Corona
14 Bem Maior
Notas iniciais
A reação natural de quando se avisa, no meio de um salão cheio de crianças, que um trasgo está solto nas dependências da escola, é pânico total, então fiquem felizes por Hogwarts ter atendido as exigências pelo menos uma vez. A gritaria foi tanta que teria acordado os mortos, a confusão se instalando enquanto todos iam se levantando e se atrapalhando, com pressa de se salvarem, mas sem qualquer ideia do que fazer para isso.
Observei Malfoy, muito pálido e de olhos arregalados, mas ainda sentado na mesa. Hopkins, tive pena, parecia que iria desmaiar, enquanto Pansy estava tão dura quanto uma estátua e Daphy tinha os lábios tremendo, as pupilas dilatadas. Blásio, o coitado, havia se levantado em um pulo como tantos outros, mas não era do feitio de Alvo Dumbledore deixar o caos se instalar assim. Pegou a varinha e apontou para cima, fazendo várias pequenas explosões saírem de sua ponta – ao menos cinco foram necessárias para fazer com que o salão mergulhasse em um silencio apavorado.
— Monitores — a voz do diretor de Hogwarts, pela primeira vez, não estava nada suave ou gentil. Era grave e sonora, retumbando no salão e fazendo com que uma sensação de calma cirúrgica se instalasse em mim. Alvo Dumbledore era o maior bruxo do século e era nosso diretor. Ele estava ali e não deixaria nada acontecer, ao menos nenhum desastre total. Quase tive pena do trasgo quando o encontrasse. — Levem os alunos de suas casas de volta aos dormitórios imediatamente!
Hermione.
O nome voltou ao centro de minha atenção como se uma catapulta houvesse o lançado. Enquanto Farley e Rivers nos agrupavam, catando principalmente os alunos do primeiro ano e dizendo coisas como "fiquem juntos" e "podemos deixar só esse para trás?" (Anthony quase foi azarado por sua colega por isso). Olhei em volta, meu coração batendo com força e meus dentes se trincando. Pansy e Blásio estavam me segurando, me arrastando com eles pelo mar confuso de alunos em direção a maldita segurança da sala comunal enquanto Granger estava por aí com um trasgo a solta.
Potter! Ele poderia fazer alguma coisa. A sala comunal dele era mais longe que a minha e ele poderia escapar, poderia ir atrás de Mione. Mas ele estava do outro lado do salão, ao do desgraçado do Weasley e os outros alunos primeiranistas da Grifinória. Engoli em seco, acalmando meus próprios pensamento e me concentrando nele. Não estava tão longe, eu iria conseguir, já havia feito antes... eu precisava conseguir.
Harry! Fiz um esforço olímpico para me distanciar de seus pensamentos pessoais, de suas lembranças, de sua vida. Já era bastante ruim interferir dessa forma e ignorei o soco imaginário que levei ao ver como o garoto pulou, assustado e confuso, os olhos verdes me encontrando. Harry, desculpe por isso, de verdade... mas é a Hermione! Ela não sabe do trasgo, Potter! Ajude-a!
Tive tempo de observar Potter estancar no meio do caminho em pleno saguão de entrada. Sua mente, apostava, estava uma bagunça, mas sustentei seu olhar sem a invadir de novo. Esperava que ele entendesse que, sim, eu havia falado dentro dele, mas esse não era o assunto mais importante da noite. Para meu alivio, seus olhos passaram de nublados para brilhantes, determinados até, enquanto assentia para mim com a cabeça e agarrava o braço de Ronald, lhe dizendo alguma coisa.
Só depois dessa visão me permiti ser arrastada para longe do saguão e em direção às masmorras. Tentei ao máximo me concentrar no perigo do trasgo, tirando meu foco das mãos firmes em meus braços, mesmo que a sensação dos dedos fechados na minha carne fosse o bastante para fazer com que meus dentes trincassem e meus ombros tencionassem. Gemma e Rivers estavam claramente nervosos por irem para onde o trasgo havia sido visto pela ultima vez, mas conseguiram nos enfiar na sala comunal sem qualquer problema. Não fui muito delicada ao arrancar meus braços do aperto de Zabini e Pansy, mas eles tiveram bom senso o suficiente para não comentar.
— Um trasgo?! — Não me surpreendi ao ser a voz dele a primeira a aparecer. Malfoy estava amontoado com Crabbe e Goyle, tão perto deles como jamais vi. Talvez achasse que, se o trasgo conseguisse arrombar a passagem, confundisse os dois como primos distantes e lhe desse tempo de fugir. — Como um maldito trasgo entrou na escola?!
— Alguém o deixou entrar — Theodoro falou o obvio. — Aquele Pirraça, talvez?
— Pirraça faz da nossa vida um purgatório, mas nunca chegaria a esse ponto. Ele é irritante e inconveniente a todo extremo, e só — Rivers desdenhou a ideia, o que não achei que estivesse errado. O poltergeist era a definição perfeita de pé no saco, mas não era louco a esse ponto. Acho que tinha consciência de que, se algum dia arriscasse a segurança dos alunos, Dumbledore iria dar um jeito de o arrancar de Hogwarts, mesmo que fosse tecnicamente impossível.
— Então quem...? — Bulstrode começou a perguntar, mas Gemma – muito mais esperta do que seu companheiro monitor – não tinha intenção nenhuma de alimentar nossas fantasias.
— Não interessa o como — a monitora cortou. — O que interessa é que já aconteceu e o diretor está tomando as devidas providencias junto com os outros professores. Vamos apenas aguardar em segurança e ficar calmos.
Alguém devia avisar para ela de que era impossível conter as fofocas e indagações de crianças e adolescentes quando algo como isso acontece. Afinal, mesmo no mundo da magia não era sempre que um trasgo invadia uma escola (teoricamente o lugar mais seguro do mundo) e interrompia o banquete do dia das bruxas. Não deixei de prestar meus compadecimentos a sua tentativa heroica e absolutamente fracassada, mesmo assim.
Pela próxima meia hora todo o lugar era um monte de pequenos grupos de fofocas. Eu mesma estava em um composto de minhas colegas de dormitório. A situação era tão singular que em certo momento, através do embaixador Zabini, Malfoy se juntou a nós, acompanhado de Nott e seus supostos guarda-costas. Mesmo irritada com tanta comoção, me mantive sentada com eles, imaginando quando poderia me concentrar o bastante para falar com Lagrum. Ele poderia saber de alguma coisa, não poderia? E se o trasgo houvesse passado pela floresta e cruzado com ele... não, ele estava bem. Eu saberia se fosse o contrário. E Hermione estava bem, tinha de estar. Potter iria conseguir avisá-la e tudo mais, nada iria acontecer.
— Eu acho que deveríamos dar um nome para ele — Bulstrode comentou em um tom debochado, a frase curiosa o suficiente para me fazer voltar a atenção para a conversa. Ignorei certo par de olhos prateados muito focados em mim e arqueei uma sobrancelha para ela.
— Está bêbada, Emily? — Pansy cruzou os braços. — Quer dar nome à aquela coisa por qual motivo desse mundo?
— Eu acho que ela está certa — defendi com um sorriso pequeno, brincando distraidamente com a ponta do meu cabelo. — Ele interrompeu nossas festas, merece um nome. Além do mais, fez um belo feito ao entrar em Hogwarts. Eu diria que merece reconhecimento.
— E você teria alguma sugestão, Lewis? — Era sempre um prazer cruel quando Draco Malfoy chamava minha atenção para si mesmo. Era algo sobre como o ambiente mudava de tom e temperatura, como os rostos a nossa volta sombreavam e as sobrancelhas se arqueavam. Todas essas crianças ricas que já haviam aprendido que éramos uma garantida fonte de emoção me fazia querer rir. De qual emoção, exatamente, já não poderia dizer. Rolei meus olhos devagar para ele, virando o corpo um pouco em sua direção com um sorriso cruel.
— Eu tenho, Draquinho, é meu trabalho nunca decepcionar, mas para isso preciso de votação popular. Prestem atenção também, Crabbe e Goyle. O que acham de chama-lo de CG?
A risada explodiu de cada boca do nosso pequeno grupo. Ficou tão alto e tão intenso que outros grupos perguntaram a graça, e então começaram a rir também. O ápice foi quando Crabbe e Goyle começaram a rir também depois de um tempo com testas vincadas e bocas abertas, sem entender qual o motivo de tudo aquilo e burros o suficiente para rirem apenas por acompanhamento.
— Eles não são realmente muito inteligentes, não é? — Murmurei para Malfoy parado ali, bem ao meu lado. Sentado tão relaxado quanto possível, cansado de manter uma postura armada fora da aula de poções. Draco virou a cabeça para mim e reparei em como era bonito, de verdade, sem aquela nojenta expressão que lhe torcia toda a cara. Ficava melhor assim, sem o nariz empinado e os lábios abertos em um sorriso frouxo de criança.
— Não, não são. Mas não se pode dizer que o melhor deles seja o intelecto, sabe? Há outros fatores de maior importância.
— Não concordo — devolvi sentindo meus próprios lábios imitando os dele. — Até mesmo para se mirar um soco é necessário certo grau de raciocínio rápido e tudo mais. Mas imagino que seja aí onde você entra, me diz, você mira e eles batem?
— Você me ofende — a torção da sua boca segurou mais uma onda de risos, mas seus olhos não tiveram tanta sorte. Eram pratas, como já havia visto. Nem azuis e nem cinzas, mas algo entre os dois. Eram, também, gelados demais para uma criança na maior parte do tempo, então observei com atenção como estavam agora. Pareciam até brilhantes. — Eu os deixo para mirar sozinhos e vou embora. Não acha que sujaria minhas mãos, ou acha?
— Eu não chegaria a tanto, pequeno lorde — debochei em uma mesura de cabeça. Fui capaz de ver a batalha perdida e seu sorriso se alargando, os olhos brilhando de alguém que iria dar tudo de si para me fazer engolir meu deboche, e eu gostaria que tentasse. Mas, apenas para vocês, eu sou capaz de admitir: cheguei a ficar frustrada quando Snape entrou na sala comunal.
Senti o ataque gratuito a minha mente antes que ele terminasse de aparecer e soube que estava com problemas outra vez. Eu quase não consegui manter meu muro inteiro e os olhos perversos do professor estavam mais escuros que o normal, um sorrisinho de quem poderia muito bem anunciar que iria nos dar de comer para o tal trasgo. Arqueei uma sobrancelha para ele ao ver a forma como uma perna estava mais dura que a outra e eu não teria percebido se não tivesse passado anos com pessoas feridas que tinham que fingir que não estava doendo tanto.
— A ameaça do trasgo foi neutralizada — sua voz, tão controlada e seca quanto sempre foi, não tinha um pingo de dor ou qualquer outra emoção. Mas eu sentia até mesmo o cheiro de sangue fresco nas suas vestes, dei algumas batidas fracas em sua mente de pura curiosidade. Como o sem educação que era, não me deixou entrar. — Apesar disso, são ordens do diretor que todas as casas terminem suas comemorações em suas respectivas salas comunais. Amanhã as aulas prosseguirão normalmente então sugiro que não se estendam. Srta. Lewis, venha comigo.
O misto de comemorações e resmungos foi quase imediatamente interrompido com a ultima frase. Fechei a cara para o professor, mas não ousei perguntar o que havia feito. Sabia muito bem. Ignorei os olhares e rostos ansiosos de Sue e Greengrass e nem mesmo olhei duas vezes para Draco, que não estava com qualquer sinal de vitória ou satisfação no rosto, e me levantei. Assim que saímos e a parede voltou a se fechar, segurei na barra de suas vestes e puxei. O rasgo era enorme apesar de estar habilmente escondido e ignorei o nome feio que saiu do professor, soltando a roupa antes que ele me arrancasse. Já havia visto, de qualquer jeito, a pele dilacerada por baixo.
— No mundo trouxa, precisaria de pontos — avisei, ignorando seus olhos focados em meu pescoço como se pudesse o quebrar apenas com a força da mente. Podia? — É melhor ir cuidar disso depressa, com magia ou não. É Dumbledore que está chamando, não é? Pode ir, eu acho o caminho.
As narinas de Snape se dilataram e ele precisou respirar fundo mais de cinco vezes antes que voltasse a falar, a voz quase tremendo de indignação e ódio. Agradeci a Salazar que suas mãos (que cerrava com tanta força que havia parado a circulação de sangue) permaneceram quietas ao lado de seu corpo e longe de mim, ou sua perna seria o menor dos problemas.
— Eu não preciso de nenhum diagnostico de uma menininha intrometida e arrogante— chiou. — Vou te levar para a sala do diretor e fim da história.
— Não é arrogância quando se sabe bem do que está falando, Severo — rebati para ele. Que cena era aquela, hem? O homem de negro ferido e dolorido e a criança que sabia demais. Eu mesma puxei o ar devagar para mim, colocando as mãos atrás das costas, sentindo todas minhas cicatrizes cutucarem e puxarem em uma dor fantasma. Olhei nos olhos dele e deixei que visse apenas o suficiente para saber que era melhor ele não falar besteiras comigo. Não sobre aquilo. — Mas é sim, um caso de imodéstia aguda quando não se aceita sequer as preocupações vazias de uma aluna.
Eu não me preocupava com Severo Snape. Seus olhos, seus malditos olhos, eram muito parecidos com Greta para isso. Mas a alma da garota que ficou na frente da criancinha machucada por derrubar a Santa Maria não ficaria calada diante da mutilação de outra pessoa, mesmo dele. Pois havia a pequena parte que havia vislumbrado em nossos meses de detenção, a parte com um sorriso torto e chicote na boca, quando seus olhos não eram tuneis cruéis e apenas escuros demais, com sombras demais, escondendo coisas demais.
Ninguém com uma proteção tão forte era livre de esqueletos no armário.
Snape não me respondeu, mas se deixou mandar de um jeito honesto na minha presença, reconhecendo sua dor. Não falei nada e o deixei aos pés da gárgula do diretor, olhando por cima do ombro antes de começar a subir.
— Procure fechar isso rápido. A teimosia deixa cicatrizes.
Mais uma vez, nenhuma resposta. Observei seus lábios apertados e os olhos sombrios, mas não perversos à essa altura, e apenas virei o rosto. Que tirasse as conclusões que quisesse. Galguei os degraus da escada sem nenhuma pressa ou lentidão especifica, mas ainda me pareceu rápido demais quando bati na porta do escritório de Dumbledore.
— Boa noite, Mal — a voz do diretor estava calma outra vez, disfarçando sua gravidade e força com muita suavidade. — Desculpe-me por adiar suas festividades, logo voltará para elas.
— Dumbledore, você está me deixando sem opções, o que é preciso para ser expulsa desse lugar? — Sorri para ele, pois era quase impossível não sorrir. Eram seus olhos, azuis claríssimos. Muito brilhantes, muito espertos, muito calmos. O velho tio Dumby... apenas a aparência havia envelhecido e eu podia citar ao menos três ocasiões onde demonstrou isso. Mas agora, lá estava, apenas um homem barbudo e de cabelos brancos, soltando um risinho baixo.
— Gosto de pensar que, como diretor, tenho poder de malear as regras quando for necessário — ainda tinha um sorriso nos lábios mesmo quando sua testa se vincou com um pouco mais de seriedade. — Acho que entende isso, Malorie, a necessidade que as vezes se faz presente... de abusar de seus poderes em nome de um bem maior.
Apertei os lábios enquanto devolvia seu olhar. Sabia que o velho não estava se forçando para dentro da minha mente, mesmo assim era como se pudesse. Se existisse alguma magia que impelia os outros a dizer a verdade, talvez Dumbledore a usasse. Eu havia lido sobre uma poção desse tipo, a mais poderosa que existe, mas era uma hipótese absurda – não havia me dado nada ingerir desde que entrei. Mas existia algum mal em falar, no final das contas?
— Acho que essa é a hora em que me pede para ser mais clara e verdadeira com você, diretor — murmurei. — Não fui, admito. Deixei que tirasse as próprias conclusões. Se arrepende?
— Pode não ter me contado sobre o verdadeiro alcance das suas habilidades, srta. Lewis, mas Severo já havia me alertado sobre elas. Oh, sim, o professor Snape me entregava relatórios precisos sobre suas aulas e sempre me descreveu como sua habilidade era latente e ansiosa. Com todas essas observações, seria tolice minha acreditar que você algum dia não tentaria algo desse alcance, se é que já não tinha tentado. E eu, Malorie, não sou tolo.
— Nunca disse que era — sorri um pouco. — Nunca fiz grande coisa, eu acho. Foi a primeira vez com tanta gente, com certeza. Entrar na mente assim, a fundo... geralmente me mantenho na superfície no meio da multidão. Mandei Potter ir atrás de Granger... ela está bem?
— A srta. Granger foi habilmente encontrada em um banheiro feminino pelo sr. Potter e pelo sr. Weasley. Apesar de ela ter contado algo sobre ter ido enfrentar o trasgo sozinha e ter sido resgatada, creio que seja apenas meia verdade — velho esperto. A mentira improvisada de Hermione não havia convencido ninguém, muito menos o diretor. O fato de todos terem preferido acreditar nela era apenas um alivio a mais. — O sr. Potter já tinha conhecimento de suas habilidades?
— Se tinha, eram fantasiosas demais — dei de ombros, muito mais relaxada desde que entrei. — Não existe essa coisa de ler mentes no mundo dos trouxas, e eu e ele viemos de lá. Se desconfiou de algo, descartou, como qualquer um aprende a fazer. Ficou muito surpreso de ter minha voz na cabeça dele e, acredite, eu não queria estar lá. Mas Mione...
— Você estava preocupada com sua amiga — Dumbledore completou, a voz muito calma e os olhos muito brilhantes. — E, por estar preocupada, tomou uma decisão. Usou suas habilidades para encontrá-la, mesmo que isso significasse invadir e revirar a mente de seus colegas inocentes, tomando controle e posse de algo que não lhe pertence. Algo errado, sem sombra de dúvidas. Mas errado em que situação? Como eu disse, Mal, acredito que as vezes seja necessário que regras sejam dobradas em nome de algo maior do que elas, em ocasiões tremendamente excepcionais e apenas nelas.
— O fim justifica os meios, quer dizer?
— Nem sempre, nem sempre — suspirou e pensei ter visto seu rosto envelhecer uns bons trinta anos em um piscar de olhos, seu azul desfocando um pouco. — Teve sorte hoje, senhorita, pois sua atitude impensada resultou em atos heroicos e laços fortalecidos. Mas espero que entenda que, para todo meio inescrupuloso, se é necessário que se faça uma pergunta importantíssima, creio que saiba qual é.
Sabia. Cada cicatriz em mim sabia exatamente qual era a pergunta e qual devia ser a resposta. Elas queimavam e repuxavam, sempre presentes tanto na alma como na pele. Todas as vezes que fiz o acoite se enrolar nas pernas de Greta, que quebrei a vara em sua mão, que fiz com que seus ossos partissem, mesmo o menor deles... até não sobrar nenhum. Com uma sensação gelada, garras afiadas e frias arranhando minha coluna, empurrei a lembrança para o fundo de mim, a parte escura que os Lewis haviam visto, muito longe de Alvo Dumbledore e seus olhos azuis.
— Manterei isso em mente — respondi, minha voz muito suave e muito baixa, estranha até mesmo para mim. — Suponho que acabamos?
O diretor de Hogwarts era esperto o suficiente para não acreditar em mim. Seus olhos tinham clareza demais para se deixar enganar com qualquer boa aparência e eu não tinha a menor das dúvidas: ele sabia. Ou, se não sabia, tinha uma boa ideia, um palpite, talvez? Era velho e inteligente demais para não enxergar a sombra em cima de alguém, a maldade venenosa no fundo do coração. Ficou ali, olhando meu rosto, demorando nos meus olhos, me estudando como se eu fosse algo de valor inestimável, alguma descoberta que abalaria o mundo – de quem, não sei. Mas sorriu, no final, e Dumbledore era tudo menos falso. Sorriu de verdade, jogando para o lado qualquer parte podre que havia enxergado e se concentrando em outra, uma melhor.
— Suas aulas com o professor Snape continuam, mas acredito que já chega de detenção — piscou um olho para mim. — Fora isso, não irei lhe segurar mais, boa noite, Mal.
Severo não estava de guarda para me escoltar de volta ao dormitório quando cheguei ao fim da escadaria, ouvindo a grande gárgula de pedra deslizar por trás de mim e bloquear a entrada para o gabinete do diretor outra vez. A maioria teria seguido para a sala comunal: teria comida e bebida e festa, e tudo isso sem hora para acabar. Era o que Hermione teria feito, mas justo em nome dela tomei a decisão contrária.
Desci as escadas com calma, mas não tomei as últimas, as que levavam às masmorras. Passei direto por todo o conforto que me aguardava e ignorei, como usualmente fazia, as consequências que meus atos trariam a mim mesma, quem dirá aos outros. Não era de meu costume ponderar sobre os sentimentos alheios, sequer dos meus próprios, e foi assim que sai para o frio de uma noite avançada de outono.
Já havia ido e voltado da Floresta Proibida vezes demais, tanto de dia quanto de noite, o que me leva a crer que minha sorte de principiante finalmente havia acabado. Eu já conseguia visualizar a orla da floresta, sentir a agitação de Lagrum me esperando, tão preocupado comigo quanto estive com ele, quando Canino resolveu bancar o corajoso.
— Quem está ai?! — A voz alta de Hagrid me colocou uma careta no rosto enquanto normalizava minha respiração pelo susto do latido do cachorro. Que altura, caramba. — Mal?! É você?! O que está fazendo aqui fora?!
— Hagrid, sem gritar, ok?! — Resmunguei enquanto me virava para ele. O gigante andava rápido em minha direção, carregando uma grande lanterna e com Canino do seu lado, avançando para mim com rapidez, me lambendo o rosto antes que eu pudesse fazer algo sobre isso. — Oi, oi, garotão, também senti saudades.
— Mal, o que está fazendo aqui? — Rúbeo repetiu a pergunta, a voz tão séria quanto poderia ser. Suspirei. — Já passou da hora de estar na sala comunal. E não devia estar aqui fora mesmo se estivesse no horário, não depois...
— Porque não está comemorando? — Interrompi com uma sobrancelha arqueada, coçando uma orelha do grande cão que havia se sentado aos meus pés. — Sabe, tenho certeza que a maioria está.
— O professor Dumbledore me pediu para checar a propriedade, ver se está tudo em ordem. Ele quer saber como foi que o trasgo entrou, mas não parecia muito convencido de que iria achar alguma coisa... — se interrompeu, arregalando os olhos para mim. — Esqueça, ouviu? Eu não devia ter falado tanto. Agora vamos, vou te levar de volta para o castelo e então você vai para cama.
Não abri a boca. Obedientemente, andei com Hagrid e Canino de volta ao castelo e desci as escadas para as masmorras. Rúbeo era gentil o bastante para não ir atrás de Snape e me colocar em problemas, mas não tinha malícia o bastante para desconfiar de mim. Contei, sem pressa alguma, até duzentos e então refiz todo o caminho. Dessa vez, ao passar pela cabana do guarda caça, as luzes estavam apagadas e não ouve qualquer movimentação – ele devia estar longe, procurando qualquer anormalidade. Isso me ajudou a entrar na floresta, fundo e fundo, até ouvir antes de ver.
Mal! Que porcaria de escola é essa?! Não deveria ser segura?!
— Considerando que ninguém se feriu, ainda acho que a taxa de segurança seja efetiva — retruquei para ele, recebendo um sibilo irritado em resposta. Meu amigo havia vindo me encontrar, mas não parou de andar de volta para as profundezas da floresta, onde havia me levado da ultima vez. Não falou nada até estarmos de novo em sua árvore, quando ele se enroscou ao meu lado, ainda mal-humorado.
Era o mínimo que podiam fazer já que falham em avaliar seu próprio pessoal.
— Ouviu alguma coisa, Lagrum? — Minha coluna se endireitou, minha mente sendo puxada para dentro da dele, sendo uma surpresa o fato de ter demorado tanto. Desgostosa, cheguei a conclusão que meu treinamento com Severo talvez me fechasse até mesmo para nós, o que não era uma opção. Com irritação, tirei a trava que nos separava e ouvi. Lagrum era uma cobra, era cego, mas enxergava as coisas de outra forma. Ele não poderia dizer a cor de um cabelo ou da pele (a menos que as visse através de mim), mas poderia dar informações mais detalhadas que isso.
Era um homem, isso era claro pelo seu cheiro, já que os odores femininos e masculinos eram marcantes em qualquer espécie. Não poderia dizer se estava sozinho, é claro, Lagrum não estava vendo nada: nenhum cheiro, nenhum calor. Nada que não estivesse vindo do desconhecido, mas mesmo assim... a sensação fez meu amigo mostrar as presas, pronto para se tudo desse errado.
O homem, de voz grave muito clara, estava murmurando consigo mesmo. Não parava de falar, como um louco, que tudo iria dar certo, que era digno de confiança... o peso e o calor que se seguiu era do trasgo e foi quando Lagrum recuou para longe. Me vi de volta naquela árvore, no meio da floresta, com algo parecido com um bloco de gelo na boca do meu estômago.
Tive esperanças que você o reconhecesse.
— Não me lembro de ninguém — a resposta veio de forma automática, mas não lembrava mesmo? A voz era familiar e ao mesmo tempo completamente desconhecida, além de pateticamente fraca e desvairada ao ficar falando consigo mesmo. Puxei o ar entre os dentes enquanto enfiava as mãos na terra meio molhada. — Isso é ruim, Lagrum, é muito ruim. Alguém deixou esse trasgo entrar, mas por...?
Interrompi minha própria fala, sentindo meu amigo se enroscar a minha volta, me dando o conforto que precisava para finalizar. O pensamento era ruim demais, trazia lembranças demais. De quando o orfanato era um lugar hostil e perigoso, onde não podíamos confiar em nada e nem em ninguém. Hogwarts era o ultimo lugar que eu gostaria que seguisse esse exemplo, mas lá estava. O pacote secreto de Hagrid. Cérbero e seu alçapão. O ferimento de Snape. E o traidor que havia causado a distração necessária.
O pacotinho estava em Hogwarts e ficou a salvo durante dois meses. Sua localização protegida de quem havia o tentado roubar do Gringotes, seus ladrões de mãos atadas e às escuras, sem poder fazer qualquer movimento em busca do que tanto queriam, custe o que custar e colocando em risco seja quem for... até agora.
Fale com o autor