Corona
13 Doces ou Tra(sgo)vessuras
Notas iniciais
O outono correu rápido, costurando-se através dos dias de setembro e outubro. Pode-se dizer que havia encontrado certo equilíbrio na minha vida escolar, finalmente. Como logo descobri após a aula de Herbologia, Harry e Rony haviam deixado qualquer hesitação de lado e até mesmo passaram a encarar o encontro com o cão enorme de três cabeças como uma boa aventura. Neville Longbottom, com a opinião muito mais parecida com Hermione, não queria saber falar do assunto.
Aliás, não havia mesmo o que se falar e nem o como. Mais ou menos uma semana depois de nossa aventura noturna, o correio chegou cedo e trouxe consigo um grande pacote para Potter. Apesar de toda a fama que supostamente tinha, ele devia ser uma das pessoas que menos recebia cartas na escola, então é claro que chamou a atenção de um certo garoto de olhos prata. Mal tive tempo de receber minhas próprias cartas, as respostas de Olivaras e Tom, supus, e com certeza não tive nenhum para ficar feliz, uma vez que também me levantei e marchei em direção a cena patética que Malfoy insistia em protagonizar, o seguindo até o saguão de entrada.
— Do jeito que você enche a boca para falar sobre como foi criado, eu pensei que alguém teria te ensinado educação, Draco — arranquei eu mesma o pacote de suas mãos ansiosas, entregando para o dono. — Para se pegar o que é dos outros, tem de se pedir.
— Cale a boca, Lewis — ele me olhou com todo o desprezo que podia reunir, misturado a inveja do que quer que tivesse sentido no pacote. — Como se você soubesse o significado de educação. Logo você, que sequer teve pais e foi largada em um canto junto com outros rejeitados — e então se virou para Harry, puro despeito estampado em seus traços bem feitos e finos. — Você vai se ferrar desta vez, Potter, alunos do primeiro ano não podem ter vassouras.
— Não é uma vassoura qualquer, é uma Nimbus 2000. Que foi que você disse que tem em casa, Draco, uma Comet 260? — Ronald soltou uma risada fria e cruel ao se virar para Potter. — A Comet enche os olhos, mas não tem a mesma classe da Nimbus.
— Que é que você entende disso, Weasley, você não poderia comprar nem a metade do cabo. Vai ver você e seus irmãos têm de economizar para comprar palha por palha.
— Que trabalho seria, Malfoy, mas eles ao menos teriam capacidade para todo o cálculo. E você? Pediria ao papai para subornar as palhas malvadas e fazer com que elas se contassem?
Aquilo poderia ficar feio. Tinha todas as chances de ficar péssimo. Com o rosto de Malfoy se contorcendo de raiva e os dedos de Crabbe e Goyle se estalando perto de mim (estavam a apenas alguns passos, barrando o caminho dos grifinórios). Mas bem nessa hora, o professor Flitwick apareceu do lado de nosso grupo pouco convencional e claramente hostil.
— Não estão brigando, crianças, espero — ele usou o tom que os adultos usam quando querem lhe dar uma pequena chance de fugir de seu erro, de negar sua falha mesmo que estava muito claro que você a cometeu. Mas claro que Malfoy era burro o suficiente para desperdiçar.
— Potter recebeu uma vassoura, professor — ele disse depressa, os olhos quase brilhando de excitação. Arqueei uma sobrancelha em desdém para ele, a cabeça inclinada em quase repulsa. Isso fez o brilho irritante se apagar.
— Eu sei — o professor de feitiços estava com um enorme sorriso para Harry. — A Profa. McGonagall me contou das circunstanciais especiais, Potter. E qual é o modelo?
— Uma Nimbus 2000, professor — Potter respondeu com um sorriso largo, os olhos brilhando e os cantos da boca tremendo pela dificuldade em esconder a gargalhada diante do choque, quase horror, que cortava a expressão de Draco. — E, para falar a verdade, foi graças ao Draco aqui que ganhei a vassoura.
— Oh, verdade?
— Com certeza, professor — respondi ao encarar seus olhos piscando, meio surpresos. Amaciei a voz e encobri o veneno nas letras. — Não estava lá para ver, mas fiquei sabendo, entende? É a mais pura verdade. Se o sr. Malfoy não tivesse interferido diretamente, Harry nunca iria ter sua vassoura.
— Eu estava — Rony emendou com um sorriso realçando suas sardas. — Eu só tenho ao que agradecer ao Draco, também. Devemos muito a ele.
— Ah, maravilha, maravilha! — O homenzinho sorriu. — Cooperação e amizade entre as casas, isso é bom, muito bom! Continuem assim, crianças!
Dois minutos depois, subindo as escadas até o segundo andar, paramos em um corredor de interseção, gargalhando alto o bastante para qualquer um ouvir. A simples satisfação de frustrar Draco Malfoy e vê-lo confuso foi o bastante para nos unir em um bom momento, até que meu rosto doesse e estivesse sem fôlego, então perguntei:
— Mas o que diabos é isso, afinal? — Puxei o ar enquanto passava a mão pelo cabelo. — Não que eu não tenha adorado participar, mas adoraria saber a razão do tratamento especial.
— Não devíamos te contar — Rony estava sorrindo ao dizer isso. — Você é de outra casa, entende.
— Também sou a garota que acertou Draco Malfoy três vezes e venceu — lhe pisquei o olho enquanto arrancava outra risada dele e de Harry.
— Você também é nossa amiga, Mal, então vem, não conte a ninguém, certo? — Potter se aproximou enquanto abaixava a voz. — Lembra-se da confusão da aula de voo? McGonagall não me puniu. Eu estava morrendo de medo, mas foi à toa! Ela me disse para entrar no time! Sou o novo apanhador da Grifinória!
— O mais jovem apanhador do século! — Rony completou, tão ou ainda mais animado que o amigo. — E acaba de ganhar a melhor vassoura do ano! Ultima geração! Ele vai arrebentar!
— Não faço ideia do que seja um apanhador, Potter, mas venha aqui! — Ri enquanto o abraçava com força, verdadeiramente feliz por ele. Era claro que ele estava feliz e animado, e eu gostava dele o suficiente para apreciar sua felicidade. Harry me abraçou de volta, meio sem jeito, antes de eu me afastar. — Me contou um segredo então conto um de volta, e não diga a ninguém pois temo por minha própria vida, sim? É o seguinte: não me prive do prazer de ver Malfoy no chão, acabe conosco!
Eu não me importava com Quadribol, sequer conhecia o jogo direito. Eu me importava em como isso afetaria o parvo loiro que atrapalhava toda minha vida. Meu segredo fez os dois rirem outra vez, os olhos brilhando de excitação, os sorrisos largos de felicidade genuína me fizeram sorrir também. Não eram coisas que eu via ou fazia com frequência.
— Mas não acredito! Estou quase arrependido, sabe?! — Rony bufou para provar seu ponto. — Como assim você não conhece Quadribol?! Ninguém lhe ensinou ou nada do gênero?!
— Talvez eu houvesse aprendido coisa ou outra se escutasse os monólogos de Malfoy na sala comunal, mas prezo pela saúde da minha audição — rebati em um sorriso. — Está se oferecendo, Weasley?
— Mas é claro! Nenhuma amiga minha será uma ignorante no melhor esporte do mundo!
— Muito menos uma minha! — Potter completou. — Quando minha estadia no time for anunciada, talvez você possa assistir os treinos junto com Rony? Eu.... gostaria que você visse.
— Ficar sentada vendo um bando de garotos voando de um lado para o outro com Weasley falando na minha cabeça sobre cada detalhe? Acho que posso lidar com isso se me prometer deixar dar uma voltinha na vassoura — o sorriso dele se alargou com minha resposta e ele balançou a cabeça.
— Fechado.
— É inacreditável! Vocês três ficam agindo como se ele tivesse ganhado um prêmio por desobedecer ao regulamento! — Eu conhecia essa voz, e inclusive conhecia essa entonação raivosa. Estava assim depois que fugi e sumi na floresta. Hermione subia a passos pesados pela escadaria, a cara fechada e os braços cruzados, olhando com desaprovação para o pacote nas mãos de Harry. Não o repreendi quando o segurou com mais força.
— Não seja uma chata, Mione — respondi. — Nem tudo na vida é preto no branco, sabia?
— E, aliás — Harry franziu as sobrancelhas. — Pensei que não estivesse falando com a gente.
— É, inclusive — Rony interrompeu, devolvendo o olhar de irritação para ela. — Continue a não falar, está fazendo um bem danado a gente.
Granger passou por nos com o nariz empinado antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o que me fez soltar um breve suspiro.
— Não sejam tão ruins com ela — repreendi, olhando principalmente para Ronald. — Ela ficou com medo de ser expulsa. Gosta muito da escola e acabaria com ela ter que ir embora. Com vocês não?
Isso fez com que Harry olhasse por onde ela tinha ido com o rosto mais suave, mas Rony era uma pedra e continuou de cara fechada e resmungando sobre "meninas mandonas e intrometidas". Acabamos nos despedindo e, enquanto eles iam até a Torre da Grifinória para guardar o pacote da vassoura, eu descia até a Masmorra da Sonserina para pegar meu material e começar o dia.
Depois de receber a novidade, não era surpresa que Cérbero tenha ido para o final da lista de preocupações. Harry treinava bastante, três vezes por semana, havia me contado. Infelizmente, sua participação no time ainda era um segredo, então não tive a oportunidade de vê-lo em ação – mas qualquer um que fala de algo com um sorriso tão grande não deve achar a experiencia vergonhosa ou desagradável.
Já Malfoy e eu havia entrado em um acordo forçadamente civilizado nas aulas de poções: Snape havia se tornado irredutível e nem mesmo nossas aulas particulares foram o bastante para o persuadir a deixar de bobagem. Sendo assim, ficávamos em silêncio e trabalhávamos da forma mais rápida que podíamos. Claro que isso havia tornado as aulas de poções entediantes ao extremo, mas era a opção menos arriscada.
O professor, inclusive, não demorou a perceber quando eu avancei em minhas habilidades de oclumência: assim que viu que seus ataques fracos eram como cosquinha, aumentou a força e a intensidade, criando uma constante sem sequer pensar em poupar minha pobre cabeça. Meu muro se reforçando e reconstruindo a cada dia obrigava as lâminas da minha mente fazerem o mesmo, se tornando mais e mais resistentes e afiadas. Com satisfação, eu tinha consciência de quem eu agora era capaz de arranhar aquele forte de segurança máxima que era a mente de Severo.
Quem me salvava era Hermione. Me chamem de preguiçosa, não vou negar. Granger era quem se encarregava de me preparar um verdadeiro estoque de poções para dores de cabeça, o que me salvou de ficar intima de Madame Pomfrey. Eu poderia fazer, claro, mas havia algo na forma como ela sorria quando eu tomava e seus olhos brilhavam.... era o sentimento genuíno de se sentir orgulhosa, de ter conseguido outra vez. Não iria poupar um dos poucos prazeres da menina que, depois de todo tempo, ainda tinha apenas a mim e aos livros.
Hogwarts passou a ser tão familiar para mim quanto o orfanato nunca tinha sido, nem mesmo a antiga casa onde passei minha primeira infância com os Lewis, se pudesse lembrar. Seus longos corredores, as escadarias que se mexiam, os fantasmas que obrigavam você a olhar por onde anda se não quiser sentir como se mergulhasse em uma banheira de gelo. Eu me deitava na minha cama do dormitório, cheia de seda e uma maciez de outro mundo, ouvindo o ronronar baixo de Sue e a água batendo contra o vidro das janelas, tão calma, suave, me embalando para dormir como uma mãe, e eu me sentia em casa. No sentido mais sentimental e piegas que a palavra pode ter.
Todos se encaixaram de forma bastante simples na minha rotina, e ela era boa demais para eu pensar em reclamar. Eu comia com Daphy, Parkinson e Sue, e fazia a maioria das aulas junto com elas. Malfoy e eu ainda nos esbarrávamos e rosnávamos um para o outro por aí, mas a convivência forçada por mais de uma hora toda semana havia nos ensinado que era possível simplesmente ignorar a existência um do outro, o que nos ajudou a aplicar esse maravilhoso conhecimento em outros cenários. Mione era minha frequente parceira de estudos – a única em toda Hogwarts (ou, ao menos e com certeza, do nosso ano) que competia comigo em numero de rolos de anotações e livros debaixo do braço. Frequentemente nos encontrávamos na biblioteca, e mais algumas vezes, pelos corredores.
Potter e Weasley, inseparáveis como Filch e sua gata, também dependiam de encontrões ocasionais. Harry sempre se desculpava por eu não poder assisti-lo ainda e me fazia assegurar de que o faria, assim que pudesse. Uma vez disse que não iria, não, pois estava cansada de ficar esperando. Os olhos dele ficaram tão tristes que fui obrigada a toca-lo, bagunçando seu cabelo, e dizendo para parar de sempre acreditar em tudo de ruim. Ronald, por outro lado (um lado feliz), havia de fato me aceitado em seu convívio e eu considerava nossas rotineiras demonstrações de desapontamento e total desgosto pela casa do outro algo saudável.
Outro ponto gostoso era o correio. Ele chegava toda sexta de manhã e fazia muitas entregas na mesa da Sonserina. Draco, então, recebia uma cesta de bolos e biscoitos caseiros que cheiravam por toda a mesa e me fazia lembrar de quando consegui comer, na primeira e ultima vez que sentei perto dele na hora das refeições. Eu mesma nunca recebia nada, claro, como havia dito para Hermione, não tinha para quem escrever – todos do mundo bruxo que eu conhecia estavam aqui dentro, em Hogwarts. Isso era uma verdade absoluta, sim, naquele momento e nada mais, pois tanto Olivaras como Tom haviam me respondido e se tornando meus correspondentes frequentes.
Tom era engraçado. Simples e honesto, ler suas anedotas sobre os casos mais engraçados e peculiares da semana era a mesma coisa que a sessão de comedia nos jornais. Ele escreveu uma reação tão exagerada quando lhe contei que havia entrado na Sonserina que ficou claro em cada letra que era uma brincadeira: Tom era um taberneiro. Isso significava que ele conhecia todo tipo de gente, que vinha de todo tipo de lugar, e tinha que receber a todos com cortesia e bom humor. No meu caso, ele prometeu, não tinha nada a ver com profissionalismo: havia realmente gostado de minha figura, o que demonstrava toda me enviava um pouco de comida e bebida do Caldeirão Furado para mim como lembrança. Aliás, me contou, ele mesmo havia sido da Lufa-Lufa.
Olivaras, ou Garrick, por outro lado, era uma águia. Havia me respondido com muita educação e entusiasmo e era sempre uma delicia ler suas cartas: longas o bastante para as vezes terem de ser usadas mais uma folha, em sua caligrafia inclinada e muito junta. Aliás, havia sido exatamente isso que marcou nossa intimidade: depois que me respondeu, me explicando tudo que eu precisava saber sobre o núcleo mágico de cada bruxo e sobre como a varinha escolhida reagia a isso, eu lhe respondi em um pedacinho de papel algo muito diferente de obrigada: sua letra é horrível. As risadas estavam pregadas nas letras que haviam me devolvido: a escolha da minha profissão não foi apenas paixão... ou acha que eu deveria virar cronista? Eu lhe respondi que, como escritor, ele era um ótimo fabricante de varinhas e, desde então, não parávamos de escrever.
Mas Hogwarts não era apenas correspondência ou colegas, era estudo. E que estudo! Se eu não estivesse tão animada com tudo, se não devorasse qualquer livro na minha frente e sentisse meus olhos arderem de tanto focar nos professores, talvez eu já estivesse toda enrolada. Não havia moleza, isso era fato, estávamos todos ali para estudar, os professores estavam bastante cientes disso. As vezes até demais. Um exemplo disso era Minerva que, muitas vezes, disputava com Snape no quesito de quem passava mais deveres de casa. Mas não me importava. Tentar era apenas certo demais. Segurar minha varinha, me concentrar, deixar a magia que sempre rugiu dentro de mim ser liberada, agora com propósitos claros. Nunca precisava tentar muitas vezes e, depois de tanto tempo, ainda não havia encontrado um feitiço, poção ou transfiguração que havia sido incapaz de fazer.
Isso, é claro, deixava a Taça das Casas em uma disputa que não via a anos. Sonserina havia ganhado as últimas seis e parecia a caminho de mais uma vitória comigo creditando mais pontos a ela a cada dia. Mas Hermione era uma adversária a altura: sabia os mesmos feitiços que eu, lia os mesmos livros e o fazia com a mesma velocidade. Graças a ela, Grifinória realmente tinha uma chance de ganhar e isso me fazia cutuca-la sempre que passávamos perto do grande contador.
Finalmente o Dia das Bruxas havia chegado e eu estava muito mais ansiosa do que minhas companheiras pela data. Não comemorávamos coisas assim no orfanato, pois acho que não faria muito sentido um orfanato católico cristão comemorar uma data tão essencialmente pagã. O máximo que faziam, por moleza de coração, havia sido deixar chocolate quente disponível durante todo o dia – mesmo assim, apenas depois que Greta foi embora. Desse modo, eu havia sido a primeira a levantar pela manhã, já sentindo o cheiro doce de abobora assada enquanto me arrumava para ver como os bruxos comemoravam seu dia e se havia algo parecido com o jeito trouxa – fantasias e chocolate por todo lado.
— Você é tão boa em tudo que eu preciso desses momentos para me lembrar — Sue deixou a frase no ar enquanto caminhávamos para a mesa da Sonserina. Olhei para ela com uma sobrancelha arqueada e um sorriso no canto da boca, incentivando que continuasse. — Me lembrar que você não nasceu sabendo nada disso, sabe? Que não cresceu como bruxa.
— Eu gostaria de saber de que família você é — Pansy completou, já sentada e se servindo de torradas. — Seu sangue tem que ser puro, não posso estar enganada com isso.
— Minha querida Pam, devo te lembrar que Hermione Granger é nascida trouxa e é a única adversária a altura de mim no nosso ano, para ser gentil — devolvi de forma suave, sabendo muito bem que ela entendeu que não estava ali, nem ela nem seu sangue puro. Só desviei meus olhos quando ouvi o sussurro em que ela dizia, muito claramente, que havia entendido que ela era inferior a mim. E inferior a uma sangue-ruim. Meu sorriso se alargou com a amargura que nasceu desse pensamento e me concentrei em Hopkins. — Devo ter comemorado com os trouxas quando era mais nova, mas não pode ser a mesma coisa. Vocês não se fantasiam e saem pedindo doces, não é?
— O que? Não! — Daphne riu enquanto tirava as facas que eram seus olhos claros de cima de Parkinson. Ela podia não ser legilimente, mas era perceptiva o suficiente para notar o que eu disse e como a outra havia reagido. Também era sonserina o suficiente para estar se deliciando com a cena. — É como um aniversário geral. Há uma decoração e tudo mais, mas no final é a comida que importa. Dizem que a de Hogwarts é fantástica.
— Sempre é — Pansy respondeu, voltando ao seu estado normal: ácido e sagaz. Era, talvez, uma das coisas que haviam se fundamentado nosso relacionamento: na certeza de a outra tinha a mesma quantia de veneno nas veias, ou até mais, e que quando o tal era disparado, isso não era motivo para se chorar como um bebê. Era hora de devolver, se fosse capaz, ou seguir em frente, se não se rebaixar. — Mamãe diz que adorava. Papai já culpa Hogwarts por ser gordo.
O Dia das Bruxas havia caído em plena quinta feira, o que nos fez ter de começar o dia com duas aulas de transfiguração antes de ter feitiços antes do almoço. Foi um dia especial, pois o professor Flitwick anunciou que já era mais que hora de aprendermos a fazer os objetos voarem. O homem dividiu a turma em pares para praticar, e sem surpresa eu acabei Parkinson enquanto Daphne ficava Hopkins. Vi que Nott havia se juntado a Blásio e Draco a Goyle, e Crabbe com um coitado da corvinal.
— Não se esqueçam do movimento de pulso! — O professor nos lembrou, repetindo o gesto. — Gira e sacode, lembrem-se, gira e sacode! As palavras certas, não se esqueçam! Em feitiços não dá para errar!
O homenzinho falou mais alguma coisa sobre um bruxo que fez um desastre errando a pronuncia de um feitiço, mas eu já estava concentrada em minha pena. Rodei minha varinha nos dedos algumas vezes, olhando-a com atenção. Gostaria que ela voasse. Queria que voasse. Que flutuasse acima de nossas cabeças e parasse bem ali, no topo da cabecinha de Flitwick. Eu a faria voar, sabia que faria. Já sentia minha magia fluindo dentro de mim, mais do que pronta para ser canalizada e disparada, então o fiz. Segurei minha varinha da forma certa, girei e sacudi.
— Wingardium Leviosa — disse com a voz clara, ignorando com completo sucesso os chiados e murmúrios irritados de Pam ao meu lado. Deixei o sorriso se alargar no meu rosto a medida que eu sentia minha magia fluir por mim em ondas antes de afuzilar em minha varinha, criando uma única direção e se mirando em um objetivo. Salazar, eu podia sentir ela envolvendo a pena com leveza, fazendo-a subir, subir, subir...
— Oh, oh! Que maravilhoso, esplêndido! — Ouvi o professor dizer enquanto ainda a fazia subir. Quebrei o contato visual, então, para mirar o homem. Sorri. — Vejam, vejam todos, srta. Lewis conseguiu! Ah, igualzinho a srta. Granger, mas em menos tempo, sim.... Dez pontos para Sonserina!
Soltei uma risadinha com isso, balançado a cabeça antes de pousar a pena com delicadeza no topo da cabeça de Filius Flitwick.
— Gentileza sua, professor.
Passei os olhos pela mesa da Grifinória no almoço para procurar Hermione e perguntar quantos pontos ela havia ganhado por ter conseguido, pelo simples prazer de competir e ganhar. Como não a encontrei, julguei que tivesse ido para a biblioteca. Sem problemas, falaria com ela no jantar, então.
As aulas da tarde correram bem, inclusive a de voo que ainda era ministrada para o resto do primeiro ano, mesmo que Harry Potter já não estivesse mais lá e isso criasse todo o tipo de teoria. Sem o menino voador para brilhar, os outros melhores alunos de voo do nosso ano rapidamente se destacaram: Ronald Weasley, Draco Malfoy e eu. Neville, coitado, ao menos havia aprendido a pairar em uma vassoura. Apesar disso, era divertido observar Rony e Draco competindo e tentando se derrubar da vassoura sem que Madame Hooch percebesse.
Foi apenas quando a ultima aula terminou (um arrastado e mais torturante do que o habitual monologo do Professor Binns) e fomos todos para o Grande Salão para a festa das bruxas que comecei a ter o péssimo sentimento de que tinha deixado algo importante passar. Procurei Hermione com pressa e insistência, passando meus olhos duas vezes de uma ponta à outra na mesa dos leões, mas não, ela não estava lá.
Minha atenção se dividiu e não me importei nem um pouco em guardar minha mente para mim mesma. Ao mesmo tempo em que reparava nos mil morcegos vivos que esvoaçavam nas paredes e até no teto, enquanto outros mil mergulhavam em bandos entre as velas flutuantes, agora dentro de abobaras morangas enormes, deixei minha mente disparar. Ia de cabeça em cabeça, de mente em mente, procurando qualquer coisa, qualquer pequena menção à Mione. Era errado que não estivesse ali, e não no sentindo egocêntrico e sim no perigoso. Granger e eu havíamos conversado sobre o dia das bruxas varias vezes, ela estava ansiosa como eu para ver como seria.
Hermione não perderia isso, algo estava muito errado. Eram mentes demais, cabeças demais, e eu tinha consciência de que Dumbledore me observava, será que conseguia sentir o que eu estava fazendo? Jogando meses de treino e disciplina no lixo ao revirar a mente sem qualquer receio dos grifinórios... não liguei. Algo havia acontecido com ela e eu iria descobrir, mesmo que o cheiro da carne assada na minha frente fizesse minha boca salivar.
Potter sabia de algo? Weasley? Eram os únicos da mesa que eu não havia olhado, pois confiavam em mim e era detestável quebrar essa confiança mesmo que eles não tivessem conhecimento disso. Murmurei um pedido de desculpas ao entrar na mente de Ronald. Debaixo de muita concentração em comer, havia algo... remorso? Culpa? O que o palerma havia feito? Não admira que mais ninguém suporte ela. Francamente, ela é um pesadelo. Um monstro antigo rugiu dentro de mim, a vontade de partir a cabeça vermelha de Weasley em duas me colocando de pé em um salto. Observei o rosto de Hermione passando por ele e Harry, molhado de lágrimas, vendo o vermelho no canto do meu mundo ao ter conhecimento da razão de seu sumiço durante a tarde inteira.
Eu iria mata-lo. Iria arremessa-lo de sua vassoura e vê-lo quebrar o pescoço. O quebraria com minhas mãos. Granger era gentil. Era gentil e frágil e tudo que ela queria era ter amigos e ser uma boa bruxa, e Ronald Weasley era apenas um imbecil que não suportava que ela fosse melhor do que ele. Imagino que crescer a sombra de tantos irmãos desse certo complexo de inferioridade, mas o faria mudar de ideia sobre quem descontar isso... Parvati. Parvati havia contado a Lavander que havia encontrado Mione banheiro feminino, ainda chorosa, dizendo que apenas queria ficar em paz.
— Mal... — Ouvi a voz de Parkinson ao meu lado, perigosamente distante. Ela tinha a mão firme no meu cotovelo, me puxando para baixo, ou ao menos tentando. Minhas pernas não dobravam e meus punhos se fechavam com o que fazia. Me solte, Pansy, não encoste em mim. — Malorie, me escute, estão te olhando!
— Salazar nos ajude, seus olhos Mal, seus olhos! — Blásio sussurrou, sentando do meu outro lado, tentando me fazer sentar de novo. Respirei fundo o suficiente para olhar para eles e então em volta, e realmente algumas cabeças estavam viradas para mim. Entre elas, a de Snape e Dumbledore. Trinquei o maxilar enquanto tencionava minhas costas e deixava a mente de Weasley para lá.
— Me larguem, agora — sibilei e os dois tinham instintos de autopreservação o suficiente para o fazer na hora. Observei Daphne, sentada na minha frente, os olhos preocupados e os lábios apertados. E Sue, inclinada para mim, o corpo tenso e pronto para o que viesse. Até mesmo Malfoy, sentado alguns lugares a esquerda, do outro lado da mesa e mais perto de mim do que já esteve por livre e espontânea vontade desde o primeiro dia, a testa vincada fazendo seu nariz se torcer de um jeito engraçado e bonitinho.
— O que aconteceu? –– Greengrass perguntou, esticando uma mão e depois a recolhendo, se lembrando de quem eu era. — Por que...?
Seja o que for que ela iria perguntar (e eu até tinha uma certa noção) foi brutalmente interrompida pelas portas do Grande Salão se abrindo com um estrondo. De lá, saiu o professor Quirrell, correndo como se a própria morte estivesse atrás dele, o turbante todo torto na cabeça e tão pálido como os fantasmas que também o olhavam, o terror absoluto atravessando seu rosto. Todo o salão observou enquanto ele cambaleava até a mesa dos professores, indo direto até Dumbledore e soltando as palavras quase sem ar antes de desabar no chão:
— Trasgo... nas masmorras... achei que devia lhe dizer.
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