nostálgico de fratura quando Neville caiu no chão com um baque particularmente alto. Escorregou da vassoura, claro, e estava virado para baixo, estatelado na grama, com algo nele obviamente quebrado e fora do lugar. Talvez o pescoço? Madame Hooch devia ter essa mesma suspeita e preocupação, pois tinha um rosto tão branco quanto o próprio ao se inclinar sobre ele.

— Pulso quebrado — murmurou, o alivio diminuindo um pouco a tensão de seus ombros. — Vamos, menino, levante-se. E vocês — se virou para o restante de nós, uma grande maioria com o pescoço espichado para ver melhor. — Nenhum de vocês vai se mexer enquanto levo esse menino para a ala hospitalar! Deixem as vassouras onde estão ou vão ser expulsos de Hogwarts antes de poderem dizer "Quadribol"! Vamos, querido, vamos.

Mas Neville parecia não querer se levantar. Seja pela vergonha seja pela dor, ele parecia muito mais disposto a se encolher na grama e gemer do que se levantar e encarar todos os olhares e risadinhas que começavam a correr. Respirei fundo, então, antes de dar alguns passos a frente até os dois, ignorando (como sempre faço), os protestos de minhas colegas.

— Quer ajuda, professora? — Perguntei baixinho. Tinha meus olhos naquele nariz irritante e empinado de Malfoy, que ainda mantinha aquele olhar voraz, os lábios torcidos de quem se segura para não rolar de rir. O grande babaca iria aprontar alguma, pois nunca perdia a chance de ser um desperdício de ar. Quando Potter acompanhou meus olhos até ele e sua preocupação foi substituída por raiva, meu trabalho estava feito.

A professora concordou depressa, ansiosa e preocupada com Neville. Ela segurou-o pelo braço enquanto eu passava o meu pelos seus ombros. Parecia um pouco demais, na minha opinião. Ele havia fraturado o pulso, não as pernas. Mas o menino tremia e soluçava baixinho, com lágrimas correndo em seu rosto, que era melhor garantir nós mesmas que ele continuasse andando.

A ala hospitalar ficava no quarto andar de Hogwarts e eu nunca havia estado lá. Era clara e arejada, com grandes janelas de um lado que davam para a floresta. Haviam pelo menos vinte camas, dez de cada lado, com pequenos criados mudos individuais. De tantas camas, todas arrumadas e limpas como um local para feridos e doentes deve ser, apenas duas estavam ocupadas, mas não me importei com eles. Assim que entramos uma mulher saiu de uma portinha nos fundos, andando a passos apressados até nós.

— O que aconteceu? — Eu já a tinha visto na mesa dos professores, mas me perdoem se eu não me lembrava exatamente seu nome. Era uma mulher baixa e magra, os cabelos quase completamente grisalhos e a roupa de curandeira a faziam parecer bastante séria e profissional, o que não acreditava que estava errada pelos seus olhos estreitos analisando Neville.

— Caiu da vassoura, Papoula — Hooch respondeu, entregando sem hesitar o tremulo garoto nas mãos da matrona, que o fez se deitar em uma cama e o avaliava de cima a baixo como se lhe faltasse a cabeça. — De quase seis metros de altura. Acho que é só o pulso, mas...

— Sim, sim, é apenas o pulso — a mulher respondeu, terminando de apalpar e cutucar o garoto. — E algumas dores pelo impacto da queda. Resolvo a fratura em um minuto, mas ele irá ficar de observação pela queda, pode ser que algo apareça.

— Desculpe, madame Pomfrey, madame Hooch — era a primeira vez que a voz dele saia, e quase balancei a cabeça em negação. Era melhor ter mantido a boca fechada do que soltar esse pio agudo. — Sou um desastrado, vovó nunca me deixou montar em uma vassoura... sempre disse que já me machucava demais no chão.

— Bobagem, garoto — Hooch dispensou com um aceno de mão. — Papoula e eu sabemos quantos são enviados para cá pelo mesmo motivo ou semelhante. Descanse, eu irei voltar para o que restou da minha aula. Senhorita Lewis?

— Eu gostaria de ficar um pouquinho, se não for incomodo para ninguém — disparei com os olhos no garoto. Havia muitos motivos pequenos que me levaram a isso, todos se juntando para dar um grande o suficiente. Neville Longbottom e sua pose infeliz e dolorida faziam minhas próprias cicatrizes se repuxarem com a lembrança de tempos onde tudo que eu via eram espelhos de sua postura. — Juro que não vou demorar, madame Pomfrey.

— Está bem, mas só uns minutos — ela concordou, um pouco a contragosto. — O paciente precisa de descanso.

Paciente me parecia um pouco demais para o caso de Neville, mas apenas concordei em silêncio. Enquanto madame Hooch voltava para o campo de treinamento e Pomfrey para sua sala escondida, andei a passos curtos até o grifinório mais desastrado e encolhido que já vi. Uma parte primal e suja de mim sorriu até mostrar as presas ao vê-lo confuso e medroso perto de mim, mas facilmente a calei com um erguer de lábios.

— Relaxe, Longbottom — murmurei ao me sentar na beirada de sua cama. — Eu não vou te morder nem nada do tipo.

— Não vai caçoar de mim? — O menino perguntou com a voz baixa. Nesse ponto, qualquer prazer que eu tivesse em sua figura cabisbaixa se desfez. Quão maltratado pela vida esse menino foi?

— E porque eu caçoaria de você? Sinceramente, cair mais de cinco metros e só ter um pulso quebrado é algo a elogiar para mim. Muita gente se machucaria muito mais — suas bochechas já rosadas se tingiram ainda mais enquanto um pequeno sorrisinho aparecia.

— Eu sabia que faria confusão — admitiu baixinho. — Eu sempre faço. Sou muito atrapalhado. Minha avó sempre espera tanto de mim por causa do meu pai... não quero decepcionar e acabo estragando tudo.

— Sua avó deveria parar de exigir que você seja perfeito, e você também — interrompi. — Aposto que não se atrapalharia se não se esforçasse tanto. Eu sei que dizem que sempre temos que dar o nosso melhor, mas se esforçar demais também é ruim.

Erros são pecados e pecadores são sujeitos a punição. Quase em um reflexo passei os olhos pelo pescoço e mãos do garoto, procurando coisas que sabia que não estavam lá. A avó de Neville precisava de um chute na bunda para parar de querer que o neto se transformasse no filho, mas não por o machucar. A cor dele aumentou junto com seu sorriso.

— Obrigada, Mal — piscou, a boca se abrindo um pouco antes de gaguejar. — Quero dizer, tudo bem te chamar de Mal, não é? É que eu sei que seu nome é Malorie. Todo mundo sabe. E eu pensei...

— É assim que deve me chamar, Neville — sorri para ele pois estava sendo sincera. Saltei da cama, erguendo meus punhos e avançando para cima dele, parando quando se encolheu. — Que péssimo, hem? Se ficar com medo, leva dois.

Acertei dois dos socos mais fracos que pude em seu braço, fazendo com que ele soltasse uma risada alta e solta. Isso fez madame Pomfrey se lembrar com antecedência da minha presença e da forma como eu estava agitando seu paciente necessitado de descanso, então fui embora antes que ela pudesse me expulsar e me fazer querer ficar apenas por despeito.

Não vou dizer que me arrependia de ter acompanhado o garoto para a enfermaria. Ele era nervoso e sem jeito, mas tinha um bom coração e honestidade no olhar. Neville era uma ótima pessoa para se conhecer, assim como Mione. Mas eu adoraria poder estar em dois lugares ao mesmo tempo por causa do que aconteceu depois que sai.

— Então Potter mergulhou uns quinze metros no chão para pegar aquela coisa! — Sue sussurrava para mim, do nosso lugar na sala de Feitiços. Eu havia ganhado dez pontos para minha casa depois de ter sido a primeira a conseguir destrancar meu cadeado com alohomora. Ainda continuava o fechando e destrancando apenas por diversão, falando cada vez mais baixo em busca da hora que não precisasse falar nada. — Os grifinórios comemoraram como os loucos que são e ele foi recebido como uma espécie de herói no chão... isso até a McGonagall aparecer. Merlin, ela parecia capaz de arrancar a cabeça dele bem ali!

— Ele é um herói para mim também, Hopkins — retruquei com um sorrisinho. — Como eu queria estar lá para ver o jogo virar para Malfoy. Ele parecia mesmo assustado?

— Quando se lembrou que estava sozinho no ar com Potter? Um pouco — ela encolheu os ombros. — Mas, sabe, seu herói deve estar em uma bela enrascada. Não é brincadeira, ele quebrou umas boas regras da escola e...

— Já vimos que Hogwarts não é tão rigorosa quanto quer parecer ser, Sue, ou esqueceu do que eu fiz? — Pisquei para ela e para sua boca fechada, incapaz de refutar. — Aposto que ele vai ficar bem. No máximo uma detenção, como eu.

— E seria uma bela forma de Draco perder a pose de novo — Daphne entrou na conversa, do meu outro lado. Também havia conseguido destrancar sua fechadura e agora estava de braços cruzados, aproveitando a folga da aula. — Ele se inflou tanto que achei que ia explodir. Quase saltitava, rindo de se acabar, com a certeza de que fez Potter ser expulso.

Soltei um suspiro longo, correndo meus olhos pela sala até encontrar o garoto mimado que cruzou meu caminho antes mesmo das aulas começarem. Não foi difícil encontrar sua cabeça quase branca, no meio de Blás e Nott. Draco Malfoy desperdiçava cada chance de ficar calado que tinha. Ele seria envergonhado de todo por ter feito tanto escândalo da suposta expulsão de Potter, da mesma forma que fez sobre eu ir para Azkaban. Eu poderia ajuda-lo, claro, se ele também não desperdiçasse todas as chances comigo.

Na hora do jantar, não exatamente esperei me sentar para ir atrás de Harry. Ele estava com os Weasley, os três de quatro que frequentavam Hogwarts. Mas bem quando os gêmeos saíram com sorrisos no rosto, Malfoy brotou ao seu lado, ladeado pelas suas muralhas de burrice e músculos. Apertei o passo, ignorando os olhares atentos e curiosos do resto da escola. Acho que a essa altura eles sabiam que nenhum de nós três juntos era uma boa combinação.

— Você está bem mais corajoso agora que voltou ao chão e está acompanhado por seus amiguinhos — Potter falava com uma voz calma quando cheguei a eles. Malfoy olhou diretamente para mim enquanto seus asseclas fechavam a barreira na frente dele, mas foram incapazes de fechar sua boca.

— Enfrento você a qualquer hora sozinho — Draco disparou, os dentes aparecendo em algo que não era um sorriso. — Hoje à noite, se você quiser. Duelo de bruxos. Só varinhas, sem contato. Que foi? Nunca ouviu falar de duelo de bruxos, suponho?

— Acho que nem você, Malfoy — ronronei para ele, sem precisar acrescentar mais nada. A vergonha e a raiva de quando eu o ataquei subiram borbulhando para seus olhos, mas ele tinha outras coisas se preocupar agora.

— Claro que já — Weasley respondeu por Harry, se virando. — Vou ser o padrinho dele, quem vai ser o seu?

— Crabbe — ele precisou medir os dois antes de decidir. — Meia noite, está bem? Nos encontramos na sala de troféus, está sempre destrancada.

Quando ele foi embora, Harry fez a pergunta por nós dois.

— O que é um duelo de bruxos? E o que você quer dizer quando se ofereceu para ser meu padrinho?

— Bom, o padrinho fica lá para tomar o seu lugar se você morrer — Rony respondeu sem parecer se importar com a escolha de palavras, até voltou a comer o pastelão do prato. Mas conseguiu ver a expressão assustada em Potter, então acrescentou depressa. –– Mas as pessoas só morrem em duelos de verdade, sabe, com bruxos de verdade. O máximo que você e Draco conseguirão fazer será atirar fagulhas um no outro. Nenhum dos dois conhece magia suficiente para fazer estragos. Aposto que ele esperava que você recusasse.

— Não duvido disso, Weasley — respondi, arqueando uma sobrancelha. — Mas espero que vocês saibam reconhecer uma armadilha. Aquele covarde não tem intenção nenhuma de sequer aparecer.

— Mesmo assim — o nervo grifinório de Harry fez com que seu peito estufasse, os olhos verdes resolutos. — Se aparecer, vou ser covarde e dar o que ele falar de mim. Não vou fazer isso — revirei os olhos enquanto Potter se virava para Ronald. — E se eu agitar minha varinha e nada acontecer?

— Jogue a varinha fora e meta-lhe um soco na cara — Rony respondeu, me fazendo rir, rendida.

— Gosto da forma que você pensa, Weasley.

Mas mesmo gostando, não podia deixar de pensar que já conhecia a forma como Malfoy lidava com seus desencontros. Ele não iria aparecer, tinha certeza. O garoto não era do tipo que lutava, era do tipo que fugia. Um covarde preguiçoso, isso sim. Pensei nisso durante todo o jantar até a hora de dormir, quando fiquei me revirando na cama por horas até encarar o relógio. Já eram dez para meia noite, talvez eles já estivessem lá?

Sai das cobertas e deixei meus pés encostados no chão, como eu gostava. Não era igual a grama, mas me fazia sentir melhor e mais rápida, de alguma forma. Subi as escadas para a sala comunal e comecei a ter certeza de que estava certa quando não havia qualquer movimento lá.

A sala de troféus ficava no terceiro andar e prestei muita atenção em cada passo e em cada ruído até chegar lá. Fui colada nas paredes, um passo depois do outro, subindo as escadas com a fluidez que anos com uma cobra me concederam. Tive a certeza de que eles estavam ferrados quando cheguei e encontrei um grupo muito estranho: Harry, Rony, Hermione e Neville parados, esperando, mas nem sinal de Draco ou Crabbe.

— Eu sabia que ele não ia aparecer — resmunguei para eles, franzindo a testa a presença dos outros dois. — O que estão fazendo aqui?

— Tentei colocar um pouco de juízo na cabeça desses egoístas — Mione chiou, os braços cruzados. — Tentei avisar que eles iriam perder pontos e se meter em encrenca, mas acabei foi presa do lado de fora com eles.

— Eu esqueci a senha e eles tropeçaram em mim quando saíram — Neville encolheu os ombros, o pulso como se nunca tivesse quebrado. — Também fiquei preso, na verdade, a Mulher Gorda saiu do quadro.

— E vocês são dois intrometidos — Rony parecia mal-humorado e devia estar. Olhou de um lado para o outro, nervoso. — Está mesmo atrasado. Com certeza se acovardou.

— Com certeza ele não ia vir — devolvi para ele, irritada pela falta de educação com os outros. — Francamente, eu avisei que aquele nojento...

Um ruído na sala ao lado fez com que eu calasse a boca e Harry erguesse a varinha. Hermione ficou branca e Neville deve ter começado a suar. Será possível que errei? Mas era difícil errar quando se tem tanta certeza e apenas tive a confirmação quando uma voz muito, muito diferente da de Draco ou Crabbe atravessou o silêncio.

— Vá farejando, minha querida, eles podem estar escondidos em algum canto.

Era Filch, com sua voz asmática, e sua gata demoníaca, madame Nor-r-ra. Quantas vezes já não quis apresentar Lagrum para aquele bicho de olhos brilhantes? Trinquei os dentes ao me lembrar da minha detenção com Snape, ainda valendo todo dia, e o que iria ser incrementado se houvesse mais essa.

Com os olhos arregalados de quem vê a morte, Harry fez sinais frenéticos para que o seguíssemos. Pegou a direção mais óbvia: a porta mais distante possível de onde vinha a voz de Filch. Ainda conseguia ouvir ele dizendo, agora definitivamente da sala de troféus, para a gata continuar procurando por esconderijos. Eu não estava errada. Malfoy havia armado para Potter e Weasley, sem saber colocando a mim e mais dois grifinórios na reta.

Harry continuou guiando nosso grupo meio desesperado, agora descendo por uma galeria cheia de armaduras o mais depressa que podíamos. Mas claro que algo tinha que dar errado, e esse algo era Neville. Não sei como, mas o barulho foi o bastante para acordar todo o castelo. Quando virei o pescoço, vi ele e Ronald embolados um no outro, pedaços de uma das armaduras ainda retinindo no chão.

Obviamente, fizemos o mais sensato.

— Corram! — Se Filch tivesse alguma duvida de que eram alunos fora da cama, depois do berro de Harry não haviam muitas. Nós cinco disparamos pela galeria, sem sequer se dar o trabalho para conferir onde o zelador estava. Fizemos uma curva ali, outra aqui, e era um milagre que Longbottom estava conseguindo manter seu rosto longe do piso durante todo o tempo. Potter estava na frente e eu tinha minhas duvidas de que ele sabia onde estava indo, mas não tínhamos exatamente tempo para uma votação. Atravessamos uma tapeçaria antiga que deve ter levado dias, talvez semanas para ser concluída – a rasgamos em cinco segundos. Encontramos então uma passagem secreta que nos fez sair perto da sala de Feitiços, muito, muito longe da sala de troféus.

— Acho que o despistamos –– Harry estava tão asmático quanto uma velha, mas a maioria também. Ele se apoiou em uma parede, limpando a testa do suor. Neville não estava tão composto: se dobrou em dois enquanto chiava, algumas palavras roucas demais saindo dele para ser algo passível de entendimento.

— Eu... disse... a vocês — Hermione não tinha fôlego nenhum enquanto agarrava o bordado de seu robe. Me senti incrivelmente idiota de pijama no meio deles, mesmo que meu pijama não fosse diferente muitas das roupas trouxas que eu usava: uma blusa velha e larga e uma calça de flanela. — Eu... disse... a vocês.

— Certo, Mione, porque dizer isso sempre ajuda — retruquei para ela, minha respiração apenas um pouco mais controlada do que de todos. — Mas já que estamos nesse jogo, eu disse a vocês dois, imbecis, que Draco não iria aparecer.

— É claro que ele não iria aparecer — por alguma razão, quando Granger disse, a cara de Potter e Weasley se fechou muito mais. — Ele enganou você, é obvio. Filch sabia que alguém ia na sala dos troféus. Draco deve ter contado a ele.

— Ele contou, com certeza — estalei meus dedos das mãos e flexionei os dos pés, o sangue quente os músculos aquecidos da corrida. Quase desejava uma segunda rodada. — Deve ter ficado arrasado quando viu que não conseguiu que você fosse expulso na aula de voo e armou tudo isso para conseguir ao menos uma detenção. Aliás, o que te aconteceu? O que McGonagall fez?

—– Não temos tempo para isso –– Rony interrompeu olhando para Hermione e Neville. –– Temos que voltar para a torre de Grifinória o mais rápido possível.

— E eu para as masmorras — soltei o ar, imaginando a descida. — Vamos.

Mas claro que nada poderia ser simples, pois a noite não estava arriscada o suficiente. O destino (e minha maldita curiosidade que me fez sair da cama) pareciam estar determinados a me fazer ficar com Snape depois do jantar até me formar. Não chegamos a dar nem dez passos quando ouvimos o barulho de uma maçaneta logo antes de alguma coisa disparar da sala de aula à nossa frente.

Pirraça. Justamente o Pirraça. O maldito poltergeist de Hogwarts que servia unicamente atrapalhar a vida de quem quer que cruzasse seu caminho. Soltou um guincho de prazer quando nos viu, dando piruetas no ar, enquanto Harry tentava falar com ele, falando sobre ser expulso. Idiota. Caos era tudo que Pirraça gostava de causar, uma expulsão quíntupla seria maravilhoso. Ele confirmou isso ao soltar uma gargalhada.

— Passeando por aí à meia-noite, aluninhos? Tsc, tsc. Que feinhos, vão ser apanhadinhos.

— Não se você ficar quieto, Pirraça, por favor.

— Potter, cale a boca — chiei para ele ao ver os olhos do poltergeist brilharem de prazer, mas devia ter prestado atenção em Ronald. O irmão mais novo dos gêmeos Weasley achou que era uma boa ideia ser um valentão com uma força destrutiva e baixou o braço nele, mandando-o sair da frente. Grande, grande imbecil.

— Alunos fora da cama! — Não sabia o quanto mais meus tímpanos podiam aguentar de barulhos altos em uma noite. — Alunos fora da cama!

Os berros de Pirraça nos fizeram voltar a correr, passando por baixo de seu braço até o final do corredor. Neville, que ainda não havia se recuperado totalmente da outra corrida, se agarrou em mim para conseguir se manter de pé antes mesmo que chegássemos a uma porta fechada. Rony empurrou ela com tudo até para gemer de dor e balançar as mãos.

— Acabou-se! — Gemeu. — Estamos ferrados, é o fim!

— Cale a maldita boca, Weasley — rosnei para ele, ainda com as mãos ocupadas para manter Neville em pé e respirando. — Hermione, abra!

Ela, como a bruxa inteligente que era, sequer precisou perguntar como. Agarrou a varinha exposta de Harry e deu duas batidinhas na fechadura, murmurando alohomora. Ouviu-se um click da fechadura abrindo e então nos atropelamos pela porta aberta, a fechando logo atrás de nós. Ficamos parados, prendendo a respiração acelerada e deixando os ouvidos atentos. Filch chegou segundos depois, com Pirraça acompanhando. O poltergeist não tinha inimigos específicos: qualquer um era sujeito a suas enganações. Coisa que se provou verdadeira quando não nos entregou e tirou com a cara do zelador, que se afastou da nossa porta xingando alto.

— Ele acha que a porta está trancada — soltei o ar, passando a mão pelo cabelo. — Acho que escapamos.

— Sai para lá, Neville — Potter resmungou quando soltei o garoto, deixando que cambaleasse para longe. — Que foi?

Harry não era uma criatura rude ou ríspida. Era até muito educado e gentil na medida certa, então seu tom exasperado me vez virar a cabeça também. Isso me fez ver que não estávamos em uma sala e sim em um corredor. Mas não em qualquer um: o corredor proibido do terceiro andar... que tinha bastante razão para tal.

De todas as vezes que li mitos sobre o Mundo Inferior dos gregos e romanos antigos nunca tive uma descrição tão precisa ou realista quanto a que tinha agora: estávamos encarando um cachorro monstruoso que ocupava todo o corredor, do chão ao teto. Três pares de olhos raivosos, três narizes farejando intrusos, três grandes bocas com dentes afiados molhados em baba que pingava nas patas, patas que estavam em cima...

Eu não podia ser a única que percebeu que a razão de estarmos vivos ainda era apenas porque pegamos Cérbero de surpresa. Infelizmente, o cachorro de três cabeças estava se recuperando muito depressa, rosnando cada vez mais alto e com mais frequência para nós. Joguei a mão para trás e encontrei outra, suada e quase tão calejada quanto a minha. Era de Potter, que fez a mesma decisão sábia que eu entre a morte e uma detenção.

Abrimos a porta juntos e todos saltaram para trás, fechando a madeira no focinho do bicho no instante em que avançou para nós. Filch não estava em lugar nenhum, mas era a ultima de minhas preocupações. Voltamos a correr, dessa vez para bem longe do terceiro andar e de seu corredor da morte. Não paramos até chegar no quinto andar, onde finalmente o folego cobrou tantas corridas com tanto vigor em tão pouco tempo de todos nós e paramos para respirar.

— Que é que vocês acham que eles estão querendo, com uma coisa daquela trancada em uma escola? — Rony perguntou depois de um bom tempo. — Se existe um cachorro que precisa de exercícios é aquele.

— Você não usa os olhos? — Hermione tinha mal humor em cada silaba. — Não viu em cima do que ele estava?

— Do chão? — Harry ariscou. — Eu não fiquei olhando para as patas, estava ocupado demais com as cabeças.

— De um alçapão, Potter — murmurei encontrando os olhos de Mione. — O bicho estava em cima de um alçapão. Está de guarda para alguma coisa.

— Sim — ela respondeu ríspida antes de nós olhar feio, arrumando o robe e se dirigindo para as escadas. — Espero que estejam satisfeitos com o que fizeram. Podíamos ter sido mortos, ou pior, expulsos. Agora, se vocês não se importam, eu vou me deitar. A Mulher Gorda já deve ter voltado.

— Não, não nos importamos — Weasley tinha a boca aberta de descrença. — Qualquer um pensaria que nós a arrastamos conosco, não é mesmo?

Neville foi logo atrás dela e Rony também, mas Harry ficou um pouco para trás, a cabeça baixa cheia de pensamentos. Estava próximo demais e alto demais para eu não ouvir.

Gringotes era o lugar mais seguro do mundo quando se queria esconder alguma coisa – com exceção talvez de Hogwarts.

— Eu disse, Harry –– toquei seu ombro para que despertasse, recebendo aqueles olhos muito verdes nos meus. — Coincidências não existem.

Através de seus óculos, os olhos deles varreram meu rosto, confusos, se perguntando se eu havia lido seus pensamentos. Me senti mal, mas afastei tudo isso e me convenci de que não havia escolha, apenas não consegui. Era para isso que servia as aulas com Snape, para coisas assim não acontecerem. Felizmente, o menino relaxou e sorriu para mim, assentindo com a cabeça.

Havíamos acabado de descobrir onde havia parado o pequeno pacote de Hagrid.

Notas finais
Então, gostaram? ♥ Deixem nos comentários, adoro falar com vocês ♥ ♥ LEMBRANDO que eu estou respondendo os comentários do cap 10 ♥ Malfeito, feito! ♥