Corona
12 Bolsos Cheios, Coração Vazio
Notas iniciais
A manhã de sexta feira chegou rápido demais para meu corpo cansado. O relógio já marcava uma da manhã quando me enfiei debaixo dos cobertores e saber que Malfoy e suas tramoias era a razão das minhas pálpebras pesadas apenas me fez querer empurrá-lo escada abaixo.
— Ugh, Mal, só porque dizem que isso aqui é um ninho de cobras não quer dizer que você tenha que aparentar ter dormido em um — Pansy franziu as sobrancelhas para mim enquanto subíamos as escadas para o Grande Salão. Não nego que eu estava mais desarrumada do que o costume, mas não era de Parkinson que eu iria ouvir isso. Mostrei os dentes para ela em algo que não era um sorriso e andei a passos largos em direção a mesa da Sonserina.
Meus olhos correram por toda a extensão de bancos até se focarem em um cabeça especifica. Uma bastante loira. Draco tinha Crabbe e Goyle sentados de cada lado, mas meu querido Blásio abriu imediatamente um espaço entre ele e Nott quando me viu, fazendo com que eu me sentasse cara a cara com Malfoy. Eu até poderia achar graça de sua boca aberta de choque se não estivesse tão predisposta a arrancar seus dentes.
— Aquele zelador é mesmo um incompetente — rosnou para mim. Lhe dei meu sorriso mais doce em resposta, juntando as mãos na minha frente e as deixando bastante expostas. Me dava um prazer perverso observar como ele as olhava de canto de olho, temeroso de piscar e perder algum movimento.
— Filch é um velho, Londres chove muito e, já que estamos falando de fatos óbvios sobre a vida e o mundo, vamos a esse: a única coisa no mundo em que você é bom é em fugir, covarde.
Sua única reação física foi os olhos estreitos, mas Draco Malfoy não era uma pessoa de quem eu sentia pena de invadir os pensamentos. A barreira tênue e provavelmente inconsciente que havia ali era ridícula comparada a que eu estava aprendendo a montar, noite após noite, com Snape. Anotei em um canto da minha mente que o garoto tinha um dom natural de oclumência inexplorado, e o guardei para mim. Era triste e vergonhoso como eu não havia errado em nada nas minhas convicções e nem mesmo precisei de invadi-lo.
Draco era apenas um menino rico com os bolsos muito cheios e o coração muito vazio. Vi a estúpida casa onde ele morava, a mansão grande demais para apenas três pessoas, fria demais, cheia de passados e deveres demais. Vi sua infância fria, seu crescimento assistido de perto, seus ensinamentos tortos sobre como o mundo funcionava pela voz ríspida e gelada do pai. O único calor que vinha dele era direcionado a sua mãe, a mulher quase tão loura quanto o filho, de olhos muito azuis. Mas o pequeno pedaço de coração que isso havia salvado não compensava todo o veneno e todo podridão em volta.
— Não se atreva a me chamar de covarde, Lewis — me respondeu devagar. — Eu nunca me rebaixaria ao nível de Potter, deveria saber disso.
— Oh, eu sempre soube que você não apareceria — larguei sua mente de lado, desgostosa com o cinza que era. — Mas isso não tem nada a ver com ele. Eu fico me perguntando se algum dia sua vida vai deixar de ser vazia o suficiente a ponto de ter que se esforçar tanto para tornar a dos outros infeliz.
— Minha vida é ótima — Draco rosnou para mim, o rosto de pedra perdendo a compostura. — Eu tenho uma mãe, um pai, uma casa e tudo que eu quiser. E você? Você não tem...
— Nada? — O interrompi enquanto batia meus dedos na mesa e mantinha uma sobrancelha arqueada. — Vai dizer que não tenho nada? Nem uma casa, nem uma família e nem dinheiro. Sim, Malfoy, não tenho mesmo nada disso. É apenas a minha realidade e não vai me ver chorar por isso. Quer tentar outra vez? Não? Ótimo — me levantei daquele lugar, apertando o ombro de Zabini em despedida. — Bom dia para você, Blás, e meus pêsames, mais uma vez.
— Dia, Mal — ele me cumprimentou de volta, o sorriso bonito mostrando os dentes para mim antes que eu me virasse para ir embora. Estava sem fome, ou ela era apenas consideravelmente menor do que minha certeza de que nada de bom poderia sair se eu permanecesse com Draco Malfoy em meu campo de visão. Passei por minhas companheiras de quarto com um aceno e isso fez nenhuma delas me seguirem, por mais que os olhos de Pansy e Greengrass tenham me acompanhado até eu desaparecer pelas portas do Salão.
Me considerei bastante sortuda ao encontrar Hermione no saguão de entrada, até lembrar que ela provavelmente estaria com raiva de mim. Ignorei a lembrança de sua rispidez da noite anterior e a interceptei enquanto atravessava as portas para os terrenos do castelo. Seus olhos castanhos encontraram os meus quando parei ao seu lado e vi sua boca se torcer na lembrança da quase encrenca enorme em que se meteu, mesmo assim sorri.
— Dia, Mione — cantei para ela, empurrando meu temperamento para um lugar fundo dentro de mim. — Minerva não puxou seu pé a noite e te colocou no trem de volta, vejo.
— Não tem graça, Malorie — resmungou. Eu poderia entrar em sua mente e descobrir exatamente o que aquela expressão, de lábios apertados e olhos escuros, queria dizer. Mas Granger, ao contrario de Draco, não era alguém que eu invadiria, então coloquei amarras em mim mesma, me afastando de toda sua mente sempre tão alta e agitada. — Quase não dormi a noite inteira, só conseguia pensar...
— Não vai acontecer nada, sim? — A ponta de meus dedos tocou seu pulso e correu até a palma da sua mão, onde a segurei da melhor forma que pude por um momento ou dois. — Foi arriscado, mas Filch não nos viu, não tem provas além da palavra suja de Malfoy. E não acho que qualquer um vai acreditar em Pirraça, mesmo que ele chegue a falar alguma coisa, o que não vai. Aquele poltergeist não vai soltar um pio enquanto isso favorecer alguém.
Eu não precisava ouvir qualquer sussurro para saber que sua mente trabalhava rápido, a lógica das minhas palavras acalmando seus nervos e embasando tudo que ela mesma deve ter pensado durante a noite. Uma criatura de fatos e aprendizado certeiro, essa era Hermione Granger. Ela se agarrou a lógica e deixou que ela suprimisse qualquer fantasia elaborada que o medo de uma criança pudesse alimentar, então sorriu. A visão de seus dentes grandes sem os lábios tensos em volta clareou meu próprio humor.
— Você tem razão, claro, é verdade — então balançou os ombros, como se assim pudesse se livrar de qualquer tensão remanescente. — Eu estava indo ao corujal enviar uma carta aos meus pais, quer vir comigo?
Claro que fui. Ainda era cedo, o café estava sendo servido e eu não estava com vontade de voltar para onde tinha acabado de sair. Eu nunca tinha ido até onde as corujas de todos os alunos de Hogwarts ficavam, mais as do próprio castelo, sempre disponíveis para quem não possuía uma. A torre alta e circular ficava em uma das extremidades do terreno e, pelo que havia ouvido falar, não era lá um lugar muito convidativo se você não fosse uma coruja: era cheio de titica no chão e um monte de restos de pequenos animais mortos.
— E você faz isso sempre?
— Só as sextas — me respondeu enquanto subia os degraus da torre, esquivando de titicas acumuladas e se encolhendo de frio pelas grandes correntes de ar que passavam pelas muitas e muitas janelas expostas. Yep, as pessoas não haviam mentido. — Tento colocar tudo da semana na carta, sabe? Uma explicação das matérias, do castelo, dos professores... não quero que meus pais se transformem em estranhos na minha vida.
— Isso é uma graça — sorri enquanto me apoiava em um canto de parede seguro, observando-a escolher uma coruja e amarrar a carta em sua perna. — Contou a eles sobre ontem?
Suas bochechas se esquentaram enquanto tirava um pouco de dinheiro bruxo do bolso das vestes e amarrava junto a carta, bem seguro em uma pequena bolsinha.
— Bom, eu... mais ou menos. Eu disse a eles que tentei impedir uma besteira e quase me dei mal por isso — Granger ajeitou a mochila pesada que já aparecia no café carregando. — Mas e você, Mal? Ninguém para escrever?
— Não — encolhi os ombros. — Todos no orfanato são trouxas e... ah... Hermione, poderia me emprestar um pouco de pergaminho e uma pena?
Ela me emprestou mais do que isso. Tirou de sua mochila também um envelope de carta e um pouco de dinheiro para o envio, o que eu prometi que iria devolver. Mione dispensou isso com um aceno de mão e um sorriso, e me deixou para trás por querer ir na biblioteca antes da primeira aula. Por acompanhar Lagrum em suas caçadas,restos mortais não era um grande problema para mim. Juntei um monte de penas e pequenos ossos em um canto para formar um assento e apoiei o pergaminho da melhor forma que pude em minhas coxas, começando a escrever antes que a tinta secasse.
Olá, senhor Olivaras,
Hoje termina minha segunda semana em Hogwarts e eu apenas queria lhe comunicar de algo. Está sentado? Você é meio velho e eu me sentiria culpada se causasse algum acidente com o único fabricante de varinhas que tenho notícia. Está pronto? Tudo bem, lá vai.
EU CONSEGUI! EU CONSEGUI, EU CONSEGUI, EU CONSEGUI! Você tinha razão, senhor, toda ela! Minha varinha é fantástica e não tive qualquer problema com ela. Pelo contrário, e acho que tudo bem lhe contar isso pois não acho que ninguém mais poderá me explicar, minha varinha parece saber exatamente o que fazer.
Além de suas habilidades que havia me falado (todas verdadeiras, devo dizer, venho ganhado muitos pontos para minha casa, a Sonserina. De que casa o senhor foi? Estudou em Hogwarts, certo?), ela causou um incidente proposital a uma semana atrás. Me desentendi com um aluno, Draco Malfoy. Eu fiquei muito, muito irritada com o que saia de sua boca, então apontei a varinha e... bom, eu não conhecia nenhum feitiço. Quando eu era mais nova, minha magia sempre se manifestou através de desejos, compreende? Desejava que algo acontecesse, e geralmente acontecia. Desejei que ele levasse um soco, mesmo que eu estivesse longe para fazer isso eu mesma. Então aconteceu, mas como eu estava com a varinha apontada para ele, foi de lá que senti a força saindo e foi muito, muito maior do que estou acostumada.
Não que eu esteja reclamando, ele mereceu engolir o veneno que despejava. Mas se pudesse me esclarecer...
Espero que esteja passando bem, senhor, e desculpe se incomodei.
Malorie Lewis.
Dobrei, então, o pergaminho e rasguei uma última parte para rabiscar um bilhete para alguém que fiz uma promessa, mesmo que vaga. Ainda havia tinta o suficiente para algumas linhas apressadas, e agradeci a meus anos escrevendo coisas que não poderiam ser vistas pela velocidade com que a ponta da pena arranhava o pergaminho.
Olá, Velho Tom
Me disse para não esquecer de você, e acho que nunca poderia esquecer da primeira pessoa (sem ser ligada a Hogwarts) que conheci no mundo bruxo? Já é a segunda semana de aula e fui selecionada para a Casa de Sonserina, qual foi a sua? Espero que os negócios estejam indo bem, pois de minha parte nunca achei que seria possível alguém da minha idade gostar tanto de uma escola. Prometo que lhe escrevo decentemente depois, mas a tinta vai acabar e peguei a pena emprestado.
Malorie Lewis.
Escolhi duas corujas e amarrei os envelopes em suas pernas estendidas, colocando o dinheiro necessário anexado a elas. As observei voar para longe enquanto escutava o sinal do inicio da aula tocar. Sai do corujal e só apertei o passo depois de agarrar minha mochila em meu dormitório, começando a pensar que talvez Hermione fosse bastante inteligente por andar para lá e para cá com a sua.
Que Snape era um homem irritante e desgosto, disso eu já sabia. Mas se soubesse que ele estava me preparando uma surpresinha especial, teria me enfiado na floresta outra vez. Talvez fosse vingança por chegar atrasada em sua aula, talvez fosse rancor por eu ter o prendido a mim toda noite sem descanso. Talvez ele simplesmente fosse um tremendo de um filho da mãe, o que era mais provável.
— Sempre um prazer que tenha se lembrado da aula, srta. Lewis, e que tenha resolvido nos agraciar com sua presença, estávamos todos ficando preocupados com outro possível desaparecimento — eu não gostava do homem, mas tenho que admitir que o veneno dele me fazia sorrir. Entendi isso como sua versão do que seria um "bom dia" e lhe mostrei os dentes em um sorriso largo.
— Lamento muito ter causado qualquer transtorno, professor Snape, mas não há razão para tanto, então que tal melhorar a cara? Ouvi dizer que o stress faz estragos enormes com a aparência, sabe?
Eu detestava olhar nos olhos de Severo Snape, pois ele tinha exatamente os mesmos olhos que Greta. Cruéis, frios, indo sedentos por sangue na direção de crianças incapazes de se defender de algo que não deveria ser uma ameaça (como uma figura religiosa ou um professor), mais velho e mais forte tanto de espirito quanto de braço. Quando conheci a mulher que me marcou na alma e na pele para o resto da vida, não precisei de mais do que alguns minutos para perceber que qualquer coisa que lhe desse o mínimo de satisfação não era algo de que eu gostaria.
Tive a mesma impressão com o diretor da Sonserina.
Quando vi o brilho em seus olhos negros e a torção diabólica de seus lábios para cima, senti minhas cicatrizes puxarem e doerem com os passos que dava. Parei no meio do caminho até meu lugar com Daphy, meus pés separados e ombros para trás. Não me importava com Hogwarts, com magia ou com consequências. Um instinto muito primitivo em mim me pôs em guarda, pronta para causar de volta qualquer dor que viesse em minha direção, não importa de quem. Observei as pálpebras do professor se estreitarem e pela primeira vez em todo esse tempo senti uma pancada verdadeira em minhas defesas mentais. A sensação foi a mesma de ser acertada por um martelo e a devolvi, arranhando as suas com tudo que consegui. Não foi muito em seus muros mais bem construídos e mais experientes, mas a mensagem foi dada. Ele quebrou o contato visual.
— Não vai se sentar com a srta. Greengrass — Snape voltou a falar com sua voz seca, os olhos voltando a me encarar sem mirar os olhos. — Se encaminhe para junto do sr. Malfoy.
A raiva de sua tentativa de invasão e das lembranças que ele invocava se misturaram ao azedume em meus estomago ao ouvir o que ele mandava. Trinquei o maxilar, minha boca se abrindo e minhas mãos se apertando, a linha entre minha visão clara e o vermelho ficando cada vez mais fina. Talvez eu o retrucasse e cometesse uma besteira, se tivesse tido a chance.
— Sente-se, agora, Lewis, ou esqueço que é da minha própria casa e faço com que perda o dobro de todos os pontos que ganhou até agora — a voz dele tinha uma fúria mal controla e não havia nada de vazio em sua ameaça. Era um aviso muito claro e eu sabia que merecia. Além de chegar atrasada e, com isso, atrasar sua aula, ainda debochei dele na frente dos outros e assumi uma postura decididamente hostil no meio da classe, o acertando na cabeça com minha mente com tudo que podia.
Mesmo assim, a injustiça me fez quase partir algum dente com a força que os apertava ao ir de encontro a Malfoy. Eu era a aluno que mais ganhava pontos em toda Sonserina, e tirar o dobro disso colocaria nossa casa não apenas nos arrancaria da primeira posição e nos enfiara em último lugar, mas em uma pontuação negativa. E eu sequer sabia se isso era possível. Me ajeitei no banco o melhor que pude enquanto observava Zabini fazer o mesmo onde era meu antigo lugar.
— Farão hoje um adubo mágico super concentrado pois a professora Sprout me alertou sobre a escassez em seus depósitos. As instruções estão no quadro, comecem — Snape disse apontando sua varinha para o quadro, onde um monte de instruções complicadas apareceram. Não era uma poção agradável de se fazer, apesar de ser simples. Apenas três ingredientes e nada muito elaborado em seu preparo.
Fiz minha poção com todo o estomago e silencio que possuía dentro de mim. Ignorei Draco com a mesma intensidade com que ele me ignorava, nenhum dos dois ansioso para chamar atenção do meu mal humor ou do de Severo. Foi apenas quando tivemos que esperar a mistura de excremento de dragão e bezerro apaixonado ferver e retiramos a luvas que percebemos que não tínhamos mais ocupações para nos fazer ficar calados.
Ele perdeu primeiro.
— Não era para você estar lá — sua voz não era mais que um sussurro para não se sobressair no barulho quase mínimo que fazia na masmorra. Olhei de canto de olho para Malfoy, estreitando as pálpebras. — Com Potter e o outro. Não era para você estar lá.
— E que diferença faz para você? — Retruquei com uma sobrancelha arqueada. — Não vai me convencer, Draco, que iria sentir muito caso me metesse em confusão ainda maior do que eu mesma já me meti.
— Não sentiria mesmo — sua sinceridade era brutal e sua voz não tinha qualquer pingo de constrangimento por admitir isso. Preferia assim. — Mas não muda o fato de que não era para que estivesse lá. Mas você insiste em ficar andando com esses...
— Meu caro Draquinho, devo te lembrar que sua cabeça está muito próxima de um caldeirão cheio de bosta quente — ronronei para ele. Sua cara se fechou enquanto a boca se torcia em nojo.
— Devia escolher companhias melhores, Lewis — foi sua resposta — Tem capacidade para isso.
— Eu poderia, claro. E faço. Entenda, Malfoy, não sou uma pessoa muito exigente. Tudo que busco em alguém para ter relações de qualquer nível é algo muito simples: tudo que a pessoa precisa fazer é não ser um completo babaca.
— Não pode dizer isso –– rebateu com o nariz em pé, os olhos estreitos. — Nem me conhece!
— Você não precisou me conhecer para me ofender.
— E nem você para me bater.
Verdade. Mas eu havia sido insultada então nunca pensei em nossa grosseira apresentação como algo além de adequada. Deixei meu mais sincero "não me arrependo" transparecer em meu rosto na forma de um sorriso doce, ao que ele me devolveu com olhos frios. Malfoy tinha olhos bonitos, era de se admitir. Mesmo gelados dessa forma, pareciam nuvens de tempestade, aquelas que vinham do horizonte e traziam consigo os arrepios da época.
Ele era um tolo por ainda me olhar nos olhos dessa forma, mas não havia nada que eu quisesse ver ali, nem mais uma vez. Mantive minha mente trancada e me afastei de seus olhos. Pensei ouvir alguma coisa, mas foi baixo demais até mesmo para mim. Ele voltou para sua poção e eu para minha, fazendo-a mecanicamente enquanto imaginava a razão da estranha conversa. Draco Malfoy havia tentado ser meu amigo... um minuto antes de me insultar e eu o bater com um livro. Por mais duas vezes ele me insultou e eu o ataquei, cada vez com mais violência. Era apenas muito irreal que fizesse alguma tentativa extra. Por um momento a imagem de um garotinho sozinho em uma casa grande demais, tendo apenas a voz gelada do pai e o amor contido da mãe, brilhou na minha mente como um farol.
Suspirei.
— Não nos conhecemos, Draco, e detestamos o que achamos que sim — murmurei para ele, ganhando sua atenção de novo. — Chega a ser uma pena. Pelo visto fazemos uma bela dupla.
Nossas poções adubo, lado a lado, foram as únicas que ganharam reconhecimento de Snape, mesmo que eu soubesse que a poção de Hermione também estava perfeita e ele apenas havia ignorado – como o imbecil que era. Malfoy não me respondeu, e eu nem queria que fizesse, enquanto arrumávamos nossas coisas e íamos todos para a sala comunal. Tinha consciência de Pansy ao meu lado, muito esperta por já ter aprendido a não encostar em mim, visto que seus dedos ansiosos se torciam em uma distância segura.
Não fiz questão de esconder meu tédio ao reconhecer o que viria: algum interrogatório sobre os momentos tensos com o professor. Tínhamos alguns minutos antes da porta da estufa se abrir, então cruzei meus braços enquanto esperava, soltando um longo e notório suspiro.
— Comece, mas tenha dó de mim, passei tempo demais em contato com substancias tóxicas.
— Estrume de dragão e bezerro apaixonado não são tóxicos, Mal –– Sue me respondeu ao ajeitar a alça de sua mochila. Estava bem ao meu lado, encostada na parede de vidro da estufa, enquanto Pansy estava do outro. Daphne preferiu uma abordagem mais direta: estava bem na minha frente.
— Não estava falando da bosta, Hopkins — alfinetei quando vi Malfoy chegar. Andava ao lado de Blásio e Nott, com Crabbe e Goyle logo atrás, duas sombras enormes e fortes, vigiando a traseira rica do garoto. Ponto para ele, aliás, pois fingiu que não ouviu.
— Por mais que adore ouvir você xingar o Draco — Daphy sorriu para mim enquanto enrolava a ponta do cabelo no dedo de forma distraída. — Pode me dizer o que diabos foi aquilo?
— Parecia uma cobra armando o bote — Parkinson tinha um sorrisinho de muitos significados. Poderiam variar desde "adorei" até "você está tão ferrada". — Mas o alvo não era muito inteligente, considerando que era o professor.
— Mal não iria atacar um professor, Pansy — Greengrass tinha uma voz dura e cínica, mas o sorriso desdenhoso caiu quando olhou para mim. Estreitou os olhos enquanto cruzava os braços. — Malorie!
— Você fica uma graça quando tenta me dar bronca, Daphy — debochei de sua irritação e ignorei a raiva gelada em seus olhos ao dar de ombros. — Não posso dizer o que ia fazer, já que não fiz. Snape é um babaca e me pôs com Malfoy apenas para se vingar por estar tendo que me aturar da mesma forma que sou obrigada a aturá-lo.
— Mas não seria lindo? — Sue soltou um suspiro longo, os olhos meio desfocados. — Imaginem: Lewis e Snape, rolando pelo chão, ele perdendo a briga para uma garota de onze anos....
— E o que te faz pensar que um homem adulto perderia uma briga física contra uma magrela de onze anos? — Perguntei com as sobrancelhas arqueadas. Ela sorriu para mim, o que realçava suas sardas.
— Eu disse perdendo, não que perderia — piscou. — Você levaria a vantagem inicial pela surpresa, mas acho que ele conseguiria te imobilizar. Isso, é claro, se você não o mordesse primeiro. Seria fatal.
Isso fez com todas rissem até a professora Sprout chegar e ainda estávamos sorrindo quando nos distribuímos ao longo da grande mesa cheia de vasos e terra. Mas por destino ou falta de sorte (talvez nenhum dos dois) Draco Malfoy estava na minha frente. Olhou para mim por um momento ou dois, bem em meus olhos. Sem brincar com sua mente, percebi o quanto ele era bom nisso: desde as nuvens nos olhos até as feições do rosto, tudo era composto para não expressar nada. O garoto sozinho em uma casa fria – não demonstrar era fácil quando não se sentia.
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